A Olympus OM-1 e eu

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Mentiria se negasse que a avaria da minha OM-2 me deixou a pensar na aquisição de um corpo, o qual teria, forçosamente, de ser uma outra OM por causa das lentes. Podia ter-se dado o caso de a reparação não se justificar por ser demasiado onerosa, ou mesmo o de a avaria ser irreparável. Em qualquer dos casos, a solução seria sempre a mesma: adquirir outra máquina.

Agora vem a surpresa: não seria outra OM-2. Nem uma OM-3 nem uma OM-4 (e muito menos uma das OM de dois ou três algarismos). Nada disso: a máquina que ponderei adquirir seria uma OM-1, que era, de resto, a que tinha em mente em 2013, quando me converti à película (como não consegui resistir ao estado de conservação perfeito em que a minha OM-2n estava quando a vi pela primeira vez, acabei por adquiri-la em detrimento da OM-1).

As razões para esta escolha da OM-1 são várias. Em primeiro lugar está ter sido a primeira OM. Eu sei que houve uma série de máquinas que receberam o nome de modelo «M-1» (o qual foi abandonado por insistência da Leica, que já tinha as suas «M» há muito), mas eram em tudo idênticas às que viriam a ser chamadas «OM-1».

(Um parêntesis histórico: as OM-1 mantiveram-se em produção já depois do lançamento da minha OM-2, que era uma alternativa semiautomática, e foram fabricadas até 1987, na versão «N». A OM-1 estava no mercado aquando do lançamento das sofisticadas OM-3 e OM-4. A isto chama-se longevidade. Mostrem-me uma câmara digital que tenha sido produzida durante quinze anos!)

As outras razões que me levariam a preferir uma OM-1 são o facto de ser inteiramente manual e ser mais simples. Ser manual implica que as únicas electrónicas são as do fotómetro, o que tem o potencial de tornar as OM-1 mais longevas que os modelos que se sucederam. (E, pelo que já li algures, a avaria que afectou a minha OM-2n poderia não ter acontecido se tivesse uma OM-1.) Não existindo modos de exposição semiautomáticos, não há electrónicas a comandar as cortinas do obturador.

Porque a OM-1 não tem o modo de «preferência à abertura» da OM-2, não existe comando de compensação da exposição. O que quer dizer que tem um comando a menos, potenciando assim a sua fiabilidade. A solução da OM-2, que junta o comando da compensação da exposição com o selector da sensibilidade da película, é elegante, mas pouco prática: é necessário levantar o comando rotativo para seleccionar a sensibilidade ASA (ou ISO). Na OM-1, a única função que o comando rotativo do lado direito serve é o de seleccionar a sensibilidade. É mais simples e mais bonito.

Mas a OM-1 tem uma desvantagem considerável: quando foi lançada, em 1972, ainda se fabricavam pilhas de mercúrio, e foi para trabalhar com estas pilhas que o fotómetro da OM-1 foi calibrado. O abandono do mercúrio – que foi impelido, pelo menos em parte, pelo desastre de Minamata, que já referi aqui a propósito de uma fotografia do meu predilecto W. Eugene Smith – obrigou ao uso de alternativas, que vão desde adaptadores até à utilização ad hoc de pilhas para próteses auditivas. Isto não é apenas mais uma das inúmeras discussões paranóicas da internet: a linearidade da voltagem é crucial para o bom funcionamento do fotómetro. As pilhas originais (de mercúrio) tinham cerca de 1,4 V, ao passo que as alternativas têm, em regra, 1,5 V.

É isto que me suscita reservas quanto à possível aquisição de uma OM-1. Entendo ser fundamental que o fotómetro funcione em condições ideais. O fotómetro da OM-2 é praticamente perfeito, desde que as pilhas estejam com carga suficiente. Detestaria ter uma máquina com um fotómetro em cujas medições não pudesse confiar. Usar o Sunny 16 é muito bonito, mas prefiro a comodidade de ter um ponteiro a dar-me indicações nas quais posso confiar e me permite resultados consistentes.

