Alternativas (fora do tema)

O meu computador portátil é, pelos padrões actuais, uma sucata. Demora uma eternidade a arrancar e tudo o que se relacione com gráficos e envolva aplicações como o Java e o Adobe Reader é altamente problemático. Comprei o portátil em 2012, ano em que o computador anterior avariou sem possibilidade de reparação. O portátil actual funcionou muito bem até há cerca de dois anos, mas agora não adianta quantas limpezas e desfragmentações faça: está lento. Tenho a impressão que há alguns vírus a atrasar o seu funcionamento, mas se há, devem ser invisíveis aos anti-vírus: sempre que corro estes últimos, eles concluem, invariavelmente, pela inexistência de vírus.

Navegar na Internet era, até ontem (mais tarde explicarei a razão desta data), um pesadelo. As páginas demoravam uma eternidade a abrir, como se tivesse uma ligação dial-up dos anos 90. Abrir o correio electrónico levava-me ao desespero e induzia-me vontade de atirar o bendito do computador pela varanda abaixo.

Outro problema que tinha era com a utilização do Word. Como os leitores sabem, uma parte não despicienda das minhas actividades consiste na prática de actos típicos da advocacia, e esta implica a utilização do Citius (que, finalmente, abrange também os processos criminais). Ora, para enviar os meus requerimentos, petições e defesas para os tribunais, eu necessito de convertê-los para o formato .pdf. Por qualquer motivo, a versão do Word que utilizo não inclui um conversor para este formato, o que me obrigou a usar conversores externos durante algum tempo (o melhor deles parece ser o Nitro), mas os conversores gratuitos funcionam via cloud e são limitados – há um que apenas permite a conversão de uma página de um documento – e, quanto aos demais, são onerosos e apenas permitem a descarga gratuita de versões de avaliação que expiram ao fim de algum tempo. Isto é um problema sério para mim.

Voltando à questão do navegador, eu tenho vindo a usar o Mozilla Firefox. Quando o instalei, e até há alguns meses, era leve, rápido e funcional. Comparado com ele, o Internet Explorer tinha a velocidade de uma tartaruga afectada por artrite reumatóide tentando subir um penedo a pique. Contudo, ultimamente o Firefox tornou-se lento. Pensei que era por utilizar o AdBlock, mas não: depois de o desinstalar, tornou-se ainda mais lento. O Firefox está mais lento que o Internet Explorer, o que é uma verdadeira proeza!

Aliando isto à lentidão do próprio computador, decidi que era melhor procurar um browser mais leve e rápido. Encontrei o Opera e estou a usá-lo desde ontem. Não é impossível que os cookies e demais tralha que se recolhe quando se navega na Internet venham a torná-lo lento, mas para já estou satisfeito: o Opera devolveu-me a rapidez do Firefox dos primeiros tempos e tem o bónus de ser simples e funcional.

O Opera não é open source, mas é gratuito para os utilizadores do Windows. A minha verdadeira aventura com o open source veio com o uso do Open Office Writer da Apache. Já o havia experimentado há cerca de dez anos, mas nessa altura era de tal maneira rudimentar que não valia a pena abandonar o Word da Microsoft. Ora, num momento raro de pensamento lateral, percebi que, em lugar de usar um conversor para .pdf, mais me valia averiguar a existência de um programa de texto com conversor .pdf incluído. Bingo! O Open Office Writer deixa-me converter os textos para .pdf. Gratuitamente, sem complicações, não implicando nada mais que clicar um botão na barra de tarefas. Apesar de o Writer não ter muitas das funcionalidades do Microsoft Word, é um programa de texto gratuito que funciona correctamente e faz o essencial muito bem (com o bónus de ter uma função muito prática de escrita inteligente, como os smartphones).

