Ren Hang (1987-2017)

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Acontece-me com a fotografia o mesmo que com a literatura: sinto uma necessidade tão grande de estruturar os meus conhecimentos que não quero conhecer os contemporâneos sem antes me familiarizar com os clássicos. O que existe agora é o culminar do que se fez antes; há uma evolução, decerto caracterizada por rupturas e ciclos, mas não deixa de ser importante – pelo menos para mim – compreender até que ponto a evolução da arte determinou a produção actual.

O problema de pensar assim é que o passado é tão vasto que exige uma vida inteira para ser conhecido – e mesmo esta dedicação não chega senão para conhecer uma parte do que foi feito. Resta-me, pois, orientar-me segundo algumas referências para tentar compreender a arte, sempre com a consciência de que o meu conhecimento será sempre necessariamente superficial, incompleto e inconsistente. O que é uma pena, evidentemente, mas a vida que escolhi não é a do estudioso das artes.

Mesmo na fotografia, que é uma arte muito recente, pouco sei sobre os clássicos. Não por estes remontarem a um passado remoto e indocumentado, mas pela profusão que a fotografia possibilitou. Nunca conhecerei todas as fotografias de Alvin Langdon Coburn e de W. Eugene Smith. Contudo, sinto que, enquanto este conhecimento dos mestres do passado não estiver completo, não poderei compreender o presente. O que, evidentemente, obsta a que conheça bem os contemporâneos. Já li a Ilíada e a Odisseia, mas não conheço nada de Paul Auster; vi inúmeras fotografias de Henri Cartier-Bresson (mesmo em exposição), mas não consigo lembrar-me de uma só de Wolfgang Tillmans. Triste, não é?

Não surpreende, atento o facto de o tempo que dedico aos históricos não chegar para os contemporâneos, que a obra de Ren Hang me tivesse passado de todo despercebida até ler notícias sobre a sua morte, no dia 26 de Fevereiro, com apenas 29 anos. O que foi uma injustiça.

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As fotografias de Ren Hang não são grande coisa para uma comunidade obcecada pela técnica que exige sensores de médio formato nas suas compactas e se deixa maravilhar por artifícios técnicos superficiais: por exemplo, as fotografias nocturnas sofrem de excesso de iluminação do flash. Contudo, nada disto é importante. O que conta, nas fotografias de Ren Hang, é a enorme sensação de liberdade e beleza que delas exala. E é também a transgressão, claro. Os nus de Ren são integrais, impúdicos – mas são, sobretudo, naturais. Pelo menos quando se é jovem, porque os modelos são jovens, de corpos firmes e plenos de vida. Pela concepção de Ren, a nudez é comum a todas as pessoas. Qual o problema de mostrá-la, se é assim? Infelizmente, nem todos pensam tão saudavelmente e Ren Hang foi proscrito e censurado pelas autoridades chinesas (o que talvez lhes devamos agradecer, porque assim aumentaram a notoriedade do fotógrafo).

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Mas a transgressão das fotografias de Ren não é tão superficial que se circunscreva à nudez dos modelos: há também o facto de os modelos serem fotografados em cenários improváveis e serem frequentemente acompanhados de animais, sendo que, nas fotografias em que estes últimos figuram, Ren se empresta a jogos de sobreposições que nem sempre são bem sucedidos (na minha opinião, que é apenas a minha opinião). O resultado é que a obra de Ren Hang é uma das mais originais com que me deparei. E fez-me pena que ele tivesse morrido tão novo, com apenas 29 anos. Algumas das suas fotografias – aquelas em que os corpos moldam formas esculturais – fazem-me lembrar, com simpatia, uma das minhas fotografias favoritas de sempre, que tanto me fez reflectir sobre a arte contemporânea, a nudez e a beleza: refiro-me a Dois Nus Vistos de Trás, do mestre japonês Kishin Shinoyama.

