Como ver fotografias

Hoje passei um Domingo horrível. Uma boa parte do dia foi passada a esperar. Não quero pormenorizar, mas estive largas horas sem fazer nada, apenas esperando. Há maneira melhor de passar um Domingo? Só se for num hipermercado, ou na fila para as caixas de uma grande superfície comercial em dia de preços sem IVA.

Onde eu estava havia Wi-Fi gratuita e disponível ao público. Como tinha o meu smartphone comigo, decidi usá-lo para aquela que é a sua vocação (além de fazer e receber chamadas e de enviar e receber mensagens, claro): acedi à internet através dele.

O meu smartphone tem um ecrã com uma resolução razoável. Não é nenhum iPhone, mas é bastante legível. Quando abri as páginas do Flickr, porém, fiquei alarmado: as fotografias surgiam muito escuras. E não era um problema com as minhas fotografias: as de outros utilizadores, bem como as fotografias publicadas noutros sites – o que incluía fotografias de fotógrafos profissionais –, tinham o mesmo problema: um excesso de contraste e de sombras.

Evidentemente que me lembrei de alterar o brilho do ecrã. Foi a primeira coisa que me veio à mente. O smartphone ainda tinha a pré-definição, que ficava a cerca de 75% da luminosidade possível. Aumentar o brilho não resolveu quase nada: as fotografias continuavam demasiado escuras.

Curiosamente, esta característica é boa para ver fotografias tiradas com outros smartphones, ajudando a disfarçar o péssimo desempenho nas altas luzes e a falta de contraste que são males crónicos dos sensores e lentes minúsculos dos smartphones. Vistas em tamanhos pequenos, estas fotografias parecem todas excelentes, cheias de contraste, com boa resolução, sem ruído e com cores saturadas (o meu smartphone é como os monitores HP: privilegia a matiz vermelha). Contudo, com fotografias correctamente expostas, a visualização torna-se num pesadelo.

As pessoas que vêem fotografias através de smartphones podem fazer uma ideia completamente errada acerca delas. Embora a tendência seja para que todas as fotografias pareçam fabulosamente boas quando vistas em tamanhos tão pequenos como os do ecrã de um smartphone, algumas fotografias, mesmo quando correctamente expostas, parecem demasiado escuras, ocultando muito do pormenor nelas presente.

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Josef Koudelka. Isto não é para se ver com um smartphone.

E este não é o único problema. Ver fotografias num ecrã tão pequeno é limitador e frustrante. Claro que serve na perfeição para ver a fotografia do pimpolho e do gato no facebook, mas as fotografias mais sérias ficam muito prejudicadas. Aconteceu-me ver alguns clássicos de Koudelka no website da Magnum, e não gostei nada do que vi: a resolução era claramente insuficiente e o contraste, bem como os negros, eram simplesmente excessivos. As fotografias que vivem do pormenor e de subtilezas saem claramente prejudicadas, porque o objectivo de visualizar fotografias num smartphone é o de compreender o seu conteúdo em três segundos.

Nada disto significa que vá começar a fazer fotografias sobreexpostas para agradar a quem as vê em «dispositivos móveis». Concluí que as minhas fotografias são para ser vistas em monitores convencionais, com ecrãs de média e grande dimensão. Mas as minhas fotografias de pouco importam; o que é certo, o que sei por ter aprendido com os meus olhos, é que ver fotografias num computador, mesmo que muito bom, será sempre um triste sucedâneo da experiência de vê-las em papel. Mesmo assim, é muito melhor ver fotografias num computador convencional do que num smartphone, por melhor que seja o seu ecrã (e eu já vi fotografias em smartphones com ecrãs melhores que o meu). A evolução tem-se caracterizado por uma redução na qualidade em favor da abundância e do baixo custo, mas há limites a partir dos quais esta redução se torna inaceitável. Vejam lá os pimpolhos e os gatos dos vossos amigos nos telemóveis, mas usem os vossos monitores para ver fotografias um pouco mais intencionais.

