OCOLOY e outras terapias para os desinspirados

Por vezes há que experimentar qualquer coisa diferente para renovar o entusiasmo. Muitos recorrem à aquisição de material, mas existe o risco de se fazer fotografias desinspiradas com material diferente (não necessariamente melhor), o que não faz com que o problema se resolva.

Uma experiência que alguns recomendam é conhecida pelo acrónimo OCOLOY: one camera, one lens, one year. Trata-se, como os leitores que dominam o inglês (i. e. todos os leitores) já perceberam, de passar um ano a fotografar com apenas uma câmara e uma lente. Os zooms estão excluídos, evidentemente, porque contrariam o espírito da experiência, que é usar apenas uma lente de uma determinada distância focal. (De resto, quem usa zooms não merece ocupar um lugar no seio da espécie humana.)

Que posso dizer acerca disto? Eu não seria capaz de passar um ano usando só uma lente, mas uso sempre a mesma máquina desde 2013 – o que, pelas minhas contas, perfaz mais de um ano – e, sobretudo, houve uma fase da minha vida em que usei apenas uma lente durante um lapso temporal que, se não perfez um ano – foi cerca de três meses –, foi consideravelmente longo. Foi quando comprei a E-P1. Agora, pensando nisso, devo concluir que tive uma inspiração ou um golpe de sorte quando a comprei, porque na mesma caixa vinha uma lente de distância focal fixa, mais concretamente a M.Zuiko 17mm-f/2.8, que não é grande coisa opticamente mas não deixa de ser interessante (à sua maneira). E, sobretudo, foi um instrumento de aprendizagem.

O que é de relevo, neste caso, é que aqueles três meses ensinaram-me muita coisa. Usar uma só distância focal ensinou-me a aproximar-me das coisas e a procurar as melhores perspectivas para aquela distância focal. Ensinou-me tudo o que havia para aprender, bom ou mau, quanto aos 17mm que, no sensor 4/3, fornecem o campo de visão aproximado de uma 35mm. Não interessa se gostei ou não de fotografar com uma distância focal tão mitificada: o que importa foi que retirei enormes ensinamentos da experiência. O OCOLOY dá resultado – mas não me parece que seja necessário um ano: uns seis meses devem chegar para aprender qualquer coisa. Nem que seja a a detestar os zooms.

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No último texto referi que o facto de ter estado privado de fotografar foi produtivo, porque quando saí novamente à rua com a OM senti um contentamento renovado. O que não disse – estou a fazê-lo agora – foi que no dia seguinte, um domingo, o cansaço voltou. A culpa não foi minha nem da máquina: foi dos turistas. É cansativo andar nas ruas do Porto e descobrir-se que se é o único português, mas ainda mais extenuante é ver que toda aquela gente passa cada dois segundos a tirar fotografias compulsivamente, de tudo e delas mesmas. A câmara é uma extensão do corpo do turista: sempre foi. Mas esta obsessão de fotografar tudo é quase doentia.

O apogeu do cansaço foi quando estava à espera de uma boa oportunidade para fotografar uma rua velha do Porto e um palhaço qualquer decidiu que, se eu estava a fotografar aquele lugar, ele tinha mais direito do que eu de fazê-lo e plantou-se à minha frente, com o seu telemovelzinho na mão, durante uma eternidade, sem sequer dizer água-vai. Felizmente, esta rudeza não existe entre os aficionados da fotografia, que são corteses e não fazem aos outros o que não gostariam que lhes fizessem a eles. Um turista com um telemóvel é demasiado estúpido para entender isto.

Mas, fora isto, mantém-se verdadeiro que o afastamento da fotografia durante algum tempo me fez renascer um entusiasmo que estava algo esmorecido, à custa da rotina de só fotografar aos fins-de-semana e raramente sair do Porto. O tempo que passei sem câmara fez-me ver as coisas com olhos renovados, e tenho quase a certeza que o efeito seria mais intenso se tivesse estado ainda mais tempo sem fotografar.

Daí que não me pareça demasiado ousado ou disparatado sugerir uma pausa na fotografia sempre que esta ameaçar tornar-se demasiado rotineira. Fotografar não preenche nenhuma função vital nem é um impulso homeostático: sobreviveremos à privação. E dou por garantido que vai ser benéfico para a inspiração. Mais: pode fazer com que se definam novos objectivos, o que será sempre bom. E fica-se com tempo para se pensar no que temos andado a fazer e no que queremos fazer daí em diante, o que é ainda melhor.

