Smartphones e coletes retro-reflectores

No último texto escrevi isto: «preciso de sentir que estou a divertir-me quando fotografo, o que não acontece quando o faço com aparelhos digitais». Tinha em mente, como quem leu o texto pode ter deduzido, fotografar com o telemóvel.

O acidente que referi no texto de ontem teve lugar durante um Sábado: depois de fazer fotografias em número suficiente para acabar de expor um rolo, passei pela Câmaras & Cia. para entregar o dito e conversar um pouco. (O R. S. D. e a Leonor são excelentes anfitriões e os Sábados de tarde são muito propícios ao convívio.) Foi quando ia para casa, num cruzamento a trezentos metros do local onde moro, que tive o acidente. Uma das primeiras precauções que tomei foi a de tirar fotografias do local e dos automóveis, mas pareceu-me pouco prático usar a OM-2n para este fim, pelo que lancei mão do telemóvel.

O meu telemóvel não é daqueles que têm uma quantidade enorme de objectivas e é anterior à invenção, pelos patetas da dpreview.com, da expressão «fotografia computacional»: é um Asus Zenfone 2, um smartphone barato movido pelo exasperante sistema operativo Android. Raramente o uso para fotografar: não que seja mau de todo – com boa luz é capaz de resultados interessantes –, mas os leitores já me conhecem: eu não fotografo por compulsão, nem para mostrar qualquer coisa que acabei de ver. O telemóvel é algo que uso para telefonar, enviar mensagens e aceder à Internet ocasionalmente, quando estou longe do computador (e tenho wi-fi). Como não faço selfies nem uso as redes sociais, o telemóvel não tem muito interesse como câmara fotográfica.

Mas nesse dia nefando foi útil. O acidente ocorreu ao entardecer, o que dificultou a vida ao pobre do smartphone, mas consegui tirar fotografias que se mostraram úteis. Contudo, a experiência foi incrivelmente penosa: antes de mais, um telemóvel é um pesadelo ergonómico para fotografar: ou se usa sempre na vertical, como muita gente faz, ou se segura na ponta dos dedos para fotografar na horizontal, o que obriga a contorções para carregar no comando do obturador. Acresce que no meu caso, como o ecrã do meu Asus é demasiado sensível ao toque, tirei múltiplas fotografias do mesmo enquadramento. Ainda quanto ao ecrã, este tem o problema típico de os objectos se tornarem invisíveis quando a luz incide directamente sobre ele.

A câmara demora uma eternidade a focar, e como o telemóvel, aparentemente, força o disparo quando o sistema de detecção de contraste não actua, as fotografias desfocadas são mais que muitas. Depois há os inconvenientes de um sensor minúsculo: as altas luzes estouram com facilidade, não há pormenor nas sombras e os níveis de ruído são assustadores. Este último é mascarado por um modo «baixa luminosidade», que induz o disparo do flash e acciona a redução do ruído, mas os resultados ainda são piores: a imagem fica empastelada e os contornos dos objectos perdem a nitidez. Resulta quando se vê a fotografia no próprio ecrã do smartphone, mas não resiste a uma ampliação da imagem – mesmo que para tamanhos apenas ligeiramente superiores.

Outro problema é o equilíbrio (automático, evidentemente) dos brancos: os vermelhos são afectados pelo excesso de matiz magenta, os azuis pela matiz ciano, e os rostos de pessoas saem de tal maneira pálidos que fazem pensar que os respectivos donos nunca foram a uma praia nas suas vidas. De resto, a objectiva – cuja utilidade é limitada pela distância focal única de grande-angular – presta-se a aberrações cromáticas e, por fim, o formato panorâmico imposto pela forma do ecrã do telemóvel é francamente desagradável.

Fotografar com o telemóvel é tão frustrante que não consigo compreender como alguém o usa com esse fim. É útil para fotografias de documentos ou de eventos como este meu acidente, mas para tudo o resto é inútil. Mais incrível, contudo, do que ser utilizado pelas multidões para fotografar, é haver quem faça gala de os usar só pelo armanço de mostrar que é tão genial que até com aqueles aparelhos é capaz de obras-primas. Por mim, dispenso-o: usá-lo foi tão agradável como andar com o colete retro-reflector enquanto o acidente não se resolveu.

