Tenham paciência

Não, o título não é um apelo a que os leitores compreendam o incompreensível mutismo do M. V. M. e a escassa produção literária patenteada no Número f/. E este título encabeça – surpresa! – um texto acerca de fotografia. A minha inspiração para o texto de hoje surgiu-me por este Natal ter caído no meu sapatinho um puzzle. Uma pirâmide de madeira, com camadas sobrepostas de tons diferentes (como os contraplacados), cortada em dez peças. Uma destas últimas parece não encaixar em lado nenhum, pelo que é certamente a chave da resolução do quebra-cabeças. Este puzzle foi cientificamente concebido para levar à loucura aqueles que se propuserem resolvê-lo; estou prestes a desistir dele, ou a declarar a sua irresolubilidade. Curiosamente, a embalagem trazia instruções – as quais deitei ao fogo no fogão de sala –, o que só pode querer dizer que o público-alvo deste quebra-cabeças é composto por batoteiros e preguiçosos, ou por pessoas que cumulam estes dois defeitos.

Este puzzle merece referência por ter posto à prova uma qualidade que é muito escassa em mim: a paciência. Dizer que eu sou extremamente impaciente é um eufemismo: comparado comigo, o Sebastian Vettel parece um jogador de xadrez. E, no entanto, tenho para mim que a paciência é a virtude n.º 1 de quem fotografa. Pelo menos de quem fotografa como eu. Sim, estou a ser profundamente ovidiano ao aconselhar os outros a ser o que não sou e a fazer o que não faço, mas façam o que eu digo, não o que eu faço, porque video meliora proboque deteriora sequor.

Eu explico-me: muita da minha fotografia depende de esperar. Espero por um bom momento. Em geral, esse bom momento acontece quando alguém passa num lugar que escolhi e dá significado a uma determinada composição. Ora, isto pode implicar esperas muito longas. Acontece-me muito frequentemente encontrar um bom local – o que, por regra, é sinónimo de local com linhas interessantes e boas condições de luz e sombra – e não passar ninguém. E que faço eu? Persevero? Não – desisto. Estou cinco minutos à espera e impaciento-me: começo a pensar no tempo e nas oportunidades que estou a perder e a imaginar que os transeuntes estão a olhar para mim e a julgar-me pela figura que estou a fazer. Evidentemente, quando desisto, cruzo-me sempre com alguém que vai passar no local que havia escolhido – geralmente uma mulher jovem e elegante.

Não é só neste tipo de fotografia a que se convencionou chamar «de rua» que se exige paciência. Aliás, se formos a pensar bem,  esta forma de fotografar até é uma das que exigem menos paciência. Pelo menos comparada com outras. As exposições longas, por exemplo. Além de desafiarem a paciência, as exposições longas comprometem a saúde psíquica. Esperar que se produzam os rastos das estrelas ou o arrastamento das ondas do mar é simplesmente entediante (mesmo se nunca experimentei a primeira das modalidades enunciadas).

A fotografia da vida selvagem também requer paciência – ou melhor: exige que se saiba esperar. Estar numa cabana camuflada ou escondido na vegetação enquanto se espera que o leão acasale com a leoa – eis um exemplo de voyeurismo fotográfico gratuito – ou que uma íbis aterre ou levante voo: há lá coisa que exija mais paciência? E nem falo dos fotógrafos que ficam submersos em rios de águas gélidas, esperando que um urso venha apanhar a sua ração diária de salmão fresco (os ursos, infelizmente, ainda não se aperceberam dos benefícios que um frigorífico pode trazer).

Se pensam que a fotografia de objectos em movimento rápido não exige paciência, desenganem-se. Os fotógrafos dos futebóis têm de esperar longamente pelo momento do passe ou do golo antes de fazer a fotografia que vai ornar as páginas dessas maravilhas informativas que são os jornais desportivos. Por vezes acocorados, segurando a custo objectivas gigantescas, e sempre com o risco de apanhar com uma bola extraviada (o que sempre é melhor que ser pontapeado pelo Josh Homme durante um concerto dos Queens Of The Stone Age).

