Técnica

Hoje foi dia de meia-maratona aqui no Porto. Conjugaram-se, neste dia, quatro factores que me levaram a tomar uma decisão –  a de voltar a fazer fotografias técnicas. Esses factores, ou condições, foram: 1) a meia-maratona, 2) o facto de morar perto de um ponto do percurso da prova, 3) o céu estar encoberto e 4) estar a usar uma película 100 ISO.

Há desportos de que gosto, e depois há outros que me causam bocejos; e, dentro de cada desporto, pode haver uns de que gosto e outros que me induzem sono. O atletismo é um exemplo: aprecio – embora não faça qualquer esforço para conhecer os calendários da Federação Internacional de Atletismo nem os horários das televisões – modalidades como os saltos à vara, em altura e em comprimento e o triplo salto. O lançamento do dardo é interessante, mas o de pesos nem por isso (ver gente gorda a rodopiar e a berrar está a par com o curling e o futebol de praia no meu rol de preferências). Mas o que não gosto mesmo é de corridas, com excepção de algumas provas de sprint e estafetas (embora estas últimas me produzam a curiosa sensação que o atleta está a perseguir o seu antecessor com o intuito de lhe dar uma pancada na cabeça com o testemunho).

A minha aversão às corridas de fundo e meio-fundo – penso que estou a utilizar a terminologia atlética correcta – não significa que não saiba reconhecer interesse fotográfico nelas. Eu fotografo muitas coisas de que não gosto só por me parecer haver nelas potencial para uma fotografia interessante. No caso desta meia-maratona, as condições que enumerei no primeiro parágrafo conjugaram-se para fazer fotografias técnicas: a escassez de luz permitiu-me, através do uso de uma abertura estreita (f/16!), seleccionar um tempo de exposição longo, que no caso foi 1/60. Com estes valores, tinha duas técnicas à escolha: o panning e a distorção por arrastamento. A primeira perdeu interesse, porque qualquer maçarico que quer provar ser um grande fotógrafo a usa; mas a distorção por arrastamento interessa-me.

O momento que escolhi não podia ter sido mais oportuno: no ponto onde estava iam cruzar-se os atletas da frente com os retardatários, que são aqueles que correm devagaríssimo ou andam a passo, mas participam para ganhar uma T-shirt e um boné. (Claro que a pista estava dividida por gradeamento, de maneira a que os competidores não embatessem frontalmente nos retardatários.) Felizmente, consegui fotografar o quinto classificado, porque isolar dos quatro primeiros no enquadramento foi impossível. Curiosamente, logo a seguir o nevoeiro levantou, o que me teria obrigado a reduzir os tempos de exposição e impossibilitaria o arrastamento. Como só vou ver a fotografia depois de revelada e digitalizada, não sei se consegui o que queria, mas penso que 1/60 não terá chegado para congelar o movimento do atleta.

Por Ernst Haas

As técnicas fotográficas só fazem sentido se servirem a expressão. Fazer fotografias técnicas só pela técnica (ou, o que é pior, para mostrar que se sabe usar os recursos da câmara) é frívolo e gratuito. Se repararem bem, os fotógrafos que colocaram a fotografia no Olimpo das artes não usavam técnicas como o arrastamento, o panning ou o flash à segunda cortina. Dos meus conhecidos, só Ernst Haas recorria àquelas técnicas – mas Haas, além de ter sido um fotógrafo que procurou extrair todas as possibilidades do equipamento fotográfico, usava a técnica como meio de exprimir algo.

Claro que não me estou a tentar comparar com Ernst Haas, mas em certos meios existe uma certa tendência para desdenhar a técnica. Embora concorde que muitos usam a técnica sem qualquer criatividade, para fazer fotografias iguais a milhões de outras que se vêem na Internet, parece-me pouco avisado ignorar o potencial expressivo da técnica. Se for utilizada com ponderação e servir para exprimir a intenção criativa do fotógrafo, não vislumbro qualquer objecção ao seu uso. Excluir a técnica por princípio soa-me a preconceito.