M. V. M.

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Técnica e telemóveis

As pessoas que conhecem as minhas fotografias sabem que elas não têm um conteúdo técnico assinalável. Pelo contrário, são raras aquelas em que recorro às técnicas fotográficas. Não por falta de confiança – o que seria perfeitamente legítimo quando se usa uma máquina fotográfica de película, na qual obviamente é impossível confirmar imediatamente os resultados –, nem por desconhecê-las, mas porque o tipo de fotografia que me interessa não requer o uso de técnicas especiais.

O que não significa que despreze as técnicas fotográficas. Pelo contrário: se eu tivesse uma palavra a dizer quanto aos curricula de um curso de fotografia, as aulas incluiriam, entre outras, o disparo do flash à segunda cortina, o arrastamento, o panning e até o zoom burst. Uma fotografia que viva só da técnica é uma fotografia vazia, uma demonstração fútil de conhecimento da técnica, mas – já o disse várias vezes – a técnica pode ser um poderoso auxiliar da expressão.

Este curso de fotografia para cuja elaboração eu seria chamado (o que seria tão certo de acontecer como eu ganhar o Prémio Nobel da literatura à custa dos textos do Número f/) seria só para alunos que tivessem câmaras a sério. Podiam ser DSLR, mirrorless ou compactas avançadas, mas teriam de ter controlos manuais da exposição e do flash, porque só com esses comandos é possível criar efeitos visuais através das técnicas fotográficas. O que quer dizer que, se dependesse de mim, nenhum curso de fotografia aceitaria smartphones.

Os smartphones não têm controlos de exposição. Existem apps que reproduzem os efeitos da exposição, mas são os algoritmos do processador, e não o utilizador, que criam esses efeitos. A única criatividade que existe nestas apps está em quem as programou. O que as apps fazem, por outras palavras, é simular os comandos de uma câmara: se pensarem bem, as objectivas dos telemóveis têm uma abertura fixa, o que implica, evidentemente, que não pode haver qualquer tipo de controlo sobre a abertura. Estamos aqui claramente no reino da fantasia, porque, se o utilizador não pode regular a abertura, não controla a exposição. Nem a abertura, o que vimos ser impossível, nem  o tempo de exposição, nem o ISO. Se eu quiser dar à fotografia um efeito criativo como o panning ou o arrastamento de objectos em movimento, preciso de dominar as técnicas: preciso de saber quais são as repercussões da abertura e do tempo de exposição na imagem e conhecer a lei da reciprocidade. Ora, com um telemóvel nada disto faz sentido: como não tenho qualquer controlo sobre o tempo de exposição, não posso fazer um panning nem dar um efeito de arrastamento.

Claro que o fanático da tecnologia que vier ler este texto vai dizer que eu vivo no passado, que a tecnologia evoluiu e que aquilo que faço com esforço está ao alcance do deslizar de um dedo sobre um slider no ecrã do smartphone. E eu, evidentemente, devo conformar-me com esta era de prodígios tecnológicos em que não é preciso saber fotografia para fotografar. Todavia, tanto quanto é do meu conhecimento não existe nenhuma app que consiga reproduzir técnicas como o arrastamento – o intencional, não o acidental – e o panning. Há algumas que simulam o bokeh, o qual depende sobretudo do uso de distâncias focais que os telemóveis, por limitações físicas óbvias, não podem ter, mas o artifício é tão evidente que não engana ninguém. Um dia as apps vão imitar todos estes efeitos, mas serão sempre isso mesmo: imitações.

Por tudo isto, e correndo o risco de parecer um pedante, digo que só um tolo pode pensar que o seu smartphone faz o mesmo que uma câmara fotográfica. É mentira. Aliás, a «fotografia computacional» é exactamente isto: uma mentira. É uma manipulação da imagem que dispensa o controlo e os conhecimentos do utilizador, pelo que não é exagerado dizer que é um embuste. Querem usar técnicas fotográficas? Aprendam fotografia e aprendam a utilizar uma câmara a sério. O resto é batota.

