Férias forçadas

Olympus-OM2-SLR-Camera-039-s-Shutter-Speed-Ring-Genuine-Parts

Há pouco mais de dois anos, mais concretamente no dia 11 de Outubro de 2014, escrevi um texto que tive o gosto duvidoso de intitular As velhas e as suas manias (embora depois tivesse o cuidado de esclarecer que a prosa não era sobre psicologia da terceira idade: não que alguém fosse pensar que era, porque nessa altura já todos sabiam que não sou um psicólogo geriátrico). Nesse texto abordei um estranho problema técnico que se estava a passar com a minha Olympus OM-2n: o anel que controla o tempo de exposição prendia, tornando-se ocasionalmente difícil de manusear.

Este problema, que desde então ocorreu amiúde, pareceu manifestar-se com mais intensidade quando fazia frio e a humidade era mais intensa, mas também aconteceu em dias mornos – mas nunca no Verão, nem nos dias quentes da Primavera e do Outono. No Domingo, dia 19, voltou a acontecer. De manhã tudo correu bem, mas durante a tarde o comando emperrou de vez na posição 1/1000. Infelizmente, eu tenho muito pouca sensibilidade para certos mecanismos: embora saiba perfeitamente quando estou a poupar ou a desperdiçar a energia do motor do automóvel, tenha sensibilidade para determinar o momento ideal para mudar de velocidade e domine o ponto de embraiagem na perfeição, há certas coisas que me derrotam por completo. Fechaduras manhosas, por exemplo. E, como agora descobri, comandos do tempo de exposição situados à volta da baioneta. Tal como não consigo rodar uma chave numa fechadura que exija um determinado truque para abrir, também não consegui desbloquear o comando da OM-2.

O Raúl Sá Dantas conseguiu-o. Desbloqueou o comando, mas este último já não controlava nada. O tempo de exposição assinalado nada tinha que ver com o real. As cortinas moviam-se instantaneamente quando o comando estava na posição de 1 segundo, o que não podia ter acontecido e significa que o controlo do obturador ficou bloqueado, provavelmente em 1/1000. Isto quer dizer que a minha Olympus OM-2n está avariada. É oficial. Vai ser entregue, para reparação, a um homem chamado Igor, que não é certamente o assistente do Doutor Frankenstein (embora não seja impossível que a minha máquina venha a receber peças de outra, o que pode ser havido como um pouco shelleyano).

Isto é estranho. Há duas semanas tive oportunidade de manusear uma Olympus OM-1, que era o modelo que Maitani-san concebeu antes de decidir colocar electrónicas inúteis dentro das máquinas. O comando do tempo de exposição da OM-1 roda como uma faca quente sobre manteiga derretida. Há quem especule que isto se deve à ausência de controlos electrónicos no mecanismo do obturador, já que a OM-1 não tem nenhum modo de exposição automático ou semi-automático, mas embora tal explicação não me pareça plausível, não posso sinceramente confirmar ou infirmá-la. O que sei é que o comando do tempo de exposição das OM-1 – ou, pelo menos, do exemplar que tive nas mãos – é de uma suavidade irresistível. O que é quase difícil de acreditar, atendendo a que podemos estar a referir-nos a mecanismos fabricados há trinta anos.

Seja como for, vou ter de fazer uma pausa nas fotografias. Fotografar com a E-P1 já não me dá qualquer prazer e, de resto, não suporto a falta de nitidez daquele sensor. Prefiro esperar pelo conserto da OM a fotografar digital. Eu sei, eu sei: se gosto de fotografia, devia gostar de fotografar com o que quer que fosse que tivesse à minha disposição, mas eu não funciono assim. Afeiçoei-me à fotografia analógica e jurei-lhe fidelidade eterna.

Isto pode ser uma boa oportunidade para reflectir sobre que tipo de fotografia quero realmente fazer. Sinto que preciso de aproveitar melhor a cor e trabalhar com ela para fazer melhores composições, em lugar de fazer transposições do género de fotografias que fazia a preto-e-branco para as cores. Talvez aproveite para andar mais atento e descobrir mais motivos, quem sabe?

Em todo o caso, a pausa não se estende ao Número f/. Os leitores poderão ficar contentes ao saber que o facto de não ir fotografar durante um lapso de tempo que pode ser considerável não se vai repercutir na produção foto-literária do M. V. M. Ou talvez entendam que bem podia aproveitar para fazer umas férias bloguísticas. (Ah! Vou recusar-vos esse prazer!)

