As mudanças no Flickr e eu

Estou no Flickr desde 2011. Desde então, este website de partilha de fotografias cum banco de imagens passou por algumas transformações. Quando comecei, aqueles que optassem por um plano gratuito podiam carregar um número máximo de duzentas fotografias ou vídeos e tinham acesso a estatísticas; como entendi que duzentas fotografias eram poucas, subscrevi a modalidade «Pro» por cerca de €25 anuais, que me permitia carregar um número ilimitado de fotografias.

Mais tarde foi introduzida uma nova modalidade gratuita que admitia o upload de 1 TB de fotografias (embora sem estatísticas). Decidi poupar dinheiro e abandonar a modalidade «Pro». Afinal de contas, as estatísticas não são assim tão importantes: o que pretendo do Flickr é que vejam e apreciem as minhas fotografias. Quantos o fazem não é tão importante, e de resto continuei a saber quantas pessoas viam cada uma das fotografias carregadas. No meu entender, ver gráficos com o número de visitas diárias às minhas páginas do Flickr não justificava o dispêndio (mesmo se €25 por ano está longe de ser redibitório).

Entretanto a Yahoo vendeu o Flickr ao grupo Oath. Agora as coisas são um bocado diferentes: a capacidade de carregamento da modalidade gratuita deixou de ser 1TB e é limitada a mil (1000) fotografias, continua a não haver estatísticas e quem visitar a página fica sujeito a ver publicidade; na modalidade «Pro», o carregamento é ilimitado, tem-se direito a ver a evolução diária do número de visitantes com a ajuda de gráficos e não há publicidade, mas a anuidade aumentou para USD $50 (cerca de €44 à cotação de hoje).

Mil fotografias pode parecer pouco, mas não é. É até cinco vezes mais fotografias do que as que podia carregar quando me inscrevi no Flickr. Nós conhecemos dez ou vinte fotografias dos melhores fotógrafos do mundo; podemos suspeitar, com razão, que, por cada grande fotografia de um determinado autor, haverá umas dez menos conseguidas, mas de enorme valor. O que dará umas quatrocentas fotografias. E nós, que não passamos de amadores com a patética ilusão de que fazemos alguma coisa de interesse, pensamos que precisamos de espaço ilimitado.

Vamos ser francos: apenas uma milionésima parte das fotografias que se publicam no Flickr têm alguma originalidade. E estou a ser condescendente. O resto não passa de poluição cibernética. Não estou a ser pretensioso, porque me incluo nesta estimativa. Tenho cerca de 1700 fotografias no Flickr, mas sei que se fizesse uma selecção muito crítica, apenas uma mão-cheia escapava. E não sei se aquelas que sobrevivessem à minha análise crítica resistiriam a um julgamento futuro, porque o tempo é um mestre que nos ensina o que tem valor e o que não tem.

Quando tiver mais tempo livre vou fazer uma limpeza no meu Flickr. Não vou subscrever a modalidade «Pro». É bem possível que tenha de me conter para não apagar praticamente todas as fotografias, como já me apeteceu fazer em limpezas anteriores. Há muitas fotografias que não têm originalidade nem valor estético, mas evocam momentos interessantes das minhas caçadas fotográficas; é possível que deixe quatrocentas ou quinhentas fotografias. (Eu terei de fazer esta selecção, pois se não o fizer o Flickr fá-la-á por mim e será certamente menos criterioso.) E mesmo assim já serão muitas: se o leitor conhece vinte fotografias de HC-B, para que quererá conhecer quatrocentas do M. V. M.?

M. V. M.

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Smartphones e coletes retro-reflectores

No último texto escrevi isto: «preciso de sentir que estou a divertir-me quando fotografo, o que não acontece quando o faço com aparelhos digitais». Tinha em mente, como quem leu o texto pode ter deduzido, fotografar com o telemóvel.

O acidente que referi no texto de ontem teve lugar durante um Sábado: depois de fazer fotografias em número suficiente para acabar de expor um rolo, passei pela Câmaras & Cia. para entregar o dito e conversar um pouco. (O R. S. D. e a Leonor são excelentes anfitriões e os Sábados de tarde são muito propícios ao convívio.) Foi quando ia para casa, num cruzamento a trezentos metros do local onde moro, que tive o acidente. Uma das primeiras precauções que tomei foi a de tirar fotografias do local e dos automóveis, mas pareceu-me pouco prático usar a OM-2n para este fim, pelo que lancei mão do telemóvel.