M. V. M.

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O futuro não tem espelho, parte 2

A homogeneização a que aludi no final do texto anterior tem o resultado perverso, e paradoxal, de os produtos que o consumidor pode escolher serem sucedâneos uns dos outros: tanto faz comprar um Volkswagen, um Opel ou um Renault, porque têm especificações e preços idênticos e as únicas diferenças são cosméticas. Hoje em dia os construtores estão a borrifar-se no prazer de conduzir e na individualidade, porque apenas uma minoria procura estes atributos; como a maioria dos consumidores não sabe se o automóvel que quer comprar é de tracção traseira ou dianteira, os construtores oferecem produtos que agradam a quem não vê no automóvel mais que um meio de locomoção. A aparência tem muito mais importância do que a substância, como pode testemunhar um meu conhecido que, pensando que estava a adquirir um todo-o-terreno da Honda (as formas do veículo sugeriam-no), deu por si com um SUV de tracção à frente sem qualquer vocação para trilhos de terra e lama ou para galgar dunas. Ah – e a tendência para o rebanho que os consumidores demonstram terá por efeito que um dia todos os automóveis sejam de caixa automática e, pior ainda, autónomos.

O leitor que me seguiu até aqui estará porventura a indagar onde quero chegar com tudo isto. No caso da indústria fotográfica, a conjugação das exigências expressas na Internet e da vontade dos grandes fabricantes em realizar economias em detrimento dos consumidores minoritários está a conduzir à homogeneização da oferta. Any camera you like, as long as it’s mirrorless podia ser um novo slogan se Henry Ford fosse vivo e produzisse câmaras em lugar de automóveis. Sim, porque a indústria está progressivamente a fazer desaparecer as DSLR – as câmaras de telémetro estão reduzidas a um nicho ocupado exclusivamente pela Leica – e a trocá-las por câmaras mirrorless.

Não pode ser outra a conclusão a extrair das apresentações das Nikon Z6 e Z7, há duas semanas, e da Canon EOS R, que ocorreu anteontem. Olhando para estas câmaras, posso dizer, com segurança, que o futuro é isto: as DSLR vão desaparecer. O que, de resto, não é novidade nenhuma: a Olympus eutanasiou a sua última DSLR, a E-5, em 2013, e agora só vende câmaras mirrorless.

Isto é bom ou mau? Estas câmaras só podem ter visores electrónicos, o que as coloca na família das bridge dos turistas se sandália e peúga branca; é seguramente mais barato para os fabricantes adquirir visores electrónicos OEM ao preço da uva mijona e incorporá-los nas câmaras do que incluir um espelho, um pentaprisma e um visor óptico – e, no entanto, podem cobrar o mesmo preço – ou mais elevado – que uma DSLR, porque os tais foristas do dpreview.com ficam tão embasbacados com a simples menção do adjectivo «electrónico» que pagam alegremente o dobro do que a câmara realmente vale para ter toda aquela inovação. A tecnologia reflex já vem do tempo dos periscópios dos primeiros submarinos; está portanto horrivelmente obsoleta e ultrapassada. O visor electrónico é o futuro. Pouco importa se a percepção do movimento é melhor com uma reflex, ou se a focagem é mais rápida: as mirrorless são o que está a dar. O visor electrónico é o futuro, e isso basta – mesmo se este futuro já vem do tempo das primeiras bridge.

Repito a pergunta: – isto é bom ou mau? Nem uma coisa nem outra: é o que é. As mirrorless vão substituir as DSLR no mercado muito mais volumoso dos amadores. A Canon e a Nikon estão, com os seus modelos novos, a fazer uma transição suave e gradativa das DSLR para as mirrorless. A procura de câmaras DSLR vai diminuir até se confinar aos profissionais que precisam da focagem mais rápida e de um visor com o qual vêem a acção em directo e em tempo real, e têm uma colecção de objectivas concebidas para usar com corpos DSLR. Do ponto de vista da qualidade da imagem não haverá diferença, porque os sensores são o que determina a qualidade, juntamente com as objectivas, e os sensores são os mesmos que estão nas entranhas das melhores DSLR. Claro que vão passar décadas até que os sistemas mirrorless tenham uma gama de objectivas tão completa como as DSLR, mas isto não afecta os consumidores que entretanto se habituaram a pensar nos corpos como estando no coração de um sistema – é neles que está a tecnologia de ponta –, sendo as lentes meros «periféricos» (juro que li isto num artigo do dpreview.com!); e, de resto, há adaptadores para usar as objectivas «antigas».

