Uma questão de verticalidade

Não sei se o leitor já se apercebeu, mas a maneira como as pessoas vêem fotografias está a mudar. A fotografia móvel, além de transformar o que já era banal numa orgia nauseabunda de excesso e sobredosagem, está a ameaçar mudar a percepção comum quanto à orientação da fotografia. Tal como está a acontecer com o vídeo, em que se aceita a orientação vertical como uma espécie de maneira alternativa de gravar e ver vídeos (enquanto não se torna no novo padrão), as fotografias tendem a ser todas na vertical.

Eu não tenho nada contra a orientação vertical das fotografias. Tenho contra os vídeos verticais, sobretudo por estes tornarem a percepção da dinâmica da imagem demasiado confusa. É como se estivéssemos a ver a acção através de uma frincha estreita: não nos apercebemos facilmente do que se está realmente a passar (e a perspectiva de grande-angular dos telemóveis também não ajuda em nada). Nós não vemos na vertical, a menos que usemos antolhos: a nossa visão é horizontal e panorâmica, o que faz com que estes vídeos sejam extremamente desconfortáveis de ver. Pelo menos para mim.

Quanto à fotografia, porém, eu usei sempre a orientação vertical – embora menos frequentemente que a horizontal. Não contem comigo para rotular a orientação vertical como «retrato» e a horizontal como «paisagem»: eu uso a orientação que me parece adequada em função da composição e do enquadramento. Não há regras. Se quero descrever um motivo em altura (como na fotografia que ilustra o texto, na qual figura um rapaz que media seguramente mais de 2 metros e 10), ou se as linhas da composição resultam melhor se usar a orientação vertical, eu uso-a. Simplesmente, as pessoas que fotografam com os seus smartphones não usam a orientação vertical com estas intenções: usam-na porque sim, porque é assim que toda a gente faz e porque o telemóvel se usa na vertical. Podíamos pensar que era pelo conforto de segurar o telemóvel só com uma mão, o que tornaria este vício perdoável, mas não – estas pessoas seguram o telemóvel na vertical com as duas mãos quando fotografam.

O que escrevi quanto ao vídeo aplica-se à fotografia, embora com excepções. Como vemos na horizontal, a orientação vertical é desaconselhada, a menos que algo a justifique. Pode ser por se querer favorecer a dimensão da altura ou por outra razão qualquer, mas fotografar sistematicamente (ou exclusivamente) na vertical é um disparate, especialmente se a razão para fazê-lo é o facto de o telemóvel ser segurado e visualizado na orientação vertical. Isto é tão estúpido como tirar fotografias exclusivamente na horizontal por as câmaras fotográficas clássicas serem concebidas para fotografar mais frequentemente no plano horizontal.

Alguns poderão criticar-me por estar a postular um dogma fotográfico, mas não é nada disso que estou a fazer. Já disse que uso frequentemente a orientação vertical nas minhas fotografias e que não há regras; o que me preocupa é que a fotografia – e também o vídeo – esteja a assumir a orientação vertical como o novo padrão, especialmente pelo motivo frívolo da influência do telemóvel. Dantes ainda se via pessoas a segurar o telemóvel na horizontal para fotografar, mas agora não: toda a gente fotografa na vertical. Se o fizessem por razões compreensíveis, que remédio teria eu a não ser resignar-me, mas não: as pessoas fotografam assim porque sim, porque é assim que se segura num telemóvel. Não consigo conceber nada mais dogmático do que isto. Nem mais acéfalo.

M. V. M.

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Fora do tema: uma notícia triste

Hoje recebi uma notícia triste via email. O Conselho Regional do Porto da Ordem dos Advogados comunicou o falecimento do Dr. Alberto Luís, advogado da cidade do Porto.

É possível que alguns não estranhem este nome, já que o Dr. Alberto Luís era o marido de uma figura notória do Porto: a escritora Agustina Bessa-Luís. (Curiosamente, conheceram-se através de um anúncio de jornal.) Mas não foi este status marital agora interrompido que me entristeceu: eu tive oportunidade de conhecer pessoalmente o Dr. Alberto Luís. E, apesar das circunstâncias – às quais passarei de seguida –, foi uma experiência extremamente enriquecedora e agradável.

