Mais testes

Ainda não sei o que verdadeiramente vale a Vivitar 24mm-f/2.8 – só o saberei quando vir fotografias gravadas em película, tiradas com a câmara para a qual foi concebida –, mas é possível testar algumas qualidades montando-a na E-P1 por via de um adaptador. Estes testes não me dão resposta à questão de saber se há distorção geométrica, porque o que acontece, quando se monta uma objectiva concebida para o formato 135 numa câmara com sensor 4/3, é o equivalente a um corte da imagem pelas bordas. Como as distorções se manifestam nos extremos do enquadramento e estes são excluídos pelo crop factor, é impossível medir a distorção produzida pela objectiva com um mínimo de precisão.

Mas é possível aferir outras qualidades. Ou defeitos. Um dos grandes problemas das grande-angulares, especialmente das que são construídas para ser económicas, é o nível de aberrações cromáticas. Estas costumam manifestar-se nas orlas dos objectos, quando há contrastes apreciáveis, e consistem em manchas coloridas de cor roxa  quando a aberração cromática é no eixo vertical (aberração cromática lateral), ou num tom entre o violeta e o azul (purple fringing), no caso da aberração cromática transversal ou axial. A Olympus OM 28mm-f/3.5, que foi substituída pela Vivitar, apresentava aberrações cromáticas axiais extremamente agressivas, de um azul semelhante ao do equipamento do Futebol Clube do Porto (o que não me impressionava, atenta a minha aversão pelo futebol).

Outro aspecto mensurável é a resistência da objectiva à luz lateral, que se manifesta através de clarões e manchas na imagem. Como a Vivitar tem uma abertura maior que a OM 28mm-f/3.5, a lente frontal é também maior, logo mais exposta a estes fenómenos ópticos espúrios.

Comecemos por este último: como se pode ver na imagem acima, esta objectiva tem um problema bastante sério com a luz lateral. Embora estas aberrações apenas surjam quando se fotografa contra a luz em certos ângulos, a Vivitar é bastante vulnerável e precisa de ser usada com um para-sol. (Onde é que eu vou encontrar um para-sol para uma objectiva de 24 mm de distância focal e com um aro de 52 mm de diâmetro?)

Quanto às aberrações cromáticas, há boas e más notícias. A boa é que não existe praticamente aberração cromática lateral, que costuma ser a mais agressiva. Se houvesse, a linha vertical que se vê na imagem maior teria uma orla de cor azul ou roxa, o que não se manifesta. Em contrapartida, existe aberração cromática axial, como se vê na imagem mais pequena (que é um crop a 100% da maior). Mesmo assim esta deficiência é bastante discreta e o nível geral de aberrações cromáticas é muito melhor do que eu esperava.

A Vivitar é, claramente, uma objectiva que foi concebida para ser vendida aos milhões a um preço acessível, pelo que não podia esperar um desempenho óptico perfeito. Contudo, a julgar por estas experiências, é uma objectiva com um excelente conjunto de qualidades. Estas ainda não são conclusões definitivas, mas parece-me que tenho motivos para ficar satisfeito. Muito satisfeito. Preciso é de um para-sol.

M. V. M.

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Eu, nerd da técnica

Ontem, quando experimentei a Vivitar 24mm-f/2.8 montada na câmara digital por via de um adaptador, usei como referência uma objectiva concebida para o sensor da E-P1: a 17mm-f/2.8 (que, pelas suas dimensões, se integra na categoria das objectivas pancake, embora nunca me tenha passado pela cabeça barrá-la com manteiga de amendoim). Contudo, aconteceu algo que me deixou perplexo e transportou o meu lado gearhead para altitudes jamais alcançadas.

Para fazer o teste, em que usei a referida panqueca como referência e a 50mm-f/1.4 para comparação com a Vivitar, comutei o comando dos modos de exposição para a posição A (prioridade à abertura), seleccionando a abertura manualmente e deixando que a câmara escolhesse automaticamente o tempo de exposição; como conheço a tendência da câmara para estourar as altas luzes, usei a compensação da exposição em -0,3 EV. Regulei o ISO em 200, para não ter de recorrer ao tripé e, por fim, certifiquei-me que as três objectivas estavam na abertura f/4.