No fundo, continuará a haver oferta suficiente para todos, mas os mais exigentes terão de pagar fortunas por produtos de nicho, nos quais as DSLR estarão incluídas. Nada que não se veja noutros bens de consumo: se o leitor precisar de um automóvel sem as inestéticas portas traseiras (que acrescem ao peso e ao preço), a Ferrari e a Porsche ainda terão alguns modelos com essa característica obsoleta – tal como a Canon e a Nikon ainda irão ter um ou dois modelos de DSLR no catálogo. A preços proibitivos.

M. V. M.

O futuro não tem espelho, parte 1

O consumidor tem hoje uma voz que não tinha nos primórdios da produção em massa de bens de consumo. Foram feitos enormes progressos em matéria de qualidade e de segurança e a oferta de produtos e serviços evoluiu, salvo algumas perversões de relevância variada, para uma concorrência quase perfeita: parece que não há nada que as pessoas possam imaginar e a indústria não ofereça (ou melhor: venda).

A indústria fotográfica é um bom exemplo. Se o consumidor se contenta com um telemóvel, há-os desde os mais simples aos que têm duas e três câmaras para compensar a impossibilidade de usar um zoom óptico; o turista de peúga branca sob sandália Birkenstock tem uma cornucópia de câmaras bridge por onde escolher; escolha é coisa que não falta para amadores empenhados, profissionais e nerds da técnica: podem escolher entre DSLRs e mirrorless, com sensores cropped, full-frame ou de médio formato. As opções parecem intermináveis, como se houvesse tudo para todos. Até as películas merecem a atenção da indústria! Hoje não pode haver quem se queixe de não haver o que quer ter.

O problema actual desta atenção ao consumidor é que uns têm mais voz que outros. Antes faziam-se estudos de mercado e a oferta ajustava-se à procura; agora, com a Internet, os fabricantes vão aos websites de referência ler as caixas de comentários e as discussões nos fóruns. Simplesmente, quem frequenta as caixas de comentários e os fóruns dos websites ditos de referência é uma mão-cheia de indivíduos que nutrem um interesse anómalo pelas questões técnicas. Eles não vão descansar enquanto não tiverem uma câmara (as objectivas são irrelevantes, ou quase, para estes seres) que preencha todas as especificações técnicas imagináveis por €200 ou menos.

Este frequentador do ciberespaço tem outra característica que não mencionei acima por merecer tratamento especial: é louco pela inovação. Há pessoas receptivas à inovação quando esta traz progressos reais, e depois há aquelas para quem a inovação é um fim em si. Estas pessoas têm uma aversão enorme a tudo o que não seja digital e electrónico e estão no topo da pirâmide dos frequentadores das caixas de comentários e fóruns do dpreview.com. E são particularmente exigentes: se uma câmara vem equipada com vídeo 4K e 30 fps, eles querem 6K e 60 fps; se as objectivas são estabilizadas mas o sensor não, a câmara é obsoleta antes de ter sido lançada. Se os fabricantes lançam uma câmara com sensor APS-C, não presta: tinha de ser full-frame. A lista de exigências deste grupo não pára. Nunca estão satisfeitos. (Saber se compram as câmaras que exigem é outra questão, tal como saber se precisam delas ou se o que fazem com câmaras tão evoluídas tem algum valor.)