A verdade inelutável é que a fotografia exige paciência. E eu, hélas, não a tenho. Ou melhor: a que tenho é de curta duração. Aqui está uma das muitas coisas em que, decididamente, preciso de melhorar.

M. V. M.

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Completamente fora do tema

O facto de eu escrever sobre fotografia não significa, de maneira nenhuma, que esta seja a minha única preocupação. Estou atento ao que se passa no mundo e no país e não prescindo de ter uma opinião. Há coisas que se estão a passar em Portugal, nas quais ninguém repara porque a) a sobredosagem de informação – e, sobretudo, a forma como esta é transmitida – leva à náusea e ao desinteresse, o que é uma forma de acomodação e b) porque as pessoas que não se deixam alienar pelo fenómeno referido em a) são intervenientes passivos nesses acontecimentos.

Refiro-me, antes de mais, a um movimento que visa lançar o opróbrio sobre o chamado sector social. Se os leitores portugueses estiveram atentos, terão reparado que o escândalo da associação Raríssimas e o pseudo-escândalo da entrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa no capital da Caixa Económica Montepio Geral têm em comum o facto de incidirem sobre este sector. Isto não acontece por acaso: ao sector privado – aquele que tão bem gere a PT, os Correios e os serviços públicos administrados por parcerias público-privadas! – conviria que todos os cuidados de saúde fossem prestados por clínicas e hospitais privados. Retirar as instituições particulares de solidariedade social das áreas da assistência é, pois, um imperativo: elas ocupam um espaço cobiçado pelos grupos económicos com interesses na saúde e prestação de cuidados. Pelo meio dá-se um efeito político, que é o de atacar um ministro fragilizado por ter assumido um cargo nos órgãos da Raríssimas. (Para quem desconhece o funcionamento dos órgãos das associações, devo esclarecer que a mesa da assembleia geral, órgão que Vieira da Silva integrou antes de integrar este Governo, não tem quaisquer poderes de fiscalização, e que o secretário deste órgão nada mais faz que não seja compor a mesa que dirige os trabalhos da assembleia geral, a qual reúne duas vezes por ano: ou seja, o Dr. Vieira da Silva não fazia rigorosamente nada na Raríssimas, a não ser dar o nome.)

O mesmo pode ser dito quanto ao Montepio. O Montepio Geral não é um banco em sentido estrito: é a caixa económica de uma associação de socorros mútuos, a Associação Mutualista Montepio. Esta caixa dedica-se à actividade bancária, mas está voltada para os associados, os quais gozam de benefícios em relação aos clientes comuns, e para o financiamento de entidades do sector social. Até há bem pouco, o Montepio (a caixa, ou o banco, se preferirem) não tinha estrutura de sociedade anónima, a qual foi imposta por pressão sobre o Banco de Portugal de maneira a que fosse possível a entrada de privados no capital que até então estava inteiramente em poder da Associação Mutualista Montepio. Está bom de ver que o interesse aqui é o de alguém se apoderar da carteira de clientes, dos activos e dos bens do Montepio. Note-se, aliás, que a própria associação já foi objecto do mesmo tipo de campanha que agora atingiu a Raríssimas, com a divulgação de suspeitas sobre a gerência da direcção do Montepio que, aliás, levaram o Banco de Portugal a impor a adopção da forma de sociedade anónima pela Caixa Económica. Tal como na Raríssimas, houve nesta questão da aquisição do capital social do Montepio uma tentativa de destruição política do ministro Vieira da Silva, fazendo dele a brecha na muralha do Governo – e, reflexamente, atingindo o antigo provedor da Santa Casa, Pedro Santana Lopes. Fazem-no por o primeiro ter sugerido a entrada da Santa Casa no capital do Montepio, solução que teria, quando menos, o mérito de o Montepio não ser engolido pelo Santander (ou outro banco privado qualquer).

