Um pouco de desporto

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Eu sei que não devia. Os textos do Número f/ andam escassos, e ainda por cima desperdiço largura de banda com prosa que nada tem que ver com fotografia, mas vou fazê-lo porque sim. Porque me apetece escrever sobre o que se vai seguir. É bom ser o dono do blogue e não ter de cumprir ordens.

O texto de hoje é sobre desporto. Não, não é sobre futebol, apesar de esta palavra ser sinónima de «desporto» na língua portuguesa. A minha relação com o futebol é muito simples: quando eu era criança, o meu pai tentou fomentar o meu gosto pelo jogo da bola e levou-me por diversas vezes ao estádio em dia de jogos. A atenção que procurava dedicar ao jogo, para tentar entender a lógica do futebol, era desviada para as bancadas, onde adeptos completamente embriagados insultavam e comprometiam a boa reputação do árbitro. Nunca vi qual o apelo de um desporto cujo principal interesse era injuriar o árbitro, pelo que a minha paixão pela rapaqueca morreu antes de ter nascido. Acordou morta, por assim dizer.

Claro que, como sempre gostei de automóveis, nutro um interesse considerável pela Fórmula 1 e pelos ralis, mas infelizmente os adeptos da Fórmula 1 são agora, graças à popularidade de pilotos tão objeccionáveis como Ayrton Senna e Fernando Alonso, de um nível quase tão rasteiro como o dos bêbados que insultam o árbitro nos estádios, o que diminuiu substancialmente a minha vontade de atrasar o almoço de Domingo para ver um grande prémio. (Quanto aos ralis, não vejo nada de interessante em provas nas quais correm carrinhos utilitários como o Ford Fiesta e o Hyundai i20.)

Quando finalmente me resolvi a subscrever um serviço de TV por cabo, as minhas sessões de zapping levaram-me muitas vezes aos torneios de bilhar Snooker que o Eurosport transmite. Há cerca de vinte anos, um amigo um pouco mais velho do que eu inculcou-me o gosto pelo bilhar, mas o bilhar que jogávamos era o mais comum, a que erroneamente chamamos «snooker» mas é, na verdade, o 8-Ball. O Snooker propriamente dito joga-se numa mesa gigantesca, com quinze bolas vermelhas, seis de outras cores – amarela, castanha, verde, azul, rosa e preta – e uma branca. As regras podem ser consultadas aqui.

Só o xadrez é mais cerebral que o Snooker. Além da perícia no controlo da bola branca que lhe é exigida, o jogador tem de definir mentalmente todas as jogadas e antecipar-se às do adversário, tal como o faria num jogo de xadrez. Eu nunca seria um bom jogador de Snooker, porque é um jogo que, quando carece de ser defensivo – e é-o muito frequentemente –, exige enorme paciência, calma e cabeça fria. Além destes requisitos, as regras do Snooker impõem fair play e gentlemanship. Claro que há problemas: o Snooker tornou-se num espectáculo global que envolve muito dinheiro e já houve jogadores suspensos por jogarem deliberadamente para favorecer esquemas de apostas fraudulentas, e houve mesmo um jogador, um dos melhores de sempre, que esteve suspenso só por ter tomado conhecimento de um esquema de fraude e não o ter denunciado, mas nada disto impede que o Snooker seja um desporto espectacular. Evidentemente, a «espectacularidade» depende da predisposição do espectador para ver jogadas demoradas que, por vezes, se resumem a encostar a bola branca numa outra, causando dificuldades ao adversário, mas «snooker» é o nome de uma jogada pela qual o jogador deixa a bola que vai ser jogada pelo adversário fora do alcance da branca «escondendo» esta última.