Em 1989 eu tinha acabado de me licenciar e inscrevi-me na Ordem dos Advogados como advogado estagiário. Nesta condição, tive de frequentar aulas providas pelo centro de estágio do então denominado Conselho Distrital do Porto da Ordem. Tanto quanto me lembro, tive aulas de Processo Civil (uma duplicação inútil e soporífica da cadeira da faculdade), Direito Comercial, Processo Penal e Deontologia Profissional, que era a única matéria com um pouco de pertinência para advogados estagiários. Ora, estas aulas de Deontologia eram ministradas pelo Dr. Alberto Luís.

As aulas foram extremamente enriquecedoras. Não necessariamente pelas matérias ministradas, mas sobretudo pelo brilho que o Dr. Alberto Luís lhes trazia. Os relatos da sua experiência pessoal eram de uma riqueza e interesse tal que me levaram a apreciar muito mais este aspecto do que os ensinamentos sobre deontologia: na verdade, bastava-me ler as normas do Estatuto da Ordem dos Advogados para conhecer esta matéria, pelo que aquilo que aproveitava dessas aulas era a narração dos episódios da vida profissional – especialmente por serem contados por um homem ilustrado e um orador brilhante.

Não que essas aulas agradassem a todos, note-se bem: surpreendi a alguns colegas comentários corrosivos acerca da pretensa senilidade do Dr. Alberto Luís. O que me deixou confuso, porquanto não apenas escutava com todo o interesse o que ele dizia, como me apercebia que os episódios e pequenas histórias narrados não eram tergiversações: tinham sempre cabimento e integravam-se num discurso lógico, estruturado e coerente. Nem todos têm paciência para este estilo docente: alguns prefeririam algo mais objectivo e directo – mas que melhor do que a experiência profissional de um advogado que era a encarnação dos valores deontológicos para aprender a ética da profissão?

O curso de advogado estagiário obrigava à prestação de uma prova escrita – neste caso uma dissertação escrita sobre um tema à escolha (eu escrevi um texto mediocríssimo sobre a prisão preventiva) – e provas orais: curiosamente, apenas me lembro de duas destas últimas: a de Processo Penal – um conjunto de perguntas aleatórias sobre assuntos aleatórios formuladas pelo Dr. Gil Moreira dos Santos (penso que não fiz grande figura) – e a de Deontologia, na qual me defrontei (por assim dizer) com o Dr. Alberto Luís. Houve uma certa titubeação nas minhas respostas: a doença que havia de vitimar o meu pai um ano mais tarde roubara-me concentração e tempo, pelo que não consegui preparar-me convenientemente. Simplesmente, eu posso permitir-me a imodéstia de dizer que sou um bom conversador. Isto possibilitou-me suprir as minhas deficiências no conhecimento da matéria, mas era visível que estava a ser esquivo. Quando o Dr. Alberto Luís insistiu que eu respondesse a uma pergunta concreta sobre a deontologia profissional, respondi qualquer coisa como que nenhuma regra deontológica era mais importante que a minha consciência.

Não sei se o Dr. Alberto Luís apreciou a minha resposta ou se apenas confirmou a sua convicção de que eu estava particularmente mal preparado (o que era pouco importante, porque a prova não era eliminatória), mas sorriu à minha resposta e, logo depois, olhou para um papel que tinha à sua frente e disse-me que eu tinha um argumento muito forte a meu favor: era licenciado por Coimbra. Pois era (sou). Nós, os alumni conimbricensii, conhecemo-nos uns aos outros. Sobretudo, sabemos que Coimbra nos forja de uma maneira muito especial.

Tive o prazer e a honra de conhecer um dos homens mais notáveis da cidade do Porto. Aquilo não foi uma prova oral: foi uma conversa. Uma das mais interessantes e memoráveis da minha vida. Tanto que me lembro bem dela, mesmo que tenham passado vinte e oito anos. Algumas pessoas deixam marcas destas nas outras. Penso que é a isto que chamam eternidade.

M. V. M.

A novidade da semana

Ainda não sei muito bem o que pensar da grande notícia fotográfica da semana. Esta minha hesitação deixou-me paralisado, sem conseguir mover um músculo, com a mente bloqueada – o que explica a ausência de textos no Número f/ – e sem reacção a estímulos externos.