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Apesar da vibração de vida, da pujança, da beleza e do sentido de humor estampados nas fotografias de Ren Hang, ele sofria crises de depressão que o levaram ao suicídio. Isto deixa-me a pensar: a depressão é um traço comum em muitas das mentes mais brilhantes e criativas. Não sei se será provocada pela incompreensão, pela dificuldade que alguém sensível tem em integrar-se num mundo frio e duro ou por outra razão qualquer – mas, seja o que for, é suficientemente forte para que se perca a força motriz que nos faz levantar de manhã com a coragem – e o prazer – de viver mais um dia. Como se, de repente, tudo tivesse perdido valor e deixado de valer a pena. Ou talvez seja por a sensibilidade fazer intuir com mais profundeza o absurdo da vida e a falsidade do mundo. Quem sabe?

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O que sei é que o mundo perdeu um grande fotógrafo. Felizmente, dele ficará a sua obra.

M. V. M.

Um aniversário peculiar

Hoje fui a uma festa de aniversário. Aliás, não foi exactamente uma festa: não havia música ruidosa nem gente a dançar freneticamente. Foi um porto de honra e não comemorava o aniversário de ninguém – ou melhor, de nenhuma pessoa em especial. O porto de honra celebrava o quinto aniversário da Câmaras & Companhia.

O que vão ler a partir daqui é publicidade descarada. Não há, no Porto, escassez de lojas que vendam material fotográfico analógico. A AFF e a Colorfoto vendem rolos, químicos e papel. Até a Fnac vende rolos. E também não é a única loja (e laboratório) exclusivamente dedicada à fotografia convencional. Há, pelo menos, mais duas. Contudo, a Câmaras & Companhia tem qualquer coisa especial: à sua frente está alguém que pôs todo o seu profissionalismo e saber ao dispor dos entusiastas da película. Neste caso é um casal, porque o Raúl Sá Dantas e a Leonor tornaram-se indissociáveis.

É quase inimaginável o que eu aprendi graças a eles. Mesmo se não levo o entusiasmo por equipamento tão longe como o frequentador típico da Câmaras & Companhia, o acervo de conhecimentos que acumulei é assinalável. Se hoje tiro partido da película e da minha OM-2n, devo-o em grande parte ao Raúl e à Leonor.

Eu não vou fingir que sou cliente desde a primeira hora, porque não sou. A Câmaras & Companhia comemorou agora cinco anos e eu só fotografo com película há três anos e nove meses (mais dia menos dia). A primeira vez que entrei na Câmaras & Companhia, em Junho ou Julho de 2012, nem sequer foi para comprar material fotográfico: foi por me ter sentido fascinado – um fascínio à primeira vista – pela antepassada da Olympus E-P1 que usava então. Quis fotografá-la: era a Pen F, que estava sobre um dos expositores da loja. Nessa altura ainda estava longe de imaginar que me iria tornar num cliente assíduo.

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Também não foi a minha primeira escolha. Só cheguei à Câmaras & Companhia em Julho ou Agosto de 2013, numa altura em que já tinha a OM, depois de dois fracassos clamorosos com as revelações e digitalizações de dois T-Max (cujos autores, por decoro, permanecerão inominados). O que posso dizer é que, desde que conheci a qualidade das revelações e digitalizações do R. S. D., não tive mais necessidade de procurar outras lojas e laboratórios. Para quê? Mais ninguém oferece, além da qualidade, o saber e a simpatia que encontro na Câmaras & Companhia. Esta loja não é só uma loja (e um laboratório): é também um lugar de tertúlia e de conhecimento. Além de, evidentemente, ser um regalo para os olhos, com aquela cornucópia de câmaras e lentes clássicas.

Depois de ter entregado ao Raúl o primeiro rolo que confiei à Câmaras & Companhia, após uma longa e frutuosa conversa, despedi-me dele com uma frase muito cliché: citei Humphrey Bogart em Casablanca. Cliché ou não, foi verdade: aquele foi mesmo o início de uma bela amizade.