M. V. M.

Cores. Cores. A vida é a cores

Ontem recebi, via Dropbox, as digitalizações de mais um rolo a cores. Desta vez foi um Agfa Vista 400, rolo ao qual perdoo uma ligeira falta de acutância e um tingimento vermelho acentuado por fazer tudo o resto tão bem, por tão pouco dinheiro. Podia ficar mais satisfeito com o 160NS, ou com o 400H, ambos da Fujifilm, mas estes rolos custam os olhos da cara. O seu uso justifica-se num contexto profissional – apesar de ser discutível o uso de película 135 para fins profissionais, evidentemente.

Adiante, que não é sobre rolos que quero escrever. Eu não tinha grandes expectativas quanto às exposições deste último rolo. Fiz fotografias naquele estilo a que se pode chamar «de rua», dentro do que costumava fazer quando usava os meus Ilford FP4, e, como imaginava que tais fotografias não iam resultar muito bem a cores, calculei que teria sido um desperdício de tempo e dinheiro.

Estava enganado. As fotografias que fiz são inteiramente válidas – pelo menos segundo os meus próprios critérios, e a despeito de poder considerá-las péssimas daqui a uma semana –, mesmo sendo a cores. Vou mais longe: a cor atribui-lhes uma dimensão suplementar, um interesse extra em relação a imagens semelhantes a preto-e-branco.

Isto faz-me pensar se não terei perdido demasiado tempo ao fotografar quase exclusivamente a preto-e-branco durante mais de três anos. Vendo bem, foi tudo uma questão de moda: habituei-me a ver fotografias a preto-e-branco e limitei-me a aderir à moda. Foi um erro: em lugar de procurar exprimir-me pelos meus próprios meios, preferi o conforto de seguir o que os outros faziam.

Foi um disparate, embora justificado pela verdura e ignorância. Como só conhecia fotografia de rua a preto-e-branco, não imaginava que fosse possível fazê-la de outra maneira. O que mudou tudo, fazendo-me fotografar a cores? Dois factores, por ordem crescente de importância. O primeiro foi ter encontrado uma película capaz de resultados consistentes sob todas as condições de luz. Isto foi essencial – tanto que agora me parece que não fotografava tanto a cores por as películas que experimentei não me terem deixado satisfeito. O segundo foi ter-me familiarizado com um triunvirato de fotógrafos de rua que utilizaram a cor de maneira excepcional: Fred Herzog, Saul Leitner e Joel Meyerowitz.

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Fred Herzog, “Main Barber”

O que eu gosto, nas fotografias de Herzog, Leiter e Meyerowitz, é elas provarem que a fotografia de rua não tem necessariamente de ser a preto-e-branco. Olho para aquelas fotografias, e está lá tudo o que define a fotografia de rua: as pequenas histórias do quotidiano, os sinais da vida urbana, a estética, a composição – e, evidentemente, as cores. E são fotografias que funcionam.

A fotografia de rua tornou-se muito cliché. Tem apenas que ver com a estética, composta de contrastes exagerados e do omnipresente preto-e-branco, e acontece, invariavelmente, em cenários nos quais a presença de uma pessoa é um mero pretexto para a aposição do rótulo de «fotografia de rua». Sim, ainda há fotografias de rua em preto-e-branco maravilhosas, mas a vida é a cores. Foi William Albert Allard quem disse “Eu vejo a cores”. Tenho razões para crer que não estava apenas a declarar que não era daltónico.

Fred Herzog, Saul Leiter e Joel Meyerowitz mostraram-me que é possível uma abordagem diferente para a fotografia de rua. Foi uma verdadeira revelação. Antes, já me tinha deixado fascinar pelo uso que Harry Gruyaert e William Albert Allard fazem da cor, mas estes dois não são fotógrafos de rua – mesmo que, ocasionalmente, tenham feito fotografias que caem dentro dessa definição. Foram Herzog, Leiter e Meyerowitz quem levou a cor para a fotografia de rua. Ainda bem que eles – ou a sua obra, já que Saul Leiter morreu em 2016 – existem: libertaram-me de um espartilho.

