Fui a Honolulu e mostrei o meu c*

Eu tenho 53 anos. Já vi muita coisa na minha vida e fiz o que estava ao meu alcance para preencher a minha quota de disparates quando era novo, pelo que há muito pouco que me surpreenda vindo da parte dos jovens.

Uma das coisas que mais me irrita nas pessoas mais velhas que eu – e irrita-me também estar mais perto da idade delas do que da juventude – é estarem constantemente a rabujar contra as novas gerações. Provavelmente esquecem-se que também tiveram os seus excessos quando eram jovens, ou será talvez a amargura de terem perdido a juventude que os faz invectivar os jovens, mas enerva-me ouvir alguém dizer que no seu tempo havia respeito.

Não havia. O que havia era menor percepção pública. O que quer que se fizesse era apenas do conhecimento de alguns. Hoje é diferente: os jovens orgulham-se em público de se comportar como cretinos. Mostram todas as suas idiotices no snapchat, no facebook (aqui só as mais polidas) e no instagram. Vão embebedar-se e destruir tudo num hotel em Torremolinos e orgulham-se disso no facebook e no twitter. Isto, porém, é universal. Se, no nosso tempo, existisse esta coisa das «redes sociais», tenho a certeza de que o usaríamos tal como os jovens de agora. A parvoíce existe desde que existe humanidade. E nós não nos gabamos dos nossos excessos da juventude junto dos amigos?

O que difere é o facto de a internet possibilitar a divulgação instantânea de tudo o que se faz, induzindo comportamentos porventura ainda mais ousados do que aqueles em que as gerações anteriores incorriam. Com a internet a imagem tornou-se preponderante e, com isto, o narcisismo, a vaidade e a frivolidade exacerbaram-se. Os jovens gostam de se mostrar na internet – o que, por si só, nada tem de intrinsecamente mau, mas parecem não ter a noção de que se estão a mostrar a milhões de pessoas. Ou têm essa noção e não se importam porque são uns cabeças no ar, não sei.

O que eu sei – e agora o leitor vai começar a aperceber-se que este texto não é tão fora do tema como parece – é que esta indução de comportamentos pela internet a que aludi no parágrafo acima ultrapassa tudo o que as pessoas da minha idade podem conceber. Indo ao assunto: agora surgiu uma moda completamente ridícula, quase estúpida demais para ser plausível. Pessoas, por norma jovens, visitam lugares maravilhosos, com paisagens belíssimas, e fazem-se fotografar… com as nádegas à vista! Depois publicam as fotografias no instagram, onde podem ser catalogadas e encontradas usando @cheekyexploits. Ou seja, o conceito de turismo destas criaturas consiste em mostrar o rabo no instagram.

Eu pensava que as selfies eram o zénite do narcisismo, mas não: isto é que é. Já não se contentam em mostrar a cara, mostram também o c*. O mais interessante, no meio de tudo isto, é que fazem isto por simples moda. Porque é viral. Porque sim. E porque, como li em alguns artigos, os instagrammers que fazem isto têm orgulho no seu rabo e não se importam de quem o vê (mesmo que seja a mamã).

E não houve quem lhe disparasse uma chumbada nas nalgas

O problema não é geracional nem me suscita reacções semelhantes às dos gerontes que proclamam que no seu tempo havia respeito, mas isto é profundamente decadente. Eu fiz e vi fazer muita coisa, mas eram excessos. Parvos, mas apenas isso: excessos. O cheeky exploits não é um excesso: é estúpido. Melhor ainda: é um excesso de estupidez. É de uma falta completa de tino e, sobretudo, de algo que ainda existe e a maioria das pessoas têm: chama-se decoro. Não tenho medo de usar esta palavra que alguns poderão considerar obsoleta e antiquada. A esmagadora maioria das pessoas não mostra partes íntimas do corpo em público por decoro. À excepção de alguns indivíduos estouvados, frívolos e estúpidos que não compreendem que o seu gesto é desagradável, repelente e absurdo. Eu reagiria muito mal se visse um palhaço – ou uma palhaça, porque as mulheres parecem gostar ainda mais disto que os homens – a fotografar-se com as calças em baixo na Ribeira ou na Foz. Ninguém gosta de ver a sua terra conspurcada – é este o termo – pela presença de parvalhões que não têm nada na cabeça e lhes parece ser muito giro mostrar o rabo em público.

