Mais testes

Ainda não sei o que verdadeiramente vale a Vivitar 24mm-f/2.8 – só o saberei quando vir fotografias gravadas em película, tiradas com a câmara para a qual foi concebida –, mas é possível testar algumas qualidades montando-a na E-P1 por via de um adaptador. Estes testes não me dão resposta à questão de saber se há distorção geométrica, porque o que acontece, quando se monta uma objectiva concebida para o formato 135 numa câmara com sensor 4/3, é o equivalente a um corte da imagem pelas bordas. Como as distorções se manifestam nos extremos do enquadramento e estes são excluídos pelo crop factor, é impossível medir a distorção produzida pela objectiva com um mínimo de precisão.

Mas é possível aferir outras qualidades. Ou defeitos. Um dos grandes problemas das grande-angulares, especialmente das que são construídas para ser económicas, é o nível de aberrações cromáticas. Estas costumam manifestar-se nas orlas dos objectos, quando há contrastes apreciáveis, e consistem em manchas coloridas de cor roxa  quando a aberração cromática é no eixo vertical (aberração cromática lateral), ou num tom entre o violeta e o azul (purple fringing), no caso da aberração cromática transversal ou axial. A Olympus OM 28mm-f/3.5, que foi substituída pela Vivitar, apresentava aberrações cromáticas axiais extremamente agressivas, de um azul semelhante ao do equipamento do Futebol Clube do Porto (o que não me impressionava, atenta a minha aversão pelo futebol).

Outro aspecto mensurável é a resistência da objectiva à luz lateral, que se manifesta através de clarões e manchas na imagem. Como a Vivitar tem uma abertura maior que a OM 28mm-f/3.5, a lente frontal é também maior, logo mais exposta a estes fenómenos ópticos espúrios.

Comecemos por este último: como se pode ver na imagem acima, esta objectiva tem um problema bastante sério com a luz lateral. Embora estas aberrações apenas surjam quando se fotografa contra a luz em certos ângulos, a Vivitar é bastante vulnerável e precisa de ser usada com um para-sol. (Onde é que eu vou encontrar um para-sol para uma objectiva de 24 mm de distância focal e com um aro de 52 mm de diâmetro?)

Quanto às aberrações cromáticas, há boas e más notícias. A boa é que não existe praticamente aberração cromática lateral, que costuma ser a mais agressiva. Se houvesse, a linha vertical que se vê na imagem maior teria uma orla de cor azul ou roxa, o que não se manifesta. Em contrapartida, existe aberração cromática axial, como se vê na imagem mais pequena (que é um crop a 100% da maior). Mesmo assim esta deficiência é bastante discreta e o nível geral de aberrações cromáticas é muito melhor do que eu esperava.

A Vivitar é, claramente, uma objectiva que foi concebida para ser vendida aos milhões a um preço acessível, pelo que não podia esperar um desempenho óptico perfeito. Contudo, a julgar por estas experiências, é uma objectiva com um excelente conjunto de qualidades. Estas ainda não são conclusões definitivas, mas parece-me que tenho motivos para ficar satisfeito. Muito satisfeito. Preciso é de um para-sol.

M. V. M.

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Eu, nerd da técnica

Ontem, quando experimentei a Vivitar 24mm-f/2.8 montada na câmara digital por via de um adaptador, usei como referência uma objectiva concebida para o sensor da E-P1: a 17mm-f/2.8 (que, pelas suas dimensões, se integra na categoria das objectivas pancake, embora nunca me tenha passado pela cabeça barrá-la com manteiga de amendoim). Contudo, aconteceu algo que me deixou perplexo e transportou o meu lado gearhead para altitudes jamais alcançadas.

