O Rio de René Burri

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Apesar de os Jogos Olímpicos terem acabado, o Rio de Janeiro deixou um rasto de interesse e curiosidade considerável; é como se, por obra das olimpíadas, as pessoas se tivessem apercebido da existência da cidade.

Infelizmente, nunca efectuei nenhuma viagem que implicasse atravessar um oceano, o que é o mesmo que dizer que nunca estive no Brasil (e, a maiori ad minus, no Rio de Janeiro). Tudo o que sei do Rio é o que vejo na televisão e leio nos jornais. Naturalmente, sendo o Brasil o que é para Portugal e os portugueses, tudo o que se passa no Brasil tem repercussões aqui, como aquele gémeo que sente na carne a dor que o irmão sofre. Apesar de a pronúncia do português do Brasil nunca parar de me irritar – soa-me invariavelmente como uma paródia à minha língua –, há muita coisa que Portugal devia aprender com o Brasil. Um país que tem a Embraer deve ter gente que percebe de alguma coisa mais que futebol e sertanejo universitário (que é aquilo que o português médio pensa quando o tema é o Brasil).

E organizaram uns Jogos Olímpicos. Ao que parece, correu tudo bem, salvo alguns problemas pontuais que foram imediatamente resolvidos. O que significa que o Brasil não é um país de mulatos mandriões, bandidos e alternadeiras, como muitas vezes se pensa deste lado do Atlântico. Claro que depois há o golpe constitucional que afastou a Presidenta Dilma (o “impíchimã”, como lá se diz), em que um grupo de senadores corruptos fez cair uma Presidência por alegações de corrupção, mas se os próprios brasileiros vaiaram o vice-presidente que substituiu a Dilma durante a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, a minha confiança no povo do Brasil permanece intacta.

Tudo isto veio a (des)propósito do interesse que os Jogos Olímpicos despertaram em relação ao Rio de Janeiro. Isto estendeu-se à fotografia, e logo foram lembradas as fotografias que René Burri fez na cidade-maravilhosa-cheia-de-encantos-mil.

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Que fotografias absolutamente estrondosas! Que fotógrafo fabuloso! René Burri foi, como sabemos (ou tínhamos obrigação de saber), um dos génios da fotografia. Foi um membro proeminente da Magnum e um fotojornalista que ajudou a transformar o fotojornalismo numa forma de expressão criadora. Esqueçam a fotografia do “Che” por Alberto Korda que anda a ornar camisolas e tampas da mala de Hyundais: as fotografias que René Burri fez de Ernesto Guevara são, de muito longe, as melhores.

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Eu conhecia – conheço – muitas fotografias de René Burri, mas nunca tinha visto nenhuma das que fez no Rio de Janeiro. São fotografias em que Burri adaptou a sua linguagem plástica em função do lugar, mas sempre com o mesmo sentido estético que caracterizou a sua obra. Se estas fotografias valem a pena? São exultantes, de uma exuberância contida, formalmente perfeitas, um pouco parnasianas, mas sempre rigorosas – pode tirar-se um suíço da Suíça, mas não se pode tirar a Suíça do suíço – e aprimoradamente compostas. São um festim de formas, ângulos, vectores, contrastes – todas na linguagem abstracta do preto-e-branco. Um dos conjuntos de fotografias mais brilhantes que alguma vez vi – e, se me é permitido dizê-lo, uma forma de ver o Rio que parece inspirada na arquitectura de Óscar Niemeyer. A obra dos dois é extravagante na sua simplicidade, eufórica no seu rigor.

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Vale a pena conhecer René Burri. Não apenas as fotografias do Rio e os retratos de Che Guevara, mas toda a sua obra. Mesmo as fotografias mais recentes, a cores. René Burri foi um fotógrafo prolífico e um dos mais brilhantes de sempre.

M. V. M.

Muito trabalho

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Louis Daguerre

Por força de actividades profissionais inesperadas, vou ter de ficar algum tempo sem escrever (ou, pelo menos, a escrever mais esparsamente). De qualquer modo, não se está a passar nada de extremamente relevante no mundo da fotografia. Se tivesse leitores mais participativos, pedir-lhes-ia para me contarem como passaram o seu Dia Mundial da Fotografia (já agora, sabiam que esta efeméride assinala a data da liberação da patente do daguerreótipo pelo Estado Francês, em 1839?), mas não vou insistir demasiado. O meu dia 19 de Agosto foi passado a trabalhar, por isso não houve fotografias.

