Cinco anos

Foi no dia 12 de Junho de 2013 que adquiri esta jóia de máquina fotográfica. Há poucas decisões na minha vida que me tenham deixado tão satisfeito como a de me converter às películas.

M. V. M.

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Primeiras impressões

Hoje fiz uma sessão fotográfica inteira com uma grande-angular, o que nunca me tinha acontecido. A objectiva foi, como quem leu o texto de ontem já calculou por esta altura, a nova Vivitar 24mm-f/2.8. Mas antes, uma pequena divagação histórica:

A Vivitar faz parte de um grupo de companhias que ofereciam alternativas baratas às objectivas da Nikon, Canon, Olympus e Pentax. Mais tarde essas marcas caíram em declínio e o seu lugar é agora ocupado pela Sigma, Tamron e Tokina. No caso da Vivitar, empresa fundada em 1938 como Ponder and Best por Max Ponder e John Best, esta sociedade concorria, nos anos 70 do século passado, com os principais fabricantes de objectivas. A empresa contratou designers e fabricantes como a Kino Precision, a Tokina e a Cosina – que é, ao que descobri, a fabricante da minha 24mm –, entre outras, para produzir as suas objectivas. A Vivitar ganhou a reputação de proponente de objectivas de boa qualidade a preços modestos. Seguiram-se-lhe sucedâneas como a Kiron, Soligor e outras, que eram essencialmente os designs da Vivitar com outras denominações e algumas diferenças cosméticas.

Confessei no texto de ontem que, apesar de saber que as Vivitar não são nada más, tinha alguns receios quanto à cor. E consultas ociosas a alguns websites fizeram-me temer que a nitidez fosse uma fraqueza da 24mm-f/2.8. Enquanto vinha de fazer uma fotografia de um pormenor arquitectónico da interessantíssima igreja do Foco (ou, para os mais beatos, «Igreja da Paróquia de Nossa Senhora da Boavista»), tive, talvez pela santidade do local que acabara de fotografar, uma revelação que fez de mim um verdadeiro Paulo de Tarso na estrada de Damasco: eu posso usar a Vivitar com a E-P1, já que tenho o adaptador de OM para Micro 4/3! E até me dá uma distância focal agradável, já que o crop factor faz com que a objectiva se porte como uma 48mm.

Isto quer dizer que também posso fazer testes sem ter de esperar pelas revelações do rolo que estou a usar presentemente. E, se bem o pensei, melhor o fiz: ao chegar a casa, montei a panqueca 17mm-f/2.8 na E-P1 e fotografei o meu pastiche kandinskiano. Depois, sempre com a câmara no modo de prioridade à abertura e usando f/4 em todas as experiências, montei a Vivitar e, depois, a OM 50mm-f/1.4; depois disto editei as imagens para que fossem idênticas quanto à iluminação. É que o DxO introduziu uma série de parâmetros correctivos ao identificar a fotografia tirada com a panqueca, o que incluiu a compensação de exposição. O resultado da experiência foi como se segue:

Com a Pancake 17mm-f/2.8
Com a Vivitar 24mm-f/2.8
Com a OM 50mm-f/1.4

Descontada a perda de contraste e de vibração que, por qualquer motivo, acontece quando descarrego imagens para o blogue, posso concluir que não há diferenças substanciais quanto à qualidade das cores. Quando muito, a imagem obtida com a 17mm parece um pouco mais contrastada e com cores mais saturadas, mas pode haver aqui o factor espúrio dos algoritmos do DxO. A verdadeira comparação, deste modo, é entre a Vivitar e a Zuiko 50mm-f/1.4.

Não tinha motivos para recear. As cores até parecem ligeiramente melhores com a Vivitar, mas a diferença, se existe, é marginal. Quanto à nitidez (descontada a dificuldade em focar manualmente com a E-P1), também não parece haver motivo para preocupações: os níveis de nitidez são idênticos

O verdadeiro teste é o que resultar do uso da Vivitar com a OM-2n e com película. Prefiro esperar pelos resultados para retirar mais conclusões quanto ao desempenho, especialmente para saber se há distorção geométrica e aberrações cromáticas. O que posso dizer, para já, é que a distância focal de 24mm é consideravelmente melhor que a de 28mm para arquitectura. É uma distância focal que nos obriga a aproximar-nos mais dos objectos e, muito simplesmente, cabem mais coisas no enquadramento. As diagonais são, como seria de esperar, mais pronunciadas do que as que obtinha com a OM 28mm-f/3.5, mas ainda sem aquela dinâmica delirante das ultra grande-angulares. Mesmo assim é um bom compromisso; diria que esta objectiva é ideal para fotografia de arquitectura e interiores.