Como vêem, há vida para além da Microsoft e da Apple. Ainda não me sinto pronto para dar o salto definitivo que tornaria o meu computador muito mais rápido, a despeito da sua idade – esse salto consistiria na adopção do sistema operativo Linux –, mas já sei que, no dia em que mudar de computador, não terei de me preocupar com o facto de o Microsoft Office não estar incluído e ser agora um serviço apenas acessível na cloud mediante pagamento de uma anuidade.

M. V. M.

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«Fotografia computacional»

Penso que não há necessidade de dizer muito quanto à qualidade das fotografias que se tiram com telemóveis. Apesar dos esforços de alguns, que nos tentam à força toda convencer do contrário, o que vemos quando nos mostram fotografias tiradas com um telemóvel é invariavelmente medíocre e não resiste a uma visualização em tamanhos superiores ao do ecrã do aparelho. Em tamanhos pequenos, as fotografias até podem parecer boas – se tiverem sido tiradas sob boas condições de luz e a pessoa que a tirou tiver mãos firmes –, mas os artifícios são fáceis de detectar: a redução do ruído esbate os pormenores, as cores são em regra imprecisas e a gama dinâmica é invariavelmente limitada: as altas luzes estouram facilmente e as sombras bloqueiam o pormenor.

E não esqueçamos a ergonomia: a maioria das pessoas já desistiu de fotografar na orientação horizontal, porque é uma perda de tempo segurar o telemóvel nessa posição. E depois há as limitações inevitáveis de uma objectiva de plástico com abertura fixa e distância focal de grande-angular, o que prejudica a perspectiva e a profundidade de campo – e, evidentemente, o sensor minúsculo não ajuda nada.

Claro que os fabricantes sabem tudo isto. Até agora, a qualidade de imagem dos telemóveis mais evoluídos era suficiente para convencer o grande público, que não necessita de grande qualidade para as suas selfies – a prova deste sucesso é o desaparecimento das câmaras compactas de baixo custo –, mas há sempre quem queira mais. Sobretudo entre os amadores de fotografia que adoram gadgets e não perdoam a falta de bokeh e os problemas de perspectiva resultantes do ângulo de visão das objectivas. E que fazem os fabricantes? Tentam resolver as limitações através do software. Criam bokeh artificial, usam algoritmos agressivos de supressão do ruído, nitidez e equilíbrio dos brancos e produzem um efeito parecido com o HDR. Alguns telemóveis usam duas objectivas, uma com distância focal de grande-angular e outra standard. E já se fala num telemóvel com três câmaras, o que, pela forma como foi anunciado, me lembra um célebre sketch do Monty Python’s Flying Circus.

Claro que as fotografias continuam a ter uma qualidade deplorável, mas vistas em tamanhos pequenos até passam por ser espectaculares – para quem gosta do estilo, evidentemente. E, uma vez que nada disto implica uma melhoria da qualidade de imagem – a qual é impossível, atenta a inevitabilidade das limitações impostas pelas dimensões dos aparelhos – os fabricantes mudaram de estratégia: o que estes aparelhinhos produzem são fotografias, mas fotografias que pertencem a uma categoria nova e cheia de promessas: a fotografia computacional.

Ou seja, as fotografias continuam a ser uma bosta, mas agora são uma bosta sofisticada e cheia de conteúdo tecnológico. Uma bosta computacional. Pode ser que as pessoas esqueçam o cheiro, de tão ofuscadas pelas tecnologias avançadíssimas. Quanto a mim, esta coisa da fotografia computacional é um truque de marketing destinado a iludir todos aqueles que se deixam levar pelo último grito da tecnologia. Este é o lado brave new world da questão. Depois há a realidade triste: esta treta da fotografia computacional não é mais que a admissão de que os telemóveis nunca tirarão fotografias com a qualidade de uma DSLR e que tudo a que podem aspirar é a uma percepção de qualidade inteiramente falsa e artificial, porque induzida através de algoritmos. Claro que a Apple, a Huawei e a Google esperam que todos nós fiquemos rendidos a esta nova vaga da fotografia, a esta visão do futuro em que o computador se substitui à pessoa em tudo (qualquer dia usamos uma app para fazer bebés) e faz fotografias melhor do que nós somos capazes com as tecnologias obsoletas e as câmaras monstruosas actualmente existentes. A fotografia computacional está no mesmo patamar de desenvolvimento que a inteligência artificial e a realidade virtual: é o futuro inevitável que está ao virar da esquina.