Depois de colhidas as imagens, deu-me a curiosidade de ver qual foi o tempo de exposição que a câmara seleccionou. Para minha surpresa, nem todas as fotografias foram feitas com a mesma exposição: a panqueca teve direito a um valor de 1/160, ao passo que as objectivas de focagem manual induziram a câmara a usar o tempo de 1/125, o que é 0,3 EV mais longo. E isto vê-se nas fotografias, pois é notório que a imagem colhida com a panqueca tem mais contraste e cores mais brilhantes (embora, na verdade, seja uma diferença subtil).

Não sei por que isto aconteceu. Teoricamente, as três exposições deveriam ter durado o mesmo tempo, mas não duraram. Recorrendo à lei da reciprocidade, a um tempo de exposição mais curto corresponde uma abertura maior, pelo que a câmara não leu a abertura das objectivas de focagem manual como f/4, mas como f/3.5 ou qualquer coisa parecida. (Já devia ter dito que a panqueca não tem um anel de selecção das aberturas, pelo que é na câmara que esta escolha se faz, ao passo que as OM, evidentemente, têm o comando da abertura na própria objectiva.)

Uma explicação possível está na perda de luz induzida pelo adaptador. Esta peça de equipamento serve para montar as objectivas adaptadas a uma distância relativamente ao plano focal idêntica àquela que existe nas câmaras para as quais essas objectivas foram criadas. É assim, além de um adaptador, um espaçador. Ora, a lente posterior da panqueca fica manifestamente mais próxima do sensor do que as das objectivas concebidas para o sistema OM, pelo que esta hipotética perda de luz se torna plausível. A única coisa que tenho como certa, porém, é que existe uma divergência entre a abertura assumida pelo processador quanto às três objectivas, mas não faço ideia do que aconteceu.

Tenho a consciência de que este foi, de longe, o texto mais maçador e inútil do Número f/, mas a verdade é que esta discrepância dos tempos de exposição, embora ligeira, não deixou de me intrigar. Como não tenho um cérebro vocacionado para equações, não faço a menor ideia do que se passou. Uma coisa é certa – se eu decidisse abrir um tópico nos fóruns do Digital Photography Review com este assunto, os cérebros da comunidade fotográfica mundial iam explodir como vulcões.

M. V. M.

Primeiras impressões

Hoje fiz uma sessão fotográfica inteira com uma grande-angular, o que nunca me tinha acontecido. A objectiva foi, como quem leu o texto de ontem já calculou por esta altura, a nova Vivitar 24mm-f/2.8. Mas antes, uma pequena divagação histórica:

A Vivitar faz parte de um grupo de companhias que ofereciam alternativas baratas às objectivas da Nikon, Canon, Olympus e Pentax. Mais tarde essas marcas caíram em declínio e o seu lugar é agora ocupado pela Sigma, Tamron e Tokina. No caso da Vivitar, empresa fundada em 1938 como Ponder and Best por Max Ponder e John Best, esta sociedade concorria, nos anos 70 do século passado, com os principais fabricantes de objectivas. A empresa contratou designers e fabricantes como a Kino Precision, a Tokina e a Cosina – que é, ao que descobri, a fabricante da minha 24mm –, entre outras, para produzir as suas objectivas. A Vivitar ganhou a reputação de proponente de objectivas de boa qualidade a preços modestos. Seguiram-se-lhe sucedâneas como a Kiron, Soligor e outras, que eram essencialmente os designs da Vivitar com outras denominações e algumas diferenças cosméticas.

Confessei no texto de ontem que, apesar de saber que as Vivitar não são nada más, tinha alguns receios quanto à cor. E consultas ociosas a alguns websites fizeram-me temer que a nitidez fosse uma fraqueza da 24mm-f/2.8. Enquanto vinha de fazer uma fotografia de um pormenor arquitectónico da interessantíssima igreja do Foco (ou, para os mais beatos, «Igreja da Paróquia de Nossa Senhora da Boavista»), tive, talvez pela santidade do local que acabara de fotografar, uma revelação que fez de mim um verdadeiro Paulo de Tarso na estrada de Damasco: eu posso usar a Vivitar com a E-P1, já que tenho o adaptador de OM para Micro 4/3! E até me dá uma distância focal agradável, já que o crop factor faz com que a objectiva se porte como uma 48mm.

