O Presidente, o retrato, o artista de pechisbeque e o fotógrafo lorpa

Imagem: Alexandra Madeira – Antena 1

Aviso desde já: o que vão ler de seguida vai parecer excessivo a muitos e ser interpretado como uma tergiversação de uma mente amarga sobre algo que não tem importância nenhuma, mas vou escrevê-lo na mesma.

Há coisas que me ultrapassam. Por vezes vejo mentiras, injustiças e deturpações de factos que deveriam merecer reprovação universal passando, não simplesmente despercebidas, mas aplaudidas e aclamadas. Ou, quando menos, debaixo da indiferença cúmplice de quem se apercebe ou devia aperceber delas. Isto acontece ou aconteceu em inúmeras ocasiões, desde as «provas» de que o Iraque de Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça, «provas» essas que eram gritantemente forjadas mas ninguém se importou (ou melhor: vejam como os idiotas americanos ainda hoje tratam os franceses por Chirac se ter oposto à invasão) até ao abalroamento graças ao qual Nosso Senhor Ayrton Senna se sagrou campeão do mundo de Fórmula 1 em 1990. Podia dar muitos mais exemplos: um deles seria a descida do défice do Estado à custa do aumento da dívida pública e o facto de ninguém estar preocupado por esta última ultrapassar em mais do dobro o limite de 60% do produto interno bruto previsto no pacto de estabilidade e crescimento no qual se alicerça o Euro, tudo se passando como se a única ofensa fosse o limite do défice. (Tenho para mim que a insolvência técnica de um país é mais grave que o desequilíbrio marginal do deve-haver público, mas se a Comissão Europeia não é do mesmo entendimento e não instituiu um procedimento por dívida pública excessiva [como acontece em relação ao défice], quem sou eu para contrariá-los?). Ou a situação na Síria, com o uso de mentiras em tudo semelhantes às que legitimaram a invasão do Iraque em 2003.

Não estamos aqui a discutir aquelas faltas na grande área que toda a gente viu menos o árbitro, nem teorias da conspiração. Em qualquer dos casos que mencionei, toda a gente viu o que se estava (ou está) a passar, toda a gente sabia que estava (está) diante de um ludíbrio, mas ninguém se importou (ou importa). Devo dizer que tenho a maior dificuldade em compreender os mecanismos que levam a esta aceitação de falsidades e deturpações como se fossem verdades ou, pelo menos, como se fossem indiferentes e irrelevantes. Seja como for, as mentiras, injustiças, ilegalidades e as distorções de factos passam impunes sem que ninguém se importe. Se alguém manifesta discordância ou repúdio, corre o risco de ser tratado como se fosse um imbecil.

Isto tudo – acreditem ou não – vem a propósito de fotografia, pelo que não está em causa a pertinência temática destas palavras furibundas no Número f/. O que me deixou tão passado foi um episódio aparentemente insignificante, mas que ilustra bem este deixar passar, esta lassidão ética e moral com respeito a coisas que deviam merecer repúdio: o nosso Presidente da República veio ao Porto comemorar o Dia de Portugal. Tendo passado pela Rua do Almada, deparou com o atelier de um artista de pechisbeque chamado António Bessa, em cuja montra estava exposta uma pintura em que figurava o próprio Professor Marcelo Rebelo de Sousa. Numa das suas ternurentas manifestações de popularuchidade, o Presidente da República, com espontaneidade previamente organizada pela sua Casa Civil, quis conhecer o pintor de pechisbeque, o qual, evidentemente, ficou tão feliz com o interesse do Professor Rebelo de Sousa na sua obra que se ofereceu para levá-la pessoalmente a Lisboa. O Presidente protestou a sua intenção de fazer daquela pintura o seu retrato oficial.

Fotografia de M. R. S. por Orlando Almeida

Até aqui tudo bem. Simplesmente, a obra do artista é uma imitação. Um plágio. Uma usurpação. Foi pintada a partir de uma fotografia pré-existente (acima) de um fotógrafo chamado Orlando Almeida. A pintura não é, como se lê em algumas publicações, «inspirada» na fotografia: é uma imitação grosseira e descarada. A diferença, além dos traços mais abstractos, está no plano de fundo, porque a figura de Marcelo Rebelo de Sousa é idêntica na imitação e na fotografia imitada.

Este António Bessa, que não passa de um pintor medíocre que teve um golpe de sorte equivalente a ganhar o Euromilhões, devia ser objecto de desdém pela sua completa ausência, quer de criatividade, quer de escrúpulos: não hesita em plagiar obras de outrem e impingi-las como se fossem suas criações. Qualquer pessoa que conheça o significado da palavra «originalidade» e a preze olhará os quadros deste pintor de pechisbeque com escárnio, mas o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, que é Doutor em Direito, veio sancionar esta imitação grotesca prometendo-lhe a oficialidade do «retrato». Já não bastava a humilhação de termos tido um primeiro-ministro e um ministro com habilitações académicas falsas, agora vamos ter um retrato imitado na parede do Palácio de Belém. Mas pronto, não sejamos pedantes: é um Presidente popular a promover a arte popular.

Se o autor da fotografia conferenciasse com um advogado que tivesse um modicum de conhecimento do direito autoral, este último saberia que conselhos havia de lhe dar, mas é exactamente aqui que a história se torna dramaticamente burlesca: o fotógrafo não se importou nada com a usurpação da fotografia. Pelo contrário, até ficou feliz por ter oportunidade de apanhar algumas migalhas do bolo de glória que o pintor de pechisbeque tragou. Perante isto, por que devia eu aborrecer-me?

M. V. M.

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