No Sábado perguntaram-me quando ia voltar ao preto-e-branco. Isto que estou a fazer não é um mero flirt com as cores, como fiz quando experimentei os Kodak Ektar e Gold e o Ferrania Solaris. Vou certamente voltar a usar rolos de preto-e-branco, mas não com a quase exclusividade com que o fiz até há pouco. Não quero estar limitado a um estilo ou a uma estética.

M. V. M.

O meu bloco de notas

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Por Fred Herzog (obrigado, Nuno Oliveira!)

Ainda não disse tudo o que tinha a dizer acerca da exposição Eyes Wide Open. Como sabem, ontem fui à galeria da Biblioteca Almeida Garrett munido de um bloco de notas. Apesar de já conhecer alguns dos autores das fotografias expostas – de Otto Steinert a Robert Lebeck, de Cartier-Bresson a Paulo Nozolino, passando por Burri, Capa, Bischof, Salomon, Gilden, Sieff e muitos outros -, saí destas duas visitas com os meus conhecimentos substancialmente alargados.

Além dos mencionados, há aqueles fotógrafos que me eram mais ou menos desconhecidos e que já mencionei antes: Meyerowitz, Eggleston, Leiter, Inge Morath. Mas, para além de todos estes (e esquecendo aqueles que não me causaram uma impressão duradoura), houve outros, novos para mim, em cujas fotografias me detive demoradamente. São vinte e um nomes que ocupam duas páginas e meia do meu bloco de notas. São eles, pela ordem estabelecida por quem montou a exposição, Mehemed Fehmy Agha, Heinrich Heidersberger, Ilse Bing, Walter Vogel, Ulrich Mack, Lothar Rübelt, Ricard Terré, Sabine Weiss, Ramón Masats, Ara Güler, Fred Herzog, Saul Leiter, Paolo Roversi, Claude Dityvon, Rudi Meisel, Viktor Kolár e Bruce Davidson.

Depois há os portugueses, embora alguns possam ter reparado que já mencionei o Paulo Nozolino. Além de um senhor engravatado que escreveu uma carta a Ernst Leitz (em francês!) da qual uma cópia está exposta num dos mostruários, cujo nome me esqueci deliberadamente de anotar, e do grande Gérard Castello Lopes, anotei Carlos Calvet, Carlos Afonso Dias, Victor Palla e Jorge Guerra.

Não nos esqueçamos que esta lista foi elaborada a partir de uma exposição cujo denominador comum é o uso de material Leica. Porque há muitos outros que não usaram Leicas e nem por isso deixaram de ser grandes fotógrafos.

Esta foi uma exposição deveras interessante. Contudo, há uma exposição, porventura hipotética, cuja visita seria o corolário da minha vida de amador das coisas fotográficas: uma exposição da Magnum.  Seria como ver Nápoles: depois, poderia morrer. (Será que alguém da Magnum está a ler isto?)

M. V. M.

Lazy Sunday Afternoon

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1. Ontem, quando deixei aqui as minhas opiniões acerca do Agfa Vista, escrevi que a minha apreciação tinha de ser lida cum grano salis. Pois bem: hoje passei uma parte substancial da manhã a editar as digitalizações no computador, usando o DxO Optics 9. Já vamos às fotografias, mas para já devo acrescentar aqui que aproveitei o facto de a DxO ter estado a oferecer a versão 9 do programa de edição de imagem (que já vai na versão 11) para fazer um ligeiro upgrade, já que tinha a versão 8. As diferenças entre ambas as versões não são muitas – ao contrário do que notei quando evoluí da versão 7 para a 8 – e, sobretudo, este software continua a não reconhecer as digitalizações de negativos a preto-e-branco em formato TIFF. Não sei se a oferta ainda é válida, mas se for vale a pena descarregá-la e experimentar.