Para fazer o teste, em que usei a referida panqueca como referência e a 50mm-f/1.4 para comparação com a Vivitar, comutei o comando dos modos de exposição para a posição A (prioridade à abertura), seleccionando a abertura manualmente e deixando que a câmara escolhesse automaticamente o tempo de exposição; como conheço a tendência da câmara para estourar as altas luzes, usei a compensação da exposição em -0,3 EV. Regulei o ISO em 200, para não ter de recorrer ao tripé e, por fim, certifiquei-me que as três objectivas estavam na abertura f/4.

Depois de colhidas as imagens, deu-me a curiosidade de ver qual foi o tempo de exposição que a câmara seleccionou. Para minha surpresa, nem todas as fotografias foram feitas com a mesma exposição: a panqueca teve direito a um valor de 1/160, ao passo que as objectivas de focagem manual induziram a câmara a usar o tempo de 1/125, o que é 0,3 EV mais longo. E isto vê-se nas fotografias, pois é notório que a imagem colhida com a panqueca tem mais contraste e cores mais brilhantes (embora, na verdade, seja uma diferença subtil).

Não sei por que isto aconteceu. Teoricamente, as três exposições deveriam ter durado o mesmo tempo, mas não duraram. Recorrendo à lei da reciprocidade, a um tempo de exposição mais curto corresponde uma abertura maior, pelo que a câmara não leu a abertura das objectivas de focagem manual como f/4, mas como f/3.5 ou qualquer coisa parecida. (Já devia ter dito que a panqueca não tem um anel de selecção das aberturas, pelo que é na câmara que esta escolha se faz, ao passo que as OM, evidentemente, têm o comando da abertura na própria objectiva.)

Uma explicação possível está na perda de luz induzida pelo adaptador. Esta peça de equipamento serve para montar as objectivas adaptadas a uma distância relativamente ao plano focal idêntica àquela que existe nas câmaras para as quais essas objectivas foram criadas. É assim, além de um adaptador, um espaçador. Ora, a lente posterior da panqueca fica manifestamente mais próxima do sensor do que as das objectivas concebidas para o sistema OM, pelo que esta hipotética perda de luz se torna plausível. A única coisa que tenho como certa, porém, é que existe uma divergência entre a abertura assumida pelo processador quanto às três objectivas, mas não faço ideia do que aconteceu.

Tenho a consciência de que este foi, de longe, o texto mais maçador e inútil do Número f/, mas a verdade é que esta discrepância dos tempos de exposição, embora ligeira, não deixou de me intrigar. Como não tenho um cérebro vocacionado para equações, não faço a menor ideia do que se passou. Uma coisa é certa – se eu decidisse abrir um tópico nos fóruns do Digital Photography Review com este assunto, os cérebros da comunidade fotográfica mundial iam explodir como vulcões.

M. V. M.

Um negócio maluco

A minha objectiva nova (por assim dizer)

Hoje fiz algo que não fazia há cerca de cinco anos: adquiri equipamento fotográfico. Estou a escrever isto incorrendo, aparentemente, na maior incoerência, pois num texto anterior quase jurei que o Número f/ se tornaria, desde essa data, um «repositório da memória da fotografia» que se fez antes das manias da iPhonografia e da «fotografia computacional» que estão a destruir o sentido de fotografar, mas a peça de equipamento que adquiri hoje, 12 de Maio de 2018, é da era anterior ao advento da fotografia digital, pelo que não há incoerência nenhuma.

A aludida peça de equipamento é uma objectiva. Eu tinha – e continuo a ter, como verão adiante – três objectivas, que cobriam (cobrem) as distâncias focais mais importantes: uma grande-angular de 28mm, uma normal de 50mm e uma teleobjectiva de 135mm. Embora estivesse razoavelmente satisfeito com as duas últimas, a OM 28mm-f/3.5 tinha alguns problemas: a abertura máxima limitada tornava-a difícil de utilizar em condições de iluminação ténue, a imagem no visor era demasiado escura (o que dificultava a composição em certas circunstâncias), não existia nenhuma marcação intermédia entre a abertura máxima de f/3.5 e o passo seguinte, que era f/5.6 e, sobretudo, o escurecimento dos cantos – a que alguns chamam «vinhetagem» – na abertura máxima era intolerável. Ah – e, por qualquer motivo que desconheço, o ajustamento da focagem produzia uma alteração da perspectiva, pelo que funcionava como um zoom, embora de intervalo limitado.

