Protecção de dados (onde se fala de cookies e de um regulamento europeu com 173 considerandos)

Hoje, por via de algumas solicitações no sentido de esclarecer dúvidas a esse propósito, estive a estudar legislação europeia, mais concretamente o Regulamento (UE) 2016/679 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 27 de Abril. A legislação europeia é sempre importante, porque no caso dos regulamentos é directamente aplicável no território de cada Estado-membro, mas este regulamento em particular é especialmente importante: estabelece o regime da protecção de dados pessoais.

Eu não sei se a generalidade das pessoas tem noção da importância, magnitude e complexidade da tarefa legislativa que a União Europeia empreendeu. Este regulamento tornou-se necessário para legislar acerca do tratamento de dados pessoais, atenta a facilidade com que estes dados podem ser colhidos e utilizados com os meios disponíveis na Internet. Estamos diante de fenómenos como o profiling – a definição de perfis que faz com que recebamos publicidade de acordo com os nossos gostos e preferências –, os cookies (que estão, obviamente, relacionados com a questão anterior), mas também os dados de saúde e aqueles dos quais constam informações que podem colidir com direitos fundamentais das pessoas.

Em grande parte, este regulamento – que entra em vigor em todos os Estados-membros no dia 25 de Maio – constitui uma Magna Charta para os consumidores de produtos e serviços da Internet. Estabelece-se um princípio geral de consentimento informado quanto ao tratamento dos dados, definem-se os direitos do titular dos dados e os deveres dos responsáveis pelo tratamento dos dados e, sobretudo, consagra-se o direito ao esquecimento: os dados pessoais não podem, salvo consentimento do titular, ser tratados depois de terem cumprido a sua função útil. Se eu fizer uma compra na Amazon, os dados devem ser apagados quando deixem de ser necessários. Inverte-se a prática anterior, pela qual o titular tinha de solicitar a eliminação dos dados pessoais.

A organização e manutenção dos dados é de tal maneira complexa que exige a designação de um responsável por cada entidade que proceda ao tratamento de dados, e a regulamentação é tão complexa que me deixou a pensar que um complexo burocrático desta dimensão não pode ser aplicável na generalidade dos casos em que há lugar ao tratamento de dados pessoais, mas o âmbito de aplicação do regulamento estende-se a toda e qualquer base de dados pessoais, com ressalva das estritamente particulares (como as listas de endereços de e-mail que cada um de nós tem nas suas contas de correio electrónico).

Curiosamente, o estudo que fiz levou-me a fazer uma experiência para testar a política de cookies de um determinado website norte-americano. Estão lá todas as exigências de informação e transparência previstas no regulamento, porque este último vincula o tratamento de dados feito por entidades exteriores à União Europeia que operem no seu espaço económico, como é (evidentemente) o caso dos websites. Mais interessante foi ter descoberto uma forma efectiva de evitar a remessa de publicidade comportamental – aquela que invade as páginas que visitamos e cujo conteúdo é determinado de acordo com as nossas preferências, as quais são estabelecidas com base nas informações recolhidas por via de cookies e de dados pessoais fornecidos. O website a que me refiro, apesar da ironia de também utilizar cookies, poderá ser considerado útil pelo caro leitor, já que através dele é possível bloquear «fornecedores que trabalham com operadores de websites para recolher e utilizar informações para fornecer publicidade comportamental online». O site é o http://www.youronlinechoices.com/.

Não, não me agradeçam: eu depois envio-vos a conta.

M. V. M.

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Fotografia móvel

Há um fenómeno que me parece estar já um pouco em desuso, mas como nunca escrevi sobre ele, esta ocasião parece-me tão boa como qualquer outra. O fenómeno é o seguinte: há pessoas reputadas como fotógrafos que, ocasionalmente, gostam de publicar fotografias de sua lavra nas «redes sociais», fotografias essas tiradas com telemóveis. Que pensa o M. V. M. disto?