M. V. M.

O meu novo dilema

A imagem com que ilustrei o texto de ontem – a minha fotografia, não a de Fred Herzog – não dá senão uma pálida ideia do que ali referi sobre a nova dimensão que a cor acrescenta às fotografias ditas de rua. Podia ter escolhido outra, que ilustrasse melhor os benefícios da cor, mas não o fiz. Por uma razão: é que aquela ilustração é exemplificativa do tipo de fotografia que teria feito se estivesse a usar o preto-e-branco. Como o texto tentou ser acerca da possibilidade de fazer fotografia dita de rua a cores, a ilustração pareceu-me adequada: quando faço fotografia nas ruas, gosto daquele tipo de cenário todo bem compostinho e cheio de simetrias e geometrias. O facto de esta fotografia ser a cores não retira nada à estética.

Por outro lado, tem-me passado pela cabeça uma ideia que pode ser disparatada, mas não deixa de ter a sua racionalidade. Uma possibilidade que tenho é converter digitalizações de fotogramas a cores para preto-e-branco. Eu sei que alguns podem pensar que é sacrilégio converter fotografias analógicas a cores para preto-e-branco, mas se pensarmos bem o mal de raiz já está feito e não é a conversão: é o que foi feito antes – a digitalização. Ora, se estou diante de uma imagem digital, que me impede de convertê-la para monocromático?

Sinto-me cada vez menos preconceituoso – e, o que é o mesmo, mais aberto – em relação à edição de imagem. Quando o negativo é digitalizado, torna-se numa imagem digital. Assim sendo, por que não havia de tirar partido dos instrumentos que a fotografia digital trouxe? Uma grande parte das fotografias a cores que publico no Flickr teriam muito pior aspecto se eu as mostrasse tal como o scanner as deixou. Especialmente no caso das fotografias feitas com o Fujifilm Superia, que deixa todas as imagens com um tingimento verde que é difícil de suportar. O tingimento vermelho do Agfa Vista é muito mais benéfico, embora também seja capaz de produzir resultados indesejáveis. Seja como for, não vejo qualquer problema em editar imagens a partir de digitalizações de negativos.

Claro que isto levanta uma questão que, por esta altura, o leitor dotado de um mínimo de perspicácia já terá formulado: se é assim, não seria melhor usar uma câmara digital? Esta questão é extremamente pertinente, mas soçobra por duas razões. A primeira é que as imagens a cores feitas com película têm mais latitude que as digitais. É muito simples: com os rolos nunca tenho altas luzes estouradas nem sombras excessivas (a menos que falhe por completo a exposição, o que quase nunca me acontece). A segunda razão, e a mais importante, é que não há nenhuma câmara, nem nenhum programa de processamento de imagem, que seja capaz de simular o efeito de uma fotografia analógica a preto-e-branco. Quando inventarem uma câmara com sensores intermutáveis, sendo um deles o da Leica Monochrom e o outro o da Nikon D5, terão criado a câmara digital perfeita, mas por enquanto esse monstro de Frankenstein não existe.

Sendo assim, será que converter digitalizações a cores para preto-e-branco é boa ideia? Para tentar preservar um mínimo de pureza analógica, usei o célebre comando do Photoshop CS Image → Mode → Grayscale com a fotografia do texto de ontem.

O resultado é decepcionante. Mostra, em primeiro lugar, um facto importante: as fotografias a preto-e-branco precisam de uma nitidez de que o Agfa Vista não é capaz. Mas também se vê que os contrastes não são idênticos àqueles que consigo quando uso películas muito contrastadas, como as Ilford FP4 e Pan F. Meh – até as de alta sensibilidade, como a Tri-X, saem melhor que isto. Esta imagem não é verosímil enquanto fotografia analógica a preto-e-branco: tem a palavra «digital» espalhada em toda a sua superfície.

O que me deixa num dilema: estou a gostar demasiado de explorar a cor, mas não vou, de maneira nenhuma, renegar o preto-e-branco. Tal como não tenho de desaprender a minha língua pátria quando falo ou escrevo em inglês, também não preciso de excluir o preto-e-branco das minhas fotografias. A possibilidade de comprar um segundo corpo OM para fotografar exclusivamente a preto-e-branco começa a ganhar foros de inevitabilidade.