Aprender que este fenómeno existe não me fez sentir velho e preconceituoso: fez-me sentir lúcido e seguro do bem fundado da existência de valores como o decoro. E isto está a ser escrito por alguém que já fez nudismo por um bom par de ocasiões – mas fi-lo num lugar onde mostrar o c* (e o resto) não era indecoroso: numa praia de nudistas.

M. V. M.

Direito de autor, 25 de Abril, os “jotinhas” e o fotógrafo de Abril

Por Alfredo Cunha

Alfredo Cunha é o homem que, aos 19 anos, fez algumas das fotografias mais importantes do 25 de Abril. É notável que alguém tão jovem tivesse uma percepção tão incisiva sobre o que estava a acontecer nesses momentos da nossa história, porque as suas fotografias mais notórias são plenas de simbolismo, o qual parece impossível de imaginar ter sido intuído por uma mente tão jovem.

Uma das fotografias mais emblemáticas que Alfredo Cunha fez no dia 25 de Abril de 1974 é a de Salgueiro Maia posando junto a um Chaimite, olhando directamente a lente de Alfredo Cunha. O capitão Salgueiro Maia foi, como todas as pessoas da minha geração e mais velhas sabem, o operacional do 25 de Abril. Não vou ter a temeridade de dizer que sem ele o 25 de Abril não teria acontecido, mas foi fundamental: foi o homem no terreno. Todos os portugueses estão em dívida com ele.

Do outro lado da história está a organização juvenil do único partido que não aprovou a Constituição emanada do 25 de Abril e do poder constituinte democraticamente legitimado após a revolução. Um partido que, conjuntamente com o outro grande partido da sua ala política, tentou em 2003 apagar a história subliminarmente, usando o slogan «Abril é evolução» (havia ali um R, mas quase imperceptível), um partido que procurou identificar-se com os nacionalismos e populismos por razões eleitoralistas, ao mudar a denominação para «Popular»; numa palavra, um partido que esteve sempre do outro lado em relação às conquistas de Abril. Não vou dizer, apesar do número considerável de eminências da ditadura que o compunham, que era um partido fascista, porque Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa não o merecem, mas digamos que o CDS-PP não é o primeiro partido que vem à mente quando pedem para associar partidos políticos e o 25 de Abril.

Por tudo isto, foi de um cinismo vizinho da hipocrisia e do descaramento que a Juventude Popular tivesse elaborado um cartaz – ou melhor: tecnicamente é um meme, já que nunca foi imprimido e é apenas uma imagem usada no facebook – onde surge uma fotografia de Salgueiro Maia, ainda por cima acompanhada de um slogan que diz: «A liberdade é de quem a dá aos outros! …e não dos que se afirmam donos dela.»

O que a JP quis com este cartaz é bem claro: foi dizer que a esquerda – se faz algum sentido usar esta divisão antiquada – que hoje ocupa o poder não é dona da liberdade. O que não é mentira nenhuma, mas é um despropósito completo vindo de quem vem: antes de mais, por ninguém ter clamado a propriedade da liberdade; depois, porque, quando se fala do 25 de Abril e das suas conquistas, é bom lembrar que, a despeito dos excessos de uma esquerda oportunista que tentou tomar o poder, quem aderiu ao espírito de Abril foi a esquerda e quem se lhe opôs foi a direita na qual o CDS muito cedo se filiou, apesar do nome que sugeria uma filiação centrista e moderada. Tenho todas as razões para crer que Salgueiro Maia não seria militante do CDS-PP se fosse vivo (e é mais que provável que não tivesse autorizado a utilização da sua imagem num meme da Juventude Popular).