De volta ao Agfa Vista 400, dei por mim a fazer retoques mínimos, que incidiram sobretudo nas matizes vermelha, amarela, magenta e ciano que afectavam algumas fotografias. Curiosamente, em muitas preferi a apresentação anterior às correcções e regressei às versões originais. O Vista não é, afinal, assim tão mau. É pena o grão, mas as falhas que podem ser apontadas são perdoáveis se atendermos ao preço que custa cada rolo.

2. Voltei à exposição da Leica e, como prometido, levei um bloco de notas. Quis apontar nomes de fotógrafos que me interessaram e que ainda não conhecia. Não posso dizer que tive momentos de transcendência quando pesquisei a maioria desses nomes, mas alguns desses fotógrafos têm obra muito interessante. Dos vinte e um nomes que anotei, interessaram-me sobretudo os de Ricard Terré, Ramón Masats, Ara Güler, Paolo Roversi e Bruce Davidson. E, sobretudo, o de um fotógrafo que nos deixou neste ano de todas as mortes: Saul Leiter.

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Por Saul Leiter

Saul Leiter, como Joel Meyerowitz, foi um fotógrafo de rua que usou a cor. Isto interessou-me: como escrevi na semana passada, agora parece haver uma regra não escrita que obriga a fotografar na rua a preto-e-branco, mas o que é certo é que a vida é a cores. Tem-se abusado do preto-e-branco – e contra mim falo, porque tenho uma preferência pelo preto-e-branco e fotografar a cores é como falar uma língua estrangeira que não domino – ao ponto de se chegar ao extremo de a fotografia monocromática se tornar cliché. E nem é preciso ir aos grupos do facebook para perceber como este uso abusivo do preto-e-branco está a esvaziá-lo de interesse. Corremos o risco de um dia rejeitarmos fotografias de rua a preto-e-branco por nos parecerem banais.

Uma coisa é certa: a fotografia de rua ficou indelevelmente associada ao preto-e-branco. Deste modo, o emprego da cor na fotografia de rua tornou-se num desvio à norma, num acto de verdadeira subversão. E os mais subversivos dos fotógrafos são estes dois: Saul Leiter e Joel Meyerowitz. Eles aliam a narrativa dos pequenos episódios quotidianos ao elemento cor, que se torna proeminente na composição e domina visualmente a imagem. As cores de Leiter são fortes e saturadas, as de Meyerowitz mais subtis, mas há em ambos uma vontade de apreender a vida no que ela tem de vibrante e intenso, sem contudo abdicar da estética e do estilo.

3. Aposto que nem Leiter nem Meyerowitz ganharam daqueles prémios que premeiam fotografias vazias que vivem exclusivamente da técnica. Como o Travel Photographer Of The Year, por exemplo. Este ano o nosso Joel Santos ganhou vários prémios, com as fotografias fastidiosamente editadas e normalmente vácuas e frívolas que caracterizam o seu estilo, mas houve uma que posso considerar brilhante, que é esta:

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Curiosamente, foi feita com um drone. Deveria abominá-la só por isso, ou por não apreciar o seu autor? Com certeza que não. Esta fotografia é extremamente interessante e o seu autor está de parabéns.

4. Já que me refiro a um português, pesquisem este nome: Victor Palla. Foi sobretudo um designer gráfico, mas também um fotógrafo de excepção. Um dos poucos portugueses expostos na Eyes Wide Open.

M. V. M.

As aventuras do M. V. M. pela Leicalândia (adenda)

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Por Bruce Gilden

Não é de todo desprovido de sentido, nem tão-pouco é limitador, fazer uma exposição subordinada à fotografia feita com Leicas. Embora seja certo que também se podia fazer exposições com centenas de fotografias feitas com material da Nikon ou da Pentax, tais mostras não teriam nem de perto nem de longe o mesmo alcance do que esta que visitei ontem.