Antes de mais, que é uma grande demonstração de vaidade. É como se esses fotógrafos dissessem a todo o mundo (ou a quem os quiser ouvir): «Ó pra mim, sou tão bom que até com o telemóvel faço obras-primas». Eu não duvido do interesse subjectivo dessas fotografias, algumas das quais até podem ser bem conseguidas, mas é um gesto de um incrível onanismo e, em último caso, sem qualquer utilidade. Eu até compreenderia se o fizessem no âmbito do patrocínio de alguma marca de telemóveis, mas estas fotografias só servem a vaidade de quem as tirou.

Pior ainda, estas fotografias são ilustrações da teoria mais estúpida que alguma vez assolou o Planeta Fotografia: a de que a melhor câmara é a que trazemos connosco. Eu penso que já tinha prometido não voltar a referir-me a este chavão, mas a verdade é que as fotografias a que me refiro são tiradas em condições ideais – i. e. que não expõem em demasia as deficiências de uma objectiva de plástico conjugada com um sensor minúsculo – e são fastidiosamente editadas. Em duas fases: a primeira é a que tem lugar no próprio telemóvel, com o processador a lutar valentemente contra as distorções, as aberrações cromáticas e o ruído, e a outra no Photoshop (designação genérica e universalmente adoptada da edição de imagem).

Numa palavra, as fotografias que esses «grandes fotógrafos» fazem com os seus telemóveis não são, de modo nenhum, representativas daquilo de que o telemóvel é capaz – e é muito pouco aquilo que um telemóvel consegue fazer. Vista em tamanhos pequenos, a fotografia até é capaz de causar boa impressão, mas quando se amplia as batotas tornam-se demasiado evidentes.

Mas o que me irrita mesmo é que as pessoas que apresentam estas fotografias fazem-no por quererem mostrar aquilo de que são capazes com uma câmara tão incapaz. É como se o Lewis Hamilton participasse num grande prémio com o meu Peugeotzinho: podia bater o recorde da pista para pequenos utilitários, mas seria dobrado várias vezes e não escaparia ao último lugar. Ou como se o Seve Ballesteros usasse um guarda-chuva em lugar de tacos de golfe: acertaria na bola, mas arriscava-se a não atingir o buraco. Ambos cairiam no ridículo – mas, por qualquer motivo, os fotógrafos que mostram fotos tiradas com telemóveis são aclamados. Dizem deles: «olha, ele até com um telemóvel é bom», mas esquecem que eles não construíram a sua reputação com câmaras sofríveis. Estas fotografias móveis – parece que há quem lhes chame assim – são meros devaneios, não são provas da qualidade de um telemóvel. Há que ter isto em mente.

M. V. M.

De volta à fotografia

Vamos voltar à fotografia, embora correndo o risco de alguns leitores desejarem que eu tivesse continuado a escrever sobre as minhas idiossincrasias musicais. É que o tema, hoje, é fotografia analógica.

Por uma conjugação aleatória de factores, estou a fazer duas experiências em simultâneo. Uma já sabem qual é: tem a Vivitar 24mm-f/2.8 por objecto. A outra é o Kodak Ultramax 400, um rolo de película a cores cujos resultados, ao ver as fotografias do meu amigo flickriano Tobi Gaulke, me pareceram suficientemente interessantes para justificar o acréscimo de preço em relação ao Agfa Vista (que, como de resto sabemos, está em vias de extinção).

Experimentar duas coisas ao mesmo tempo nunca é boa ideia, porque não é possível determinar qual dos componentes contribuiu para um determinado resultado: a saturação das cores – o que se nomeia a título meramente exemplificativo e hipotético – é trazida pela película ou pela objectiva? É evidente que tenho um meio de aferir objectivamente o valor do Ultramax, que é usar as objectivas com as quais tenho familiaridade, mas talvez agora os leitores compreendam por que me preocupei em fazer testes com a Vivitar 24mm com vista a determinar as suas características em relação à cor.