De que gosto no Snooker? Este jogo é inteligência em acção. Os jogadores desenvolvem rapidez de raciocínio e conhecimentos intuitivos de física e matemática: eles têm de calcular ângulos, forças, velocidades, trajectórias. E têm de ser matreiros, porque o Snooker não é só ensacar bolas: é também fazer snookers – esconder a bola branca de maneira a dificultar as jogadas do adversário. (Curiosamente, o Snooker parece ser um desporto que não requer grande preparação física: alguns jogadores estão para além do limiar da obesidade.)

Há um certo consenso em que o melhor jogador de sempre é Ronnie O’Sullivan, mas há muitas outras predilecções à escolha, dependendo dos gostos de cada um. Se o leitor gosta de um jogador exuberante, nunca poderá apreciar outro que não seja Ronnie «The Rocket» O’Sullivan. Os mais cerebrais apreciarão John Higgins e Mark Selby, e há ainda outros jogadores que, por diferentes razões, encontrarão o seu lugar no coraçãozinho dos adeptos e adeptas: Judd Trump, Mark Williams, Neil Robertson, Luca Brecel, Jack Lisowski e uma hoste de excelentes jogadores chineses de nomes impossíveis de memorizar (lembrei-me de um: Yan Bingtao!), mas o verdadeiro apreciador de bilhar Snooker nunca esquecerá a lenda chamada Stephen Hendry: ver o jovem Hendry jogar era – ele deixou a modalidade em 2012 – de fazer cair o queixo. Que espectáculo extraordinário é, ainda hoje – há inúmeros vídeos no Youtube –, ver o olhar carregado de pura inteligência de Stephen Hendry, e ver aquela velocidade de raciocínio e perfeição na execução. Decerto, a sua juventude e elegância contribuíram em muito para a construção da lenda, mas não tenho dúvidas que Hendry foi o melhor e mais completo de sempre, a despeito da enormíssima qualidade de Ronnie O’Sullivan. Tenho pena que o meu interesse pelo Snooker só tenha nascido numa altura em que Hendry já se reformara.

M. V. M.

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Quando é que uma fotografia é uma fotografia?

Um texto publicado recentemente no The Online Photographer levantava uma questão extremamente interessante: as fotografias existem antes de serem impressas, ampliadas, digitalizadas ou publicadas? O artigo referia-se a um debate estafado, que é o de saber se uma imagem pode ser considerada uma «fotografia» quando apenas existe enquanto ficheiro de imagem; apesar de o aspecto jurídico não ter sido aquele que o autor teve em mente, não deixa de ser interessante mencioná-lo – especialmente se compararmos as respostas dos sistemas do direito de autor e do copyright.

Na Europa continental não é necessário que uma obra seja fixada para que seja protegida pelo direito de autor. Tudo o que é preciso é que a obra seja exteriorizada – que seja discernível por qualquer forma. Portanto, o momento em que a fotografia é criada – aquele que determina a protecção legal – é quando o fotógrafo pressiona o botão do obturador. É este o momento em que a fotografia deixa de ser uma ideia na mente do fotógrafo e se exterioriza. Por esta razão, a fotografia existe mesmo sob a forma de ficheiro digital (o mesmo quanto ao negativo).

Esta não é uma questão ociosa. Pode ser necessário provar a originalidade de uma fotografia, caso em que os metadados podem ser usados ​​como prova. O mesmo quanto à prova da autoria da obra fotográfica, que pode ser feita com recurso ao ficheiro digital ou ao negativo.

Não é assim que as coisas se passam nos sistemas que adoptam o copyright. Nestes é a cópia que é protegida pelo direito de autor. A fotografia não é protegida se não for reproduzida por meio da sua fixação, seja em papel ou em qualquer outro meio que a traga para o mundo dos objectos. De acordo com o US Copyright Act, a obra é criada quando é fixada numa cópia pela primeira vez. Claro que, como os Estados Unidos assinaram a Convenção de Berna, os seus tribunais podem decidir que o momento da criação é aquele em que é pressionado o botão do obturador. Não sei se já existe alguma jurisprudência a este respeito. Sei que o US Copyright Office, que é o organismo com competência para o registo de obras protegidas, aceita o registo de ficheiros digitais, mas não sei se o faz enquanto obra protegida ou a que outro título (mas vou informar-me!).