Vendo as fotografias expostas – e ainda mais quando se olha as fotografias publicadas nas revistas e outras publicações das primeiras décadas do século passado, as quais são profusamente mostradas nesta exposição –, torna-se fácil perceber a extensão da mudança operada pela Leica (ou, mais exactamente, pelo formato 135) na forma de fotografar e de reportar. Não me refiro à técnica, porque essa não é a questão que me interessa aqui: foi a fotografia, mesmo quando servia para ilustrar eventos, que se tornou mais subjectiva. E isto é visível desde as fotografias de Capa e Cartier-Bresson até às meras reportagens nas capas de jornais e revistas. Há, em todas estas imagens, uma concepção completamente diferente da fotografia. Já não se procura fotografar o motivo em si, mostrando-o tal como ele é (o que, convenhamos, é impossível), mas tal como ele é visto pelo fotógrafo, transportando a fotografia todas as idiossincrasias do fotógrafo.

Evidentemente, muito disto se tornou possível pela portabilidade das Leica, mas antes delas já se fazia fotografia subjectiva. A diferença é que as Leica, que podiam ser facilmente transportadas para qualquer lado e segurar-se com uma só mão, possibilitaram a transposição dessa subjectividade para o jornalismo. Com isto, a Leica criou o fotojornalismo actual.

Tudo isto é fascinante de se ver na exposição Eyes Wide Open, mas ter visitado esta última trouxe-me mais uma vez à mente que as fotografias não têm uma existência verdadeira se não forem fixadas em papel. As fotografias ganham transcendência quando são vistas em papel e em tamanhos decentes. Um recanto da exposição é dedicado aos retratos a cores de Bruce Gilden. São close-ups de rostos crus, garridos, muitos deles feios e incómodos, todos eles humanos na sua imperfeição por vezes grotesca – mas, ao vê-los fixados em ampliações, fazem todo o sentido. Aquelas fotografias são uma semiótica da espécie humana. Bruce Gilden, que nem sempre apreciei, cresceu na minha admiração depois de ver aquelas fotografias expostas.

Podemos discutir e argumentar que, se a Leica não tivesse existido, muito provavelmente a fotografia teria evoluído exactamente na mesma direcção. Talvez – só que teria levado muito mais tempo. Entretanto, como teria Robert Capa podido usar uma Rolleiflex no Dia D?

A Leica e o formato por ela inventado mudaram para sempre a face da fotografia. Só por este facto, a exposição merece uma visita.

M. V. M.

As aventuras do M. V. M. na Leicalândia

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O ponto vermelho caiu sobre a minha cidade como um sol crepuscular que sobre ela espalhasse a sua luz. A Leica decidiu abrir no Porto a sua primeira loja em Portugal – o que faz todo o sentido, porque a fábrica de Vila Nova de Famalicão fica a apenas uma vintena de quilómetros – e, em simultâneo, foi inaugurada a exposição Eyes Wide Open – 100 Anos de Fotografia Leica, aberta ao público (a entrada é livre) na Galeria Municipal do Porto até ao dia 5 de Fevereiro do próximo ano. Não tive muita sorte com a inauguração da loja: quando lá passei pela primeira vez, o único aparelho visível era um aspirador, o que me fez recear que a parceria com a Panasonic, que faz as compactas vendidas como Leica, se estendesse aos electrodomésticos. Ter um aspirador Leica poderia ser o sonho de qualquer fanático das limpezas que ostentasse este seu gosto adquirindo aspiradores caros, mas seria sempre um Panasonic com o ponto vermelho a acrescentar-lhe mais algumas centenas de euros ao preço. (Depois esclareceram-me que a abertura da loja ao público ainda não tinha acontecido no dia em que por lá passei e fiquei mais sossegado.)