M. V. M.

Publicidade enganosa

Tenho as minhas razões para ter deixado correr tanto tempo sem escrever uma linha para o Número f/, mas algumas são de ordem pessoal e, se me permitem, prefiro manter alguma reserva sobre elas. Pelo facto peço as minhas desculpas aos leitores.

Dito isto, esta treta da «fotografia computacional» continua a moer-me o juízo mais do que devia. Há um limite para a ilusão, e esse limite é sistematicamente ultrapassado pelas pessoas que imaginam ter no seu smartphone uma câmara muito capaz. Não têm, evidentemente. As imagens que aquilo produz não resistem a ser mostradas num ecrã maior que o do próprio aparelho. Vê-las no computador é eloquente quanto às limitações da câmara que as tirou, com a imprecisão das cores, a destruição do pormenor (por acção da redução do ruído) e, por vezes, a ausência de nitidez por deficiência da focagem a serem os principais problemas.

Contudo, há quem acredite tolamente que todos os problemas de uma objectiva e um sensor menos que medíocres podem ser ultrapassados pelos algoritmos do processador de imagem e chamam a isso «fotografia computacional»; alguns levam o delírio ao ponto de acreditarem que podem usar o smartphone como se fosse uma câmara convencional e controlar a exposição através de uma app. Esta crença, quando não resulta de uma fé febril nos poderes da electrónica, apenas demonstra ignorância quanto ao funcionamento da câmara de um smartphone.

As apps que prometem uma experiência fotográfica semelhante à de usar uma DSLR – sim, há quem leve a falácia a esse ponto – incluem um controlo da abertura, do tempo de exposição e do ISO. Qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe que isto é impossível. Como as objectivas dos smartphones são de abertura fixa – seria impossível montar um diafragma numa objectiva  tão pequena –, é uma falsidade pensar-se que se pode ter controlo manual sobre a exposição. A abertura (fixa) das objectivas é, no geral, algures entre f/1.8 e f/2.8, o que é compensado por tempos de exposição que podem chegar a 1/33000 – o que é necessário para evitar a sobre-exposição quando se fotografa sob luz solar intensa. Deste modo, o que estas apps fazem é simular «computacionalmente» os efeitos dos parâmetros da exposição seleccionados pelo utilizador. Este último não acciona o diafragma nem o movimento das cortinas do obturador – até porque estas últimas não existem, já que o obturador dos smartphones é electrónico.

De resto, não vejo qual é a utilidade destas apps. Se alguém quer ter controlo manual sobre a exposição, fica mais bem servido com uma câmara na qual accione o diafragma e o obturador. Um smartphone não é nem nunca será um substituto de uma DSLR: tudo o que pode fazer é imitar, de forma mais ou menos grosseira, a qualidade de imagem de uma câmara decente, mas este resultado é obtido à custa de batota, com a manipulação da imagem pelo processador. Serve para selfies e para as fotografias parvas que se publicam no instagram (desde que vistas no ecrã do telemóvel), mas nada mais. Pretender o contrário é puro delírio.

A Apple foi, em tempos, proibida de usar a expressão «qualidade profissional» para definir os atributos da câmara do iPhone, por ser considerada publicidade enganosa, mas parece que os tribunais e as autoridades de defesa do consumidor são mais brandos quando se trata de apps que prometem pro level images.

M. V. M.

Moby Dick

Os sistemas mirrorless foram a melhor coisa que aconteceu aos nerds que, por grande azar nosso, se dedicam a tirar fotografias. Vejam só: tudo naquelas câmaras é electrónico. Não há lugar para coisas rudimentares e obsoletas como espelhos e pentaprismas (curiosamente, o facto de as objectivas serem feitas com vidro parece não perturbar tanto os nerds como a existência de um espelho e de um pentaprisma do mesmo material) e qualquer dia as câmaras mirrorless prescindem completamente das cortinas do obturador. Ainda por cima, são câmaras que atingem números de fotogramas por segundo incríveis, o que é importante quando se quer fotografar o gato que nunca sabe quando deve ficar quieto a fazer pose.