M. V. M.

Um aniversário peculiar

Hoje fui a uma festa de aniversário. Aliás, não foi exactamente uma festa: não havia música ruidosa nem gente a dançar freneticamente. Foi um porto de honra e não comemorava o aniversário de ninguém – ou melhor, de nenhuma pessoa em especial. O porto de honra celebrava o quinto aniversário da Câmaras & Companhia.

O que vão ler a partir daqui é publicidade descarada. Não há, no Porto, escassez de lojas que vendam material fotográfico analógico. A AFF e a Colorfoto vendem rolos, químicos e papel. Até a Fnac vende rolos. E também não é a única loja (e laboratório) exclusivamente dedicada à fotografia convencional. Há, pelo menos, mais duas. Contudo, a Câmaras & Companhia tem qualquer coisa especial: à sua frente está alguém que pôs todo o seu profissionalismo e saber ao dispor dos entusiastas da película. Neste caso é um casal, porque o Raúl Sá Dantas e a Leonor tornaram-se indissociáveis.

É quase inimaginável o que eu aprendi graças a eles. Mesmo se não levo o entusiasmo por equipamento tão longe como o frequentador típico da Câmaras & Companhia, o acervo de conhecimentos que acumulei é assinalável. Se hoje tiro partido da película e da minha OM-2n, devo-o em grande parte ao Raúl e à Leonor.

Eu não vou fingir que sou cliente desde a primeira hora, porque não sou. A Câmaras & Companhia comemorou agora cinco anos e eu só fotografo com película há três anos e nove meses (mais dia menos dia). A primeira vez que entrei na Câmaras & Companhia, em Junho ou Julho de 2012, nem sequer foi para comprar material fotográfico: foi por me ter sentido fascinado – um fascínio à primeira vista – pela antepassada da Olympus E-P1 que usava então. Quis fotografá-la: era a Pen F, que estava sobre um dos expositores da loja. Nessa altura ainda estava longe de imaginar que me iria tornar num cliente assíduo.

7526105630_c33a463247_z

Também não foi a minha primeira escolha. Só cheguei à Câmaras & Companhia em Julho ou Agosto de 2013, numa altura em que já tinha a OM, depois de dois fracassos clamorosos com as revelações e digitalizações de dois T-Max (cujos autores, por decoro, permanecerão inominados). O que posso dizer é que, desde que conheci a qualidade das revelações e digitalizações do R. S. D., não tive mais necessidade de procurar outras lojas e laboratórios. Para quê? Mais ninguém oferece, além da qualidade, o saber e a simpatia que encontro na Câmaras & Companhia. Esta loja não é só uma loja (e um laboratório): é também um lugar de tertúlia e de conhecimento. Além de, evidentemente, ser um regalo para os olhos, com aquela cornucópia de câmaras e lentes clássicas.

Depois de ter entregado ao Raúl o primeiro rolo que confiei à Câmaras & Companhia, após uma longa e frutuosa conversa, despedi-me dele com uma frase muito cliché: citei Humphrey Bogart em Casablanca. Cliché ou não, foi verdade: aquele foi mesmo o início de uma bela amizade.

M. V. M.

Um pouco de camera porn

Como estou completamente sem ideias para escrever no Número f/, não consigo lembrar-me de nada melhor do que publicar algumas imagens da minha estimável Olympus OM-2n, a aniversariante que usurpou o lugar da câmara digital na minha predilecção (mas não o suficiente para dispensar a digital: ainda preciso dela para fotografar a OM…)

M. V. M.

Três anos

Foi no dia 12 de Junho de 2013 que comprei a Olympus OM-2n, uma máquina fotográfica que gasta rolos de película. Por esta altura já toda a gente sabe que fotografo praticamente em exclusivo com ela. Já me cansei de escrever aqui sobre isto e, reciprocamente, o leitor já se cansou de lê-lo, mas quando penso nas razões por que uso este meio por muitos considerado anacrónico, por vezes surgem-me perguntas às quais tenho dificuldade em responder.