Uma última nota: hoje experimentei as capacidades fotográficas do meu smartphone novo. Se os leitores estão familiarizados com o pontilhismo de Georges Seurat, podem ter uma ideia do que os níveis de ruído fazem às imagens. Quando alguém chegar à vossa beira com conversas sobre a qualidade de imagem do seu smarphone, riam-se na cara dele (ou dela).

M. V. M.

Já tenho um smartphone. So what?

Pronto: de repente tornei-me imensamente actual e contemporâneo. Já tenho um smartphone. Agora já posso tirar selfies, jogar Pokémon Go e estar sempre conectado, como toda a gente. Posso publicar as fotografias do meu almoço no facebook instantaneamente, de maneira a satisfazer a curiosidade que os meus duzentos e sessenta e sete amigos sentem de saber o que estou a fazer em cada momento da minha vida. Viva!

Na verdade, não sinto que a minha vida tenha mudado nem um bocadinho. Sim, agora tenho um smartphone, mas é apenas um pequeno computador que posso ter sempre comigo. Vou usá-lo tal como usei o telemóvel que este novo aparelho vem substituir, apenas com a possibilidade de aceder à internet de vez em quando, sempre que tiver necessidade disso e estiver afastado do meu computador (que vai ser sempre o meio preferencial de navegar na internet).

Na verdade, a proliferação de smartphones deixa-me um pouco preocupado. Sinto que, graças a eles e aos tarifários pós-pagos, a generalidade dos seus utilizadores prefere falar com quem está a comunicar via GSM a fazê-lo com a pessoa que está a seu lado, em carne e osso. Conheço gente que não tira os olhos do ecrã dos seus smartphones, mesmo quando está à mesa e ainda que acompanhada de outras pessoas.

Depois há aquelas coisas incompreensíveis como o Pokémon Go. É, simplesmente, estúpido demais. Há quem diga que é interessante porque faz as pessoas mexerem-se e promove o convívio, mas estão a mexer-se com fins absurdos e não promove convívio nenhum: as pessoas que se aglomeram na caça aos Pokémons não comunicam entre si porque estão com os olhos permanentemente cravados no ecrã dos seus smartphones.

Quanto à fotografia, é muito simples: nunca vou usar este smartphone para fotografar. O aparelho, que é um Asus (tal como o meu computador), tem uma câmara traseira de 5 MP e uma dianteira – a das selfies – de 0,3 MP. Daqui não pode resultar nada de bom, mas não quero saber: aliás, tenho a impressão que, no meu íntimo, escolhi este smartphone exactamente por não ter aptidões fotográficas. Para que quero fotografar com isto, se tenho uma Olympus OM-2?

Ah, claro: tenho uma câmara sempre à mão. Para quê? A minha fotografia não é espontânea e, de resto, a pretensa rapidez dos smartphones é uma mentira que alguns afanosamente cultivam. Na verdade, entre as pessoas que vejo a fotografar, as que mais demoram a tirar uma fotografia são as que têm smartphones. E, quanto à qualidade, estamos conversados…

Para ser justo, devo dizer que este smartphone, com o qual posso aceder à internet a partir de virtualmente qualquer lugar, é infinitamente mais evoluído que o telemóvel que vinha usando até hoje. E este último foi cerca de 50% mais caro. A maneira como a tecnologia evolui – concomitantemente com a redução dos preços – é simplesmente notável. Aliás, a capacidade de memória destes smartphones ultrapassa a de computadores recentes. Chamar a estes aparelhos «telemóveis» é completamente errado: eles são computadores miniaturizados. O computador que uso para escrever e publicar estes textos não tem um processador Quad Core, mas o meu smartphone tem. Impressionante!

Contudo, a minha abordagem às comunicações móveis não vai mudar substancialmente. Vou continuar a deixar o aparelho em casa quando partir para as minhas expedições fotográficas e não vou andar com ele colado ao ouvido a toda a hora. Também não vou aceder muito à internet: é muito mais confortável fazê-lo defronte a um ecrã de boas dimensões. E certamente não vou usá-lo para fotografar – embora esse uso seja mais aceitável, bem vistas as coisas, do que empregá-lo para jogar Pokémon Go.

M. V. M.

Smartphones e outras coisas

Ontem, 18 de Agosto, aconteceu uma daquelas luas cheias gigantescas que ocorrem uma vez em cada cinco anos. O satélite natural do planeta Terra aparecia tão grande que quase parecia poder-se tocá-lo. Estando a passear à beira-rio com dois amigos munidos de smartphones, era uma fatalidade que eles decidissem fotografar aquela lua enorme e amarela, pendurada no céu como um queijo monstruoso.

