Esclarecimento

O meu texto de ontem suscitou uma reacção curiosa de alguém que, de modo bastante rude – se não fosse isto, o respectivo comentário teria sido publicado –, entende que eu devia estar agradecido pelas sucessivas republicações dos meus textos no blogue que critiquei. E rematou, elegantemente – como agora é comum na Internet – com algo no sentido de, se eu não quiser ver os meus textos republicados, devo deixar de publicar na Internet e escrever numa sebenta, a qual manterei guardada numa gaveta.

Isto corresponde à percepção comum – embora errónea – de que tudo o que é publicado na Internet é de todos e todos podem usá-lo como lhes aprouver. Isto é um erro e uma estultícia. Publicar na Internet não é diferente de ter um livro num escaparate ou uma fotografia numa sala de exposições: o facto de o trabalho ser mostrado a quem o quiser ler ou ver não significa que o possam levar para casa, mesmo se não se arrogam a autoria.

Eu não tenho problemas por republicarem os meus textos. A minha irritação – não é mais do que isso – vem do facto de o blogue em questão se ter tornado um espelho do Número f/, uma duplicação do meu blogue. Eu não preciso de um duplicado: não escrevo para ter milhares de leitores nem para ser uma vedeta da Internet. Escrevo por não haver blogues de fotografia em Portugal que se assemelhem a este, escrevo por ter uma paixão imensa pela arte da fotografia.

O que me enerva é que estou a escrever para outra pessoa sem retirar benefício disso – eu tenho a noção do custo do trabalho – e essa pessoa, além de não desenvolver o mínimo de esforço com o seu blogue – limita-se a clicar um botão para republicar –, fá-lo de tal maneira que o seu blogue se tornou numa cópia do meu. Se forem lá, verão que no início ainda era republicado um ou outro texto retirado de outros blogues, mas agora tudo vem do Número f/.

Não teria nada a opor se aquele blogue anunciasse que o seu propósito era o de fazer uma colheita de textos que pareceram interessantes ao seu «autor» (não se pode chamar «autor» a quem não tem nada de original a mostrar, daí as aspas). Isso seria legítimo e poderia ser interessante se fosse variado e reflectisse os diversos interesses do seu «autor», mas o que o leitor em questão está a fazer não é nada disso: é, pura e simplesmente, copiar o meu blogue. É esta insistência que não aceito: como disse, é como estar a escrever para outrem.

Eu não me incluo entre o número daqueles que dizem que a cópia e o plágio são a forma mais sincera de homenagem: quem diz isto nunca escreveu uma linha de seu, não entende o valor da originalidade, não compreende que escrever é trabalhoso. Ora, o blogue que eu critico não contém uma linha que seja da lavra do seu «autor». Tudo o que este faz é tomar de empréstimo (esta parece-me uma boa analogia) os meus textos para manter um blogue ao qual, em bom rigor, não pode chamar «seu». Isto é, antes de mais, muito triste. É como alguém querer parecer elegante e abastado vestindo as roupas de outra pessoa.

M. V. M.

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Um pedido

Quero aproveitar para fazer um pedido muito especial a um leitor. Este leitor usa o pseudónimo «verdfruto» e tem o hábito de republicar todos os textos que escrevo no Número f/ no seu blogue. Todos, sem excepção, desde que descobriu o meu blogue.

Eu sei que este leitor é bem intencionado, mas há algo em mim que reprova e sente uma aversão profunda por aquilo que ele faz. Está a apropriar-se do que outros escrevem, mesmo se não se arroga qualquer pretensão de ser o autor dos textos (suponho que um agradecimento é devido por isto). Este comportamento, além de ser irritante e seguir aquilo a que a minha professora do 2.º Ciclo chamava a lei do menor esforço, está com um pé sobre a linha do puro e simples abuso: o referido leitor nunca me pediu autorização para republicar os meus textos.

Escrever – mesmo que seja apenas para um blogue – é um trabalho empenhativo. Por vezes é cansativo. Não é o acto de escrever que cansa: é encontrar algo sobre o que escrever e desenvolvê-lo num texto claro e coerente. Poucos terão a noção de como isto, por vezes, é difícil.

O que eu faço com o Número f/ é trabalho, mesmo se não é remunerado e não assegura benefícios patrimoniais de qualquer outra espécie. E custa-me ver que alguém segue o caminho fácil de tomar algo que outra pessoa escreveu e publicá-lo no seu blogue – mesmo se é certo que, como disse, não usurpa a autoria dos textos.