Se alguém me assegurasse que existe uma solução fiável para substituir as pilhas de mercúrio, poderia bem considerar a aquisição de uma OM-1 – mesmo que a minha OM-2 tenha conserto e este seja por um valor razoável, não seria um desperdício ter dois corpos similares. Um serviria para películas a cores, outro para o preto-e-branco. Se fosse assim, escolher entre fotografar a cores ou a preto-e-branco deixaria de ser um dilema cruel.

E não esqueçamos o funcionamento do anel de comando do tempo de exposição da OM-1, que desliza como faca quente em manteiga derretida…

M. V. M.

Como ver fotografias

Hoje passei um Domingo horrível. Uma boa parte do dia foi passada a esperar. Não quero pormenorizar, mas estive largas horas sem fazer nada, apenas esperando. Há maneira melhor de passar um Domingo? Só se for num hipermercado, ou na fila para as caixas de uma grande superfície comercial em dia de preços sem IVA.

Onde eu estava havia Wi-Fi gratuita e disponível ao público. Como tinha o meu smartphone comigo, decidi usá-lo para aquela que é a sua vocação (além de fazer e receber chamadas e de enviar e receber mensagens, claro): acedi à internet através dele.

O meu smartphone tem um ecrã com uma resolução razoável. Não é nenhum iPhone, mas é bastante legível. Quando abri as páginas do Flickr, porém, fiquei alarmado: as fotografias surgiam muito escuras. E não era um problema com as minhas fotografias: as de outros utilizadores, bem como as fotografias publicadas noutros sites – o que incluía fotografias de fotógrafos profissionais –, tinham o mesmo problema: um excesso de contraste e de sombras.

Evidentemente que me lembrei de alterar o brilho do ecrã. Foi a primeira coisa que me veio à mente. O smartphone ainda tinha a pré-definição, que ficava a cerca de 75% da luminosidade possível. Aumentar o brilho não resolveu quase nada: as fotografias continuavam demasiado escuras.

Curiosamente, esta característica é boa para ver fotografias tiradas com outros smartphones, ajudando a disfarçar o péssimo desempenho nas altas luzes e a falta de contraste que são males crónicos dos sensores e lentes minúsculos dos smartphones. Vistas em tamanhos pequenos, estas fotografias parecem todas excelentes, cheias de contraste, com boa resolução, sem ruído e com cores saturadas (o meu smartphone é como os monitores HP: privilegia a matiz vermelha). Contudo, com fotografias correctamente expostas, a visualização torna-se num pesadelo.

As pessoas que vêem fotografias através de smartphones podem fazer uma ideia completamente errada acerca delas. Embora a tendência seja para que todas as fotografias pareçam fabulosamente boas quando vistas em tamanhos tão pequenos como os do ecrã de um smartphone, algumas fotografias, mesmo quando correctamente expostas, parecem demasiado escuras, ocultando muito do pormenor nelas presente.

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Josef Koudelka. Isto não é para se ver com um smartphone.

E este não é o único problema. Ver fotografias num ecrã tão pequeno é limitador e frustrante. Claro que serve na perfeição para ver a fotografia do pimpolho e do gato no facebook, mas as fotografias mais sérias ficam muito prejudicadas. Aconteceu-me ver alguns clássicos de Koudelka no website da Magnum, e não gostei nada do que vi: a resolução era claramente insuficiente e o contraste, bem como os negros, eram simplesmente excessivos. As fotografias que vivem do pormenor e de subtilezas saem claramente prejudicadas, porque o objectivo de visualizar fotografias num smartphone é o de compreender o seu conteúdo em três segundos.

Nada disto significa que vá começar a fazer fotografias sobreexpostas para agradar a quem as vê em «dispositivos móveis». Concluí que as minhas fotografias são para ser vistas em monitores convencionais, com ecrãs de média e grande dimensão. Mas as minhas fotografias de pouco importam; o que é certo, o que sei por ter aprendido com os meus olhos, é que ver fotografias num computador, mesmo que muito bom, será sempre um triste sucedâneo da experiência de vê-las em papel. Mesmo assim, é muito melhor ver fotografias num computador convencional do que num smartphone, por melhor que seja o seu ecrã (e eu já vi fotografias em smartphones com ecrãs melhores que o meu). A evolução tem-se caracterizado por uma redução na qualidade em favor da abundância e do baixo custo, mas há limites a partir dos quais esta redução se torna inaceitável. Vejam lá os pimpolhos e os gatos dos vossos amigos nos telemóveis, mas usem os vossos monitores para ver fotografias um pouco mais intencionais.