M. V. M.

Evoluir

 

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Finalmente encontrei inspiração para escrever qualquer coisa. E foi graças ao melhor website que se pode visitar quando não se tem nada para fazer, não apetece fazer nada e se está a morrer de tédio: o boredpanda.com

Pois bem: quando começamos a fazer algo de criativo – não vou ao ponto de lhe chamar artístico –, temos sempre a ilusão de que o que acabamos de fazer é brilhante. Exultamos; apetece-nos sair à rua cantando e dançando e apetece-nos mostrar o que fizemos a toda a gente.

Pode acontecer, porém, que entre essa «toda a gente» a quem queremos mostrar as nossas coisas esteja alguém com algumas noções acerca da arte que escolhemos. Mais raramente, podemos mesmo ser confrontados com uma opinião sincera. O que nos dirão pode ser doloroso: normalmente será qualquer coisa fazendo alusão à falta de originalidade, seguida de uma dissecação das falhas técnicas.

Evidentemente, todos nos sentimos profundamente ofendidos quando isto se passa connosco. Algumas pessoas, embora intuindo facilmente as falhas do nosso trabalho, são demasiado educadas para nos confrontarem com a sua opinião. Com isto, porém, não estão a fazer nenhum favor ao aspirante a artista: estão apenas a deixá-lo convencer-se de que o que fez tem algum mérito e estão a encorajá-lo a persistir nos erros. Muitas vezes esta indulgência tem qualquer coisa de complacente: o crítico sabe ou intui que não vale a pena fornecer uma opinião sincera porque o aspirante nunca atingirá um nível de qualidade que lhe permita afirmar-se como artista. Esta indiferença é, mesmo que não o percebamos, a mais contundente e dolorosa forma de crítica: mais tarde vamos perceber que aquela pessoa pensa que somos meros medíocres. E a mediocridade é o pior dos defeitos.

Mesmo sem críticas, porém, é possível que aqueles de entre nós que têm um espírito autocrítico, ou pelo menos que sentem vontade de evoluir constantemente, se apercebam da falta de qualidade dos seus esforços iniciais. No meu caso – eu não consigo fotografar com o grau de abstracção que pretendo para as minhas fotografias, mas tornei-me um crítico áspero de mim mesmo – olho com horror para o que fiz no meu não tão remoto passado. São muito poucas as fotografias que fiz nos meus inícios das quais me posso verdadeiramente orgulhar: foi tudo cheio de diletantismo, de autocomplacência, de ilusão. Dos muitos milhares de fotografias que fiz com a point-and-shoot, apenas duas se aproveitam; o mesmo quanto aos meus primeiros dois anos com a E-P1, E agora olho as fotografias do meu período analógico e concluo que por cada rolo há, quando muito, uma ou duas fotografias verdadeiramente boas.

O pensamento de que me cheguei a orgulhar de coisas que fiz em 2010 e 2011 chega a ser embaraçoso e deixa-me a pensar na figura que terei feito ao mostrá-las a outras pessoas. As minhas limpezas do Flickr são uma revelação: já devo ter apagado o correspondente a cinco vezes o número de fotografias que mantenho agora online. Ver aquelas fotografias foi embaraçoso. Nem mesmo no Flickr, cujos padrões estão longe de ser excelsos, aquelas fotografias mereciam ser mostradas. Apagá-las foi tanto um acto de higiene como de preservação do amor-próprio.

A única fotografia de principiante da qual me orgulho - e disseram-me que devia cortar a rapariga do lado esquerdo!
A única fotografia dos tempos de principiante da qual me orgulho – e disseram-me que devia cortar a rapariga do lado esquerdo!

