Fiat lux

Conforme prometido – eu sou uma pessoa razoavelmente leal e constante que raramente deixa de cumprir o que promete (ao que ajuda não fazer promessas impossíveis) –, conforme prometera, dizia, vou hoje partilhar com os leitores as minhas ideias acerca de iluminação. Refiro-me à iluminação dos motivos das fotografias, e não exactamente às fontes de luz como o flash ou a panóplia de iluminação de estúdio, que inclui luzes LED e reflectores com forma de guarda-chuvas.

Tenho para mim que não existe nada pior que fotografias feitas à sombra. Por vezes, quando ando na rua, deparo com cenas que podiam dar uma fotografia interessante e não as fotografo porque aquilo que quero fotografar não está suficientemente iluminado, diluindo-se na sombra do plano de fundo. Tem de haver sempre algo que destaque o motivo: se este estiver bem iluminado, o facto de existirem sombras no resto da imagem não é um problema: pelo contrário, até ajuda aquele a tornar-se mais explícito.

É isto que acontece quando se fotografa à sombra.

Contudo, há muita gente que fotografa à sombra. Isto não beneficia a imagem: fá-la perder contraste e pode torná-la indistinguível e pesada. Em casos como este, e à falta de um flash (o qual ajuda, mas só se forem usados tempos de exposição inferiores a 1/125 e se a distância em relação ao motivo não for muito grande), mais vale não fotografar. Para quê disparar, se se sabe de antemão que a fotografia vai ser um fracasso?

O segredo para obter uma boa iluminação não é segredo nenhum: é fotografar com boa luz. Como referi, podem obter-se resultados interessantes se só o motivo estiver iluminado e o plano de fundo for sombras, mas o oposto nunca é verdadeiro. Um exemplo clássico é o daqueles fotógrafos que gostam muito de fazer retratos com a pessoa retratada à frente de uma janela, mas o resultado é sempre mau: se se expuser para as altas luzes, a cara do retratado surge como uma silhueta, sendo impossível distinguir as feições; e, se se expuser para as sombras, não apenas a luz da janela vai ficar completamente estourada como o rosto vai continuar mal iluminado.

Já que aludo aos retratos, há uma regra muito simples: NUNCA (desculpem gritar) se fazem retratos contra a luz. O rosto tem, imperativamente, de ser iluminado directamente. E, já que o assunto é luz directa versus luz indirecta (ou a favor versus contra a luz), fica aqui outra recomendação: fotografar contra a luz, provendo o efeito de silhuetas, pode ser espectacular, mas só quando se fotografa a preto-e-branco. A fotografia a cores requer sempre luz directa. O contraste e as silhuetas que resultam espectacularmente bem na fotografia a preto-e-branco são impossíveis de reproduzir na fotografia a cores. O que acontece, quando se fotografa a cores contra a luz, é apenas fotografias mal iluminadas, falhas de contraste e com desvios consideráveis nas cores. Só em casos muito especiais – como se quisermos fazer desaparecer qualquer textura do motivo, apresentando-o como uma silhueta completamente negra, é que as fotografias a cores contra a luz ficam bem, mas estes são casos mais ou menos excepcionais.

Sim, é verdade que fotografar constantemente a favor da luz pode resultar em fotografias muito lugar-comum, mas é tarefa de quem fotografa fazer reverter esta aparente desvantagem a favor da fotografia, o que acontece se procurar motivos cujo interesse permaneça intacto apesar da banalidade da iluminação.

Há mais: a fotografia a cores – de novo ao contrário do preto-e-branco – dá-se muito mal com a luz cáustica. A luz do sol de um entardecer de Março pode ser aproveitada, mas só se se fotografar a favor dela – e mesmo assim com muitas precauções. Fotografar contra a luz quando esta é muito crua e intensa é desperdiçar uma fotografia.

Por fim, um conselho para quem, como eu, usa película: tudo o que escrevi acima se aplica e a parte de fotografar a favor da luz é especialmente verdadeira, mas, além deste cuidado, há que ter outro – a escolha da película. Algumas, como a Kodak Portra 160, estão equilibradas para dar os melhores resultados debaixo de luz natural ou de iluminação de estúdio. Estas películas costumam ser um desastre quando se fotografa à noite ou com muito pouca luz (mesmo que se use o tripé). A selecção da película é essencial, sendo raras as capazes de resultados homogéneos ao sol e à sombra.