Além disto, apesar de fazer a esmagadora maioria das fotografias com a 50mm, tenho vindo a nutrir uma apreciação crescente pelo uso que alguns fazem (o meu amigo Hendrik Lohmann, por exemplo) das grande-angulares. Há qualquer coisa de mágico nas diagonais e na sensação de profundidade que estas objectivas permitem. 28mm é uma boa distância focal de grande-angular, mas ainda não é visível a magia das objectivas mais curtas.

Pois bem, hoje fiz um negócio maluco: vi uma objectiva de 24mm à venda por um valor razoável e propus dar a minha OM 28mm em troca, pagando o valor residual. Foi desta maneira que me tornei o feliz (assim o espero) proprietário de uma objectiva Vivitar 24mm-f/2.8. Não tenho grandes certezas quanto a ganhos na qualidade absoluta de imagem, mas ganhei um f-stop suplementar que me vai ser útil e os 4mm de distância focal representam uma vantagem de quase 10º de ângulo de visão. Mais curta, mais rápida, mais larga – são estas, na teoria, as vantagens da minha nova Vivitar.

Ainda por cima, esta objectiva está absolutamente imaculada. O anel de focagem podia ser um bocadinho mais firme, mas o das aberturas funciona com uma precisão notável. O vidro está num estado impecável, não há fungos nem poeiras e o cano não tem deteriorações assinaláveis. Mesmo as referências gravadas com tinta branca, que tendem a ficar amarelecidas com o tempo, estão impecavelmente brancas. Vê-se bem que foi pouco usada.

Estou ansioso por experimentá-la. Sei que não é nenhuma Olympus OM (a OM 24mm-f/2.8 também estava disponível, mas custava o dobro!) e tenho alguma desconfiança quanto à apresentação das cores, mas não acredito que as diferenças entre esta sucedânea das OM e as originais sejam chocantes. De resto, a minha fotografia não se caracteriza pelo uso intensivo de distâncias focais de grande-angular, pelo que, mesmo que esta objectiva não seja a melhor grande-angular existente à superfície da Terra, foi uma troca vantajosa. E quem sabe se, atentas as características da sua distância focal, não vou passar a explorar mais as possibilidades das grande-angulares?

Depois eu apresento um relatório circunstanciado e as conclusões. Stay tuned.

M. V. M.

Agfa Vista 200 (mas antes, um acréscimo ao texto anterior)

No texto sobre a OM-1 omiti uma vantagem em relação à OM-2: a primeira tem um comando que bloqueia o espelho. Isto é útil em exposições longas, quando a mínima vibração – como a provocada pelo impacto do espelho no momento do disparo – pode interferir com a nitidez. Não sei por que razão a OM-2 não tem esta função, mas também devo dizer que, nas exposições longas que fiz com a minha máquina, nunca tive problemas de falta de nitidez causada pelo impacto do espelho. Mirror lock is overrated.

***

Os meus leitores já sabem que voltei a fotografar a cores, depois de mais de três anos em que as minhas únicas fugas ao preto-e-branco se resumiram a algumas experiências com película colorida. Nenhuma destas experiências me deu resultados satisfatórios até ao dia em que resolvi experimentar um rolo que, por causa da matiz vermelha de que me apercebera em muitas das fotografias que consultei na internet, havia decidido nunca usar. Este rolo, como sabem, é o Agfa Vista.