M. V. M.

E se tivéssemos um pouco de calma?

A actual obsessão da comunidade fotográfica é esta câmara:

Resultado de imagem para fuji GFX-50S

Isto é a Fujifilm GFX-50S. Muitos, incluindo a própria Fujifilm, referem-se a esta câmara digital que está agora a ser lançada no comércio como sendo de «médio formato», mas isto é obviamente um disparate porque a GFX-50S (claro que tinha de incluir um “X”, senão não era uma Fuji) tem um sensor com área de 43.8×32.9mm, enquanto o verdadeiro médio formato – aquele dos rolos de película 120 – tem as dimensões de 6×6 (em centímetros), 6×9, 6×7 ou 6×4,5. Portanto, esta é uma câmara 4×3; está algures entre o verdadeiro médio formato e o 36×24 a que se convencionou chamar «full frame». Numa palavra: esta não é uma câmara de médio formato (mas mais tarde voltaremos à área do sensor).

Esta câmara é cara – posto ser a mais barata das médio formato (chamemos-lhes assim) digitais –, é grande e é feia, o que teoricamente contradiz os argumentos que as pessoas usam para justificar o seu interesse pelas mirrorless (quase me esquecia de mencionar que esta GFX-50S é uma câmara sem-espelho). Com efeito, não é transportável, é desajeitada e vai usar lentes enormes, mas que se dane: é uma mirrorless e as mirrorless, afinal, não são boas por serem compactas e relativamente baratas: são boas porque nelas é tudo electrónico. Os fanáticos das mirrorless sentem-se tão incomodados que parece que lhes falta o ar quando lhes mostram uma SLR (digital ou não). «Oh, não, que coisa obsoleta e grotesca: um espelho – e ainda por cima de accionamento mecânico. Mas estamos no Século XIX, ou quê?», dirão eles, porque só o que é electrónico é bom, porque «electrónico» é sinónimo de progresso e de futuro. O mesmo quanto ao visor óptico, evidentemente, porque se é «óptico» é rudimentar e obsoleto.

E isto é uma Fuji. Sabem, aquela marca que conseguiu pôr alucinados que outrora usavam T-shirts a dizer «I shoot raw» a fotografar em JPEG, porque isto é a única coisa que as mirrorless da Fuji fazem bem: fotografar JPEG com o processador a aplicar à imagem um filtro que imita as transparências da Fujifilm – o Velvia, o Provia e outras já extintas, mas que viverão para sempre na sua imitação digital. No resto, as Fuji fazem tudo mal: os ficheiros Raw não têm nitidez, a focagem automática é um desastre e só se tornam boas depois de um número incomensurável de actualizações. Podia ser divertido, de uma forma mais ou menos lomográfica, fotografar com as Fuji X-Não-Sei-Das-Quantas, por causa das cores, mas estas câmaras são caríssimas. E as lentes também. E, embora a falsa médio formato tenha um sensor Bayer, e não os inúteis X-Trans, as pessoas babam-se por esta câmara porque é uma Fuji. A Hasselblad tem uma câmara mirrorless com um sensor enorme que é muito mais bonita (posto um pouco mais cara), mais pequena e manuseável, mas não tem os filtros que simulam o Velvia e o Provia, por isso não presta.

