Um aniversário peculiar

Hoje fui a uma festa de aniversário. Aliás, não foi exactamente uma festa: não havia música ruidosa nem gente a dançar freneticamente. Foi um porto de honra e não comemorava o aniversário de ninguém – ou melhor, de nenhuma pessoa em especial. O porto de honra celebrava o quinto aniversário da Câmaras & Companhia.

O que vão ler a partir daqui é publicidade descarada. Não há, no Porto, escassez de lojas que vendam material fotográfico analógico. A AFF e a Colorfoto vendem rolos, químicos e papel. Até a Fnac vende rolos. E também não é a única loja (e laboratório) exclusivamente dedicada à fotografia convencional. Há, pelo menos, mais duas. Contudo, a Câmaras & Companhia tem qualquer coisa especial: à sua frente está alguém que pôs todo o seu profissionalismo e saber ao dispor dos entusiastas da película. Neste caso é um casal, porque o Raúl Sá Dantas e a Leonor tornaram-se indissociáveis.

É quase inimaginável o que eu aprendi graças a eles. Mesmo se não levo o entusiasmo por equipamento tão longe como o frequentador típico da Câmaras & Companhia, o acervo de conhecimentos que acumulei é assinalável. Se hoje tiro partido da película e da minha OM-2n, devo-o em grande parte ao Raúl e à Leonor.

Eu não vou fingir que sou cliente desde a primeira hora, porque não sou. A Câmaras & Companhia comemorou agora cinco anos e eu só fotografo com película há três anos e nove meses (mais dia menos dia). A primeira vez que entrei na Câmaras & Companhia, em Junho ou Julho de 2012, nem sequer foi para comprar material fotográfico: foi por me ter sentido fascinado – um fascínio à primeira vista – pela antepassada da Olympus E-P1 que usava então. Quis fotografá-la: era a Pen F, que estava sobre um dos expositores da loja. Nessa altura ainda estava longe de imaginar que me iria tornar num cliente assíduo.

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Também não foi a minha primeira escolha. Só cheguei à Câmaras & Companhia em Julho ou Agosto de 2013, numa altura em que já tinha a OM, depois de dois fracassos clamorosos com as revelações e digitalizações de dois T-Max (cujos autores, por decoro, permanecerão inominados). O que posso dizer é que, desde que conheci a qualidade das revelações e digitalizações do R. S. D., não tive mais necessidade de procurar outras lojas e laboratórios. Para quê? Mais ninguém oferece, além da qualidade, o saber e a simpatia que encontro na Câmaras & Companhia. Esta loja não é só uma loja (e um laboratório): é também um lugar de tertúlia e de conhecimento. Além de, evidentemente, ser um regalo para os olhos, com aquela cornucópia de câmaras e lentes clássicas.

Depois de ter entregado ao Raúl o primeiro rolo que confiei à Câmaras & Companhia, após uma longa e frutuosa conversa, despedi-me dele com uma frase muito cliché: citei Humphrey Bogart em Casablanca. Cliché ou não, foi verdade: aquele foi mesmo o início de uma bela amizade.

M. V. M.

Um pouco de camera porn

Como estou completamente sem ideias para escrever no Número f/, não consigo lembrar-me de nada melhor do que publicar algumas imagens da minha estimável Olympus OM-2n, a aniversariante que usurpou o lugar da câmara digital na minha predilecção (mas não o suficiente para dispensar a digital: ainda preciso dela para fotografar a OM…)

M. V. M.

Vídeo

Hoje vou tratar um tema que não é vulgar no Número f/: o vídeo. O meu interesse é a fotografia, mas há dois factores que me levam a entender ser pertinente escrever sobre vídeo num blogue eminentemente fotográfico. O primeiro é o facto de fotografia e vídeo serem artes visuais. O segundo tem que ver com o equipamento: todas as câmaras digitais dos nossos dias, com excepção de algumas câmaras de nicho como as Leica M, estão equipadas com vídeo.

O motivo que me determinou a escrever hoje sobre vídeo não podia ser mais absurdo. Uma vez que faço alguns exercícios caseiros, com e sem levantamento de pesos, parece-me importante fazê-los correctamente, de maneira a evitar lesões. Tive dúvidas, em especial, quanto à maneira como executava um exercício que tem o nome peculiar de «bom dia», o qual consiste em fazer flexões do tronco para a frente segurando nos ombros uma barra com pesos, que se destina a exercitar os músculos erectores da espinha e lombares. (N. do A.: eu tenho a consciência plena de que o leitor está, neste momento, a passar-se com o texto mais estranho que leu no Número f/, mas peço-lhe que tenha um pouco de paciência.)