Nada disto, porém, me parece ser exclusivo de mim mesmo. Penso que toda a gente passa por isto. Se não fosse assim, Cartier-Bresson não teria afirmado que as nossas piores fotografias eram as primeiras dez mil. E isto com referência à fotografia analógica – porque, se HC-B tivesse vivido e fotografado na era digital, esse número teria de ser multiplicado por dez ou mais. Penso que é um caminho que tem de ser percorrido – e, se nunca ficarmos satisfeitos, tanto melhor: é sinal que queremos sempre ir para a frente e revolucionar-nos a nós mesmos. A pior estultícia é pensar-se que se é bom e não se evoluir, conduta que infelizmente é mantida por uma imensa multidão de pretendentes a fotógrafo. Chacun a son goût

M. V. M.

Mais leituras (ou como a literatura pode mudar a maneira como fotografamos)

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Stefan Zweig

Alguns leitores poderão, porventura, interrogar-se por que surgem tão frequentemente, aqui no Número f/, textos que nada têm que ver com fotografia. Já escrevi aqui sobre música, literatura, política e mesmo alta fidelidade e automóveis, temas que não estão nem remotamente ligados à fotografia.

A razão é muito simples: este não é um blogue de fotografia como os outros. É o meu blogue e eu tenho outros interesses para além da fotografia. Contudo, este não é, em sentido estrito, um blogue pessoal; se fosse, ter-lhe-ia dado um nome que não estivesse tão intimamente relacionado com a técnica fotográfica. A minha opção por escrever e publicar textos fora do âmbito da fotografia é deliberada. Cada fotografia que o leitor faz – ou eu mesmo, evidentemente – carrega consigo muito do que o seu autor é. Cada fotografia incorpora o acervo de conhecimentos e experiências de vida do seu autor, mesmo que este fotografe casualmente e procure ser objectivo e textual. Mesmo quando imita, o fotógrafo está a mostrar algo de si, nem que seja que é uma pessoa limitada, sem imaginação e que gosta de seguir caminhos já trilhados e bem batidos.

Penso que é muito importante compreender o que acabei de expor. Se virmos bem a obra dos fotógrafos verdadeiramente bons, não temos como negar a influência da sua experiência de vida, das suas concepções sobre o mundo e da sua erudição. Numa palavra, a fotografia revela muito de cada um. Por vezes mais do que o desejado pelo autor.

Porque tenho esta concepção de que a fotografia contém em si tudo o que o seu autor é, parece-me muito natural que um blogue como este não se circunscreva à sua temática. Com efeito, quanto mais variado for o mundo do fotógrafo, maiores serão as possibilidades de a sua fotografia ser rica em significados.

Vamos, então, sem mais delongas, ao assunto que motivou esta longa tergiversação. Contei aos leitores que estive num outlet do livro, onde aproveitei para comprar algumas obras que me mereceram interesse. Uma delas foi Amok, do austríaco Stefan Zweig. Este autor ganhou uma reputação imerecida de ser um escritor de banalidades cujos livros, repletos de lugares-comuns, dificilmente merecem ser havidos como literatura. Com efeito, Zweig era imensamente popular no seu tempo, mas seria injusto pensar nele como o Nicholas Sparks do início do Século XX. Pelo menos na minha opinião, que é pouco fundada. Com efeito, apenas li três obras de Zweig – e uma delas é uma biografia –, o que não me autoriza a discorrer sobre ele.

Contudo, hoje aconteceu-me algo de singular que me atiçou a curiosidade por um autor que escreveu livros como Confusão de Sentimentos ou Segredo Ardente. Estava a ler Amok e notei que, apesar de o livro ainda não ir a meio, a narrativa aproximava-se rapidamente do seu desfecho. À medida que me aproximava do que se tornava óbvio que seria o final do conto, pensava como poderia Stefan Zweig ter prolongado o texto por todas aquelas páginas que faltavam. Percebi um pouco depois, quando atingi o fim de Amok (que, diga-se, é excelente), que, apesar de não haver qualquer menção disso na capa, o volume continha outra novela, esta intitulada Carta de Uma Desconhecida. Conhecendo a reputação de Stefan Zweig, imaginei que seria algo de xaroposo, mas predispus-me a ler sem preconceito.