Voltando ao sensor: as pessoas deixaram-se convencer que precisam de um sensor enorme por causa do bokeh e daquilo a que chamam «gama dinâmica», pelo que vão andar à volta da Fuji GFX feitas abelhas ensandecidas à volta da colmeia. É um disparate. As pessoas deviam, antes de se deixarem embarcar numa aventura ruinosa, perguntar a si mesmas e responder com muita honestidade se são suficientemente boas na fotografia para tirar partido de uma câmara com esta resolução (também seria sensato se perguntassem a si mesmas se a placa gráfica do seu computador aguenta processar ficheiros deste tamanho). De certeza que, se fossem francos consigo mesmos, 99% dos interessados na Fujifilm GFX responderiam que esta câmara não é para eles. Quanto aos restantes 1%, são os profissionais. Estes têm à sua disposição câmaras modulares muito sérias que lhes possibilitam usar cassetes (backs) diferentes, em lugar de estarem limitados a um só sensor, com uma focagem decente e lentes com obturador central com as quais o flash sincroniza em todas as velocidades. Não precisam da Fuji GFX-50S para nada.

Portanto, temos aqui uma câmara que não se percebe para quem é, ou qual a sua utilidade, mas muitos vão comprá-la porque sim. Porque é uma Fuji. Porque é uma mirrorless. E porque tem um sensor enorme. Esperem só até ver a cara destas pessoas quando souberem quanto vão custar as lentes para esta câmara.

M. V. M.

Factor X

Resultado de imagem para fujifilm superia x-tra 400Como sabemos, a Fujifilm tem uma obsessão pela letra “X”. A despeito de esta antepenúltima letra do alfabeto poder ser usada como incógnita – e o mundo empresarial não costuma gostar do desconhecido –, a Fuji usa-a prolificamente. Ele é a Fuji X-100, X-Pro, X-T, X-A, X-E… e todas, excepto a X-100, com a baioneta – adivinharam! – “X”. Até na nova câmara de médio formato conseguiram meter um “X”, chamando-lhe GFX. E, como seria mais ou menos previsível, a tecnologia do sensor que é a menina dos olhos da Fuji chama-se X-Trans.

Por alguma razão, a letra “X” é usada frequentemente como sinal de desenvolvimento e sofisticação tecnológicos. Talvez por causa do acrónimo XPTO, tão abundantemente utilizado nos filmes de animação, que designa «experimental». Ou por outra razão qualquer. Até nos automóveis é assim: a Citroën teve uma fase em que todos os seus modelos tinham um “X” (AX, BX, CX, XM, ZX, Xantia). E não esqueçamos o Castrol GTX.

Esta predilecção da Fuji pela letas “X” é conhecida da maioria dos leitores. O que muitos poderão não saber é que esta mania já vem dos tempos da película, uma vez que a Fuji fabricava (e ainda fabrica, como veremos daqui a pouco) películas denominadas X-Tra. Aparentemente, o X-Tra (nada que ver com o árbitro de futebol português Carlos X-Tra) denomina uma quarta camada de cor, sensível à tonalidade ciano, mas a própria Fuji não fornece muita informação acerca desta tecnologia.

Tudo isto só para dizer que começo o ano de 2017 experimentando uma nova película, que é, como os leitores mais perspicazes já terão certamente adivinhado, da Fujifilm. Não é um dos caríssimos 160NS ou 400H, nem os slides Velvia ou Provia, mas também não é o péssimo Superia 200, que experimentei uma vez e não gostei: converte os vermelhos em magentas. O rolo em questão é o Fujifilm Superia X-Tra 400. Decidi experimentá-lo porque não posso dizer que tenha ficado inteiramente satisfeito com o Agfa Vista, pelo que a minha demanda pela película a cores ideal ainda não acabou.

O que eu procuro, numa película a cores, é provavelmente uma utopia: quero que mantenha a acuidade dos tons debaixo de circunstâncias de iluminação difíceis, sem comprometer o equilíbrio das cores sob luz do dia; e quero cores que, não sendo mortiças, sejam discretas, não incorrendo em exageros de saturação. Sejam quais forem as condições de luz. O Kodak Portra 160 foi o que melhores resultados me deu com luz natural, mas nas exposições longas as cores tornam-se antiquadas e desagradáveis. O Kodak Ektar 100 é exactamente o oposto. Rolos como o Kodak Gold 200 e o Ferrania Solaris divertiram-me, mas não é aquelas cores garridas o que eu quero verdadeiramente.

