O Samuel e outras histórias

Interrompo hoje um longo silêncio que teve três causas: a primeira foi o trabalho – elaborar um recurso para o Tribunal da Relação exige um dispêndio de tempo e disponibilidade consideráveis, e esta não foi a minha única ocupação profissional da semana; outra foi uma pequena intervenção cirúrgica a que fui submetido ontem (uma intervenção que chegou com quarenta anos de atraso!) e, por fim, uma razão que me ocupou quase todo o tempo que sobrou: um gato novo. É verdade – o Sousa tem agora um substituto, de nome Samuel, um gato preto que adoptei, libertando-o da jaula do Canil Municipal que ocupou durante quatro meses.

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A pantera!

O gato é uma delícia. É ainda bastante jovem, mas já tem um crescimento apreciável. Ao contrário do Sousa, que adoptei quando tinha apenas dois meses, este veio já quase completamente formado. A escolha de um gato preto teve que ver com dois factores: 1) estes gatos são extremamente distintos e 2) por causa de superstições absurdas, são sistematicamente preteridos nas adopções. A verdade é que o Samuel tem classe e é manso, mas brincalhão. Não sei se vai ser um bom substituto do Sousa, mas também tinha dúvidas se este último ia alguma vez conseguir ocupar o lugar da gata que o antecedeu (o que ele mais que superou).

Chega de gatos. Não é por causa do Samuel que me vou tornar num gatógrafo – embora fotografar a negritude daquele pêlo tenha qualquer coisa de desafiador – e o assunto que pretendia para este texto não tem nada que ver com gatos: era para ser (e vai ser) a narrativa do choque que senti quando confrontei as minhas expectativas relativamente aos meus hobbies com a realidade.

Pois é. Quando comecei a ter rendimento disponível para hobbies, escolhi a alta fidelidade. Por que não? Era (sou) um apreciador omnívoro de música, pelo que reproduzi-la com a maior qualidade possível era um objectivo perfeitamente lógico.

Esperava que as pessoas que partilham este hobby fossem também elas grandes amantes da música, mas enganei-me redondamente. Custou-me a percebê-lo, porque os meus primeiros passos foram guiados pelo Francisco da Luz e Som, dono de um gosto musical particularmente distinto e variado, mas a realidade atingiu-me com o impacto de uma bola de demolição quando me apercebi que as revistas de alta fidelidade usavam discos de música banal para aferir as qualidades dos equipamentos testados. Nunca imaginei que alguém comprasse um amplificador Cyrus para ouvir Shola Ama, mas aparentemente havia uma revista que entendia ser tal facto perfeitamente plausível. Mais tarde, estava eu ao balcão da Imacústica à espera da minha vez quando interceptei uma conversa entre um cliente e o empregado; o cliente tinha uma meia-dúzia de CD’s na mão e estava a confessar que os tinha ali para ouvir «umas vozes». Os discos eram de gente como a Dulce Pontes. Comprar equipamento extraordinário para ouvir música ordinária pareceu-me uma aberração, mas era esta a realidade: os audiófilos são gente arrogante, sem gosto e com a mania que percebem de electrónica e de acústica. Não percebem. São uns otários com mais dinheiro que juízo que só dizem baboseiras quando abrem a boca.

Também me aconteceu pensar que quem despendia muito dinheiro em máquinas fotográficas e lentes o fazia porque esses eram os instrumentos de que necessitavam para exprimir melhor os seus ideais estéticos. Ops! – enganei-me outra vez. Não são. O fenómeno foi o mesmo que em relação à alta fidelidade, mas as referências foram diferentes. Depois de conhecer a obra de alguns fotógrafos como Koudelka, Cartier-Bresson e Doisneau (eram poucas as referências que tinha por essa altura), pareceu-me abjecto haver gente capaz de gastar fortunas em equipamento fotográfico por causa do desempenho. Se ao menos tivessem essa obsessão pelos números, mas fizessem fotografias decentes… nada disso: há os gatógrafos e há os que fotografam paredes de tijolo e quadros de cortiça.