Depois há a agitação que se procura criar à volta das alterações à lei do financiamento dos partidos políticos, que é bastante mais perigosa porque traz no ventre o germe do populismo. Todos os partidos, à excepção do PP, aprovaram uma alteração à referida lei – note-se que esta é uma matéria da competência exclusiva da Assembleia da República – que expurgou as inconstitucionalidades patentes na versão da lei ainda em vigor e introduziu um regime de devolução do IVA referente às despesas eleitorais, além de eliminar o limite de €600.000,00 dos donativos em dinheiro. Esta medida, além de ter a enorme vantagem de os partidos não necessitarem de recorrer a verbas do Estado para pagar as suas despesas, contribui para a transparência. No passado, houve um partido que recorreu a subterfúgios ilícitos para tentar ocultar o facto de ter recebido donativos acima do limite. Esse partido é o PP, e ficou tristemente conhecido o esquema do fictício «Jacinto Leite Capelo Rego» (este nome, se for dito com pronúncia do Brasil, é uma obscenidade pueril, mas o que não falta no PP é puerilidade). Curiosamente, foi o único partido que votou contra as alterações da lei.

O que me assusta, para além da questão das eventuais dúvidas quanto à constitucionalidade das alterações legais, é a corrente de ódio contra os partidos que este caso está a gerar. Sejamos claros: os partidos, independentemente de quem os encabeça, são o fundamento da democracia participativa e, em última instância, da liberdade. Atacá-los é atacar a democracia. Eu desconfio dos populismos, das candidaturas independentes e dos partidos sem ideologia: são meros instrumentos de ascensão ao poder. E ainda mais desconfio de partidos que atacam o sistema partidário. Os partidos podem ter vícios, mas se os têm é porque os militantes consentem. Tal como em tudo o que implique votações, o destino dos partidos está nas mãos dos militantes. Se estes se alheam, estão a permitir que os oportunistas tomem conta deles. (O mesmo se diga dos sindicatos, das associações de toda a espécie e, evidentemente, do país.)

Não deixa de ser útil anotar que tudo isto tem o efeito de desacreditar publicamente a política e a classe política. Com efeito, quanto mais enfraquecido e corroído estiver o poder político, mais fácil será sobrepor os interesses particulares ao interesse comum. Tudo isto, que é de resto ampliado e expandido pelas «redes sociais» (o melhor meio de espalhar a mentira e a ignorância, convenhamos), contribui para aproximar Portugal dos países onde o populismo grassa. Eu detestava que os portugueses se tornassem como os húngaros, os austríacos e os britânicos.

Nada do que acabei de escrever tem que ver com fotografia, eu sei. Mas é daquelas coisas que sinto ter de dizer, sob o risco de explodir se não o fizer. Seja como for, espero que tenham um bom 2018.

M. V. M.

Eu, a Fórmula 1 e Richard Kelley

Os leitores mais atentos sabem que o M. V. M. nutriu um interesse intenso pelas coisas do desporto automóvel, cujo pináculo é a modalidade denominada Fórmula 1. Este é um interesse inexplicável, porque o meu lado racional é em tudo avesso – ou devia ser – ao automóvel. Se formos a pensar bem, vivemos em cidades que foram concebidas (ou adaptadas) em função do automóvel, e se pensarmos mesmo a fundo, teremos de concluir que o automóvel é causa concorrente dos grandes conflitos dos nossos dias, os quais originam da luta pela posse daquilo que move os automóveis – o petróleo. Além de fomentar a cobiça e a vaidade, entre muitos outros problemas. O automóvel participa, deste modo, no absurdo da existência contemporânea. E a sua contribuição não é despicienda.

E, contudo, não consigo desviar os olhos quando vejo um Alfa Romeo 4C e ouço o som rouco do seu motor. Este gosto por automóveis – que, ao que se diz, é uma característica dos portuenses – levou-me, evidentemente, a ver grandes prémios de Fórmula 1. Este interesse está a esmorecer: este desporto, que era para pessoas conhecedoras que apreciavam a tecnologia e a técnica da condução, tornou-se num espectáculo de massas em tudo igual ao futebol. Não tenho paciência para a forma repugnante como a comunicação social tenta construir e destruir a reputação de pilotos, equipas e mesmo de dirigentes desportivos. Nos websites, os espaços de comentários tornaram-se lugares irrespiráveis onde ninguém no seu perfeito juízo quer permanecer.