Quanto à exposição, teve de esperar até hoje. Foi com incontida expectativa que a visitei: afinal de contas, a Leica é a marca com que toda a gente fotografava na era de ouro da fotografia e, em particular, era a preferida dos membros da Magnum. Podia deste modo contar, com alguma segurança, que iria ver fotografias maravilhosas, a despeito de ser bizarro e pouco promissor ver uma exposição cujo tema aglutinador é a marca das câmaras usadas pelos diversos fotógrafos.

Um pequeno interregno para esclarecer o seguinte: a Leica tornou-se popular por as suas câmaras serem pequenas, quando comparadas com o que existia até então. A opção pelo uso de película 135 e pelo recurso às ampliações constituiu, na verdade, um retrocesso na qualidade de imagem, o que leva alguns a encontrar neste facto uma analogia com o que se passa hoje em dia com o iPhone. Pensar assim é asinino, porém, porque a Leica soube compensar a perda de qualidade em relação aos médio e grande formatos com o fabrico de lentes fabulosas. O iPhone não tem nada a oferecer em troca da degradação dos padrões de qualidade que trouxe ao mundo da fotografia.

Seja como for, esta exposição tem o bom gosto de não colocar um enfoque excessivo nas máquinas. Elas estão lá, mas não se impõem ao visitante; e a ala dedicada ao fabrico das Leica, além de relativamente pequena, é discreta e convenientemente afastada das alas de interesse para quem vai a exposições de fotografia para ver fotografias.

A exposição começa com algumas fotografias feitas pelo inventor da Ur-Leica, Dr Oskar Barnack, que era um bom amador mas não um fotógrafo excepcional. O que não é assim tão mau: seria muito pior se tivesse usado a sua invenção para fazer selfies. Depois vem o resto: há uma secção dedicada à fotografia de reportagem, com fotografias óbvias de Robert Capa e Cartier-Bresson, mas felizmente há muito mais ao longo dessa e das outras secções, com fotografias mais ou menos desconhecidas de fotógrafos conhecidos e outras de fotógrafos que eu ainda não conhecia. Entre os primeiros estão, entre outros, Jeanloup Sieff, Aleksandr Rodchenko, Elliott Erwitt, William Eggleston e Erich Salomon. Quanto a este último, como apenas conhecia as fotografias das cimeiras internacionais, foi uma surpresa maravilhosa ver que ele era igualmente brilhante noutros temas. (Os leitores com memória de elefante lembram-se de um texto em que patenteei o meu horror por descobrir que Erich Salomon, que era judeu, foi capturado pelos nazis e morreu em Auschwitz.) Claro que não pude reprimir um sorriso de-orelha-a-orelha quando vi algumas fotografias familiares, como uma da série dos Yakuza de Bruce Gilden, mas o que gostei nesta exposição foi da possibilidade de ver grandes fotografias que ainda não conhecia.

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Por Erich Salomon

No que respeita aos fotógrafos que ainda não conhecia, prometo desde já aos leitores que vou voltar à exposição, desta vez munido de um bloco de notas e uma esferográfica. Contudo, houve um nome que fixei: o da austro-americana Inge Morath. Que surpresa fantástica!

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Por Inge Morath

Sobretudo, esta é uma exposição que interessa ver com calma e, se possível, num dia útil. Assim poderemos demorar-nos mais contemplando as fotografias. Nas exposições de fotografia (e suponho que em todas as outras) a regra é: quanto menos gente, melhor. É que muitos patetas nunca vão conseguir meter na cabeça que as exposições se vêem no sentido dos ponteiros do relógio. (De que estavam à espera? De um texto inteiro sem refilar com alguma coisa? Não no Número f/!)

Vão à exposição. Façam esse favor a vós mesmos.