O meu telemóvel não é daqueles que têm uma quantidade enorme de objectivas e é anterior à invenção, pelos patetas da dpreview.com, da expressão «fotografia computacional»: é um Asus Zenfone 2, um smartphone barato movido pelo exasperante sistema operativo Android. Raramente o uso para fotografar: não que seja mau de todo – com boa luz é capaz de resultados interessantes –, mas os leitores já me conhecem: eu não fotografo por compulsão, nem para mostrar qualquer coisa que acabei de ver. O telemóvel é algo que uso para telefonar, enviar mensagens e aceder à Internet ocasionalmente, quando estou longe do computador (e tenho wi-fi). Como não faço selfies nem uso as redes sociais, o telemóvel não tem muito interesse como câmara fotográfica.

Mas nesse dia nefando foi útil. O acidente ocorreu ao entardecer, o que dificultou a vida ao pobre do smartphone, mas consegui tirar fotografias que se mostraram úteis. Contudo, a experiência foi incrivelmente penosa: antes de mais, um telemóvel é um pesadelo ergonómico para fotografar: ou se usa sempre na vertical, como muita gente faz, ou se segura na ponta dos dedos para fotografar na horizontal, o que obriga a contorções para carregar no comando do obturador. Acresce que no meu caso, como o ecrã do meu Asus é demasiado sensível ao toque, tirei múltiplas fotografias do mesmo enquadramento. Ainda quanto ao ecrã, este tem o problema típico de os objectos se tornarem invisíveis quando a luz incide directamente sobre ele.

A câmara demora uma eternidade a focar, e como o telemóvel, aparentemente, força o disparo quando o sistema de detecção de contraste não actua, as fotografias desfocadas são mais que muitas. Depois há os inconvenientes de um sensor minúsculo: as altas luzes estouram com facilidade, não há pormenor nas sombras e os níveis de ruído são assustadores. Este último é mascarado por um modo «baixa luminosidade», que induz o disparo do flash e acciona a redução do ruído, mas os resultados ainda são piores: a imagem fica empastelada e os contornos dos objectos perdem a nitidez. Resulta quando se vê a fotografia no próprio ecrã do smartphone, mas não resiste a uma ampliação da imagem – mesmo que para tamanhos apenas ligeiramente superiores.

Outro problema é o equilíbrio (automático, evidentemente) dos brancos: os vermelhos são afectados pelo excesso de matiz magenta, os azuis pela matiz ciano, e os rostos de pessoas saem de tal maneira pálidos que fazem pensar que os respectivos donos nunca foram a uma praia nas suas vidas. De resto, a objectiva – cuja utilidade é limitada pela distância focal única de grande-angular – presta-se a aberrações cromáticas e, por fim, o formato panorâmico imposto pela forma do ecrã do telemóvel é francamente desagradável.

Fotografar com o telemóvel é tão frustrante que não consigo compreender como alguém o usa com esse fim. É útil para fotografias de documentos ou de eventos como este meu acidente, mas para tudo o resto é inútil. Mais incrível, contudo, do que ser utilizado pelas multidões para fotografar, é haver quem faça gala de os usar só pelo armanço de mostrar que é tão genial que até com aqueles aparelhos é capaz de obras-primas. Por mim, dispenso-o: usá-lo foi tão agradável como andar com o colete retro-reflector enquanto o acidente não se resolveu.

M. V. M.

Dommage (onde se misturam automóveis, acidentes de viação e películas a preto-e-branco)

Bonk!

Seria muito bem feito se já não tivesse leitores. Mais de um mês sem escrever nada para o Número f/ é um recorde, mas é, sobretudo, uma falta de respeito por quem segue o blogue. Pelo facto peço as minhas mais humildes desculpas.

O meu jejum bloguístico teve uma causa muito concreta: tive um acidente de viação no dia 29 de Setembro e, desde então, reduzido à condição de simples peão, tenho fotografado muito pouco. O que levou a um desinteresse muito blasé pelas coisas da fotografia – e este desinteresse, por seu turno, implicou uma diminuição da vontade de escrever para o Número f/.