Quando estes sistemas estavam ainda numa fase de descolagem, era frequente esgrimir o argumento do tamanho: de facto, uma câmara mirrorless é mais pequena por não precisar do volume que o espelho exige nas SLR; e, como a distância entre a lente posterior da objectiva e o sensor é menor, as objectivas podem também ser mais pequenas. Isto originou uma vaga de fundo: de repente, descobriu-se que as DSLR e as suas objectivas para o formato full-frame eram monstruosas e, foi-se a ver, causaram uma epidemia de cifoses, lordoses e escolioses ao longo dos anos. Os pobres fotógrafos, derreados pelo peso das suas 11-22 e 70-200 e dos corpos DSLR monstruosos, saudaram efusivamente a chegada ao mercado de câmaras e objectivas leves e compactas. Finalmente iam poder entregar-se nas mãos de fisioterapeutas e corrigir as corcundas infligidas pelos paquidermes da Canon e Nikon durante tantos anos. Pelo menos era isto que se podia depreender dos websites de fotografia e respectivas caixas de comentários.

Agora a Sony veio mostrar que, afinal, não há nenhuma vantagem de tamanho. Lançou uma objectiva 400mm-f/2.8 que é mais leve 900 g que as rivais Canon e Nikon (o que é irrelevante, porque objectivas como estas são usadas com tripés ou monopés), mas em contrapartida é exactamente do mesmo tamanho e, ainda por cima, é mais cara.

Da esquerda para a direita: Canon, Nikon e Sony

Eu não sei o que pretende a Sony com esta objectiva: será afirmar-se como fabricante de objectivas? Será mostrar que pode rivalizar com a Canon e a Nikon e oferecer produtos de qualidade profissional numa categoria de equipamento que se tem destacado pela frivolidade e por só ter adeptos entre amadores obcecados por números e tecnologia? Quanto a mim, esta objectiva é um statement. A Sony quer mostrar que os seus sistemas mirrorless são tão bons como os sistemas DSLR da Canon e da Nikon, mas o seu objectivo não é convencer os profissionais: estes construíram os seus sistemas à volta das objectivas e não estão dispostos a gastar fortunas construindo novos sistemas de raiz para ter uma qualidade que, na melhor das hipóteses, é comparável ao que já têm. Ao invés, o potencial cliente da Sony compra uma α9 pelas suas especificações e sofisticação tecnológica. As objectivas vêm depois, tal como a qualidade da imagem. É este o tipo de consumidor que a Sony quer convencer com o seu Moby Dick.

Fica assim desfeita a última falácia dos propugnantes das mirrorless. A opção por sensores full-frame e de médio formato destrói a pretensa vantagem do peso e do tamanho, com os inconvenientes de um sistema de focagem automática que ainda carece de aperfeiçoamento, de obrigar ao uso de um visor electrónico, de uma ergonomia insuficiente e de um potencial sobreaquecimento (as Sony α7 são reputadas por aquecerem em demasia quando filmam vídeo). Assim de repente, e a despeito dos websites e seus comentaristas, não estou a ver os fotojornalistas a fugir em debandada da Canon e da Nikon e a aderir maciçamente à Sony. Seria necessário que a Sony oferecesse uma vantagem substancial em qualidade da imagem, funcionalidades e ergonomia, o que está muito longe de acontecer. Nenhum fotojornalista vai mudar de sistema para ter um visor electrónico.

M. V. M.

Obituário

As máquinas fotográficas mais bonitas do mundo actualmente em produção são as Leica M. Penso que este juízo de valor não merece discussão. As únicas excepções foram a M5 e as digitais M8 e M9. A primeira era uma Leica com os lados quadrados fabricada no Canadá – embora a sua qualidade não seja contestada –, ao passo que as digitais M8 e M9 eram gordas: demasiado profundas, nada tinham de esbelto; e eram desconfortáveis de segurar.