Evidentemente, as fotografias ficaram uma rica trampa. Tremidas, com a lua reduzida a um ponto minúsculo, borratado e branco, com uns céus azul-ganga como resultado do péssimo equilíbrio dos brancos. Um dos meus amigos teve dificuldades porque o telemóvel se recusou a focar. Passou-se quase um minuto até que o aparelhinho dito inteligente condescendesse em fazer o que o proprietário mandara e finalmente mostrasse as linhazinhas brancas da focagem automática. A perspectiva, essa, era ridícula: se eles queriam fotografar a lua pelo tamanho descomunal com que se apresentava nessa noite, tiveram uma desilusão ainda maior que a dimensão do astro. E aqueles sensores do tamanho da cabeça de um prego encarregaram-se de estourar a luz da lua, que deixou de ser amarela para se tornar num branco fluorescente.

Adiante. No dia seguinte, depois de  pensar no assunto muito seriamente ao longo das últimas semanas, resolvi mudar de tarifário do meu telemóvel. Concluí que estava a impedir-me de fazer chamadas por causa de um tarifário pré-pago antiquado que me consumia trinta cêntimos por minuto. Dirigi-me a uma loja do meu operador e, depois de assinar um contrato que quase rivalizava com um volume da Encyclopaedia Britannica, resolvi indagar preços de smartphones. O meu telemóvel tem sete anos de bons e leais serviços e não mostra quaisquer sinais de mau funcionamento, mas a despeito de uns rudimentos de conectividade não é um smartphone verdadeiro e próprio. Ligar à internet é impossível porque não tem um sistema operativo decente. Nos dias que correm nunca se sabe quando vai ser necessário aceder à internet, pelo que ter um aparelho no bolso que permita essa ligação é uma boa ideia.

Curiosamente, o empregado pareceu dar uma importância desmesurada à câmara de cada um dos telemóveis (perdão: smartphones) que ia sugerindo. A certa altura já ele tergiversava acerca dos megapixéis da câmara traseira e da frontal; vi-me forçado a encarrilar a conversa e chamá-lo à realidade: eu queria um telefone, as aptidões fotográficas não me interessavam. (Especialmente depois de ver os fracassos fotográficos dos meus amigos na noite anterior.) Nesse momento o jovem usou o tipo de argumento que pode ser lido nos fóruns de fotografia: que era bom ter uma câmara sempre à mão porque nunca se sabe quando a oportunidade de fazer uma boa fotografia vai aparecer.

E pronto. Fiquei mais rico. Aprendi que aquela treta (sobre a qual tinha jurado não voltar a escrever) de a melhor câmara ser a que temos connosco é, afinal, conversa de vendedor de telemóveis (perdão: de smartphones). Eu bem sabia que existia uma razão ponderosa para não levar aquele argumento a sério. As câmaras dos smartphones não têm qualidade e são lentas e erráticas. Que me importa capturar aquele momento se a fotografia vai ficar uma bosta – no caso de conseguir sequer tirá-la? No que respeita à lua gigante, qual era o interesse de fotografá-la? Ficar como recordação não era com certeza. Partilhá-la no facebook? No momento em que a descarregasse, quantas dessas fotografias não estariam já a ser vistas?

Decididamente, não tenho qualquer interesse em usar um telemóvel (perdão: smartphone) para fotografar. Eu não vou morrer, nem ter um ataque cardíaco ou ser abandonado por toda a gente se não tirar fotografias de tudo o que vejo à minha frente. Apenas quero fazer fotografias que valham a pena – e, de preferência, com um módico de qualidade. Por vezes é melhor e mais bonito ver as coisas que fotografá-las.

O que um telemóvel que eu venha eventualmente a adquirir não vai certamente fazer é servir para caçar Pokémons. Todas as noites o jardim do Passeio Alegre (aqui no Porto) é infestado por jogadores de Pokémon Go. Francamente – é possível conceber coisa mais estúpida que o este jogo? Centenas de pessoas concentradas em lugares públicos com o nariz enfiado no ecrã de um smartphone? Poupem-me!

M. V. M.

Compreender

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Todas as artes se renovam. Há nelas como uma necessidade de evoluir, de constantemente transgredir os limites que se vão solidificando à medida que os gostos se estabelecem. Isto chama-se, provavelmente, inconformismo – e é o motor que faz com que a arte (tal como o conhecimento científico e outros domínios) progrida e se transforme em permanência.

Este movimento é vital para as artes. Naturalmente, a solidificação dos gostos (ou talvez seja uma sedimentação) implica que exista sempre alguma resistência às mudanças nos cânones estéticos. Depois de o rosto humano ter sido descrito com precisão – apenas variando a nitidez do traço, i. e. a técnica – chegaram os cubistas e desconstruíram as suas formas; tendo sido sempre composto na escala cromática, o Jazz foi revolucionado quando Thelonious Monk usou a escala diatónica. August Strindberg e Samuel Beckett introduziram temas estranhos e incompreensíveis no teatro, Kafka transformou um homem num insecto gigantesco. Em qualquer dos casos, as artes evoluíram e foram criadas novas formas de expressão.