Isto não faz sentido nenhum. Por vezes parece-me que os melhores melómanos são aqueles a quem não interessa como ouvem a música de que gostam e que os melhores fotógrafos são os que usam qualquer coisa para fotografar. Claro que não é bem assim: há audiófilos que constroem um sistema como se fosse um altar do qual adoram a sua música e há fotógrafos que se sacrificam para comprar bom material fotográfico porque só com ele podem exprimir as suas ideias fotográficas, mas estes são grupos minoritários.

Não estou com isto, de maneira nenhuma, a conferir legitimidade aos iPhonógrafos: estes aliam o vício dos gadgets à presunção, pelo que reúnem tudo o que o hobby da fotografia tem de deplorável. O que me espanta é ver gente carregada de câmaras e lentes (ou a imaginar que o seu telelé é uma câmara a sério, o que é delirante) a fazer más fotografias. O que é tão mau – se não for pior – do que usar um amplificador Audio Research e colunas Sonus Faber Guarnieri para ouvir Dulce Pontes.

O mundo é um lugar estranho.

M. V. M.

Fidel Castro (1926-2016)

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Por René Burri

2016 é o ano de todas as mortes. Algumas pessoas, mesmo não tendo falecido, entraram em morte cerebral. Mais exactamente sessenta e dois milhões trezentas e trinta e sete mil setecentas e noventa e nove, que é o número de eleitores que votaram em Donald Trump. Entre eles estão, seguramente, os americano-cubanos de Miami que ontem foram para a rua festejar a morte de Fidel Castro Ruz. Contudo, dizer que estes últimos entraram em morte cerebral pode ser inexacto, pois um pressuposto da morte cerebral é ser-se dotado de um cérebro, o que está por provar.

Eu não sou um fervoroso da revolução cubana, não ando com estampados da fotografia que Korda fez de Che Guevara nem passo a vida a assobiar a Guantanamera, mas há certos factos que são indesmentíveis: Cuba é um dos países com melhores níveis de literacia do mundo e está na frente de muitos países ditos democráticos em matéria de cuidados de saúde e de mortalidade infantil. Os cubanos são pobres? Sim, mas só pelo conceito capitalista de riqueza. Ao menos não existe a desigualdade económica chocante dos países capitalistas e, a julgar pelos relatos que vejo (e pelas fotografias de Peter Turnley), os cubanos parecem ser um povo bastante feliz. Há problemas, certamente, mas eu não incluiria a falta de liberdade entre eles. Mais uma vez, os ocidentais avaliam a liberdade pelo conceito que têm dela, o qual pode não ser o mais correcto. Seria Cuba um país livre no tempo de Fulgencio Baptista? Só se fosse para os americanos ricos que frequentavam os casinos de Havana.

E a revolução cubana foi uma epopeia heróica. Foi a vitória dos ideais sobre a força, ideais tão poderosos que derrotaram uma superpotência na invasão da Baía dos Porcos. Foi o fim de um regime profundamente corrupto e opressivo que reduziu um povo à miséria e transformou o país numa espécie de recreio de milionários. E os líderes da revolução são justamente os símbolos desses ideais, mesmo se estes últimos deram lugar ao pensamento único e ao arredamento dos ideais democráticos (mas temos de nos perguntar que democracia é esta que autorizou o Brexit e elegeu Donald Trump, tal como há oitenta anos elegera Adolf Hitler).

Fidel Castro era, sobretudo, um homem inteligentíssimo com uma visão do mundo absolutamente ímpar. Os seus discursos podiam ser longos, mas diz quem os ouviu que nunca eram cansativos, por serem tão brilhantes. Se havia líderes admiráveis até ontem, Fidel Castro era seguramente um deles. Isto é um facto que deve ser reconhecido independentemente da ideologia que se professe, como fez o nosso Presidente da República – que, a despeito de não poder estar mais distante da ideologia de Fidel, fez questão de visitá-lo e conhecê-lo. (Caso alguém não saiba, Marcelo Rebelo de Sousa é um homem de uma inteligência fora do comum: é doutorado em Direito Constitucional pela Universidade de Coimbra – que escolheu por ser mais prestigiosa e exigente que as escolas de Lisboa – e a sua tese teve a classificação mais alta de sempre neste ramo do direito, tendo o único reparo, formulado pelo Professor José Joaquim Gomes Canotilho, consistido na escassez de referências bibliográficas!)