A fotografia analógica só a espaços pode ser considerada melhor que a digital. Não é tão versátil, é tudo menos prática e alguns equiparam a qualidade que o formato 135 tinha a oferecer, na sua época de ouro, com a que se pode conseguir hoje com um iPhone (o que é discutível, evidentemente, mas não anda assim tão longe da verdade). Neste caso, por que insisto? Afinal de contas, tinha uma câmara digital que, aliada a um programa de edição de imagem quase perfeito, me dava resultados mais que satisfatórios. Por que é esta última que uso apenas de vez em quando, e não a outra? E por que troquei a comodidade de ver os resultados imediatamente por esperas de vários dias?

A resposta concentra-se numa única palavra: prazer. Na verdade, factores como ser obrigado a ser comedido no número de fotografias (e, por esta via, ser mais selectivo), ou ser forçado a dominar a técnica, já não contam; contaram nos primeiros tempos, mas agora o que sobreleva é o prazer de fotografar com a OM-2. Não por ser a OM-2, mas por ser uma máquina fotográfica analógica e uma SLR. Há qualquer coisa de exultante em fotografar com uma máquina como esta: a claridade do visor, a facilidade em focar, a acção mecânica e o som do disparo, com a vibração do obturador e do espelho a darem expressão corpórea ao gesto de fotografar, e o accionamento do avanço do rolo concorrem para que usar a OM-2 seja um prazer. Aliás, já nem concebo fotografar sem usar um visor e sem accionar a alavanca do avanço do rolo. Ambos me parecem essenciais e indissociáveis do acto de fotografar.

Depois há as lentes. Embora não tenham a mesma reputação que as Nikon, Zeiss e Leica, as lentes Zuiko para o sistema OM são maravilhosas. Têm toda a nitidez que se pode esperar de boas lentes, são comedidas nas distorções e aberrações e, acima de tudo, funcionam bem depois de todo este tempo. Sobretudo, constituem um sistema completo que abrange as distâncias focais mais importantes, o que é algo que não tinha com a câmara digital.

Nem sequer posso dizer que fico mal servido em matéria de qualidade de imagem. As fotografias podem ser menores em tamanho, mas não perdem nada em nitidez. Isto é o que facilmente descobre quem usa máquinas analógicas e rolos de qualidade. No meu caso, encontrei uma película que me satisfaz por completo; com ela, as minhas fotografias têm toda a nitidez e contraste que espero delas. E sem ter de recorrer à edição de imagem, a qual uso apenas esparsamente.

Usar película é uma experiência que vivo apenas pela metade. Escapa-me uma parte substancial do processo, que é a revelação. Em lugar de a dominar (o que seria materialmente impossível, por diversas razões), entrego-a a outrem. Tive a sorte de a falta de qualidade dos serviços que experimentei com os meus primeiros rolos me ter empurrado para a Câmaras & Companhia, onde as mãos experientes do Raúl Sá Dantas fazem maravilhas. Estes três anos são também a história de uma aproximação com o Raúl e a Leonor que ultrapassa em muito a mera relação entre cliente e fornecedor. O que aprendi com eles é simplesmente inestimável, mas são também pessoas excelentes que me orgulho de conhecer.

Estes três anos com uma máquina analógica serviram para me ajudar a definir um estilo, mas sobretudo para dar às minhas fotografias um cunho próprio. Agora procuro que as fotografias exprimam as minhas concepções gráficas, em lugar de simplesmente mostrar coisas ou fazer fotografias iguais às de outras pessoas. Procuro, em especial, que as minhas fotografias vivam da luz e da maneira como ela incide sobre os motivos que escolho. É possível que tivesse feito as mesmas escolhas se fotografasse com uma câmara digital, mas os rolos fazem isto melhor. Só há uma câmara digital – a Leica M Monochrom – capaz de reproduzir as altas luzes como o Kodak Tri-X e, sobretudo, os Ilford, mas essa câmara é caríssima.

Não sei quanto tempo isto vai durar. Se for um daqueles ressurgimentos como o do vinil, poderei continuar com esta maluquice de expor rolos por mais uma ou duas décadas. O que é bom.

M. V. M.

Isto não é uma guerra

Linn_Sondek_LP12_LargeOs apologistas do progresso clamam que a evolução remeteu o vinil e a película para a obsolescência e os condenou à extinção, fazendo analogias com comboios a vapor e navios veleiros; os indefectíveis que, acompanhando ou não a evolução (porque nem todos os amantes do vinil e da película vivem amarrados ao passado), preferem os meios considerados antigos, defendem-se dos ataques – sim, porque para muitos isto é uma guerra – com argumentos que nem sempre são convincentes. Mas há também os que conseguem ver as coisas com um pouco mais de clareza e rejeitam a ideia de que se tem de estar de um lado ou do outro.