Apesar de tudo, trinta e sete anos de atenção não se apagam facilmente. Tal como não desaparece a recordação dos tempos em que tudo era mais romântico – ou, pelo menos, mais romanceado. («Romântico», para quem não sabe, é aquilo em que a sensibilidade prevalece sobre a razão.) Estas evocações do passado vieram assombrar-me quando descobri o website de Richard Kelley, um fotojornalista cuja carreira se estendeu por quarenta e cinco anos. Descobri Kelley e as suas fotografias através de um artigo no The Online Photographer cujo assunto é o piloto François Cevert, que morreu nos treinos para o Grande Prémio dos Estados Unidos de 1973, na pista de Watkins Glen. A fotografia que ilustra o texto é espantosa: Uma característica de Cevert era os seus olhos incrivelmente expressivos, um olhar azul intenso que chegava a perturbar. Esta intensidade está presente na fotografia de Kelley, que a executou no dia em que Cevert morreu.

A curiosidade levou-me a visitar o website. Eu conhecia fotografias de Rainer Schlegelmilch, Bernard Cahier e Mark Sutton – e mesmo as de Martin Parr a que aludi neste texto do Número f/ – mas as de Richard Kelley estão noutro escalão. Fazem todas as outras parecer banais. Não são fotografias dos automóveis em acção na pista, mas de pilotos, engenheiros, chefes de equipa, mecânicos – numa palavra: fotografias de gente. São fotografias perfeitas, quer no conteúdo, quer na forma: vê-se a personalidade dos pilotos e o ambiente do paddock, mas vê-se sobretudo a marca pessoal do fotógrafo. Estas não são fotografias com propósito meramente ilustrativo: são obras originais, são arte. E a execução é brilhante, sublinhada pela atmosfera que só o grão das boas películas confere às fotografias.

O meu conselho: mesmo que não gostem de Fórmula 1, não deixem de visitar o website de Richard Kelley. As fotografias ali publicadas valem por si, não pelo que ilustram.

M. V. M.

Da inutilidade dos balanços

O ano de 2017 está a chegar ao fim e nesta altura há quem goste de fazer «balanços». Eu costumava fazê-los até me aperceber que o tempo é um contínuo e as contagens que estabelecemos de pouco importam (a não ser, evidentemente, se temos de cumprir prazos). Mesmo se me apetecesse fazer um balanço deste ano, não teria muita coisa para inscrever nele. Em termos de fotografia, foi um ano em que nada de especial aconteceu. Continuei a desinteressar-me pelo equipamento e a concentrar-me na vertente criativa da fotografia, porque a criatividade é a única coisa que distingue uma boa fotografia da náusea das selfies e das fotografias sem propósito que as pessoas tiram a cada minuto porque sim.

Curiosamente, é muito possível que a minha melhor fotografia do ano tenha sido feita hoje mesmo: estava na Rua de Santa Catarina, apinhada de turistas cretinos e de consumistas carrancudos, quando encontrei uma ilha de sanidade. Perto do Via Catarina, dois rapazes – um de cerca de 18 ou 20 anos, outro de 12 – faziam acrobacias. O rapazinho era – é: suponho que não terá falecido entretanto – de uma elasticidade prodigiosa. É incrível como o corpo humano é flexível quando não permitimos que as rotinas e os vícios o rigidifiquem. Esperei – um dia hei-de escrever sobre o imperativo fotográfico de cultivar a virtude da paciência – esperei, dizia, por um bom momento, o qual apareceu na forma de um número em que o mais pequeno se colocou de pé apoiado na cabeça do mais velho. Espero ter acertado com a exposição, que era especialmente difícil, mas creio que tenho ali uma fotografia interessante. (Eu tenho um interesse especial por questões de flexibilidade porque dediquei muito tempo da minha vida à educação do meu sobrinho A., que foi um ginasta espantoso na sua infância. Treinou com o Manuel Campos e com o Filipe Bezugo – para quem não saiba, estes foram os únicos ginastas portugueses que se qualificaram para os jogos olímpicos – e batia-os em alguns aparelhos, mas um handicap insuperável no cavalo com arções impedia-o de se classificar à frente deles. Mais tarde, uma hérnia discal acabou com as suas possibilidades de competir ao nível que vinha demonstrando. E tive, por inúmeras ocasiões, o prazer de dar aconselhamento ao Acro Clube da Maia. Por estas razões, não admira que a minha atenção se voltasse para aquele pequeno ginasta. De qualquer forma, observá-lo e fazer aquela fotografia foi bem mais agradável do que caminhar em ziguezague para evitar os turistas apatetados e os consumistas trombudos.)