M. V. M.

Efeméride

Verifico com alguma preocupação, ao ler os meus últimos textos, que estes estão embebidos em amargura. São textos azedos e zangados. Chega. Não há razão para sobrecarregar os leitores com as minhas quezílias. Hoje o texto é festivo: assinala um aniversário. Foi no dia 12 de Junho de 2013 que adquiri a minha Olympus OM-2n e, consequentemente, descobri a fotografia analógica. (Quer dizer: já a conhecia, mas não com a intimidade que adquiri desde que comprei a OM.)

Que posso eu dizer acerca desta máquina caprichosa – já foi reparada duas vezes e volta e meia o espelho bloqueia – que me ensinou tudo o que eu precisava de saber sobre fotografia? Assim de repente, posso dizer que a resposta está incluída na pergunta: aprendi com ela tudo o que eu precisava de saber sobre fotografia. As correlações de reciprocidade entre abertura, tempo de exposição e sensibilidade já não têm dificuldades: uso-as instintivamente. Teorizar a exposição, neste momento, seria como se me indagasse sobre os mecanismos físicos do caminhar ou do respirar: são coisas que se fazem, não se pensam.

Talvez por causa da dificuldade em usar técnicas fotográficas especiais, as minhas fotografias tornaram-se mais simples e menos dependentes da técnica. O que é bom – embora, para ser verdadeiro, esta fosse uma tendência que já vinha de antes, pois foi mais ou menos no início de 2012 que decidi que as minhas fotografias precisavam de mais conteúdo e menos técnica. Embora fazer fotografia nocturna e arrastamentos seja um desafio excitante com uma máquina de película, o uso desta última contribuiu para que me dedicasse a fotografias mais singelas e procurasse – e esta é uma demanda que ainda não chegou ao fim e provavelmente nunca chegará – dar-lhes mais sentido, mais significado.

Depois há o lado puramente hedonístico. Parafraseando um amigo meu (não necessariamente a propósito da fotografia analógica), é uma ganza fotografar com uma máquina como a OM-2n. É. Accionar uma máquina como estas é um prazer. É tudo manual – penso que nunca fiz nenhuma fotografia recorrendo ao modo semi-automático de «preferência à abertura» – e cada disparo é uma experiência física: com a OM, o movimento das cortinas e o impacto do espelho sentem-se na ponta dos dedos da mão esquerda (eu sou daqueles que segura a objectiva por baixo, envolvendo-a com os dedos, como ditam os cânones). Ao contrário de outras máquinas, como algumas digitais e as de obturador central, sente-se e percebe-e o que está a acontecer. De certa forma, a máquina acaba por tornar-se numa extensão do corpo, criando-se uma simbiose, mas o gozo de fotografar com uma máquina que usa rolos e não um sensor não acaba aqui: depois de se sentir a vibração do disparo, há que avançar a película. Dito de uma forma simples: fazer uma fotografia sem accionar a patilha de avanço da película não é fotografar: é colher imagens.

Há outros factores. Não posso dizer que o facto de ter um número reduzido de exposições ao meu dispor me ensinou muito, porque já me havia dado conta da necessidade de fotografar menos e melhor (ou da inutilidade de tirar milhares de fotografias, o que vai dar ao mesmo) antes de comprar a OM. Diria que esta necessidade de pensar melhor antes de fotografar – de julgar o valor fotográfico de cada cena e seleccionar só as que valem a pena – foi uma causa, e não uma consequência, da compra da OM. E houve outros benefícios, como descobrir as diferenças entre películas. Fotografar com película é como namorar: temos de conhecer todas as que pudermos antes de escolher aquela a quem queremos dedicar-nos. (Eu sei que isto é piegas, mas eu avisei que chegava de amargura!) Já que estamos no campo das relações interpessoais, a fotografia analógica permitiu-me conhecer gente interessante. Também conheci gente interessante quando fotografava com a E-P1, mas com os analoguistas aprende-se mais.