E que notícia foi esta que me conseguiu deixar em estado catatónico? Uma empresa – acho que é a isto que se chama startup – lançou uma campanha de angariação de fundos na Internet (um kickstarter, isto eu sei de certeza) para produzir nem mais nem menos que uma máquina fotográfica analógica. Uma SLR, com visor óptico e pentaprisma e tudo. Se tiverem sucesso – eu desconfio sempre um bocado destas campanhas –, será o primeiro lançamento de uma máquina SLR de formato 135 em vinte e cinco anos. Pelo menos é o que dizem, porque tenho a impressão que houve lançamentos de máquinas SLR deste formato depois de 1992. Seja como for, é sempre de ficar atento a uma notícia destas. Não é todos os dias que são anunciadas máquinas analógicas.

Uma característica irritante desta máquina anunciada é o nome: chama-se Reflex. Assim mesmo, tal como está gravado na parte frontal do alojamento do pentaprisma: REFLEX. Ninguém pode acusar os mentores deste projecto de terem uma imaginação delirante – pelo menos para nomes, porque no que toca à câmara propriamente dita a história é bem diferente. Bem vêem, esta câmara torna real o sonho de muitos amantes de objectivas «analógicas», que é o de usar objectivas de sistemas diferentes num só corpo: em lugar de recorrer a adaptadores, que podem deteriorar as propriedades ópticas das objectivas, a Reflex permite a montagem de diversas baionetas. Há um painel amovível chamado I-Plate – mais uma demonstração de falta de imaginação para nomes – que é montado no corpo da máquina e tem embutida uma de diversas baionetas – M42, Nikon F, Olympus OM, Canon FD e Pentax PK. Uma solução engenhosa que toda a gente já imaginara mas nunca ninguém se atreveu a fazer. Só por isto as pessoas por detrás do projecto Reflex já merecem algum crédito.

As novidades não ficam pelas baionetas intermutáveis. O painel traseiro (criativamente chamado I-Back) é também modular. Em lugar de uma tampa amovível que se abre para instalar o rolo, como em todas as outras máquinas de película, toda a parte traseira da máquina é desmontável. O rolo não é montado no corpo, mas num módulo que encaixa na parte traseira da câmara. O que tem a vantagem de se poder mudar de rolo à luz do dia, desde que este esteja previamente instalado num módulo adicional. É verdade que a Ricoh GXR é ainda mais prática, porque o mesmo módulo aloja a baioneta e um sensor, mas a Ricoh GXR é uma câmara digital (e, por sinal, bastante feia e muito limitada: não tem visor de qualquer espécie).

A Reflex é uma câmara interessante. Não se pode dizer que é bonita como uma Nikon FM3A ou uma Olympus OM-1: as suas linhas invocam as Praktica e as Kiev dos anos 60 do século passado. Mas é uma máquina com toques agradáveis, como uma saliência discreta no painel frontal para tornar o manuseamento mais cómodo e seguro e o botão do obturador instalado no painel frontal. Há também um pormenor que é supérfluo para a maioria dos entusiastas da fotografia analógica, mas não deixa de ser curioso: esta máquina tem incorporados um flash e um dispositivo de iluminação por LED. Provavelmente, atento o seu tamanho, são demasiado fracos para iluminar objectos a mais de meio metro de distância, mas há-de haver quem lhes encontre alguma utilidade. Mais importante, porém, é que os tempos de exposição vão até 1/4000 com um obturador de cortinas de comando electrónico que possibilita o uso da máquina no modo de prioridade à abertura.

O objectivo – a esta hora já ultrapassado – é angariar £100,000, mas se o financiamento atingir £150,000, poderá ser lançada uma app que fará com que a máquina comunique (via Bluetooth) com outros dispositivos e grave no smartphone os metadados da fotografia. Aqui está uma app que me poderia fazer usar o telemóvel durante as minhas sessões fotográficas.

Este é um projecto cheio de boas ideias. A baioneta modular é para muitos um sonho tornado realidade – ou será, se o projecto tiver viabilidade. Muitos coleccionadores de objectivas poderão fazer as suas sessões fotográficas com objectivas de baionetas diferentes recorrendo a um só corpo. E as coisas nem sequer sairão muito caras: o kit completo custará £600, o que é muito menos que uma câmara digital full frame. Apesar da minha desconfiança em relação a estes kickstarters, este tem, no mínimo, o mérito de basear-se numa ideia brilhante.

M. V. M.

O pior fotógrafo do mundo

A Mariana é a mais recente adição ao número de entusiastas que se congregam à volta do R. S. D., o paladino da fotografia analógica. Uma rapariga tão alta que um meia-dose como eu (1,70m faz de mim um baixote nos dias que correm) fica com vertigens só de olhar para ela, e com um entusiasmo encorajador pela fotografia analógica de médio formato.