Por Bruce Gilden

Isto quanto ao aspecto legal da questão e quanto às fotografias que ainda não abandonaram o conforto placentário do cartão de memória, mas a questão de saber quando uma fotografia é uma fotografia não se esgota nisto. Uma vez que tenho 54 anos e uma gaveta enorme cheia de recordações sob a forma de fotografias impressas, resisti durante muito tempo à ideia de que um ficheiro digital de imagem é uma fotografia real, mas acabei por me conformar com a noção de que aquilo que vemos no ecrã do computador é uma fotografia. O que vemos no ecrã é mesmo uma fotografia. Eu já desisti de imprimir ou ampliar as minhas fotografias, mesmo as que eu considero mais conseguidas. Não sou um fotógrafo famoso e provavelmente as minhas fotografias nunca serão expostas: por que havia de me dar a essa maçada (e despesa)?

Não tenho nenhum problema com as fotografias virtuais. Claro que é sempre mais interessante ver os retratos de Bruce Gilden numa exposição, devidamente impressos em papel de qualidade, do que vê-los no computador (e muito menos num smartphone). A experiência de ver aqueles rostos numa exposição, em formatos grandes, é simplesmente inimitável. Mas – e se alguém nunca tiver a oportunidade de ver esses retratos numa exposição? É bem melhor vê-los num computador do que nunca vê-los. Estes são os tempos em que vivemos; muita coisa pode ter ficado perdida, mas seria estúpido não aproveitar as comodidades e o acesso à informação que o computador põe ao nosso alcance.

M. V. M.

Uma questão de verticalidade

Não sei se o leitor já se apercebeu, mas a maneira como as pessoas vêem fotografias está a mudar. A fotografia móvel, além de transformar o que já era banal numa orgia nauseabunda de excesso e sobredosagem, está a ameaçar mudar a percepção comum quanto à orientação da fotografia. Tal como está a acontecer com o vídeo, em que se aceita a orientação vertical como uma espécie de maneira alternativa de gravar e ver vídeos (enquanto não se torna no novo padrão), as fotografias tendem a ser todas na vertical.

Eu não tenho nada contra a orientação vertical das fotografias. Tenho contra os vídeos verticais, sobretudo por estes tornarem a percepção da dinâmica da imagem demasiado confusa. É como se estivéssemos a ver a acção através de uma frincha estreita: não nos apercebemos facilmente do que se está realmente a passar (e a perspectiva de grande-angular dos telemóveis também não ajuda em nada). Nós não vemos na vertical, a menos que usemos antolhos: a nossa visão é horizontal e panorâmica, o que faz com que estes vídeos sejam extremamente desconfortáveis de ver. Pelo menos para mim.

Quanto à fotografia, porém, eu usei sempre a orientação vertical – embora menos frequentemente que a horizontal. Não contem comigo para rotular a orientação vertical como «retrato» e a horizontal como «paisagem»: eu uso a orientação que me parece adequada em função da composição e do enquadramento. Não há regras. Se quero descrever um motivo em altura (como na fotografia que ilustra o texto, na qual figura um rapaz que media seguramente mais de 2 metros e 10), ou se as linhas da composição resultam melhor se usar a orientação vertical, eu uso-a. Simplesmente, as pessoas que fotografam com os seus smartphones não usam a orientação vertical com estas intenções: usam-na porque sim, porque é assim que toda a gente faz e porque o telemóvel se usa na vertical. Podíamos pensar que era pelo conforto de segurar o telemóvel só com uma mão, o que tornaria este vício perdoável, mas não – estas pessoas seguram o telemóvel na vertical com as duas mãos quando fotografam.