Por tudo isto, vou ter de pedir a este leitor que pare. Por favor, pare de republicar os meus textos no seu blogue. Por vezes é como se eu estivesse a escrever para si e para o seu blogue. Será que não compreende?

É que, se não parar com estas republicações de todos os meus textos, vai obrigar-me a parar de escrever, porque tenho a maior aversão a isto que anda a fazer. Eu sei que não é mal intencionado, mas por favor pare.

Obrigado.

M. V. M.

Nôtre-Dame, direito de autor e fair use

Foto: arquivos da National Geographic

Toda a gente que tiver um bocadinho de noção da história, independentemente da nacionalidade, ideologia ou religião, sentiu choque e comoção quando soube do incêndio na catedral de Nôtre-Dame. Eu senti – especialmente ao ver na televisão a derrocada do pináculo.

Um bloguista norte-americano que sigo desde 2011, de nome Michael C. Johnston, sentiu essas emoções como se fosse um europeu. Porque a catedral não é de Paris: é do mundo inteiro. É património mundial, mas não precisava de ser declarada como tal para ser um dos monumentos mais importantes do mundo e de toda a história.

Porém, quando Mike Johnston escreveu o texto de Segunda-feira no seu The Online Photographer (sim, o primeiro comentário, subscrito por um tal Manuel, é da autoria deste vosso escriba), entendeu ilustrá-lo com uma fotografia da catedral em chamas. Não faço ideia de quem é a fotografia: sei que era uma imagem bastante conseguida e que era de um fotógrafo com um nome que parecia ser francês. E sei também que, quando visitei o blogue no dia seguinte, a fotografia já lá não estava.

Ao publicar aquela fotografia, Mike Johnston teve o cuidado de apor uma legenda em que identificava o fotógrafo e declarava estar a utilizá-la ao abrigo da cláusula de fair use prevista na lei norte-americana do direito de autor (US Copyright Act). Sou capaz de apostar que Mike Johnston recebeu uma intimação para remover a fotografia por uma questão de direitos de autor.

O equívoco de Mike Johnston é, provavelmente, o mesmo em que muita gente incorre: o de pensar que o fair use tem uma aplicação universal. Não tem. A utilização livre – entendendo-se como tal uma utilização de uma obra protegida pelo direito de autor sem o consentimento do autor – é tão restrita nos Estados Unidos como na Europa. Existem normas, tal como nos países da União Europeia, nas quais se prevêem expressamente tipos legais de utilização livre de obras – em bibliotecas, por exemplo –, mas, ao contrário do que acontece na União Europeia, onde existe um numerus clausus rígido de utilizações livres, nos Estados Unidos há uma cláusula geral de fair use, prevista no §107.º do US Copyright Act.

O fair use aplica-se às utilizações da obra que não tenham como intuito o lucro económico do utilizador – como desde logo as utilizações estritamente privadas –, aquelas que têm fins educativos, as utilizações parciais da obra que não afectem o seu todo (por ex. a reprodução de pequenos excertos de obras literárias) e, de um modo geral, as utilizações que não causem prejuízo económico ao titular do direito. Ora, no caso da fotografia que Mike Johnston usou, não se verifica nenhuma destas circunstâncias: a fotografia é de um fotojornalista, gera um provento económico e, em consequência, a sua utilização por outrem sem consentimento do autor é abusiva. (Acresce que o The Online Photographer não é pago pelos visitantes, mas tem um conteúdo publicitário por ser «afiliado» da Amazon e da cadeia online americana B&H: Mike Johnston tem um lucro sempre que um leitor do seu blogue adquire um bem naquelas lojas online usando as hiperligações ali estabelecidas.) Deste modo, não existiam os pressupostos do fair use, pelo que, carecendo de autorização, não restava a MCJ mais que retirar a fotografia.

É bom que tenhamos a noção de que não basta invocar o fair use (e ainda menos a utilização livre dos Estados-membros da União Europeia) para utilizar uma obra. A utilização de uma obra depende, em regra, do consentimento do autor. Por muito boa fé que se tenha ao fazer essa utilização – e deve ter-se em mente que a mera publicação de uma fotografia na Internet é, para efeitos legais, uma utilização –, os interesses patrimoniais do autor existem e são legítimos. O direito de autor é igual ao de propriedade: o autor tem o direito exclusivo de autorizar a utilização da obra. Os casos de utilização livre são marginais e estão rigidamente tipificados na lei. Mesmo na norte-americana, já que o fair use não é mais que uma das várias modalidades de utilização livre previstas no US Copyright Act.