Ainda não posso dizer seja o que for quanto ao Kodak Ultramax, mas posso pronunciar-me acerca da película que usei anteriormente, a qual também havia estreado: a Ilford Pan 100. É uma versão mais grosseira do FP4, com a mesma tendência para exagerar as altas luzes e um pouco menos de acutância, mas é uma boa alternativa ao FP4, atenta a diferença de preço.

Houve qualquer coisa que correu muito mal com este rolo Ilford Pan 100: os últimos sete ou oito fotogramas estavam horrivelmente estourados, de uma forma que normalmente acontece quando se abre a tampa da câmara antes de rebobinar a película, mas eu tenho a certeza que não fiz nada disso. Eu sou honesto nessas coisas e já fiz esta asneira uma vez; não faria qualquer tipo de sentido estar a negar a pretensa falha diante de mim mesmo. Não foi essa a causa do problema. Aliás, se fosse, estaria bem menos preocupado, porque conheceria a causa. Isto pode ser uma falha clamorosa do fotómetro ou uma infiltração de luz na câmara. Não sei. Terei de mandar verificar a câmara.

Este problema deixou-me de tal maneira abúlico que só hoje arranjei coragem de me referir a ele no Número f/, apesar de ter as digitalizações desde Quarta-feira. Foi certamente esta a razão por que escrevi sobre outros temas que não a fotografia nos textos anteriores. Como Thomas Hobbes poderia ter dito perante esta minha perplexidade, oh well.

FFS!

Deixam-me escrever de novo sobre nostalgia musical, se eu prometer um texto sobre fotografia logo a seguir? Sim? Então aqui vai: inicialmente não vai parecer que estou a escrever sobre o passado, mas acompanhem-me durante mais algum tempo e verão como chego lá.

O álbum mais interessante que saiu nos últimos quatro ou cinco anos foi um LP com o título FFS. Este acrónimo, como os que andam mais tempo na Internet sabem, refere-se a uma expressão corrente, usada quando alguém se exaspera perante algo muito obtuso ou disparatado. É equivalente à nossa «por amor de Deus», mas «For God’s Sake», ou «for Christ’s sake», foram substituídas, na gíria popular, por «for f*ck’s sake». Assim, «FFS» é a abreviatura de for f*ck’s sake. Certo?

Não. Errado. No contexto que nos interessa, «FFS» é a abreviatura de Franz Ferdinand and Sparks, que é, em simultâneo, nome da banda que originou da reunião de dois grupos e do álbum que este novo colectivo engendrou em 2015. Os Franz Ferdinand são uma banda escocesa que apareceu em 2004, e os Sparks são um duo composto pelos irmãos americanos Ron e Russell Mael, cujas actividades musicais remontam aos finais dos anos 60 do século passado (embora editando como Sparks desde 1972).

Vamos abreviar um pouco as coisas. O melhor álbum dos Sparks é Kimono My House, de 1974. O estilo deste álbum oscila entre o glam rock e o vaudeville. (A voz de contralto de Russell Mael é adequada a líricas sarcásticas.) Deste álbum, a canção mais notória – o que não significa, necessariamente, que seja a melhor – é This Town Ain’t Big Enough For Both of Us. Depois os Sparks dedicaram-se a outros estilos, do disco à new wave, e ainda estão activos, apesar de serem dois velhinhos de 73 (Ron) e 69 anos (Russell). Uma coisa é certa: apesar de relativamente desconhecidos – o que é, evidentemente, uma pena –, os Sparks são uma das bandas mais importantes de sempre. A influência que exerceram estende-se até aos New Order e, sem eles, os Associates nunca teriam existido (a voz de Billy Mackenzie era a de Russell Mael levada a extremos caricaturais). Nem, provavelmente, os Franz Ferdinand.