Apesar de a matiz vermelha existir, não é um problema tão grave quanto supus. Mais: de todas as películas coloridas que experimentei, a Agfa é a única com a qual consegui resultados consistentes em condições diferentes de iluminação. As cores são sempre razoavelmente precisas, quer fotografe ao sol ou debaixo da luz ténue das estações subterrâneas do Metro. Nenhum outro rolo – mesmo aqueles cuja qualidade é notoriamente superior à do humilde Agfa Vista – me ofereceu esta consistência: os que resultam bem com luz solar, como o Kodak Portra 160, são um desastre com luz artificial. E os que mantêm a precisão das cores na fotografia nocturna são berrantes e erráticos quando usados ao sol.

As películas 135 de alta sensibilidade como são as ASA 400 – eu sei que isto parece anedótico numa era em que os valores ISO das câmaras digitais se escrevem com sete algarismos – têm, como não é novidade, um grão muito pronunciado. O Agfa Vista não é, evidentemente, excepção. E as digitalizações não fazem absolutamente nada para disfarçar o aspecto pouco límpido que o grão dá às fotografias.

Isto lembrou-me que, de facto, não sou um homem de altas sensibilidades: estão a ler um blogue que, na sua incarnação anterior, se chamava «ISO 100». (Querem melhor prova?) Até agora apenas havia experimentado a versão ASA 400 do Agfa Vista. Recentemente, porém, tive a oportunidade de usar a versão ASA 200. Como seria porventura de prever, o grão é menos abundante, mas nem por isso deixa de estar presente e também não é lá muito límpido. Em comparação com a versão mais sensível, o Vista 200 é praticamente idêntico na apresentação das cores, pelo que não vale a pena acrescentar muito ao que já escrevi sobre o assunto. Contudo, parece-me – ainda estou para confirmá-lo com histogramas – que, além da matiz vermelha característica do Vista 400, há também uma abundância relativa de cianos.

Nada disto, porém, é suficiente para me afastar dos Agfa Vista. Esta continua a ser a película a cores mais homogénea e consistente que conheço, com o bónus de ser barata. Pormenor interessante: um dos reparos que li na internet é que, por causa dos vermelhos, a Agfa Vista é uma película inadequada para retratos, já que falseia a cor da pele. Curiosamente, não notei nada disto. Pelo contrário, os tons de pele parecem-me bastante verosímeis.

Acima de tudo, as Agfa Vista são as únicas películas que me dão o tipo de saturação das cores que quero: nem demasiado vívidas, nem particularmente desmaiadas (como agora parece ser moda na internet). Esta combinação de consistência e agradabilidade faz com que, a despeito das suas falhas, estas Agfa Vista sejam as películas que mais se adequam ao que quero fazer da minha fotografia. E agora tenho uma alternativa quando me apetecer usar aberturas maiores. Nada mau.

M. V. M.

A Olympus OM-1 e eu

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Mentiria se negasse que a avaria da minha OM-2 me deixou a pensar na aquisição de um corpo, o qual teria, forçosamente, de ser uma outra OM por causa das lentes. Podia ter-se dado o caso de a reparação não se justificar por ser demasiado onerosa, ou mesmo o de a avaria ser irreparável. Em qualquer dos casos, a solução seria sempre a mesma: adquirir outra máquina.

Agora vem a surpresa: não seria outra OM-2. Nem uma OM-3 nem uma OM-4 (e muito menos uma das OM de dois ou três algarismos). Nada disso: a máquina que ponderei adquirir seria uma OM-1, que era, de resto, a que tinha em mente em 2013, quando me converti à película (como não consegui resistir ao estado de conservação perfeito em que a minha OM-2n estava quando a vi pela primeira vez, acabei por adquiri-la em detrimento da OM-1).

As razões para esta escolha da OM-1 são várias. Em primeiro lugar está ter sido a primeira OM. Eu sei que houve uma série de máquinas que receberam o nome de modelo «M-1» (o qual foi abandonado por insistência da Leica, que já tinha as suas «M» há muito), mas eram em tudo idênticas às que viriam a ser chamadas «OM-1».