Isto quer dizer que também posso fazer testes sem ter de esperar pelas revelações do rolo que estou a usar presentemente. E, se bem o pensei, melhor o fiz: ao chegar a casa, montei a panqueca 17mm-f/2.8 na E-P1 e fotografei o meu pastiche kandinskiano. Depois, sempre com a câmara no modo de prioridade à abertura e usando f/4 em todas as experiências, montei a Vivitar e, depois, a OM 50mm-f/1.4; depois disto editei as imagens para que fossem idênticas quanto à iluminação. É que o DxO introduziu uma série de parâmetros correctivos ao identificar a fotografia tirada com a panqueca, o que incluiu a compensação de exposição. O resultado da experiência foi como se segue:

Com a Pancake 17mm-f/2.8
Com a Vivitar 24mm-f/2.8
Com a OM 50mm-f/1.4

Descontada a perda de contraste e de vibração que, por qualquer motivo, acontece quando descarrego imagens para o blogue, posso concluir que não há diferenças substanciais quanto à qualidade das cores. Quando muito, a imagem obtida com a 17mm parece um pouco mais contrastada e com cores mais saturadas, mas pode haver aqui o factor espúrio dos algoritmos do DxO. A verdadeira comparação, deste modo, é entre a Vivitar e a Zuiko 50mm-f/1.4.

Não tinha motivos para recear. As cores até parecem ligeiramente melhores com a Vivitar, mas a diferença, se existe, é marginal. Quanto à nitidez (descontada a dificuldade em focar manualmente com a E-P1), também não parece haver motivo para preocupações: os níveis de nitidez são idênticos

O verdadeiro teste é o que resultar do uso da Vivitar com a OM-2n e com película. Prefiro esperar pelos resultados para retirar mais conclusões quanto ao desempenho, especialmente para saber se há distorção geométrica e aberrações cromáticas. O que posso dizer, para já, é que a distância focal de 24mm é consideravelmente melhor que a de 28mm para arquitectura. É uma distância focal que nos obriga a aproximar-nos mais dos objectos e, muito simplesmente, cabem mais coisas no enquadramento. As diagonais são, como seria de esperar, mais pronunciadas do que as que obtinha com a OM 28mm-f/3.5, mas ainda sem aquela dinâmica delirante das ultra grande-angulares. Mesmo assim é um bom compromisso; diria que esta objectiva é ideal para fotografia de arquitectura e interiores.

M. V. M.

A efeméride que ficou por assinalar

Deixei por assinalar, propositadamente, uma efeméride. No dia 27 de Abril decorreram sete anos sobre a data em que adquiri a minha primeira câmara a sério, a Olympus E-P1. Ao fim de todo este tempo, com o entusiasmo inicial já morto e enterrado, já posso olhar friamente para uma câmara que me lançou numa aventura extraordinária, mas não era de maneira nenhuma sem defeitos.

A E-P1 é, ainda hoje, uma câmara extremamente bonita, mas essa beleza é apenas superficial. Por baixo de uma fina casquinha de aço – tão fina que a baioneta se desloca com o peso de objectivas mais substanciais quando montada no tripé! – está um châssis de plástico, o que tem um significado evidente: esta câmara não valia o preço escandalosamente alto que a Olympus pedia por ela. Comprei o meu exemplar por €377, com a objectiva 17mm-f/2.8 e o visor VF-1, o que parece justo, mas quem pagou mais de €800 só pelo corpo quando a E-P1 foi lançada tem todo o direito de se sentir ludibriado.

Até porque, convenhamos, a qualidade de imagem não é grande coisa. Não por causa dos 12,3 megapixéis do sensor Panasonic, mais que suficientes para impressões de tamanhos razoáveis sem perda de resolução – o que é muito mais do que se pode exigir da película 135 –, mas pela tendência intolerável para estourar as altas luzes. Este era um vício redibitório que me devia ter mantido longe desta câmara, mas eu era demasiado ignorante e estava demasiado entusiasmado pela beleza da E-P1 para dar atenção às críticas que apontavam esta falha gigantesca.

