Publicidade enganosa

Tenho as minhas razões para ter deixado correr tanto tempo sem escrever uma linha para o Número f/, mas algumas são de ordem pessoal e, se me permitem, prefiro manter alguma reserva sobre elas. Pelo facto peço as minhas desculpas aos leitores.

Dito isto, esta treta da «fotografia computacional» continua a moer-me o juízo mais do que devia. Há um limite para a ilusão, e esse limite é sistematicamente ultrapassado pelas pessoas que imaginam ter no seu smartphone uma câmara muito capaz. Não têm, evidentemente. As imagens que aquilo produz não resistem a ser mostradas num ecrã maior que o do próprio aparelho. Vê-las no computador é eloquente quanto às limitações da câmara que as tirou, com a imprecisão das cores, a destruição do pormenor (por acção da redução do ruído) e, por vezes, a ausência de nitidez por deficiência da focagem a serem os principais problemas.

Contudo, há quem acredite tolamente que todos os problemas de uma objectiva e um sensor menos que medíocres podem ser ultrapassados pelos algoritmos do processador de imagem e chamam a isso «fotografia computacional»; alguns levam o delírio ao ponto de acreditarem que podem usar o smartphone como se fosse uma câmara convencional e controlar a exposição através de uma app. Esta crença, quando não resulta de uma fé febril nos poderes da electrónica, apenas demonstra ignorância quanto ao funcionamento da câmara de um smartphone.

As apps que prometem uma experiência fotográfica semelhante à de usar uma DSLR – sim, há quem leve a falácia a esse ponto – incluem um controlo da abertura, do tempo de exposição e do ISO. Qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe que isto é impossível. Como as objectivas dos smartphones são de abertura fixa – seria impossível montar um diafragma numa objectiva  tão pequena –, é uma falsidade pensar-se que se pode ter controlo manual sobre a exposição. A abertura (fixa) das objectivas é, no geral, algures entre f/1.8 e f/2.8, o que é compensado por tempos de exposição que podem chegar a 1/33000 – o que é necessário para evitar a sobre-exposição quando se fotografa sob luz solar intensa. Deste modo, o que estas apps fazem é simular «computacionalmente» os efeitos dos parâmetros da exposição seleccionados pelo utilizador. Este último não acciona o diafragma nem o movimento das cortinas do obturador – até porque estas últimas não existem, já que o obturador dos smartphones é electrónico.

De resto, não vejo qual é a utilidade destas apps. Se alguém quer ter controlo manual sobre a exposição, fica mais bem servido com uma câmara na qual accione o diafragma e o obturador. Um smartphone não é nem nunca será um substituto de uma DSLR: tudo o que pode fazer é imitar, de forma mais ou menos grosseira, a qualidade de imagem de uma câmara decente, mas este resultado é obtido à custa de batota, com a manipulação da imagem pelo processador. Serve para selfies e para as fotografias parvas que se publicam no instagram (desde que vistas no ecrã do telemóvel), mas nada mais. Pretender o contrário é puro delírio.

A Apple foi, em tempos, proibida de usar a expressão «qualidade profissional» para definir os atributos da câmara do iPhone, por ser considerada publicidade enganosa, mas parece que os tribunais e as autoridades de defesa do consumidor são mais brandos quando se trata de apps que prometem pro level images.

M. V. M.

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Moby Dick

Os sistemas mirrorless foram a melhor coisa que aconteceu aos nerds que, por grande azar nosso, se dedicam a tirar fotografias. Vejam só: tudo naquelas câmaras é electrónico. Não há lugar para coisas rudimentares e obsoletas como espelhos e pentaprismas (curiosamente, o facto de as objectivas serem feitas com vidro parece não perturbar tanto os nerds como a existência de um espelho e de um pentaprisma do mesmo material) e qualquer dia as câmaras mirrorless prescindem completamente das cortinas do obturador. Ainda por cima, são câmaras que atingem números de fotogramas por segundo incríveis, o que é importante quando se quer fotografar o gato que nunca sabe quando deve ficar quieto a fazer pose.