(Um parêntesis histórico: as OM-1 mantiveram-se em produção já depois do lançamento da minha OM-2, que era uma alternativa semiautomática, e foram fabricadas até 1987, na versão «N». A OM-1 estava no mercado aquando do lançamento das sofisticadas OM-3 e OM-4. A isto chama-se longevidade. Mostrem-me uma câmara digital que tenha sido produzida durante quinze anos!)

As outras razões que me levariam a preferir uma OM-1 são o facto de ser inteiramente manual e ser mais simples. Ser manual implica que as únicas electrónicas são as do fotómetro, o que tem o potencial de tornar as OM-1 mais longevas que os modelos que se sucederam. (E, pelo que já li algures, a avaria que afectou a minha OM-2n poderia não ter acontecido se tivesse uma OM-1.) Não existindo modos de exposição semiautomáticos, não há electrónicas a comandar as cortinas do obturador.

Porque a OM-1 não tem o modo de «preferência à abertura» da OM-2, não existe comando de compensação da exposição. O que quer dizer que tem um comando a menos, potenciando assim a sua fiabilidade. A solução da OM-2, que junta o comando da compensação da exposição com o selector da sensibilidade da película, é elegante, mas pouco prática: é necessário levantar o comando rotativo para seleccionar a sensibilidade ASA (ou ISO). Na OM-1, a única função que o comando rotativo do lado direito serve é o de seleccionar a sensibilidade. É mais simples e mais bonito.

Mas a OM-1 tem uma desvantagem considerável: quando foi lançada, em 1972, ainda se fabricavam pilhas de mercúrio, e foi para trabalhar com estas pilhas que o fotómetro da OM-1 foi calibrado. O abandono do mercúrio – que foi impelido, pelo menos em parte, pelo desastre de Minamata, que já referi aqui a propósito de uma fotografia do meu predilecto W. Eugene Smith – obrigou ao uso de alternativas, que vão desde adaptadores até à utilização ad hoc de pilhas para próteses auditivas. Isto não é apenas mais uma das inúmeras discussões paranóicas da internet: a linearidade da voltagem é crucial para o bom funcionamento do fotómetro. As pilhas originais (de mercúrio) tinham cerca de 1,4 V, ao passo que as alternativas têm, em regra, 1,5 V.

É isto que me suscita reservas quanto à possível aquisição de uma OM-1. Entendo ser fundamental que o fotómetro funcione em condições ideais. O fotómetro da OM-2 é praticamente perfeito, desde que as pilhas estejam com carga suficiente. Detestaria ter uma máquina com um fotómetro em cujas medições não pudesse confiar. Usar o Sunny 16 é muito bonito, mas prefiro a comodidade de ter um ponteiro a dar-me indicações nas quais posso confiar e me permite resultados consistentes.

Se alguém me assegurasse que existe uma solução fiável para substituir as pilhas de mercúrio, poderia bem considerar a aquisição de uma OM-1 – mesmo que a minha OM-2 tenha conserto e este seja por um valor razoável, não seria um desperdício ter dois corpos similares. Um serviria para películas a cores, outro para o preto-e-branco. Se fosse assim, escolher entre fotografar a cores ou a preto-e-branco deixaria de ser um dilema cruel.

E não esqueçamos o funcionamento do anel de comando do tempo de exposição da OM-1, que desliza como faca quente em manteiga derretida…

M. V. M.

Um aniversário peculiar

Hoje fui a uma festa de aniversário. Aliás, não foi exactamente uma festa: não havia música ruidosa nem gente a dançar freneticamente. Foi um porto de honra e não comemorava o aniversário de ninguém – ou melhor, de nenhuma pessoa em especial. O porto de honra celebrava o quinto aniversário da Câmaras & Companhia.

