Joel Meyerowitz, meu irmão

Por Joel Meyerowitz.

Há algumas semanas deu-me a preguiça e tudo o que publiquei no Número f/ foi uma ligação para uma entrevista com Joel Meyerowitz, fotógrafo de rua e pioneiro da cor (ou melhor: pioneiro da fotografia de rua a cores, título que partilha com Fred Herzog e Saul Leiter). Nessa entrevista, Joel Meyerowitz desabafa: «Nobody’s looking at each other. Everybody’s glued to their phones». Apesar de não me poder comparar com um Meyerowitz, não posso deixar de compreender a sua frustração.

Quando ando na rua à procura de fotografias, acontece-me muito frequentemente encontrar pessoas interessantes e não as fotografiar. Ou encontrar um bom cenário, esperar que alguém passe e desistir dessa fotografia. Porquê? Porque as pessoas que passam estão, normalmente, coladas ao telemóvel. Fotografar uma pessoa a falar ao telemóvel, ou a folheá-lo com o dedo ou a enviar mensagens, é horrível: além de retirar o encanto à fotografia, coloca-lhe uma data. É verdade: as fotografias feitas na rua com pessoas a falar ao telemóvel (ou a fotografar com ele, ou ainda a escrever mensagens ou a navegar na internet) tornam-se irremediavelmente datadas. Não é «datadas» como uma fotografia de um sujeito com cabeleira Afro, colarinhos à aviador e calças boca-de-sino dos anos 70: esta hipotética fotografia tem, no mínimo, a virtude de documentar uma era. A fotografia da pessoa a usar o telemóvel é datada porque perdeu o interesse na fracção de segundo que se sucedeu ao accionamento do obturador (se alguma vez o teve). Uma fotografia de alguém a usar o smartphone não é sexy, não é interessante, não diz nada sobre a vida, não tem sentido nenhum: é uma fotografia de alguém a fazer algo que se tornou tão banal que deixou de ter qualquer importância para a fotografia: nada lhe acrescenta, nada traz de novo.

Mais vale não fazer fotografias de pessoas com telemóveis. Fazê-lo é também subscrever um modo de vida completamente estúpido em que se chega a trocar as relações interpessoais por uma representação virtual dessas relações: as pessoas não comunicam entre si, de tão obcecadas com o aparelhinho que trazem nas mãos. Não se olham, não interagem a não ser com quem estiver do outro lado da linha, ou online nessa parvoíce das «redes sociais». E, quando se telefonam, não é por terem algo a dizer que, de tão importante, não pode esperar: já me aconteceu – e este é um exemplo entre muitos – surpreender uma conversa que consistia em instruções sobre como fazer uma sopa e onde estavam os respectivos ingredientes!

Esta é uma questão sociológica que excede largamente o âmbito da fotografia; no que nos concerne, há outra consideração importante: o telemóvel é inestético. Ou melhor: o aparelho em si pode ser agradável à vista, mas a morfologia que as pessoas assumem quando o usam é simplesmente anti-fotográfica. O braço angulado para elevar o aparelho à altura do ouvido, o tronco curvado, a cabeça tombada – nada disto favorece a figura humana.

O essencial, contudo, é que as pessoas que andam na rua com os seus smartphones não criam histórias. Limitam-se a enfiar o nariz no ecrã do telemóvel como se não existisse vida para lá do aparelho. E isto está a matar a «fotografia de rua»: que histórias há para contar quando as pessoas estão completamente alienadas e só têm olhos para o ecrã do smartphone?

Mesmo assim, nada disto é tão mau como a praga dos turistas – excepto, evidentemente, se estes estiverem a usar o telemóvel…

M. V. M.

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Liberdade

Por Raymond Depardon

Por favor não me interpretem mal. Eu não tenho qualquer relação com a Magnum, nem sou, a fortiori, pago para publicitar o que quer que eles vendam online, mas a última proposta de venda de impressões em formato quadrado não deixou de me espantar.

Não que ainda encontre muito lugar para o espanto quando vejo obras de fotógrafos como David Alan Harvey, Bruno Barbey, Harry Gruyaert, Susan Meiselas e veteranos como Robert Capa e René Burri: todos os leitores do Número f/ sabem o que penso sobre a Magnum – e, se não sabem, ficam agora a saber que a minha identificação com o ethos e a obra dos fotógrafos da Magnum é praticamente irrestrita. Poucas são as fotografias e os fotógrafos da Magnum que me mereçam qualquer tipo de reserva.