Depois havia o ruído. Mesmo com o ISO regulado no mínimo, havia ruído nas áreas de sombra. Com a sensibilidade nos 400, os resultados eram já inaceitáveis. O sensor da E-P1 era simplesmente medíocre, mesmo de acordo com os padrões de 2009, ano em que a câmara foi lançada. Um sensor que aquecia de tal maneira que causava o aparecimento de pixéis espúrios na imagem quando fazia exposições longas. E havia ainda os menus complicadíssimos, as funções inacessíveis, a falta de ergonomia dos comandos e o absoluto desespero que era focar manualmente usando a função de ampliação da imagem no ecrã. Não que a focagem automática fosse muito melhor: eu descarreguei o firmware 1.4, que melhorou um pouco a velocidade da focagem, mas esta actualização pouco fez para minorar os inconvenientes de um sistema de focagem que fica muito atrás do das DSLR.

Por fim, a visualização através do ecrã é, simplesmente, a pior forma de compor e enquadrar que se pode imaginar. Mesmo com o brilho no máximo, era frequente não conseguir ver o que se passava no enquadramento quando a luz era desfavorável. Não admira que esta câmara tenha sido substituída, ao fim de apenas cinco meses de produção, pela E-P2, que estava preparada para montar um visor electrónico.

Claro que nem tudo foi mau. Foi com a E-P1 que aprendi ser muito melhor fotografar com objectivas de distância focal fixa do que com zooms. E tive acesso às OM. Contudo, nos primeiros tempos pouco aprendi. Tirava fotografias à toa, fotografias que não interessavam nem ao Menino Jesus, só porque sim. Mais tarde – não sei explicar ao certo porquê, mas foi antes da aquisição da OM-2n – aprendi que as fotografias, mesmo «digitais», são demasiado preciosas para desperdiçar. De nada adianta fazer milhares de fotografias que não dizem nada, mesmo se forem usadas técnicas fotográficas sofisticadas e difíceis.

Quer dizer: o que eu tinha era uma compacta, com a diferença de que podia montar objectivas diferentes em lugar de estar sujeito a uma só, como com as outras compactas. A fotografia é uma daquelas coisas em que dava jeito nascer ensinado. Até porque os erros costumam sair caros – a menos, claro, que se seja um turista japonês, classe mais propensa a comprar as E-P1.

M. V. M.

OCOLOY e outras terapias para os desinspirados

Por vezes há que experimentar qualquer coisa diferente para renovar o entusiasmo. Muitos recorrem à aquisição de material, mas existe o risco de se fazer fotografias desinspiradas com material diferente (não necessariamente melhor), o que não faz com que o problema se resolva.

Uma experiência que alguns recomendam é conhecida pelo acrónimo OCOLOY: one camera, one lens, one year. Trata-se, como os leitores que dominam o inglês (i. e. todos os leitores) já perceberam, de passar um ano a fotografar com apenas uma câmara e uma lente. Os zooms estão excluídos, evidentemente, porque contrariam o espírito da experiência, que é usar apenas uma lente de uma determinada distância focal. (De resto, quem usa zooms não merece ocupar um lugar no seio da espécie humana.)

Que posso dizer acerca disto? Eu não seria capaz de passar um ano usando só uma lente, mas uso sempre a mesma máquina desde 2013 – o que, pelas minhas contas, perfaz mais de um ano – e, sobretudo, houve uma fase da minha vida em que usei apenas uma lente durante um lapso temporal que, se não perfez um ano – foi cerca de três meses –, foi consideravelmente longo. Foi quando comprei a E-P1. Agora, pensando nisso, devo concluir que tive uma inspiração ou um golpe de sorte quando a comprei, porque na mesma caixa vinha uma lente de distância focal fixa, mais concretamente a M.Zuiko 17mm-f/2.8, que não é grande coisa opticamente mas não deixa de ser interessante (à sua maneira). E, sobretudo, foi um instrumento de aprendizagem.

O que é de relevo, neste caso, é que aqueles três meses ensinaram-me muita coisa. Usar uma só distância focal ensinou-me a aproximar-me das coisas e a procurar as melhores perspectivas para aquela distância focal. Ensinou-me tudo o que havia para aprender, bom ou mau, quanto aos 17mm que, no sensor 4/3, fornecem o campo de visão aproximado de uma 35mm. Não interessa se gostei ou não de fotografar com uma distância focal tão mitificada: o que importa foi que retirei enormes ensinamentos da experiência. O OCOLOY dá resultado – mas não me parece que seja necessário um ano: uns seis meses devem chegar para aprender qualquer coisa. Nem que seja a a detestar os zooms.