Vamos por partes: o acidente foi ridículo. Foi um toque insignificante num cruzamento, embora com consequências nefastas para o meu peugeotzinho, que foi para a perda total. O ridículo do acidente esteve no facto de o outro interveniente ser francês e não perceber uma palavra de português, o que me obrigou a ter uma discussão de trânsito em francês. Evidentemente, foi uma première. Ainda por cima, apesar de o homenzinho me ter dado cabo da vida e ter insistido que eu era o culpado porque vinha muito depressa (não é o que dizem todos?), não consegui antipatizar com ele e as ocupantes do outro automóvel: no fim já conversávamos cordialmente e até gabaram o meu Francês. Ou seja: um francês veio a Portugal com o único propósito de destruir o meu automóvel – por ironia, também francês – e eu acabo na cavaqueira com ele! C’est farouche.

Agora tenho a exorbitância de dois mil e quinhentos euros, a pagar pela seguradora a título de indemnização – o meu Peugeot 206 já tinha uma idade considerável, pelo que aquele valor não foi tão baixo ou injusto como pode parecer – para adquirir um automóvel. Posso juntar mais algum, mas estou confinado a adquirir um veículo em segunda mão. Estou mais indeciso do que o tolo de Teixeira de Pascoaes no meio da ponte de S. Gonçalo (para quem não sabe, a imagem do tolo no meio da ponte provém de uma criação de Teixeira de Pascoaes e apareceu na obra de 1923 O Pobre Tolo) quanto ao automóvel a adquirir: nas minhas visitas ao autouncle.pt, apareceu-me um veículo que desperta o amante da competição que existe em mim e se recusa a envelhecer: um Lancia Delta 1.3 LX. Seria certamente divertido de conduzir e tem uma estética maravilhosa, mas é um automóvel de concepção antiga – o motor é alimentado por carburador! – e é, objectivamente, pior que o Peugeot, mesmo se tem o potencial de se tornar num clássico.

Depois há em mim um amante do conforto, e eu deixo-me tentar pelo Citroën Xantia. O Xantia é o último dos verdadeiros Citroën: se não posso ter um DS21, igual ao da personagem Patrick Jane de O Mentalista, o Xantia é um descendente orgulhoso do boca-de-sapo e um bom sucedâneo. O problema do Xantia é ser um carro para homens idosos. Não é banal – é um dos automóveis mais elegantes e distintos do seu tempo e do seu segmento, só superado pelo Alfa Romeo 156 –, mas não é um veículo para retirar prazer da condução. A suspensão hidropneumática e as suas poltronas, porém, são tentadoras: o Xantia é um automóvel para gozar o conforto, o que, bem vistas as coisas, é uma forma sublimada de prazer.

Com o Delta ou o Xantia (ou outro: por exemplo, ainda não desisti do Alfa Romeo 147, um carrinho doentiamente chique), espero voltar a encontrar lugares onde fotografar. Perto de casa já está tudo visto, e nem sempre é prático fazer grandes caminhadas com a máquina fotográfica, pelo que o automóvel é, no meu entender, um bem essencial. Quando voltar a fotografar regularmente – e aqui volto ao tema deste blogue – já tenho uma nova película favorita: a Kentmere 100. Tem muito grão, mas o contraste está ao nível da Ilford FP4 (o que não é coisa pouca) e o grão confere-lhe carácter. E tem um preço muito razoável. Apesar de tudo, ainda não desisti de fotografar com película: a fotografia digital pode ser prática, mas não dá o mesmo prazer. Eu não preciso de mega-resolução, mas preciso de sentir que estou a divertir-me quando fotografo, o que não acontece quando o faço com aparelhos digitais.

Já que menciono a diversão: a fotografia do topo foi feita com o telemóvel. Foi uma das poucas em que a focagem não falhou rotundamente. Fotografar com um telemóvel está nos antípodas de divertido: não compreendo por que razão tanta gente o usa para fotografar.

M. V. M.

As dificuldades de estabelecer classificações

Apesar de ler regularmente desde a minha adolescência – se descontar as bandas desenhadas da infância –, a minha aprendizagem da literatura está, posso dizê-lo, no seu início. Há aqui uma analogia curiosa com a fotografia: acabar de ler um bom livro provoca-me a mesma sensação que ter visto uma grande fotografia, e ambas as experiências me levam, pela minha escassez de conhecimentos em ambos os domínios, a extrair conclusões precipitadas. Explicando melhor: tenho tendência a dar um valor excessivo aos livros – e às fotografias – que me agradam. De uma fotografia, digo: «é uma das melhores de sempre» – só para, ao fim de algum tempo, me embaraçar por ter feito esse julgamento. No caso das fotografias, porém, nunca me atrevi a dizer que a fotografia F… é a melhor de todos os tempos. Da última vez que procurei seleccionar as que considero serem as melhores fotografias de sempre, alarguei o número a quinze – e hoje parece-me que cometi um ou dois erros de apreciação.

