Le Grand Prix du Monaco

Os leitores muito atentos do Número f/ sabem que o seu autor, o M. V. M., tem uma fraqueza: gosta de automóveis e de desporto automóvel. Não ao ponto de andar com cachecóis e bonés da sua equipa ou piloto favoritos, mas um gosto que o leva, por exemplo, a manter-se a par dos campeonatos das fórmulas secundárias – aquelas por que cada piloto passa antes de chegar ao topo, que é como quem diz a Fórmula 1. Por exemplo, faço parte de um círculo muito restrito de pessoas que não ficaram nada surpreendidas por o finlandês Valtteri Bottas ter vencido este ano o seu primeiro grande prémio: acompanho a carreira dele desde 2009 (chamem-me o que quiserem depois desta revelação) e sei que é um campeão do mundo em potência.

Mas tenho uma equipa da minha preferência desde 1981. Essa equipa é a Ferrari e passei a simpatizar com ela por causa de um Grande Prémio em especial: o Grande Prémio do Mónaco de 1981. Nessa altura os Ferrari estavam equipados com motores turbocomprimidos cuja resposta era lenta e brusca, o que os tornava inadequados para pistas sinuosas – mas, apesar deste handicap, Gilles Villeneuve venceu no Mónaco com um Ferrari.

Ora, é precisamente do GP do Mónaco que vou escrever de seguida. E, no caso de pensarem que este era mais um dos meus impertinentes textos fora do tema, vou surpreender-vos: é mesmo sobre fotografia. Simplesmente, o GP do Mónaco é um evento de tal maneira único que merece alguma atenção – mesmo (e esta é outra surpresa) de fotógrafos que nada têm que ver com desporto automóvel.

Mas antes um pouco de contexto: o ambiente do Grande Prémio do Mónaco é completamente decadente. Quem já tiver ido a Montecarlo sabe como é frequente cruzarmo-nos com Rolls-Royces e automóveis similares. Quando fecham as ruas do principado para armar a tenda desse circo que é a F1, ao kitsch local junta-se o jet-set de todo o mundo: rappers, actores, criadores de moda, vedetas de outros desportos – you name it. Tudo com uma animação cheia de champanhe e caviar, com grandes festas e passagens de modelos. Repito-o: um acontecimento social completamente decadente. Contudo, para muitos, assistir ao GP do Mónaco é o sonho de uma vida: é viver a ilusão de, por um dia, ter feito parte desse mundo glitzy.

Por tudo isto, foi interessante verificar que Martin Parr, fotógrafo da Magnum a quem ainda há bem pouco me referi, andou a fotografar os bastidores do GP do Mónaco de 2017 (que, curiosamente, foi ganho por um Ferrari). Como era de esperar de Martin Parr, fotógrafo com uma visão finamente sarcástica do mundo, as fotografias que a Magnum mostrou no seu website (por uma questão de direitos autorais não as publico com o texto, mas podem vê-las aqui), as fotografias nada têm que ver com os automóveis, nem com as celebridades ou os modelos das passerelles. Aliás, só figuram nelas um piloto, mas é de uma das fórmulas secundárias que correm no Mónaco nos dias em que dura o GP, e um ex-piloto. O resto é o lado meramente humano e patético que só alguém desapaixonado, mas extremamente perspicaz, é capaz de ver num lugar e num acontecimento como aquele.

O que tem que se lhe diga. Os bons fotógrafos fazem isto: em lugar de se concentrarem naquilo que toda a gente sabe que é o que se está a passar, preferem observar o invulgar, o que se passa paralelamente, fora (neste caso) da pista. Mostram o lado que se vê quando descemos os olhos do glam das festas e da pista. Para fotografar o ambiente e as celebridades, há os fotógrafos contratados para produzir esses resultados; para fotografar a pista existem profissionais imensamente competentes como Mark Sutton e Rainer Schlegelmilch. Mas quem nos mostraria o resto, o lado comezinho e humano, senão um fotógrafo da Magnum?

M. V. M.

O portfolio

Esta tarde, talvez por ter despachado o trabalho rapidamente e ter ficado muito cedo sem nada melhor para fazer, resolvi submeter um portfolio composto por quarenta das minhas fotografias à apreciação dos cooperadores da Magnum. Não, não me tornei pretensioso nem nutro quaisquer ilusões: o meu estado de espírito era sensivelmente o mesmo de quem joga no Euromilhões ou, mais correctamente, de quem visita o site de um fabricante de automóveis de luxo e se entretém com o configurador juntando estofos de couro perfurado e jantes de titânio à lista dos extras de um dado modelo, apesar de saber que nunca poderá adquiri-lo. Em duas palavras, isto chama-se sonhar acordado.