Esta semana soube-se que uma das M vai deixar de ser fabricada: a M7, de película, que fora lançada no comércio em 2002. Por que será que ninguém está inconsolavelmente triste? Porque esta é uma máquina carregada de electrónicas. Funciona manualmente ou no modo de prioridade à abertura e requer uma bateria. Tem um botão para ligar e desligar, necessário para accionar o fotómetro e o comando electrónico do obturador, o qual funciona quando o modo de prioridade à abertura é seleccionado. O obturador pode funcionar em modo manual ou electrónico, mas no modo electrónico pode ser usado com os tempos de exposição de 1/60 e 1/125 se a bateria falhar. Outra característica desta Leica M7 é a de fixar a exposição automaticamente (função AE-L) pressionando o botão do obturador até metade do curso.

Curiosamente, foi esta sofisticação que tornou a M7 numa pária entre as Leica M. Há gente para quem as Leica são tão melhores quanto menos progressos tecnológicos incorporarem, pelo que a MP – cuja única sofisticação é ter um fotómetro – e, ainda melhor, a M-A, que nem sequer tem um fotómetro incorporado, são as M de película reputadas como Leica puras. Aparentemente a Leica pensa o mesmo, pelo que a M-A e a MP não acompanharão a pobre M7 na caminhada ao longo do corredor da morte.

Há muito de legítimo nesta desconsideração pelas electrónicas. Eu, apesar de apenas poder recorrer à minha humilde OM-2n para aludir a esta matéria, confesso que nunca me passou pela cabeça usar o modo de exposição automático a que a Olympus chamava «preferência à abertura». Podia fazê-lo – tudo com que teria de me preocupar seria a escolha da abertura –, mas prefiro ter o controlo total da exposição, ainda que com o auxílio do fotómetro. Deste modo, se eu pudesse comportar o custo de uma Leica (e gostasse de visores de telémetro), a M7 não seria para mim. E não sou certamente o único a pensar assim.

Depois há uma máquina de película que já morreu há algum tempo, mas ninguém a avisou: é a Canon EOS-1V (o «V» é o número 5 em numeração romana). O quê? não sabiam que a Canon ainda vendia máquinas de película? Eu também não. Pensava que, entre os big boys, só a Nikon oferecia máquinas destas. A produção, como referi, já terminou (diz-se que em 2010, mas há informações contraditórias), mas os modelos em stock continuaram a ser vendidos. E agora esgotaram, pelo que as vendas chegaram obviamente ao fim.

Segundo li no The Online Photographer, os fabricantes de material fotográfico costumam, no caso de produtos historicamente relevantes, fazer um último ciclo de produção em larga quantidade para vender o stock como NOS (New Old Stock), controlando as existências através de aumentos estratégicos do preço. Aparentemente, foi isto que a Canon fez com a EOS-1V depois de ter cessado a produção.

Ao contrário da Leica M7, a Canon – que foi lançada em 2000 – tinha as linhas feias das DSLR actuais. Tinha também a reputação de ser uma máquina indestrutível e foi mantida no mercado, ao que se diz, para satisfazer as necessidades dos profissionais que se mantiveram fiéis à película.

Que significa isto para a fotografia analógica? Muito pouco. Não há significado nenhum quanto ao futuro próximo das películas. Não é mais um prego no caixão, não é o anjo da morte fazendo-se anunciar, nem é um abutre voando em círculos sobre a carcaça analógica. A Canon não tem vocação para produtos de nicho como as máquinas analógicas e, de resto, o fim da oferta da EOS-1V já estava previsto há muito. Quanto à M7, os adquirentes de Leicas analógicas não precisam dela: são pessoas que desdenham as electrónicas e querem ter controlo total do processo fotográfico. A fotografia analógica não vai morrer por perder estas máquinas.

M. V. M.

Alternativas (fora do tema)

O meu computador portátil é, pelos padrões actuais, uma sucata. Demora uma eternidade a arrancar e tudo o que se relacione com gráficos e envolva aplicações como o Java e o Adobe Reader é altamente problemático. Comprei o portátil em 2012, ano em que o computador anterior avariou sem possibilidade de reparação. O portátil actual funcionou muito bem até há cerca de dois anos, mas agora não adianta quantas limpezas e desfragmentações faça: está lento. Tenho a impressão que há alguns vírus a atrasar o seu funcionamento, mas se há, devem ser invisíveis aos anti-vírus: sempre que corro estes últimos, eles concluem, invariavelmente, pela inexistência de vírus.