Com os livros que leio acontece sensivelmente o mesmo, mas com o disparate acrescido de me ter dado à pretensão de proclamar que um determinado livro era o melhor de sempre. Li A Condição Humana, de André Malraux, e acreditei que era a melhor obra literária de todos os tempos; mais tarde li A Montanha Mágica, de Thomas Mann, e formulei o mesmo juízo, o que implicou derrubar a obra do ex-ministro da cultura da República Francesa do Olimpo literário que inventei. O reinado de A Montanha Mágica, por seu turno, durou apenas até ter lido Céline, mais precisamente Viagem ao Fim da Noite. Foi por esta altura que me apercebi do absurdo que é tentar eleger o melhor livro sem ter concluído a tarefa impossível de ler todos os livros do mundo. Mesmo que me cinja aos livros da grande literatura universal (entendendo-se como tal aquela onde não entram o José Rodrigues dos Santos nem a Margarida Rebelo Pinto, nem o Nicholas Sparks e essas coisas), vou morrer sem ter lido sequer a décima parte dos bons livros escritos ao longo da história. As minhas habilitações para eleger a melhor obra literária de sempre são, deste modo, muito escassas.

E agora estou a ler uma obra – vou sensivelmente a meio, leio-a devagar porque sei que me vai ficar um vazio triste quando chegar à última linha – cuja leitura me está a dar mais recompensas que todas as que referi: estou, seguramente, a ler uma das criações mais geniais do espírito humano. Se ainda incorresse no ridículo de pretender estabelecer qual o melhor livro de sempre, estaria de novo diante de uma perplexidade e teria novamente de depor uma obra do seu trono e sentar lá uma outra, mas agora não me atrevo a fazer juízos desta natureza. Ainda me falta ler muitas obras para afirmar que o livro x é o melhor de sempre e, de resto, que autoridade teria eu para fazer juízos tão temerários?

Seja como for, a obra que estou a ler é A Cartuxa de Parma, de Stendhal. Não quero fazer uma apreciação antes de concluir a leitura, mas é um romance empolgante, divertido, sagaz, profundo, perspicaz, irónico, sarcástico, cáustico, mas nunca cínico ou amargo – tudo num estilo fluído em que o autor busca deliberadamente a proximidade do leitor. Nunca me vou recriminar suficientemente por ter ignorado Stendhal durante todos estes anos.

A Cartuxa de Parma é tão bom que me fez passar pela mente uma ideia um tanto disparatada – ou pelo menos algo estranha: se eu pudesse viajar no tempo (ou se tivesse vivido na sua época), gostava de conhecer Monsieur Henri Beyle pessoalmente. Stendhal deve ter sido um dos espíritos mais finos e brilhantes de todos os tempos, mas a sua escrita revela uma personalidade invulgar: viveu num período de convulsões políticas e sociais sem par na história mundial, escrevia para evitar o aborrecimento e tinha o hábito curioso de ler o Código Civil francês de 1804 (o famoso Código Napoleónico) por a sua redacção ser um modelo de clareza. E, de facto, a linguagem de Stendhal é clara, directa e sem uma ponta de pretensão. Stendhal foi, sem dúvida, uma personalidade peculiar e interessante. Ainda por cima adorava Itália, onde de resto viveu uma parte significativa da sua vida. (A Itália é adorável, mesmo se os italianos têm mau gosto e falta de senso comum para eleger partidos políticos.)

O meu único reparo a A Cartuxa de Parma refere-se, não à obra, mas à edição da Editorial Inova que estou a ler: é o péssimo trabalho de revisão e composição. A tradução, de Adolfo Casais Monteiro, é excelente, mas as gralhas são inúmeras e imperdoáveis. E o livro, que comprei num alfarrabista, é composto com o tipo de letra Arial. É profundamente desagradável ler um romance composto neste tipo de letra. É como se estivesse a ler um manual de instruções de um electrodoméstico com 458 páginas – ou seria, se a leitura não fosse apaixonante e absorvente ao ponto de fazer esquecer estas considerações, que, sendo de pequena monta, interferem no prazer de ler.

