Da nitidez

Alfred Stieglitz, O’Keeffe In Black Coat with Hands to Neck

Ao que parece, hoje em dia o requisito essencial de qualquer lente é a nitidez. Aliás, retiro o «hoje em dia», porque, na verdade, desde há muito que a nitidez é procurada pelos fabricantes de lentes, mas nem sempre foi assim.

Com efeito, alguns pioneiros da fotografia moderna, como Alfred Stieglitz e Alvin Langdon Coburn, procuravam lentes – e frequentemente mandavam fazê-las por medida, com o nome do proprietário gravado no cano da lente – que não fossem completamente nítidas; lentes que induzissem uma névoa subtil, de maneira a que as fotografias tivessem uma aparência romântica e vagamente onírica. Olhando para as fotografias e retratos que Stieglitz fez da sua mulher, Georgia O’Keeffe, é fácil perceber que aquela nitidez imperfeita foi usada intencionalmente, sem corresponder a uma deficiência na concepção da lente.

Retrato por Alvin Langdon Coburn

Entretanto, Oskar Barnack inventou o formato 135, recorrendo a película de cinema e a um instrumento que possibilitava a transposição dos minúsculos negativos para tamanhos aceitáveis: o ampliador. Este instrumento necessita de toda a nitidez possível, de maneira a que as imagens possam ser gravadas em tamanhos grandes, pelo que a nitidez tornou-se num requisito essencial de todo o processo fotográfico – a começar, evidentemente, pela lente montada na máquina fotográfica.

O que nasceu daqui foi aquilo que todos sabemos: a busca da maior nitidez possível. Zeiss, Leica e Nikon quiseram fazer as lentes mais nítidas, o que, juntamente com a obsessão do superlativo que afecta os consumidores de material fotográfico e o advento da fotografia digital, redundou no que hoje vemos: fotografias com demasiada nitidez, tanta que chega a tornar os objectos inautênticos. A comunidade fotográfica não está preocupada com os resultados no papel ou no computador: ela avalia a nitidez através de gráficos e tabelas MTF.

Devo, contudo, ser justo. A nitidez não é um defeito. Pelo contrário. Aliás, é importante dizer que o cérebro reage negativamente à falta de nitidez. A nitidez é necessária, desde que corresponda ao que os olhos vêem. Simplesmente, as lentes e sensores actuais são capazes de uma resolução que é superior à dos olhos. Por vezes o recorte dos objectos é de tal maneira acutilante que a imagem sofre o paradoxo de, por querer ser hiper-real, se tornar irreal.

E não é bem isto que os fabricantes que citei pretendiam. O que a Zeiss, a Leica e a Nikon queriam era fazer lentes que suportassem bem as ampliações, sem que se perdesse muita nitidez no processo de transmissão de luz para o papel fotográfico. Só depois é que vieram os maluquinhos que comentam nos websites de referência pedir mais e mais nitidez só porque avaliam a nitidez da mesma maneira que os valores de sensibilidade ISO de uma câmara: quanto maior, melhor.

Tenho para mim que a nitidez é importante, mas não é tudo. Os antigos, como Langdon Coburn e Stieglitz, não deixavam de ter uma razão para procurar lentes de nitidez mitigada: a sua fotografia era um sucedâneo da pintura, pelo que essas objectivas convinham à sua linguagem estética. O excesso de nitidez que hoje vemos serve o quê? Nada. É a busca da nitidez pela nitidez, dos números, dos gráficos e das tabelas, como se tudo se resumisse a uma competição entre fabricantes para saber quem faz as lentes mais nítidas.

E os fabricantes entregam-se a estas puerilidades. Cada um procura o máximo de nitidez para satisfazer multidões que olham para o desempenho do equipamento como crianças a espreitar o interior de automóveis desportivos para ver quanto marca o velocímetro. E, contudo, essa nitidez toda não tem utilidade prática no mundo real. Pode ser deslumbrante num primeiro momento, mas o objectivo de um retrato é o de mostrar a pessoa retratada, não o de contar o número de poros que ela tem na cara. O excesso é sempre nocivo.