M. V. M.

Reflexões sobre uma fotografia

Fotografia por Andrea de Franciscis

O meu último texto, sobre as fotografias de Andrea de Franciscis que descobri no Sábado enquanto navegava ociosamente pela internet, suscitou uma reacção que, se não posso de todo considerar inesperada, me parece merecedora de alguma reflexão.

Nesse texto, estabeleci ligações para dois websites que mostravam duas facetas – que não são diferentes, mas complementares – da fotografia de Andrea de Franciscis: uma era para o artigo da Narratively onde foram publicadas as fotografias de menores viciados, a outra para o website do centro nacional de fotografia italiano, que mostra várias fotografias a cores da Índia de tons vibrantes que nos vem imediatamente à memória quando o tema é o país de Nehru e Gandhi.

Porque digo que estas são facetas complementares? Porque ambas são realidades que convivem uma com a outra. Uma delas não pode ser ignorada porque a outra existe. O facto de haver uma Índia esplendorosa não oblitera a miséria social, nem se pode olhar apenas a esta última ignorando a primeira. Contudo, é isto mesmo que a maioria faz: uns preferem ver a vida apenas pelo seu lado brilhante e outros, os cínicos, atêm-se ao lado sombrio da vida.

Pois bem: ao consultar as estatísticas do Número f/, verifiquei que a ligação para a página do Centro Italiano de Fotografia foi aberta mais vezes do que aquela que estabeleci para o artigo da Narratively. A diferença foi de 4 para 1. Devo, deste modo, presumir que os optimistas ultrapassam os pessimistas numa proporção de quatro quintos?

Há um elemento que impede esta análise simplística: quem procura fotografias na internet fá-lo essencialmente para obter prazer visual. O que, por si só, nada tem de mal, mas a fotografia – a boa fotografia, a que eu gosto de divulgar e apreciar aqui no Número f/ – não pode ser só visual. Decerto que há fotografias incómodas: qualquer uma de James Nachtwey, as que W. Eugene Smith fez em Minamata, a de Nick Ut, dos meninos vietnamitas fugindo do napalm, e a do monge imolando-se pelo fogo, de Malcolm Browne, são fotografias que perturbam. Será, contudo, perdoável que as pessoas ignorem por completo estas fotografias – ou o que elas significam – para se contentarem com fotografias belas e alegres, mas frívolas e, em última instância, vazias de sentido?

Eu compreendo se me disserem que, para ver as misérias do mundo, basta ligar a TV num canal noticioso, mas não se exclamarem que não podem fazer nada para mudar as coisas. Devemos fingir que a vida só tem um lado belo e feliz? Tal seria, não apenas frívolo, mas uma omissão criminosa: seria como se fechássemos os olhos e, com isto, nos tornássemos cúmplices.

Reparem um pouco na fotografia que mostrei ontem. Se aqueles meninos, em lugar de estarem a trocar líquido corrector para inalar e de vestirem andrajos, estivessem a jogar futebol ou a fazer qualquer coisa lúdica, seria uma fotografia lindíssima e os miúdos seriam giríssimos e mais não sei quê (é por causa deste tipo de apreciação que Steve McCurry é tão popular). Mas são pequenos marginais, pequenos drogados; desviamos os olhos daquelas caras sujas e tão precocemente viciosas, voltando-os para os saris coloridos e as pétalas esvoaçantes. Ah!, já estamos fartos de ver imagens de miséria, dirão uns. Oh!, se o fotógrafo está tão preocupado, por que não lhes dá comida e abrigo?, perguntarão os que gostam de fazer dos outros parvos.