O Agfa Vista, apesar do seu grão excessivo e de não ser muito preciso na descrição dos verdes e dos vermelhos, é o rolo que até hoje se aproximou mais do equilíbrio que pretendo; mas, se é verdade que resulta bem no geral, e que algumas das fotografias que fiz com ele ficaram surpreendentemente boas, as suas limitações são evidentes. Daí que não tenha dado a minha procura por concluída. Contudo, se este Fuji X-Tra não me der resultados melhores, o Agfa poderá tornar-se no meu rolo a cores de eleição. É certo que as cores precisarão de uns retoques no programa de edição de imagem, o que de certa maneira desafia o que se pretende de uma película, mas terá de servir.

Não espero muitas diferenças na qualidade geral entre o X-Tra e o Agfa, uma vez que é a Fujifilm que fabrica este último; mas penso poder esperar uma apresentação das cores melhor. Afinal, uma das cores em que o Agfa falha – o verde – é aquela que se considera ser o ponto forte da Fujifilm. Até o Superia 200, que é de resto muito fraquinho, mostra uns verdes excelentes. Mas por enquanto, o desempenho do Fuji Superia X-Tra é uma incógnita (see what I did here?).

M. V. M.

Marketing e a nova OM-D «profissional»

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É um facto bem conhecido dos profissionais do marketing: os consumidores deixam-se enganar facilmente. Alguns, aparentemente, gostam de ser enganados, especialmente nesta era de pretensos desenvolvimentos tecnológicos.

Uma das maneiras de iludir os consumidores e convencê-los a comprar aquilo de que não precisam é ofuscá-los com tecnologia. Resulta com os pixéis do sensor de uma câmara, mas também com uma data de inutilidades de que as pessoas se deixam convencer de que precisam como de pão para a boca. É o caso do vídeo 4K (quantos têm televisões e computadores preparados para 4K?) e dos valores ISO astronómicos, mas também do número de disparos sequenciais, da ligação Wi-Fi e do GPS. Ai do fabricante que se atreva a não incluir qualquer destas funcionalidades numa câmara: esta torna-se obsoleta e ridícula no próprio dia da sua apresentação.

Uma das companhias mais activas no que toca a encher as suas câmaras de funções inúteis é, curiosamente, a Olympus. Que longe estamos dos valores de simplicidade e bom design de Yoshihisa Maitani: agora as câmaras da Olympus são as mais complicadas de operar, com menus infinitos e inacessíveis, botões com duplas funções, interruptores e manípulos para tudo e mais alguma coisa – e tudo isto em aparelhos minúsculos, tal como minúsculos são os sensores 4/3. A insistência da Olympus neste sensor é algo que nem sei como qualificar: teimosia? Obstinação? Estupidez?

Os britânicos têm dois ditos interessantes que não têm correspondência na sabedoria popular portuguesa: um é you can’t make a silk purse of a sow’s ear (não se pode fazer uma bolsa de seda da orelha de uma porca) e outro, um pouco mais directo, é you can’t polish a turd (não se pode polir uma bosta). No entanto é isto mesmo que a Olympus anda a fazer desde 2002. Insistem num sensor – e consequentemente num formato e num sistema construído à sua volta – que nunca deu nem dará bons resultados.

Tudo isto vem a propósito da nova porta-estandarte da Olympus, a fastidiosamente denominada Olympus OM-D E-M1 Mark II. Evidentemente, esta câmara tem nas suas entranhas um sensor 4/3. A lista de funcionalidades, as mais delas inúteis, é infindável: 20 megapixéis, selagem contra os elementos, disparo sequencial de quinze exposições com o obturador mecânico e sessenta com o electrónico, tempo de exposição mínimo de 1/8000 com o obturador mecânico, estabilização de imagem em cinco eixos, gravação de vídeo em 4K, ecrã articulado em todas as direcções (como se pode viver sem isto?) e sensível ao toque, cento e vinte e um pontos de focagem automática, com detecção de fase no sensor, e umas coisas chamadas sensor shift e focus stacking – seja lá o que isso for.