Ainda bem que o fiz. Diante dos meus olhos, nestas páginas anacronicamente tipografadas – o meu exemplar de Amok é um fac-símile da 3.ª edição da Livraria Civilização, a qual foi lançada em 1942 – desenrolou-se, para minha enorme surpresa e incontida estupefacção, o mais belo conto de amor que alguma vez li. É um conto epistolar que narra a paixão de uma jovem mulher por um vizinho que teve na adolescência, um romancista abastado mas ainda jovem. A intensidade da paixão da jovem é contada de uma maneira tão bela e arrebatadora, tão plena de força e de sensibilidade, que me fez perceber de imediato que estava a ler uma obra de génio, escrita por alguém de intuição penetrante e sensibilidade romântica (romantismo, no sentido da corrente artística que caracterizou o Século XIX, é o predomínio da sensibilidade sobre a razão).

Será esta, porventura, uma leitura fácil, acessível a uma massa que se estende muito além do círculo restrito da intelectualidade; mas – e depois? Acaso não se passa o mesmo com o nosso Camilo e o Amor de Perdição? O amor e o romantismo são uma parte importante da vida. E, acreditem ou não, a sua presença nas nossas vidas vai ficar embebida nas nossas fotografias. Leiam Carta de Uma Desconhecida e deixem-se comover e arrebatar, mesmo que a sua leitura se venha a tornar no vosso pecadillo inconfessável. Vai ser bom para a vossa fotografia. Bem melhor do que saber as equações da equivalência será de certeza.

M. V. M.

Simplificar, simplificar

0a3741dc68ea133aa79cab80f3fa38d4_black-and-white-sad-face-aperture-clipart_2500-2500Ainda me sinto um pouco zonzo depois de ter lido este artigo – e, sobretudo, os comentários e respostas do seu autor – no dpreview.com. Tanta ciência causou-me uma sensação de vertigem e fez-me sentir que, afinal, não percebo nada de fotografia porque não domino as matemáticas da equivalência. Agora está explicado porque não consigo ter mais de 2000 visualizações diárias no meu Flickr: as minhas fotografias não transmitem o conhecimento científico das equivalências.

O artigo em questão pretende, de uma forma exaustiva, convencer os leitores que, quando se monta uma lente, digamos, 28mm-f/2 numa câmara com sensor APS-C, esta lente hipotética comportar-se-á como se tivesse uma distância focal de 42mm e uma abertura máxima de f/3; e, se a mesma lente teórica fosse instalada numa Olympus ou Panasonic digital, seria na verdade uma lente 56mm-f/4. Eu sei, por experiência própria, que isto é verdade quanto à distância focal – eu usei intensivamente uma lente de 28mm montada numa Olympus E-P1 –, mas já não aceito que esta equivalência se estenda à abertura. Ainda que seja verdade que, em termos de profundidade de campo, um sensor full frame tem características que, para serem reproduzidas em câmaras com sensores menores, obrigam a aberturas maiores – o que é ainda assim discutível, uma vez que a profundidade de campo não depende apenas da abertura –, imaginar-se que esta «equivalência» se estende à exposição é absurdo.

Imaginemos que a mesma luz solar passa através de uma janela e é reflectida em paredes de área diferente; se as teorias da «abertura equivalente» fossem verdadeiras, teríamos de aceitar que a parede maior capta mais luz! Esta analogia pode ter o vício de simplificar em excesso, mas é disto mesmo que algumas pessoas se deixam convencer. É absurdo, evidentemente. É por este motivo que prefiro pensar nas coisas em termos de crop factor: uma fotografia feita com uma câmara equipada de um sensor APS-C difere de uma idêntica feita com uma câmara full frame por haver um corte pelas bordas da imagem. É como se víssemos uma fotografia que foi recortada pelas margens. Naturalmente, a imagem vai aparecer com menos desfoque, mas isto é exactamente o que aconteceria se fotografássemos a mesma cena com uma full frame, só que mais perto do motivo. E aqui intervém o factor distância: quanto maior for a distância entre a câmara e o motivo, maior será a profundidade de campo (como qualquer pessoa que use frequentemente teleobjectivas sabe muito bem).

