O Presidente, o retrato, o artista de pechisbeque e o fotógrafo lorpa: reprise

Ainda com respeito ao texto de ontem sobre o «retrato oficial» do Presidente da República: decidi intitular esse texto, o qual foi motivado pela minha repulsa em relação à indiferença de todos diante do óbvio grotesco deste episódio, com um título longo e pouco original, no sentido em que lembra o de um filme de Peter Greenaway: chamei-lhe «O Presidente, o retrato, o artista de pechisbeque e o fotógrafo lorpa». Permitam-me decompor analiticamente este título, não sem antes repudiar de novo o silenciozinho canalha e o conformismo que caracterizam a atitude geral dos portugueses diante de acontecimentos dos quais este é apenas um exemplo (e nem sequer dos mais graves).

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, está a fazer campanha para o segundo mandato desde o dia em que tomou posse. Tudo o que ele diz ou faz está orientado para esse objectivo, apesar de não se ver quem poderá rivalizar com ele em 2021. Ele partiu para as eleições de 2016 com uma popularidade ímpar que lhe adveio de dez anos de exposição pública como comentador televisivo, mas eu devo-lhe um pouco mais de respeito do que aquele que a aparente genialidade dos seus comentários me mereceria. O Professor Marcelo Rebelo de Sousa é um intelectual de enorme craveira: ele doutorou-se em Direito Constitucional pela Universidade de Lisboa com a classificação de 19 valores. Diz-se que a sua tese foi tão brilhante que o único reparo que mereceu do júri foi formulado por José Joaquim Gomes Canotilho, que lhe apontou a escassez de referências bibliográficas. Diante disto, não pode ser invocado que ele desconheça o regime do direito de autor, embora este pertença ao ramo do direito civil e não ao direito público, como o direito constitucional e o administrativo. O que se pode argumentar é que ele não sabia da fotografia que o pintor de pechisbeque plagiou, mas isto é duvidoso. O que Marcelo Rebelo de Sousa quis foi mostrar comunhão com o gosto popular, arrancar exclamações de admiração ao vulgo com o seu gesto apenas aparentemente espontâneo de passar por uma rua, ver um quadro com o seu retrato e conferir-lhe estatuto de oficialidade. É evidente que tudo isto foi uma encenação, mas o que é a política senão a arte da encenação?

Quanto ao retrato, não me é possível atribuir-lhe qualquer mérito. Ainda que não fosse a imitação de uma fotografia, seria sempre uma pintura banal, uma espécie de desenvolvimento – nada original, diga-se – do estilo de Henrique Medina. Muito medíocre. Se juntarmos a isto o facto de ser uma imitação descarada, temos que este quadro não é mais que uma cópia a óleo (ou acrílico, ou seja o que for: não é importante) da fotografia de Orlando Almeida. As cópias, independentemente do meio pelo qual são obtidas, não têm qualquer tipo de valor: estão feridas pela falta de originalidade e de esforço criativo, o que lhes proíbe o estatuto de arte.

O que nos leva ao artista de pechisbeque. Para ele, não há nada de mal em usar obras de outros autores imitando-as descaradamente. É o meio mais fácil de fazer as coisas: não precisa de pensar, de criar, de ter uma ideia, de desenvolver um conceito: basta-lhe olhar para as obras que outros fizeram e copiá-las. É mesquinho e medíocre e, sobretudo, não merece a publicidade que obteve, mas o estilo do pintor de pechisbeque agrada a um povo que não tem educação visual suficiente para ir além das referências do real, o que foi aproveitado por Marcelo Rebelo de Sousa para lançar o seu beau geste. Mas é um estilo que, por se basear em imitações e ser inteiramente destituído de valor artístico e criativo, rivaliza com as «obras» dos pintores de rua que expõem e vendem os seus quadros de traços pueris na Rua de Santa Catarina. A única diferença é que o nosso artista de pechisbeque tem um atelier na Rua do Almada e agora, graças ao Presidente e ao seu gesto magnânimo, ascendeu a uma fama completamente imerecida. Perdoem-me se não comungo da admiração popular por ele, mas os imitadores e os medíocres não me merecem muito respeito.

Por fim, o fotógrafo lorpa. Vim a descobrir que, à semelhança do artista de pechisbeque, também ele é… bom, digamos antes que não é grande espingarda. É, quando muito, um amador razoável. Como muitos amadores, incorre na ilusão tola de querer popularidade, daí que não se tenha importado de ver a sua obra usurpada e até tenha gostado, porque interpreta esta promoção do retrato de pechisbeque à oficialidade como algo que também o beneficia. Hélas, o público não está preparado para conferir reconhecimento à obra imitada. Neste caso, ninguém quer saber da fotografia que o artista de pechisbeque usurpou, por isso dificilmente o fotógrafo beneficiará de algum reconhecimento além dos comentários elogiosos dos seus amigos do facebook.

Como disse, este é um pecado muito frequente entre os amadores: para eles, o que fazem são só fotografias e ficam felizes da vida se tiverem os seus warholianos quinze minutos de fama. O facto de estarem a permitir que o mau gosto e a imitação prevaleçam e que alguém ganhe dinheiro, prestígio e popularidade à sua custa é uma metáfora perfeita da descaracterização da fotografia enquanto criação intelectual do autor: hoje as fotografias são de todos e qualquer um pode apropriar-se delas e fazer delas o que quiser, mesmo que vá ganhar fortunas à custa daquilo que é o trabalho dos outros. Os esquerdelhos têm uma palavra para isto: é «exploração». Mas pronto, se este fotógrafo é adulto e não só consente como gosta de ser explorado, o problema não é meu. Aliás, nem sei por que estou preocupado com tudo isto. O importante é que o Presidente da República é tão próximo do povo que escolheu uma pintura de um artista popular para seu retrato oficial. O facto de o Presidente da República pertencer a uma das castas políticas mais antigas de Portugal e de a sua popularidade ser estudada e artificial não deve interferir nesta imagem idílica da promoção da arte do povo – tal como o retrato ser uma farsa grotesca não deve impedir-nos de conferir-lhe grandeza.

M. V. M.

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