Mas o Número f/ não é um blogue político: o seu tema é a fotografia. Por falar em fotografia, a de Salgueiro Maia que figura no meme da Juventude Popular é a de Alfredo Cunha a que aludi no segundo parágrafo. A JP usou-a porque, enfim, para aquelas cabecinhas, tudo o que está na internet é público e, deste modo, pode ser usado livremente, não é verdade?

Não, não é. Não é por uma fotografia figurar na internet que cai no domínio público. O facto de ser divulgada num meio tão aberto não implica que se torne de livre utilização. Isto é algo que estou farto de dizer aqui no Número f/, mas a minha insignificância faz com que ninguém me dê ouvidos e continue a publicar fotografias na chafurdice chamada facebook sem ao menos ter o cuidado de incluir o nome do autor na própria fotografia, como o exige o Código do Direito de Autor.

Evidentemente, Alfredo Cunha não se conformou quando viu a sua fotografia usurpada – este termo é acertadíssimo em todas as suas acepções – pela Juventude Popular e intentou uma acção para reivindicar a autoria da fotografia. Só espero que o tribunal não veja um obstáculo na exigência legal de inclusão do nome do autor no corpo da fotografia, porque é evidente que Alfredo Cunha tem todas as razões e mais uma para agir judicialmente.

A reacção da JP à notícia da propositura da acção foi risível: aqueles meninos, alguns deles filhos dos advogados que dominam o mercado da advocacia e cujos escritórios fazem negócio com o poder executivo, não se lembraram de nenhum argumento melhor que este: Alfredo Cunha move-se por razões ideológicas, porque a fotografia foi usada anteriormente e ele nunca reagiu assim (embora, evidentemente, sejam incapazes de mencionar uma única utilização indevida anterior da fotografia). O tipo de argumento que pode ser ouvido numa tasca, vindo de um adepto da bola alcoolizado. E tiveram ainda a lata de dizer que Alfredo Cunha não falou com eles! Isto é de tal maneira ridículo que nem merece mais considerações, a não ser para formular esta dúvida: então o autor é que tem de falar com os utilizadores da obra? Não será mais ao contrário?

O que me faz tremer é pensar que um dia alguns destes parvinhos vão chegar a ministros e secretários de estado. Vem aí a nova geração que sucederá a Paulo Núncio e Sérgio Monteiro. A geração dos donativos feitos ao partido pelo Jacinto Leite Capelo Rego terá continuidade.

M. V. M.

Qualidade

À medida que se vai fotografando, vão-se perdendo ideias preconcebidas e erróneas. A sabedoria que adquiro com o tempo faz com que me cinja cada vez mais ao que é essencial e abandone o acessório. A minha evolução, tal como a vejo quando medito nisto que tenho feito desde há quase sete anos, é sobretudo quanto à necessidade de que as minhas fotografias digam alguma coisa. Estou ainda muito longe de fazer o que quero, mas uma coisa é certa: as minhas fotografias são hoje mais directas e despojadas.

Uma das ideias feitas que deixei pelo caminho é a procura daquilo que muitos referem ser a qualidade de imagem. Hoje esta é a menor das minhas preocupações. Não quero, com isto, dizer que o meu ideal é fazer fotografias tremidas e desfocadas: preciso da nitidez, mas não daquele tipo de nitidez que muitas pessoas hoje procuram, da que permite contar os poros da cara da pessoa retratada. Este tipo de nitidez pode ser importante para muitos, mas não serve para nada se a fotografia for vazia de ideias.

Referir a qualidade de imagem é sempre dificultado pelo facto de nem sequer haver um padrão objectivo que a defina. É o quê, a qualidade de imagem – a nitidez, o contraste e a saturação, como é lugar-comum entender-se? Muitos confundem qualidade de imagem com resolução, mas decerto que a qualidade de uma fotografia não pode resumir-se à definição do pormenor – e, de qualquer modo, uma fotografia desinteressante não se torna boa pelo facto de se poderem contar os cabelos da pessoa retratada.