Quando estes sistemas estavam ainda numa fase de descolagem, era frequente esgrimir o argumento do tamanho: de facto, uma câmara mirrorless é mais pequena por não precisar do volume que o espelho exige nas SLR; e, como a distância entre a lente posterior da objectiva e o sensor é menor, as objectivas podem também ser mais pequenas. Isto originou uma vaga de fundo: de repente, descobriu-se que as DSLR e as suas objectivas para o formato full-frame eram monstruosas e, foi-se a ver, causaram uma epidemia de cifoses, lordoses e escolioses ao longo dos anos. Os pobres fotógrafos, derreados pelo peso das suas 11-22 e 70-200 e dos corpos DSLR monstruosos, saudaram efusivamente a chegada ao mercado de câmaras e objectivas leves e compactas. Finalmente iam poder entregar-se nas mãos de fisioterapeutas e corrigir as corcundas infligidas pelos paquidermes da Canon e Nikon durante tantos anos. Pelo menos era isto que se podia depreender dos websites de fotografia e respectivas caixas de comentários.

Agora a Sony veio mostrar que, afinal, não há nenhuma vantagem de tamanho. Lançou uma objectiva 400mm-f/2.8 que é mais leve 900 g que as rivais Canon e Nikon (o que é irrelevante, porque objectivas como estas são usadas com tripés ou monopés), mas em contrapartida é exactamente do mesmo tamanho e, ainda por cima, é mais cara.

Da esquerda para a direita: Canon, Nikon e Sony

Eu não sei o que pretende a Sony com esta objectiva: será afirmar-se como fabricante de objectivas? Será mostrar que pode rivalizar com a Canon e a Nikon e oferecer produtos de qualidade profissional numa categoria de equipamento que se tem destacado pela frivolidade e por só ter adeptos entre amadores obcecados por números e tecnologia? Quanto a mim, esta objectiva é um statement. A Sony quer mostrar que os seus sistemas mirrorless são tão bons como os sistemas DSLR da Canon e da Nikon, mas o seu objectivo não é convencer os profissionais: estes construíram os seus sistemas à volta das objectivas e não estão dispostos a gastar fortunas construindo novos sistemas de raiz para ter uma qualidade que, na melhor das hipóteses, é comparável ao que já têm. Ao invés, o potencial cliente da Sony compra uma α9 pelas suas especificações e sofisticação tecnológica. As objectivas vêm depois, tal como a qualidade da imagem. É este o tipo de consumidor que a Sony quer convencer com o seu Moby Dick.

Fica assim desfeita a última falácia dos propugnantes das mirrorless. A opção por sensores full-frame e de médio formato destrói a pretensa vantagem do peso e do tamanho, com os inconvenientes de um sistema de focagem automática que ainda carece de aperfeiçoamento, de obrigar ao uso de um visor electrónico, de uma ergonomia insuficiente e de um potencial sobreaquecimento (as Sony α7 são reputadas por aquecerem em demasia quando filmam vídeo). Assim de repente, e a despeito dos websites e seus comentaristas, não estou a ver os fotojornalistas a fugir em debandada da Canon e da Nikon e a aderir maciçamente à Sony. Seria necessário que a Sony oferecesse uma vantagem substancial em qualidade da imagem, funcionalidades e ergonomia, o que está muito longe de acontecer. Nenhum fotojornalista vai mudar de sistema para ter um visor electrónico.

M. V. M.

Obituário

As máquinas fotográficas mais bonitas do mundo actualmente em produção são as Leica M. Penso que este juízo de valor não merece discussão. As únicas excepções foram a M5 e as digitais M8 e M9. A primeira era uma Leica com os lados quadrados fabricada no Canadá – embora a sua qualidade não seja contestada –, ao passo que as digitais M8 e M9 eram gordas: demasiado profundas, nada tinham de esbelto; e eram desconfortáveis de segurar.

Esta semana soube-se que uma das M vai deixar de ser fabricada: a M7, de película, que fora lançada no comércio em 2002. Por que será que ninguém está inconsolavelmente triste? Porque esta é uma máquina carregada de electrónicas. Funciona manualmente ou no modo de prioridade à abertura e requer uma bateria. Tem um botão para ligar e desligar, necessário para accionar o fotómetro e o comando electrónico do obturador, o qual funciona quando o modo de prioridade à abertura é seleccionado. O obturador pode funcionar em modo manual ou electrónico, mas no modo electrónico pode ser usado com os tempos de exposição de 1/60 e 1/125 se a bateria falhar. Outra característica desta Leica M7 é a de fixar a exposição automaticamente (função AE-L) pressionando o botão do obturador até metade do curso.