Eu sei que a fotografia analógica não é perfeita. O rolo 135 é muito limitado e exige as melhores objectivas existentes para que não mostre as suas deficiências em demasia. (Talvez assim percebam por que tanta gente sonha acordada com as Leica M.) Contudo, o prazer de fotografar com uma máquina analógica é tão grande que não me imagino a voltar ao digital. Só no caso extremamente improvável de me tornar profissional, ou qualquer coisa semelhante, é que sentiria desejo de voltar a fotografar digital.

M. V. M.

OCOLOY e outras terapias para os desinspirados

Por vezes há que experimentar qualquer coisa diferente para renovar o entusiasmo. Muitos recorrem à aquisição de material, mas existe o risco de se fazer fotografias desinspiradas com material diferente (não necessariamente melhor), o que não faz com que o problema se resolva.

Uma experiência que alguns recomendam é conhecida pelo acrónimo OCOLOY: one camera, one lens, one year. Trata-se, como os leitores que dominam o inglês (i. e. todos os leitores) já perceberam, de passar um ano a fotografar com apenas uma câmara e uma lente. Os zooms estão excluídos, evidentemente, porque contrariam o espírito da experiência, que é usar apenas uma lente de uma determinada distância focal. (De resto, quem usa zooms não merece ocupar um lugar no seio da espécie humana.)

Que posso dizer acerca disto? Eu não seria capaz de passar um ano usando só uma lente, mas uso sempre a mesma máquina desde 2013 – o que, pelas minhas contas, perfaz mais de um ano – e, sobretudo, houve uma fase da minha vida em que usei apenas uma lente durante um lapso temporal que, se não perfez um ano – foi cerca de três meses –, foi consideravelmente longo. Foi quando comprei a E-P1. Agora, pensando nisso, devo concluir que tive uma inspiração ou um golpe de sorte quando a comprei, porque na mesma caixa vinha uma lente de distância focal fixa, mais concretamente a M.Zuiko 17mm-f/2.8, que não é grande coisa opticamente mas não deixa de ser interessante (à sua maneira). E, sobretudo, foi um instrumento de aprendizagem.

O que é de relevo, neste caso, é que aqueles três meses ensinaram-me muita coisa. Usar uma só distância focal ensinou-me a aproximar-me das coisas e a procurar as melhores perspectivas para aquela distância focal. Ensinou-me tudo o que havia para aprender, bom ou mau, quanto aos 17mm que, no sensor 4/3, fornecem o campo de visão aproximado de uma 35mm. Não interessa se gostei ou não de fotografar com uma distância focal tão mitificada: o que importa foi que retirei enormes ensinamentos da experiência. O OCOLOY dá resultado – mas não me parece que seja necessário um ano: uns seis meses devem chegar para aprender qualquer coisa. Nem que seja a a detestar os zooms.

***

No último texto referi que o facto de ter estado privado de fotografar foi produtivo, porque quando saí novamente à rua com a OM senti um contentamento renovado. O que não disse – estou a fazê-lo agora – foi que no dia seguinte, um domingo, o cansaço voltou. A culpa não foi minha nem da máquina: foi dos turistas. É cansativo andar nas ruas do Porto e descobrir-se que se é o único português, mas ainda mais extenuante é ver que toda aquela gente passa cada dois segundos a tirar fotografias compulsivamente, de tudo e delas mesmas. A câmara é uma extensão do corpo do turista: sempre foi. Mas esta obsessão de fotografar tudo é quase doentia.

O apogeu do cansaço foi quando estava à espera de uma boa oportunidade para fotografar uma rua velha do Porto e um palhaço qualquer decidiu que, se eu estava a fotografar aquele lugar, ele tinha mais direito do que eu de fazê-lo e plantou-se à minha frente, com o seu telemovelzinho na mão, durante uma eternidade, sem sequer dizer água-vai. Felizmente, esta rudeza não existe entre os aficionados da fotografia, que são corteses e não fazem aos outros o que não gostariam que lhes fizessem a eles. Um turista com um telemóvel é demasiado estúpido para entender isto.