M. V. M.

Trios

Eu aprendi a gostar de Jazz quando compreendi o que os músicos faziam. No essencial, o que caracteriza o Jazz é a interpretação de um tema musical – um refrão, por assim dizer – e improvisar cadenzas a partir do tom e acordes dominantes desse tema. Quando entendi isto, tornou-se fácil apreciar o virtuosismo dos músicos e, sobretudo, a sua originalidade e capacidade de improvisar. Há muitos tipos diferentes: há os músicos que gostam de tocar todas as notas possíveis dentro de cada compasso e há outros que se cingem a fazer ligeiras variações em relação ao tema musical. Pelo meio há um número infinito de estilos e preferências: alguns músicos usam os improvisos como se fossem fugas, outros são mais sucintos.

Seja como for, para compreender o Jazz é necessário reter estes conceitos de refrão e improviso (ou cadenza, que é mais específico, posto que intraduzível para o português: a cadenza é, nos concertos para instrumentos a solo – e. g. concertos para piano e orquestra – um trecho, normalmente do primeiro andamento, em que é dada ao solista a liberdade de improvisar, embora alguns solistas prefiram as cadenze escritas pelo próprio compositor). Saber o que é uma fuga também ajuda, mas são poucos os músicos de Jazz que a usam.

Não me interpretem mal: eu não estou a tentar ofuscar as mentes dos leitores com a minha erudição – a qual, de resto, é muito escassa. Se escrevo assim é porque não é possível entender o Jazz sem conhecer estas noções. Sem ela, a audição de Jazz é uma experiência desconexa e pode mesmo tornar-se intragável.

Um dos meus formatos favoritos é o trio de piano, composto por piano, contrabaixo e bateria. É um formato relativamente recente na história do Jazz porque, descontando variantes como o Ragtime e o Boogie Woogie, antes da era do bebop o papel do pianista era o de comandar a secção rítmica, mas o piano tornou-se num instrumento para solistas quando o Jazz mudou das grandes orquestras para pequenos grupos (trios, quartetos, quintetos e sextetos) e dos salões de dança para clubes como o Five Spot e o Village Vanguard.

Hoje, neste dia chuvoso que impediu todas as tentativas de sair de casa, aproveitei o recente regresso do meu amplificador integrado de uma bem sucedida reparação e estive a ouvir trios de Jazz. O primeiro foi um LP deliberadamente artsy na sua tentativa de conciliar anacronismo com vanguardismo: foi Money Jungle, álbum de um trio composto por Duke Ellington, Charles Mingus e Max Roach. Seguiram-se alguns temas do álbum Kelly Blue, de Wynton Kelly, e por fim uma colectânea de Les McCann.

Os três álbuns só são semelhantes por serem tocados por trios. Em tudo o resto não podiam ser mais diferentes. Money Jungle é o mais interessante, porque combina temas antigos de Duke Ellington – sim, Caravan incluído – com as ideias novas de Mingus e Max Roach. Duke Ellington, que nunca apreciei, esteve excelente nesta sua aventura musical: resgatado depois do declínio das big bands, tornadas fora de moda pelos pequenos grupos do bebop, toca o piano com leveza, espírito e muito swing, sem qualquer tipo de pretensiosismo. Este álbum é simplesmente brilhante, mesmo que possamos não apreciar as tentativas de Charles Mingus de se impor como o virtuoso do ensemble.

Wynton Kelly

Swing é o que não falta a Wynton Kelly. Se Money Jungle se inspira no Jazz das grandes bandas que se fazia antes de Charlie Parker e Dizzy Gillespie terem revolucionado o Jazz, Wynton Kelly tem as suas raízes nos Blues. Em Kelly Blue há temas para um sexteto que inclui Nat Adderley, mas estes devem ser ignorados: onde Wynton Kelly realmente brilha é no trio com Paul Chambers e Jimmy Cobb, músicos que tocaram com Miles Davis na sua fase modal. (Chambers e Cobb são o baixista e o baterista de Kind of Blue, e Kelly entra neste mesmo álbum no tema Freddie Freeloader: a sua contribuição é inconfundível.)

Por fim, Les McCann. A sua inspiração é diferente: ele vem da Soul. Há muito de Blues na colectânea de trios que a Pacific Jazz editou, mas é na Soul que ele encontra as melodias. Melhor dito: Les McCann toca os Blues com uma entoação Soul. Dos três pianistas, parece ter sido o que se divertia mais no trabalho: é frequente ouvi-lo cantarolar enquanto toca e não lhe falta essa característica inefável, que mistura ritmo, dançabilidade e expressão, a que genericamente se chama swing.