Curiosamente, foi esta sofisticação que tornou a M7 numa pária entre as Leica M. Há gente para quem as Leica são tão melhores quanto menos progressos tecnológicos incorporarem, pelo que a MP – cuja única sofisticação é ter um fotómetro – e, ainda melhor, a M-A, que nem sequer tem um fotómetro incorporado, são as M de película reputadas como Leica puras. Aparentemente a Leica pensa o mesmo, pelo que a M-A e a MP não acompanharão a pobre M7 na caminhada ao longo do corredor da morte.

Há muito de legítimo nesta desconsideração pelas electrónicas. Eu, apesar de apenas poder recorrer à minha humilde OM-2n para aludir a esta matéria, confesso que nunca me passou pela cabeça usar o modo de exposição automático a que a Olympus chamava «preferência à abertura». Podia fazê-lo – tudo com que teria de me preocupar seria a escolha da abertura –, mas prefiro ter o controlo total da exposição, ainda que com o auxílio do fotómetro. Deste modo, se eu pudesse comportar o custo de uma Leica (e gostasse de visores de telémetro), a M7 não seria para mim. E não sou certamente o único a pensar assim.

Depois há uma máquina de película que já morreu há algum tempo, mas ninguém a avisou: é a Canon EOS-1V (o «V» é o número 5 em numeração romana). O quê? não sabiam que a Canon ainda vendia máquinas de película? Eu também não. Pensava que, entre os big boys, só a Nikon oferecia máquinas destas. A produção, como referi, já terminou (diz-se que em 2010, mas há informações contraditórias), mas os modelos em stock continuaram a ser vendidos. E agora esgotaram, pelo que as vendas chegaram obviamente ao fim.

Segundo li no The Online Photographer, os fabricantes de material fotográfico costumam, no caso de produtos historicamente relevantes, fazer um último ciclo de produção em larga quantidade para vender o stock como NOS (New Old Stock), controlando as existências através de aumentos estratégicos do preço. Aparentemente, foi isto que a Canon fez com a EOS-1V depois de ter cessado a produção.

Ao contrário da Leica M7, a Canon – que foi lançada em 2000 – tinha as linhas feias das DSLR actuais. Tinha também a reputação de ser uma máquina indestrutível e foi mantida no mercado, ao que se diz, para satisfazer as necessidades dos profissionais que se mantiveram fiéis à película.

Que significa isto para a fotografia analógica? Muito pouco. Não há significado nenhum quanto ao futuro próximo das películas. Não é mais um prego no caixão, não é o anjo da morte fazendo-se anunciar, nem é um abutre voando em círculos sobre a carcaça analógica. A Canon não tem vocação para produtos de nicho como as máquinas analógicas e, de resto, o fim da oferta da EOS-1V já estava previsto há muito. Quanto à M7, os adquirentes de Leicas analógicas não precisam dela: são pessoas que desdenham as electrónicas e querem ter controlo total do processo fotográfico. A fotografia analógica não vai morrer por perder estas máquinas.

M. V. M.

Alternativas (fora do tema)

O meu computador portátil é, pelos padrões actuais, uma sucata. Demora uma eternidade a arrancar e tudo o que se relacione com gráficos e envolva aplicações como o Java e o Adobe Reader é altamente problemático. Comprei o portátil em 2012, ano em que o computador anterior avariou sem possibilidade de reparação. O portátil actual funcionou muito bem até há cerca de dois anos, mas agora não adianta quantas limpezas e desfragmentações faça: está lento. Tenho a impressão que há alguns vírus a atrasar o seu funcionamento, mas se há, devem ser invisíveis aos anti-vírus: sempre que corro estes últimos, eles concluem, invariavelmente, pela inexistência de vírus.