A qualidade de imagem é um conceito abrangente e complexo. Mesmo excluindo a subjectividade, que faz com que uma fotografia que uma pessoa entende como boa não o seja para outra, há um problema em saber se a qualidade pode ser definida objectivamente. É um conceito que engloba a nitidez, o contraste e a saturação, certamente, mas mesmo isto é discutível. Há fotografias falhas de nitidez que têm de ser consideradas boas, como os retratos de Steichen, Stieglitz e Coburn. O contraste, por seu turno, é largamente uma questão de gosto: há quem não prescinda dele e há quem o despreze. Tal como a saturação, aliás: hoje a moda é cores desmaiadas e inefáveis.

A qualidade de imagem é também ausência: ausência de distorções geométricas, de aberrações cromáticas e de artefactos como o ruído e a moiré. A qualidade é uma noção inefável que, se extrairmos a carga subjectiva, pode ser entendida como a agradabilidade de uma fotografia. É o equilíbrio das cores (ou dos tons, no preto-e-branco), a ausência de aberrações da imagem e a inteligibilidade do motivo. Todos estes factores são visuais: eles dirigem-se à percepção estética, não enformando o conteúdo da fotografia. Este é percebido pelo intelecto e basta-se com a agradabilidade.

Por mim, fico satisfeito com esta agradabilidade. Só preciso que o motivo esteja bem evidenciado e nítido – mas não descrito com a nitidez clínica de algumas lentes Zeiss –, que as cores sejam harmoniosas e que a imagem seja razoavelmente isenta de aberrações. Prefiro continuar a tentar fazer fotografias que valham pelo que exprimem a tentar obter a maior qualidade possível. Não preciso. Eu não vou fazer impressões em tamanhos grandes.

E, contudo, há na qualidade de certas fotografias um esplendor indesmentível. Comparar as minhas fotografias, com cuja qualidade me sinto bastante satisfeito, com as que Artur Pastor fez com a Rolleiflex, é comparar a água e o vinho. A qualidade das películas de médio formato é viciante: não se consegue parar de apreciá-la. Ver hoje coisas feitas há cinquenta e mais anos pelo referido Artur Pastor, por Vivian Maier e Robert Doisneau leva a pensar que a indústria fotográfica evoluiu no sentido errado. Fê-lo porque o conceito de qualidade que prevaleceu se baseia na nitidez e na resolução, sacrificando aquilo a que chamei agradabilidade em favor de uma resolução superior à dos olhos humanos (e portanto supérflua).

Por mim, embora este fascínio pelos médio e grande formato seja algo que não posso negar, contento-me com uma qualidade menos que absoluta. Prefiro que as minhas fotografias valham pelo que dizem do que pelo que mostram – ou melhor: pela maneira como o mostram.

M. V. M.

Drella, o usurpador

Os Estados Unidos são um país estranho. Não, não vou escrever sobre política, nem sobre o Trump, nem nada disso: isto hoje é sobre direitos de autor, e o meu comentário sobre os Estados Unidos tem que ver com a singularidade de nesse país a usurpação, sob a forma de apropriação de obra alheia, ser não apenas lícita, mas também considerada arte.

Com efeito, nos Estados Unidos a transformação da obra, segundo a jurisprudência dos tribunais, não depende do consentimento do autor. Isto já foi aproveitado por um Richard Prince, que pilhava fotografias de outras pessoas publicadas no Instagram e inseria comentários, assim transformando fotografias usurpadas naquilo que os tribunais consideram ser uma obra nova. Portanto, a pilhagem de obras é legal nos Estados Unidos.

Se isto vos parece absurdo, segurem-se bem antes de ler o que se segue: há um caso em que o usurpador intentou uma acção contra o autor da obra transformada. Sim, leram bem: o usurpador a pôr um processo em cima do criador da obra. Nem menos.