Esta colecção que a Magnum anuncia, porém, contém fotografias que são especialmente brilhantes. O tema é a liberdade – esta edição vem a propósito do cinquentenário do ano de 1968, durante o qual aconteceram eventos de especial importância para a conquista da liberdade – e desde logo se torna notória a diversidade dos símbolos adoptados por cada fotógrafo e as suas diferentes interpretações da liberdade – mas todas as fotografias são excelentes. É como se esta colecção fosse um portfolio que a Magnum tivesse de apresentar para mostrar o melhor de que os seus cooperadores são capazes. Não que a Magnum necessite, mas se precisasse de se apresentar, estou certo que muitos compreenderiam a razão da minha predilecção pela Magnum e pelos seus fotógrafos.

O que é interessante é que esta colecção atravessa a história da Magnum. Estão representados dois dos seus fundadores – Robert Capa e David Seymour – e muitos dos actuais cooperadores, entre os quais Alec Soth e a referida Susan Meiselas. Pelo meio estão fotógrafos com a importância de Raymond Depardon, Olivia Arthur, Eve Arnold e Abbas.

Se eu comprava alguma destas fotografias? Sim, sete delas: as de Harry Gruyaert, Bruno Barbey, Eve Arnold, David Alan Harvey, Raymond Depardon, Elliot Erwitt e Diana Markosian – mesmo correndo o risco de deixar de fora muitas fotografias excelentes. Claro que, depois de as adquirir, candidatar-me-ia ao rendimento social de inserção – ou a uma estadia prolongada no hospital Magalhães Lemos. É que estas são impressões que não excedem 14cm no lado mais longo e custam USD $100 cada uma. Ouch! Mesmo se muitas delas são assinadas, mais vale contentar-me em vê-las no monitor.

Se a fábula da raposa e das uvas ocorreu à vossa mente ao ler o parágrafo anterior, pode não ser por acaso.

M. V. M.

O prémio

Edgar Martins. O nome deste utilizador de máquinas de grande formato deve dizer algo aos leitores do Número f/, porque já me referi aqui a ele. Não pelos melhores motivos, decerto, mas há algo que não pode ser contestado: Edgar Martins é um dos melhores fotógrafos portugueses de sempre e pertence à clique dos grandes fotógrafos mundiais.

E agora recebeu – foi o primeiro português a fazê-lo – um dos prémios Sony World Photography. E bem merece, este fotógrafo que dá nomes intrincados e algo pretensiosos aos seus portfolios. Edgar Martins venceu a categoria de natureza morta, embora as suas fotografias tenham mais de «morta» do que de «natureza».

Eu explico: Edgar Martins passou alguns meses a fotografar cartas de suicídio e outros documentos forenses nos Institutos de Medicina Legal de Lisboa e Coimbra. (Agora o que existe não são institutos de medicina legal: são delegações do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses). Mas não foi para fazer fotografias documentais que Edgar Martins se dedicou a este estranho e mórbido trabalho: as fotografias que ele fez e ganharam o prémio SWP são de uma beleza como nunca teria esperado, mesmo se algumas das fotografias de Edgar Martins são extraordinárias pela sua estética.

Estas fotografias da colecção Siloquies And Soliloquies On Death, Life And Other Interludes têm de ser vistas levando em conta o seu contexto para serem compreendidas; se o fizermos, tudo adquire sentido: estas são fotografias pungentes que sugerem mais do que mostram; apelam, este modo, à sensibilidade. E ficam connosco, (per)seguem-nos para onde quer que vamos. Uma destas fotografias – a que ilustra, mesmo sem autorização do autor, este texto – é uma das melhores fotografias que já vi. Verdadeiramente portentosa na sua beleza, mas sobretudo no seu significado. É bela, comovedora, e poderosa ao mesmo tempo. É ambígua e subtil – fala uma linguagem que requer esforço intelectual e, sobretudo, sensibilidade. A mesma sensibilidade de que Edgar Martins lançou mão para fazer esta fotografia simplesmente extraordinária. É frágil e delicada, um mero fio, uma linha fina, tal como imagino que seja a mente de quem escreveu as cartas (das quais não vemos ou lemos uma única linha, mas cujo conteúdo deciframos através desta fotografia). Nela pode ver-se também um respeito profundo e compreensão, uma circunspecção e sobriedade diante desse fenómeno que nos perturba e no qual desejamos não pensar.

Sinto orgulho em conhecer a obra de Edgar Martins e ser seu compatriota. Se um dia fizer uma fotografia que valha a décima parte de uma destas, terei atingido o meu apogeu e voado a alturas que não me atrevo a imaginar.