O que vão ler a partir daqui é publicidade descarada. Não há, no Porto, escassez de lojas que vendam material fotográfico analógico. A AFF e a Colorfoto vendem rolos, químicos e papel. Até a Fnac vende rolos. E também não é a única loja (e laboratório) exclusivamente dedicada à fotografia convencional. Há, pelo menos, mais duas. Contudo, a Câmaras & Companhia tem qualquer coisa especial: à sua frente está alguém que pôs todo o seu profissionalismo e saber ao dispor dos entusiastas da película. Neste caso é um casal, porque o Raúl Sá Dantas e a Leonor tornaram-se indissociáveis.

É quase inimaginável o que eu aprendi graças a eles. Mesmo se não levo o entusiasmo por equipamento tão longe como o frequentador típico da Câmaras & Companhia, o acervo de conhecimentos que acumulei é assinalável. Se hoje tiro partido da película e da minha OM-2n, devo-o em grande parte ao Raúl e à Leonor.

Eu não vou fingir que sou cliente desde a primeira hora, porque não sou. A Câmaras & Companhia comemorou agora cinco anos e eu só fotografo com película há três anos e nove meses (mais dia menos dia). A primeira vez que entrei na Câmaras & Companhia, em Junho ou Julho de 2012, nem sequer foi para comprar material fotográfico: foi por me ter sentido fascinado – um fascínio à primeira vista – pela antepassada da Olympus E-P1 que usava então. Quis fotografá-la: era a Pen F, que estava sobre um dos expositores da loja. Nessa altura ainda estava longe de imaginar que me iria tornar num cliente assíduo.

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Também não foi a minha primeira escolha. Só cheguei à Câmaras & Companhia em Julho ou Agosto de 2013, numa altura em que já tinha a OM, depois de dois fracassos clamorosos com as revelações e digitalizações de dois T-Max (cujos autores, por decoro, permanecerão inominados). O que posso dizer é que, desde que conheci a qualidade das revelações e digitalizações do R. S. D., não tive mais necessidade de procurar outras lojas e laboratórios. Para quê? Mais ninguém oferece, além da qualidade, o saber e a simpatia que encontro na Câmaras & Companhia. Esta loja não é só uma loja (e um laboratório): é também um lugar de tertúlia e de conhecimento. Além de, evidentemente, ser um regalo para os olhos, com aquela cornucópia de câmaras e lentes clássicas.

Depois de ter entregado ao Raúl o primeiro rolo que confiei à Câmaras & Companhia, após uma longa e frutuosa conversa, despedi-me dele com uma frase muito cliché: citei Humphrey Bogart em Casablanca. Cliché ou não, foi verdade: aquele foi mesmo o início de uma bela amizade.

M. V. M.

Marketing e a nova OM-D «profissional»

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É um facto bem conhecido dos profissionais do marketing: os consumidores deixam-se enganar facilmente. Alguns, aparentemente, gostam de ser enganados, especialmente nesta era de pretensos desenvolvimentos tecnológicos.

Uma das maneiras de iludir os consumidores e convencê-los a comprar aquilo de que não precisam é ofuscá-los com tecnologia. Resulta com os pixéis do sensor de uma câmara, mas também com uma data de inutilidades de que as pessoas se deixam convencer de que precisam como de pão para a boca. É o caso do vídeo 4K (quantos têm televisões e computadores preparados para 4K?) e dos valores ISO astronómicos, mas também do número de disparos sequenciais, da ligação Wi-Fi e do GPS. Ai do fabricante que se atreva a não incluir qualquer destas funcionalidades numa câmara: esta torna-se obsoleta e ridícula no próprio dia da sua apresentação.

Uma das companhias mais activas no que toca a encher as suas câmaras de funções inúteis é, curiosamente, a Olympus. Que longe estamos dos valores de simplicidade e bom design de Yoshihisa Maitani: agora as câmaras da Olympus são as mais complicadas de operar, com menus infinitos e inacessíveis, botões com duplas funções, interruptores e manípulos para tudo e mais alguma coisa – e tudo isto em aparelhos minúsculos, tal como minúsculos são os sensores 4/3. A insistência da Olympus neste sensor é algo que nem sei como qualificar: teimosia? Obstinação? Estupidez?