Ontem, quando fui buscar mais uns negativos, a Mariana mostrou a todos, triunfantemente, o resultado de uma demorada pesquisa que empreendera na Internet. O objectivo? Encontrar um determinado fotógrafo que lhe havia sido mencionado. E encontrou: é um tipo de Tomar chamado Bizarro – um apelido muito adequado, diga-se –, cujas fotografias são demasiado más até para se tornar num Ed Wood da fotografia. Os modelos que usa, em particular, podiam fazer pensar que este Bizarro tenta mostrar o lado grotesco, o grande freak show da humanidade, como Diane Arbus, mas não é nada disso: ele está convencido que faz fotografias muito sensuais e artísticas e parece ter um fetiche por pessoas feias. Três raparigas em trajes diminutivos, todas elas com corpos e faces errados, segurando um jornal regional no qual se lê, na primeira página, um título sobre a morte de um idoso é (penso eu) tudo menos sexy. A fotografia de uma rapariga em lingerie montada no alto de um escadote de alumínio manchado de tinta podia ser interpretada como uma alusão sarcástica aos piropos dos trolhas e uma denúncia do assédio sexual, mas tenho razões para acreditar que não era bem isto que estava na mente do fotógrafo.

As fotografias deste indivíduo podem ser risíveis numa primeira apreciação, mas quando se pensa um pouco as coisas assumem uma dimensão algo deprimente. O sujeito farta-se de ser ridicularizado na Internet – o Google mostra uma página referente a ele em primeiro lugar quando se pesquisa «o pior fotógrafo do mundo» –, mas parece extremamente orgulhoso deste status adquirido. Talvez haja quem se honre de ser fotografado pelo pior fotógrafo do mundo – o que implica ser fotografado em cenários grotescos, com uma iluminação péssima, em poses ridículas e com expressões faciais absurdas –, e o homem tenha procura por ser tão mau; ou talvez ele pense que ser o pior fotógrafo do mundo é uma distinção, não sei. O que eu sei é que ele não tem o menor pudor em ostentar este atributo; pelo contrário, parece empenhado em fotografar cada vez pior. As suas fotografias atingem um zénite de ridículo e mau gosto a cada nova publicação no facebook, mas o homem tem o requinte de descaro de publicar photobooks.

Ver estas fotografias teve um efeito péssimo sobre mim. Apesar de me ter rido das fotografias que a Mariana mostrou, mais tarde dei por mim a pensar em assuntos como a percepção pública da pessoa que faz as fotografias. Tive sempre por verdadeiro que as fotografias reflectem a personalidade de quem as executa e, no caso deste Bizarro, não sei o que é mais relevante: será o patético (em sentido verdadeiro, o que provoca um pathos) que estas fotografias mostram, ou a boçalidade de quem sabe ser mau e não faz nada para se corrigir? Saber-se que se é mau e não querer melhorar, estar numa actividade e sentir orgulho em ser o pior, é triste – ou ridículo. Não consigo decidir. Em todo o caso, é sempre lamentável ver pessoas com uma falta tão notória de percepção de si mesmas. (Não quero sequer pensar que o homem faz questão de ser um boçal e se orgulha disso.)

Eu tenho uma característica que nunca soube interpretar muito bem: quando todos escarnecem do maluquinho, do bêbado e do boçal que frequentam o café lá da rua (uma rua qualquer: não me refiro a pessoas ou lugares em concreto), eu entristeço-me e compadeço-me deles. Nunca consigo deixar de pensar como se sentirão estas pessoas que se expõem – consciente ou inconscientemente – à irrisão pública e ponho-me a imaginar que demónios habitam aquelas mentes. Provavelmente são pessoas tão falhas de auto-avaliação que não se apercebem da figura que fazem, mas despertam-me compaixão à mesma. O caso deste Bizarro tem um relevo especial porque está na órbita da fotografia. E eu, antes (ou depois) de me rir, não consigo deixar de pensar como será que as pessoas vêem as minhas fotografias. Apesar de ter consciência de que não são tão más que provoquem escárnio universal – pelo menos tenho conhecimento das minhas limitações e a sensatez de não me aventurar por áreas que não domino –, vem-me à mente o aforismo popular quem tem telhados de vidro não atira pedras ao do vizinho.