Outro fenómeno típico das operações de marketing é o de nos tentar convencer que os progressos tecnológicos se sucedem a uma velocidade vertiginosa. No caso da Olympus, tentaram fazer-nos crer que a mudança do velho sensor Panasonic de 12,3 megapixéis para um fabricado pela Sony trouxe diferenças como da noite para o dia em matéria de qualidade de imagem. Conjugando isto com as funcionalidades enunciadas no parágrafo anterior, não surpreende que haja quem pense que a Olympus OM-D E-M1 Mark II é a câmara perfeita. Hmmm… não, não é. Esta profusão de tecnologia não contribui em praticamente nada para a qualidade de imagem.

Comecemos pelo ruído. Os níveis de ruído produzidos pelo sensor Sony de 20 megapixéis são embaraçosos. O ruído a ISO 800 é tão mau como o da minha E-P1 quando fotografo a ISO 400. Isto significa que, entre 2009 e 2016, tudo o que foi conseguido foi um progresso que se reduz a 1 EV. Muito pouco, e uma desilusão para quem se deixou enganar pelo marketing que prometia uma melhoria como do dia para a noite graças ao sensor novo. O ruído não era o único defeito do sensor Panasonic das primeiras mirrorless da Olympus: a tendência para estourar as altas luzes melhorou um pouco com a passagem para os sensores da Sony, mas as imagens continuam afectadas por uma claridade que não é a que vemos com os nossos olhos e que é o resultado da rápida saturação dos fotodiodos. Suporia, com base nisto, que também aqui os progressos não foram nada de sensacional.

Contudo, a Olympus está a pedir €1.800 por esta câmara, o que é mais do que custava a E-5, a última DSLR da marca. Com esta qualidade de imagem, o que esses mil e oitocentos euros pagam é a profusão de funções inúteis que esta câmara incorpora. Querem que se pague uma fortuna por uma câmara cuja qualidade de imagem não melhorou substancialmente em relação à E-P1 de 2009. Por este preço é possível comprar uma Pentax K-1, que é maior mas é uma full-frame e uma DSLR, com um visor óptico e uma qualidade de imagem superior. Ah – quase me esquecia de referir que a Olympus tem a pretensão de dizer que esta é uma câmara profissional. O sake que eles bebem às refeições é mesmo forte.

M. V. M.

Photokina, médio formato e um sonho de uma noite de Verão

É outra vez aquela época do ano em que a comunidade fotográfica entra em delírio por causa dos novos equipamentos. Sim, abriu a Photokina – e, como habitualmente, mostrou-se ao mundo uma verdadeira cornucópia de câmaras e lentes. Este ano não me apetece fazer uma reportagem da Photokina em directo do meu bureau – sinto-me completamente blasé quanto a equipamento desde que descobri que não é por causa dele que me interesso por fotografia –, mas houve algumas novidades merecedoras de menção.

O acontecimento número um da Photokina deste ano foi, indubitavelmente, a confirmação de um rumor que já circulava há muito na internet: a Fujifilm vai lançar equipamento de médio formato. Médio formato digital, claro. E mirrorless. Enquanto os entusiastas do equipamento conhecidos por gearheads se interrogavam se a futura GFX50S vai ter um sensor Bayer ou a anedota a que a Fujifilm chama «X-Trans» (seria estúpido pensar num sistema de médio formato para fotografar em JPEG, pelo que a minha aposta vai para a primeira hipótese), as minhas preocupações são de outra natureza: pode chamar-se «médio formato» a um sistema cujo sensor mede 44×33 milímetros, quando o fotograma de médio formato – o dos rolos 120 – mede 60×60 milímetros? (Talvez já tenha começado a ser altura de pensar as dimensões dos sensores sem recurso à analogia com as películas.) Mais: os milhões que inutilizaram os seus teclados com a baba que lhes escorreu dos cantos da boca ao ver o protótipo da Fujifilm GFX50S terão presente que vão ter de gastar uma fortuna em lentes gigantescas e num corpo que, embora compacto, reduz as X-T1 e 2 à condição de brinquedos? E terão consciência da dimensão absolutamente titânica de cada ficheiro de imagem, bem como dos requisitos que o computador terá de ter para armazená-los e trabalhar com programas de edição de imagem adequados? Médio formato digital é muito bonito, mas só para aqueles que medem tudo por números e pensam que, quanto mais megabytes e quanto maior o sensor, melhor (o que é parcialmente verdade, mas só se se tiver lentes de qualidade excepcional e um computador com especificações profissionais – e mesmo assim a aquisição de uma câmara de médio formato será uma despesa dificilmente justificável para muitos). Ter uma câmara com sensor de médio formato só faz sentido se for para ser usada profissionalmente.