O que escrevi quanto ao vídeo aplica-se à fotografia, embora com excepções. Como vemos na horizontal, a orientação vertical é desaconselhada, a menos que algo a justifique. Pode ser por se querer favorecer a dimensão da altura ou por outra razão qualquer, mas fotografar sistematicamente (ou exclusivamente) na vertical é um disparate, especialmente se a razão para fazê-lo é o facto de o telemóvel ser segurado e visualizado na orientação vertical. Isto é tão estúpido como tirar fotografias exclusivamente na horizontal por as câmaras fotográficas clássicas serem concebidas para fotografar mais frequentemente no plano horizontal.

Alguns poderão criticar-me por estar a postular um dogma fotográfico, mas não é nada disso que estou a fazer. Já disse que uso frequentemente a orientação vertical nas minhas fotografias e que não há regras; o que me preocupa é que a fotografia – e também o vídeo – esteja a assumir a orientação vertical como o novo padrão, especialmente pelo motivo frívolo da influência do telemóvel. Dantes ainda se via pessoas a segurar o telemóvel na horizontal para fotografar, mas agora não: toda a gente fotografa na vertical. Se o fizessem por razões compreensíveis, que remédio teria eu a não ser resignar-me, mas não: as pessoas fotografam assim porque sim, porque é assim que se segura num telemóvel. Não consigo conceber nada mais dogmático do que isto. Nem mais acéfalo.

M. V. M.

Fora do tema: uma notícia triste

Hoje recebi uma notícia triste via email. O Conselho Regional do Porto da Ordem dos Advogados comunicou o falecimento do Dr. Alberto Luís, advogado da cidade do Porto.

É possível que alguns não estranhem este nome, já que o Dr. Alberto Luís era o marido de uma figura notória do Porto: a escritora Agustina Bessa-Luís. (Curiosamente, conheceram-se através de um anúncio de jornal.) Mas não foi este status marital agora interrompido que me entristeceu: eu tive oportunidade de conhecer pessoalmente o Dr. Alberto Luís. E, apesar das circunstâncias – às quais passarei de seguida –, foi uma experiência extremamente enriquecedora e agradável.

Em 1989 eu tinha acabado de me licenciar e inscrevi-me na Ordem dos Advogados como advogado estagiário. Nesta condição, tive de frequentar aulas providas pelo centro de estágio do então denominado Conselho Distrital do Porto da Ordem. Tanto quanto me lembro, tive aulas de Processo Civil (uma duplicação inútil e soporífica da cadeira da faculdade), Direito Comercial, Processo Penal e Deontologia Profissional, que era a única matéria com um pouco de pertinência para advogados estagiários. Ora, estas aulas de Deontologia eram ministradas pelo Dr. Alberto Luís.

As aulas foram extremamente enriquecedoras. Não necessariamente pelas matérias ministradas, mas sobretudo pelo brilho que o Dr. Alberto Luís lhes trazia. Os relatos da sua experiência pessoal eram de uma riqueza e interesse tal que me levaram a apreciar muito mais este aspecto do que os ensinamentos sobre deontologia: na verdade, bastava-me ler as normas do Estatuto da Ordem dos Advogados para conhecer esta matéria, pelo que aquilo que aproveitava dessas aulas era a narração dos episódios da vida profissional – especialmente por serem contados por um homem ilustrado e um orador brilhante.

Não que essas aulas agradassem a todos, note-se bem: surpreendi a alguns colegas comentários corrosivos acerca da pretensa senilidade do Dr. Alberto Luís. O que me deixou confuso, porquanto não apenas escutava com todo o interesse o que ele dizia, como me apercebia que os episódios e pequenas histórias narrados não eram tergiversações: tinham sempre cabimento e integravam-se num discurso lógico, estruturado e coerente. Nem todos têm paciência para este estilo docente: alguns prefeririam algo mais objectivo e directo – mas que melhor do que a experiência profissional de um advogado que era a encarnação dos valores deontológicos para aprender a ética da profissão?