Francamente, nada disto é necessário. Quem fotografa com telemóveis não precisa de uma enorme qualidade de imagem e sabe que esta só se obtém com uma câmara a sério. Não necessitam de bokeh e HDR e essas tretas todas para nada. Este conceito de fotografia computacional só serve para agradar aos pobres neuróticos que vão para os fóruns do Digital Photography Review queixar-se do tamanho das DSLR e da rusticidade dos visores ópticos. São apenas um punhado, mas um punhado ruidoso e, pelos vistos, influente.

M. V. M.

A Olympus OM-1 e eu

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Mentiria se negasse que a avaria da minha OM-2 me deixou a pensar na aquisição de um corpo, o qual teria, forçosamente, de ser uma outra OM por causa das lentes. Podia ter-se dado o caso de a reparação não se justificar por ser demasiado onerosa, ou mesmo o de a avaria ser irreparável. Em qualquer dos casos, a solução seria sempre a mesma: adquirir outra máquina.

Agora vem a surpresa: não seria outra OM-2. Nem uma OM-3 nem uma OM-4 (e muito menos uma das OM de dois ou três algarismos). Nada disso: a máquina que ponderei adquirir seria uma OM-1, que era, de resto, a que tinha em mente em 2013, quando me converti à película (como não consegui resistir ao estado de conservação perfeito em que a minha OM-2n estava quando a vi pela primeira vez, acabei por adquiri-la em detrimento da OM-1).

As razões para esta escolha da OM-1 são várias. Em primeiro lugar está ter sido a primeira OM. Eu sei que houve uma série de máquinas que receberam o nome de modelo «M-1» (o qual foi abandonado por insistência da Leica, que já tinha as suas «M» há muito), mas eram em tudo idênticas às que viriam a ser chamadas «OM-1».

(Um parêntesis histórico: as OM-1 mantiveram-se em produção já depois do lançamento da minha OM-2, que era uma alternativa semiautomática, e foram fabricadas até 1987, na versão «N». A OM-1 estava no mercado aquando do lançamento das sofisticadas OM-3 e OM-4. A isto chama-se longevidade. Mostrem-me uma câmara digital que tenha sido produzida durante quinze anos!)

As outras razões que me levariam a preferir uma OM-1 são o facto de ser inteiramente manual e ser mais simples. Ser manual implica que as únicas electrónicas são as do fotómetro, o que tem o potencial de tornar as OM-1 mais longevas que os modelos que se sucederam. (E, pelo que já li algures, a avaria que afectou a minha OM-2n poderia não ter acontecido se tivesse uma OM-1.) Não existindo modos de exposição semiautomáticos, não há electrónicas a comandar as cortinas do obturador.

Porque a OM-1 não tem o modo de «preferência à abertura» da OM-2, não existe comando de compensação da exposição. O que quer dizer que tem um comando a menos, potenciando assim a sua fiabilidade. A solução da OM-2, que junta o comando da compensação da exposição com o selector da sensibilidade da película, é elegante, mas pouco prática: é necessário levantar o comando rotativo para seleccionar a sensibilidade ASA (ou ISO). Na OM-1, a única função que o comando rotativo do lado direito serve é o de seleccionar a sensibilidade. É mais simples e mais bonito.