Mas, fora isto, mantém-se verdadeiro que o afastamento da fotografia durante algum tempo me fez renascer um entusiasmo que estava algo esmorecido, à custa da rotina de só fotografar aos fins-de-semana e raramente sair do Porto. O tempo que passei sem câmara fez-me ver as coisas com olhos renovados, e tenho quase a certeza que o efeito seria mais intenso se tivesse estado ainda mais tempo sem fotografar.

Daí que não me pareça demasiado ousado ou disparatado sugerir uma pausa na fotografia sempre que esta ameaçar tornar-se demasiado rotineira. Fotografar não preenche nenhuma função vital nem é um impulso homeostático: sobreviveremos à privação. E dou por garantido que vai ser benéfico para a inspiração. Mais: pode fazer com que se definam novos objectivos, o que será sempre bom. E fica-se com tempo para se pensar no que temos andado a fazer e no que queremos fazer daí em diante, o que é ainda melhor.

M. V. M.

Ressurreição

E, ao décimo dia, ressuscitou

Estamos ainda a um dia do início da Semana Santa, altura em que celebramos a morte e ressurreição de Jesus Cristo, mas hoje já me sinto ufano e o meu espírito regozija: a minha OM levantou-se dos mortos e renasceu – embora duvide que tenha sido a Paixão que levou a minha máquina a perecer. Tenho a certeza que não morreu para me salvar e me redimir dos meus pecados, porque, francamente, não me recordo de ter incorrido em nenhum. A não ser o de fazer más fotografias, mas muitos cometem este pecado (e outros bem piores, como o de imitar) e não intervém uma avaria que os redima. Só acontece a mim.

Foi assim com incontida satisfação que hoje fui buscar a ressuscitada. Apesar de ter estado nas mãos de um homem chamado Igor – tal como o assistente de Frankenstein –, não consta que a OM tenha recebido partes de outros corpos nem que tenha sido trazida de volta à vida por um relâmpago fulminante, pelo que devo concluir que não houve intervenção divina nem sobrenatural na sua ressurreição. Devo também, evidentemente, estar grato por haver pessoas como o Igor e o R. S. D., porque sem eles tudo teria sido mais difícil (e provavelmente mais oneroso). Provavelmente a máquina teria de ter feito uma viagem até Souselas – parece que ali, no centro de assistência da Europa Ocidental da Olympus, também consertam máquinas analógicas – que me privaria dela durante muito mais tempo do que aquele em que estive abstinente de fotografias.

Se bem se recordam, o anel de selecção dos tempos de exposição da minha OM-2n havia encravado em 1/1000. Embora fosse possível fazer fotografias com este tempo – desde que existissem boas condições de luz –, pareceu-me boa ideia repará-la. Em boa hora o fiz: o comando dos tempos de exposição veio a trabalhar perfeitamente. E, sobretudo, com uma suavidade que nunca teve, pelo menos enquanto foi minha. Não é bem a suavidade de uma OM-1 em bom estado, que comparei à de uma faca quente deslizando em manteiga derretida, mas quase. Será mais uma faca morna deslizando sobre requeijão cremoso.

No primeiro fim-de-semana sem câmara não me senti particularmente angustiado por não fotografar. Foi até uma espécie de férias retemperadoras. Contudo, devo confessar que a perspectiva de outro fim-de-semana sem expedições fotográficas estava a começar a deixar-me preocupado – até porque entretanto sobreveio este estímulo que encontrei no website da Magnum e que me fez querer sair imediatamente à rua para fotografar.

Pois bem: este impulso teve de esperar mais alguns dias, mas valeu a pena. Não apenas porque a máquina me foi devolvida em perfeito estado, mas também porque a conjugação do contentamento por voltar a fotografar e do estímulo a que acabei de me referir resultou uma sessão divertida em que as oportunidades surgiram com muita naturalidade.