Felizmente, as lentes verdadeiramente boas são capazes de uma nitidez prodigiosa, mas realista. Com lentes como quase todas as Leica e a nova Zeiss Batis 135mm-f/2.8, os pormenores estão bem evidenciados, embora sejam apresentados de uma forma natural e orgânica. Infelizmente, este equilíbrio fica caro. (O que é mais uma razão para recorrer ao mercado de segunda mão.)

M. V. M.

A armadilha das estatísticas

A minha fotografia mais popular (mas não necessariamente a melhor)

Deixei, propositadamente, caducar a minha conta «PRO» do Flickr. Não via grande sentido em pagar para ter uma capacidade de armazenamento ilimitada quando a subscrição gratuita suporta 1 TB e eu, com as mais de 1600 fotografias que carreguei, ocupo neste momento 0,8% daquela capacidade. Também não me agradava a maneira como vão ao cartão de crédito dos subscritores, sem aviso prévio, quando a assinatura se renova. Tiram o dinheiro sem dizer água-vai, o que não é muito elegante.

Portanto, eu não preciso de uma assinatura «PRO». Não é que seja muito cara, mas não preciso daquilo para nada. Aquele dinheiro compra quatro rolos Agfa Vista e ainda fico com algum troco. Mesmo a única desvantagem aparente de não ter esta modalidade de subscrição, que é a de não ter acesso às estatísticas, acaba por não ser desvantagem nenhuma.

Ora aqui está o cerne do texto de hoje. As estatísticas são altamente perniciosas. Elas podem fazer com que a pessoa fotografe em função delas, o que pode comprometer a integridade da fotografia, se levar o autor a cingir-se a um determinado género de fotografia em função do número de visualizações e das preferências dos visitantes das suas páginas.

Tomemos o meu exemplo: embora na verdade não me tenha deixado levar pelas estatísticas, o certo é que quem visita o meu Flickr demonstra uma preferência quase invariável por certas fotografias que faço com alguma abundância: fotografias urbanas – ou «de rua», caracterizadas pela inclusão de pessoas – com composições geométricas muito rigorosas. Se eu fosse um pouco menos íntegro na minha abordagem à fotografia, seria certamente tentador fotografar apenas dentro deste estilo, mas não o faço.

Não o faço porque não me interessa. Sentir-me-ia limitado se fotografasse sempre as mesmas coisas da mesma maneira. Eu não fotografo para ter muitos favoritos e muitas visualizações: fotografo para isolar motivos que me parecem interessantes e dar-lhes expressão gráfica. Dá-me tanto prazer fazer isto com transeuntes como com interiores ou pormenores que vejo em montras. Não é o facto de as fotografias com estes dois últimos temas serem relativamente impopulares que me impede de fotografá-los.

Eu publico no Flickr porque, apesar de as minhas fotografias serem uma emanação pessoal, entendo que elas só merecem existir se forem vistas por outras pessoas. Confesso que não sou capaz de fotografar só para mim, como fez, por exemplo, Vivian Maier. Não mostro as fotografias por andar à procura de um mecenas ou de um empregador, nem para que me considerem um grande fotógrafo (e logo eu, que nem sequer me considero um fotógrafo), mas admito que detestaria se ninguém visse as minhas fotografias.

O que nunca farei é fotografar em função da apreciação que fazem das minhas fotografias. Além de tal comprometer a integridade, seria um disparate porque a popularidade não é nem nunca foi sinónimo de qualidade. O que as pessoas procuram no Flickr é imagens deslumbrantes de paisagens maravilhosas e belos retratos de pessoas lindas (fotografias de gatos também são muito populares). As minhas fotografias não encaixam nestas categorias nem vou começar a fotografar dessa maneira só para agradar a muita gente e ter milhões de visualizações. Nada disso me interessa. Eu só quero fotografar o que me parece merecedor de ser fotografado segundo os meus próprios critérios. Já houve tempos em que senti necessidade de ter muitos likes, mas esse período foi, no meu trajecto de amador, o equivalente à puberdade, que é aquele período em que todos queremos vestir e cortar o cabelo como os nossos colegas da escola. Felizmente cresci – embora não tanto que possa considerar que a minha fotografia é madura.