Eu desenvolvo. Lynn Goldsmith é uma fotógrafa americana. Em 1981, retratou o então jovem Prince (o Rogers Nelson, o da música, não o Richard, o das fotografias). Em 1984, o conhecido Andy Warhol, paladino da Pop Art cujo nome verdadeiro era Andrew Warhola – alguns amigos, entre eles John Cale e Lou Reed, chamavam-lhe simplesmente «Drella» –, utilizou o retrato de Prince feito por Lynn Goldsmith e criou uma série de «obras» justapondo cores e sombreados à fotografia de Goldsmith. Em qualquer outro país, Andy Warhol teria sido constituído arguido pelo crime de usurpação e Lynn Goldsmith reconhecida como a autora da obra e ressarcida, mas os Estados Unidos são o país onde se acredita que a Convenção de Berna serviu para proteger os interesses da Disney (e nós estamos mesmo a ver aqueles ministros, embaixadores e juristas todos reunidos à volta de uma mesa em Berna para discutir o Rato Mickey) e o que aconteceu foi exactamente o contrário.

Com efeito, o fundo que gere os interesses e o património de Andy Warhol soube que Lynn Goldsmith havia afirmado ser a autora do retrato de Prince e intentou, num tribunal de Nova Iorque, uma «acção preventiva» (chamemos-lhe um procedimento cautelar) contra Goldsmith. Alegam que as «obras» de Warhol são inspiradas, mas muito diferentes do retrato. Querem prevenir que Lynn Goldsmith reivindique a paternidade da obra e que o tribunal declare que a série Prince não viola direitos de autor, mas não evitam a contradição de dizer, no requerimento, que o retrato que serviu de base à série é diferente do de Lynn Goldsmith, ao mesmo tempo que invocam a figura do fair use (o que é uma admissão implícita de que o retrato é mesmo da autoria de Goldsmith).

Andy Warhol, provavelmente, fez muitos milhões à custa da fotografia de Lynn Goldsmith, mas no pedido formulado o Fundo tem o cinismo de, além de tentar que o tribunal proíba a autora de ver a paternidade da obra reconhecida, pedir que Lynn Goldsmith seja condenada em custas e no pagamento dos honorários dos mandatários!

Decididamente, nos Estados Unidos as coisas funcionam ao contrário. Qualquer um pode pegar na fotografia de outrem, desenhar uns rabiscos por cima e chamar-lhe sua. Ganha milhões à custa do que outra pessoa fez e, ainda por cima, processa-a. Evidentemente, quem passa por artista é o usurpador. Quem, entre os meus leitores, alguma vez ouviu falar dessa Lynn Goldsmith? No entanto, não há decerto nenhum para quem o nome Andy Warhol seja estranho. O tal que fez arte a partir de uma lata de sopa.

Pensando bem, talvez isto ajude a perceber como um Donald Trump chega a Presidente daquele país.

M. V. M.

Pulitzer

Eu não sei quantos dos meus leitores seguem o que se passa pelo mundo. Para além da mãe de todas as bombas, das ameaças pífias do comediante que governa a Coreia do Norte e do plebiscito que pode transformar Recep Tayyip Erdogan num califa e a Turquia num Estado medieval, há um país onde, a pretexto da guerra ao narcotráfico, acontecem carnificinas todos os dias. Esse país é as Filipinas.

Rodrigo Duterte, actual presidente das Filipinas, é um daqueles psicopatas sem ideologia nem um plano para a sua nação que conseguem engodar o povo e ganhar eleições com um discurso que vai ao encontro, não das necessidades reais das pessoas, mas do ódio que lhes é inculcado. Esse ódio, em regra, não corresponde a uma ameaça real ou iminente, nem a nada de essencial, referindo-se a fenómenos de diminuta repercussão, mas que, por uma propaganda eficaz, são percebidos como fundamentais. Donald Trump ganhou as eleições com esse discurso e foi com ele que o Brexit ganhou o referendo que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia. No caso de Duterte, o fenómeno que lhe deu a vitória não foi a imigração ilegal nem a perniciosidade da livre circulação de pessoas, mas o tráfico de droga. Sob o pretexto do combate ao tráfico, está a acontecer um verdadeiro massacre nas Filipinas. Num relatório da Amnistia Internacional pode ler-se que não se trata de uma guerra contra as drogas, mas de uma guerra contra os pobres, e que as operações policiais são dirigidas contra pessoas pobres e indefesas, mediante provas forjadas e com recurso ao recrutamento de assassinos a soldo.