M. V. M.

Preguiça

Hoje estou cansado. Apetece-me publicar no Número f/, mas estou com preguiça de escrever. Deixo-vos com uma entrevista ao grande – enorme – Joel Meyerowitz, um dos fotógrafos que me devolveu o gosto pela fotografia a cores (ainda que momentaneamente).

https://www.theguardian.com/artanddesign/2018/mar/07/photography-legend-joel-meyerowitz-phones-killed-sexiness-street-most-stunning-shots

M. V. M.

When Monty Python met Richard Avedon

É sempre agradável quando dois mundos – ou, pelo menos, dois pólos de interesse – se interceptam de forma inesperada. No meu caso, tudo partiu de uma prenda que recebi e ando a saborear desde o Natal: um tijolo de um livro que colige os diários de Michael Palin enquanto membro dos Monty Python (Michael Palin, Diaries 1969-79 – The Python Years, Volume I, 2006, Weidenfeld & Nicolson).

A primeira surpresa é que Michael Palin escreve muito bem. Talvez não seja bem uma surpresa, já que são conhecidos os curricula dos elementos dos Monty Python e nenhum deles era um Badaró ou um Fernando Mendes: todos andaram na faculdade – onde aliás se conheceram – e, no caso particular de Michael Palin, está patente nos diários uma observação muito atenta de fenómenos políticos e sociológicos que marcaram os anos durante os quais os diários foram escritos.

Além disto, os diários de Michael Palin dão-nos uma visão dos Monty Python a partir de dentro. Curioso: todos eram amigos íntimos e a sua relação ia mais fundo que a actividade de escrita e representação. Partilhavam momentos de trabalho, mas também de diversão e de convívio familiar. Apesar de ter havido momentos tensos na carreira do colectivo, nunca houve rupturas pessoais entre os membros dos Python.

Como seria porventura de esperar do Python que era a formiga do grupo, a quem cabia a parte mais substancial da escrita dos guiões, as entradas do diário patenteiam sentido de humor. Não que a leitura dos diários seja uma gargalhada da primeira à última página: o humor surge a espaços e de forma subtil e provém da observação do ridículo e do absurdo, sem nunca cair no cinismo ou no escárnio: é mais o género de quem repara em aspectos caricaturais que passam despercebidos de toda a gente.

E há nos diários – caso o leitor já estivesse a pensar que este ia ser mais um texto fora do tema – uma alusão à fotografia e a um grande fotógrafo. Em 1975, durante uma viagem aos Estados Unidos (onde eram incrivelmente populares), os Monty Python fizeram uma sessão fotográfica com nem mais nem menos que o grande Richard Avedon.

A narração desta sessão por Michael Palin é impagável: começa por intitular Richard Avedon de «One of the World’s Leading Photographers» (sic, com maiúsculas, as quais são aplicadas de seguida no artigo «He»), mas mais tarde descobre que R. Avedon é «um homem enfezado, nervoso, de pele escura e óculos, cuja idade poderia estar entre os 25 e os 55», mas «cheio de vitalidade e de um encanto fluído». Depois de um quarto de hora sem inspiração, Graham Chapman e Terry Jones sugeriram que os Monty Python fossem fotografados nus.

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O que se segue é hilariante: Avedon arranjava as poses como «uma paródia de fotografia de pessoas belas que tudo revelam, mas onde nada é mostrado» e dirigia-se aos Python com instruções como «tomates…! Tomates, Graham, tomates!». Num dado momento, Graham Chapman segredou: «de certeza que este é o tal fotógrafo famoso?» No final, Palin descreve Avedon como um «duende».

Apesar de a entrada relativa a esta sessão fotográfica me ter divertido, deixou-me também um pouco desiludido. Além de um retratista e fotógrafo mundano famoso – era a Annie Leibovitz da sua época – Richard Avedon era também (o que muitos desconhecem) um fotógrafo que se interessou pela realidade política e social, tal como Walker Evans ou Dorothea Lange. E é o autor de uma fotografia que incluo entre as melhores de sempre: Dovima With Elephants. Vê-lo descrito como um duende enfezado, trapalhão e sem ideias deixou-me um sabor algo triste – mas não me roubou o prazer de ler os diários de Michael Palin, e muito menos me tirou o interesse por um fotógrafo extraordinário.

M. V. M.

Leni e eu

Hoje proponho-me abordar um tema que alguns poderão considerar controverso. Os anos que se seguiram à derrota da Alemanha na I Guerra Mundial foram dolorosos para o povo alemão. Durante a República de Weimar, a Alemanha perdeu força e riqueza: as crianças brincavam na rua com moedas como se fossem caricas e, segundo outra versão, maços de notas eram atiradas aos fornos para alimentar o fogo.