Mas esta entrada do Número f/ é sobre fotografia, mesmo que não o tivesse parecido até agora. Serve para vos mostrar, através de uma ligação por não ter a necessária permissão autoral, algumas fotografias admiráveis de Fidel Castro por fotógrafos da Magnum. Entre estes está René Burri, que foi quem fez os retratos mais notáveis de Ernesto «Che» Guevara (sim, foi ele e não Alberto Korda).

https://www.magnumphotos.com/newsroom/politics/magnum-photographers-fidel-castro-life-in-pictures/?utm_source=fb-social&utm_campaign=Editorial_CastroPictures&utm_medium=social&utm_content=Linkpost

M. V. M.

Os meus filmes

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Título enganoso – não vou falar aqui de cinema, embora já o tenha feito (há poucos blogues de fotografia onde os leitores possam educar o seu gosto cinematográfico através do conhecimento de cineastas como Luchino Visconti, Richard Linklater e Michael Haneke). O título pretende ser uma sátira às pessoas que gostam de traduzir tudo directamente do inglês e entendem que film pode ser traduzido para filme, mas esta última é uma palavra inventada, porque film tem uma tradução em português, que é  «película». (Film não se refere especificamente à película fotográfica ou cinematográfica: também designa, por exemplo, o papel celofane ou os plásticos usados para envolver alimentos.)

Também não vou escrever sobre os meus filmes – se eu vos contasse como correu o meu último julgamento, pensariam que tinha aderido à equipa de guionistas de uma série humorística qualquer –, mas sim sobre as minhas películas. Desde que comprei a OM já experimentei vinte películas diferentes (todas de negativos): da Kodak, usei rolos de Tri-X, Portra 160, Ektar 100, Gold 200 e T-Max 100 e 400; experimentei Ilford FP4, HP5, Pan F e Delta 100 e 400 (além de um rolo Pan 400 que já atingira a idade núbil, mas cujos resultados pareceram agradar a muitos visitantes do meu Flickr); usei também Fuji (Superia 200), Fomapan 200, Ferrania Solaris, Kentmere 400, Agfa APX 100 (também usei 400, mas os resultados foram inconclusivos) e agora outro rolo Agfa, este a cores, que é o Vista 400. Além da ovelha negra chamada Lomography Earl Grey, que foi a pior que experimentei. Foram muitos rolos. Apesar de ainda me faltar experimentar outros tantos – vários da Fuji, todos da Rollei e da Adox e algumas variedades das marcas que mencionei anteriormente –, penso que já posso elaborar algumas conclusões.

A primeira é que o preto-e-branco é a minha linguagem. Já escrevi aqui, ainda há bem pouco tempo, que fotografar a cores é difícil pelas exigências de harmonia da cor. Devo acrescentar outra dificuldade: a de encontrar motivos em que a cor, mais que as formas, seja o elemento gráfico preponderante. Convenhamos que o Porto é uma cidade um bocado granítica e monocromática (e eu não tenho particular gosto em fotografar graffiti). O preto-e-branco favorece as formas e as linhas, pelo que se adequa melhor às minhas opções estéticas. Daí que tenha adquirido muitos mais rolos de preto-e-branco que de cores. Por regra, demoro muito mais a expor rolos a cores, o que é revelador quanto às dificuldades com que me deparo. Isto não quer dizer que tenha desistido da cor, mas seguramente significa que estabeleci uma preferência.

E, já que me refiro a preferências, quais são os rolos que mais me satisfazem? Para o preto-e-branco, a resposta é mais ou menos óbvia: o FP4 é aquele ao qual volto sempre. Já expus trinta e seis rolos desta película. Gosto do seu contraste e da nitidez incrível, mas exige algumas precauções, como expor sistematicamente para as altas luzes de maneira a evitar a sobreexposição.