Se ainda não o fizeram, leiam A Cartuxa de Parma. Vão ficar seriamente enriquecidos se o fizerem. Depois não me agradeçam o conselho: façam antes como eu – fustiguem-se por terem deixado que uma obra como esta vos tivesse passado ao lado durante tanto tempo.

M. V. M.

Técnica e telemóveis

As pessoas que conhecem as minhas fotografias sabem que elas não têm um conteúdo técnico assinalável. Pelo contrário, são raras aquelas em que recorro às técnicas fotográficas. Não por falta de confiança – o que seria perfeitamente legítimo quando se usa uma máquina fotográfica de película, na qual obviamente é impossível confirmar imediatamente os resultados –, nem por desconhecê-las, mas porque o tipo de fotografia que me interessa não requer o uso de técnicas especiais.

O que não significa que despreze as técnicas fotográficas. Pelo contrário: se eu tivesse uma palavra a dizer quanto aos curricula de um curso de fotografia, as aulas incluiriam, entre outras, o disparo do flash à segunda cortina, o arrastamento, o panning e até o zoom burst. Uma fotografia que viva só da técnica é uma fotografia vazia, uma demonstração fútil de conhecimento da técnica, mas – já o disse várias vezes – a técnica pode ser um poderoso auxiliar da expressão.

Este curso de fotografia para cuja elaboração eu seria chamado (o que seria tão certo de acontecer como eu ganhar o Prémio Nobel da literatura à custa dos textos do Número f/) seria só para alunos que tivessem câmaras a sério. Podiam ser DSLR, mirrorless ou compactas avançadas, mas teriam de ter controlos manuais da exposição e do flash, porque só com esses comandos é possível criar efeitos visuais através das técnicas fotográficas. O que quer dizer que, se dependesse de mim, nenhum curso de fotografia aceitaria smartphones.

Os smartphones não têm controlos de exposição. Existem apps que reproduzem os efeitos da exposição, mas são os algoritmos do processador, e não o utilizador, que criam esses efeitos. A única criatividade que existe nestas apps está em quem as programou. O que as apps fazem, por outras palavras, é simular os comandos de uma câmara: se pensarem bem, as objectivas dos telemóveis têm uma abertura fixa, o que implica, evidentemente, que não pode haver qualquer tipo de controlo sobre a abertura. Estamos aqui claramente no reino da fantasia, porque, se o utilizador não pode regular a abertura, não controla a exposição. Nem a abertura, o que vimos ser impossível, nem  o tempo de exposição, nem o ISO. Se eu quiser dar à fotografia um efeito criativo como o panning ou o arrastamento de objectos em movimento, preciso de dominar as técnicas: preciso de saber quais são as repercussões da abertura e do tempo de exposição na imagem e conhecer a lei da reciprocidade. Ora, com um telemóvel nada disto faz sentido: como não tenho qualquer controlo sobre o tempo de exposição, não posso fazer um panning nem dar um efeito de arrastamento.

Claro que o fanático da tecnologia que vier ler este texto vai dizer que eu vivo no passado, que a tecnologia evoluiu e que aquilo que faço com esforço está ao alcance do deslizar de um dedo sobre um slider no ecrã do smartphone. E eu, evidentemente, devo conformar-me com esta era de prodígios tecnológicos em que não é preciso saber fotografia para fotografar. Todavia, tanto quanto é do meu conhecimento não existe nenhuma app que consiga reproduzir técnicas como o arrastamento – o intencional, não o acidental – e o panning. Há algumas que simulam o bokeh, o qual depende sobretudo do uso de distâncias focais que os telemóveis, por limitações físicas óbvias, não podem ter, mas o artifício é tão evidente que não engana ninguém. Um dia as apps vão imitar todos estes efeitos, mas serão sempre isso mesmo: imitações.

Por tudo isto, e correndo o risco de parecer um pedante, digo que só um tolo pode pensar que o seu smartphone faz o mesmo que uma câmara fotográfica. É mentira. Aliás, a «fotografia computacional» é exactamente isto: uma mentira. É uma manipulação da imagem que dispensa o controlo e os conhecimentos do utilizador, pelo que não é exagerado dizer que é um embuste. Querem usar técnicas fotográficas? Aprendam fotografia e aprendam a utilizar uma câmara a sério. O resto é batota.