Navegar na Internet era, até ontem (mais tarde explicarei a razão desta data), um pesadelo. As páginas demoravam uma eternidade a abrir, como se tivesse uma ligação dial-up dos anos 90. Abrir o correio electrónico levava-me ao desespero e induzia-me vontade de atirar o bendito do computador pela varanda abaixo.

Outro problema que tinha era com a utilização do Word. Como os leitores sabem, uma parte não despicienda das minhas actividades consiste na prática de actos típicos da advocacia, e esta implica a utilização do Citius (que, finalmente, abrange também os processos criminais). Ora, para enviar os meus requerimentos, petições e defesas para os tribunais, eu necessito de convertê-los para o formato .pdf. Por qualquer motivo, a versão do Word que utilizo não inclui um conversor para este formato, o que me obrigou a usar conversores externos durante algum tempo (o melhor deles parece ser o Nitro), mas os conversores gratuitos funcionam via cloud e são limitados – há um que apenas permite a conversão de uma página de um documento – e, quanto aos demais, são onerosos e apenas permitem a descarga gratuita de versões de avaliação que expiram ao fim de algum tempo. Isto é um problema sério para mim.

Voltando à questão do navegador, eu tenho vindo a usar o Mozilla Firefox. Quando o instalei, e até há alguns meses, era leve, rápido e funcional. Comparado com ele, o Internet Explorer tinha a velocidade de uma tartaruga afectada por artrite reumatóide tentando subir um penedo a pique. Contudo, ultimamente o Firefox tornou-se lento. Pensei que era por utilizar o AdBlock, mas não: depois de o desinstalar, tornou-se ainda mais lento. O Firefox está mais lento que o Internet Explorer, o que é uma verdadeira proeza!

Aliando isto à lentidão do próprio computador, decidi que era melhor procurar um browser mais leve e rápido. Encontrei o Opera e estou a usá-lo desde ontem. Não é impossível que os cookies e demais tralha que se recolhe quando se navega na Internet venham a torná-lo lento, mas para já estou satisfeito: o Opera devolveu-me a rapidez do Firefox dos primeiros tempos e tem o bónus de ser simples e funcional.

O Opera não é open source, mas é gratuito para os utilizadores do Windows. A minha verdadeira aventura com o open source veio com o uso do Open Office Writer da Apache. Já o havia experimentado há cerca de dez anos, mas nessa altura era de tal maneira rudimentar que não valia a pena abandonar o Word da Microsoft. Ora, num momento raro de pensamento lateral, percebi que, em lugar de usar um conversor para .pdf, mais me valia averiguar a existência de um programa de texto com conversor .pdf incluído. Bingo! O Open Office Writer deixa-me converter os textos para .pdf. Gratuitamente, sem complicações, não implicando nada mais que clicar um botão na barra de tarefas. Apesar de o Writer não ter muitas das funcionalidades do Microsoft Word, é um programa de texto gratuito que funciona correctamente e faz o essencial muito bem (com o bónus de ter uma função muito prática de escrita inteligente, como os smartphones).

Como vêem, há vida para além da Microsoft e da Apple. Ainda não me sinto pronto para dar o salto definitivo que tornaria o meu computador muito mais rápido, a despeito da sua idade – esse salto consistiria na adopção do sistema operativo Linux –, mas já sei que, no dia em que mudar de computador, não terei de me preocupar com o facto de o Microsoft Office não estar incluído e ser agora um serviço apenas acessível na cloud mediante pagamento de uma anuidade.

M. V. M.

«Fotografia computacional»

Penso que não há necessidade de dizer muito quanto à qualidade das fotografias que se tiram com telemóveis. Apesar dos esforços de alguns, que nos tentam à força toda convencer do contrário, o que vemos quando nos mostram fotografias tiradas com um telemóvel é invariavelmente medíocre e não resiste a uma visualização em tamanhos superiores ao do ecrã do aparelho. Em tamanhos pequenos, as fotografias até podem parecer boas – se tiverem sido tiradas sob boas condições de luz e a pessoa que a tirou tiver mãos firmes –, mas os artifícios são fáceis de detectar: a redução do ruído esbate os pormenores, as cores são em regra imprecisas e a gama dinâmica é invariavelmente limitada: as altas luzes estouram facilmente e as sombras bloqueiam o pormenor.