Depois surgiu Hitler, cuja ascensão foi perturbadoramente semelhante à de muitos extremistas europeus: usou um discurso baseado no medo para justificar a aplicação da força e escolheu um grupo como inimigo comum que aglutinasse o povo, amedrontado por mentiras e confortado pela pretensa segurança oferecida, em torno do seu desígnio de poder.

Os judeus de ontem são os refugiados de hoje. Os elementos do medo, do inimigo comum e da protecção contra o inimigo como justificação da força e da privação dos direitos e liberdades são exactamente os mesmos que hoje os populistas usam. Curiosamente, muitos nada aprenderam com isto e os populistas estão a tomar o poder na Europa Central, região onde deflagraram duas guerras mundiais. E estão a tomá-lo pelo voto, tal como Hitler.

É evidente que o III Reich foi maligno. Foi a corporificação do mal, um mal de tal maneira indescritível que as gerações mais jovens poderão manifestar cepticismo ao tomar conta dos relatos do horror nazi. Torna-se ocioso tentar descortinar algo de bom que tenha acontecido entre 1933 e 1945 na Alemanha. Não que não houvesse nada de bom, mas é praticamente irrelevante mencioná-lo em face da monstruosidade do mal. É como dizer-se que um indivíduo particularmente odioso pela sua maldade e perversão tem olhos bonitos: que interessa?

Contudo, o III Reich tinha uma obsessão pela arte – desde que esta glorificasse a superioridade do povo alemão, naturalmente. Maestros como Furtwängler e artistas como Elisabeth Schwarzkopf tinham liberdade criativa suficiente, e o mesmo acontecia noutras artes. É aqui que chego ao que é pertinente para o Número f/: a força do III Reich assentava em boa parte na propaganda, pelo que a imagem era fundamental para a construção da hegemonia a que Hitler aspirava.

Quem se distinguiu neste particular foi uma das mulheres mais admiráveis de todos os tempos: Leni Riefenstahl. Foi dançarina, actriz, produtora, realizadora e fotógrafa. E foi também uma inovadora – não apenas pela técnica, mas pelas perspectivas e enquadramentos que usava. A filmagem de uma parada militar não deixava dúvidas quanto à sincronia da marcha, e muito menos quanto à dimensão. A sua cobertura dos Jogos Olímpicos de Berlim, em particular, revelou-a como uma realizadora brilhante que trouxe inovações como a câmara lenta e a filmagem subaquática, que empregou para filamr provas de natação e saltos para a água.

Poderá dizer-se que isto nada tem de especial – o que não é de maneira nenhuma verdadeiro –, mas o que me causa uma admiração quase fervorosa por Leni Riefenstahl é que esta mulher fez tudo num meio e numa época reservados aos homens. Sem precisar de alardear a sua condição feminina: bastava-lhe ser ela mesma, com o seu talento.

E era também uma fotógrafa. A sua fotografia não é tão importante como a cinematografia e os documentários em que surge como realizadora, mas não deixam de ser notáveis pelos temas e, sobretudo, pela audácia: já com mais de sessenta anos, partiu para África e documentou pela fotografia alguns povos africanos (especialmente os Nuba). Já que refiro a longevidade, Leni Riefenstahl descobriu aos 70 anos uma nova ocupação: a fotografia subaquática.

Leni morreu em 2003, com 101 anos. Por causa da sua ligação ao poder nacional-socialista, que usou a noção de grandiosidade e escala da cinematografia de Leni Riefenstahl com fins propagandísticos, muitos nunca lhe perdoaram. O que se seguiu à queda do III Reich nem sempre foi edificante: por exemplo, o barítono Dietrich Fischer-Dieskau foi preso e julgado, apesar de ter apenas vinte anos quando a Europa foi libertada e de ter sido um mero soldado aos 18 anos, recrutado compulsivamente como qualquer outro mancebo alemão. Também Leni Riefenstahl foi submetida a julgamentos, muitos deles tão arbitrários que chegou a ser julgada várias vezes pelos mesmos factos. Cinquenta vezes Leni Riefenstahl foi julgada, cinquenta vezes foi absolvida. Contudo, mesmo assim não deixaram de a conotar com o nazismo: alguns atribuem a sua fotografia dos Nuba a pretensas ilusões de superioridade e pureza rácica de Leni Riefenstahl (sem que, aparentemente, lhes passe pela cabeça que os Nuba são africanos e negros!). Felizmente, a história esquecerá rapidamente estes patetas – mas recordar-se-á de Leni Riefenstahl.