Deste modo, esta teoria da «abertura equivalente» é uma falsidade. Mas o artigo a que me refiro vai mais longe e fornece exemplos que pretendem comprovar esta teoria através das diferenças noutras variáveis da exposição, como o tempo de exposição e a sensibilidade ISO. Isto só serve para deixar os neurónios dos nerds em ebulição, calculando equivalências nos tempos de exposição e nas sensibilidades ISO.

Tomemos este exemplo: diz-nos o autor do artigo que, «se fotografarmos, por exemplo, a f/5.6 com uma câmara Micro 4/3 [que tem um crop factor de x2], não há nenhuma razão por que não se possa fotografar a f/11 e com a mesma velocidade de obturador numa câmara full frame». Até aqui, o autor está a seguir a lógica da «abertura equivalente» em que acredita, mas logo a seguir diz isto: «É necessário aumentar o ISO, mas, uma vez que se está a captar a mesma quantidade de luz total, as duas imagens serão muito semelhantes».

Não. Se é necessário aumentar o ISO nessas circunstâncias, tal significa que se está a captar menos luz e que se precisa de compensar essa perda através de uma das variáveis de exposição, pelo que não se está realmente a «captar a mesma quantidade de luz». Está a captar-se menos, de onde a necessidade de aumentar a sensibilidade do sensor à luz. A teoria da «abertura equivalente» é falsa.

Além de falsa, só serve para confundir as pessoas. Pode até levá-las a pensar que as únicas câmaras capazes de bom desempenho são as que têm sensores full frame (o que até nem é uma mentira descarada, mas também não é de todo uma verdade absoluta). E, acima de tudo, levanta algumas questões: qual é a utilidade, ou a necessidade, de encher a cabeça com equações? Será que alguém vai fazer fotografias melhores por saber calcular a abertura equivalente, ou o ISO equivalente, ou o tempo de exposição equivalente? Isto tem o potencial de roubar todo o prazer ao acto de fotografar.

Henry David Thoreau disse: «A nossa vida esvai-se em minudências… simplificar, simplificar». Esqueçam a «abertura equivalente» e divirtam-se a fazer fotografias interessantes. Seja com que formato de sensor for – ou, de preferência, com película.

M. V. M.

Adivinhem quem ganhou

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Se alguém ainda tinha dúvidas sobre a capacidade de avaliação e clarividência do M. V. M., agora vai provavelmente encher-se de certezas. O M. V. M. elegeu uma fotografia como fotografia do ano – podem confirmar aqui – e a World Press Photo atribuiu, hoje mesmo, o primeiro prémio a essa mesma fotografia. Quem sabe os membros do júri não são leitores do Número f/.

Antes que chovam críticas à minha presunção, devo esclarecer que estava apenas a ser jocoso no parágrafo anterior. Sim, é verdade que, num texto escrito no dia 24 de Dezembro do ano passado, considerei a fotografia do turco Burhan Ozbilici «mais importante que todas as demais»; e é também verdade que esta mesma fotografia ganhou o prémio de fotografia do ano da World Press Photo de 2016. Contudo, não há nenhuma relação causa-efeito entre ambos. Decerto ninguém da WPP lê o Número f/, nem o M. V. M. tem dons divinatórios. A única coincidência é a de esta fotografia ser excepcional. Se algum mérito tenho, este foi, não o de adivinhar qual ia ser o prémio – o qual era, francamente, mais que previsível –, mas o de ter reconhecido o mérito da fotografia e do seu autor.

Esta fotografia de Burhan Ozbilici tem tudo o que é imprescindível para ganhar prémios de fotojornalismo: é extremamente forte e expressiva, relata um acontecimento actual e tem um cunho fortemente simbólico: é um libelo contra a obscenidade da violência e a gratuidade do homicídio. Acima de tudo, porém, é uma prova da necessidade do fotojornalismo: o mundo precisa de profissionais com estofo para fazer fotografias como esta. O «jornalismo de cidadão», entendendo-se como tal o facto de um transeunte ter um telemóvel à mão aquando de um dado acontecimento e fazer uma foto ou um vídeo (o qual, aparentemente, tem de ser vertical), nunca será capaz de produzir fotografias como esta. É preciso um olhar bem treinado e uma capacidade de fazer escolhas complexas numa fracção de segundo (como por ex. quanto ao enquadramento) para que aconteçam fotografias assim. E uma coragem a toda a prova, acrescente-se.