Paralelamente a isto, existe uma tendência na indústria que tem um efeito perverso, que é a uniformização dos produtos. As empresas copiam as fórmulas de sucesso e tendem a homogeneizar os produtos. A diversificação que referi só é real até ao ponto em que um produto, ou sua variante, é lucrativo. Insiro aqui um exemplo retirado da indústria automóvel: os veículos ditos de «3 portas» (com apenas uma porta de cada lado e outra para acesso à mala) estão a desaparecer: a Peugeot e a Land Rover vão «descontinuar» os modelos, respectivamente, 208 e Evoque de três portas, e automóveis como o Renault Clio, o Ford Focus e o Volkswagen Polo já são exclusivamente oferecidos com cinco portas. Como os consumidores que não precisam das portas traseiras (ou não as querem) são em menor número, não têm direito às linhas mais puras e individuais de um «3 portas». É um paradoxo, mas estamos a voltar ao tempo em que Henry Ford  impingia o Ford T, que era apenas vendido com a cor preto, com o slogan any colour you like, as long as it’s black. Há muitos segmentos de mercado, mas em cada segmento a oferta das diversas marcas tende a ser idêntica. Os fabricantes impõem, não apenas os produtos, mas os gostos dos consumidores. Conformam a disposição do consumidor por formas subtis, de maneira a que este adquira, não o que necessita, mas o que convém à indústria. O consumidor tem tudo o que a indústria decidiu que ele precisa – coupés desportivos de 4 portas, SUVs com linhas de coupé, monovolumes com prestações desportivas, entre outras aberrações –, mas não lhe dão um carro com o número de portas de que verdadeiramente precisa. (Continua)

M. V. M.

Mais sobre fotografia a cores

Regresso a um assunto que abordei em textos anteriores, mas não é supérfluo voltar a ele. O assunto é a fotografia a cores e veio-me à mente falar nele de novo porque me apercebi que, enquanto demoro cerca de duas semanas a expor um rolo de 36 fotogramas a preto-e-branco (como sabem, eu fotografo com alguma frugalidade), quando tenho um rolo a cores na máquina esse tempo é duplicado. Sim, demoro cerca de um mês a fazer trinta e seis fotografias, e a causa desta lentidão está no facto de a película ser a cores.

Os leitores sabem que eu não fotografo coisas para as mostrar tais como são. Com o preto-e-branco é fácil construir uma imagem abstracta – i. e. desligada da função concreta do objecto fotografado –, mas a cor tende a ser descritiva e literal. É por esta razão que demoro tanto: quero fugir da literalidade.

Com efeito, a fotografia a cores tende a reproduzir com exactidão o que os olhos vêem. O espectador identifica imediatamente a fotografia com objectos reais que se deparam à sua percepção. A fotografia a cores tende a dizer: «isto é assim». A fotografia a preto-e-branco, essa, é sempre uma versão da realidade à qual o fotógrafo pode dar maior ou menor verosimilhança, mas é sempre uma versão das coisas porque, ressalvado o caso de daltonismo monocromático, não vemos a preto-e-branco.

É por estas razões que me é tão difícil fotografar a cores. Além da dificuldade, à qual já aludi no Número f/, de compor de forma a que a cor seja o elemento preponderante da imagem (o que constitui uma verdadeira obrigação quando se fotografa a cores), sinto alguns problemas em mostrar os objectos de uma maneira tal que não transforme a imagem numa descrição literal.

Isto leva-me a outra reflexão, sem dúvida mais fecunda para a mente dos leitores do que ler as minhas quezílias pessoais com o RGB: é que esta fuga à literalidade é o factor que permite distinguir a fotografia original da fotografia-cópia servil. Se quisermos traduzir isto para a linguagem autoral, é esta fuga que distingue a obra fotográfica da simples fotografia. Aqui já não me refiro apenas à dicotomia cor/preto-e-branco, mas à fotografia em geral; todavia, na fotografia a cores é sempre mais difícil compor de tal maneira que a fotografia seja vista como uma criação original, e não como uma descrição do real.

O facto de ser difícil não significa, evidentemente, que seja impossível. Como prova, vou enumerar pela milésima quarta vez fotógrafos como William Albert Allard, Harry Gruyaert, Alex Webb e, na fotografia de rua – na qual é ainda mais difícil ser original quando se fotografa a cores –, Fred Herzog, Saul Leiter e Joel Meyerowitz. Seria ridículo se eu dissesse «se eles conseguem, eu também consigo», porque estaria a dar-me ao absurdo de me medir com eles, mas estes fotógrafos têm o mérito de provar ser possível fugir à literalidade – apesar da cor.