Contudo, houve uma apresentação nesta Photokina que me pareceu absolutamente deliciosa. A Hasselblad mostrou um protótipo de uma câmara de médio formato modular que me lembra, não tanto as Hasselblad da série V (como a 500 C/M), mas uma Zenza Bronica que já cobicei, a ETRS. No protótipo da Hasselblad o sensor é quadrado e, curiosamente, não está montado numa cassete, mas sim no próprio corpo. Este último é um cubo (que presumo terá um espelho lá dentro) com uma baioneta no lado dianteiro, um ecrã no posterior e vários encaixes para montar acessórios nos outros lados: na parte superior pode montar-se um visor com pentaprisma, um visor de cintura como nas TLR ou um ecrã,  e – é nisto que me recorda a Zenza Bronica – nos lados pode montar-se um punho com botão do obturador e um comando rotativo. Em ambos os lados, notem bem: o punho pode ser montado do lado direito ou do esquerdo, o que significa que a Hasselblad pensou nos canhotos. O resultado é absolutamente adorável: eu gosto do estilo sóbrio e funcional que os suecos cultivam (tenho um amplificador integrado Primare que é uma das peças de equipamento de alta fidelidade mais bonitas alguma vez construídas) e esta Hasselblad V1D bem me tentaria se pudesse adquiri-la. Claro que teria de ser fabricada antes de ser posta à venda, o que ainda não é certo: como mencionei, isto é apenas um protótipo.

Há coincidências estranhas: eu só por duas ou três vezes sonhei com fotografia e equipamento. Mas nesta noite de Domingo para Segunda sonhei que tinha comprado uma Hasselblad 500 C/M (que é, como sabem, uma máquina de médio formato, mas de película). No meu sonho tinha saído de casa para experimentar a máquina, mas fiz uma fotografia desinteressante e outra em que, não sei porquê, disparei com um tempo de exposição longuíssimo (quando tinha a câmara entre as mãos). Depois destes dois fracassos resolvi parar com o desperdício; voltei a casa e formei a resolução de usar as quatro exposições restantes – o meu cérebro foi induzido em erro e reduziu para metade o número de exposições dos rolos 120 – para fazer retratos das pessoas da minha família.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/fd/Hasselblad_1600F.jpg

Não sei o que este sonho significa , nem o que revela acerca de mim; sei que foi estranho ter tido este sonho e, ao fim da tarde, descobrir o protótipo da Hasselblad inspirado na série V. Decerto foi apenas coincidência. Sim, decerto. Coincidência. Só pode.

M. V. M.

Fervor

Resultado de imagem para iphone 7

A comunidade fotográfica criou a curiosa ideia de que tudo no mundo gravita à volta dela e do que lhe interessa. É assim quanto às DSLRs – já escrevi sobre isso aqui – e também quanto aos smartphones. Não admira, deste modo, que se possa esquecer que estes aparelhos também servem para fazer chamadas e navegar na internet quando se lê o que os websites de fotografia escrevem acerca do iPhone: a fazer fé naquilo que ali se escreve, é uma câmara fotográfica à qual acrescentaram um módulo GSM e um processador porque, enfim, cabia na caixa. Quando, na verdade, qualquer pessoa com um bocadinho de lucidez sabe que aquilo é um smartphone e todos os smartphones têm uma câmara embutida. A diferença é subtil, mas existe.

O que é certo é que, se repararmos na publicidade de qualquer smartphone, descobrimos que o grande ênfase é colocado na câmara: a Huawei gaba-se da colaboração com a Leica para desenvolver um sensor monocromático, a LG e a Samsung adornam os seus anúncios com fotografias que foram de certeza feitas com máquinas fotográficas digitais de médio formato, mas há-de haver quem se deixe convencer que os smartphones têm mesmo aquelas aptidões fotográficas. E agora o iPhone aparece-nos com uma lente dupla – ou melhor: uma lente grande-angular e uma standard –, o que bastou para levar a comunidade fotográfica à loucura.