M. V. M.

Kentmere 100 (seguido de uma adenda sobre uma experiência de técnica fotográfica que correu mais ou menos bem)

O tema de hoje é a impressão que uma película para preto-e-branco que acabei de experimentar me causou. A película é a Kentmere 100. Como sabem, a Kentmere é uma marca do grupo Harman, que acolhe sob o seu tecto, além da Kentmere, nem mais nem menos que a ilustre Ilford. Tal como o rolo Kentmere 400, ao qual já me referi no Número f/, o Kentmere 100 é um produto low cost da casa Harman, mas com uma característica curiosa: a Harman produz películas Ilford de baixo custo para os países da Europa de leste, que são as Pan 100 e Pan 400, mas a Kentmere 100 está muito mais próxima da FP4 da Ilford que a Pan 100. É estranho, mas é assim mesmo.

Tal como com os muitos rolos FP4 Plus que usei, o Kentmere 100 obriga a cuidados especiais na exposição para não estourar as altas luzes. É uma película excelente para chiaroscuri pelo contraste, mas se quisermos ter a escala de cinzentos na sua totalidade é necessário saber expor para as sombras, mesmo que com ligeiro prejuízo das altas luzes. Expor para as altas luzes pode dar resultados excelentes, mas é preciso não exagerar, caso contrário as sombras tendem a ocultar o pormenor e a exacerbar o contraste.

A acutância é boa, apesar de não tanto como a do FP4, mas esta insuficiência não é redibitória e é absolutamente aceitável num rolo que custa menos dois euros do que aquele com que o estou a comparar.

Por fim, o grão. A Ilford FP4 Plus é uma das películas mais agradavelmente isentas de grão que eu conheço. O pouco grão que por vezes se manifesta contribui para a glória do preto-e-branco argênteo – esse que nenhuma app e nenhum programa de edição de imagem consegue imitar. A Kentmere 100 não é isenta de grão: pelo contrário, o grão é muito abundante. Não diria que faz lembrar uma película 400 ASA, mas esta é uma característica que também encontrei numa película de preço semelhante, que é a Agfaphoto APX 100. Simplesmente, o grão da Kentmere dá às fotografias um aspecto muito especial. Não é intrusivo como na APX 100 nem é destrutivo como o das HP5. Dá às fotografias aquilo a que só posso chamar carácter.

O Kentmere 100 não é tão bom como o FP4, mas é uma boa opção para aqueles amantes do contraste que vêem o rombo na conta bancária aumentar preocupantemente sempre que compram rolos FP4, sobre a qual costumo dizer ser a melhor película para preto-e-branco que alguma vez apareceu à superfície da terra. Afinal de contas, dois euros é bastante dinheiro.

E agora uma adenda sobre técnica: os leitores mais assíduos lembram-se certamente de ter aludido a uma experiência que fiz quando a meia maratona do Porto passou na minha vizinhança. Se não se lembrarem, podem avivar a memória aqui. Pois bem: a experiência deixou-me uma sensação agridoce: consegui exactamente o efeito que pretendia, mas o enquadramento não ficou nada bom. Não gosto da fita de plástico nem das grades.

Seja como for, a técnica é daquelas coisas que podemos nunca usar, ou fazê-lo muito esporadicamente, mas é sempre bom saber que a dominamos. É mais ou menos como nadar ou andar de bicicleta. Ah – e é impossível fazer isto com um smartphone, apesar das loas dos zelotas da tecnologia à «fotografia computacional».

M. V. M.

Mapplethorpe e eu

Por Robert Mapplethorpe

Eu sou portuense, nado e criado no Porto, e tenho orgulho nisso. Contudo, há alguns aspectos que me distinguem do estereótipo que se construiu do portuense: não troco os Vs pelos Bs (na verdade nenhum portuense o faz: dizem os Vs como Bs, mas nunca ouvi nenhum portuense dizer «avóvora»), não sou adepto do FC Porto (nem de nenhum clube, embora sinta uma simpatia difusa, por motivos estudantis, pela Académica), não sou bairrista e, apesar – ou por causa – de tudo isto, sinto uma vergonha profunda quando acontecem coisas embaraçosas na minha cidade.