Mas a OM-1 tem uma desvantagem considerável: quando foi lançada, em 1972, ainda se fabricavam pilhas de mercúrio, e foi para trabalhar com estas pilhas que o fotómetro da OM-1 foi calibrado. O abandono do mercúrio – que foi impelido, pelo menos em parte, pelo desastre de Minamata, que já referi aqui a propósito de uma fotografia do meu predilecto W. Eugene Smith – obrigou ao uso de alternativas, que vão desde adaptadores até à utilização ad hoc de pilhas para próteses auditivas. Isto não é apenas mais uma das inúmeras discussões paranóicas da internet: a linearidade da voltagem é crucial para o bom funcionamento do fotómetro. As pilhas originais (de mercúrio) tinham cerca de 1,4 V, ao passo que as alternativas têm, em regra, 1,5 V.

É isto que me suscita reservas quanto à possível aquisição de uma OM-1. Entendo ser fundamental que o fotómetro funcione em condições ideais. O fotómetro da OM-2 é praticamente perfeito, desde que as pilhas estejam com carga suficiente. Detestaria ter uma máquina com um fotómetro em cujas medições não pudesse confiar. Usar o Sunny 16 é muito bonito, mas prefiro a comodidade de ter um ponteiro a dar-me indicações nas quais posso confiar e me permite resultados consistentes.

Se alguém me assegurasse que existe uma solução fiável para substituir as pilhas de mercúrio, poderia bem considerar a aquisição de uma OM-1 – mesmo que a minha OM-2 tenha conserto e este seja por um valor razoável, não seria um desperdício ter dois corpos similares. Um serviria para películas a cores, outro para o preto-e-branco. Se fosse assim, escolher entre fotografar a cores ou a preto-e-branco deixaria de ser um dilema cruel.

E não esqueçamos o funcionamento do anel de comando do tempo de exposição da OM-1, que desliza como faca quente em manteiga derretida…

M. V. M.

Como ver fotografias

Hoje passei um Domingo horrível. Uma boa parte do dia foi passada a esperar. Não quero pormenorizar, mas estive largas horas sem fazer nada, apenas esperando. Há maneira melhor de passar um Domingo? Só se for num hipermercado, ou na fila para as caixas de uma grande superfície comercial em dia de preços sem IVA.

Onde eu estava havia Wi-Fi gratuita e disponível ao público. Como tinha o meu smartphone comigo, decidi usá-lo para aquela que é a sua vocação (além de fazer e receber chamadas e de enviar e receber mensagens, claro): acedi à internet através dele.

O meu smartphone tem um ecrã com uma resolução razoável. Não é nenhum iPhone, mas é bastante legível. Quando abri as páginas do Flickr, porém, fiquei alarmado: as fotografias surgiam muito escuras. E não era um problema com as minhas fotografias: as de outros utilizadores, bem como as fotografias publicadas noutros sites – o que incluía fotografias de fotógrafos profissionais –, tinham o mesmo problema: um excesso de contraste e de sombras.

Evidentemente que me lembrei de alterar o brilho do ecrã. Foi a primeira coisa que me veio à mente. O smartphone ainda tinha a pré-definição, que ficava a cerca de 75% da luminosidade possível. Aumentar o brilho não resolveu quase nada: as fotografias continuavam demasiado escuras.

Curiosamente, esta característica é boa para ver fotografias tiradas com outros smartphones, ajudando a disfarçar o péssimo desempenho nas altas luzes e a falta de contraste que são males crónicos dos sensores e lentes minúsculos dos smartphones. Vistas em tamanhos pequenos, estas fotografias parecem todas excelentes, cheias de contraste, com boa resolução, sem ruído e com cores saturadas (o meu smartphone é como os monitores HP: privilegia a matiz vermelha). Contudo, com fotografias correctamente expostas, a visualização torna-se num pesadelo.

As pessoas que vêem fotografias através de smartphones podem fazer uma ideia completamente errada acerca delas. Embora a tendência seja para que todas as fotografias pareçam fabulosamente boas quando vistas em tamanhos tão pequenos como os do ecrã de um smartphone, algumas fotografias, mesmo quando correctamente expostas, parecem demasiado escuras, ocultando muito do pormenor nelas presente.

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Josef Koudelka. Isto não é para se ver com um smartphone.