A privação teve os seus benefícios. Graças a ela, redescobri uma alegria em fotografar que pensava já ter esquecido. Não que fotografar se tenha tornado uma tristeza, ou um sacrifício, mas a sombra insidiosa da rotina começava a pairar sobre as minhas sessões fotográficas. Isto fez-me pensar se não será um exercício salutar privarmo-nos de fotografar durante um lapso considerável de tempo. Pelo menos parece-me ter o potencial de ser tão ou mais produtivo que aquela experiência de fotografar apenas com uma câmara e uma lente durante um ano que alguns advogam e clamam ser uma fonte de aprendizagem. A privação pode, quem sabe, fazer-nos reconsiderar os nosso objectivos e redireccionar a nossa fotografia. Pelo menos será uma ruptura na rotina, o que só por si é bom e estimulante.

Seja como for, sinto-me reconfortado por ter a OM de volta. Cheguei a temer o pior e a havê-la como irremediavelmente avariada e a ter de substituí-la. Felizmente não aconteceu – ou, se aconteceu, o bom do Igor trouxe-a de volta ao mundo dos vivos. Esta é uma boa altura do ano para ressurreições. Aliás, não podia ser melhor. Não consigo pensar em nenhuma outra época mais oportuna.

M. V. M.

Privação

Estar privado da minha máquina analógica não é o ideal num fim-de-semana, mas curiosamente não me custou tanto como pensava. E não é por ter chovido todo o fim-de-semana: é, principalmente, por não fazer sentido (do meu ponto de vista, claro) fotografar sem a OM.

Na verdade, não me apetece fotografar com a E-P1. Não por ser obsoleta, nem por ser digital, mas por uma razão muito elementar: não tem visor. Ou melhor: tem um visor óptico que posso montar na sapata do flash, o que torna a experiência de fotografar um pouco mais agradável do que usar o ecrã, mas não tenho o menor controlo do que estou a fazer quando uso o VF-1. Não sei qual é a exposição, não tenho qualquer tipo de informação. Nem sequer sei se tirei a tampa da lente. E só o posso usar com uma lente – uma lente de uma distância focal de que não gosto e falha de nitidez.

Usar as lentes OM é uma maçada. A E-P1 ainda não tem aquelas modernices do focus peaking e do focus stacking, pelo que tudo o que tenho à mão é a possibilidade de ampliar uma porção da imagem (até dez vezes), o que, se lembra aquelas pequenas lupas que saltavam da tampa das TLR, é muito pouco prático e muito, muito lento. Mais vale usar a hiperfocal.

Eu sei que isto me desqualifica por completo. Afinal de contas, se eu gosto de fotografia, devia ser capaz de fotografar com qualquer coisa que tivesse à mão porque o que conta é a fotografia, e não o equipamento, certo?

Errado. Fotografar é um prazer indissociável do equipamento. Não por causa do desempenho deste, ou das suas qualidades, mas porque se torna um prolongamento dos olhos e da mente. Uma câmara que só tem um ecrã para se compor não produz este efeito simbiótico. Pelo menos comigo. Pelo menos depois de experimentar fotografar com um visor tão bom como o da OM-2. E considero este factor hedonístico essencial: se ele não estiver presente, não adianta fotografar. Eu não fotografo por sentir a urgência de fixar algo numa imagem, mas para exprimir as minhas ideias estéticas. Só posso fazê-lo com uma máquina que seja uma extensão do meu corpo e da minha mente. A OM-2 é-o; é perfeita – desde o visor à alavanca de avanço da película, fotografar com ela tornou-se-me tão natural como respirar.

Outra razão por que estar sem a máquina não é tão frustrante como pensava é algo de que me apercebi ontem. Durante uma caminhada, fui tentando contar as oportunidades fotográficas que estava a perder. E foram bem poucas. Algumas delas eram ilusórias: pessoas muito sossegadas e quietas num cenário perfeito. Apercebi-me, então, que essas pessoas estavam muito sossegadas e quietas porque eu não tinha uma máquina fotográfica nas mãos. Se a tivesse, teriam reagido de outra maneira – e a oportunidade teria sido perdida. Mas também não andei verdadeiramente à procura de oportunidades.

Por tudo isto, não foi assim tão custoso passar um fim-de-semana sem fotografar. A minha fotografia não é muito espontânea e, francamente, não sinto tonturas e dores de cabeça por passar um fim-de-semana sem fotografar. Custa, evidentemente, mas não é como passar fome. Nem sequer é como ficar privado de outros prazeres.