De maneira a monitorizar os movimentos que faço quando executo este «bom dia», resolvi subtrair a E-P1 a mais um período de hibernação, montá-la no tripé e filmar-me enquanto executava o exercício. Depois aproveitei para filmar outros exercícios. (Se estivesse num ginásio, o PT dir-me-ia se estava a fazer tudo bem ou não, mas os ginásios são caros e frequentados por gente que nada tem que ver comigo.) Foi a minha primeira experiência significativa com vídeo, e os resultados (que, se me permitem, não vou reproduzir aqui, especialmente por ter já apagado os clips de vídeo do cartão de memória) foram surpreendentes.

https://numerofblog.files.wordpress.com/2012/12/img_20111.jpg?w=300&h=225A qualidade do vídeo da E-P1 é extremamente interessante. Apesar de filmar em 720p e 30 fotogramas por segundo, o que pode ser considerado modesto quando comparado com uma Panasonic GH4 ou uma Canon 5D, a imagem tem excelente resolução e, mesmo nas condições de escassez de luz e de movimento relativamente rápido em que filmei, não houve arrastamento de qualquer espécie. As cores são as dos JPEG das Olympus, o que significa que tendem para o saturado, mas são correctas, sem nunca se tornarem berrantes. O equilíbrio dos brancos parece funcionar bem, a medição da exposição é quase perfeita, e o único problema que notei foi com transições rápidas entre muita e pouca luz, em que a câmara parece demorar um pouco a ajustar-se às novas condições e a imagem parece perder um pouco a compostura. Em todo o caso, posso dizer que já ví vídeos feitos com GoPros em que esta transição era muito mais demorada, e mesmo as câmaras onboard dos Fórmula 1 têm enormes problemas quando os carros saem do túnel do circuito de Montecarlo.

Estas características, com excepção das referidas transições, correspondem por inteiro à qualidade de imagem fotográfica da E-P1 em JPEG. O que, infelizmente, inclui a tendência para estourar as altas luzes. Seja como for, ver o desempenho de uma câmara fotográfica digital moderna a filmar vídeo foi uma enorme surpresa. Eu sei que há realizadores que dispensam as Arri e filmam com Canons 5D, mas estava longe de pensar que a E-P1, que hoje pode ser considerada obsoleta, desse tão bons resultados.

O caro leitor fez bem em superar a parte disparatada do exercício, porque acabou de ler o relato da queda de mais um preconceito do M. V. M. Aliás, não era bem um preconceito: era mais desinteresse. O que ultrapassei, com esta experiência, foi a noção que mantinha segundo a qual devemos usar uma câmara fotográfica para fotografar e uma de vídeo para filmar. Esta noção está completamente errada: tenho a certeza que a minha E-P1, a despeito de ter sido lançada há sete anos, bate a maioria das camcorders. E as câmaras de vídeo dedicadas são muito, muito caras.

Simplesmente, o vídeo continua a não me interessar. Gostava de filmar, mas se me propusesse fazê-lo, seria com a mesma intenção que uso na fotografia. O que, provavelmente, implicaria tornar-me numa espécie de cineasta amador – mas neste caso a E-P1 começaria decerto a mostrar algumas limitações. De resto – e pelo menos por enquanto –, os meus interesses continuam firmemente centrados na fotografia.

M. V. M.

Isto não é uma guerra

Linn_Sondek_LP12_LargeOs apologistas do progresso clamam que a evolução remeteu o vinil e a película para a obsolescência e os condenou à extinção, fazendo analogias com comboios a vapor e navios veleiros; os indefectíveis que, acompanhando ou não a evolução (porque nem todos os amantes do vinil e da película vivem amarrados ao passado), preferem os meios considerados antigos, defendem-se dos ataques – sim, porque para muitos isto é uma guerra – com argumentos que nem sempre são convincentes. Mas há também os que conseguem ver as coisas com um pouco mais de clareza e rejeitam a ideia de que se tem de estar de um lado ou do outro.