Uma coisa é certa: não são as estatísticas que me vão ajudar a decidir o que quero fazer. Ignorá-las é uma verdadeira libertação, porque sei que, não as conhecendo, me livro da tentação de fazer o que os outros gostam. Eu tenho é de fotografar o que eu gosto. Se outros gostam do que faço, tanto melhor, mas é bom saber que esse facto não me pode condicionar.

M. V. M.

Da familiaridade

No texto que acompanha as fotografias de Harry Gruyaert a que aludi no dia 28 de Março, o grande fotógrafo belga refere a dificuldade que é fotografar na cidade onde se vive. Isto interessou-me, já que faço a vasta maioria das minhas fotografias na cidade onde vivo, e despertou-me duas ou três considerações.

Antes de mais, convém referir que Harry Gruyaert pode viver em Paris, mas não é alguém nascido e criado na capital francesa. Não direi que é um estrangeiro, porque ser cidadão europeu é viver num espaço sem fronteiras – os tolinhos que apoiam o Brexit nunca poderão compreender isto, coitados –, mas os seus olhos nunca serão os de um natural de Paris. Compreendo o que ele quer dizer, mas possivelmente é-lhe mais fácil fotografar em Paris do que ele pensa.

Com efeito, viver diariamente numa cidade implica uma habituação, uma familiaridade com os diversos locais do nosso quotidiano que faz com que não nos apercebamos do seu interesse fotográfico. Aqueles lugares estão de tal maneira embrenhados nas nossas vidas que não lhes prestamos atenção. Eu, que vivo muito perto do estuário do Douro, não consigo perceber que interesse têm os turistas na paisagem composta pelo rio, pelo vale por onde se despenham as duas cidades, pelo mouchão a que chamam «Ilha do Frade» e pelo elemento de ligação entre as duas margens que é a Ponte da Arrábida. Sou daqui e os meus sentidos estão calejados: não vejo onde está a beleza do que me parece corriqueiro e não compreendo que vêem os turistas naquilo que os leva a fotografar compulsivamente aquele lugar.

Chamei a isto familiaridade. É o mesmo fenómeno que nos impede de ver o génio de um irmão ou de um primo, mas nos deixa vê-lo no filho do vizinho. Os lugares tornam-se de tal maneira parte da nossa vida que deixamos de conseguir vê-los com olhos frescos. A nossa rua é a nossa rua, é onde vivemos; não há nela nada de novo, nada que possamos assinalar porque já a integrámos nas nossas rotinas. As pessoas que vivem na Sé – no lugar que já foi uma freguesia do Porto, não na catedral, evidentemente – só se apercebem da beleza das ruas onde vivem por causa dos enxames de turistas. Para os moradores, pode mesmo ser apenas um amontoado de casebres degradados em ruas estreitas e insalubres que de bom grado trocariam por habitações condignas, mesmo que estas se situassem em bairros sociais longe do lugar onde nasceram. (E, no entanto, não há como negar a beleza daquela povoação antiga.)

E será verdade o oposto – isto é, que quando estamos fora vemos melhor o interesse fotográfico dos lugares? Neste caso, e referindo-me apenas à minha experiência como amador da fotografia, já não tenho tanta certeza. Isto é certamente verdade quando se fotografa com intuitos turísticos, mas não necessariamente quando se quer dar uma expressão gráfica ao que se vê, como é o meu caso (e o de Harry Gruyaert, suponho). Os desafios de fotografar são exactamente os mesmos. Já me aconteceu: fotografei em Lisboa e Bruxelas exactamente como costumo fazer no Porto.

Na verdade, eu não sou a melhor referência nestas coisas de fotografar no meu lugar ou noutro lugar. Quando viajo, não me preocupo muito em tirar fotografias – mas ponho um empenho muito especial em ver esses lugares. Não conheço nenhuma maneira melhor de apreciá-los. Confiar exclusivamente na fotografia pressupõe ver, evidentemente, mas priva quem o faz da necessidade de contemplar. É assim que conheço visualmente um lugar: se for agora a Évora, Lisboa ou Bruxelas, que foram as minhas três últimas deslocações cuja distância em relação ao Porto as torna relevantes como viagens, sou capaz de me recordar de todas as ruas por onde passei, de todos os edifícios, estabelecimentos, parques e paisagens. Porque os vi. Não me limitei a fotografá-los e confiar nas fotografias para reavivar a memória mais tarde.