E não esqueçamos a ergonomia: a maioria das pessoas já desistiu de fotografar na orientação horizontal, porque é uma perda de tempo segurar o telemóvel nessa posição. E depois há as limitações inevitáveis de uma objectiva de plástico com abertura fixa e distância focal de grande-angular, o que prejudica a perspectiva e a profundidade de campo – e, evidentemente, o sensor minúsculo não ajuda nada.

Claro que os fabricantes sabem tudo isto. Até agora, a qualidade de imagem dos telemóveis mais evoluídos era suficiente para convencer o grande público, que não necessita de grande qualidade para as suas selfies – a prova deste sucesso é o desaparecimento das câmaras compactas de baixo custo –, mas há sempre quem queira mais. Sobretudo entre os amadores de fotografia que adoram gadgets e não perdoam a falta de bokeh e os problemas de perspectiva resultantes do ângulo de visão das objectivas. E que fazem os fabricantes? Tentam resolver as limitações através do software. Criam bokeh artificial, usam algoritmos agressivos de supressão do ruído, nitidez e equilíbrio dos brancos e produzem um efeito parecido com o HDR. Alguns telemóveis usam duas objectivas, uma com distância focal de grande-angular e outra standard. E já se fala num telemóvel com três câmaras, o que, pela forma como foi anunciado, me lembra um célebre sketch do Monty Python’s Flying Circus.

Claro que as fotografias continuam a ter uma qualidade deplorável, mas vistas em tamanhos pequenos até passam por ser espectaculares – para quem gosta do estilo, evidentemente. E, uma vez que nada disto implica uma melhoria da qualidade de imagem – a qual é impossível, atenta a inevitabilidade das limitações impostas pelas dimensões dos aparelhos – os fabricantes mudaram de estratégia: o que estes aparelhinhos produzem são fotografias, mas fotografias que pertencem a uma categoria nova e cheia de promessas: a fotografia computacional.

Ou seja, as fotografias continuam a ser uma bosta, mas agora são uma bosta sofisticada e cheia de conteúdo tecnológico. Uma bosta computacional. Pode ser que as pessoas esqueçam o cheiro, de tão ofuscadas pelas tecnologias avançadíssimas. Quanto a mim, esta coisa da fotografia computacional é um truque de marketing destinado a iludir todos aqueles que se deixam levar pelo último grito da tecnologia. Este é o lado brave new world da questão. Depois há a realidade triste: esta treta da fotografia computacional não é mais que a admissão de que os telemóveis nunca tirarão fotografias com a qualidade de uma DSLR e que tudo a que podem aspirar é a uma percepção de qualidade inteiramente falsa e artificial, porque induzida através de algoritmos. Claro que a Apple, a Huawei e a Google esperam que todos nós fiquemos rendidos a esta nova vaga da fotografia, a esta visão do futuro em que o computador se substitui à pessoa em tudo (qualquer dia usamos uma app para fazer bebés) e faz fotografias melhor do que nós somos capazes com as tecnologias obsoletas e as câmaras monstruosas actualmente existentes. A fotografia computacional está no mesmo patamar de desenvolvimento que a inteligência artificial e a realidade virtual: é o futuro inevitável que está ao virar da esquina.

Francamente, nada disto é necessário. Quem fotografa com telemóveis não precisa de uma enorme qualidade de imagem e sabe que esta só se obtém com uma câmara a sério. Não necessitam de bokeh e HDR e essas tretas todas para nada. Este conceito de fotografia computacional só serve para agradar aos pobres neuróticos que vão para os fóruns do Digital Photography Review queixar-se do tamanho das DSLR e da rusticidade dos visores ópticos. São apenas um punhado, mas um punhado ruidoso e, pelos vistos, influente.

M. V. M.