Talvez eu não seja tão mau como o pior, mas ver estas fotografias e a reacção que provocam é uma chamada de atenção: é um aviso de que tenho de melhorar constantemente. E que não tenho o direito de ser soberbo e olhar para as fotografias dos outros de forma escarninha, mesmo que esses outros sejam os piores fotógrafos do mundo.

M. V. M.

Representação e expressão

Eu não sei quantos leitores fotografam e, entre os que o fazem, quantos usam redes sociais (Flickr, Instagram, 500px, etc.) para publicar as suas fotografias. Eu uso o Flickr: é uma forma de mostrar as fotografias e também de armazená-las (além da memória do computador e do disco externo). Uma coisa aprendi com o Flickr: a popularidade das fotografias não é a medida do seu valor.

Eu explico: houve várias ocasiões em que me apareceu um número desmesurado de notificações em relação a certas fotografias. Estas últimas, cerca de dez ao todo, foram publicadas numa página chamada «Explore». Há um grupo de sujeitos que utiliza as fotografias de outras pessoas  e as publica na referida página sem que estas últimas possam suscitar qualquer oposição. Os autores das fotografias ficam felizes da vida porque recebem milhares – muitos milhares – de visualizações e as suas fotografias são adicionadas às favoritas de um número incontável de visitantes do Flickr, mas nada disto me impressiona.

Na verdade, quando isto me acontece, fico indiferente. Por duas razões: a primeira é que não fotografo para ser imensamente popular. Fotografo para satisfazer uma ideia estética, ou outra coisa qualquer, mas já passei a fase do olha que bom que eu sou há muito. A segunda é que as fotografias que utilizam abusivamente ao publicá-las neste Explore são meramente banais. Não estão de maneira nenhuma entre as minhas mais satisfatórias. (A minha fotografia «mais satisfatória» é a que vou fazer amanhã, parafraseando a grande Imogen Cunningham.) São, invariavelmente, cenas «de rua», que é o que eu vou fazendo enquanto não encontro um objecto que verdadeiramente me interessa.

As fotografias em que pretendo exprimir alguma coisa diferente são, invariavelmente, as menos populares. Têm poucas visualizações e ninguém as inclui entre as suas favoritas, mas não levo isto a mal. É uma coisa que acontece por causa da forma como a maioria das pessoas vê fotografias: apenas a estética do motivo lhes interessa. Para a maioria das pessoas, a fotografia é representação. Aqueles que estão receptivos a interpretar uma fotografia e ver o que se quis exprimir com elas é extremamente reduzido. Lembro-me de,uma vez, ter mostrado algumas impressões a um amigo particularmente culto e este as ter olhado com uma indiferença que me entristeceu: estava à espera de ver fotografias de pessoas ou paisagens reconhecíveis. Não lhe interessou a estética, nem o estado de espírito que elas transmitiam.

Ainda há muita gente para quem a fotografia é a mera reprodução da imagem de coisas ou pessoas. Aliás, dizer «muita gente» é um eufemismo: os que se predispõem a ver o que a fotografia exprime são uma pequena minoria – e, a alguns, é preciso dizer-lhes o que a fotografia exprime. É triste? Certamente. Vai fazer-me abandonar as minhas tentativas de fazer fotografias expressivas? Não.

Tomemos o exemplo da fotografia do topo: estava num parque de estacionamento triste, vazio, escuro e medonho – uma metáfora da solidão, portanto – e dirigia-me para o meu carro quando vi um automóvel que foi sempre um dos meus favoritos na sua espécie: um Alfa Romeo GT Coupé, com as suas ópticas traseiras minimalistas. Pensei que o contraste entre a linha e a cor da óptica do Alfa GT com o vazio e a escuridão dava uma imagem expressiva e interessante, mas pelos vistos enganei-me redondamente: a fotografia é inacreditavelmente impopular. É evidente que muitos viram nela apenas um farolim de um carro, mas não foi isso que eu vi. Ou, pelo menos, não foi apenas isso. O que eu vi, quando me apercebi da presença do Alfa GT naquele lugar, foi uma série de contrastes dos quais me apercebi instantaneamente: os contrastes entre a beleza da linha do automóvel e a fealdade prosaica do parque de estacionamento, entre o design curvilíneo de génio e a construção funcional e rectangular do lugar que alojava o automóvel e, sobretudo, entre os prazeres terrenos que um Alfa Romeo simboliza e a solidão escura, sinistra e vazia do lugar. E também a realidade de que aquele automóvel vistoso não era mais que um mero objecto inanimado, reduzido a um vulto indistinto pela escuridão. Sob este ponto de vista, esta fotografia parece-me uma das minhas mais conseguidas – porque consegui exprimir qualquer coisa. É uma pena se outros não a compreendem, mas que posso fazer se a predisposição para compreender não existe?