M. V. M.

Privação

Estar privado da minha máquina analógica não é o ideal num fim-de-semana, mas curiosamente não me custou tanto como pensava. E não é por ter chovido todo o fim-de-semana: é, principalmente, por não fazer sentido (do meu ponto de vista, claro) fotografar sem a OM.

Na verdade, não me apetece fotografar com a E-P1. Não por ser obsoleta, nem por ser digital, mas por uma razão muito elementar: não tem visor. Ou melhor: tem um visor óptico que posso montar na sapata do flash, o que torna a experiência de fotografar um pouco mais agradável do que usar o ecrã, mas não tenho o menor controlo do que estou a fazer quando uso o VF-1. Não sei qual é a exposição, não tenho qualquer tipo de informação. Nem sequer sei se tirei a tampa da lente. E só o posso usar com uma lente – uma lente de uma distância focal de que não gosto e falha de nitidez.

Usar as lentes OM é uma maçada. A E-P1 ainda não tem aquelas modernices do focus peaking e do focus stacking, pelo que tudo o que tenho à mão é a possibilidade de ampliar uma porção da imagem (até dez vezes), o que, se lembra aquelas pequenas lupas que saltavam da tampa das TLR, é muito pouco prático e muito, muito lento. Mais vale usar a hiperfocal.

Eu sei que isto me desqualifica por completo. Afinal de contas, se eu gosto de fotografia, devia ser capaz de fotografar com qualquer coisa que tivesse à mão porque o que conta é a fotografia, e não o equipamento, certo?

Errado. Fotografar é um prazer indissociável do equipamento. Não por causa do desempenho deste, ou das suas qualidades, mas porque se torna um prolongamento dos olhos e da mente. Uma câmara que só tem um ecrã para se compor não produz este efeito simbiótico. Pelo menos comigo. Pelo menos depois de experimentar fotografar com um visor tão bom como o da OM-2. E considero este factor hedonístico essencial: se ele não estiver presente, não adianta fotografar. Eu não fotografo por sentir a urgência de fixar algo numa imagem, mas para exprimir as minhas ideias estéticas. Só posso fazê-lo com uma máquina que seja uma extensão do meu corpo e da minha mente. A OM-2 é-o; é perfeita – desde o visor à alavanca de avanço da película, fotografar com ela tornou-se-me tão natural como respirar.

Outra razão por que estar sem a máquina não é tão frustrante como pensava é algo de que me apercebi ontem. Durante uma caminhada, fui tentando contar as oportunidades fotográficas que estava a perder. E foram bem poucas. Algumas delas eram ilusórias: pessoas muito sossegadas e quietas num cenário perfeito. Apercebi-me, então, que essas pessoas estavam muito sossegadas e quietas porque eu não tinha uma máquina fotográfica nas mãos. Se a tivesse, teriam reagido de outra maneira – e a oportunidade teria sido perdida. Mas também não andei verdadeiramente à procura de oportunidades.

Por tudo isto, não foi assim tão custoso passar um fim-de-semana sem fotografar. A minha fotografia não é muito espontânea e, francamente, não sinto tonturas e dores de cabeça por passar um fim-de-semana sem fotografar. Custa, evidentemente, mas não é como passar fome. Nem sequer é como ficar privado de outros prazeres.

Tudo isto é saudável: significa que a fotografia não é uma obsessão. O facto de não o ser faz com que consiga pensar mais lucidamente no que estou a fazer e atribuir-lhe o lugar que realmente ocupa na minha vida. É inestimável, evidentemente, mas não é tudo.

M. V. M.

Um aniversário peculiar

Hoje fui a uma festa de aniversário. Aliás, não foi exactamente uma festa: não havia música ruidosa nem gente a dançar freneticamente. Foi um porto de honra e não comemorava o aniversário de ninguém – ou melhor, de nenhuma pessoa em especial. O porto de honra celebrava o quinto aniversário da Câmaras & Companhia.