Navegar na Internet era, até ontem (mais tarde explicarei a razão desta data), um pesadelo. As páginas demoravam uma eternidade a abrir, como se tivesse uma ligação dial-up dos anos 90. Abrir o correio electrónico levava-me ao desespero e induzia-me vontade de atirar o bendito do computador pela varanda abaixo.

Outro problema que tinha era com a utilização do Word. Como os leitores sabem, uma parte não despicienda das minhas actividades consiste na prática de actos típicos da advocacia, e esta implica a utilização do Citius (que, finalmente, abrange também os processos criminais). Ora, para enviar os meus requerimentos, petições e defesas para os tribunais, eu necessito de convertê-los para o formato .pdf. Por qualquer motivo, a versão do Word que utilizo não inclui um conversor para este formato, o que me obrigou a usar conversores externos durante algum tempo (o melhor deles parece ser o Nitro), mas os conversores gratuitos funcionam via cloud e são limitados – há um que apenas permite a conversão de uma página de um documento – e, quanto aos demais, são onerosos e apenas permitem a descarga gratuita de versões de avaliação que expiram ao fim de algum tempo. Isto é um problema sério para mim.

Voltando à questão do navegador, eu tenho vindo a usar o Mozilla Firefox. Quando o instalei, e até há alguns meses, era leve, rápido e funcional. Comparado com ele, o Internet Explorer tinha a velocidade de uma tartaruga afectada por artrite reumatóide tentando subir um penedo a pique. Contudo, ultimamente o Firefox tornou-se lento. Pensei que era por utilizar o AdBlock, mas não: depois de o desinstalar, tornou-se ainda mais lento. O Firefox está mais lento que o Internet Explorer, o que é uma verdadeira proeza!

Aliando isto à lentidão do próprio computador, decidi que era melhor procurar um browser mais leve e rápido. Encontrei o Opera e estou a usá-lo desde ontem. Não é impossível que os cookies e demais tralha que se recolhe quando se navega na Internet venham a torná-lo lento, mas para já estou satisfeito: o Opera devolveu-me a rapidez do Firefox dos primeiros tempos e tem o bónus de ser simples e funcional.

O Opera não é open source, mas é gratuito para os utilizadores do Windows. A minha verdadeira aventura com o open source veio com o uso do Open Office Writer da Apache. Já o havia experimentado há cerca de dez anos, mas nessa altura era de tal maneira rudimentar que não valia a pena abandonar o Word da Microsoft. Ora, num momento raro de pensamento lateral, percebi que, em lugar de usar um conversor para .pdf, mais me valia averiguar a existência de um programa de texto com conversor .pdf incluído. Bingo! O Open Office Writer deixa-me converter os textos para .pdf. Gratuitamente, sem complicações, não implicando nada mais que clicar um botão na barra de tarefas. Apesar de o Writer não ter muitas das funcionalidades do Microsoft Word, é um programa de texto gratuito que funciona correctamente e faz o essencial muito bem (com o bónus de ter uma função muito prática de escrita inteligente, como os smartphones).

Como vêem, há vida para além da Microsoft e da Apple. Ainda não me sinto pronto para dar o salto definitivo que tornaria o meu computador muito mais rápido, a despeito da sua idade – esse salto consistiria na adopção do sistema operativo Linux –, mas já sei que, no dia em que mudar de computador, não terei de me preocupar com o facto de o Microsoft Office não estar incluído e ser agora um serviço apenas acessível na cloud mediante pagamento de uma anuidade.

M. V. M.

«Fotografia computacional»

Penso que não há necessidade de dizer muito quanto à qualidade das fotografias que se tiram com telemóveis. Apesar dos esforços de alguns, que nos tentam à força toda convencer do contrário, o que vemos quando nos mostram fotografias tiradas com um telemóvel é invariavelmente medíocre e não resiste a uma visualização em tamanhos superiores ao do ecrã do aparelho. Em tamanhos pequenos, as fotografias até podem parecer boas – se tiverem sido tiradas sob boas condições de luz e a pessoa que a tirou tiver mãos firmes –, mas os artifícios são fáceis de detectar: a redução do ruído esbate os pormenores, as cores são em regra imprecisas e a gama dinâmica é invariavelmente limitada: as altas luzes estouram facilmente e as sombras bloqueiam o pormenor.