Contudo, nem toda a gente pensa desta maneira. Quando os prémios da WPP são tornados públicos, segue-se sempre um chorrilho de críticas de gente que se declara chocada por ter sido mais uma vez o horror e a violência a servir de tema à fotografia premiada.

O que queriam eles que a WPP premiasse? Fotografias de uma cascata com arrastamento da água? Uma flor com imenso bokeh? Um macro de um insecto? Estas críticas parecem-me provir de pessoas que não fazem a menor ideia do que é fotojornalismo e vituperam tudo quanto deixe a nu a realidade crua da violência e do horror (como se o mundo não fosse composto deles). Tendi a ver, nesta recusa do fotojornalismo mais directo, uma espécie de pudor, de puritanismo, mas agora tudo encaixa na perfeição: o que essas pessoas têm é horror à liberdade, em especial à de imprensa. Estas pessoas gostariam, certamente, de apenas ser informadas do que há de maravilhoso no mundo, mas o fotojornalismo não pode desempenhar esse papel. A sua função é informar, e não transmitir uma ideia falsa do mundo.

Estes críticos querem censura e querem que apenas aquilo que lhes seja agradável constitua notícia. Não é surpresa nenhuma que Donald Trump e a sua entourage tenha escolhido a imprensa como principal inimigo: há pessoas para quem a imprensa apenas serve para ser instrumentalizada e reagem mal quando as notícias não fantasiam um mundo cor-de-rosa. Uma imprensa livre é um enorme obstáculo para estes construtores de factos alternativos.

É assim que anda o mundo. Há pessoas que, em lugar de ficar gratas por haver quem lhes mostre a verdade dos acontecimentos, refila e resmunga por não lhes mostrarem um mundo de sonho. O mundo não é de sonho: apesar de toda a sua beleza, é também composto de crime, violência, miséria e horror. Ignorar isto não vai fazer com que os males desapareçam.

M. V. M.

Ler

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A minha transição de 2016 para 2017 foi acompanhada por dois livros, ambos de Marguerite Yourcenar: A Obra ao Negro e Memorias de Adriano. Foram dois livros belíssimos que reli, depois de tê-los lido há cerca de vinte anos.

Na verdade, porém, foi como se os tivesse lido pela primeira vez: não retive nada das primeiras leituras. Não percebi que por detrás das narrativas históricas estava uma análise profunda dos dias que se viviam à data em que as obras foram escritas, como se Marguerite Yourcenar tivesse querido dizer que existe um devir eterno – ou melhor: uma continuidade que eternamente se renova. Nem me apercebi, nas primeiras leituras, da luta entre as forças da razão e do obscurantismo que se manifestavam ainda – e são agora ainda mais actuais – quando A Obra ao Negro foi escrita, do carácter profético de Memórias de Adriano quando se conta a repressão dos judeus pelo império romano, ou da apologia do amor livre com que Yourcenar se antecipou em três décadas aos movimentos que despontaram no anos 60 do século passado. Não sei com que estado de espírito terei lido aqueles livros, mas fi-lo desatentamente. Ou talvez as reflexões que a leitura me mereceu então não tivessem perdurado na minha memória.

Ler um romance nunca é, para mim, seguir uma narrativa: é sempre um teste à minha atenção. Um autor nunca se limita a escrever uma história: está permanentemente a deixar em escrito a sua visão da vida e do mundo. O que me seduz, na leitura, é descobrir essa visão. As minhas leituras tendem a ser pessimistas, pois os meus autores predilectos vertem pessimismo nas suas obras. Nelas se descrevem os vícios e os defeitos que são naturais ao homem. Nem podia ser de outra maneira: se as pessoas fossem perfeitas, que haveria para contar?