Não estou à espera que Josef Koudelka me telefone anunciando, com alacridade incontida, que eu fui admitido na Magnum. É evidente que o meu coração e o meu cérebro explodiriam em simultâneo se isso acontecesse – o que, atento o consequente óbito da minha pessoa, me impediria de saborear o prazer de ter sido escolhido –, mas já ficaria contente se os cooperadores da Magnum não rissem das minhas fotografias quando as virem – se chegarem a vê-las, porque é possível que ignorem a minha candidatura por eu não ter curriculum de fotógrafo. (Convém ter em mente que, além do presidente Koudelka, são cooperadores da Magnum, entre outros, Alec Soth, Martin Parr, Peter van Agtmael, Harry Gruyaert, Georgui Pinkhassov, Abbas e Bruce Gilden – entre muitos outros. É uma verdadeira temeridade apresentar um portfolio a monstros como estes.)

Apenas sujeito este pequeno episódio à irrisão dos leitores porque esta candidatura (chamemos-lhe assim) implicou fazer uma selecção das fotografias a incluir no portfolio. (Já que o menciono, não tive de organizar nada, a não ser numerar as fotografias por ordem decrescente de preferência pessoal e carregá-las na página das candidaturas: não precisei de enviar um portfolio impresso, o que, se fosse exigido, me teria levado a não me candidatar.) Andei pelo Flickr à procura de fotografias que tivessem um mínimo de correlação com o espírito Magnum. (Penso que conheço o suficiente dos fotógrafos da Magnum para determinar o que é esse «espírito Magnum», mas posso estar completamente enganado.) Seja como for, o processo de selecção serviu para remexer em fotografias de que já nem sequer me lembrava.

A conclusão que retirei desta selecção é a de ser inútil publicar muitas fotografias no Flickr. Não vale a pena. Quem visita o photostream vê as fotografias que cabem no primeiro ecrã, nada mais. Depois, publicar fotografias desinteressantes ou supérfluas não contribui em nada para o conforto visual do visitante nem para a reputação do visitado. Eu bem podia ter apenas as quarenta fotografias que seleccionei publicadas no Flickr, porque quase todas as demais – e eu já tenho mais de 1700 fotografias no Flickr! – são redundantes e só estão ali para criar poluição visual.

Isto é assim mesmo: o tempo é o maior e mais exigente mestre que existe quando se trata de avaliar o que fazemos. Ao fim de alguns anos, aquilo que pensávamos ser uma obra-prima de mestre acaba por ser apenas a prima do mestre de obras. Algumas das fotografias que seleccionei resistiram ao teste do tempo; a maioria, porém, não. E, apesar de sentir que as minhas fotografias mais recentes são as melhores, daqui a dois anos posso pensar de uma maneira completamente diferente.

Outra conclusão importante é que a popularidade das fotografias que carregamos para o Flickr não quer dizer que aquelas sejam boas. Quer dizer, apenas e estritamente, que algumas pessoas gostam delas. Quem tem de ser o juiz não é o número de visualizações e de favoritos, mas o próprio autor das fotografias. Eu já tive várias fotografias no chamado «Explore» e, mesmo se algumas delas são razoavelmente interessantes, vê-las no meio das outras escolhidas é um anticlímax. As minhas fotografias passam praticamente despercebidas no meio de retratos cheios de bokeh, de macros de lagartas cheios de bokeh e de HDRs da Golden Gate (alguns sem nenhum bokeh). O «Explore» não afere a qualidade das fotografias: significa apenas que as pessoas que seleccionam uma determinada fotografia gostaram dela, nada mais.

Bom, agora resta-me esperar pelo email de Josef Koudelka anunciando que fui escolhido para integrar a Magnum. E o Ferrari Superfast fica mesmo a matar em azul Tour de France e com estofos de couro bege Tradizione.

M. V. M.

Cromos, postais e portfolios

Nos últimos três ou quatro fins-de-semana, o bom tempo que esteve levou-me à praia. Não para apanhar sol ou tomar banho – ainda é cedo para isso –, mas para fotografar. Encontrei um verdadeiro filão numa praia não muito longe de onde moro. Aos fins-de-semana, aquele areal e o passeio que o orla enchem-se de cromos, o que me tem possibilitado fazer fotografias com um tom razoavelmente sarcástico: ver um homem maduro e gordo deitado no muro que delimita a praia, de tronco nu e com as calças do fato de treino arregaçadas, é para mim uma cena irresistível. Tal como ver um sujeito de setenta anos vestido com fato a tocar harmónica e castanholas e a dançar.

Este cenário agrada-me de tal maneira que dou por mim a consultar o website do Instituto Português do Mar e da Atmosfera para saber, com antecedência, se vai estar sol no próximo fim-de-semana. A sério. Isto é, evidentemente, o resultado de estar a fotografar a cores e de ter adquirido familiaridade com os fotógrafos da cor (aos quais devo juntar, além dos habituais sobre quem estou sempre a escrever, os nomes de Martin Parr e Alex Webb). Fotografar a cor deixa-me com um estado de espírito mais leve, menos sério, desobrigado de fazer fotografias brilhantes, ou rigorosas, ou cheias de significado. (Não deixa de ser irónico estar a escrever estas coisas um dia depois de ter recomendado o visionamento do documentário que Wim Wenders fez sobre Sebastião Salgado, cujas fotografias são do mais sério que se pode imaginar.)