E este não é o único problema. Ver fotografias num ecrã tão pequeno é limitador e frustrante. Claro que serve na perfeição para ver a fotografia do pimpolho e do gato no facebook, mas as fotografias mais sérias ficam muito prejudicadas. Aconteceu-me ver alguns clássicos de Koudelka no website da Magnum, e não gostei nada do que vi: a resolução era claramente insuficiente e o contraste, bem como os negros, eram simplesmente excessivos. As fotografias que vivem do pormenor e de subtilezas saem claramente prejudicadas, porque o objectivo de visualizar fotografias num smartphone é o de compreender o seu conteúdo em três segundos.

Nada disto significa que vá começar a fazer fotografias sobreexpostas para agradar a quem as vê em «dispositivos móveis». Concluí que as minhas fotografias são para ser vistas em monitores convencionais, com ecrãs de média e grande dimensão. Mas as minhas fotografias de pouco importam; o que é certo, o que sei por ter aprendido com os meus olhos, é que ver fotografias num computador, mesmo que muito bom, será sempre um triste sucedâneo da experiência de vê-las em papel. Mesmo assim, é muito melhor ver fotografias num computador convencional do que num smartphone, por melhor que seja o seu ecrã (e eu já vi fotografias em smartphones com ecrãs melhores que o meu). A evolução tem-se caracterizado por uma redução na qualidade em favor da abundância e do baixo custo, mas há limites a partir dos quais esta redução se torna inaceitável. Vejam lá os pimpolhos e os gatos dos vossos amigos nos telemóveis, mas usem os vossos monitores para ver fotografias um pouco mais intencionais.

M. V. M.

E se tivéssemos um pouco de calma?

A actual obsessão da comunidade fotográfica é esta câmara:

Resultado de imagem para fuji GFX-50S

Isto é a Fujifilm GFX-50S. Muitos, incluindo a própria Fujifilm, referem-se a esta câmara digital que está agora a ser lançada no comércio como sendo de «médio formato», mas isto é obviamente um disparate porque a GFX-50S (claro que tinha de incluir um “X”, senão não era uma Fuji) tem um sensor com área de 43.8×32.9mm, enquanto o verdadeiro médio formato – aquele dos rolos de película 120 – tem as dimensões de 6×6 (em centímetros), 6×9, 6×7 ou 6×4,5. Portanto, esta é uma câmara 4×3; está algures entre o verdadeiro médio formato e o 36×24 a que se convencionou chamar «full frame». Numa palavra: esta não é uma câmara de médio formato (mas mais tarde voltaremos à área do sensor).

Esta câmara é cara – posto ser a mais barata das médio formato (chamemos-lhes assim) digitais –, é grande e é feia, o que teoricamente contradiz os argumentos que as pessoas usam para justificar o seu interesse pelas mirrorless (quase me esquecia de mencionar que esta GFX-50S é uma câmara sem-espelho). Com efeito, não é transportável, é desajeitada e vai usar lentes enormes, mas que se dane: é uma mirrorless e as mirrorless, afinal, não são boas por serem compactas e relativamente baratas: são boas porque nelas é tudo electrónico. Os fanáticos das mirrorless sentem-se tão incomodados que parece que lhes falta o ar quando lhes mostram uma SLR (digital ou não). «Oh, não, que coisa obsoleta e grotesca: um espelho – e ainda por cima de accionamento mecânico. Mas estamos no Século XIX, ou quê?», dirão eles, porque só o que é electrónico é bom, porque «electrónico» é sinónimo de progresso e de futuro. O mesmo quanto ao visor óptico, evidentemente, porque se é «óptico» é rudimentar e obsoleto.