Este ano o Prémio Pulitzer de fotografia, na categoria de notícias da actualidade (breaking news: não há uma tradução literal e fidedigna em português) foi atribuído ao fotojornalista Daniel Berehulak. O texto de hoje é sobre uma das fotografias que Berehulak fez em Manila, no velório de um homem assassinado na sequência da guerra às drogas de Duterte, a qual adquiriu importância por ter sido a que o The New York Times publicou no seu Twitter para anunciar a atribuição do Pullitzer.

O fotojornalismo cumpre a sua missão quando tem por objecto acontecimentos como este. O fotojornalista ajuda a dar uma impressão sobre os acontecimentos para a qual as palavras podem não ser suficientes. O bom fotojornalista vai mais longe e consegue criar fotografias emblemáticas do acontecimento que cobrem, como fizeram Koudelka e W. Eugene Smith. Deste modo, é função do fotojornalista gerar uma consciêncai universal para o acontecimento que se está a testemunhar. Se o fizer através de uma fotografia altamente simbólica, maior será o valor dele.

O que vou escrever de seguida pode parecer frívolo, e deixo aos leitores o eventual juízo sobre a futilidade do meu entendimento. A fotografia que mostro é simbólica, no sentido em que a expressão da criança que se vê ao centro é, de facto, emblemática –  embora tenha algumas reservas quanto à sua eficácia na necessária agitação das consciências embotadas –, mas de resto é uma fotografia indigna de um Prémio Pulitzer. Sinto que posso dizer isto com toda a rotundidade, porque Daniel Berehulak fez fotografias incomparavelmente melhores. Esta, porém, causa, antes de mais, a impressão desnecessária de o fotojornalista estar a espreitar um velório, violando algo íntimo e sagrado. Essa impressão é acentuada pela perspectiva e pela composição, que é completamente descuidada e apressada. A posição da câmara, olhando a cena do alto, torna a imagem banal, e a composição está longe de ser a mais expressiva: há corpos indevidamente cortados e há aquele objecto, no lado direito da imagem, que parece ser um espanador e que rouba a atenção que devia concentrar-se no corpo que está a ser velado. Não há nada a fazer: aquele espanador retira toda e qualquer pretensão de dignidade e seriedade à fotografia. Incomoda, os olhos vão involuntariamente cravar-se nele. Não vemos a criança a chorar nem o morto: só vemos um espanador. A luz é demasiado festiva para a ocasião, sendo mais apropriada a uma sessão de karaoke que a um velório, o que, evidentemente, não é culpa do fotógrafo (embora a conversão para preto-e-branco pudesse ter ajudado), mas o que esta fotografia parece é uma intromissão de alguém num velório para tirar uma fotografia com um telemóvel. Ah – e é tão fácil colocar uma criança a gritar de dor no enquadramento para obter um efeito pungente! Infelizmente, não consigo afastar a palavra «exploração» da minha mente ao ver aquela criança e a sua dor.

Velórios? Comparem esta fotografia com as que W. Eugene Smith (acima) e Josef Koudelka fizeram. Eu não quero ser negativo ou destruidor: o mundo precisa de ganhar consciência acerca da barbárie que está a acontecer nas Filipinas – mas será que esta fotografia de Berehulak contribui para esse despertar? Duvido. Melhor: tenho a certeza que não.

M. V. M.

OCOLOY e outras terapias para os desinspirados

Por vezes há que experimentar qualquer coisa diferente para renovar o entusiasmo. Muitos recorrem à aquisição de material, mas existe o risco de se fazer fotografias desinspiradas com material diferente (não necessariamente melhor), o que não faz com que o problema se resolva.

Uma experiência que alguns recomendam é conhecida pelo acrónimo OCOLOY: one camera, one lens, one year. Trata-se, como os leitores que dominam o inglês (i. e. todos os leitores) já perceberam, de passar um ano a fotografar com apenas uma câmara e uma lente. Os zooms estão excluídos, evidentemente, porque contrariam o espírito da experiência, que é usar apenas uma lente de uma determinada distância focal. (De resto, quem usa zooms não merece ocupar um lugar no seio da espécie humana.)