***

No último texto referi que o facto de ter estado privado de fotografar foi produtivo, porque quando saí novamente à rua com a OM senti um contentamento renovado. O que não disse – estou a fazê-lo agora – foi que no dia seguinte, um domingo, o cansaço voltou. A culpa não foi minha nem da máquina: foi dos turistas. É cansativo andar nas ruas do Porto e descobrir-se que se é o único português, mas ainda mais extenuante é ver que toda aquela gente passa cada dois segundos a tirar fotografias compulsivamente, de tudo e delas mesmas. A câmara é uma extensão do corpo do turista: sempre foi. Mas esta obsessão de fotografar tudo é quase doentia.

O apogeu do cansaço foi quando estava à espera de uma boa oportunidade para fotografar uma rua velha do Porto e um palhaço qualquer decidiu que, se eu estava a fotografar aquele lugar, ele tinha mais direito do que eu de fazê-lo e plantou-se à minha frente, com o seu telemovelzinho na mão, durante uma eternidade, sem sequer dizer água-vai. Felizmente, esta rudeza não existe entre os aficionados da fotografia, que são corteses e não fazem aos outros o que não gostariam que lhes fizessem a eles. Um turista com um telemóvel é demasiado estúpido para entender isto.

Mas, fora isto, mantém-se verdadeiro que o afastamento da fotografia durante algum tempo me fez renascer um entusiasmo que estava algo esmorecido, à custa da rotina de só fotografar aos fins-de-semana e raramente sair do Porto. O tempo que passei sem câmara fez-me ver as coisas com olhos renovados, e tenho quase a certeza que o efeito seria mais intenso se tivesse estado ainda mais tempo sem fotografar.

Daí que não me pareça demasiado ousado ou disparatado sugerir uma pausa na fotografia sempre que esta ameaçar tornar-se demasiado rotineira. Fotografar não preenche nenhuma função vital nem é um impulso homeostático: sobreviveremos à privação. E dou por garantido que vai ser benéfico para a inspiração. Mais: pode fazer com que se definam novos objectivos, o que será sempre bom. E fica-se com tempo para se pensar no que temos andado a fazer e no que queremos fazer daí em diante, o que é ainda melhor.

M. V. M.

Privação

Estar privado da minha máquina analógica não é o ideal num fim-de-semana, mas curiosamente não me custou tanto como pensava. E não é por ter chovido todo o fim-de-semana: é, principalmente, por não fazer sentido (do meu ponto de vista, claro) fotografar sem a OM.

Na verdade, não me apetece fotografar com a E-P1. Não por ser obsoleta, nem por ser digital, mas por uma razão muito elementar: não tem visor. Ou melhor: tem um visor óptico que posso montar na sapata do flash, o que torna a experiência de fotografar um pouco mais agradável do que usar o ecrã, mas não tenho o menor controlo do que estou a fazer quando uso o VF-1. Não sei qual é a exposição, não tenho qualquer tipo de informação. Nem sequer sei se tirei a tampa da lente. E só o posso usar com uma lente – uma lente de uma distância focal de que não gosto e falha de nitidez.

Usar as lentes OM é uma maçada. A E-P1 ainda não tem aquelas modernices do focus peaking e do focus stacking, pelo que tudo o que tenho à mão é a possibilidade de ampliar uma porção da imagem (até dez vezes), o que, se lembra aquelas pequenas lupas que saltavam da tampa das TLR, é muito pouco prático e muito, muito lento. Mais vale usar a hiperfocal.

Eu sei que isto me desqualifica por completo. Afinal de contas, se eu gosto de fotografia, devia ser capaz de fotografar com qualquer coisa que tivesse à mão porque o que conta é a fotografia, e não o equipamento, certo?

Errado. Fotografar é um prazer indissociável do equipamento. Não por causa do desempenho deste, ou das suas qualidades, mas porque se torna um prolongamento dos olhos e da mente. Uma câmara que só tem um ecrã para se compor não produz este efeito simbiótico. Pelo menos comigo. Pelo menos depois de experimentar fotografar com um visor tão bom como o da OM-2. E considero este factor hedonístico essencial: se ele não estiver presente, não adianta fotografar. Eu não fotografo por sentir a urgência de fixar algo numa imagem, mas para exprimir as minhas ideias estéticas. Só posso fazê-lo com uma máquina que seja uma extensão do meu corpo e da minha mente. A OM-2 é-o; é perfeita – desde o visor à alavanca de avanço da película, fotografar com ela tornou-se-me tão natural como respirar.