O meu favorito? Wynton Kelly. É o único destes pianistas que tem origem no bebop, e só isso chegaria para estabelecer a minha preferência, mas há mais: Kelly é o mais instintivo, o mais intuitivo destes músicos. Não direi que é o mais genuíno, porque nenhum deles soa como se estivesse a envergar a pose do Grande Intérprete de Jazz. Nem mesmo Duke Ellington, que soa em Money Jungle como se estivesse infinitamente reconhecido a Mingus e Roach por o terem recuperado. Kelly não é o melhor dos três como executante, nem é o mais erudito – mas é, juntamente com o grande Bobby Timmons, o mais bluesy dos pianistas do bebop.

Duke Ellington, Money Jungle, United Artists Jazz, 1962

Wynton Kelly, Kelly Blue, Riverside, 1959

Les McCann, The Best of Les McCann Ltd, Pacific Jazz, 1996

M. V. M.

A patente

É bem possível que muitos leitores que chegam acidentalmente ao Número f/ sintam alguma perplexidade por todos os textos – ou a grande maioria, para ser rigoroso – que incluem smartphones e selfies serem profundamente corrosivos. Afinal, as selfies são um fenómeno social relevante que nasce da fotografia, a qual é o tema do Número f/; os smartphones estão sempre à mão quando aparece uma oportunidade de tirar uma fotografia, n’est-ce pas?, e as pessoas que tiram selfies parecem sempre felizes e saudáveis. Então por que razão há-de o M. V. M. estar constantemente a refilar? Será por não compreender este fenómeno das selfies? Será por não ter um iPhone? Será por inveja da felicidade dos que passam a vida a tirar selfies?

Eu podia ter um iPhone em condições extremamente vantajosas – se quisesse. E decerto não invejo os que posam para os seus próprios telemóveis com sorrisos idiotas estampados na cara. E sim – apesar de tudo, estou ciente de que toda a gente menos eu tira selfies, mesmo que seja em Auschwitz. Simplesmente, considero as selfies um exercício parvo – e nem sempre inócuo – de narcisismo. Um narcisismo que começa a tomar um lugar desproporcionado na vida das pessoas, que estão cada vez mais frívolas e cujas cabeças são cada vez mais ocas.

Mas, se as selfies já são irritantes em si mesmas, a Apple está a querer levá-las para um patamar de estupidez sem precedentes e patenteou uma aplicação (ah, se eu pudesse pôr quem inventou o diminutivo «app» à frente de um pelotão de fuzilamento!) a que chamou «selfies sintéticas». A coisa funcionará da seguinte maneira: imaginem que eu estou em casa chateado como um peru, a jogar Solitário no computador, e, para quebrar o tédio, decido que seria boa ideia fazer uma selfie com outras pessoas (as três ou quatro que, por simpatia, põem alguns likes no meu facebook, mas nunca me convidam para festas nem jantares). Convido essas pessoas a fazerem selfies e a enviarem-nas para o meu smartphone, e a aplicação patenteada pela Apple faz o seu trabalhinho: recorta as caras das pessoas e distribui-as pela selfie que eu tirei como se fosse uma selfie de grupo, organiza as proporções e coloca um fundo, que pode ser o da minha selfie ou outro qualquer. Depois é só «partilhar» a «selfie sintética» no facebook ou no instagram e esperar pelos likes (que seguramente serão os das três ou quatro pessoas que me enviaram as suas selfies).

Ah, as maravilhas da fotografia computacional! Agora já posso fingir que tenho montes de amigos e que me divirto imenso a tirar selfies com eles. Obrigado, Apple, por mais esta dádiva para a humanidade.

M. V. M.

O nomeado

Por Mário Cruz

Há um português entre os nomeados para os prémios da World Press Photo de 2019. Chama-se Mário Cruz, tem 32 anos e concorre na categoria Ambiente. As fotografias a concurso compõem um conjunto que Mário Cruz denominou Living Among What’s Left Behind e foram feitas nas Filipinas, no rio Pasig.

Segundo o website da World Press Photo, «O rio Pasig foi declarado biologicamente morto na década de 1990, devido a uma combinação de poluição industrial e resíduos despejados por comunidades próximas que vivem sem infraestruturas adequadas de saneamento. Um relatório de 2017 da Nature Communications refere o Pasig como um dos 20 rios mais poluídos do mundo, com cerca de 57700 toneladas de plástico depositadas no oceano a cada ano. Estão a ser feitos esforços para despoluir o Pasig, o que foi reconhecido por um prémio internacional em 2018, mas em algumas partes do rio os resíduos ainda são tão densos que é possível caminhar sobre o lixo».