Que posso dizer acerca disto? Eu não seria capaz de passar um ano usando só uma lente, mas uso sempre a mesma máquina desde 2013 – o que, pelas minhas contas, perfaz mais de um ano – e, sobretudo, houve uma fase da minha vida em que usei apenas uma lente durante um lapso temporal que, se não perfez um ano – foi cerca de três meses –, foi consideravelmente longo. Foi quando comprei a E-P1. Agora, pensando nisso, devo concluir que tive uma inspiração ou um golpe de sorte quando a comprei, porque na mesma caixa vinha uma lente de distância focal fixa, mais concretamente a M.Zuiko 17mm-f/2.8, que não é grande coisa opticamente mas não deixa de ser interessante (à sua maneira). E, sobretudo, foi um instrumento de aprendizagem.

O que é de relevo, neste caso, é que aqueles três meses ensinaram-me muita coisa. Usar uma só distância focal ensinou-me a aproximar-me das coisas e a procurar as melhores perspectivas para aquela distância focal. Ensinou-me tudo o que havia para aprender, bom ou mau, quanto aos 17mm que, no sensor 4/3, fornecem o campo de visão aproximado de uma 35mm. Não interessa se gostei ou não de fotografar com uma distância focal tão mitificada: o que importa foi que retirei enormes ensinamentos da experiência. O OCOLOY dá resultado – mas não me parece que seja necessário um ano: uns seis meses devem chegar para aprender qualquer coisa. Nem que seja a a detestar os zooms.

***

No último texto referi que o facto de ter estado privado de fotografar foi produtivo, porque quando saí novamente à rua com a OM senti um contentamento renovado. O que não disse – estou a fazê-lo agora – foi que no dia seguinte, um domingo, o cansaço voltou. A culpa não foi minha nem da máquina: foi dos turistas. É cansativo andar nas ruas do Porto e descobrir-se que se é o único português, mas ainda mais extenuante é ver que toda aquela gente passa cada dois segundos a tirar fotografias compulsivamente, de tudo e delas mesmas. A câmara é uma extensão do corpo do turista: sempre foi. Mas esta obsessão de fotografar tudo é quase doentia.

O apogeu do cansaço foi quando estava à espera de uma boa oportunidade para fotografar uma rua velha do Porto e um palhaço qualquer decidiu que, se eu estava a fotografar aquele lugar, ele tinha mais direito do que eu de fazê-lo e plantou-se à minha frente, com o seu telemovelzinho na mão, durante uma eternidade, sem sequer dizer água-vai. Felizmente, esta rudeza não existe entre os aficionados da fotografia, que são corteses e não fazem aos outros o que não gostariam que lhes fizessem a eles. Um turista com um telemóvel é demasiado estúpido para entender isto.

Mas, fora isto, mantém-se verdadeiro que o afastamento da fotografia durante algum tempo me fez renascer um entusiasmo que estava algo esmorecido, à custa da rotina de só fotografar aos fins-de-semana e raramente sair do Porto. O tempo que passei sem câmara fez-me ver as coisas com olhos renovados, e tenho quase a certeza que o efeito seria mais intenso se tivesse estado ainda mais tempo sem fotografar.

Daí que não me pareça demasiado ousado ou disparatado sugerir uma pausa na fotografia sempre que esta ameaçar tornar-se demasiado rotineira. Fotografar não preenche nenhuma função vital nem é um impulso homeostático: sobreviveremos à privação. E dou por garantido que vai ser benéfico para a inspiração. Mais: pode fazer com que se definam novos objectivos, o que será sempre bom. E fica-se com tempo para se pensar no que temos andado a fazer e no que queremos fazer daí em diante, o que é ainda melhor.