E não esqueçamos a ergonomia: a maioria das pessoas já desistiu de fotografar na orientação horizontal, porque é uma perda de tempo segurar o telemóvel nessa posição. E depois há as limitações inevitáveis de uma objectiva de plástico com abertura fixa e distância focal de grande-angular, o que prejudica a perspectiva e a profundidade de campo – e, evidentemente, o sensor minúsculo não ajuda nada.

Claro que os fabricantes sabem tudo isto. Até agora, a qualidade de imagem dos telemóveis mais evoluídos era suficiente para convencer o grande público, que não necessita de grande qualidade para as suas selfies – a prova deste sucesso é o desaparecimento das câmaras compactas de baixo custo –, mas há sempre quem queira mais. Sobretudo entre os amadores de fotografia que adoram gadgets e não perdoam a falta de bokeh e os problemas de perspectiva resultantes do ângulo de visão das objectivas. E que fazem os fabricantes? Tentam resolver as limitações através do software. Criam bokeh artificial, usam algoritmos agressivos de supressão do ruído, nitidez e equilíbrio dos brancos e produzem um efeito parecido com o HDR. Alguns telemóveis usam duas objectivas, uma com distância focal de grande-angular e outra standard. E já se fala num telemóvel com três câmaras, o que, pela forma como foi anunciado, me lembra um célebre sketch do Monty Python’s Flying Circus.

Claro que as fotografias continuam a ter uma qualidade deplorável, mas vistas em tamanhos pequenos até passam por ser espectaculares – para quem gosta do estilo, evidentemente. E, uma vez que nada disto implica uma melhoria da qualidade de imagem – a qual é impossível, atenta a inevitabilidade das limitações impostas pelas dimensões dos aparelhos – os fabricantes mudaram de estratégia: o que estes aparelhinhos produzem são fotografias, mas fotografias que pertencem a uma categoria nova e cheia de promessas: a fotografia computacional.

Ou seja, as fotografias continuam a ser uma bosta, mas agora são uma bosta sofisticada e cheia de conteúdo tecnológico. Uma bosta computacional. Pode ser que as pessoas esqueçam o cheiro, de tão ofuscadas pelas tecnologias avançadíssimas. Quanto a mim, esta coisa da fotografia computacional é um truque de marketing destinado a iludir todos aqueles que se deixam levar pelo último grito da tecnologia. Este é o lado brave new world da questão. Depois há a realidade triste: esta treta da fotografia computacional não é mais que a admissão de que os telemóveis nunca tirarão fotografias com a qualidade de uma DSLR e que tudo a que podem aspirar é a uma percepção de qualidade inteiramente falsa e artificial, porque induzida através de algoritmos. Claro que a Apple, a Huawei e a Google esperam que todos nós fiquemos rendidos a esta nova vaga da fotografia, a esta visão do futuro em que o computador se substitui à pessoa em tudo (qualquer dia usamos uma app para fazer bebés) e faz fotografias melhor do que nós somos capazes com as tecnologias obsoletas e as câmaras monstruosas actualmente existentes. A fotografia computacional está no mesmo patamar de desenvolvimento que a inteligência artificial e a realidade virtual: é o futuro inevitável que está ao virar da esquina.

Francamente, nada disto é necessário. Quem fotografa com telemóveis não precisa de uma enorme qualidade de imagem e sabe que esta só se obtém com uma câmara a sério. Não necessitam de bokeh e HDR e essas tretas todas para nada. Este conceito de fotografia computacional só serve para agradar aos pobres neuróticos que vão para os fóruns do Digital Photography Review queixar-se do tamanho das DSLR e da rusticidade dos visores ópticos. São apenas um punhado, mas um punhado ruidoso e, pelos vistos, influente.

M. V. M.

A Olympus OM-1 e eu

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Mentiria se negasse que a avaria da minha OM-2 me deixou a pensar na aquisição de um corpo, o qual teria, forçosamente, de ser uma outra OM por causa das lentes. Podia ter-se dado o caso de a reparação não se justificar por ser demasiado onerosa, ou mesmo o de a avaria ser irreparável. Em qualquer dos casos, a solução seria sempre a mesma: adquirir outra máquina.