O que me leva a outra conclusão: eu gosto de películas lentas. Comigo a fotografia em lugares pouco iluminados é uma excepção, não a regra. Além de não apreciar aberturas demasiado estreitas: não sou um tarado do bokeh (eu gostava de cremar in vivo a criatura que se lembrou de importar esta palavra para o Ocidente), mas um bocadinho de desfoque de vez em quando não faz mal nenhum. As películas de alta velocidade (ou sensibilidade, se preferirem) obrigam-me a fotografar com f/11 sempre que aparece um raio de sol. Contudo, nas diversas ocasiões em que um rolo ISO 400 é útil, demorei a decidir qual preferia: o Tri-X? O HP5? Sob reserva de fazer mais algumas experiências, penso ter encontrado uma película que poderia usar sempre que quiser fotografar em estações do metro: a Kentmere 400. Contudo, devo também dizer que foi agradável experimentar películas ASA 200. Usei duas: Fomapan 200 e Kodak Gold 200. É uma sensibilidade muito versátil e agradável de usar. Não compreendo por que razão a Ilford não fabrica películas ISO 200.

Quanto à cor, remeto para o texto em que me refiro às dificuldades suplementares que as películas implicam. Apesar de a minha preferência não ir para a fotografia a cores, não posso negar que me diverti com os rolos Ferrania e que fiquei surpreendido com o desempenho do Kodak Gold 200. Os outros são demasiado dependentes das condições de luz. Curiosamente, a película que estou correntemente a usar é a primeira de alta velocidade que uso. (Depois digo-vos das minhas impressões.)

A maior surpresa da minha experiência com películas, porém, é a resolução do pormenor que algumas possibilitam. Claro que as lentes Olympus OM, em particular a grande-angular, contribuem para esta resolução, mas as películas desempenham um papel importante. Descobrir isto foi uma surpresa, mas há uma explicação: a fotografia no formato 135 precisa de toda a resolução de que for capaz para que não se perca demasiada nitidez nas ampliações. As minhas fotografias são, com a excepção daquelas em que falhei a focagem, inacreditavelmente nítidas. Esta, como referi, foi uma grande surpresa. Só comparável ao prazer que se extrai de fotografar com uma máquina analógica, mas estas são contas de outro rosário.

M. V. M.

Gatografia e outros temas (2)

Fotografia por Claudio Rasano

(Continuação) O que é um verdadeiro libelo contra um mundo que pretende reduzir todos os indivíduos a massas homogéneas. Os alunos de um colégio são uma metáfora de outros grupos homogeneizados à força. O estudante poderia facilmente ser um «eleitor», um «consumidor» ou um «contribuinte». Impõem-nos estes estatutos, mas eles são completamente contra natura e privam-nos do nosso melhor, que é a capacidade de sermos seres humanos autónomos e diferenciados.

Esta fotografia nada tem de óbvio. Ela obriga a vê-la para além da mera aparência, a interpretá-la e a entender o que o fotógrafo quis exprimir com ela. Eu já me deparei com esta dificuldade em relação a fotografias minhas, que não foram compreendidas por alguns, embora seja possível que não me tenha sabido exprimir fotograficamente; neste caso, porém, trata-se de uma fotografia que recebeu um prémio de £15,000 de uma instituição reputada.

E como reagiram os gatógrafos do dpreview.com a esta fotografia? Da maneira mais obtusa possível. Apenas uma mão-cheia entendeu o que o fotógrafo quis exprimir. O resto comparou a fotografia a retratos à la minuta, queixou-se da iluminação e do fundo branco (provavelmente teriam gostado mais se tivesse um fundo com bokeh cremoso). E, invariavelmente, protestaram que é uma fotografia vulgar que qualquer um seria capaz de fazer. Ou seja: apenas olharam o lado técnico, como seria mais ou menos previsível de parte de quem nutre uma obsessão por equipamento fotográfico. A ignorância e a incapacidade de ver para além da evidência são verdadeiramente constrangedoras, mas há pior.