O curso de advogado estagiário obrigava à prestação de uma prova escrita – neste caso uma dissertação escrita sobre um tema à escolha (eu escrevi um texto mediocríssimo sobre a prisão preventiva) – e provas orais: curiosamente, apenas me lembro de duas destas últimas: a de Processo Penal – um conjunto de perguntas aleatórias sobre assuntos aleatórios formuladas pelo Dr. Gil Moreira dos Santos (penso que não fiz grande figura) – e a de Deontologia, na qual me defrontei (por assim dizer) com o Dr. Alberto Luís. Houve uma certa titubeação nas minhas respostas: a doença que havia de vitimar o meu pai um ano mais tarde roubara-me concentração e tempo, pelo que não consegui preparar-me convenientemente. Simplesmente, eu posso permitir-me a imodéstia de dizer que sou um bom conversador. Isto possibilitou-me suprir as minhas deficiências no conhecimento da matéria, mas era visível que estava a ser esquivo. Quando o Dr. Alberto Luís insistiu que eu respondesse a uma pergunta concreta sobre a deontologia profissional, respondi qualquer coisa como que nenhuma regra deontológica era mais importante que a minha consciência.

Não sei se o Dr. Alberto Luís apreciou a minha resposta ou se apenas confirmou a sua convicção de que eu estava particularmente mal preparado (o que era pouco importante, porque a prova não era eliminatória), mas sorriu à minha resposta e, logo depois, olhou para um papel que tinha à sua frente e disse-me que eu tinha um argumento muito forte a meu favor: era licenciado por Coimbra. Pois era (sou). Nós, os alumni conimbricensii, conhecemo-nos uns aos outros. Sobretudo, sabemos que Coimbra nos forja de uma maneira muito especial.

Tive o prazer e a honra de conhecer um dos homens mais notáveis da cidade do Porto. Aquilo não foi uma prova oral: foi uma conversa. Uma das mais interessantes e memoráveis da minha vida. Tanto que me lembro bem dela, mesmo que tenham passado vinte e oito anos. Algumas pessoas deixam marcas destas nas outras. Penso que é a isto que chamam eternidade.

M. V. M.

O pior fotógrafo do mundo

A Mariana é a mais recente adição ao número de entusiastas que se congregam à volta do R. S. D., o paladino da fotografia analógica. Uma rapariga tão alta que um meia-dose como eu (1,70m faz de mim um baixote nos dias que correm) fica com vertigens só de olhar para ela, e com um entusiasmo encorajador pela fotografia analógica de médio formato.

Ontem, quando fui buscar mais uns negativos, a Mariana mostrou a todos, triunfantemente, o resultado de uma demorada pesquisa que empreendera na Internet. O objectivo? Encontrar um determinado fotógrafo que lhe havia sido mencionado. E encontrou: é um tipo de Tomar chamado Bizarro – um apelido muito adequado, diga-se –, cujas fotografias são demasiado más até para se tornar num Ed Wood da fotografia. Os modelos que usa, em particular, podiam fazer pensar que este Bizarro tenta mostrar o lado grotesco, o grande freak show da humanidade, como Diane Arbus, mas não é nada disso: ele está convencido que faz fotografias muito sensuais e artísticas e parece ter um fetiche por pessoas feias. Três raparigas em trajes diminutivos, todas elas com corpos e faces errados, segurando um jornal regional no qual se lê, na primeira página, um título sobre a morte de um idoso é (penso eu) tudo menos sexy. A fotografia de uma rapariga em lingerie montada no alto de um escadote de alumínio manchado de tinta podia ser interpretada como uma alusão sarcástica aos piropos dos trolhas e uma denúncia do assédio sexual, mas tenho razões para acreditar que não era bem isto que estava na mente do fotógrafo.