É triste que seja assim. O que é irónico é que as fotografias que Andrea de Franciscis fez dos pequenos viciados são belíssimas. O sentido de composição é excelente, a iluminação (natural) bem pensada – um dia vou escrever sobre os disparates que as pessoas fazem por negligenciar a iluminação – e são fotografias patéticas – não no sentido que habitualmente se dá a este adjectivo, mas no de criarem uma relação emocional de piedade para com as personagens, de criarem um pathos (quem tem conhecimentos mínimos de literatura sabe a que me refiro).

Se me perguntarem para qual de entre os dois tipos de fotografias me inclino, é para este – mas os saris e as pétalas também fazem parte da vida. O que não podem é ser um trompe l’oeil para disfarçar a realidade.

M. V. M.

Da casualidade

Por Andrea de Franciscis

Por vezes acontece-me. Nem sempre, mas por vezes. Ando pela internet ociosamente, à procura sei lá bem de quê, quando deparo com algo que me parece merecedor de particular atenção. Aconteceu outra vez neste dia 27 de Maio: andava à procura de qualquer coisa (neste caso, da forma correcta de pronunciar um certo apelido italiano de ressonância altamente medieva, mas não posso de momento revelar por que fazia tão estranha busca) quando descobri um conjunto de fotografias que me pareceu excelente, dentro do estilo situado entre o documental e o emotivo que a maravilhosa Mary Ellen Mark usou quando fotografou “Rat” e outros miúdos marginais de Seattle, mas possivelmente com menor envolvimento entre fotógrafo e fotografados.

O fotógrafo cuja obra descobri chama-se Andrea de Franciscis, italiano que vive na Índia. Ele é o autor de uma série de fotografias, que descobri num artigo do website Narratively, sobre os viciados invisíveis da Índia. São fotografias chocantes de crianças viciadas em drogas (algumas improvisadas, como cola e líquido corrector), mas extraordinárias pelo seu sentido de composição e pelo preto-e-branco belíssimo.

Por Andrea de Franciscis

As minhas pesquisas sobre este Andrea de Franciscis – continuo sem fazer a mais pequena ideia sobre a pronúncia correcta deste apelido (dé frantxíchis?) – levaram-me também ao website do Centro Italiano de Fotografia, que dedica uma página ao recém-descoberto (por mim e, espero, pelos meus leitores) fotógrafo italiano. As fotografias que figuram nessa página estão num território que se situa a este de Steve McCurry e a oeste de Raghubir Singh (ou vice-versa). Têm mais vida que as do Grande Mestre do Photoshop, mas são mais formais e rígidas que as de Singh. Em todo o caso, são interessantes no rigor e na técnica, que é usada com bom gosto e na medida do necessário para dar expressão à imagem.

Pensei que seria boa ideia dar a conhecer este fotógrafo aos meus leitores. Decerto não é um dos rostos que mudou a história da fotografia artística, mas conseguiu produzir beleza a partir da sordidez e fotografou a Índia mostrando a sua essência sem cair no cliché estafado. Penso que, por estes dois motivos, merece menção aqui no Número f/ – e decerto merece que os leitores dêem uma espiada nas suas fotografias.

M. V. M.

O portfolio

Esta tarde, talvez por ter despachado o trabalho rapidamente e ter ficado muito cedo sem nada melhor para fazer, resolvi submeter um portfolio composto por quarenta das minhas fotografias à apreciação dos cooperadores da Magnum. Não, não me tornei pretensioso nem nutro quaisquer ilusões: o meu estado de espírito era sensivelmente o mesmo de quem joga no Euromilhões ou, mais correctamente, de quem visita o site de um fabricante de automóveis de luxo e se entretém com o configurador juntando estofos de couro perfurado e jantes de titânio à lista dos extras de um dado modelo, apesar de saber que nunca poderá adquiri-lo. Em duas palavras, isto chama-se sonhar acordado.

Não estou à espera que Josef Koudelka me telefone anunciando, com alacridade incontida, que eu fui admitido na Magnum. É evidente que o meu coração e o meu cérebro explodiriam em simultâneo se isso acontecesse – o que, atento o consequente óbito da minha pessoa, me impediria de saborear o prazer de ter sido escolhido –, mas já ficaria contente se os cooperadores da Magnum não rissem das minhas fotografias quando as virem – se chegarem a vê-las, porque é possível que ignorem a minha candidatura por eu não ter curriculum de fotógrafo. (Convém ter em mente que, além do presidente Koudelka, são cooperadores da Magnum, entre outros, Alec Soth, Martin Parr, Peter van Agtmael, Harry Gruyaert, Georgui Pinkhassov, Abbas e Bruce Gilden – entre muitos outros. É uma verdadeira temeridade apresentar um portfolio a monstros como estes.)