O que vão ler a partir daqui é publicidade descarada. Não há, no Porto, escassez de lojas que vendam material fotográfico analógico. A AFF e a Colorfoto vendem rolos, químicos e papel. Até a Fnac vende rolos. E também não é a única loja (e laboratório) exclusivamente dedicada à fotografia convencional. Há, pelo menos, mais duas. Contudo, a Câmaras & Companhia tem qualquer coisa especial: à sua frente está alguém que pôs todo o seu profissionalismo e saber ao dispor dos entusiastas da película. Neste caso é um casal, porque o Raúl Sá Dantas e a Leonor tornaram-se indissociáveis.

É quase inimaginável o que eu aprendi graças a eles. Mesmo se não levo o entusiasmo por equipamento tão longe como o frequentador típico da Câmaras & Companhia, o acervo de conhecimentos que acumulei é assinalável. Se hoje tiro partido da película e da minha OM-2n, devo-o em grande parte ao Raúl e à Leonor.

Eu não vou fingir que sou cliente desde a primeira hora, porque não sou. A Câmaras & Companhia comemorou agora cinco anos e eu só fotografo com película há três anos e nove meses (mais dia menos dia). A primeira vez que entrei na Câmaras & Companhia, em Junho ou Julho de 2012, nem sequer foi para comprar material fotográfico: foi por me ter sentido fascinado – um fascínio à primeira vista – pela antepassada da Olympus E-P1 que usava então. Quis fotografá-la: era a Pen F, que estava sobre um dos expositores da loja. Nessa altura ainda estava longe de imaginar que me iria tornar num cliente assíduo.

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Também não foi a minha primeira escolha. Só cheguei à Câmaras & Companhia em Julho ou Agosto de 2013, numa altura em que já tinha a OM, depois de dois fracassos clamorosos com as revelações e digitalizações de dois T-Max (cujos autores, por decoro, permanecerão inominados). O que posso dizer é que, desde que conheci a qualidade das revelações e digitalizações do R. S. D., não tive mais necessidade de procurar outras lojas e laboratórios. Para quê? Mais ninguém oferece, além da qualidade, o saber e a simpatia que encontro na Câmaras & Companhia. Esta loja não é só uma loja (e um laboratório): é também um lugar de tertúlia e de conhecimento. Além de, evidentemente, ser um regalo para os olhos, com aquela cornucópia de câmaras e lentes clássicas.

Depois de ter entregado ao Raúl o primeiro rolo que confiei à Câmaras & Companhia, após uma longa e frutuosa conversa, despedi-me dele com uma frase muito cliché: citei Humphrey Bogart em Casablanca. Cliché ou não, foi verdade: aquele foi mesmo o início de uma bela amizade.

M. V. M.

Um pouco de camera porn

Como estou completamente sem ideias para escrever no Número f/, não consigo lembrar-me de nada melhor do que publicar algumas imagens da minha estimável Olympus OM-2n, a aniversariante que usurpou o lugar da câmara digital na minha predilecção (mas não o suficiente para dispensar a digital: ainda preciso dela para fotografar a OM…)

M. V. M.

Vídeo

Hoje vou tratar um tema que não é vulgar no Número f/: o vídeo. O meu interesse é a fotografia, mas há dois factores que me levam a entender ser pertinente escrever sobre vídeo num blogue eminentemente fotográfico. O primeiro é o facto de fotografia e vídeo serem artes visuais. O segundo tem que ver com o equipamento: todas as câmaras digitais dos nossos dias, com excepção de algumas câmaras de nicho como as Leica M, estão equipadas com vídeo.

O motivo que me determinou a escrever hoje sobre vídeo não podia ser mais absurdo. Uma vez que faço alguns exercícios caseiros, com e sem levantamento de pesos, parece-me importante fazê-los correctamente, de maneira a evitar lesões. Tive dúvidas, em especial, quanto à maneira como executava um exercício que tem o nome peculiar de «bom dia», o qual consiste em fazer flexões do tronco para a frente segurando nos ombros uma barra com pesos, que se destina a exercitar os músculos erectores da espinha e lombares. (N. do A.: eu tenho a consciência plena de que o leitor está, neste momento, a passar-se com o texto mais estranho que leu no Número f/, mas peço-lhe que tenha um pouco de paciência.)