M. V. M.

As minhas inquietações

Lembram-se de, no último texto, ter escrito: «tenho a certeza de que vou ficar desiludido quando receber as digitalizações», referindo-me ao meu último rolo – o tal que demorei dois meses a expor? Pois bem: não fiquei desiludido. Também não fiquei encantado: cerca de metade das fotografias são desinteressantes, mal feitas ou falhadas por qualquer outra razão. A outra metade não é nada por que sinta um orgulho desmedido, mas algumas das fotografias são passos na direcção certa. A direcção certa é a de usar nelas uma linguagem que seja só minha. Ainda não cheguei lá, mas pelo menos sei por onde ir.

Por vezes pergunto-me por que sou assim. Às vezes tenho o sentimento de que esta minha busca da originalidade é quase obsessiva. Vejo outras pessoas a fotografar, todas contentes, sem preocupações de qualquer espécie (embora por vezes ainda me apeteça ver um piano Bösendorfer de concerto a cair de grande altura sobre pessoas que fazem selfies ou fotografam com tablets) e sinto-me alheado, desirmanado, desenraizado. Tenho oportunidades de fotografar em grupo ou com outra pessoa, mas rejeito-as com a veemência de um sociopata. Nunca pertenceria a um clube de fotografia nem participaria em competições. A fotografia é uma caça – e, no meu caso, uma caça solitária: as presas não são para partilhar e a presença de vários caçadores espanta a caça.

Talvez leve as coisas demasiado a sério, especialmente tendo em conta que não sou nenhum Paulo Nozolino; mas sinto que, se não aspirar a fazer boas fotografias, nunca mais vou sequer conseguir fazer alguma que, pelo menos, seja razoável. Também não sou nenhum guardião da arte, mas assumo que devo dar um contributo, mesmo que seja um grão de areia numa praia, para que a fotografia não seja completamente abastardada.

Sim, porque eu sou daqueles esquisitinhos que se escandalizam por haver demasiada gente a tirar fotografias. Não me refiro aos turistas e às selfies, mas aos pseudo-artistas, àqueles que não fazem mais que copiar e imitar o que outros fizeram. Os turistas e os narcisistas de pouco me importam, porque o que fazem é natural. O facto de todos os smartphones terem câmaras incorporadas é um convite a fotografar e, mesmo que as fotografias não tenham qualidade nem exprimam nada de especial, as pessoas divertem-se com o que têm à mão. Não há nada de mal nisto; o meu único motivo de irritação é a figura esplendorosamente estúpida que algumas pessoas fazem quando tiram selfies, mas é a figura, e não a selfie, que me enerva. E nunca por muito tempo.

Os pretensiosos, esses, são a pior espécie à superfície da terra. Eles tornam a atmosfera irrespirável com os pastiches que pretendem fazer passar por arte. Cometem o pecado mortal de ser banais: nunca vou compreender por que razão toda a gente quer fazer fotografias iguais a outras: fotografias nocturnas de rastos de estrelas, auroras boreais, paisagens de montanhas com perspectiva de ultra-grande-angular com um rochedo no plano frontal, etc. Não compreendo por que há gente que gasta milhares de euros e perde dias inteiros das suas vidas em expedições fotográficas (ao menos que aproveitem o passeio…) para fazer estas fotografias. Toda a gente as viu, toda a gente as faz. Para quê, então? Fotografar é como falar: para quê falar se não se tem nada a dizer? O turista fala das suas viagens, o narcisista mostra que o é com as selfies; são honestos. Mas os pretensiosos lembram-me os alunos marrões cuja aquisição de conhecimentos depende exclusivamente da capacidade de memorizar. Não são versáteis, não criam, só papagueiam o que leram (neste caso, o que viram).

Pronto, já desabafei. Agora estou a pensar se o meu regresso ao preto-e-branco não foi precipitado. Fiquei contente com algumas das fotografias que fiz com este meu último rolo (que era, evidentemente, a cores) e devia ter insistido. Até porque o preto-e-branco é o novo HDR dos pseudo-artistas.