Agora vem a surpresa: não seria outra OM-2. Nem uma OM-3 nem uma OM-4 (e muito menos uma das OM de dois ou três algarismos). Nada disso: a máquina que ponderei adquirir seria uma OM-1, que era, de resto, a que tinha em mente em 2013, quando me converti à película (como não consegui resistir ao estado de conservação perfeito em que a minha OM-2n estava quando a vi pela primeira vez, acabei por adquiri-la em detrimento da OM-1).

As razões para esta escolha da OM-1 são várias. Em primeiro lugar está ter sido a primeira OM. Eu sei que houve uma série de máquinas que receberam o nome de modelo «M-1» (o qual foi abandonado por insistência da Leica, que já tinha as suas «M» há muito), mas eram em tudo idênticas às que viriam a ser chamadas «OM-1».

(Um parêntesis histórico: as OM-1 mantiveram-se em produção já depois do lançamento da minha OM-2, que era uma alternativa semiautomática, e foram fabricadas até 1987, na versão «N». A OM-1 estava no mercado aquando do lançamento das sofisticadas OM-3 e OM-4. A isto chama-se longevidade. Mostrem-me uma câmara digital que tenha sido produzida durante quinze anos!)

As outras razões que me levariam a preferir uma OM-1 são o facto de ser inteiramente manual e ser mais simples. Ser manual implica que as únicas electrónicas são as do fotómetro, o que tem o potencial de tornar as OM-1 mais longevas que os modelos que se sucederam. (E, pelo que já li algures, a avaria que afectou a minha OM-2n poderia não ter acontecido se tivesse uma OM-1.) Não existindo modos de exposição semiautomáticos, não há electrónicas a comandar as cortinas do obturador.

Porque a OM-1 não tem o modo de «preferência à abertura» da OM-2, não existe comando de compensação da exposição. O que quer dizer que tem um comando a menos, potenciando assim a sua fiabilidade. A solução da OM-2, que junta o comando da compensação da exposição com o selector da sensibilidade da película, é elegante, mas pouco prática: é necessário levantar o comando rotativo para seleccionar a sensibilidade ASA (ou ISO). Na OM-1, a única função que o comando rotativo do lado direito serve é o de seleccionar a sensibilidade. É mais simples e mais bonito.

Mas a OM-1 tem uma desvantagem considerável: quando foi lançada, em 1972, ainda se fabricavam pilhas de mercúrio, e foi para trabalhar com estas pilhas que o fotómetro da OM-1 foi calibrado. O abandono do mercúrio – que foi impelido, pelo menos em parte, pelo desastre de Minamata, que já referi aqui a propósito de uma fotografia do meu predilecto W. Eugene Smith – obrigou ao uso de alternativas, que vão desde adaptadores até à utilização ad hoc de pilhas para próteses auditivas. Isto não é apenas mais uma das inúmeras discussões paranóicas da internet: a linearidade da voltagem é crucial para o bom funcionamento do fotómetro. As pilhas originais (de mercúrio) tinham cerca de 1,4 V, ao passo que as alternativas têm, em regra, 1,5 V.

É isto que me suscita reservas quanto à possível aquisição de uma OM-1. Entendo ser fundamental que o fotómetro funcione em condições ideais. O fotómetro da OM-2 é praticamente perfeito, desde que as pilhas estejam com carga suficiente. Detestaria ter uma máquina com um fotómetro em cujas medições não pudesse confiar. Usar o Sunny 16 é muito bonito, mas prefiro a comodidade de ter um ponteiro a dar-me indicações nas quais posso confiar e me permite resultados consistentes.

Se alguém me assegurasse que existe uma solução fiável para substituir as pilhas de mercúrio, poderia bem considerar a aquisição de uma OM-1 – mesmo que a minha OM-2 tenha conserto e este seja por um valor razoável, não seria um desperdício ter dois corpos similares. Um serviria para películas a cores, outro para o preto-e-branco. Se fosse assim, escolher entre fotografar a cores ou a preto-e-branco deixaria de ser um dilema cruel.