Não consigo imaginar miséria mais abjecta do que viver no meio do lixo, mas é exactamente assim que vivem muitos filipinos, para quem o lixo é também um ganha-pão. As fotografias de Mário Cruz referentes a este assunto são eloquentes. Não são fotografias documentais em sentido estrito – há nelas um rasgo de génio, especialmente na composição e na abstracção em relação às circunstâncias factuais –, mas ilustram bem um problema que, aqui no nosso Ocidente limpo e burguês, nos passa completamente despercebido. Só há pouco se começou a discutir o mar de lixo – especialmente composto por plásticos – que flutua sobre as águas do Oceano Pacífico, apesar de este problema ser conhecido há décadas. Uma parte deste mar de lixo é alimentada pela poluição do rio que Mário Cruz fotografou.

Gostava que as fotografias de Mário Cruz trouxessem maior consciência dos problemas ambientais. Depois de alguém as ter visto, deixa de ser possível negar a sua interferência na qualidade de vida de seres humanos. Não são apenas os corais e os linces que sofrem com a poluição: é também o ser humano. Isto devia preocupar-nos, a despeito das campanhas com que tentam convencer-nos de que estes problemas não existem ou, se existem, são empolados com fins ideológicos.

Desta vez vou exercer o meu dever patriótico e torcer por que Mário Cruz ganhe o prémio na sua categoria – e, o que talvez seja pedir demais, o prémio principal.

M. V. M.

Arbeit macht Selfie

A marcha para a idiotificação completa da humanidade prossegue imparável. O smartphone, mais que o computador, tomou conta da vida de todos. Não bastava ver toda a gente na rua com o telemóvel colado à orelha, tagarelando alto em todo o lado como se todos à volta tivessem obrigação de ouvir as conversas: há também as selfies para ajudar a atingir o objectivo final de o mundo ser habitado por zombies.

Há alguns meses vi uma senhora dos seus quarenta anos que se movimentava, sozinha no meio de um espaço público, de uma maneira estranha: era como se ensaiasse passos de dança, mas fazia-o de forma tosca e ridícula. Quando me aproximei, percebi que estava a posar para selfies, de telemóvel bem no alto (por que é que as pessoas que tiram selfies levantam o telemóvel?) e sorriso idiota nos lábios (por que é que as pessoas que tiram selfies fazem aquelas caras de parvos?). Gostava de a ter filmado e mostrar-lhe o vídeo, mas era a vida dela. Respeitei a liberdade que ela tinha, a qual incluía fazer figuras estúpidas em público.

Sim, há quem fique maluco por causa das selfies. Há até quem morra a tirá-las. São já às centenas as vítimas do seu próprio narcisismo e da estupidez: desde os que são atropelados por comboios aos que tiram selfies enquanto conduzem, passando pelos que caem de penhascos.

Os acidentes acontecem. Ainda há poucos anos morreu Bernardo Sassetti, e estava a fazer fotografias sérias (as selfies não são fotografias e certamente não são sérias), mas não percebo por que aumentam o risco posando sobre carris de caminhos de ferro ou em penhascos. Mas, se a disponibilidade de um telemóvel com câmara frontal retira às pessoas o discernimento necessário para identificar perigos e danos – já referi aqui um caso grave de dano causado por um narcisista particularmente estúpido –, também parece retirar as noções de decoro, decência e respeito.

Vem isto a propósito de uma notícia perturbadora que li há alguns dias. Os administradores do Museu de Auschwitz, que gere o antigo campo de concentração, tiveram de emitir um comunicado por causa dos idiotas que gostam de brincar nos carris do caminho de ferro que levava ao campo de concentração e, evidentemente, de tirar fotos e selfies naquele lugar.

Quer dizer: há quem vá a Auschwitz para brincar e exibir as suas selfies no instagram. Vão brincar e tirar selfies num lugar onde morreu um número estimado em um milhão de seres humanos. Ao que parece, para alguns é muito mais importante mostrar-se nas redes sociais do que ter um pouco de decoro e respeito pelo que aquele lugar simboliza. Definitivamente, os smartphones estão a dar a volta à cabeça das pessoas e a destruir o sistema de valores da sociedade.

O mundo está a tornar-se num lugar absurdo, e as selfies são um exemplo perfeito disto mesmo.

M. V. M.