Não sei como aconteceu o encontro entre os Sparks e os Franz Ferdinand. O que sei é que os irmãos Mael influenciaram a música dos Franz Ferdinand – há nestes o mesmo tom sarcástico –, mas FFS não é uma homenagem dos Franz Ferdinand aos Sparks. É um supergrupo, mas ao contrário daquelas azeitadas dos anos 80, como Queen com David Bowie, é um super-supergrupo. No sentido em que a sua música é simplesmente portentosa.

Não foi por acaso que citei Kimono My House. Muitas das canções de FFS seguem o estilo deste álbum. Police Encounters, por exemplo, é algo que os Sparks poderiam ter incluído neste álbum se em 1974 tivessem os meios de produção e execução actuais, mas a contribuição dos Franz Ferdinand acrescenta outra camada de riqueza às composições. E não – não se trata de uma esmola, de um convite patético à participação discreta dos irmãos Mael numa ou outra faixa: FFS é um álbum de perfeita sinergia entre os Franz Ferdinand e os Sparks. Os Mael são tão participativos como os membros dos Franz Ferdinand. A voz de Russell Mael continua excelente e mordaz, Ron Mael não esqueceu como se toca piano e se programa um sintetizador.

FFS é puro génio. É o álbum mais brilhante, divertido e excitante que foi lançado na última meia dúzia de anos. O meu único lamento é tê-lo descoberto quase três anos depois de ter sido lançado. É uma marca que fica na música desta década.

E dizem eles que as colaborações não funcionam. FFS!

M. V. M.

Nostalgia

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Roberta Flack

Por vezes sou acometido de acessos de nostalgia, o que me pode deixar imerso em estados de espírito que são, ao mesmo tempo, doces e dolorosos. Doces pelo prazer que evoco, dolorosos por esse prazer ter passado e nunca mais se repetir.

Há canções que me vêm à memória espontaneamente, vindas do fundo da minha infância. Pensava que, pela evolução dos meus gostos, estas canções tinham ficado para trás, irremediavelmente soterradas na poeira dos anos, mas sobreviveram. Com todos os seus defeitos e virtudes, elas voltam ciclicamente para me lembrar que tive um passado e que deixaram uma marca indelével ao passar por esses tempos da minha meninice. Estão gravadas em mim como protestos de amor nos troncos das árvores do parque. Claro que há muitas canções desse tempo que gostaria de nunca ter ouvido – como, por exemplo, todas as do falecido Demis Roussos -, mas outras vão permanecer na memória até ao fim dos meus dias.

Uma dessas canções é Une Belle Histoire, de Michel Fugain. Apesar de existirem inúmeras canções interessantes no estilo a que se convencionou chamar chanson française, nunca consegui sentir uma verdadeira empatia por Leo Ferré, Gilbert Bécaud ou Georges Brassens (entre outros). Deste período de ouro da chanson apenas retenho Je T’Aime (Moi Non Plus), de Serge Gainsbourg – em 1993, Barry Adamson lançou uma interpretação excelente no seu EP The Negro Inside Me, a qual recomendo vivamente – e Une Belle Histoire. As canções francesas desta era são irremediavelmente datadas, com exageros interpretativos e um excesso de ornamentação orquestral que me distrai e me faz repudiá-las. Os poemas, à custa de quererem parecer inteligentes, são intragáveis, e as vozes e instrumentações dão às canções um ambiente de festival da canção que simplesmente não me interessa.

Mas Une Belle Histoire tem uma melodia irresistível, que me persegue e assombra as minhas recordações. Se, ao menos, houvesse hoje uma versão menos festivaleira – imaginem o que seria se os Air fizessem uma versão! -, esta canção sairia do poço das memórias e ganharia uma nova vida.

Foi exactamente isto que aconteceu com outra canção que me vem periodicamente assombrar. Em 1996, os detestáveis Fugees roubaram ao esquecimento uma canção de 1973 (tinha o M. V. M. 9 anos de idade) intitulada Killing Me Softly With His Song, cantada originalmente por Roberta Flack. Com uma diferença importante em relação à hipotética e inexistente versão contemporânea de Une Belle Histoire: apesar da excelente voz de Lauryn Hill, a versão de Roberta Flack (uma cantora descoberta pelo fabuloso Les McCann) é infinitamente melhor que a versão dos Fugees. Aliás, o que estes fizeram não foi mais que mutilar Killing Me Softly With His Song.