Pois bem: no passado fim-de-semana ocorreu um daqueles episódios grotescos que me fazem querer emigrar. Como se já não bastasse o ridículo da transferência do INFARMED, agora até nas artes, e na respeitabilíssima Fundação de Serralves, o Porto é lugar de um pseudo-escândalo que tem tanto de absurdo como de insignificante. A mencionada Fundação de Serralves, que é dona e exploradora do Museu de Arte Contemporânea de Porto (o qual nem precisava de exposições para ser notório, de tão extraordinária que é a sua arquitectura saída do estirador de Álvaro Siza), teve por bom e adequado promover uma exposição de obras fotográficas de Robert Mapplethorpe, o que também me parece bem porque R. M. não é só o fotógrafo de órgãos sexuais masculinos; mas, como o português é, no geral, mesquinho, e porque ainda estamos sob o efeito da silly season neste Verão que não quer acabar, tinha de haver um escândalo em torno da exposição. A administração do museu, contra a vontade do director artístico, reservou uma sala para as fotografias explícitas de Mapplethorpe (entendendo-se como tal aquelas em que é visível a presença de um pénis) e houve por avisado colocar à entrada da sala um aviso bilingue desaconselhando – não proibindo, note-se, mas desaconselhando – a entrada de menores sem acompanhamento por adultos (não fosse um dos ditos órgãos saltar da moldura e assediar uma criança inocente).

O mais estranho, neste episódio insignificante, não foi o referido desaconselhamento: este é bastante natural, porque corresponde ao conceito tacanho de fotografia que impera nos meios artísticos portugueses, segundo o qual a fotografia é uma mera reprodução mecânica da imagem de objectos reais, e a uma mentalidade que ainda não se libertou de séculos de repressão moral da sexualidade; não, não foi isto o mais estranho: o bizarro foi este ter sido um assunto de primeiras páginas e de abertura dos noticiários televisivos, com demissões (e eu acho muito bem que o director artístico do MAC, João Ribas, se tenha demitido), acusações de censura e – imaginem – manifestações!

Robert Mapplethorpe foi o tipo de artista que sentiu necessidade de chocar as mentes embotadas pelo puritanismo. Fez muito bem, porque, apesar de algumas fotografias serem de gosto duvidoso – eu não gosto de tudo o que R. M. fez –, as controvérsias que gerou ajudaram a criar consciência do peso excessivo dos tabus e contribuiu para demoli-los, o que é sempre uma evolução, não apenas artística, mas sociológica. A sociedade e o ser humano evoluem sempre que um tabu se desmorona. O trabalho de Mapplethorpe não se resume, porém, a homens nus e seus genitais: para mencionar um pequeno exemplo, a fotografia que R. M. fez da sua companheira Patti Smith para a capas do álbum Horses é um prodígio: uma fotografia eterna, maravilhosa, a despeito da aparente simplicidade. Tal como a que ilustra este texto, evidentemente. (Esta mesma fotografia é uma das que Roland Barthes usou no seu A Câmara Clara para demonstrar as suas teorias.)

A gentinha tacanha que se deixou envolver nesta questão ridícula não merece Robert Mapplethorpe. A administração do Museu de Arte Contemporânea envergonhou a cidade, mas os manifestantes não fizeram menos. Que ridículo, isto de fazer uma manifestação por uma coisa tão pequenina! A sério – aquela gente não tem nada melhor para fazer num Domingo de manhã? Houve mesmo um partido que tentou fazer disto uma questão política, prova de que Portugal é um país onde nada de importante se passa e todos andam à procura de algo, ainda que insignificante, que lhes ocupe as mentes ociosas.

Numa palavra – Portugal, e neste caso particular o Porto, não merece fruir arte. Os portugueses não são suficientemente evoluídos para a apreciar, especialmente quando se trata de fotografia. Se uma fotografia de um pénis por Mapplethorpe é assimilada a pornografia, isto diz muito do atraso em que vivemos. Este não é um caso importante – não justifica demissões, parangonas, manifestações ou intervenções partidárias – mas é, pelo menos, ilustrativo da mesquinhez nacional. As únicas pessoas que saíram ilesas deste episódio grotesco foram Daniel Blaufuks, que se recusou a inaugurar a exposição, e João Ribas, o director artístico. Mas quem devia ter saído não era este último: era o administrador que mandou reservar a sala para maiores de 18. Ele – ou ela – e quem o tiver apoiado na decisão. A vergonha que esta gente fez a minha cidade passar!

M. V. M.