Tudo isto é saudável: significa que a fotografia não é uma obsessão. O facto de não o ser faz com que consiga pensar mais lucidamente no que estou a fazer e atribuir-lhe o lugar que realmente ocupa na minha vida. É inestimável, evidentemente, mas não é tudo.

M. V. M.

Agfa Vista 200 (mas antes, um acréscimo ao texto anterior)

No texto sobre a OM-1 omiti uma vantagem em relação à OM-2: a primeira tem um comando que bloqueia o espelho. Isto é útil em exposições longas, quando a mínima vibração – como a provocada pelo impacto do espelho no momento do disparo – pode interferir com a nitidez. Não sei por que razão a OM-2 não tem esta função, mas também devo dizer que, nas exposições longas que fiz com a minha máquina, nunca tive problemas de falta de nitidez causada pelo impacto do espelho. Mirror lock is overrated.

***

Os meus leitores já sabem que voltei a fotografar a cores, depois de mais de três anos em que as minhas únicas fugas ao preto-e-branco se resumiram a algumas experiências com película colorida. Nenhuma destas experiências me deu resultados satisfatórios até ao dia em que resolvi experimentar um rolo que, por causa da matiz vermelha de que me apercebera em muitas das fotografias que consultei na internet, havia decidido nunca usar. Este rolo, como sabem, é o Agfa Vista.

Apesar de a matiz vermelha existir, não é um problema tão grave quanto supus. Mais: de todas as películas coloridas que experimentei, a Agfa é a única com a qual consegui resultados consistentes em condições diferentes de iluminação. As cores são sempre razoavelmente precisas, quer fotografe ao sol ou debaixo da luz ténue das estações subterrâneas do Metro. Nenhum outro rolo – mesmo aqueles cuja qualidade é notoriamente superior à do humilde Agfa Vista – me ofereceu esta consistência: os que resultam bem com luz solar, como o Kodak Portra 160, são um desastre com luz artificial. E os que mantêm a precisão das cores na fotografia nocturna são berrantes e erráticos quando usados ao sol.

As películas 135 de alta sensibilidade como são as ASA 400 – eu sei que isto parece anedótico numa era em que os valores ISO das câmaras digitais se escrevem com sete algarismos – têm, como não é novidade, um grão muito pronunciado. O Agfa Vista não é, evidentemente, excepção. E as digitalizações não fazem absolutamente nada para disfarçar o aspecto pouco límpido que o grão dá às fotografias.

Isto lembrou-me que, de facto, não sou um homem de altas sensibilidades: estão a ler um blogue que, na sua incarnação anterior, se chamava «ISO 100». (Querem melhor prova?) Até agora apenas havia experimentado a versão ASA 400 do Agfa Vista. Recentemente, porém, tive a oportunidade de usar a versão ASA 200. Como seria porventura de prever, o grão é menos abundante, mas nem por isso deixa de estar presente e também não é lá muito límpido. Em comparação com a versão mais sensível, o Vista 200 é praticamente idêntico na apresentação das cores, pelo que não vale a pena acrescentar muito ao que já escrevi sobre o assunto. Contudo, parece-me – ainda estou para confirmá-lo com histogramas – que, além da matiz vermelha característica do Vista 400, há também uma abundância relativa de cianos.

Nada disto, porém, é suficiente para me afastar dos Agfa Vista. Esta continua a ser a película a cores mais homogénea e consistente que conheço, com o bónus de ser barata. Pormenor interessante: um dos reparos que li na internet é que, por causa dos vermelhos, a Agfa Vista é uma película inadequada para retratos, já que falseia a cor da pele. Curiosamente, não notei nada disto. Pelo contrário, os tons de pele parecem-me bastante verosímeis.

Acima de tudo, as Agfa Vista são as únicas películas que me dão o tipo de saturação das cores que quero: nem demasiado vívidas, nem particularmente desmaiadas (como agora parece ser moda na internet). Esta combinação de consistência e agradabilidade faz com que, a despeito das suas falhas, estas Agfa Vista sejam as películas que mais se adequam ao que quero fazer da minha fotografia. E agora tenho uma alternativa quando me apetecer usar aberturas maiores. Nada mau.

M. V. M.