Sem querer entrar em gabarolices ou em inconfidências, posso também dizer que o trabalho de pesquisa a que me dediquei este ano, ao qual aludi em alguns textos, deu frutos. Melhor: vai dar. Alguns dos que me são mais chegados já sabem em que consistem estes frutos, mas não posso, de momento, alongar-me muito sobre o assunto. Fica para mais tarde. Na altura saberão.

E o ano não vai acabar sem que passemos pela sevícia do Natal. Esta é a época mais inautêntica do ano, uma altura em que temos de fingir que somos imensamente generosos e felizes e amigos da humanidade, e em que gastamos todo o nosso dinheiro insensatamente em nome do que não passa de uma festa que nada tem que ver com a sua origem. Que tem o Pai Natal, figura inventada pelos publicitários da Coca-Cola, que ver com Jesus Cristo? A que propósito vem o pinheiro de Natal quando o abeto nem sequer é uma árvore que se dá em território português? Se não fossem as crianças, o Natal seria a época mais deprimente do ano.

Apesar de tudo isto, há sempre motivos para sorrir e ser feliz. Nem que seja por ver pequenos acrobatas. Ou por saber que o estudo e o trabalho de pesquisa não são em vão. Ou por fotografias que correm bem. Por tudo isto – e por tudo o mais que é importante na vida –, vale a pena desejar boas festas a todos. Mesmo aos que dão tanto valor ao Natal como eu.

M. V. M.

«Fotografia computacional»

Penso que não há necessidade de dizer muito quanto à qualidade das fotografias que se tiram com telemóveis. Apesar dos esforços de alguns, que nos tentam à força toda convencer do contrário, o que vemos quando nos mostram fotografias tiradas com um telemóvel é invariavelmente medíocre e não resiste a uma visualização em tamanhos superiores ao do ecrã do aparelho. Em tamanhos pequenos, as fotografias até podem parecer boas – se tiverem sido tiradas sob boas condições de luz e a pessoa que a tirou tiver mãos firmes –, mas os artifícios são fáceis de detectar: a redução do ruído esbate os pormenores, as cores são em regra imprecisas e a gama dinâmica é invariavelmente limitada: as altas luzes estouram facilmente e as sombras bloqueiam o pormenor.

E não esqueçamos a ergonomia: a maioria das pessoas já desistiu de fotografar na orientação horizontal, porque é uma perda de tempo segurar o telemóvel nessa posição. E depois há as limitações inevitáveis de uma objectiva de plástico com abertura fixa e distância focal de grande-angular, o que prejudica a perspectiva e a profundidade de campo – e, evidentemente, o sensor minúsculo não ajuda nada.

Claro que os fabricantes sabem tudo isto. Até agora, a qualidade de imagem dos telemóveis mais evoluídos era suficiente para convencer o grande público, que não necessita de grande qualidade para as suas selfies – a prova deste sucesso é o desaparecimento das câmaras compactas de baixo custo –, mas há sempre quem queira mais. Sobretudo entre os amadores de fotografia que adoram gadgets e não perdoam a falta de bokeh e os problemas de perspectiva resultantes do ângulo de visão das objectivas. E que fazem os fabricantes? Tentam resolver as limitações através do software. Criam bokeh artificial, usam algoritmos agressivos de supressão do ruído, nitidez e equilíbrio dos brancos e produzem um efeito parecido com o HDR. Alguns telemóveis usam duas objectivas, uma com distância focal de grande-angular e outra standard. E já se fala num telemóvel com três câmaras, o que, pela forma como foi anunciado, me lembra um célebre sketch do Monty Python’s Flying Circus.