Afinal de contas, tudo depende da maneira como olhamos para as coisas. Se temos uma maneira de ser e de ver curiosa e original, as fotografias mostrarão esse traço de criatividade. Qualquer que seja a forma – cores ou preto-e-branco – como se mostra o que se viu. Simplesmente, não há como escapar o facto de que é mais difícil ser original quando se usa a cor.

M. V. M.

22 de Agosto

Conheço poucas coisas que sejam mais irrelevantes que as efemérides assinaladas como «dia mundial», ou «dia internacional», ou mesmo «dia nacional». Se parece importante reflectir ou agir nas matérias – ou pelo menos em algumas delas – que esses dias pretendem celebrar, não me parece fazer algum sentido que exista um dia em particular para assinalar seja o que for.

Exemplificando: existe um dia internacional da mulher. Não será, contudo, a existência desta celebração contraproducente? Será que basta existir um dia internacional para que nasça e se desenvolva uma consciência internacional nesta matéria? Ou, inversamente, não será esta comemoração uma formalidade estabelecida com o fim farisaico de desresponsabilizar os que devem agir, por formalmente haver um dia consignado à questão? É que, quando confrontadas com a sua inacção, as autoridades poderão dizer que até há um dia internacional… e será, no exemplo exposto, que o estabelecimento do dia internacional da mulher fez progredir a igualdade de género? (Se fez, os efeitos foram muito subtis.) Ou significará tudo isto que só num determinado dia devamos pensar ou fazer algo em prol da causa feminina?

Depois há celebrações que, de tão idiotas, esvaziam completamente de sentido o estabelecimento destes dias de qualquer-coisa. Nos Estados Unidos celebra-se, aos 2 de Abril de cada ano, o dia nacional da sanduíche de manteiga de amendoim e geleia (PBJ). Não consigo conceber maior descrédito e ridículo para as efemérides.

Muito similar a esta celebração do PBJ é aquela proposta por algumas mentes desocupadas: a de estabelecer um dia mundial da fotografia de rua, que seria o dia 22 de Agosto para coincidir com a data de nascimento (não me parece adequado falar de «aniversário», porque quem perfaz 110 anos na condição de falecido não tem muito fôlego para apagar as velas) do grande Henri Cartier-Bresson.

Eu provavelmente não devia estar a perder o meu tempo com esta inanidade, mas este fervor por HC-B é o resultado de uma acumulação de equívocos. O primeiro está em Henri Cartier-Bresson não poder, de forma alguma, ser confinado à «fotografia de rua». Nem sequer foi o primeiro a fotografar episódios da vida urbana: Lartigue e Brassaï precedem-no cronologicamente. E, de resto, tenho o justo receio que o proponente desta data mundial tenha um conceito estereotipado de «fotografia de rua» – por tal entendendo fotografias a preto-e-branco de transeuntes com uma objectiva de 35mm, ou algo parecido – e, da obra de HC-B, conheça pouco mais que Derrière la Gare de St. Lazare.

Mas vale a pena, porque hoje é 22 de Agosto, evocar Henri Cartier-Bresson. É muito justo fazê-lo. Ele não foi o precursor (ou progenitor) de nada do que lhe é geralmente atribuído: o fotojornalismo actual é uma criação da mente de Erich Solomon; como já disse, a fotografia de cenas da vida urbana não nasceu com Cartier-Bresson; e o surrealismo, ao qual HC-B é frequentemente associado, já estava na fotografia com Man Ray e outros. O que Henri Cartier-Bresson fez foi, com a sua prodigiosa capacidade de observação e o seu dinamismo, elevar a fotografia a um status a que esta ainda não tinha acedido. Se há algo que se pode imputar a Henri Cartier-Bresson, e que mudou a história da obra fotográfica, é a forma como usou a composição: com este recurso artístico, cenas que seriam banais tornaram-se significativas do ponto de vista artístico e criativo. Foi ele quem conferiu importância ao «momento decisivo», embora esta expressão seja hoje sujeita a interpretações erróneas. E foi um divulgador e um impulsionador. A Magnum, que é talvez o seu maior legado, nasceu de uma ideia sua. Sem a Magnum, o fotojornalismo não teria a influência que adquiriu ao longo do Século XX. Nunca é demais sublinhar a importância da Magnum, que ainda hoje é a depositária dos valores e princípios que guiaram a obra de Henri Cartier-Bresson.