E não esqueçamos o funcionamento do anel de comando do tempo de exposição da OM-1, que desliza como faca quente em manteiga derretida…

M. V. M.

Como ver fotografias

Hoje passei um Domingo horrível. Uma boa parte do dia foi passada a esperar. Não quero pormenorizar, mas estive largas horas sem fazer nada, apenas esperando. Há maneira melhor de passar um Domingo? Só se for num hipermercado, ou na fila para as caixas de uma grande superfície comercial em dia de preços sem IVA.

Onde eu estava havia Wi-Fi gratuita e disponível ao público. Como tinha o meu smartphone comigo, decidi usá-lo para aquela que é a sua vocação (além de fazer e receber chamadas e de enviar e receber mensagens, claro): acedi à internet através dele.

O meu smartphone tem um ecrã com uma resolução razoável. Não é nenhum iPhone, mas é bastante legível. Quando abri as páginas do Flickr, porém, fiquei alarmado: as fotografias surgiam muito escuras. E não era um problema com as minhas fotografias: as de outros utilizadores, bem como as fotografias publicadas noutros sites – o que incluía fotografias de fotógrafos profissionais –, tinham o mesmo problema: um excesso de contraste e de sombras.

Evidentemente que me lembrei de alterar o brilho do ecrã. Foi a primeira coisa que me veio à mente. O smartphone ainda tinha a pré-definição, que ficava a cerca de 75% da luminosidade possível. Aumentar o brilho não resolveu quase nada: as fotografias continuavam demasiado escuras.

Curiosamente, esta característica é boa para ver fotografias tiradas com outros smartphones, ajudando a disfarçar o péssimo desempenho nas altas luzes e a falta de contraste que são males crónicos dos sensores e lentes minúsculos dos smartphones. Vistas em tamanhos pequenos, estas fotografias parecem todas excelentes, cheias de contraste, com boa resolução, sem ruído e com cores saturadas (o meu smartphone é como os monitores HP: privilegia a matiz vermelha). Contudo, com fotografias correctamente expostas, a visualização torna-se num pesadelo.

As pessoas que vêem fotografias através de smartphones podem fazer uma ideia completamente errada acerca delas. Embora a tendência seja para que todas as fotografias pareçam fabulosamente boas quando vistas em tamanhos tão pequenos como os do ecrã de um smartphone, algumas fotografias, mesmo quando correctamente expostas, parecem demasiado escuras, ocultando muito do pormenor nelas presente.

https://i1.wp.com/images.huffingtonpost.com/2015-03-18-1426718296-2416146-Koudelkaangelboy.jpg
Josef Koudelka. Isto não é para se ver com um smartphone.

E este não é o único problema. Ver fotografias num ecrã tão pequeno é limitador e frustrante. Claro que serve na perfeição para ver a fotografia do pimpolho e do gato no facebook, mas as fotografias mais sérias ficam muito prejudicadas. Aconteceu-me ver alguns clássicos de Koudelka no website da Magnum, e não gostei nada do que vi: a resolução era claramente insuficiente e o contraste, bem como os negros, eram simplesmente excessivos. As fotografias que vivem do pormenor e de subtilezas saem claramente prejudicadas, porque o objectivo de visualizar fotografias num smartphone é o de compreender o seu conteúdo em três segundos.

Nada disto significa que vá começar a fazer fotografias sobreexpostas para agradar a quem as vê em «dispositivos móveis». Concluí que as minhas fotografias são para ser vistas em monitores convencionais, com ecrãs de média e grande dimensão. Mas as minhas fotografias de pouco importam; o que é certo, o que sei por ter aprendido com os meus olhos, é que ver fotografias num computador, mesmo que muito bom, será sempre um triste sucedâneo da experiência de vê-las em papel. Mesmo assim, é muito melhor ver fotografias num computador convencional do que num smartphone, por melhor que seja o seu ecrã (e eu já vi fotografias em smartphones com ecrãs melhores que o meu). A evolução tem-se caracterizado por uma redução na qualidade em favor da abundância e do baixo custo, mas há limites a partir dos quais esta redução se torna inaceitável. Vejam lá os pimpolhos e os gatos dos vossos amigos nos telemóveis, mas usem os vossos monitores para ver fotografias um pouco mais intencionais.

M. V. M.