E na cidade onde vivo? Admito que não é fácil descobrir interesse fotográfico quando se tem os olhos embotados pela rotina, mas esta habituação, ao tornar a fotografia mais difícil – porque já não vejo tão claramente o interesse dos lugares –, torna-a também mais desafiadora. Faz com que procure maneiras novas de ver as coisas, longe do lugar-comum que o turista procura e sem transmitir o enfado das rotinas. Lembra-me um dos slogans que ouvia na defunta Voxx: «Parecendo difícil, não é nada fácil».

M. V. M.

Uma tarde de Sábado

Ontem ofereci-me para tomar conta da minha sobrinha Maria Luís. Estava uma tarde de sol e propus-me levá-la a um parque infantil que existe nas imediações da rua onde vivo. Um bom parque infantil, diga-se, que, apesar de pequeno, tem equipamentos de qualidade e boas condições de segurança e se situa num lugar excelente, num jardim à margem do estuário do Rio Douro.

A chavala divertiu-se. Os pais não têm muitas oportunidades de passar tempo com ela, pelo que a Maria Luís apreciou devidamente aquelas duas horas – mas, como este é um blogue de fotografia, não é para narrar as brincadeiras de uma criança de 4-quase-5 anos que estou a escrever este texto. É, como os mais argutos de entre os meus leitores – i. e. todos eles – já terão intuído, mais umas resmunguices acerca da maneira como hoje se fotografa.

Não exagero se disser que havia ali pais que passaram mais tempo a tirar fotografias, com os seus inevitáveis telemóveis, do que a brincar com as crianças. Uma verdadeira tristeza. O próprio gesto de fotografar com um telemóvel parece-me invariavelmente frívolo e sempre despropositado, mas naquele caso tudo assumiu proporções ainda mais grotescas porque os telemóveis pareciam ser mais importantes que as crianças.

Eu sempre entendi que mais vale ver que fotografar. Numa ocasião como esta, ver as crianças a brincar – não vou tão longe que sugira brincar com elas, porque seria excessivo para alguns pais – devia ser mais interessante e instrutivo do que obrigá-las a fazer poses em cima de um escorrega, mas infelizmente era isto que as mamãs e papás faziam: empoleiravam os seus rebentozinhos no escorrega e fotografavam-nos avidamente.

Lamentavelmente, aqueles responsáveis parentais armados de telemóveis tiveram um efeito de contágio sobre a Maria Luís, que quase me obrigou a tirar fotografias. Muitas fotografias. Como sou um coração-mole, não tive alternativa – peguei no computador de bolso  que chamam «telemóvel» e fotografei-a.

A principal característica distintiva de fotografias como estas é serem completamente irrelevantes. Tirei uma dezena de fotografias, todas inúteis, desinteressantes e desnecessárias. Ter-me embrenhado no espírito daqueles progenitores fez-me perceber ainda melhor que as pessoas, hoje em dia, fotografam por fotografar. Fotografam tudo o que vêem porque sim e porque podem, porque têm os meios para o fazer à mão de semear.

Eu não queria tirar fotografias. Como foi apenas uma ida ao parque, não vi nesta ocasião nada que merecesse ser perpetuado numa fotografia; não aconteceu nada de memorável ou de particularmente importante para mim, mas talvez o fosse para a criança. Daí que tenha acedido a tirar aquelas fotografias.

Enganei-me. Já em casa, quando lhe mostrei as fotografias, a Maria não quis saber delas para nada. Viu uma ou duas durante cinco segundos, sem qualquer espécie de alegria ou entusiasmo, e depois disse: «não quero ver mais fotografias».

Há lições a extrair disto. A primeira é que nem tudo precisa de ser fotografado. Há momentos que, pela sua trivialidade, não têm por que ser fotografados. São momentos que se vivem e passam. Não há necessidade de gravá-los, a não ser na nossa memória (a da massa cinzenta entre as orelhas, não a do smartphone).