Hoje dei por mim a escutar a versão de Roberta Flack no YouTube. Dizer que me soube bem não chega para exprimir o que senti. Para minha surpresa, foi a muito custo que evitei chorar como uma Maria Madalena. Tal o poder desta canção. Seria bom ouvi-la com arranjos mais actuais, mas está muito bem como está. Pelo menos não está muito datada. Roberta Flack é uma grande voz da Soul americana. Não vou dizer que é injustamente ignorada, porque ela mesmo se encarregou de destruir a sua reputação nos anos 80, ao cantar duetos foleiros com um tal Peabo Bryson, mas merece ser lembrada por esta canção excepcional – mesmo que Killing Me Softly With His Song tenha sido um mega-êxito no seu tempo.

Chega de confissões embaraçosas. Amanhã vou escrever sobre fotografia outra vez. Se não estiver demasiado deprimido por causa de alguma canção de 1973, claro.

M. V. M.

Os meus testes

Isto aqui no Número f/ foi uma verdadeira overdose de técnica nos últimos dias, mas teve a sua justificação. Não simplesmente por ter uma objectiva a que, impropriamente, chamo nova – e lembrem-se sempre que as objectivas são o coração de um sistema fotográfico –, mas porque estes temas são do interesse do leitor. E do autor também, claro.

É evidente que estes testes correm o risco de ser considerados a) um exercício fútil ou b) uma demonstração de pedanteria do autor. Fútil por o teste ser de uma objectiva que já não se fabrica há muitos anos, pedante por o autor não ter meios técnicos para estes testes, mas apresentá-los de qualquer modo. Que posso eu dizer acerca disto?

Quanto à futilidade, penso não ser nenhum delírio dizer que há um interesse cada vez maior pela fotografia analógica. Este interesse, que é uma reacção ao abastardamento da fotografia provocado pela generalização das câmaras digitais, faz com que exista um mercado considerável de material fotográfico usado. Poderão, ainda assim, replicar que testar uma objectiva de focagem manual é como ensaiar um automóvel dos anos 70 da década passada, mas qual é o problema? Muitos gostam de automóveis clássicos – ou pelo menos, se não podem conduzi-los, de desfrutá-los de outras formas. Acaso nunca viram o teste do Lamborghini Miura no Top Gear, ou os vídeos da colecção de Jay Leno? (Quanto a mim, se me dessem a escolher entre um Lamborghini Miura ou um daqueles origami que são os Lamborghini contemporâneos, não hesitaria nem por um segundo!)

No respeitante à pedanteria, eu não experimento equipamento por profissão, nem tenho a pretensão de dizer a última e mais autorizada palavra sobre os itens que experimento. As experiências que faço têm um único objectivo: o de saber se o material é idóneo a cumprir a função de que se vai encarregar. De resto, não ofereço largura de banda a produtos que, pela sua falta manifesta de qualidade, não merecem a minha atenção: eu usei o zoom 14-42 que a Olympus lançou juntamente com a E-P1, e a sua qualidade era de tal maneira medíocre que o devolvi no dia seguinte. Não me preocupei com as aberrações cromáticas ou a distorção, porque não valia a pena individualizar estes aspectos do desempenho quando tudo, nesta objectiva, era menos que sofrível. Este zoom era pior que a humilde panqueca de 17mm, e a falta de qualidade era tão evidente que não precisei de testar este ou aquele particular para atingir essa conclusão.

Os testes servem, deste modo, para verificar a conformidade de um produto com as minhas necessidades. Eu não quero que as minhas fotografias apresentem distorção geométrica e aberrações cromáticas, o que me levou a nunca me ter interessado pela Olympus OM 28mm-f/2.8 que experimentei: apesar de mais fácil e agradável de utilizar que a versão f/3.5 que usei até adquirir a Vivitar, os níveis de aberração cromática e distorção eram simplesmente inaceitáveis, pelo que o meio f-stop de vantagem não justificava uma eventual substituição.