Eu estou mais perto destes últimos. Vi claramente as vantagens e os inconvenientes de cada um dos meios e fiz opções de acordo com esse conhecimento. Começando pela reprodução musical, posso dizer que nada substitui a satisfação que retiro de ouvir música gravada em vinil: o som é mais dinâmico, mais enérgico, e há uma melhor individualização das notas. Em comparação, o som dos formatos digitais é plano, por ser severamente limitado nas dinâmicas (especialmente a dos graves). Daí que, embora tenha acumulado um número considerável de CD’s, tenha agora mais LP’s – mesmo sem contar com os que tinha antes de aderir ao CD. Compro vinis porque me dá mais prazer ouvi-los. No entanto, não deitei o meu leitor de CD ao lixo: o CD é muito mais prático para a música clássica. Além de haver poucas edições novas de música clássica em vinil (a não ser nas etiquetas «audiófilas»), uma sinfonia desfruta-se melhor se for ouvida de uma vez do que se tiver de me levantar para virar o disco no final de cada andamento. O som não é tão dinâmico, mas é um compromisso aceitável.

Se o som do vinil é, do meu ponto de vista e em termos bastante genéricos, consideravelmente melhor que o digital, a película é mais uma profissão de fé que outra coisa. A fotografia digital há muito ultrapassou o padrão de qualidade do rolo 135 e só o médio formato continua, por enquanto, a resistir à evolução da fotografia digital. Não é uma questão de qualidade em si, porque a película 135 não é falha em aspectos como a nitidez ou o contraste: é, sobretudo, um problema de tamanho. Com um negativo 135, até onde se podia ir na ampliação foi um problema que nunca foi resolvido satisfatoriamente; os profissionais tinham de recorrer ao médio formato para fazer grandes ampliações, deixando o 135 para as fotos de família e as destinadas à imprensa, que raramente eram ampliadas para além do tamanho 15×10. De um modo geral, pode dizer-se que 24×18 (centímetros) é o limite máximo até ao qual um negativo 135 pode ser ampliado – e só se for usada uma boa lente, com muita nitidez, um rolo com muita acutância e um ampliador com uma lente também ela de alta qualidade. A partir desse tamanho a nitidez é severamente prejudicada.

Há mais. Até agora, ainda estou para encontrar uma película a cores que me deixe inteiramente satisfeito. O Kodak Portra só pode ser usado em condições de luz ideais; o Ektar 100 só dá bons resultados com pouca luz; o Ferrania Solaris e o Kodak Gold 200 são por vezes demasiado garridos para o meu gosto. Nas poucas ocasiões em que sinto vontade ou necessidade de fotografar a cores, prefiro recorrer à câmara digital a comprar um rolo (embora ainda me falte experimentar os Fuji 160NS e 400H, que são excelentes – ao que se diz – mas muito caros).

a01Mas há dois factores que me fizeram optar por fotografar com película. O primeiro é as limitações da minha câmara digital. Com esta, posso fazer impressões em grandes tamanhos, mas não tenho, pelo menos com as lentes que comprei especificamente para esta câmara, a nitidez que consigo com a OM e os rolos Ilford. Embora a nitidez nem sempre seja o mais importante, é decisiva nas minhas escolhas. Isto deve soar estranhíssimo aos ouvidos de um digitalista militante, mas é verdade. Para obter uma boa nitidez com a câmara digital, tenho de recorrer às lentes da OM – e mesmo assim os resultados não são melhores do que os que tenho com película.

O outro factor é eu não conseguir, por muitas horas que perca às voltas com o programa de edição de imagem, reproduzir por via digital a estética que procuro para as fotografias a preto-e-branco. Com os rolos – especialmente os Ilford, mas também com o Tri-X – consigo esse look imediatamente, sem recorrer à edição de imagem; com as fotografias digitais posso chegar perto, mas nunca é exactamente a mesma coisa. Há sempre algo que denuncia a natureza digital da imagem.

O que quero dizer com este texto é que não existe, para mim, uma trincheira a separar os domínios analógico e digital. Esta não é nenhuma guerra e, mesmo se fosse, nenhuma das partes teria a supremacia absoluta sobre a outra. A fotografia digital pode não ter ainda suplantado a analógica – e, no que se refere à estética única da película a preto-e-branco, nunca a suplantará –, mas quantas fotografias «analógicas» conheceríamos hoje se não fosse a digitalização?

M. V. M.

A melhor parte de fotografar

Qual é a melhor parte de fotografar? Esta pergunta veio-me à mente com alguma naturalidade, depois de mais uma visita da minha sobrinha de três anos – quase quatro: completa-os no dia 13 – ao meu bureau fotográfico. «Há muito tempo que não brincamos com o tripé», disse ela.