M. V. M.

Fora do tema: uma notícia triste

Hoje recebi uma notícia triste via email. O Conselho Regional do Porto da Ordem dos Advogados comunicou o falecimento do Dr. Alberto Luís, advogado da cidade do Porto.

É possível que alguns não estranhem este nome, já que o Dr. Alberto Luís era o marido de uma figura notória do Porto: a escritora Agustina Bessa-Luís. (Curiosamente, conheceram-se através de um anúncio de jornal.) Mas não foi este status marital agora interrompido que me entristeceu: eu tive oportunidade de conhecer pessoalmente o Dr. Alberto Luís. E, apesar das circunstâncias – às quais passarei de seguida –, foi uma experiência extremamente enriquecedora e agradável.

Em 1989 eu tinha acabado de me licenciar e inscrevi-me na Ordem dos Advogados como advogado estagiário. Nesta condição, tive de frequentar aulas providas pelo centro de estágio do então denominado Conselho Distrital do Porto da Ordem. Tanto quanto me lembro, tive aulas de Processo Civil (uma duplicação inútil e soporífica da cadeira da faculdade), Direito Comercial, Processo Penal e Deontologia Profissional, que era a única matéria com um pouco de pertinência para advogados estagiários. Ora, estas aulas de Deontologia eram ministradas pelo Dr. Alberto Luís.

As aulas foram extremamente enriquecedoras. Não necessariamente pelas matérias ministradas, mas sobretudo pelo brilho que o Dr. Alberto Luís lhes trazia. Os relatos da sua experiência pessoal eram de uma riqueza e interesse tal que me levaram a apreciar muito mais este aspecto do que os ensinamentos sobre deontologia: na verdade, bastava-me ler as normas do Estatuto da Ordem dos Advogados para conhecer esta matéria, pelo que aquilo que aproveitava dessas aulas era a narração dos episódios da vida profissional – especialmente por serem contados por um homem ilustrado e um orador brilhante.

Não que essas aulas agradassem a todos, note-se bem: surpreendi a alguns colegas comentários corrosivos acerca da pretensa senilidade do Dr. Alberto Luís. O que me deixou confuso, porquanto não apenas escutava com todo o interesse o que ele dizia, como me apercebia que os episódios e pequenas histórias narrados não eram tergiversações: tinham sempre cabimento e integravam-se num discurso lógico, estruturado e coerente. Nem todos têm paciência para este estilo docente: alguns prefeririam algo mais objectivo e directo – mas que melhor do que a experiência profissional de um advogado que era a encarnação dos valores deontológicos para aprender a ética da profissão?

O curso de advogado estagiário obrigava à prestação de uma prova escrita – neste caso uma dissertação escrita sobre um tema à escolha (eu escrevi um texto mediocríssimo sobre a prisão preventiva) – e provas orais: curiosamente, apenas me lembro de duas destas últimas: a de Processo Penal – um conjunto de perguntas aleatórias sobre assuntos aleatórios formuladas pelo Dr. Gil Moreira dos Santos (penso que não fiz grande figura) – e a de Deontologia, na qual me defrontei (por assim dizer) com o Dr. Alberto Luís. Houve uma certa titubeação nas minhas respostas: a doença que havia de vitimar o meu pai um ano mais tarde roubara-me concentração e tempo, pelo que não consegui preparar-me convenientemente. Simplesmente, eu posso permitir-me a imodéstia de dizer que sou um bom conversador. Isto possibilitou-me suprir as minhas deficiências no conhecimento da matéria, mas era visível que estava a ser esquivo. Quando o Dr. Alberto Luís insistiu que eu respondesse a uma pergunta concreta sobre a deontologia profissional, respondi qualquer coisa como que nenhuma regra deontológica era mais importante que a minha consciência.

Não sei se o Dr. Alberto Luís apreciou a minha resposta ou se apenas confirmou a sua convicção de que eu estava particularmente mal preparado (o que era pouco importante, porque a prova não era eliminatória), mas sorriu à minha resposta e, logo depois, olhou para um papel que tinha à sua frente e disse-me que eu tinha um argumento muito forte a meu favor: era licenciado por Coimbra. Pois era (sou). Nós, os alumni conimbricensii, conhecemo-nos uns aos outros. Sobretudo, sabemos que Coimbra nos forja de uma maneira muito especial.

Tive o prazer e a honra de conhecer um dos homens mais notáveis da cidade do Porto. Aquilo não foi uma prova oral: foi uma conversa. Uma das mais interessantes e memoráveis da minha vida. Tanto que me lembro bem dela, mesmo que tenham passado vinte e oito anos. Algumas pessoas deixam marcas destas nas outras. Penso que é a isto que chamam eternidade.

M. V. M.