M. V. M.

Ressurreição

E, ao décimo dia, ressuscitou

Estamos ainda a um dia do início da Semana Santa, altura em que celebramos a morte e ressurreição de Jesus Cristo, mas hoje já me sinto ufano e o meu espírito regozija: a minha OM levantou-se dos mortos e renasceu – embora duvide que tenha sido a Paixão que levou a minha máquina a perecer. Tenho a certeza que não morreu para me salvar e me redimir dos meus pecados, porque, francamente, não me recordo de ter incorrido em nenhum. A não ser o de fazer más fotografias, mas muitos cometem este pecado (e outros bem piores, como o de imitar) e não intervém uma avaria que os redima. Só acontece a mim.

Foi assim com incontida satisfação que hoje fui buscar a ressuscitada. Apesar de ter estado nas mãos de um homem chamado Igor – tal como o assistente de Frankenstein –, não consta que a OM tenha recebido partes de outros corpos nem que tenha sido trazida de volta à vida por um relâmpago fulminante, pelo que devo concluir que não houve intervenção divina nem sobrenatural na sua ressurreição. Devo também, evidentemente, estar grato por haver pessoas como o Igor e o R. S. D., porque sem eles tudo teria sido mais difícil (e provavelmente mais oneroso). Provavelmente a máquina teria de ter feito uma viagem até Souselas – parece que ali, no centro de assistência da Europa Ocidental da Olympus, também consertam máquinas analógicas – que me privaria dela durante muito mais tempo do que aquele em que estive abstinente de fotografias.

Se bem se recordam, o anel de selecção dos tempos de exposição da minha OM-2n havia encravado em 1/1000. Embora fosse possível fazer fotografias com este tempo – desde que existissem boas condições de luz –, pareceu-me boa ideia repará-la. Em boa hora o fiz: o comando dos tempos de exposição veio a trabalhar perfeitamente. E, sobretudo, com uma suavidade que nunca teve, pelo menos enquanto foi minha. Não é bem a suavidade de uma OM-1 em bom estado, que comparei à de uma faca quente deslizando em manteiga derretida, mas quase. Será mais uma faca morna deslizando sobre requeijão cremoso.

No primeiro fim-de-semana sem câmara não me senti particularmente angustiado por não fotografar. Foi até uma espécie de férias retemperadoras. Contudo, devo confessar que a perspectiva de outro fim-de-semana sem expedições fotográficas estava a começar a deixar-me preocupado – até porque entretanto sobreveio este estímulo que encontrei no website da Magnum e que me fez querer sair imediatamente à rua para fotografar.

Pois bem: este impulso teve de esperar mais alguns dias, mas valeu a pena. Não apenas porque a máquina me foi devolvida em perfeito estado, mas também porque a conjugação do contentamento por voltar a fotografar e do estímulo a que acabei de me referir resultou uma sessão divertida em que as oportunidades surgiram com muita naturalidade.

A privação teve os seus benefícios. Graças a ela, redescobri uma alegria em fotografar que pensava já ter esquecido. Não que fotografar se tenha tornado uma tristeza, ou um sacrifício, mas a sombra insidiosa da rotina começava a pairar sobre as minhas sessões fotográficas. Isto fez-me pensar se não será um exercício salutar privarmo-nos de fotografar durante um lapso considerável de tempo. Pelo menos parece-me ter o potencial de ser tão ou mais produtivo que aquela experiência de fotografar apenas com uma câmara e uma lente durante um ano que alguns advogam e clamam ser uma fonte de aprendizagem. A privação pode, quem sabe, fazer-nos reconsiderar os nosso objectivos e redireccionar a nossa fotografia. Pelo menos será uma ruptura na rotina, o que só por si é bom e estimulante.

Seja como for, sinto-me reconfortado por ter a OM de volta. Cheguei a temer o pior e a havê-la como irremediavelmente avariada e a ter de substituí-la. Felizmente não aconteceu – ou, se aconteceu, o bom do Igor trouxe-a de volta ao mundo dos vivos. Esta é uma boa altura do ano para ressurreições. Aliás, não podia ser melhor. Não consigo pensar em nenhuma outra época mais oportuna.

M. V. M.