Os leitores terão decerto presente qual o tipo de reacção que as imagens premiadas pela World Press Photo causam quando os prémios são anunciados. Se forem fotografias de palestinianos, os judeus fazem uma vozearia tremenda e tentam provar que as imagens são falsas; se forem imagens de outra guerra qualquer, dizem que o mundo precisa é de paz e de beleza – o que convém, para se esquecer as broncas que foram as últimas guerras (especialmente a invasão do Iraque). Pois bem: este retrato do rapaz desalinhado suscitou a crítica de ser «politicamente correcto». Fiquei a saber que «politicamente correcto» é um apodo que os votantes que elegeram Donald Trump (e gente semelhante) arremessam contra quem demonstrar simpatia por minorias ou não seja racista, xenófobo ou homofóbico. O júri atribuiu um prémio a uma fotografia com um rapaz negro? É por ser «politicamente correcto». Estas pessoas entendem que toda a gente é como eles e que, se alguém manifesta simpatia por minorias ou não é racista, é por ser hipócrita, pelo que «politicamente correcto» é uma forma de hipocrisia. Esta forma de pensar funda-se na maneira de ser destes indivíduos que só se vêem e entendem a si mesmos e imaginam que o mundo se resume àquilo que conhecem, além de pensarem que toda a gente partilha os seus instintos básicos. De modo que, se outras pessoas manifestarem ideias diferentes da deles, estão certamente a mentir. Porque a única maneira de pensar concebível é a desses que agora se sentem com rédea solta.

Com efeito, a vitória de Donald Trump fez com que uma multidão de gente arrogante, intolerante, racista, homofóbica e xenófoba se sinta poderosa e capaz de impor a sua forma de ser e de pensar. Tenho muito medo das implicações desta vitória do obscurantismo. A seguir ao Brexit já houve provocações a imigrantes no Reino Unido e nos Estados Unidos há relatos de gente que avisa cidadãos estrangeiros que são meros convidados, bem como – espero que isto não seja verdade – de adolescentes que molestam raparigas agarrando-as pela púbis, influenciados pela conversa privada de Donald Trump que foi divulgada durante a campanha eleitoral. Depois da vitória de um candidato que apelou ao que há de mais baixo, incivilizado e mesquinho que há em cada pessoa, penso que há razões para ter medo.

E anda gente desta em fóruns de fotografia. Não me surpreende que sejam obcecados por equipamento, porque a sua mentalidade leva-os a querer ter uma câmara melhor do que a do vizinho, mas de que tipo de fotografia serão eles capazes, se não têm qualquer criatividade e são incapazes de pensar para além dos confins estreitos da sua limitada mundividência? Seria bom que não tivessem nem fotografassem gatos. Os felídeos não merecem.

M. V. M.

Gatografia e outros temas (1)

Fotografia por Claudio Rasano

A fotografia é um universo muito variado. Apesar de o meu interesse se centrar no aspecto gráfico – ou artístico, se preferirem – da fotografia, esta minha preferência não é partilhada senão por uma minoria. O que levanta a questão de sabermos do que se fala quando o tema é fotografia.

Para muitos, a fotografia é um mero meio de comunicar por imagens. É muito mais fácil tirar uma fotografia e mostrá-la do que escrever um pequeno texto, pelo que o visual está progressivamente a sobrepor-se à linguagem falada e escrita. O que, atenta a maneira como as pessoas se exprimem hoje em dia, com os erros mais grosseiros que se possa imaginar, acaba por não ser mau de todo. Prefiro ver uma má fotografia a uma frase cheia de erros.

Depois há aqueles que são fanáticos do equipamento. Embora não me surpreenda que este grupo exista de todo – eu fui audiófilo e vi gente que não aprecia música a discutir sobre o mérito dos cabos de colunas X comparados com os Y e Z –, o que me espanta é ser tão numeroso. E ser tão fácil encontrá-los: seja qual for a hora ou o dia, estão todos a escrever comentários no dpreview.com.