Montei a E-P1, que saiu assim de mais um período de hibernação, e regulei-a no modo P (parece-me que ainda é cedo para ensiná-la a definir os valores de exposição manualmente). Uma vez que o meu gato permaneceu complacentemente em cima de um puff durante a sessão fotográfica, tornou-se no modelo perfeito, já que a Maria Luís (que já se chamava assim antes de a administradora não-executiva da Arrow Global se ter tornado numa figura pública) tem um fascínio pelo Sousa que, todavia, é correspondido com patadas e arranhões (mas ela não vai desistir tão facilmente dele!).

Os miúdos desta idade têm cérebros que se assemelham a esponjas, no que respeita a absorver conhecimentos. Só precisei de lhe explicar uma vez como se usa a cabeça do tripé para que a Maria Luís entendesse o seu funcionamento e a usasse correctamente. Ela pareceu retirar um prazer imenso das fotografias que ia fazendo – sendo que as últimas três ou quatro foram inteiramente da sua autoria, já que escolheu o enquadramento sozinha (e conseguiu um bom bokeh com a pancake 17mm!).

Temos fotógrafa.

Curiosamente, ver as fotografias no computador deixou a Maria Luís relativamente indiferente. Pelo menos não a divertiu tanto como tirar as fotografias. Apesar de o que uma criança de quatro (quase) anos faz com uma câmara não ser muito relevante – excepto por poder estar a desenvolver um gosto precoce pela fotografia – esta diferença de atitudes deixou-me a pensar sobre o que é melhor – mais divertido, mais recompensador –: é o processo de fazer as fotografias ou ver o resultado final?

A minha mente racionalista diz-me que é este último. Com efeito, em termos estritamente objectivos, procurar um motivo e usar a máquina são apenas meios para atingir um fim, que é a imagem final. Simplesmente, a fotografia não pode ser reduzida a este finalismo. O objectivo de produzir uma imagem é, só por si, irrelevante; antes disso está a questão de saber que imagem se quer colher, a qual desencadeia uma série interminável de outras questões que não são resolvidas pela razão.

Antes de mais há que saber o que se quer fotografar. Esta é uma questão de gosto e traz consigo as inclinações, preferências, opções estéticas e discursivas de quem fotografa. Nada disto tem que ver com considerações racionais. Depois há a sensibilidade, que determina a escolha dos motivos, bem como a composição e o enquadramento. De novo, a razão não é para aqui chamada.

Mas o uso de uma câmara também não é necessariamente um acto determinado pela razão. A escolha de uma câmara pode (reparem que não digo deve) ser determinada por considerações de ordem racional, mas há muito mais do que meras questões materiais no manuseamento de uma câmara. Quando uso a OM, a sensação de disparar é eminentemente física: é como se a vibração do espelho e do obturador se propagasse ao meu corpo. Posso tomar em conta que tanta vibração pode prejudicar a nitidez (não prejudica), mas o que prevalece, no fim de contas, é o prazer que me dá usar esta máquina ao fotografar. Aquele ruído, e sentir aquelas peças em movimento, agrada-me e torna o uso desta máquina uma experiência difícil de descrever a quem só vir pragmatismo na escolha de uma câmara.

Claro que ver as fotografias também me agrada – mas só quanto às bem sucedidas. Mas esta é uma daquelas actividades, como a caça e muitas outras, em relação às quais o prazer de usar os meios é maior do que aquele que se sente por atingir os fins. Mais importante que a caça é a caçada, se podemos dizer assim. Fazer uma boa fotografia é gratificante e satisfatório, mas o caminho que se percorre em busca de um motivo, a preparação da imagem e o uso da câmara são fases deste iter que fornecem tanto prazer como o fim em si.

Se tivesse mesmo de dizer qual me dá mais prazer – se ver o produto final ou percorrer o caminho até chegar a ele –, ficaria seriamente indeciso. Algumas fotografias cativam-me; são como drogas, no dizer do brilhante Bert Stern. Sou capaz de ficar largos minutos a olhar para cada uma delas. Mas fazer caminhadas com a atenção no máximo à procura de boas fotografias, bem como manusear a máquina, não é menos agradável.