Os britânicos têm dois ditos interessantes que não têm correspondência na sabedoria popular portuguesa: um é you can’t make a silk purse of a sow’s ear (não se pode fazer uma bolsa de seda da orelha de uma porca) e outro, um pouco mais directo, é you can’t polish a turd (não se pode polir uma bosta). No entanto é isto mesmo que a Olympus anda a fazer desde 2002. Insistem num sensor – e consequentemente num formato e num sistema construído à sua volta – que nunca deu nem dará bons resultados.

Tudo isto vem a propósito da nova porta-estandarte da Olympus, a fastidiosamente denominada Olympus OM-D E-M1 Mark II. Evidentemente, esta câmara tem nas suas entranhas um sensor 4/3. A lista de funcionalidades, as mais delas inúteis, é infindável: 20 megapixéis, selagem contra os elementos, disparo sequencial de quinze exposições com o obturador mecânico e sessenta com o electrónico, tempo de exposição mínimo de 1/8000 com o obturador mecânico, estabilização de imagem em cinco eixos, gravação de vídeo em 4K, ecrã articulado em todas as direcções (como se pode viver sem isto?) e sensível ao toque, cento e vinte e um pontos de focagem automática, com detecção de fase no sensor, e umas coisas chamadas sensor shift e focus stacking – seja lá o que isso for.

Outro fenómeno típico das operações de marketing é o de nos tentar convencer que os progressos tecnológicos se sucedem a uma velocidade vertiginosa. No caso da Olympus, tentaram fazer-nos crer que a mudança do velho sensor Panasonic de 12,3 megapixéis para um fabricado pela Sony trouxe diferenças como da noite para o dia em matéria de qualidade de imagem. Conjugando isto com as funcionalidades enunciadas no parágrafo anterior, não surpreende que haja quem pense que a Olympus OM-D E-M1 Mark II é a câmara perfeita. Hmmm… não, não é. Esta profusão de tecnologia não contribui em praticamente nada para a qualidade de imagem.

Comecemos pelo ruído. Os níveis de ruído produzidos pelo sensor Sony de 20 megapixéis são embaraçosos. O ruído a ISO 800 é tão mau como o da minha E-P1 quando fotografo a ISO 400. Isto significa que, entre 2009 e 2016, tudo o que foi conseguido foi um progresso que se reduz a 1 EV. Muito pouco, e uma desilusão para quem se deixou enganar pelo marketing que prometia uma melhoria como do dia para a noite graças ao sensor novo. O ruído não era o único defeito do sensor Panasonic das primeiras mirrorless da Olympus: a tendência para estourar as altas luzes melhorou um pouco com a passagem para os sensores da Sony, mas as imagens continuam afectadas por uma claridade que não é a que vemos com os nossos olhos e que é o resultado da rápida saturação dos fotodiodos. Suporia, com base nisto, que também aqui os progressos não foram nada de sensacional.

Contudo, a Olympus está a pedir €1.800 por esta câmara, o que é mais do que custava a E-5, a última DSLR da marca. Com esta qualidade de imagem, o que esses mil e oitocentos euros pagam é a profusão de funções inúteis que esta câmara incorpora. Querem que se pague uma fortuna por uma câmara cuja qualidade de imagem não melhorou substancialmente em relação à E-P1 de 2009. Por este preço é possível comprar uma Pentax K-1, que é maior mas é uma full-frame e uma DSLR, com um visor óptico e uma qualidade de imagem superior. Ah – quase me esquecia de referir que a Olympus tem a pretensão de dizer que esta é uma câmara profissional. O sake que eles bebem às refeições é mesmo forte.

M. V. M.