Este grupo tem características específicas. Não percebem nada de fotografia, não usam câmaras sofisticadas por necessitarem delas para se exprimirem melhor, mas porque sim e não têm um mínimo de imaginação. Mostrem-lhes uma fotografia de August Sander (por exemplo) e dirão que não é nada de especial e qualquer um é capaz de fazer fotografias bem melhores. Muitos deles compram câmaras como a Nikon D810 ou a Canon 5D Mk IV – note-se que estas pessoas compram câmaras pelas suas especificações, sendo as lentes meros “periféricos” – e o uso que lhes dão é, sobretudo, o de fotografar… os seus gatos! Há gente que publica dezenas de fotografias dos seus gatos com diferentes sensibilidades, aberturas e tempos de exposição, mas fotografam-nos junto a frigoríficos, em enquadramentos completamente desinteressantes e sem a menor noção de composição. Estes gatógrafos tornaram-se numa das principais fontes de irrisão da internet. (Para ser justo, já vi pior: um indivíduo que, em vez de fotografar um gato, preferiu fotografar quadros de cortiça, daqueles onde afixamos os avisos-recibo do telemóvel para não nos esquecermos de pagar.)

Eu, que só tenho uma fotografia do meu gato para mostrar (já a viram em dois ou três textos anteriores), não consigo ver qualquer sentido em comprar câmaras caríssimas para fotografar gatos (ou quadros de cortiça). Estas pessoas compram câmaras por comprar, porque podem, e não porque precisam. Em muitos casos compram câmaras semi-profissionais. Apesar deste disparate (é claro que nunca conseguirão perceber que é um disparate), e da sua profunda ignorância quanto a tudo o que é fotografia, não se coíbem de ir fazer comentários completamente absurdos para a caixa de comentários do dpreview.com.

Um caso com que me deparei ontem é, até agora, o melhor exemplo do que os ignorantes que se obcecam com equipamento pensam quando são confrontados com uma fotografia. A notícia era sobre os vencedores do prémio Taylor Wessing, atribuído pela National Portrait Gallery de Londres. A fotografia vencedora, do suíço Claudio Rasano, é a que encima este texto. Depois de ver a imagem e ler o artigo, deu-me curiosidade de ver o resto das fotografias de Rasano, porque esta vencedora integra-se numa série intitulada Similar Uniforms: We Refuse to Compare.

A primeira nota é que não é necessário ver esta fotografia no contexto das demais que integram a colecção: ela vale por si mesma. A impressão inicial que esta fotografia causa é a de ser um retrato banal de um estudante de um colégio obrigado a usar uniforme, mas esta é uma daquelas fotografias que diz muito mais do que aquilo que se pode perceber à primeira vista. O olhar e a atitude do rapaz – só o facto de essa atitude ter sido capturada é um sinal de mestria do fotógrafo – estão em completa contradição com a própria ideia de uniforme: quase se vê, na face do estudante, a vontade de rasgar o uniforme e soltar o adolescente livre e rebelde. Aliás, o desalinho da gravata é um pormenor que, só por si, conta esta história: o rapaz não cabe no uniforme. Este é demasiado limitativo e falha o seu propósito de tornar as pessoas homogéneas. A mensagem desta fotografia – bem como das restantes da colecção – é muito clara: os seres humanos são individuais. Cada um tem a sua personalidade e o conjunto de personalidades de um determinado grupo heteronomamente imposto – como os alunos de um colégio ou os soldados de um regimento – não pode ser reduzido à unidade. O ser humano não pode, por outras palavras, ser homogeneizado. O indivíduo prevalecerá sempre, a despeito das tentativas de uniformização. (Continua)

M. V. M.

Adeus, Sousa (2007-2016)