Sim, Henri Cartier-Bresson merece ser celebrado e louvado. Mas não reduzindo-o a um conceito estereotipado de «fotografia de rua». Ele é muito mais que isso. De resto, neste 22 de Agosto o mundo artístico está demasiado ocupado a celebrar a data de nascimento de Claude Debussy. Deixemos este dia para os amantes de Clair de Lune.

M. V. M.

Sim, mas que tem isto a ver com o Dia Mundial da Fotografia?

No texto anterior recorri a uma figura de estilo (chamemos-lhe assim) para caracterizar a forma como fotografo. Disse que a fotografia não é pesca de arrasto, mas pesca à linha. Tenho a impressão de que engendrei esta imagem por via de um facto que estava na minha mente, embora não estivesse presente quando escrevi. Foi, portanto, um facto inconsciente. A psicologia há-de ter um termo mais certo para isto. É que, na semana passada, depois de uma produtiva manhã que gerou quatro ou cinco fotografias, como é estilo do vosso M. V. M., resolvi entrar numa tenda, instalada no largo do Molhe, onde se vendiam livros. Uma das minhas compras foi O Tio Vânia, de Anton Tchékhov (creio que esta será a primeira peça de teatro que vou ler), mas outra foi Os Pescadores, de Raul Brandão. Eis a explicação da metáfora.

É quase imperdoável que nunca me tenha dado a curiosidade de ler Raul Brandão. Se não fosse pelo estilo, ou pelo conteúdo das suas obras – sobre os quais não me posso pronunciar –, ao menos que fosse pela afinidade do lugar! Vivo a um quilómetro da Cantareira, lugar onde se situa a acção do primeiro texto de Os Pescadores. Houve um tempo em que passava lá todos os dias. E, um pouco mais adiante, no jardim do Passeio Alegre, enfrentando a Avenida D. Carlos I, há um monumento a Raul Brandão, a propósito de Os Pescadores. E, contudo, nunca senti necessidade de conhecer, quer o autor, quer a obra. Espero que não exista um inferno literário onde as almas ignaras e iletradas arderão eternamente – porque, se houver, é esse o meu destino quando me finar.

Ainda na frente literária, cada vez me interesso mais por Stendhal. Lucien Leuwen, a sua obra incompleta, é, em certos aspectos, ainda mais interessante que O Vermelho e o Negro. O tema subjacente a Lucien Leuwen é o antagonismo entre a nobreza decadente e a burguesia em ascensão, mas há muito mais: além da paixão entre Lucien e a Senhora de Chasteller, que influencia decisivamente o comportamento do primeiro, há – e nisto se assemelha a O Vermelho e o Negro – a perda da inocência e pureza de um jovem ambicioso que procura singrar em meios onde a intriga e a perfídia são predominantes. E há também a procura do sentido da vida que move Lucien, um jovem algo pusilânime que procura mostrar ao pai, figura que o influencia e determina, que tem um valor que vai além do seu estatuto de jovem filho de um burguês.

O meu fascínio por Lucien Leuwen e O Vermelho e o Negro levou-me a calcorrear a cidade do Porto em busca de um alfarrabista que tivesse aquele que é considerado o melhor romance de Stendhal: A Cartuxa de Parma. Estive perto de desistir, porque estive a um passo de me convencer de que a obra que procurava era apenas produto da minha imaginação. Num alfarrabista, a senhora não conhecia Stendhal, mas tal omissão no seu interesse literário tornou-se desculpável, já que consegui incutir-lhe alguma curiosidade pelo autor (se não consegui, a senhora fingiu muito bem); noutro, o proprietário não só não fazia a menor ideia de quem era Stendhal, e do que era A Cartuxa de Parma, como me perguntou, com uma expressão de completa estupidez estampada na cara: «O que é isso? Um livro antigo?» Respondi-lhe perguntando o que estava ele a fazer numa loja de livros. Não me pareceu que valesse a pena desperdiçar mais palavras.