Claro que as fotografias continuam a ter uma qualidade deplorável, mas vistas em tamanhos pequenos até passam por ser espectaculares – para quem gosta do estilo, evidentemente. E, uma vez que nada disto implica uma melhoria da qualidade de imagem – a qual é impossível, atenta a inevitabilidade das limitações impostas pelas dimensões dos aparelhos – os fabricantes mudaram de estratégia: o que estes aparelhinhos produzem são fotografias, mas fotografias que pertencem a uma categoria nova e cheia de promessas: a fotografia computacional.

Ou seja, as fotografias continuam a ser uma bosta, mas agora são uma bosta sofisticada e cheia de conteúdo tecnológico. Uma bosta computacional. Pode ser que as pessoas esqueçam o cheiro, de tão ofuscadas pelas tecnologias avançadíssimas. Quanto a mim, esta coisa da fotografia computacional é um truque de marketing destinado a iludir todos aqueles que se deixam levar pelo último grito da tecnologia. Este é o lado brave new world da questão. Depois há a realidade triste: esta treta da fotografia computacional não é mais que a admissão de que os telemóveis nunca tirarão fotografias com a qualidade de uma DSLR e que tudo a que podem aspirar é a uma percepção de qualidade inteiramente falsa e artificial, porque induzida através de algoritmos. Claro que a Apple, a Huawei e a Google esperam que todos nós fiquemos rendidos a esta nova vaga da fotografia, a esta visão do futuro em que o computador se substitui à pessoa em tudo (qualquer dia usamos uma app para fazer bebés) e faz fotografias melhor do que nós somos capazes com as tecnologias obsoletas e as câmaras monstruosas actualmente existentes. A fotografia computacional está no mesmo patamar de desenvolvimento que a inteligência artificial e a realidade virtual: é o futuro inevitável que está ao virar da esquina.

Francamente, nada disto é necessário. Quem fotografa com telemóveis não precisa de uma enorme qualidade de imagem e sabe que esta só se obtém com uma câmara a sério. Não necessitam de bokeh e HDR e essas tretas todas para nada. Este conceito de fotografia computacional só serve para agradar aos pobres neuróticos que vão para os fóruns do Digital Photography Review queixar-se do tamanho das DSLR e da rusticidade dos visores ópticos. São apenas um punhado, mas um punhado ruidoso e, pelos vistos, influente.

M. V. M.

Back in Black (and White)

De volta ao tema deste blogue para dizer, como Arnold Schwarzenegger, I’m back. E, parafraseando os AC/DC, Back in Black – ou melhor, in black and white. Agora que recebi as digitalizações das fotografias que fiz com o Ilford Pan 400, já tenho alguma coisa a dizer.

Antes de me referir às características desta película, porém, algumas considerações sobre este regresso ao preto-e-branco. Voltar às películas pancromáticas depois de um ano a fotografar a cores foi como voltar a casa depois de uma longa estada num país estrangeiro. Um país agradável, mas que não é a terra à qual pertenço. Vejo que a minha estética se adequa muito mais ao preto-e-branco do que à cor. Eu não sou um fotógrafo de renome nem para lá caminho, mas se o fosse seria mais da escola de Ray K. Metzker que da de Harry Gruyaert.

Curiosamente, ao comparar duas fotografias do mesmo local – uma a cores e a outra a preto-e-branco –, senti que, embora a fotografia a preto-e-branco fosse mais coerente (em termos puramente gráficos), lhe faltava qualquer coisa que a fotografia a cores tinha em abundância: a primeira parecia recessa, sem vivacidade, sem snap. Talvez seja apenas uma questão de hábito – mas lá que a fotografia a cores me pareceu mais vívida e vibrante, pareceu.