As fotografias deste indivíduo podem ser risíveis numa primeira apreciação, mas quando se pensa um pouco as coisas assumem uma dimensão algo deprimente. O sujeito farta-se de ser ridicularizado na Internet – o Google mostra uma página referente a ele em primeiro lugar quando se pesquisa «o pior fotógrafo do mundo» –, mas parece extremamente orgulhoso deste status adquirido. Talvez haja quem se honre de ser fotografado pelo pior fotógrafo do mundo – o que implica ser fotografado em cenários grotescos, com uma iluminação péssima, em poses ridículas e com expressões faciais absurdas –, e o homem tenha procura por ser tão mau; ou talvez ele pense que ser o pior fotógrafo do mundo é uma distinção, não sei. O que eu sei é que ele não tem o menor pudor em ostentar este atributo; pelo contrário, parece empenhado em fotografar cada vez pior. As suas fotografias atingem um zénite de ridículo e mau gosto a cada nova publicação no facebook, mas o homem tem o requinte de descaro de publicar photobooks.

Ver estas fotografias teve um efeito péssimo sobre mim. Apesar de me ter rido das fotografias que a Mariana mostrou, mais tarde dei por mim a pensar em assuntos como a percepção pública da pessoa que faz as fotografias. Tive sempre por verdadeiro que as fotografias reflectem a personalidade de quem as executa e, no caso deste Bizarro, não sei o que é mais relevante: será o patético (em sentido verdadeiro, o que provoca um pathos) que estas fotografias mostram, ou a boçalidade de quem sabe ser mau e não faz nada para se corrigir? Saber-se que se é mau e não querer melhorar, estar numa actividade e sentir orgulho em ser o pior, é triste – ou ridículo. Não consigo decidir. Em todo o caso, é sempre lamentável ver pessoas com uma falta tão notória de percepção de si mesmas. (Não quero sequer pensar que o homem faz questão de ser um boçal e se orgulha disso.)

Eu tenho uma característica que nunca soube interpretar muito bem: quando todos escarnecem do maluquinho, do bêbado e do boçal que frequentam o café lá da rua (uma rua qualquer: não me refiro a pessoas ou lugares em concreto), eu entristeço-me e compadeço-me deles. Nunca consigo deixar de pensar como se sentirão estas pessoas que se expõem – consciente ou inconscientemente – à irrisão pública e ponho-me a imaginar que demónios habitam aquelas mentes. Provavelmente são pessoas tão falhas de auto-avaliação que não se apercebem da figura que fazem, mas despertam-me compaixão à mesma. O caso deste Bizarro tem um relevo especial porque está na órbita da fotografia. E eu, antes (ou depois) de me rir, não consigo deixar de pensar como será que as pessoas vêem as minhas fotografias. Apesar de ter consciência de que não são tão más que provoquem escárnio universal – pelo menos tenho conhecimento das minhas limitações e a sensatez de não me aventurar por áreas que não domino –, vem-me à mente o aforismo popular quem tem telhados de vidro não atira pedras ao do vizinho.

Talvez eu não seja tão mau como o pior, mas ver estas fotografias e a reacção que provocam é uma chamada de atenção: é um aviso de que tenho de melhorar constantemente. E que não tenho o direito de ser soberbo e olhar para as fotografias dos outros de forma escarninha, mesmo que esses outros sejam os piores fotógrafos do mundo.

M. V. M.

Representação e expressão

Eu não sei quantos leitores fotografam e, entre os que o fazem, quantos usam redes sociais (Flickr, Instagram, 500px, etc.) para publicar as suas fotografias. Eu uso o Flickr: é uma forma de mostrar as fotografias e também de armazená-las (além da memória do computador e do disco externo). Uma coisa aprendi com o Flickr: a popularidade das fotografias não é a medida do seu valor.

Eu explico: houve várias ocasiões em que me apareceu um número desmesurado de notificações em relação a certas fotografias. Estas últimas, cerca de dez ao todo, foram publicadas numa página chamada «Explore». Há um grupo de sujeitos que utiliza as fotografias de outras pessoas  e as publica na referida página sem que estas últimas possam suscitar qualquer oposição. Os autores das fotografias ficam felizes da vida porque recebem milhares – muitos milhares – de visualizações e as suas fotografias são adicionadas às favoritas de um número incontável de visitantes do Flickr, mas nada disto me impressiona.