Estas evoluções nunca deixaram de ter oposição. Alguns dos exemplos acima foram drásticos e revolucionários, mas houve outras renovações mais subtis, também elas acompanhadas de resistência dos gostos que se implementaram. Aconteceu assim quando Beethoven decidiu abandonar as influências de Haydn e Mozart, ou quando Seurat introduziu o pontilhismo na pintura.

A comoção que estas mudanças trouxeram aconteceu porque confrontaram as correntes estéticas existentes. É fácil, ao crítico acomodado, ridicularizar os desvios em relação aos padrões tradicionais; muito mais difícil é assumir que essas mudanças não aconteceram por mera zombaria ou desrespeito e foram introduzidas por artistas que dominavam na perfeição as suas artes. Numa palavra, o que é difícil é compreender o que estas novas correntes pretendiam exprimir. Uma vez ultrapassada esta barreira, a estética pode ser discutida, mas não a validade dos conceitos introduzidos, ou o seu lugar na arte.

Deste modo, é importante compreender o que um artista aparentemente desinserido pretende dizer. Tudo isto ocorreu-me ontem à noite, depois de ver um pequeno documentário na TV. O documentário pertence a uma série chamada Contacto, produzida pela Magnum, e o tema do episódio de ontem era a obra de um dos fotógrafos mais incompreendidos de sempre – Bruce Gilden.

É muito fácil criticar as fotografias de Bruce Gilden: os enquadramentos nem sempre são os melhores, as caras são distorcidas pelo uso de lentes de distância focal curta, a iluminação é demasiado crua (Bruce Gilden costumava fotografar com a câmara numa mão e um flash na outra) e os conteúdos são, por regra, desconfortáveis: rostos feios, macerados e desgastados pelo tempo e pelas agruras da vida, figuras grotescas e marginais a cuja visão a maior parte de nós é geralmente poupada. É bem mais fácil criticar estas características das fotografias de Bruce Gilden do que tentar entender o que ele quis dizer com elas.

E o que ele quis foi exprimir a diversidade da vida na rua. Atraíram-no sempre o exótico, o incomum, o extravagante, o anormal (se posso exprimir-me assim). Não há, na fotografia de Gilden, lugar para o cliché, para o género de fotografia que visa agradar a toda a gente (o que é sempre um esforço estúpido, já que nem todos gostam das mesmas coisas).

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Um caso exemplar é o das fotografias de orientais. Eu via aquelas fotografias sem as entender: gente estranhamente vestida, gente tatuada, homens servilmente acendendo os cigarros de outros, poses bélicas e estranhas (a estranheza é recorrente em Bruce Gilden) – e tudo isto em fotografias que são close-ups tão reais que se tornam desconfortáveis de ver. O que eu não sabia – e fiquei a sabê-lo ontem – é que estas fotografias são da Yakuza, equivalente japonês da Máfia.

De repente compreendi aquelas fotografias e vi-as com olhos renovados. Tudo fez sentido, tudo encaixou onde devia. Se fiquei a gostar delas? São fotografias que transcendem a mera estética. É possível que o público não entenda como uma fotografia pode ser desligada da estética, mas as fotografias de Bruce Gilden contam histórias. O seu interesse é este, a sua beleza está em vermos através delas o mundo que Bruce Gilden viu.

Quem não entender isto não pode ter a menor apreciação pelas fotografias de Gilden. Para quem limita a sua apreciação à estética, serão sempre fotografias de pessoas feias, feitas a distância curta com um flash apontado à cara delas. Contudo, são fotografias como as de Bruce Gilden que fazem evoluir a arte fotográfica.

M. V. M.

Guerras (a propósito do estilo dos textos do Número f/)

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Quando eu escrevo, torna-se-me inevitável cultivar um estilo próprio. (Na fotografia também sou assim, felizmente.) Além de ter cuidado com a gramática, a ortografia e a sintaxe – o que não significa que os erros não aconteçam –, procuro que os textos me saiam impregnados de metáforas, hipérboles e outros artifícios de estilo. Não sou assim por pedanteria, nem para mostrar que sou um erudito, mas o que é facto é que tenho uma profissão na qual escrever bem é mais que uma opção: é um imperativo. Além disto, deixei-me influenciar por um sem-número de escritores de ficção que vão desde Eça a Gonçalo M. Tavares, passando por Luiz Pacheco (que foi quem melhor tratou a língua portuguesa no Século XX). Não consigo desfazer-me deste acervo de influências quando escrevo seja o que for.