A segunda – que é uma decorrência da primeira – é que estas fotografias não têm valor nenhum. São, como disse, fotografias que se fazem porque sim, porque se tem à mão uma câmara. Não têm significado nenhum, não são importantes e nem sequer despertam a vontade de guardá-las para recordar seja o que for. (E que recordações há a guardar de uma ida ao parque infantil?)

Esta forma de fotografar é precisamente o que está a matar lentamente a fotografia. Já me referi a isto muitas vezes, mas a fotografia ostenta hoje o paradoxo de, querendo perpetuar momentos efémeros, se ter tornado ela mesma efémera à custa do abuso que se faz dela. Sendo assim, podemos perguntar-nos para que realmente serve.

Por fim, algo que não é lição nenhuma para mim porque já o sabia: há momentos que é mais importante vivê-los que fotografá-los. (Esta frase não ficou lá muito bem construída, mas percebem o que quero dizer.) Tenho a certeza de que a Maria Luís apreciou cada segundo daquelas duas horas em que brincou no parque. Vê-la brincar foi um prazer e, de resto, houve momentos em que participei nas suas brincadeiras – o que me pareceu bem mais adequado do que tirar fotografias. Sei que, para ela, foi uma tarde bem passada. A prova é que não precisou das fotografias para se lembrar de que se divertiu. Ninguém precisa de fotografias destas. Seriam inócuas se não fossem tiradas e mostradas até à náusea e se, em consequência, não estivessem a tornar as pessoas indiferentes à fotografia.

M. V. M.

Quando os mestres vêm em meu auxílio

Não estou nada arrependido de ter tomado a decisão de fotografar a cores. Nem um bocadinho. Saturei-me do preto-e-branco. É um caminho demasiado batido e senti que não tinha nada de novo a dizer.

Com a cor, contudo, foi como se abrisse uma janela e deixasse entrar luz num quarto que, se não era escuro, era pelo menos tenuemente iluminado. Não é impossível fazer o tipo de fotografia a que estou acostumado a cores, embora também deva dizer que ainda não exploro a cor como podia. (Fotografar cenários cobertos de graffiti é simples demais.)

Como já devo ter referido cerca de uma centena de vezes, foram fotógrafos como Saul Leiter que me convenceram ser possível fazer o tipo de fotografia a que mais frequentemente me dedico a cores; mas houve dois outros, também eles profusamente referenciados no Número f/, que realmente me interessaram pela cor, embora não sejam facilmente catalogáveis como «fotógrafos de rua»: William Albert Allard e Harry Gruyaert, o grande fotógrafo belga.

Gruyaert, cooperador da agência Magnum que tem agora 75 anos – nasceu no dia 25 de Agosto de 1941 –, decidiu fazer fotografia de rua em Paris. Eu não precisava de mais incentivos para fotografar a cores, mas ver estas fotografias trouxe-me um pouco mais de motivação. Acima de tudo, deixou-me com a certeza de que aquilo que estou a tentar fazer – fotografia de rua a cores – é válido e interessante. Não que vá imitar estas fotografias, nem que me tenha sido mostrado um caminho: saber que um fotógrafo desta grandeza se entregou à fotografia de rua a cores funcionou antes como uma espécie de aprovação ou legitimação do que estou a tentar fazer.

As fotografias de rua que Harry Gruyaert fez em Paris são alegres, cheias de vida e de dinâmica. O elemento gráfico determinante é a cor, e são fotografias que, ao contrário da fotografia de rua a preto-e-branco altamente estilizada dos nossos dias, se concentram nas pessoas e não nos cenários. A fotografia de rua a preto-e-branco incorre frequentemente no erro de ser dominada pelos cenários, tratando as pessoas como meros pretextos para justificar o rótulo de «fotografia de rua», mas as fotografias de Gruyaert não podiam ser mais opostas a este conceito estético algo frívolo.

E nem se pode dizer que sejam rígidas e formais. Pelo contrário. As fotografias que a Magnum apresenta no seu website são orgânicas, livres na forma e plenas de vitalidade. São imediatas, no sentido em que apenas importa o que elas pretendem transmitir. Tão-pouco interessa que elas tenham ruído – ou será grão? –: o importante é mostrar a ideia que o fotógrafo teve ao deparar-se com uma cena. As considerações técnicas não são para aqui chamadas. Definitivamente, Harry Gruyaert não dá um chavo pelo bokeh e as teorias da abertura equivalente não o devem preocupar em demasia.