Em poucas palavras: faço testes de material obsoleto em condições que, de tão subjectivas, dificilmente podem corresponder aos interesses e necessidades de outros leitores, o que pode ser havido como um pouco onanístico. Que interessa? O importante é que me divirto ao fazer estas experiências – mas não é uma diversão inteiramente inútil, porque aquelas ajudam-me a seleccionar o material que melhor corresponde às minhas intenções fotográficas. E não é absurdo que sejam úteis a alguns leitores – ou, pelo menos, que lhes sejam interessantes.

M. V. M.

Mais testes

Ainda não sei o que verdadeiramente vale a Vivitar 24mm-f/2.8 – só o saberei quando vir fotografias gravadas em película, tiradas com a câmara para a qual foi concebida –, mas é possível testar algumas qualidades montando-a na E-P1 por via de um adaptador. Estes testes não me dão resposta à questão de saber se há distorção geométrica, porque o que acontece, quando se monta uma objectiva concebida para o formato 135 numa câmara com sensor 4/3, é o equivalente a um corte da imagem pelas bordas. Como as distorções se manifestam nos extremos do enquadramento e estes são excluídos pelo crop factor, é impossível medir a distorção produzida pela objectiva com um mínimo de precisão.

Mas é possível aferir outras qualidades. Ou defeitos. Um dos grandes problemas das grande-angulares, especialmente das que são construídas para ser económicas, é o nível de aberrações cromáticas. Estas costumam manifestar-se nas orlas dos objectos, quando há contrastes apreciáveis, e consistem em manchas coloridas de cor roxa  quando a aberração cromática é no eixo vertical (aberração cromática lateral), ou num tom entre o violeta e o azul (purple fringing), no caso da aberração cromática transversal ou axial. A Olympus OM 28mm-f/3.5, que foi substituída pela Vivitar, apresentava aberrações cromáticas axiais extremamente agressivas, de um azul semelhante ao do equipamento do Futebol Clube do Porto (o que não me impressionava, atenta a minha aversão pelo futebol).

Outro aspecto mensurável é a resistência da objectiva à luz lateral, que se manifesta através de clarões e manchas na imagem. Como a Vivitar tem uma abertura maior que a OM 28mm-f/3.5, a lente frontal é também maior, logo mais exposta a estes fenómenos ópticos espúrios.

Comecemos por este último: como se pode ver na imagem acima, esta objectiva tem um problema bastante sério com a luz lateral. Embora estas aberrações apenas surjam quando se fotografa contra a luz em certos ângulos, a Vivitar é bastante vulnerável e precisa de ser usada com um para-sol. (Onde é que eu vou encontrar um para-sol para uma objectiva de 24 mm de distância focal e com um aro de 52 mm de diâmetro?)

Quanto às aberrações cromáticas, há boas e más notícias. A boa é que não existe praticamente aberração cromática lateral, que costuma ser a mais agressiva. Se houvesse, a linha vertical que se vê na imagem maior teria uma orla de cor azul ou roxa, o que não se manifesta. Em contrapartida, existe aberração cromática axial, como se vê na imagem mais pequena (que é um crop a 100% da maior). Mesmo assim esta deficiência é bastante discreta e o nível geral de aberrações cromáticas é muito melhor do que eu esperava.

A Vivitar é, claramente, uma objectiva que foi concebida para ser vendida aos milhões a um preço acessível, pelo que não podia esperar um desempenho óptico perfeito. Contudo, a julgar por estas experiências, é uma objectiva com um excelente conjunto de qualidades. Estas ainda não são conclusões definitivas, mas parece-me que tenho motivos para ficar satisfeito. Muito satisfeito. Preciso é de um para-sol.

M. V. M.