Eu estou mais perto destes últimos. Vi claramente as vantagens e os inconvenientes de cada um dos meios e fiz opções de acordo com esse conhecimento. Começando pela reprodução musical, posso dizer que nada substitui a satisfação que retiro de ouvir música gravada em vinil: o som é mais dinâmico, mais enérgico, e há uma melhor individualização das notas. Em comparação, o som dos formatos digitais é plano, por ser severamente limitado nas dinâmicas (especialmente a dos graves). Daí que, embora tenha acumulado um número considerável de CD’s, tenha agora mais LP’s – mesmo sem contar com os que tinha antes de aderir ao CD. Compro vinis porque me dá mais prazer ouvi-los. No entanto, não deitei o meu leitor de CD ao lixo: o CD é muito mais prático para a música clássica. Além de haver poucas edições novas de música clássica em vinil (a não ser nas etiquetas «audiófilas»), uma sinfonia desfruta-se melhor se for ouvida de uma vez do que se tiver de me levantar para virar o disco no final de cada andamento. O som não é tão dinâmico, mas é um compromisso aceitável.

Se o som do vinil é, do meu ponto de vista e em termos bastante genéricos, consideravelmente melhor que o digital, a película é mais uma profissão de fé que outra coisa. A fotografia digital há muito ultrapassou o padrão de qualidade do rolo 135 e só o médio formato continua, por enquanto, a resistir à evolução da fotografia digital. Não é uma questão de qualidade em si, porque a película 135 não é falha em aspectos como a nitidez ou o contraste: é, sobretudo, um problema de tamanho. Com um negativo 135, até onde se podia ir na ampliação foi um problema que nunca foi resolvido satisfatoriamente; os profissionais tinham de recorrer ao médio formato para fazer grandes ampliações, deixando o 135 para as fotos de família e as destinadas à imprensa, que raramente eram ampliadas para além do tamanho 15×10. De um modo geral, pode dizer-se que 24×18 (centímetros) é o limite máximo até ao qual um negativo 135 pode ser ampliado – e só se for usada uma boa lente, com muita nitidez, um rolo com muita acutância e um ampliador com uma lente também ela de alta qualidade. A partir desse tamanho a nitidez é severamente prejudicada.

Há mais. Até agora, ainda estou para encontrar uma película a cores que me deixe inteiramente satisfeito. O Kodak Portra só pode ser usado em condições de luz ideais; o Ektar 100 só dá bons resultados com pouca luz; o Ferrania Solaris e o Kodak Gold 200 são por vezes demasiado garridos para o meu gosto. Nas poucas ocasiões em que sinto vontade ou necessidade de fotografar a cores, prefiro recorrer à câmara digital a comprar um rolo (embora ainda me falte experimentar os Fuji 160NS e 400H, que são excelentes – ao que se diz – mas muito caros).

a01Mas há dois factores que me fizeram optar por fotografar com película. O primeiro é as limitações da minha câmara digital. Com esta, posso fazer impressões em grandes tamanhos, mas não tenho, pelo menos com as lentes que comprei especificamente para esta câmara, a nitidez que consigo com a OM e os rolos Ilford. Embora a nitidez nem sempre seja o mais importante, é decisiva nas minhas escolhas. Isto deve soar estranhíssimo aos ouvidos de um digitalista militante, mas é verdade. Para obter uma boa nitidez com a câmara digital, tenho de recorrer às lentes da OM – e mesmo assim os resultados não são melhores do que os que tenho com película.

O outro factor é eu não conseguir, por muitas horas que perca às voltas com o programa de edição de imagem, reproduzir por via digital a estética que procuro para as fotografias a preto-e-branco. Com os rolos – especialmente os Ilford, mas também com o Tri-X – consigo esse look imediatamente, sem recorrer à edição de imagem; com as fotografias digitais posso chegar perto, mas nunca é exactamente a mesma coisa. Há sempre algo que denuncia a natureza digital da imagem.

O que quero dizer com este texto é que não existe, para mim, uma trincheira a separar os domínios analógico e digital. Esta não é nenhuma guerra e, mesmo se fosse, nenhuma das partes teria a supremacia absoluta sobre a outra. A fotografia digital pode não ter ainda suplantado a analógica – e, no que se refere à estética única da película a preto-e-branco, nunca a suplantará –, mas quantas fotografias «analógicas» conheceríamos hoje se não fosse a digitalização?