E há também o motivo de interesse que é o de, aos 75 anos, fazer algo de novo. Eu tenho por característica admirar aqueles que não vêem na idade um obstáculo, nem se deixam estagnar com fórmulas ou estilos que eles mesmos consagraram. Se não se tiver esta curiosidade permanente de procurar coisas novas, não vale a pena fazer seja o que for. O pior inimigo da vida são as rotinas. Também isto, este aspecto extremamente pessoal de lição de vida, funciona como um estímulo para mim.

No caso de não se terem apercebido da ligação para a página da Magnum que deixei acima, podem clicar aqui.

M. V. M.

Privação

Estar privado da minha máquina analógica não é o ideal num fim-de-semana, mas curiosamente não me custou tanto como pensava. E não é por ter chovido todo o fim-de-semana: é, principalmente, por não fazer sentido (do meu ponto de vista, claro) fotografar sem a OM.

Na verdade, não me apetece fotografar com a E-P1. Não por ser obsoleta, nem por ser digital, mas por uma razão muito elementar: não tem visor. Ou melhor: tem um visor óptico que posso montar na sapata do flash, o que torna a experiência de fotografar um pouco mais agradável do que usar o ecrã, mas não tenho o menor controlo do que estou a fazer quando uso o VF-1. Não sei qual é a exposição, não tenho qualquer tipo de informação. Nem sequer sei se tirei a tampa da lente. E só o posso usar com uma lente – uma lente de uma distância focal de que não gosto e falha de nitidez.

Usar as lentes OM é uma maçada. A E-P1 ainda não tem aquelas modernices do focus peaking e do focus stacking, pelo que tudo o que tenho à mão é a possibilidade de ampliar uma porção da imagem (até dez vezes), o que, se lembra aquelas pequenas lupas que saltavam da tampa das TLR, é muito pouco prático e muito, muito lento. Mais vale usar a hiperfocal.

Eu sei que isto me desqualifica por completo. Afinal de contas, se eu gosto de fotografia, devia ser capaz de fotografar com qualquer coisa que tivesse à mão porque o que conta é a fotografia, e não o equipamento, certo?

Errado. Fotografar é um prazer indissociável do equipamento. Não por causa do desempenho deste, ou das suas qualidades, mas porque se torna um prolongamento dos olhos e da mente. Uma câmara que só tem um ecrã para se compor não produz este efeito simbiótico. Pelo menos comigo. Pelo menos depois de experimentar fotografar com um visor tão bom como o da OM-2. E considero este factor hedonístico essencial: se ele não estiver presente, não adianta fotografar. Eu não fotografo por sentir a urgência de fixar algo numa imagem, mas para exprimir as minhas ideias estéticas. Só posso fazê-lo com uma máquina que seja uma extensão do meu corpo e da minha mente. A OM-2 é-o; é perfeita – desde o visor à alavanca de avanço da película, fotografar com ela tornou-se-me tão natural como respirar.

Outra razão por que estar sem a máquina não é tão frustrante como pensava é algo de que me apercebi ontem. Durante uma caminhada, fui tentando contar as oportunidades fotográficas que estava a perder. E foram bem poucas. Algumas delas eram ilusórias: pessoas muito sossegadas e quietas num cenário perfeito. Apercebi-me, então, que essas pessoas estavam muito sossegadas e quietas porque eu não tinha uma máquina fotográfica nas mãos. Se a tivesse, teriam reagido de outra maneira – e a oportunidade teria sido perdida. Mas também não andei verdadeiramente à procura de oportunidades.

Por tudo isto, não foi assim tão custoso passar um fim-de-semana sem fotografar. A minha fotografia não é muito espontânea e, francamente, não sinto tonturas e dores de cabeça por passar um fim-de-semana sem fotografar. Custa, evidentemente, mas não é como passar fome. Nem sequer é como ficar privado de outros prazeres.