Apenas sujeito este pequeno episódio à irrisão dos leitores porque esta candidatura (chamemos-lhe assim) implicou fazer uma selecção das fotografias a incluir no portfolio. (Já que o menciono, não tive de organizar nada, a não ser numerar as fotografias por ordem decrescente de preferência pessoal e carregá-las na página das candidaturas: não precisei de enviar um portfolio impresso, o que, se fosse exigido, me teria levado a não me candidatar.) Andei pelo Flickr à procura de fotografias que tivessem um mínimo de correlação com o espírito Magnum. (Penso que conheço o suficiente dos fotógrafos da Magnum para determinar o que é esse «espírito Magnum», mas posso estar completamente enganado.) Seja como for, o processo de selecção serviu para remexer em fotografias de que já nem sequer me lembrava.

A conclusão que retirei desta selecção é a de ser inútil publicar muitas fotografias no Flickr. Não vale a pena. Quem visita o photostream vê as fotografias que cabem no primeiro ecrã, nada mais. Depois, publicar fotografias desinteressantes ou supérfluas não contribui em nada para o conforto visual do visitante nem para a reputação do visitado. Eu bem podia ter apenas as quarenta fotografias que seleccionei publicadas no Flickr, porque quase todas as demais – e eu já tenho mais de 1700 fotografias no Flickr! – são redundantes e só estão ali para criar poluição visual.

Isto é assim mesmo: o tempo é o maior e mais exigente mestre que existe quando se trata de avaliar o que fazemos. Ao fim de alguns anos, aquilo que pensávamos ser uma obra-prima de mestre acaba por ser apenas a prima do mestre de obras. Algumas das fotografias que seleccionei resistiram ao teste do tempo; a maioria, porém, não. E, apesar de sentir que as minhas fotografias mais recentes são as melhores, daqui a dois anos posso pensar de uma maneira completamente diferente.

Outra conclusão importante é que a popularidade das fotografias que carregamos para o Flickr não quer dizer que aquelas sejam boas. Quer dizer, apenas e estritamente, que algumas pessoas gostam delas. Quem tem de ser o juiz não é o número de visualizações e de favoritos, mas o próprio autor das fotografias. Eu já tive várias fotografias no chamado «Explore» e, mesmo se algumas delas são razoavelmente interessantes, vê-las no meio das outras escolhidas é um anticlímax. As minhas fotografias passam praticamente despercebidas no meio de retratos cheios de bokeh, de macros de lagartas cheios de bokeh e de HDRs da Golden Gate (alguns sem nenhum bokeh). O «Explore» não afere a qualidade das fotografias: significa apenas que as pessoas que seleccionam uma determinada fotografia gostaram dela, nada mais.

Bom, agora resta-me esperar pelo email de Josef Koudelka anunciando que fui escolhido para integrar a Magnum. E o Ferrari Superfast fica mesmo a matar em azul Tour de France e com estofos de couro bege Tradizione.

M. V. M.

Eu, o esquisitinho

Antes que dê a algum leitor vontade de fazer um comentário invectivando-me por mais um texto fora do tema, deixem-me pedir-vos alguma paciência. Este é um texto solipsista que, aparentemente, nada tem que ver com fotografia, mas por favor leiam além das primeiras duas linhas.

O que não tem que ver com fotografia é o seguinte: hoje predispus-me a responder a um estudo de mercado sobre rádio. Eu gosto de rádio. Ou, pelo menos, pensava que gostava. Até hoje. O inquérito tinha, aparentemente, o propósito de descobrir quais as rádios mais populares e qual o tipo de programação que as pessoas preferem. Ou outra coisa qualquer. Seja como for, começaram-me por fazer perguntas um pouco ridículas sobre como graduava, de 1 a 10, as rádios conforme passassem mais música ou tivessem mais conversas divertidas, ou que importância dava a que passasse música dos anos 80, etc.