Na verdade, quando isto me acontece, fico indiferente. Por duas razões: a primeira é que não fotografo para ser imensamente popular. Fotografo para satisfazer uma ideia estética, ou outra coisa qualquer, mas já passei a fase do olha que bom que eu sou há muito. A segunda é que as fotografias que utilizam abusivamente ao publicá-las neste Explore são meramente banais. Não estão de maneira nenhuma entre as minhas mais satisfatórias. (A minha fotografia «mais satisfatória» é a que vou fazer amanhã, parafraseando a grande Imogen Cunningham.) São, invariavelmente, cenas «de rua», que é o que eu vou fazendo enquanto não encontro um objecto que verdadeiramente me interessa.

As fotografias em que pretendo exprimir alguma coisa diferente são, invariavelmente, as menos populares. Têm poucas visualizações e ninguém as inclui entre as suas favoritas, mas não levo isto a mal. É uma coisa que acontece por causa da forma como a maioria das pessoas vê fotografias: apenas a estética do motivo lhes interessa. Para a maioria das pessoas, a fotografia é representação. Aqueles que estão receptivos a interpretar uma fotografia e ver o que se quis exprimir com elas é extremamente reduzido. Lembro-me de,uma vez, ter mostrado algumas impressões a um amigo particularmente culto e este as ter olhado com uma indiferença que me entristeceu: estava à espera de ver fotografias de pessoas ou paisagens reconhecíveis. Não lhe interessou a estética, nem o estado de espírito que elas transmitiam.

Ainda há muita gente para quem a fotografia é a mera reprodução da imagem de coisas ou pessoas. Aliás, dizer «muita gente» é um eufemismo: os que se predispõem a ver o que a fotografia exprime são uma pequena minoria – e, a alguns, é preciso dizer-lhes o que a fotografia exprime. É triste? Certamente. Vai fazer-me abandonar as minhas tentativas de fazer fotografias expressivas? Não.

Tomemos o exemplo da fotografia do topo: estava num parque de estacionamento triste, vazio, escuro e medonho – uma metáfora da solidão, portanto – e dirigia-me para o meu carro quando vi um automóvel que foi sempre um dos meus favoritos na sua espécie: um Alfa Romeo GT Coupé, com as suas ópticas traseiras minimalistas. Pensei que o contraste entre a linha e a cor da óptica do Alfa GT com o vazio e a escuridão dava uma imagem expressiva e interessante, mas pelos vistos enganei-me redondamente: a fotografia é inacreditavelmente impopular. É evidente que muitos viram nela apenas um farolim de um carro, mas não foi isso que eu vi. Ou, pelo menos, não foi apenas isso. O que eu vi, quando me apercebi da presença do Alfa GT naquele lugar, foi uma série de contrastes dos quais me apercebi instantaneamente: os contrastes entre a beleza da linha do automóvel e a fealdade prosaica do parque de estacionamento, entre o design curvilíneo de génio e a construção funcional e rectangular do lugar que alojava o automóvel e, sobretudo, entre os prazeres terrenos que um Alfa Romeo simboliza e a solidão escura, sinistra e vazia do lugar. E também a realidade de que aquele automóvel vistoso não era mais que um mero objecto inanimado, reduzido a um vulto indistinto pela escuridão. Sob este ponto de vista, esta fotografia parece-me uma das minhas mais conseguidas – porque consegui exprimir qualquer coisa. É uma pena se outros não a compreendem, mas que posso fazer se a predisposição para compreender não existe?