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Aconteceu o que tinha de acontecer. O Sousa morreu hoje, às 13h20, na minha casa. Sinto-me, evidentemente, destroçado, mas o que trago na mente é sobretudo a incompreensão e uma revolta mitigada. Não percebo por que teve de morrer: o meu gato tinha nove anos (serei ridicularizado se confessar aqui que lhe atribuía o dia 4 de Setembro como data de nascimento, por ter sido num 4 de Setembro que nasceu Anton Bruckner?) e era inocente. Não merecia morrer. Se ele tivesse dezoito anos e estivesse em declínio, aceitaria tudo sem mágoa e sem me questionar, mas morreu novo, de uma morte particularmente cruel e dolorosa, depois de cinco horas de agonia em que se debateu sem conseguir respirar. Gostava que, ao menos, tivesse morrido de súbito, sem dor, durante o sono, mas não – teve uma agonia longa, cheia de sofrimento e consciente. Ainda lhe ouvi miados de desespero. Passou as horas de agonia no quarto onde me fez companhia por tantos e bons dias, mas um último ímpeto levou-o à cozinha, possivelmente para beber água (ele estava a tomar um diurético), numa caminhada dolorosa, interrompida por quatro vezes para tentar retomar o fôlego. Morreu sem forças, lutando desesperadamente para inspirar ar, emitindo com isso ruídos doridos, capazes de perturbar mesmo o mais insensível e frio dos homens. Ruídos que foram esmorecendo até finalmente se extinguirem.

E eu assisti à morte dele. Quando regressei do trabalho para almoçar, o Sousa estava exactamente no mesmo lugar em que o vi antes de sair de casa. Enquanto eu almoçava, ele percorreu pela última vez o corredor que liga os quartos à cozinha atravessando a sala. Comoveu-me que ele se tivesse dirigido à cozinha, porque era o que ele fazia de forma rotineira, quando se apercebia que eu estava prestes a acabar de almoçar.

E morreu na minha companhia. É talvez disparatado, mas senti que devia estar à beira dele, mesmo sabendo que ele não atribuía o mesmo valor que um ser humano a esta presença. Mas o meu gato foi uma companhia durante praticamente nove anos – morreu um dia antes de completar esse tempo – e entendi que não merecia morrer sozinho. Eu sei, é estúpido: está na natureza dos gatos isolarem-se e morrerem sós. Sim, o Sousa era apenas um gato. Um gato, evidentemente, não é um ser humano. Mesmo se não é um porco nem uma galinha, é um animal. Gatos e homens são aliados, quando muito. A sua companhia não é sucedânea das relações interpessoais. Sei de tudo isto, mas não consigo deixar de sentir a dor, a estupefacção e mesmo alguma recriminação (devia tê-lo levado para a clínica, apesar de lá me terem informado que a condição dele era irreversível, em lugar de ficar a vê-lo morrer?) com a sua morte.

Resta-me o consolo de saber que lhe dei uma vida boa. Sim, ao mantê-lo comigo roubei-o à natureza, na qual poderia ter cumprido a sua condição de gato em pleno, mas não devo pensar desta maneira. Se não tivesse sido eu a adoptá-lo no dia 16 de Novembro de 2007, quando tinha apenas dois meses, teria sido outra pessoa qualquer. E se tivesse sido uma pessoa indiferente, ou uma daquelas que abandonam os animais antes de ir para férias? E, até a doença se manifestar, era um gato alegre, bem disposto e alerta, que passeava pela casa com a cauda bem erguida e corria e desafiava-me. Tudo sinais de que sentia a sua vida como boa (pelo menos pelos padrões felinos). Devo deixar que estas boas recordações se sobreponham às deste dia lamentável.

Adeus, amiguito.

M. V. M.

Marketing e a nova OM-D «profissional»

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É um facto bem conhecido dos profissionais do marketing: os consumidores deixam-se enganar facilmente. Alguns, aparentemente, gostam de ser enganados, especialmente nesta era de pretensos desenvolvimentos tecnológicos.

Uma das maneiras de iludir os consumidores e convencê-los a comprar aquilo de que não precisam é ofuscá-los com tecnologia. Resulta com os pixéis do sensor de uma câmara, mas também com uma data de inutilidades de que as pessoas se deixam convencer de que precisam como de pão para a boca. É o caso do vídeo 4K (quantos têm televisões e computadores preparados para 4K?) e dos valores ISO astronómicos, mas também do número de disparos sequenciais, da ligação Wi-Fi e do GPS. Ai do fabricante que se atreva a não incluir qualquer destas funcionalidades numa câmara: esta torna-se obsoleta e ridícula no próprio dia da sua apresentação.