Depois vieram perguntas sobre as actuais estrelas da rádio. Foi uma desgraça – não conhecia nenhuma! Só os nomes de Nuno Markl, Ricardo Araújo Pereira e Nilton me soaram familiares (confesso que os dois primeiros têm piada, o Nilton perdeu-a há muito tempo). Os meus sentimentos de alienação e estranheza tornaram-se ainda mais evidentes quando o simpático entrevistador (qualifico-o sem uma ponta de sarcasmo) pôs a tocar clips musicais que seriam demonstrativos de estilos de programação existentes ou futuros. Aparentemente, 98% de quem ouve rádio reparte os seus gostos por axé e sertanejo universitário, pelo género de R ‘n’ B chunga que passa no VH1 e na MTV e por hits requentados dos anos 80. Tive, inclusive, o desprazer de ouvir, ainda que por escassos segundos, Rod Stewart e os Dire Straits!

Eu devo ter sido a pessoa menos representativa de todo o estudo. A minha preferência radiofónica vai para a Vodafone FM, com algumas incursões pela Antena 3 (como me roubaram a antena do carro, torna-se impossível sintonizar a Vodafone FM em algumas zonas da cidade, pelo que mudo para esta sucedânea) e pelos noticiários da TSF. A minha preferência pela Vodafone FM não significa que seja um incondicional, porém: esta rádio é feita de uma maneira muito amadora – mas sem o encanto das rádios piratas – e está demasiado presa a interesses comerciais, como se nota sempre que nos aproximamos da época dos festivais de Verão, com a promoção – aliás óbvia – do Vodafone Paredes de Coura. E as playlists são por vezes repetitivas, porque a Vodafone FM as elabora de acordo com os «gosto» e «não gosto» dos ouvintes. Além disto – ou talvez por causa disto, de tudo isto –, a Vodafone FM não me curou as saudades da XFM e da Voxx.

O grande choque que este inquérito me causou deixou-me mais atordoado que o pobre Sébastien Bourdais: os que, como eu, gostam de música alternativa, ou indie, são uma minoria absolutamente irrelevante – pelo menos para quem efectua este género de estudos de mercado. Aparentemente, só existem a RFM, a Renascença, a Comercial e uma Rádio obscura chamada Smooth FM que passa Frank Sinatra e as canções mais estafadas de Nina Simone. Gente como eu deve ser considerada uma inexistência.

Curiosamente – e aqui chego ao tema deste vosso blogue –, na fotografia também sou assim. Sou parte de uma minoria cujos gostos são minoritários e irrelevantes para o público em geral. Os meus gostos nunca vão para o mais popular, para o mais divulgado. Não faço a mínima ideia (nem me interessa) quem são os fotógrafos que fazem aquelas paisagens maravilhosas que costumam ser «partilhadas» por email em forma de Power Point (em slideshows acompanhados por música de flautas de Pã) e conheço Steve McCurry da mesma forma que posso dizer que «conheço» os Dire Straits e o Rod Stewart. Quantos, dentre os leitores do dpreview.com, estão familiarizados com William Albert Allard e Fred Herzog? Alguns, sem dúvida, mas certamente muito poucos.

Tenho pena de ser assim? Não. Uma vez, um sujeito entendeu que eu era um pedante por ter os meus gostos musicais, e tive muito trabalho para convencê-lo que os meus gostos não eram forçados nem ostensivos: foram os gostos que adquiri ao longo de uma aprendizagem muito influenciada pela rádio (eu ainda sinto alguma comoção quando António Sérgio é evocado) e pelo que os meus amigos ouviam. Aos 16 aprendi a dar mais valor ao som cru dos Clash que às sinfonietas do Rick Wakeman. A partir daí tudo mudou.