Tudo isto é saudável: significa que a fotografia não é uma obsessão. O facto de não o ser faz com que consiga pensar mais lucidamente no que estou a fazer e atribuir-lhe o lugar que realmente ocupa na minha vida. É inestimável, evidentemente, mas não é tudo.

M. V. M.

Agfa Vista 200 (mas antes, um acréscimo ao texto anterior)

No texto sobre a OM-1 omiti uma vantagem em relação à OM-2: a primeira tem um comando que bloqueia o espelho. Isto é útil em exposições longas, quando a mínima vibração – como a provocada pelo impacto do espelho no momento do disparo – pode interferir com a nitidez. Não sei por que razão a OM-2 não tem esta função, mas também devo dizer que, nas exposições longas que fiz com a minha máquina, nunca tive problemas de falta de nitidez causada pelo impacto do espelho. Mirror lock is overrated.

***

Os meus leitores já sabem que voltei a fotografar a cores, depois de mais de três anos em que as minhas únicas fugas ao preto-e-branco se resumiram a algumas experiências com película colorida. Nenhuma destas experiências me deu resultados satisfatórios até ao dia em que resolvi experimentar um rolo que, por causa da matiz vermelha de que me apercebera em muitas das fotografias que consultei na internet, havia decidido nunca usar. Este rolo, como sabem, é o Agfa Vista.

Apesar de a matiz vermelha existir, não é um problema tão grave quanto supus. Mais: de todas as películas coloridas que experimentei, a Agfa é a única com a qual consegui resultados consistentes em condições diferentes de iluminação. As cores são sempre razoavelmente precisas, quer fotografe ao sol ou debaixo da luz ténue das estações subterrâneas do Metro. Nenhum outro rolo – mesmo aqueles cuja qualidade é notoriamente superior à do humilde Agfa Vista – me ofereceu esta consistência: os que resultam bem com luz solar, como o Kodak Portra 160, são um desastre com luz artificial. E os que mantêm a precisão das cores na fotografia nocturna são berrantes e erráticos quando usados ao sol.

As películas 135 de alta sensibilidade como são as ASA 400 – eu sei que isto parece anedótico numa era em que os valores ISO das câmaras digitais se escrevem com sete algarismos – têm, como não é novidade, um grão muito pronunciado. O Agfa Vista não é, evidentemente, excepção. E as digitalizações não fazem absolutamente nada para disfarçar o aspecto pouco límpido que o grão dá às fotografias.

Isto lembrou-me que, de facto, não sou um homem de altas sensibilidades: estão a ler um blogue que, na sua incarnação anterior, se chamava «ISO 100». (Querem melhor prova?) Até agora apenas havia experimentado a versão ASA 400 do Agfa Vista. Recentemente, porém, tive a oportunidade de usar a versão ASA 200. Como seria porventura de prever, o grão é menos abundante, mas nem por isso deixa de estar presente e também não é lá muito límpido. Em comparação com a versão mais sensível, o Vista 200 é praticamente idêntico na apresentação das cores, pelo que não vale a pena acrescentar muito ao que já escrevi sobre o assunto. Contudo, parece-me – ainda estou para confirmá-lo com histogramas – que, além da matiz vermelha característica do Vista 400, há também uma abundância relativa de cianos.

Nada disto, porém, é suficiente para me afastar dos Agfa Vista. Esta continua a ser a película a cores mais homogénea e consistente que conheço, com o bónus de ser barata. Pormenor interessante: um dos reparos que li na internet é que, por causa dos vermelhos, a Agfa Vista é uma película inadequada para retratos, já que falseia a cor da pele. Curiosamente, não notei nada disto. Pelo contrário, os tons de pele parecem-me bastante verosímeis.

Acima de tudo, as Agfa Vista são as únicas películas que me dão o tipo de saturação das cores que quero: nem demasiado vívidas, nem particularmente desmaiadas (como agora parece ser moda na internet). Esta combinação de consistência e agradabilidade faz com que, a despeito das suas falhas, estas Agfa Vista sejam as películas que mais se adequam ao que quero fazer da minha fotografia. E agora tenho uma alternativa quando me apetecer usar aberturas maiores. Nada mau.

M. V. M.