Acima de tudo, uma boa imagem agrada quando – e porque – é o culminar de todo um processo em que as sensações estiveram envolvidas. É a recompensa de toda essa busca que se empreendeu. Quanto maior o prazer que tivermos extraído desta última, maior será aquele que retiramos de ver a fotografia que daí resultou. Digamos que o que nos agrada, nessa fotografia, é o facto de esse prazer estar incorporado na imagem – mesmo se só quem fez a fotografia pode vê-lo.

M. V. M.

Let’s make some noise

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Apesar da minha preferência pela fotografia analógica, não deixo de acompanhar os progressos que têm sido alcançados na fotografia digital. Embora muitos destes progressos sejam conseguidos com o intuito de agradar aos obcecados pela técnica que povoam os fóruns da internet, há um que é verdadeiramente importante e do qual, curiosamente, pouco se fala: a atenuação do ruído.

O ruído, que é causado pela flutuação aleatória de correntes eléctricas no sensor ou nos circuitos electrónicos da câmara, é indesejável; ao contrário do fenómeno equivalente que se manifesta na película (*) – i. e. o grão –, o ruído electrónico em nada contribui para a agrabilidade da imagem. E todos os sensores, pequenos ou grandes, o produzem. Pode é notar-se menos, mas está sempre lá. Todos nós já experimentamos isto: atenuamos as sombras na edição de imagem e o ruído, que parecia até então inexistente, torna-se insuportável.

A edição de imagem, diga-se, não ajuda muito. Além de nem sempre ser eficaz, pode ter um efeito destruidor sobre a nitidez dos contornos dos objectos, especialmente em imagens para as quais foram utilizadas sensibilidades ISO muito elevadas. Deste modo, a única solução real para o problema do ruído consiste em melhorar os sensores.

Nos últimos (poucos) anos os progressos na atenuação do ruído têm sido absolutamente notáveis. Talvez por causa da exigência de sensibilidades ISO cada vez mais elevadas pelos consumidores, a produção de sensores que produzam baixos níveis de ruído tem sido tomada como um imperativo pelos fabricantes. Em apenas seis anos, os progressos foram de tal ordem que tornaram insuportável o uso de câmaras feitas no início deste lapso de tempo.

É o caso da minha E-P1. Usá-la com qualquer sensibilidade acima de 100 ISO é suficiente para roubar qualquer prazer ao acto de fotografar. Ontem resolvi usá-la – com pouca luz, ISO 400. O resultado foi o que se vê na imagem acima. Quando vi as imagens depois de levantar as sombras, foi assustador: os níveis de ruído de crominância eram dignos de uma compacta do início do Século.

Comparar estas imagens com as dos actuais sensores 4/3 de uma OM-D E-M1 – algumas destas podem ser vistas no blogue de Robin Wong – é como comparar a água e o vinho. A evolução desde o sensor Panasonic de 12,3 MP da E-P1 até à nova geração de sensores Sony é simplesmente impressionante. E, se compararmos a evolução do sensor da Sony Alpha 900 para o sensor da Nikon D750, como fez Mike Johnston, a evolução é ainda mais evidente. Isto apenas significa que a fotografia digital tem boas perspectivas de evolução – desde que os fabricantes deixem de se preocupar com os nerds e se concentrem no que é essencial para a qualidade da imagem.

* * *

A propósito da minha escolha musical de 2015, vou fazer aqui uma pequena adenda. Loud Places continua a ser a melhor canção do ano para o M. V. M., mas a runner-up já não é Let It Happen. Há duas semanas que uma canção me tem perseguido. Ao ouvi-la, lembrava-me de coisas como os Sparks e os Associates, mas depois de descobri-la no You Tube percebi que ainda é melhor. Porque não tem nada de retro, nem de pastiche dos anos 80. É uma canção na qual se ouve uma voz verdadeiramente portentosa – a de John Grant. A canção chama-se Disappointing. Não a considero melhor que Loud Places porque sou um inveterado da música electrónica, mas foi uma das grandes canções do ano.

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(*) Deve notar-se que os scanners, por estarem sujeitos a flutuações de corrente, podem induzir ruído nas digitalizações de películas, o que tem o efeito de adicionar texturas semelhantes ao grão da película às imagens, mesmo às que são feitas com películas 100 ou 125 ASA.