Uma das companhias mais activas no que toca a encher as suas câmaras de funções inúteis é, curiosamente, a Olympus. Que longe estamos dos valores de simplicidade e bom design de Yoshihisa Maitani: agora as câmaras da Olympus são as mais complicadas de operar, com menus infinitos e inacessíveis, botões com duplas funções, interruptores e manípulos para tudo e mais alguma coisa – e tudo isto em aparelhos minúsculos, tal como minúsculos são os sensores 4/3. A insistência da Olympus neste sensor é algo que nem sei como qualificar: teimosia? Obstinação? Estupidez?

Os britânicos têm dois ditos interessantes que não têm correspondência na sabedoria popular portuguesa: um é you can’t make a silk purse of a sow’s ear (não se pode fazer uma bolsa de seda da orelha de uma porca) e outro, um pouco mais directo, é you can’t polish a turd (não se pode polir uma bosta). No entanto é isto mesmo que a Olympus anda a fazer desde 2002. Insistem num sensor – e consequentemente num formato e num sistema construído à sua volta – que nunca deu nem dará bons resultados.

Tudo isto vem a propósito da nova porta-estandarte da Olympus, a fastidiosamente denominada Olympus OM-D E-M1 Mark II. Evidentemente, esta câmara tem nas suas entranhas um sensor 4/3. A lista de funcionalidades, as mais delas inúteis, é infindável: 20 megapixéis, selagem contra os elementos, disparo sequencial de quinze exposições com o obturador mecânico e sessenta com o electrónico, tempo de exposição mínimo de 1/8000 com o obturador mecânico, estabilização de imagem em cinco eixos, gravação de vídeo em 4K, ecrã articulado em todas as direcções (como se pode viver sem isto?) e sensível ao toque, cento e vinte e um pontos de focagem automática, com detecção de fase no sensor, e umas coisas chamadas sensor shift e focus stacking – seja lá o que isso for.

Outro fenómeno típico das operações de marketing é o de nos tentar convencer que os progressos tecnológicos se sucedem a uma velocidade vertiginosa. No caso da Olympus, tentaram fazer-nos crer que a mudança do velho sensor Panasonic de 12,3 megapixéis para um fabricado pela Sony trouxe diferenças como da noite para o dia em matéria de qualidade de imagem. Conjugando isto com as funcionalidades enunciadas no parágrafo anterior, não surpreende que haja quem pense que a Olympus OM-D E-M1 Mark II é a câmara perfeita. Hmmm… não, não é. Esta profusão de tecnologia não contribui em praticamente nada para a qualidade de imagem.

Comecemos pelo ruído. Os níveis de ruído produzidos pelo sensor Sony de 20 megapixéis são embaraçosos. O ruído a ISO 800 é tão mau como o da minha E-P1 quando fotografo a ISO 400. Isto significa que, entre 2009 e 2016, tudo o que foi conseguido foi um progresso que se reduz a 1 EV. Muito pouco, e uma desilusão para quem se deixou enganar pelo marketing que prometia uma melhoria como do dia para a noite graças ao sensor novo. O ruído não era o único defeito do sensor Panasonic das primeiras mirrorless da Olympus: a tendência para estourar as altas luzes melhorou um pouco com a passagem para os sensores da Sony, mas as imagens continuam afectadas por uma claridade que não é a que vemos com os nossos olhos e que é o resultado da rápida saturação dos fotodiodos. Suporia, com base nisto, que também aqui os progressos não foram nada de sensacional.

Contudo, a Olympus está a pedir €1.800 por esta câmara, o que é mais do que custava a E-5, a última DSLR da marca. Com esta qualidade de imagem, o que esses mil e oitocentos euros pagam é a profusão de funções inúteis que esta câmara incorpora. Querem que se pague uma fortuna por uma câmara cuja qualidade de imagem não melhorou substancialmente em relação à E-P1 de 2009. Por este preço é possível comprar uma Pentax K-1, que é maior mas é uma full-frame e uma DSLR, com um visor óptico e uma qualidade de imagem superior. Ah – quase me esquecia de referir que a Olympus tem a pretensão de dizer que esta é uma câmara profissional. O sake que eles bebem às refeições é mesmo forte.

M. V. M.