M. V. M.

24 mm

24f2OMbIgnacio

Ontem tive a oportunidade de experimentar uma objectiva excelente: a 24mm-f/2 que a Olympus fabricou para o sistema OM. Embora não tenha feito nenhuma fotografia com esta lente, deu para perceber tudo o que de bom se diz dela: é um prazer usá-la. E, pelo que vi, é uma lente razoavelmente isenta de aberrações cromáticas e distorções – talvez pela quantidade e qualidade do vidro utilizado no seu fabrico: esta lente é grande (pelo menos segundo os padrões das lentes OM) e pesada e, tal como a minha 135mm-f/2.8, usa filtros de diâmetro 55.

Apesar de tudo, esta lente não me deixou particularmente excitado. Devia ter-me deixado a sonhar acordado, pois é rápida e o preço até era comportável, mas o meu superego tirânico refreou-me o entusiasmo. O meu lado racional proibiu-me de sair da loja com a 24mm-f/2 no saco.

A razão para não ter adquirido esta lente foi a mais chã e prosaica que se pode imaginar: não preciso dela. Mesmo se a minha 28mm me deixa frequentemente ficar mal por ser tão lenta – eu devia ter vergonha de dizer em público que tenho uma lente de abertura máxima f/3.5 –, o certo é que todas as minhas necessidades relativas à gama de distâncias focais em que ambas as lentes se inserem estão preenchidas. 28 mm é, do meu ponto de vista, a distância focal ideal para uma grande-angular.

Não existe uma diferença substancial entre uma lente de 24 mm e outra de 28 mm. No caso das lentes a que me refiro neste texto, as diferenças mais relevantes estão na rapidez e nas dimensões, porque naquilo que importa – a perspectiva, que é a razão por que se compram lentes de diferentes distâncias focais – não existem diferenças importantes. Esperava obter diagonais mais acentuadas e uma sensação de profundidade mais drástica, mas não foi nada disto que consegui com a 24mm-f/2. De facto, não existem diferenças substanciais na perspectiva. A diferença entre usar estas duas distâncias focais está apenas na necessidade de nos aproximarmos ou afastarmos mais do motivo. Isto pode determinar uma maior utilidade da 24 mm quando se fotografam interiores e que quer incluir uma área vasta no enquadramento, mas estes são casos tão marginais que dificilmente justificam a opção pelos 24 mm em detrimento dos 28.

Numa palavra: quem tiver uma lente de 28 mm poderá descobrir que não precisa de uma de 24 mm para nada. A diferença entre as duas distâncias focais é tão pequena que a aquisição de uma 24 mm por quem já tiver uma 28 mm é um esbanjamento (e o inverso também é verdadeiro, embora 28 mm seja uma distância focal mais útil por ser mais versátil).

Por tudo isto, acabei por não me interessar pela 24mm-f/2. Não há, nesta escolha, uma sobranceria como a que levou a raposa de La Fontaine a desdenhar as uvas (mas desde quando é que as raposas comem uvas?), porque a OM 24mm-f/2 é uma lente particularmente desejável. Só que não preciso dela.

A história seria porventura muito diferente se, em lugar de uma lente de 24mm, tivesse experimentado uma de 21mm. É bem possível – e altamente provável – que nesse caso tivesse acesso às características de perspectiva que me levam a, de tempos em tempos, dar por mim a desejar ter uma lente ultra grande-angular: gostava de ter diagonais mais fortes e expressivas do que aquelas que a 28mm me dá, mas no fundo esta não é uma necessidade premente. As diagonais que uma 28 mm dá são suficientemente expressivas – e, de resto, dificilmente seria defensável que eu, que sou um homem que faz 75% das suas fotografias com uma 50mm, tivesse duas grande-angulares.

Decerto, poderia pensar em substituir a 28mm pela 24mm, passando a usar esta última como a minha única grande-angular, mas o mais provável é que perdesse oportunidades de fotografar por ter de enquadrar tão perto. O imperativo de se aproximar mais do motivo que Robert Capa formulou nem sempre se aplica à minha maneira de fotografar. O que é uma pena, porque a OM 24mm-f/2 é uma lente fantástica.

M. V. M.