Outra razão por que estar sem a máquina não é tão frustrante como pensava é algo de que me apercebi ontem. Durante uma caminhada, fui tentando contar as oportunidades fotográficas que estava a perder. E foram bem poucas. Algumas delas eram ilusórias: pessoas muito sossegadas e quietas num cenário perfeito. Apercebi-me, então, que essas pessoas estavam muito sossegadas e quietas porque eu não tinha uma máquina fotográfica nas mãos. Se a tivesse, teriam reagido de outra maneira – e a oportunidade teria sido perdida. Mas também não andei verdadeiramente à procura de oportunidades.

Por tudo isto, não foi assim tão custoso passar um fim-de-semana sem fotografar. A minha fotografia não é muito espontânea e, francamente, não sinto tonturas e dores de cabeça por passar um fim-de-semana sem fotografar. Custa, evidentemente, mas não é como passar fome. Nem sequer é como ficar privado de outros prazeres.

Tudo isto é saudável: significa que a fotografia não é uma obsessão. O facto de não o ser faz com que consiga pensar mais lucidamente no que estou a fazer e atribuir-lhe o lugar que realmente ocupa na minha vida. É inestimável, evidentemente, mas não é tudo.

M. V. M.

Um aniversário peculiar

Hoje fui a uma festa de aniversário. Aliás, não foi exactamente uma festa: não havia música ruidosa nem gente a dançar freneticamente. Foi um porto de honra e não comemorava o aniversário de ninguém – ou melhor, de nenhuma pessoa em especial. O porto de honra celebrava o quinto aniversário da Câmaras & Companhia.

O que vão ler a partir daqui é publicidade descarada. Não há, no Porto, escassez de lojas que vendam material fotográfico analógico. A AFF e a Colorfoto vendem rolos, químicos e papel. Até a Fnac vende rolos. E também não é a única loja (e laboratório) exclusivamente dedicada à fotografia convencional. Há, pelo menos, mais duas. Contudo, a Câmaras & Companhia tem qualquer coisa especial: à sua frente está alguém que pôs todo o seu profissionalismo e saber ao dispor dos entusiastas da película. Neste caso é um casal, porque o Raúl Sá Dantas e a Leonor tornaram-se indissociáveis.

É quase inimaginável o que eu aprendi graças a eles. Mesmo se não levo o entusiasmo por equipamento tão longe como o frequentador típico da Câmaras & Companhia, o acervo de conhecimentos que acumulei é assinalável. Se hoje tiro partido da película e da minha OM-2n, devo-o em grande parte ao Raúl e à Leonor.

Eu não vou fingir que sou cliente desde a primeira hora, porque não sou. A Câmaras & Companhia comemorou agora cinco anos e eu só fotografo com película há três anos e nove meses (mais dia menos dia). A primeira vez que entrei na Câmaras & Companhia, em Junho ou Julho de 2012, nem sequer foi para comprar material fotográfico: foi por me ter sentido fascinado – um fascínio à primeira vista – pela antepassada da Olympus E-P1 que usava então. Quis fotografá-la: era a Pen F, que estava sobre um dos expositores da loja. Nessa altura ainda estava longe de imaginar que me iria tornar num cliente assíduo.

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Também não foi a minha primeira escolha. Só cheguei à Câmaras & Companhia em Julho ou Agosto de 2013, numa altura em que já tinha a OM, depois de dois fracassos clamorosos com as revelações e digitalizações de dois T-Max (cujos autores, por decoro, permanecerão inominados). O que posso dizer é que, desde que conheci a qualidade das revelações e digitalizações do R. S. D., não tive mais necessidade de procurar outras lojas e laboratórios. Para quê? Mais ninguém oferece, além da qualidade, o saber e a simpatia que encontro na Câmaras & Companhia. Esta loja não é só uma loja (e um laboratório): é também um lugar de tertúlia e de conhecimento. Além de, evidentemente, ser um regalo para os olhos, com aquela cornucópia de câmaras e lentes clássicas.

Depois de ter entregado ao Raúl o primeiro rolo que confiei à Câmaras & Companhia, após uma longa e frutuosa conversa, despedi-me dele com uma frase muito cliché: citei Humphrey Bogart em Casablanca. Cliché ou não, foi verdade: aquele foi mesmo o início de uma bela amizade.

M. V. M.