M. V. M.

Fidel Castro (1926-2016)

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Por René Burri

2016 é o ano de todas as mortes. Algumas pessoas, mesmo não tendo falecido, entraram em morte cerebral. Mais exactamente sessenta e dois milhões trezentas e trinta e sete mil setecentas e noventa e nove, que é o número de eleitores que votaram em Donald Trump. Entre eles estão, seguramente, os americano-cubanos de Miami que ontem foram para a rua festejar a morte de Fidel Castro Ruz. Contudo, dizer que estes últimos entraram em morte cerebral pode ser inexacto, pois um pressuposto da morte cerebral é ser-se dotado de um cérebro, o que está por provar.

Eu não sou um fervoroso da revolução cubana, não ando com estampados da fotografia que Korda fez de Che Guevara nem passo a vida a assobiar a Guantanamera, mas há certos factos que são indesmentíveis: Cuba é um dos países com melhores níveis de literacia do mundo e está na frente de muitos países ditos democráticos em matéria de cuidados de saúde e de mortalidade infantil. Os cubanos são pobres? Sim, mas só pelo conceito capitalista de riqueza. Ao menos não existe a desigualdade económica chocante dos países capitalistas e, a julgar pelos relatos que vejo (e pelas fotografias de Peter Turnley), os cubanos parecem ser um povo bastante feliz. Há problemas, certamente, mas eu não incluiria a falta de liberdade entre eles. Mais uma vez, os ocidentais avaliam a liberdade pelo conceito que têm dela, o qual pode não ser o mais correcto. Seria Cuba um país livre no tempo de Fulgencio Baptista? Só se fosse para os americanos ricos que frequentavam os casinos de Havana.

E a revolução cubana foi uma epopeia heróica. Foi a vitória dos ideais sobre a força, ideais tão poderosos que derrotaram uma superpotência na invasão da Baía dos Porcos. Foi o fim de um regime profundamente corrupto e opressivo que reduziu um povo à miséria e transformou o país numa espécie de recreio de milionários. E os líderes da revolução são justamente os símbolos desses ideais, mesmo se estes últimos deram lugar ao pensamento único e ao arredamento dos ideais democráticos (mas temos de nos perguntar que democracia é esta que autorizou o Brexit e elegeu Donald Trump, tal como há oitenta anos elegera Adolf Hitler).

Fidel Castro era, sobretudo, um homem inteligentíssimo com uma visão do mundo absolutamente ímpar. Os seus discursos podiam ser longos, mas diz quem os ouviu que nunca eram cansativos, por serem tão brilhantes. Se havia líderes admiráveis até ontem, Fidel Castro era seguramente um deles. Isto é um facto que deve ser reconhecido independentemente da ideologia que se professe, como fez o nosso Presidente da República – que, a despeito de não poder estar mais distante da ideologia de Fidel, fez questão de visitá-lo e conhecê-lo. (Caso alguém não saiba, Marcelo Rebelo de Sousa é um homem de uma inteligência fora do comum: é doutorado em Direito Constitucional pela Universidade de Coimbra – que escolheu por ser mais prestigiosa e exigente que as escolas de Lisboa – e a sua tese teve a classificação mais alta de sempre neste ramo do direito, tendo o único reparo, formulado pelo Professor José Joaquim Gomes Canotilho, consistido na escassez de referências bibliográficas!)

Mas esta entrada do Número f/ é sobre fotografia, mesmo que não o tivesse parecido até agora. Serve para vos mostrar, através de uma ligação por não ter a necessária permissão autoral, algumas fotografias admiráveis de Fidel Castro por fotógrafos da Magnum. Entre estes está René Burri, que foi quem fez os retratos mais notáveis de Ernesto «Che» Guevara (sim, foi ele e não Alberto Korda).

https://www.magnumphotos.com/newsroom/politics/magnum-photographers-fidel-castro-life-in-pictures/?utm_source=fb-social&utm_campaign=Editorial_CastroPictures&utm_medium=social&utm_content=Linkpost

M. V. M.