Na fotografia passa-se o mesmo, com a importante diferença de que os meus gostos ainda não estão tão filtrados. Ainda sinto um certo frisson quando vejo algumas fotografias de índole, digamos, mais popular. Tenho a consciência plena de que Migrant Mother é hoje um lugar comum na fotografia, mas é a Gioconda da fotografia. Nada a fazer. (Reconhecimento universal coincide muitas vezes com popularidade, embora não sejam bem a mesma coisa.) Mas, tal como na música, sinto muito pouca inclinação para o batido e estafado, para o cliché e o popularucho. Os tipos da Marktest passar-se-iam se tivessem de me entrevistar frequentemente.

M. V. M.

Literatura

Vladimir Nabokov

Sim, eu sei, é puro sadismo. É como oferecer amendoins salgados e tremoços a quem acabou de atravessar o deserto. Deixo os leitores ávidos de prosa fotográfica e, depois de um texto que interrompeu um longo silêncio – o qual deu, por seu turno, continuidade a uma longa sucessão de silêncios apenas fugazmente interrompidos  –, tenho o descaro de dar aos leitores um texto fora do tema. Como se não fosse suficiente o desplante de apresentar um emaranhado complexo de linhas fora do tema, ainda esfrego sal na ferida: o texto é sobre literatura.

Sim, literatura. Eu tenho a convicção – e mantê-la-ei até ao fim dos meus dias – que as boas fotografias são aquelas que mostram o mundo interior do fotógrafo. Se este tiver riqueza de conhecimentos, tal revelar-se-á nas suas fotografias. Não é por acaso que fotógrafos como Cartier-Bresson, Steichen ou Stieglitz eram também intelectuais de craveira e connoisseurs das artes.

Deste modo, rodear-se de boa literatura só pode fazer bem a quem fotografa. Quanto mais não seja, as suas fotografias mostrarão um mundo interior mais rico, texturado e complexo. Não serve, porém, qualquer literatura: se o fotógrafo ler coisas da Sveva Casata Modignani e outros autores de literatura de cordel, o seu mundo interior não expandirá nem um milímetro: as fotografias inspiradas por tais desperdícios de papel e tinta apenas sairão frívolas e tagarelas.

Depois de ter resistido durante muitos anos – por qualquer motivo, adquiri a convicção de que era um livro aborrecido e pesado –, acabei finalmente por iniciar a leitura de Lolita, de Vladimir Nabokov. Comprei-o numa edição que acompanhou o Público há já alguns anos, mas por essa preconcepção estúpida o livro ficou por ler, abandonado ao pó numa estante. Agora que comecei a lê-lo, gostava que ele tivesse oitocentas páginas em lugar das pouco mais de trezentas da edição que tenho em mãos.

Como sabem, sobretudo depois de terem visto a versão cinematográfica de Stanley Kubrick (um dos filmes em que se pode apreciar a verdadeira grandeza desse génio que se chamava Peter Sellers), Lolita é a narração da atracção de um homem maduro (Humbert Humbert) por uma rapariga de doze anos. À primeira vista, tratar-se-ia de um monstro, um pedófilo execrável, e a leitura dos feitos de um depravado deste calibre poderia repugnar o futuro leitor e afastá-lo deste livro – mas, como me esforçarei por mostrar, tal seria um disparate.

Lolita é narrado na primeira pessoa por Humbert Humbert. A narração é auto-depreciativa – Humbert Humbert sabe que a sua inclinação é doentia e que é um pervertido –, mas o estilo é de tal maneira fluído, o humor tão inteligente e o sarcasmo com que Nabokov revestiu Humbert Humbert tão mordaz que a leitura se torna quase compulsiva. Humbert é um homem cultivado e sofisticado e é também um actor: a sua atracção por ninfetas – o próprio Humbert encarrega-se de fornecer uma definição do que estas sejam – é algo que ele tem de esconder a todo o custo, vivendo uma vida de fingimentos e ardis para ocultar a sua sexualidade, e  Nabokov é particularmente brilhante ao traçar a personalidade de Humbert Humbert, que, como todos os que têm algo a esconder, é tímido e desajeitado nas suas aptidões sociais. Nabokov tem ainda a subtileza de, ao fazer o narrador referir-se a ele mesmo na terceira pessoa – o que sucede amiúde ao longo de Lolita –, sugerir um desdobramento patológico da personalidade, embora o texto não se aventure em excesso pelo campo da psiquiatria (o que decerto roubaria fluidez à narrativa).