M. V. M.

Precisamos mesmo da focagem automática? (2)

A precisão é outro falso argumento a favor da focagem automática. As pessoas das novas gerações deixaram-se convencer, por qualquer motivo, que todas as fotografias feitas antes da invenção da focagem automática eram falhas em nitidez. Isto é mentira, mas é uma daquelas mentiras que, de tão difundidas e não confirmadas, passam por verdades. A focagem manual pode ser muito mais precisa do que a automática e, de resto, é a única alternativa quando esta última falha, seja por não haver luz suficiente ou por o motivo não ter contraste. Acresce, a este propósito, que, mesmo quando seleccionamos com cuidado o ponto de focagem, a câmara pode não focar nele, mas noutro mais à frente ou mais atrás. Este é um problema que não tem solução: todas a câmaras podem eventualmente fazê-lo. Já me aconteceu, aliás, ao fazer uma fotografia com a E-P1 equipada com uma teleobjectiva e com a focagem automática, seleccionar o ponto de focagem e a fotografia sair nítida em todos os planos, menos naquele ao qual sobrepus o quadrado da selecção da focagem. Isto era exactamente o inverso do que queria. Foi frustrante (ou, pelo menos, desconcertante).

Em contrapartida, com a OM-2, que não tem qualquer possibilidade de focar automaticamente, não só raramente falho uma fotografia por estar desfocada como consigo focar exactamente no objecto que quero manter nítido. É certo que a máquina tem um ecrã de focagem que faz com que o mais difícil seja falhar a focagem, mas também é certo que demoro menos a acertar com a focagem do que a seleccionar o ponto de focagem na E-P1 e consigo focar com precisão mesmo que o objecto que quero manter em foco esteja fora do alcance do anel de microprismas do ecrã de focagem. A minha câmara digital não pode, de maneira nenhuma, ser erigida como exemplo dos benefícios da focagem automática, mas as suas falhas são confrangedoras. Quando não há luz suficiente ou o contraste é escasso, é um espectáculo lamentável ver o elemento frontal da lente deslocar-se para trás e para diante e desistir da focagem.

Felizmente nem todas as câmaras focam automaticamente por detecção de contrastes. As boas câmaras focam por detecção de fase, o que limita o número de possíveis falhanços. Mesmo este sistema, porém, também está sujeito a erros e a funcionar deficientemente. Acresce que, apesar de geralmente superior ao sistema de detecção de contraste das compactas e mirrorless, a detecção de fase é menos precisa, o que por vezes compromete a nitidez da imagem. De resto, como o sistema funciona através de dois sensores que têm de ser implementados num sistema óptico complexo, não pode ser implementado nas câmaras de telémetro nem nas compactas ou nas chamadas mirrorless. Nestas últimas têm sido feitas experiências com um sistema de detecção de fase que funciona a partir da leitura da luz no sensor, através da implementação de microlentes diante dos fotodiodos (chamam-lhe in-sensor phase detection autofocus e podem ler aqui como funciona), mas como este sistema implica que os fotodiodos por detrás das microlentes sejam parcialmente bloqueados, apenas recebendo metade da luz, a câmara reverte para a detecção de contraste – que é menos eficiente em circunstâncias de escassez de luz – quando se fotografa com iluminação deficiente. Ou seja, é uma falsa solução que, ao pretender recolher os benefícios da focagem por detecção de fase, priva o sistema de focagem automática daquela que é justamente a maior vantagem da detecção de fase – a capacidade de focar sob luz escassa.

A focagem automática não foi implementada para ser mais rápida ou precisa: ela visou tornar as câmaras acessíveis a pessoas que se sentiam demasiado intimidadas para as comprar por não terem aptidão para focar manualmente. Constitui, apesar de tudo, um benefício, sobretudo se levarmos em linha de conta a característica que a fotografia digital tem de possibilitar a tomada de um número muito considerável de fotografias em cada sessão. Quando se está a cobrir um evento desportivo, um casamento ou a fotografar a vida selvagem (sobretudo quando se recorre ao disparo contínuo), há pouco tempo para focar manualmente; é útil, nestes casos, saber que a câmara vai substituir-se ao fotógrafo na tarefa de determinar a focagem. Simplesmente, os sistemas de focagem não se substituem ao cérebro humano: eles podem, como vimos, focar no local errado, porque a câmara não tem a inteligência necessária para saber onde o fotógrafo quer o máximo de nitidez, e mesmo falhar a focagem de todo. As deficiências dos sistemas de focagem automática são daquelas coisas que não têm solução, tornando-se necessário aprender a viver com elas. Quando a focagem automática falha, é importante saber focar manualmente, o que é porventura um conceito estranho para quem começou a fotografar após a generalização da focagem automática.

M. V. M.