E isto é uma Fuji. Sabem, aquela marca que conseguiu pôr alucinados que outrora usavam T-shirts a dizer «I shoot raw» a fotografar em JPEG, porque isto é a única coisa que as mirrorless da Fuji fazem bem: fotografar JPEG com o processador a aplicar à imagem um filtro que imita as transparências da Fujifilm – o Velvia, o Provia e outras já extintas, mas que viverão para sempre na sua imitação digital. No resto, as Fuji fazem tudo mal: os ficheiros Raw não têm nitidez, a focagem automática é um desastre e só se tornam boas depois de um número incomensurável de actualizações. Podia ser divertido, de uma forma mais ou menos lomográfica, fotografar com as Fuji X-Não-Sei-Das-Quantas, por causa das cores, mas estas câmaras são caríssimas. E as lentes também. E, embora a falsa médio formato tenha um sensor Bayer, e não os inúteis X-Trans, as pessoas babam-se por esta câmara porque é uma Fuji. A Hasselblad tem uma câmara mirrorless com um sensor enorme que é muito mais bonita (posto um pouco mais cara), mais pequena e manuseável, mas não tem os filtros que simulam o Velvia e o Provia, por isso não presta.

Voltando ao sensor: as pessoas deixaram-se convencer que precisam de um sensor enorme por causa do bokeh e daquilo a que chamam «gama dinâmica», pelo que vão andar à volta da Fuji GFX feitas abelhas ensandecidas à volta da colmeia. É um disparate. As pessoas deviam, antes de se deixarem embarcar numa aventura ruinosa, perguntar a si mesmas e responder com muita honestidade se são suficientemente boas na fotografia para tirar partido de uma câmara com esta resolução (também seria sensato se perguntassem a si mesmas se a placa gráfica do seu computador aguenta processar ficheiros deste tamanho). De certeza que, se fossem francos consigo mesmos, 99% dos interessados na Fujifilm GFX responderiam que esta câmara não é para eles. Quanto aos restantes 1%, são os profissionais. Estes têm à sua disposição câmaras modulares muito sérias que lhes possibilitam usar cassetes (backs) diferentes, em lugar de estarem limitados a um só sensor, com uma focagem decente e lentes com obturador central com as quais o flash sincroniza em todas as velocidades. Não precisam da Fuji GFX-50S para nada.

Portanto, temos aqui uma câmara que não se percebe para quem é, ou qual a sua utilidade, mas muitos vão comprá-la porque sim. Porque é uma Fuji. Porque é uma mirrorless. E porque tem um sensor enorme. Esperem só até ver a cara destas pessoas quando souberem quanto vão custar as lentes para esta câmara.

M. V. M.

Factor X

Resultado de imagem para fujifilm superia x-tra 400Como sabemos, a Fujifilm tem uma obsessão pela letra “X”. A despeito de esta antepenúltima letra do alfabeto poder ser usada como incógnita – e o mundo empresarial não costuma gostar do desconhecido –, a Fuji usa-a prolificamente. Ele é a Fuji X-100, X-Pro, X-T, X-A, X-E… e todas, excepto a X-100, com a baioneta – adivinharam! – “X”. Até na nova câmara de médio formato conseguiram meter um “X”, chamando-lhe GFX. E, como seria mais ou menos previsível, a tecnologia do sensor que é a menina dos olhos da Fuji chama-se X-Trans.

Por alguma razão, a letra “X” é usada frequentemente como sinal de desenvolvimento e sofisticação tecnológicos. Talvez por causa do acrónimo XPTO, tão abundantemente utilizado nos filmes de animação, que designa «experimental». Ou por outra razão qualquer. Até nos automóveis é assim: a Citroën teve uma fase em que todos os seus modelos tinham um “X” (AX, BX, CX, XM, ZX, Xantia). E não esqueçamos o Castrol GTX.

Esta predilecção da Fuji pela letas “X” é conhecida da maioria dos leitores. O que muitos poderão não saber é que esta mania já vem dos tempos da película, uma vez que a Fuji fabricava (e ainda fabrica, como veremos daqui a pouco) películas denominadas X-Tra. Aparentemente, o X-Tra (nada que ver com o árbitro de futebol português Carlos X-Tra) denomina uma quarta camada de cor, sensível à tonalidade ciano, mas a própria Fuji não fornece muita informação acerca desta tecnologia.