Felizmente não tenho de fazer opções definitivas. Se me apetecer, o próximo rolo pode ser a cores. A experiência não foi de todo de rejeitar. Se tivesse de fazer uma escolha tão drástica, porém, creio que optaria pelo preto-e-branco. Com ele as linhas e os volumes ganham maior importância e eu preciso desse contexto gráfico.

Dito isto, a película que usei neste meu regresso ao preto-e-branco é um bastardo da Ilford. É uma película que é feita para mercados específicos – está para a Ilford como o C-Elysée para a Citroën –, mas, tal como aqui em Portugal acabamos a comprar carros como este último e o Fiat Tipo, também aqui o Ilford Pan 400 é uma alternativa barata ao luxuriante HP5.

O Pan 400 é, ao que me parece, um Kentmere 400 rebaptizado. Não tenho muita certeza quanto a isto – é lógico, pois a Kentmere e a Ilford pertencem ambas à Harman Technology –, porque o Pan 400 parece-me ter características de resolução que o aproximam seriamente do HP5. Não sei onde a Ilford conseguiu cortar quase 2 euros ao valor do HP5 se assim for, mas o que é certo é que as fotografias que recebi se assemelham em muito às que havia feito anteriormente com o HP5. Há um menor requinte na apresentação: neste particular, o Pan 400 lembra-me mais o Fomapan 200 ou o já referido Kentmere 400, embora com um recorte mais pronunciado dos objectos. (Mas as altas luzes são tipicamente Ilford.) O grão é interessante e expressivo, o que é uma vantagem sobre o HP5, cujo grão faz com que as pessoas pareçam acometidas de varicela.

Mais do que maçar o leitor com elementos técnicos (quanto aos quais, de resto, não tenho habilitações para me pronunciar), importa responder a uma questão importante: é bom negócio poupar cerca de um euro e meio e preterir o HP5 em favor do Pan 400?

A resposta é: sim. Esta película dá uma resolução semelhante e, embora a qualidade de imagem pareça inferior, não se perde realmente muito. A Ilford faz muito bem em oferecer esta película: as suas películas perdiam posição de mercado para rolos como os Fomapan e Agfa APX e o nome Ilford vende mais que o Kentmere. A despeito de já não existir o sufoco económico de há apenas dois anos, gastar um-euro-e-meio para adquirir uma película que é pouco melhor que a sua equivalente mais barata faz pouco sentido.

M. V. M.

Um pouco de desporto

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Eu sei que não devia. Os textos do Número f/ andam escassos, e ainda por cima desperdiço largura de banda com prosa que nada tem que ver com fotografia, mas vou fazê-lo porque sim. Porque me apetece escrever sobre o que se vai seguir. É bom ser o dono do blogue e não ter de cumprir ordens.

O texto de hoje é sobre desporto. Não, não é sobre futebol, apesar de esta palavra ser sinónima de «desporto» na língua portuguesa. A minha relação com o futebol é muito simples: quando eu era criança, o meu pai tentou fomentar o meu gosto pelo jogo da bola e levou-me por diversas vezes ao estádio em dia de jogos. A atenção que procurava dedicar ao jogo, para tentar entender a lógica do futebol, era desviada para as bancadas, onde adeptos completamente embriagados insultavam e comprometiam a boa reputação do árbitro. Nunca vi qual o apelo de um desporto cujo principal interesse era injuriar o árbitro, pelo que a minha paixão pela rapaqueca morreu antes de ter nascido. Acordou morta, por assim dizer.

Claro que, como sempre gostei de automóveis, nutro um interesse considerável pela Fórmula 1 e pelos ralis, mas infelizmente os adeptos da Fórmula 1 são agora, graças à popularidade de pilotos tão objeccionáveis como Ayrton Senna e Fernando Alonso, de um nível quase tão rasteiro como o dos bêbados que insultam o árbitro nos estádios, o que diminuiu substancialmente a minha vontade de atrasar o almoço de Domingo para ver um grande prémio. (Quanto aos ralis, não vejo nada de interessante em provas nas quais correm carrinhos utilitários como o Ford Fiesta e o Hyundai i20.)