Este pessimismo a que aludo não é, porém, o mesmo que negativismo: a única obra cínica e completamente descrente do homem e das suas virtudes que li foi Nana, de Émile Zola, que era decerto um homem amargo e descrente na humanidade. Os revolucionários chineses de A Condição Humana (André Malraux) são capazes de matar, fraquejam e são assaltados por dúvidas, mas existe neles uma fraternidade uma pureza de ideais que enobrece a espécie humana; o capitão Ahab de Moby Dick tudo sacrifica na sua loucura de capturar o mastodonte branco, mas que seria do homem sem o sonho e a ambição?

Não é nenhum sentido oculto que procuro nos livros que leio: é uma mensagem. Porque o único sentido oculto das coisas/É elas não terem sentido oculto nenhum. O que procuro é o que o autor incorpora das suas ideias nos seus contos e romances; é o que ele quer que percebamos, sem contudo o deixar explícito. Cada autor confia na inteligência dos seus leitores para descobrir que ideias subjazem à construção das suas personagens e ao destino que lhes dá.

Claro que, tal como na fotografia, na literatura há a artística e a de pechisbeque. Não sei dizer quando a literatura se tornou num negócio (se não o foi sempre), mas o surgimento de uma indústria literária – há autores que apenas dão o nome aos seus best sellers, que são escritos por equipas de escritores assalariados – foi algo de muito mau. Abastardou a literatura. Eu nunca conseguirei abrir, ou sequer tocar, um livro de Dan Brown, Nicholas Sparks ou de Sveva Casata Modignani (entre muitos outros). Livros como os destes autores seguem fórmulas para agradar a públicos amplos, mas que dizem eles sobre a vida? Nada. Tudo o que pudermos aprender com eles se situa num nível que nunca ultrapassa a frivolidade e o comezinho. São livros cientificamente estudados para vender aos milhões, mas, depois de lidos, nada resta, nada perdura.

Felizmente, livros como estes são facilmente esquecidos. Hoje leio obras que foram escritas há um ou dois séculos; quem se lembrará de O Código da Vinci dentro de cinquenta anos? E as imitações de José Rodrigues dos Santos, sobreviverão elas ao seu autor?

Esta efemeridade do pechisbeque literário tem uma manifestação corpórea nos milhares de livros que ficam por vender. Não há nada mais deprimente do que ver livros de Ken Follett numa banca de uma feira do livro, num escaparate da M Books ou num alfarrabista pouco criterioso. São objectos inúteis, sem valor, que ninguém quer porque nada têm de genuíno a dizer. Leram-se uma vez e cumpriram a sua função epidérmica de entreter, como um filme medíocre de Hollywood.

Isto veio a propósito da minha visita de hoje ao «outlet do livro» que está instalado no Pavilhão Rosa Mota. É deprimente ver aqueles livros: são guias da sexualidade (porque há quem precise de aprendê-la em livros…), obras com títulos ridículos que ninguém no seu juízo quer ler – e muito menos comprar –, livros datados de episódios históricos irrelevantes, e, evidentemente, muitos best sellers de literatura barata. De todos os livros que ali havia, só alguns me mereceram atenção. Já lera alguns deles e outros não me interessavam, pelo que saí de lá com apenas quatro livros: um pequeno conto de Thomas Hardy (porque a leitura do seu Judas, o Obscuro, foi um momento memorável das minhas leituras) intitulado O Pregador Atormentado, Amok, de Stefan Zweig, uma colectânea de contos de Henry James (autor do qual nada conheço) e um ensaio de Mario Vargas Llosa sobre o conflito israelo-palestiniano (porque me interessa conhecer a opinião de uma mente brilhante sobre este tema, ainda que não me identifique com as ideologias que ele propugna). E foi tudo. O resto era bafiento e tão útil como cadáveres depois de autopsiados.

M. V. M.