E tenho uma preocupação para com os leitores: faço por que os textos não sejam maçadores. O que explica que a linguagem seja tão leve e fluída quanto me é possível, mas também que recorra às metáforas e hipérboles a que aludi antes, com o intuito de tornar os textos mais leves (embora nunca levianos). Hélas, há aqui um problema ao qual permaneci mais ou menos alheio até há pouco: nem toda a gente que lê o Número f/ tem predisposição para interpretar os textos quando estes comportam certas expressões e recursos. É bem possível, até, que possa considerar que tenho sorte por as pessoas não interpretarem os textos em que equiparo o fotómetro a um tirano malvado que conspira para arruinar as fotografias como manifestações de decrepitude mental.

A explicação para esta divergência entre a reacção que espero dos leitores e a que estes – ou parte deles – demonstram é simples: quem vem aqui fá-lo à procura de uma linguagem directa e de um cariz predominantemente técnico. Deste modo, o uso de certos recursos com os quais pretendo ser sarcástico ou bem humorado pode ser mal entendido. É certo que há pessoas que têm uma capacidade especial de mal-entender tudo o que lêem, porque vêm à procura de confirmação (ou conformação) das suas próprias ideias e ficam frustradas quando isso não acontece, mas há também quem entenda que um blogue de fotografia não é lugar para metáforas e hipérboles.

Porquê? Se este é um blogue voltado para a fotografia enquanto forma de expressão artística, por que não posso usar recursos literários nos meus textos? Leitores apontaram-me que eu faço julgamentos, vejo guerras em tudo e que tomo partido nesses putativos conflitos bélicos, mas isto deve-se à sua falta de predisposição para ler as coisas para além do seu sentido literal (ou, o que é mais certo, a não esperarem as minhas formas de expressão num blogue sobre fotografia).

Entendamo-nos: quanto aos julgamentos, era só o que faltava se eu não pudesse exprimir as minhas opiniões no meu blogue! E, quando aludo às guerras (entre analógico e digital, entre câmaras mirrorless e DSLR, etc.) no Número f/, essa menção não significa que eu as veja como guerras, nem que seja dicotómico, ou que tome um dos lados de uma qualquer (suposta) trincheira. Simplesmente, tenho o mau hábito de frequentar um website de referência e ler os comentários que lá se escrevem. O que ali não falta é partisanos dispostos a morrer e a matar pela sua marca de equipamento favorita. Combatentes vestidos de branco e vermelho digladiam-se contra outros de farda preta e amarela, com palavras e números fazendo as vezes de espadas e baionetas; os millenials que abraçaram a causa do digital emboscam e atacam os hipsters que usam película, enquanto os jovens (pelo menos de espírito) que aderiram às mirrorless bombardeiam sistematicamente as posições dos velhos que, na sua senilidade, se arreigam a esses artifícios do passado que são os espelhos e os pentaprismas.

É evidente que estas não são guerras nenhumas. Nem sequer deviam ser motivos de discórdia, uma vez que são questões de gosto e preferência. Quanto ao M. V. M., que usa uma câmara mirrorless digital e uma SLR analógica com espelho e pentaprisma, a linguagem bélica é usada por mero sarcasmo. Na verdade, considero aquelas discussões ridículas. Quem lê o Número f/ com atenção sabe que não sinto senão desdém pelas diatribes sobre equipamento e que o que importa é as fotografias. Se há uma guerra na qual estou disposto a combater, não é decerto por uma marca ou um tipo de equipamento: é pela excelência, pela originalidade, pelo intuito criativo. Os meus inimigos nesta guerra imaginária são a vulgaridade e o plágio, a mediocridade e a imitação. Nunca me pareceu importante saber que câmaras usam Harry Gruyaert ou William Albert Allard, mas conhecer o maior número possível das suas fotografias pareceu-me sempre de uma importância inadiável.

É evidente que tenho pena que haja quem não tenha predisposição para entender certos recursos que uso nos meus textos, mas não vou mudar. Por um lado, penso que, se for sempre literal e directo, os meus textos se tornarão aborrecidos e iguais a muitos outros que se podem ler na internet; por outro, entendo que não sou eu quem tem de mudar: são os leitores. Se for eu a mudar, estarei a rebaixar os meus padrões; se os leitores se predispuserem a ler as coisas com mais subtileza, só terão a ganhar.

(Texto ilustrado por uma fotografia de W. Eugene Smith, o fotógrafo predilecto do autor)

M. V. M.