Há muito que surgem uns pássaros bisnau na internet a tentar convencer-nos que o iPhone é uma câmara de pleno direito. Uns aparecem a narrar como trocaram a sua DSLR pesadíssima e volumosa pelo iPhone e estão felizes da vida, como se tivessem trocado a matrona de 49 anos com quem coabitavam maritalmente por uma jovenzinha de 18 anos; outros vêm dizer-nos que Henri Cartier-Bresson usaria um iPhone se ainda fosse vivo – ignorando que, se ele ainda fosse vivo, por esta altura estaria a esmurrar a tampa do caixão e a gritar «tirem-me daqui» (em francês, claro). E há uma multidão de seguidores capaz de jurar que o iPhone é a melhor câmara do mundo porque sim, ou porque é a câmara mais vendida do mundo ou porque é a que contribui com mais fotografias para o Flickr. E, evidentemente, há os jornais que despedem fotojornalistas e equipam os repórteres redactoriais com iPhones, o que para muitos é prova de que o iPhone é uma grande câmara.

Entendamo-nos: o iPhone é capaz de fotografias de uma qualidade mais que aceitável. Já o escrevi aqui, tal como já afirmei que não queimaria os dedos se usasse um destes pequenos iMacs para tirar fotografias. Simplesmente, o aspecto das fotografias tiradas com o iPhone depende em 90% do trabalho do processador ou do uso de apps que dão à imagem uma determinada estética. Não há nada mais manipulado – ou retocado, se preferirem – que uma fotografia tirada com um iPhone. (O iPhone 7 grava imagem em ficheiros Raw, mas não me parece que seja de esperar algo de excepcional de um sensor minúsculo.)

Penso que estes delírios quanto à qualidade do iPhone têm uma causa. O iPhone – qualquer deles – é um objecto extremamente apetecível. E é um pequeno computador que anda no bolso e tem uma câmara embutida – e, como bónus, tem um design fabuloso e uma qualidade percebida extremamente elevada, tal como quase tudo o que a Apple faz. Os seus proprietários nutrem, por tudo isto, um fervor pelo iPhone que anda próximo da devoção. É irracional, evidentemente, mas compreensível. É este fervor que os leva a entoar loas à qualidade da imagem, mas esta qualidade, posto seja real, deve ser analisada com um grão de sal. Antes de mais, não são os atributos ópticos, sejam eles da lente ou do sensor, que determinam esta aparentemente alta qualidade: são os algoritmos do processador. Depois, esta qualidade só lhe é atribuível se compararmos o iPhone com compactas baratas ou com outros smartphones. E é ilusória, porque hoje vê-se fotografias através do ecrã de smartphones e não é difícil, em tamanhos tão pequenos, que uma fotografia pareça ter uma qualidade excelente. É quando as imprimimos em tamanhos razoáveis, ou mesmo quando as vemos em tamanhos grandes – digamos o tamanho de um monitor, ou do ecrã de um computador portátil – que essa qualidade é testada. E as imagens do iPhone não passam o teste.

É evidente que Cartier-Bresson não usaria um iPhone se fosse vivo, tal como é verdade que a qualidade de imagem é artificial e fabricada pelo processador. E convém manter alguma lucidez: o iPhone não é uma câmara. É um smartphone que tem uma câmara embutida, como todos os outros smartphones. E uma câmara que não é melhor que qualquer outra: é igual ou pior, mas as fotografias que capta são habilmente manipuladas de maneira a parecerem ter uma qualidade acima do normal. E têm – mas só se entendermos por «normal» a qualidade que serve de padrão para as selfies e fotografias de comida que se publicam no facebook (o que corresponde a um abaixamento a pique dos padrões de qualidade, convenhamos). Duvido que Mark Sutton alguma vez vá trocar a sua Nikon D5 por um iPhone para fotografar os Grandes Prémios.

M. V. M.