M. V. M.

As minhas inquietações

Lembram-se de, no último texto, ter escrito: «tenho a certeza de que vou ficar desiludido quando receber as digitalizações», referindo-me ao meu último rolo – o tal que demorei dois meses a expor? Pois bem: não fiquei desiludido. Também não fiquei encantado: cerca de metade das fotografias são desinteressantes, mal feitas ou falhadas por qualquer outra razão. A outra metade não é nada por que sinta um orgulho desmedido, mas algumas das fotografias são passos na direcção certa. A direcção certa é a de usar nelas uma linguagem que seja só minha. Ainda não cheguei lá, mas pelo menos sei por onde ir.

Por vezes pergunto-me por que sou assim. Às vezes tenho o sentimento de que esta minha busca da originalidade é quase obsessiva. Vejo outras pessoas a fotografar, todas contentes, sem preocupações de qualquer espécie (embora por vezes ainda me apeteça ver um piano Bösendorfer de concerto a cair de grande altura sobre pessoas que fazem selfies ou fotografam com tablets) e sinto-me alheado, desirmanado, desenraizado. Tenho oportunidades de fotografar em grupo ou com outra pessoa, mas rejeito-as com a veemência de um sociopata. Nunca pertenceria a um clube de fotografia nem participaria em competições. A fotografia é uma caça – e, no meu caso, uma caça solitária: as presas não são para partilhar e a presença de vários caçadores espanta a caça.

Talvez leve as coisas demasiado a sério, especialmente tendo em conta que não sou nenhum Paulo Nozolino; mas sinto que, se não aspirar a fazer boas fotografias, nunca mais vou sequer conseguir fazer alguma que, pelo menos, seja razoável. Também não sou nenhum guardião da arte, mas assumo que devo dar um contributo, mesmo que seja um grão de areia numa praia, para que a fotografia não seja completamente abastardada.

Sim, porque eu sou daqueles esquisitinhos que se escandalizam por haver demasiada gente a tirar fotografias. Não me refiro aos turistas e às selfies, mas aos pseudo-artistas, àqueles que não fazem mais que copiar e imitar o que outros fizeram. Os turistas e os narcisistas de pouco me importam, porque o que fazem é natural. O facto de todos os smartphones terem câmaras incorporadas é um convite a fotografar e, mesmo que as fotografias não tenham qualidade nem exprimam nada de especial, as pessoas divertem-se com o que têm à mão. Não há nada de mal nisto; o meu único motivo de irritação é a figura esplendorosamente estúpida que algumas pessoas fazem quando tiram selfies, mas é a figura, e não a selfie, que me enerva. E nunca por muito tempo.

Os pretensiosos, esses, são a pior espécie à superfície da terra. Eles tornam a atmosfera irrespirável com os pastiches que pretendem fazer passar por arte. Cometem o pecado mortal de ser banais: nunca vou compreender por que razão toda a gente quer fazer fotografias iguais a outras: fotografias nocturnas de rastos de estrelas, auroras boreais, paisagens de montanhas com perspectiva de ultra-grande-angular com um rochedo no plano frontal, etc. Não compreendo por que há gente que gasta milhares de euros e perde dias inteiros das suas vidas em expedições fotográficas (ao menos que aproveitem o passeio…) para fazer estas fotografias. Toda a gente as viu, toda a gente as faz. Para quê, então? Fotografar é como falar: para quê falar se não se tem nada a dizer? O turista fala das suas viagens, o narcisista mostra que o é com as selfies; são honestos. Mas os pretensiosos lembram-me os alunos marrões cuja aquisição de conhecimentos depende exclusivamente da capacidade de memorizar. Não são versáteis, não criam, só papagueiam o que leram (neste caso, o que viram).

Pronto, já desabafei. Agora estou a pensar se o meu regresso ao preto-e-branco não foi precipitado. Fiquei contente com algumas das fotografias que fiz com este meu último rolo (que era, evidentemente, a cores) e devia ter insistido. Até porque o preto-e-branco é o novo HDR dos pseudo-artistas.

M. V. M.