De maneira a monitorizar os movimentos que faço quando executo este «bom dia», resolvi subtrair a E-P1 a mais um período de hibernação, montá-la no tripé e filmar-me enquanto executava o exercício. Depois aproveitei para filmar outros exercícios. (Se estivesse num ginásio, o PT dir-me-ia se estava a fazer tudo bem ou não, mas os ginásios são caros e frequentados por gente que nada tem que ver comigo.) Foi a minha primeira experiência significativa com vídeo, e os resultados (que, se me permitem, não vou reproduzir aqui, especialmente por ter já apagado os clips de vídeo do cartão de memória) foram surpreendentes.

https://numerofblog.files.wordpress.com/2012/12/img_20111.jpg?w=300&h=225A qualidade do vídeo da E-P1 é extremamente interessante. Apesar de filmar em 720p e 30 fotogramas por segundo, o que pode ser considerado modesto quando comparado com uma Panasonic GH4 ou uma Canon 5D, a imagem tem excelente resolução e, mesmo nas condições de escassez de luz e de movimento relativamente rápido em que filmei, não houve arrastamento de qualquer espécie. As cores são as dos JPEG das Olympus, o que significa que tendem para o saturado, mas são correctas, sem nunca se tornarem berrantes. O equilíbrio dos brancos parece funcionar bem, a medição da exposição é quase perfeita, e o único problema que notei foi com transições rápidas entre muita e pouca luz, em que a câmara parece demorar um pouco a ajustar-se às novas condições e a imagem parece perder um pouco a compostura. Em todo o caso, posso dizer que já ví vídeos feitos com GoPros em que esta transição era muito mais demorada, e mesmo as câmaras onboard dos Fórmula 1 têm enormes problemas quando os carros saem do túnel do circuito de Montecarlo.

Estas características, com excepção das referidas transições, correspondem por inteiro à qualidade de imagem fotográfica da E-P1 em JPEG. O que, infelizmente, inclui a tendência para estourar as altas luzes. Seja como for, ver o desempenho de uma câmara fotográfica digital moderna a filmar vídeo foi uma enorme surpresa. Eu sei que há realizadores que dispensam as Arri e filmam com Canons 5D, mas estava longe de pensar que a E-P1, que hoje pode ser considerada obsoleta, desse tão bons resultados.

O caro leitor fez bem em superar a parte disparatada do exercício, porque acabou de ler o relato da queda de mais um preconceito do M. V. M. Aliás, não era bem um preconceito: era mais desinteresse. O que ultrapassei, com esta experiência, foi a noção que mantinha segundo a qual devemos usar uma câmara fotográfica para fotografar e uma de vídeo para filmar. Esta noção está completamente errada: tenho a certeza que a minha E-P1, a despeito de ter sido lançada há sete anos, bate a maioria das camcorders. E as câmaras de vídeo dedicadas são muito, muito caras.

Simplesmente, o vídeo continua a não me interessar. Gostava de filmar, mas se me propusesse fazê-lo, seria com a mesma intenção que uso na fotografia. O que, provavelmente, implicaria tornar-me numa espécie de cineasta amador – mas neste caso a E-P1 começaria decerto a mostrar algumas limitações. De resto – e pelo menos por enquanto –, os meus interesses continuam firmemente centrados na fotografia.

M. V. M.

Isto não é uma guerra

Linn_Sondek_LP12_LargeOs apologistas do progresso clamam que a evolução remeteu o vinil e a película para a obsolescência e os condenou à extinção, fazendo analogias com comboios a vapor e navios veleiros; os indefectíveis que, acompanhando ou não a evolução (porque nem todos os amantes do vinil e da película vivem amarrados ao passado), preferem os meios considerados antigos, defendem-se dos ataques – sim, porque para muitos isto é uma guerra – com argumentos que nem sempre são convincentes. Mas há também os que conseguem ver as coisas com um pouco mais de clareza e rejeitam a ideia de que se tem de estar de um lado ou do outro.

Eu estou mais perto destes últimos. Vi claramente as vantagens e os inconvenientes de cada um dos meios e fiz opções de acordo com esse conhecimento. Começando pela reprodução musical, posso dizer que nada substitui a satisfação que retiro de ouvir música gravada em vinil: o som é mais dinâmico, mais enérgico, e há uma melhor individualização das notas. Em comparação, o som dos formatos digitais é plano, por ser severamente limitado nas dinâmicas (especialmente a dos graves). Daí que, embora tenha acumulado um número considerável de CD’s, tenha agora mais LP’s – mesmo sem contar com os que tinha antes de aderir ao CD. Compro vinis porque me dá mais prazer ouvi-los. No entanto, não deitei o meu leitor de CD ao lixo: o CD é muito mais prático para a música clássica. Além de haver poucas edições novas de música clássica em vinil (a não ser nas etiquetas «audiófilas»), uma sinfonia desfruta-se melhor se for ouvida de uma vez do que se tiver de me levantar para virar o disco no final de cada andamento. O som não é tão dinâmico, mas é um compromisso aceitável.