Tudo isto só para dizer que começo o ano de 2017 experimentando uma nova película, que é, como os leitores mais perspicazes já terão certamente adivinhado, da Fujifilm. Não é um dos caríssimos 160NS ou 400H, nem os slides Velvia ou Provia, mas também não é o péssimo Superia 200, que experimentei uma vez e não gostei: converte os vermelhos em magentas. O rolo em questão é o Fujifilm Superia X-Tra 400. Decidi experimentá-lo porque não posso dizer que tenha ficado inteiramente satisfeito com o Agfa Vista, pelo que a minha demanda pela película a cores ideal ainda não acabou.

O que eu procuro, numa película a cores, é provavelmente uma utopia: quero que mantenha a acuidade dos tons debaixo de circunstâncias de iluminação difíceis, sem comprometer o equilíbrio das cores sob luz do dia; e quero cores que, não sendo mortiças, sejam discretas, não incorrendo em exageros de saturação. Sejam quais forem as condições de luz. O Kodak Portra 160 foi o que melhores resultados me deu com luz natural, mas nas exposições longas as cores tornam-se antiquadas e desagradáveis. O Kodak Ektar 100 é exactamente o oposto. Rolos como o Kodak Gold 200 e o Ferrania Solaris divertiram-me, mas não é aquelas cores garridas o que eu quero verdadeiramente.

O Agfa Vista, apesar do seu grão excessivo e de não ser muito preciso na descrição dos verdes e dos vermelhos, é o rolo que até hoje se aproximou mais do equilíbrio que pretendo; mas, se é verdade que resulta bem no geral, e que algumas das fotografias que fiz com ele ficaram surpreendentemente boas, as suas limitações são evidentes. Daí que não tenha dado a minha procura por concluída. Contudo, se este Fuji X-Tra não me der resultados melhores, o Agfa poderá tornar-se no meu rolo a cores de eleição. É certo que as cores precisarão de uns retoques no programa de edição de imagem, o que de certa maneira desafia o que se pretende de uma película, mas terá de servir.

Não espero muitas diferenças na qualidade geral entre o X-Tra e o Agfa, uma vez que é a Fujifilm que fabrica este último; mas penso poder esperar uma apresentação das cores melhor. Afinal, uma das cores em que o Agfa falha – o verde – é aquela que se considera ser o ponto forte da Fujifilm. Até o Superia 200, que é de resto muito fraquinho, mostra uns verdes excelentes. Mas por enquanto, o desempenho do Fuji Superia X-Tra é uma incógnita (see what I did here?).

M. V. M.

Marketing e a nova OM-D «profissional»

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É um facto bem conhecido dos profissionais do marketing: os consumidores deixam-se enganar facilmente. Alguns, aparentemente, gostam de ser enganados, especialmente nesta era de pretensos desenvolvimentos tecnológicos.

Uma das maneiras de iludir os consumidores e convencê-los a comprar aquilo de que não precisam é ofuscá-los com tecnologia. Resulta com os pixéis do sensor de uma câmara, mas também com uma data de inutilidades de que as pessoas se deixam convencer de que precisam como de pão para a boca. É o caso do vídeo 4K (quantos têm televisões e computadores preparados para 4K?) e dos valores ISO astronómicos, mas também do número de disparos sequenciais, da ligação Wi-Fi e do GPS. Ai do fabricante que se atreva a não incluir qualquer destas funcionalidades numa câmara: esta torna-se obsoleta e ridícula no próprio dia da sua apresentação.