Quando finalmente me resolvi a subscrever um serviço de TV por cabo, as minhas sessões de zapping levaram-me muitas vezes aos torneios de bilhar Snooker que o Eurosport transmite. Há cerca de vinte anos, um amigo um pouco mais velho do que eu inculcou-me o gosto pelo bilhar, mas o bilhar que jogávamos era o mais comum, a que erroneamente chamamos «snooker» mas é, na verdade, o 8-Ball. O Snooker propriamente dito joga-se numa mesa gigantesca, com quinze bolas vermelhas, seis de outras cores – amarela, castanha, verde, azul, rosa e preta – e uma branca. As regras podem ser consultadas aqui.

Só o xadrez é mais cerebral que o Snooker. Além da perícia no controlo da bola branca que lhe é exigida, o jogador tem de definir mentalmente todas as jogadas e antecipar-se às do adversário, tal como o faria num jogo de xadrez. Eu nunca seria um bom jogador de Snooker, porque é um jogo que, quando carece de ser defensivo – e é-o muito frequentemente –, exige enorme paciência, calma e cabeça fria. Além destes requisitos, as regras do Snooker impõem fair play e gentlemanship. Claro que há problemas: o Snooker tornou-se num espectáculo global que envolve muito dinheiro e já houve jogadores suspensos por jogarem deliberadamente para favorecer esquemas de apostas fraudulentas, e houve mesmo um jogador, um dos melhores de sempre, que esteve suspenso só por ter tomado conhecimento de um esquema de fraude e não o ter denunciado, mas nada disto impede que o Snooker seja um desporto espectacular. Evidentemente, a «espectacularidade» depende da predisposição do espectador para ver jogadas demoradas que, por vezes, se resumem a encostar a bola branca numa outra, causando dificuldades ao adversário, mas «snooker» é o nome de uma jogada pela qual o jogador deixa a bola que vai ser jogada pelo adversário fora do alcance da branca «escondendo» esta última.

De que gosto no Snooker? Este jogo é inteligência em acção. Os jogadores desenvolvem rapidez de raciocínio e conhecimentos intuitivos de física e matemática: eles têm de calcular ângulos, forças, velocidades, trajectórias. E têm de ser matreiros, porque o Snooker não é só ensacar bolas: é também fazer snookers – esconder a bola branca de maneira a dificultar as jogadas do adversário. (Curiosamente, o Snooker parece ser um desporto que não requer grande preparação física: alguns jogadores estão para além do limiar da obesidade.)

Há um certo consenso em que o melhor jogador de sempre é Ronnie O’Sullivan, mas há muitas outras predilecções à escolha, dependendo dos gostos de cada um. Se o leitor gosta de um jogador exuberante, nunca poderá apreciar outro que não seja Ronnie «The Rocket» O’Sullivan. Os mais cerebrais apreciarão John Higgins e Mark Selby, e há ainda outros jogadores que, por diferentes razões, encontrarão o seu lugar no coraçãozinho dos adeptos e adeptas: Judd Trump, Mark Williams, Neil Robertson, Luca Brecel, Jack Lisowski e uma hoste de excelentes jogadores chineses de nomes impossíveis de memorizar (lembrei-me de um: Yan Bingtao!), mas o verdadeiro apreciador de bilhar Snooker nunca esquecerá a lenda chamada Stephen Hendry: ver o jovem Hendry jogar era – ele deixou a modalidade em 2012 – de fazer cair o queixo. Que espectáculo extraordinário é, ainda hoje – há inúmeros vídeos no Youtube –, ver o olhar carregado de pura inteligência de Stephen Hendry, e ver aquela velocidade de raciocínio e perfeição na execução. Decerto, a sua juventude e elegância contribuíram em muito para a construção da lenda, mas não tenho dúvidas que Hendry foi o melhor e mais completo de sempre, a despeito da enormíssima qualidade de Ronnie O’Sullivan. Tenho pena que o meu interesse pelo Snooker só tenha nascido numa altura em que Hendry já se reformara.

M. V. M.