Lolita não é uma obra moralista, mas não deixa de ser ética. Nabokov não faz nada para justificar ou desculpar o comportamento da personagem principal. Pelo contrário, esta apresenta-se com a consciência de que é um tarado e um dissimulado capaz de conjecturas monstruosas, embora as suas grilhetas morais sejam suficientemente sólidas para o tornar incapaz de concretizar as acções que planeia, como o assassínio da mulher e mãe de Dolores Haze («Lolita» é um diminutivo que apenas Humbert Humbert usa). Humbert tem uma atracção sexual disfuncional, mas ao mesmo tempo é um homem que comunga do sentimento comum em relação a esses crimes. É um predador com plena consciência da gravidade e censurabilidade dos seus actos, mas isto apenas serve para tornar a narrativa ainda mais interessante: a complexidade da personagem e a ambivalência que o leitor sente em relação a ela tornam a leitura de Lolita empolgante.

Há mais. Apesar da não-absolvição moral de Humbert Humbert, Nabokov confronta o leitor com o facto perturbador de Dolores, a despeito dos seus doze anos, não ser inexperiente. Além de ser conhecedora do prazer, é ela quem toma a iniciativa no momento em que a relação carnal que a uniu a Humbert Humbert se consuma. Não que Humbert deixe de ser um pervertido, mas Lolita relata-nos uma devassidão insuspeita – não exactamente pela precocidade, mas pela natureza resolutamente vulgar de Dolores e pela sordidez que rodeou a sua iniciação. Dolores está longe de ser a vítima pura e inocente que poderíamos imaginar, mais parecendo que Nabokov quis confrontar a sociedade com o declínio dos costumes que se esconde por baixo da moral sexual vigente. Com Nabokov não existem ideias de pureza e inocência, as quais são construções artificiais com as quais a humanidade tenta em vão ocultar a carnalidade. Não me surpreende que Lolita tivesse sido recebido como uma afronta à moral em certos meios literários.

O que mais me cola às páginas deste romance absolutamente excepcional, porém, é o estilo, que faz da leitura uma verdadeira delícia para a mente. O estilo é erudito, rico e cuidado – pelo menos tanto quanto é dado a perceber pela francamente boa tradução de Fernanda Pinto Rodrigues –, mas, ao mesmo tempo, solto e embebido naquela auto-ironia a que já me referi.

Pensar que em breve vou acabar de ler Lolita angustia-me. Este é um dos livros mais brilhantes, contundentes, perspicazes que já li – e também um dos mais divertidos. É, seguramente, uma das grandes obras da literatura universal. Não pensem que ter visto as adaptações para cinema (além da de Kubrick, há uma recente, com Jeremy Irons, de 1997) vos isenta de ler Lolita.

M. V. M.

State of the Nation

Começa a tornar-se penoso escrever acerca de fotografia. Que há a dizer sobre este tema? Seguramente, nada de muito interessante. Não posso dizer que a fotografia morreu, porque toda a evidência demonstra o contrário: há cada vez mais fotografias e gente a fotografar.

Por vezes, quando ando nas ruas da minha cidade, sou acometido de uma singular sensação de enfado: caminho com a minha máquina na mão e cruzo-me com multidões que estão a fotografar: mulheres de meia idade com o tronco inclinado para trás e sorriso aparvalhado, apontando o telemóvel ou o tablet (aos quais nunca falta a capinha cor-de-rosa) a coisas que toda a gente já viu e fotografou; jovens com ar de quem não tem nada na cabeça – a não ser um narcisismo as mais das vezes injustificado – a tirar selfies com sorrisos idiotas nos lábios; turistas armados de telemóveis e câmaras bridge a fotografar até à náusea tudo o que vêem à sua frente, como se tivessem obrigação de documentar cada segundo da sua estada no seu destino turístico. E eu, quando me cruzo com todos eles, apercebo-me que estou a fazer exactamente o mesmo, i. e. a fotografar. A questão que instintivamente coloco a mim mesmo nestas ocasiões – que posso eu fazer de diferente? – é de resposta cada vez mais difícil.