Uma das companhias mais activas no que toca a encher as suas câmaras de funções inúteis é, curiosamente, a Olympus. Que longe estamos dos valores de simplicidade e bom design de Yoshihisa Maitani: agora as câmaras da Olympus são as mais complicadas de operar, com menus infinitos e inacessíveis, botões com duplas funções, interruptores e manípulos para tudo e mais alguma coisa – e tudo isto em aparelhos minúsculos, tal como minúsculos são os sensores 4/3. A insistência da Olympus neste sensor é algo que nem sei como qualificar: teimosia? Obstinação? Estupidez?

Os britânicos têm dois ditos interessantes que não têm correspondência na sabedoria popular portuguesa: um é you can’t make a silk purse of a sow’s ear (não se pode fazer uma bolsa de seda da orelha de uma porca) e outro, um pouco mais directo, é you can’t polish a turd (não se pode polir uma bosta). No entanto é isto mesmo que a Olympus anda a fazer desde 2002. Insistem num sensor – e consequentemente num formato e num sistema construído à sua volta – que nunca deu nem dará bons resultados.

Tudo isto vem a propósito da nova porta-estandarte da Olympus, a fastidiosamente denominada Olympus OM-D E-M1 Mark II. Evidentemente, esta câmara tem nas suas entranhas um sensor 4/3. A lista de funcionalidades, as mais delas inúteis, é infindável: 20 megapixéis, selagem contra os elementos, disparo sequencial de quinze exposições com o obturador mecânico e sessenta com o electrónico, tempo de exposição mínimo de 1/8000 com o obturador mecânico, estabilização de imagem em cinco eixos, gravação de vídeo em 4K, ecrã articulado em todas as direcções (como se pode viver sem isto?) e sensível ao toque, cento e vinte e um pontos de focagem automática, com detecção de fase no sensor, e umas coisas chamadas sensor shift e focus stacking – seja lá o que isso for.

Outro fenómeno típico das operações de marketing é o de nos tentar convencer que os progressos tecnológicos se sucedem a uma velocidade vertiginosa. No caso da Olympus, tentaram fazer-nos crer que a mudança do velho sensor Panasonic de 12,3 megapixéis para um fabricado pela Sony trouxe diferenças como da noite para o dia em matéria de qualidade de imagem. Conjugando isto com as funcionalidades enunciadas no parágrafo anterior, não surpreende que haja quem pense que a Olympus OM-D E-M1 Mark II é a câmara perfeita. Hmmm… não, não é. Esta profusão de tecnologia não contribui em praticamente nada para a qualidade de imagem.

Comecemos pelo ruído. Os níveis de ruído produzidos pelo sensor Sony de 20 megapixéis são embaraçosos. O ruído a ISO 800 é tão mau como o da minha E-P1 quando fotografo a ISO 400. Isto significa que, entre 2009 e 2016, tudo o que foi conseguido foi um progresso que se reduz a 1 EV. Muito pouco, e uma desilusão para quem se deixou enganar pelo marketing que prometia uma melhoria como do dia para a noite graças ao sensor novo. O ruído não era o único defeito do sensor Panasonic das primeiras mirrorless da Olympus: a tendência para estourar as altas luzes melhorou um pouco com a passagem para os sensores da Sony, mas as imagens continuam afectadas por uma claridade que não é a que vemos com os nossos olhos e que é o resultado da rápida saturação dos fotodiodos. Suporia, com base nisto, que também aqui os progressos não foram nada de sensacional.

Contudo, a Olympus está a pedir €1.800 por esta câmara, o que é mais do que custava a E-5, a última DSLR da marca. Com esta qualidade de imagem, o que esses mil e oitocentos euros pagam é a profusão de funções inúteis que esta câmara incorpora. Querem que se pague uma fortuna por uma câmara cuja qualidade de imagem não melhorou substancialmente em relação à E-P1 de 2009. Por este preço é possível comprar uma Pentax K-1, que é maior mas é uma full-frame e uma DSLR, com um visor óptico e uma qualidade de imagem superior. Ah – quase me esquecia de referir que a Olympus tem a pretensão de dizer que esta é uma câmara profissional. O sake que eles bebem às refeições é mesmo forte.

M. V. M.