Felizmente este foi um caso isolado entre os alfarrabistas que visitei. Seguiram-se outros, sempre sem sucesso (mas com conhecimento do autor e da obra, o que me tranquilizou quanto à elucubração formulada anteriormente de que A Cartuxa de Parma era uma alucinação minha e não existia no mundo real). Quase por acaso, encontrei um alfarrabista que tinha A Cartuxa de Parma, numa edição traduzida por Adolfo Casais Monteiro. O dito alfarrabista tem o estranho nome de «Varadero» e fica na Rua da Boavista, defronte à antiga entrada do Grande Colégio Universal. É, possivelmente, o maior alfarrabista da cidade – pelo menos em área e em quantidade de obras. Os alfarrabistas não são só lugares onde encontrar velharias literárias: são também lojas onde se podem adquirir obras cujas edições esgotaram.

M. V. M.

Maratona (e o Dia Mundial da Fotografia)

O primeiro daguerreótipo conhecido

Os que me acompanham há mais tempo saberão que o autor do Número f/ sentiu, numa dada etapa do seu itinerário fotográfico, necessidade de consolidar os conhecimentos que havia adquirido empiricamente, pelo que se propôs frequentar um workshop de técnica fotográfica organizado pelo Instituto Português de Fotografia e ministrado pelo excelente Carlos Machado. Não é o mesmo que frequentar um curso de fotografia, mas foi extremamente útil e interessante.

Uma das consequências de ter frequentado o workshop foi a que havia previsto: consolidei os meus conhecimentos e adquiri muitos outros. Outra é o facto de, volta e meia, receber na minha caixa de correio electrónico a newsletter do Instituto Português de Fotografia. A última chegou-me esta semana e convidava-me a comemorar o Dia Mundial da Fotografia (que, como sabem, se celebra no dia 19 de Agosto) inscrevendo-me numa maratona fotográfica. Não vou. Não por ser caro – €5,00 é uma verba insignificante –, mas por fotografar em grupo ser contrário a tudo em que acredito.

Talvez eu tenha uma concepção demasiado estreita da fotografia, mas as maratonas fotográficas não são para mim. Entendo a fotografia como criação; ora, criar é ser original e não há originalidade quando fotografo o mesmo que umas dezenas de pessoas, nem quando essas dezenas de pessoas se imitam umas às outras. Considero que isto contribui para a desvalorização da fotografia ao reduzi-la a um divertimento fútil e ao retirar-lhe carga criativa.

E também perdi o interesse por fazer milhares de fotografias num dia. É algo que já fiz, mas não tem sentido nenhum. Uma das minhas ambições inconfessáveis é fazer um dia uma fotografia que seja única, que se distinga de todas as outras por ter uma marca pessoal. Não é numa maratona fotográfica que vou atingir este objectivo. A fotografia não é, se quisermos recorrer a uma analogia piscatória, pesca de arrasto: é pesca à linha. Às vezes vem um peixe graúdo, às vezes vem um peixinho mirrado e outras vem um saco de plástico, mas quando vem um peixe decente é um triunfo. No arrastão não se tem este gozo.

Além disto, o que é o Dia Mundial da Fotografia? Caso não saibam, o dia 19 de Agosto assinala a data em que, no ano de 1837, o Estado francês adquiriu a patente do daguerreótipo e a lançou no domínio público como uma dádiva «gratuita para o mundo». Parece-me uma data demasiado técnica e burocrática. Seria mais interessante se fosse a data da primeira fotografia, ou a data do nascimento de algum grande fotógrafo. Podia ser 22 de Agosto, data do nascimento de Henri Cartier-Bresson, mas por mim era 30 de Dezembro, pois foi no penúltimo dia de 1918 que nasceu o meu venerado W. Eugene Smith. (Estou a brincar, mas agora a sério: será que vão celebrar o seu centenário?)

Ou então pode ser a data que quisermos. Por exemplo, a data em que sentirmos prazer em fazer uma boa fotografia, pois é esse prazer – e não a aquisição de uma patente – que merece ser celebrado.

Mas, se quiserem ir à maratona fotográfica, vão. Só custa cinco euros e o Instituto Português de Fotografia é uma instituição credível.

M. V. M.