Se o som do vinil é, do meu ponto de vista e em termos bastante genéricos, consideravelmente melhor que o digital, a película é mais uma profissão de fé que outra coisa. A fotografia digital há muito ultrapassou o padrão de qualidade do rolo 135 e só o médio formato continua, por enquanto, a resistir à evolução da fotografia digital. Não é uma questão de qualidade em si, porque a película 135 não é falha em aspectos como a nitidez ou o contraste: é, sobretudo, um problema de tamanho. Com um negativo 135, até onde se podia ir na ampliação foi um problema que nunca foi resolvido satisfatoriamente; os profissionais tinham de recorrer ao médio formato para fazer grandes ampliações, deixando o 135 para as fotos de família e as destinadas à imprensa, que raramente eram ampliadas para além do tamanho 15×10. De um modo geral, pode dizer-se que 24×18 (centímetros) é o limite máximo até ao qual um negativo 135 pode ser ampliado – e só se for usada uma boa lente, com muita nitidez, um rolo com muita acutância e um ampliador com uma lente também ela de alta qualidade. A partir desse tamanho a nitidez é severamente prejudicada.

Há mais. Até agora, ainda estou para encontrar uma película a cores que me deixe inteiramente satisfeito. O Kodak Portra só pode ser usado em condições de luz ideais; o Ektar 100 só dá bons resultados com pouca luz; o Ferrania Solaris e o Kodak Gold 200 são por vezes demasiado garridos para o meu gosto. Nas poucas ocasiões em que sinto vontade ou necessidade de fotografar a cores, prefiro recorrer à câmara digital a comprar um rolo (embora ainda me falte experimentar os Fuji 160NS e 400H, que são excelentes – ao que se diz – mas muito caros).

a01Mas há dois factores que me fizeram optar por fotografar com película. O primeiro é as limitações da minha câmara digital. Com esta, posso fazer impressões em grandes tamanhos, mas não tenho, pelo menos com as lentes que comprei especificamente para esta câmara, a nitidez que consigo com a OM e os rolos Ilford. Embora a nitidez nem sempre seja o mais importante, é decisiva nas minhas escolhas. Isto deve soar estranhíssimo aos ouvidos de um digitalista militante, mas é verdade. Para obter uma boa nitidez com a câmara digital, tenho de recorrer às lentes da OM – e mesmo assim os resultados não são melhores do que os que tenho com película.

O outro factor é eu não conseguir, por muitas horas que perca às voltas com o programa de edição de imagem, reproduzir por via digital a estética que procuro para as fotografias a preto-e-branco. Com os rolos – especialmente os Ilford, mas também com o Tri-X – consigo esse look imediatamente, sem recorrer à edição de imagem; com as fotografias digitais posso chegar perto, mas nunca é exactamente a mesma coisa. Há sempre algo que denuncia a natureza digital da imagem.

O que quero dizer com este texto é que não existe, para mim, uma trincheira a separar os domínios analógico e digital. Esta não é nenhuma guerra e, mesmo se fosse, nenhuma das partes teria a supremacia absoluta sobre a outra. A fotografia digital pode não ter ainda suplantado a analógica – e, no que se refere à estética única da película a preto-e-branco, nunca a suplantará –, mas quantas fotografias «analógicas» conheceríamos hoje se não fosse a digitalização?

M. V. M.

A melhor parte de fotografar

Qual é a melhor parte de fotografar? Esta pergunta veio-me à mente com alguma naturalidade, depois de mais uma visita da minha sobrinha de três anos – quase quatro: completa-os no dia 13 – ao meu bureau fotográfico. «Há muito tempo que não brincamos com o tripé», disse ela.

Montei a E-P1, que saiu assim de mais um período de hibernação, e regulei-a no modo P (parece-me que ainda é cedo para ensiná-la a definir os valores de exposição manualmente). Uma vez que o meu gato permaneceu complacentemente em cima de um puff durante a sessão fotográfica, tornou-se no modelo perfeito, já que a Maria Luís (que já se chamava assim antes de a administradora não-executiva da Arrow Global se ter tornado numa figura pública) tem um fascínio pelo Sousa que, todavia, é correspondido com patadas e arranhões (mas ela não vai desistir tão facilmente dele!).