E a «fotografia artística»? Infelizmente, a fotografia digital teve um efeito Planeta Agostini: como as câmaras digitais são acessíveis e toda a gente tem uma, o que se ser conjuga com a profusão de websites que dão conselhos gratuitos aos «iniciados», há uma multidão incomensurável de novos Cartier-Bressons (ou pelo menos é assim que eles se imaginam). Tiram uma fotografia a um transeunte, aplicam Nik Silver Efex – sim, porque qualquer fotografia adquire automaticamente estatuto de obra artística se for em preto-e-branco –, publicam-na no facebook, et voilà: agora só falta que o Koudelka lhes telefone a convidá-los para a Magnum. Claro que há sempre o Alec Soth e mais um punhado, mas a única apreciação que recebem destas massas de artistas putativos é as tentativas de imitação. Porque, convenhamos, o que os amadores fazem é copiar os bons fotógrafos e imitarem-se uns aos outros. Ninguém leva a fotografia tão a sério que se imponha a si mesmo padrões de originalidade, pelo que vêem uma determinada fotografia feita num local, acham «giro» e no mesmo dia estão nesse local a fazer fotografias iguais às que acabaram de ver. Porque sim, porque «são só fotografias». Isto é idiótico, mas acontece mesmo com amadores de grande reputação.

E que é feito daquelas fotografias que se fazem como os anúncios da Kodak preceituavam nos anos 70? Estas fotografias não são para mais tarde recordar. Pelo contrário, são ainda mais efémeras que os momentos bons da vida que pretendem ilustrar. As fotografias servem para mostrar no facebook como a nossa vida é gloriosa e alegre (mesmo que estivéssemos a morrer de tédio quando as tiramos). Depois esquecem-se. A única memória na qual perduram é a memória do cartão, mas só enquanto este tem espaço. Depois, quando a memória fica cheia, são apagadas. O conceito de «imprimir» fotografias é hoje universalmente visto como um absurdo. Acabaram os álbuns e as gavetas cheias de fotografias em que mergulhávamos, absortos, a lembrar o passado. Não sei se isto corresponde a uma consciência da falta de valor e irrelevância das fotografias ou a uma alienação delirante que leva a crer que o papel é coisa do passado, mas é seguramente uma delas.

Depois há os tarados do equipamento. Gente que exige que os fabricantes lhes vendam câmaras capazes de valores ISO com sete algarismos e de cem fotogramas por segundo, para fotografarem os seus gatos e os tijolos da parede. Este grupo apenas devia merecer desprezo ou irrisão, mas os fabricantes de equipamentos dão-lhes ouvidos. Adiante, que não vale a pena perder tempo com eles.

Acresce que a imagem está a substituir a expressão oral e escrita. Hoje vê-se grupos de pessoas que estão fisicamente juntas, mas não se falam: tudo o que fazem é mostrar umas às outras as imagens que guardam nos telemóveis. (Isto tem, evidentemente, repercussões na qualidade da expressão oral e escrita que ainda resta, porque muita gente parece estar a desaprender a fala e a escrita, com um vocabulário cada vez mais estreito e cada vez mais erros ortográficos, gramaticais e de sintaxe.) Dez segundos no facebook é quanto basta para perceber a extensão da substituição da realidade por imagens.

Com tudo isto, fotografa-se como se o mundo fosse acabar hoje mesmo. Fotografa-se tudo, a propósito e a despropósito, porque quem o faz convenceu-se que os outros estão profundamente interessados no que estão a ilustrar com essas fotografias. É difícil não sentir saturação pela fotografia: se não suportamos um chato a tagarelar, por que havemos de considerar interessantes as imagens tagareladas que se publicam nas «redes sociais»?

Por tudo isto, espero que compreendam a cada vez mais draconiana escassez de textos no Número f/. Ao contrário dos turistas, dos artistas do facebook e das mulheres patetas que fotografam com tablets, eu entendo que mais vale estar calado se não tenho nada a dizer. Ou a fotografar. Ou a dizer sobre fotografia.

M. V. M.