M. V. M.

De volta

Chega de silêncio. Durante cinco meses dediquei-me a um estudo exaustivo do ramo do direito que pretendo dominar – «dominar» como quem «domina» uma língua estrangeira, porque é impossível saber tudo sobre um sector do direito – e isto teve repercussões nefastas sobre a actividade bloguística do M. V. M. Tive menos tempo e disposição para escrever, mas sobretudo ganhei uma consciência renovada das minhas limitações na fotografia.

Eu explico. O estudo que empreendi foi sobre direito de autor. Este ramo do direito abrange obras literárias, artísticas e científicas e, entre as do meio, está – evidentemente – a obra fotográfica. Aprendi que, para que uma fotografia seja protegida pelo direito de autor – vamos esquecer o caso português, porque a legislação nacional na matéria é simplesmente grotesca –, tem de ser original. Por «original» entende-se ser criação intelectual do próprio autor. Embora o direito não possa ser explicação para tudo e a noção jurídica de «originalidade» seja mais limitada do que a que usamos de forma comum (como qualidade do que é único e inconfundível), o meu estudo levou-me a uma meditação introspectiva sobre as minhas fotografias. Concluí que, salvo dois ou três exemplos isolados, «original» não é certamente a palavra que primeiro vem à mente de quem vê as minhas fotografias.

Isto foi castrador. Dei por mim a trocar a fotografia por outras actividades por não me apetecer fazer fotografias que, quando não são iguais ao que outros fizeram antes de mim, são iguais ao que eu fiz antes. Demorei dois meses a expor um rolo à custa destas minhas meditações – e tenho a certeza de que vou ficar desiludido quando receber as digitalizações. Tive duas saídas com a máquina em que, simplesmente, não fiz uma única fotografia. Não valia a pena. Não seriam originais, não trariam nada de novo.

Não foi só as minhas fotografias que passei a ver com olhos mais críticos. Quando abria o Público – o único jornal que aposta no fotojornalismo – há apenas seis meses, extasiava-me com a qualidade das fotografias em geral. Hoje, quando as olho, faço muitas perguntas. São originais? Exprimem uma ideia? Há criatividade nelas? Uma ou outra respondem afirmativamente a todas estas questões – o que não é surpresa nenhuma quando um jornal emprega fotógrafos como Adriano Miranda –, mas não muitas mais.

Um dos meus problemas foi nunca ter conseguido desprender-me das minhas influências. Por vezes gostava de passar uma esponja sobre a memória que tenho de fotografias que vi, quer feitas por outros ou tiradas por mim. Estou constantemente a procurar referências na temática, na composição e na perspectiva. A minha única resistência é ao uso permanente da perspectiva de grande-angular, de que toda a gente abusa (e, quando toda a gente abusa de algo, que lugar há para a criatividade?). Gostava – e espero vir a consegui-lo – libertar-me de tudo isto e fazer fotografias verdadeiramente originais. Isto dá muito mais trabalho do que usar uma câmara no modo manual ou calcular as equivalências quando se usa um sensor inferior a 36x24mm.

Outra descoberta deste período sinistro foi que a minha mudança para a cor não era assim tão definitiva. Convenhamos que vivo numa cidade muito pouco cromática – o Porto não é exactamente Nova Deli ou Marraquexe –, o que torna difícil usar a linguagem da cor em pleno. As estéticas da cor e do preto-e-branco não são intermutáveis: uma fotografia que resulta muito bem a preto-e-branco pode ser um desastre a cores, e vice-versa. E eu sinto que a minha linguagem é a do preto-e-branco. Por causa disto, resolvi voltar às películas pancromáticas – nem que seja só para confirmar que estava certo quando resolvi dedicar-me à cor. O preto-e-branco é uma maneira fácil de dar à fotografia um cunho «artístico»: como há muita gente a ter a mesma ideia, fotografar a preto-e-branco deixou de ser muito original. Contudo, fotografar a cores ainda deixa menos espaço à originalidade: a cor torna as composições muito factuais.

Neste meu regresso ao preto-e-branco vou experimentar um rolo diferente, embora de uma marca que me é familiar: é o Ilford Pan 400, ao que parece uma película desenvolvida para alguns mercados (espero que não seja o Citroën C-Elysée das películas). Sejam quais forem os resultados, eu vou dar-vos conta deles aqui no Número f/ – mas, se fosse a vós, não esperava de pé pela apreciação daqui do autor.

M. V. M.