Os miúdos desta idade têm cérebros que se assemelham a esponjas, no que respeita a absorver conhecimentos. Só precisei de lhe explicar uma vez como se usa a cabeça do tripé para que a Maria Luís entendesse o seu funcionamento e a usasse correctamente. Ela pareceu retirar um prazer imenso das fotografias que ia fazendo – sendo que as últimas três ou quatro foram inteiramente da sua autoria, já que escolheu o enquadramento sozinha (e conseguiu um bom bokeh com a pancake 17mm!).

Temos fotógrafa.

Curiosamente, ver as fotografias no computador deixou a Maria Luís relativamente indiferente. Pelo menos não a divertiu tanto como tirar as fotografias. Apesar de o que uma criança de quatro (quase) anos faz com uma câmara não ser muito relevante – excepto por poder estar a desenvolver um gosto precoce pela fotografia – esta diferença de atitudes deixou-me a pensar sobre o que é melhor – mais divertido, mais recompensador –: é o processo de fazer as fotografias ou ver o resultado final?

A minha mente racionalista diz-me que é este último. Com efeito, em termos estritamente objectivos, procurar um motivo e usar a máquina são apenas meios para atingir um fim, que é a imagem final. Simplesmente, a fotografia não pode ser reduzida a este finalismo. O objectivo de produzir uma imagem é, só por si, irrelevante; antes disso está a questão de saber que imagem se quer colher, a qual desencadeia uma série interminável de outras questões que não são resolvidas pela razão.

Antes de mais há que saber o que se quer fotografar. Esta é uma questão de gosto e traz consigo as inclinações, preferências, opções estéticas e discursivas de quem fotografa. Nada disto tem que ver com considerações racionais. Depois há a sensibilidade, que determina a escolha dos motivos, bem como a composição e o enquadramento. De novo, a razão não é para aqui chamada.

Mas o uso de uma câmara também não é necessariamente um acto determinado pela razão. A escolha de uma câmara pode (reparem que não digo deve) ser determinada por considerações de ordem racional, mas há muito mais do que meras questões materiais no manuseamento de uma câmara. Quando uso a OM, a sensação de disparar é eminentemente física: é como se a vibração do espelho e do obturador se propagasse ao meu corpo. Posso tomar em conta que tanta vibração pode prejudicar a nitidez (não prejudica), mas o que prevalece, no fim de contas, é o prazer que me dá usar esta máquina ao fotografar. Aquele ruído, e sentir aquelas peças em movimento, agrada-me e torna o uso desta máquina uma experiência difícil de descrever a quem só vir pragmatismo na escolha de uma câmara.

Claro que ver as fotografias também me agrada – mas só quanto às bem sucedidas. Mas esta é uma daquelas actividades, como a caça e muitas outras, em relação às quais o prazer de usar os meios é maior do que aquele que se sente por atingir os fins. Mais importante que a caça é a caçada, se podemos dizer assim. Fazer uma boa fotografia é gratificante e satisfatório, mas o caminho que se percorre em busca de um motivo, a preparação da imagem e o uso da câmara são fases deste iter que fornecem tanto prazer como o fim em si.

Se tivesse mesmo de dizer qual me dá mais prazer – se ver o produto final ou percorrer o caminho até chegar a ele –, ficaria seriamente indeciso. Algumas fotografias cativam-me; são como drogas, no dizer do brilhante Bert Stern. Sou capaz de ficar largos minutos a olhar para cada uma delas. Mas fazer caminhadas com a atenção no máximo à procura de boas fotografias, bem como manusear a máquina, não é menos agradável.

Acima de tudo, uma boa imagem agrada quando – e porque – é o culminar de todo um processo em que as sensações estiveram envolvidas. É a recompensa de toda essa busca que se empreendeu. Quanto maior o prazer que tivermos extraído desta última, maior será aquele que retiramos de ver a fotografia que daí resultou. Digamos que o que nos agrada, nessa fotografia, é o facto de esse prazer estar incorporado na imagem – mesmo se só quem fez a fotografia pode vê-lo.

M. V. M.