Por outro lado, estou a fazer estas fotografias com uma película que, sob sol intenso, dá às fotografias um aspecto resolutamente antiquado, o que não é mau mas por vezes não resulta muito bem, obrigando-me a recorrer à edição mais do que gostaria. Este ar antiquado levou-me a pensar que seria uma boa ideia dar a estas fotografias um título comum, que podia ser «Postais da Praia» ou, melhor ainda, Postcards From the Seaside. Ou qualquer outra coisa, desde que associe as fotografias às cores dos bilhetes postais dos anos 60 e 70. O Agfa Vista 200 dá cores assim.

E, depois de tudo fotografado, ponho-me a pensar se vale realmente a pena fazer uma abordagem metódica a um determinado tema quando se é um mero amador. Um profissional, ou um amador ambicioso, pode e deve organizar portfolios que sejam consistentes, mas quando se trata de amadores como eu, sinto sempre uma sensação dolorosa de inutilidade quando me demoro a explorar um determinado tema, à qual se junta uma ponta de pretensão que pode ser considerada patética. Se não sou um profissional, por que devo agir como se o fosse? É estar a despender energias sem resultados.

Não me parece que os amadores desinteressados se devam deixar influenciar pelos profissionais e pelo que estes fazem. Quanto mais não seja por se poder estar a pisar a linha ténue da imitação ao fazê-lo, mas sobretudo porque é inútil. Ninguém quer saber do portfolio deste amador desinteressado. O facto de se publicar séries de fotografias no facebook ou no Flickr não vai chamar a atenção de nenhum guru da fotografia que vá apadrinhar o nosso trabalho e levar-nos pela mão ao caminho da fama. Pensar que isso pode acontecer é um disparate.

A questão que o amador deve colocar é, antes de mais, o que quer da sua fotografia. Quer tornar-se num profissional, ter fama e ser reconhecido? Tudo bem, mas primeiro tem de fazer uma pergunta a si mesmo, à qual deve responder com a maior honestidade e sinceridade possível, esquecendo as opiniões sempre favoráveis dos que lhe são chegados e os likes nas redes sociais. Essa pergunta é – serei suficientemente bom? Esta qualidade é algo que se adquire com muito trabalho. Não basta ter um «olhar» (expressão nauseabunda que me causa vómitos) e muito menos importa o equipamento e a técnica.

Organizar portfolios é bom, mas só se a resposta àquela pergunta for positiva e se quiser mostrá-los a quem conta. Aliás, é assim que a Magnum recruta os seus cooperadores. Fora este caminho para a profissionalização, é bem melhor e mais divertido ter uma abordagem descontraída da fotografia, capturando momentos sem grandes considerações de consistência e coerência. Convém nunca esquecer que, para um amador, a fotografia é um divertimento e é também uma terapia, ou um escape. Não devemos sobrecarregá-la com preocupações escusadas, nem transformá-la no que Lloyd Cole genialmente chamou um carnaval de seriedade.

M. V. M.

O Sal da Terra

Façam um favor a vós mesmos: dediquem uma hora e cinquenta minutos das vossas vidas a ver isto. É o documentário que Wim Wenders fez sobre Sebastião Salgado. Vão ver que vai valer a pena.

Valer a pena? Que digo? Se gostam de fotografia e a compreendem como forma de arte, talvez ver isto mude a forma como encaram a fotografia – e, quem sabe, as vossas vidas. Talvez vos aconteça o mesmo que a mim e fiquem com a convicção que, depois de Sebastião Salgado, não vale a pena fotografar mais. Ninguém vai fazer melhor que ele, do ponto de vista visual como do conteúdo. Poderá fazer-se diferente, nunca igual ou melhor. Sebastião Salgado levou a fotografia a um ponto de não retorno, como se a tivesse cristalizado e tornado inamovível. Nada mais há a dizer – fotograficamente – porque ninguém vai dizer nada que Sebastião Salgado não o tenha dito. Ele levou a fotografia ao extremo, de tal maneira que é impossível ir mais longe. Este homem reduziu fotógrafos como Steve McCurry à condição de fenómenos circenses. Em Sebastião Salgado tudo é majestoso, poderoso, intenso, de uma dimensão que por vezes parece superar a capacidade humana.

Também pode acontecer que, como eu, vos sintais minúsculos, insignificantes e inúteis depois de ver isto, porque a dimensão de Sebastião Salgado não se reduz à fotografia: é um homem que alcançou tudo na vida, que teve sempre consciência do seu lugar no seio da humanidade e, à sua maneira, a tornou melhor. É um ser humano compassivo, alerta e interventivo. Vai deixar muito mais no mundo que a sua prole.

M. V. M.

Direito de autor, 25 de Abril, os “jotinhas” e o fotógrafo de Abril

Por Alfredo Cunha

Alfredo Cunha é o homem que, aos 19 anos, fez algumas das fotografias mais importantes do 25 de Abril. É notável que alguém tão jovem tivesse uma percepção tão incisiva sobre o que estava a acontecer nesses momentos da nossa história, porque as suas fotografias mais notórias são plenas de simbolismo, o qual parece impossível de imaginar ter sido intuído por uma mente tão jovem.

Uma das fotografias mais emblemáticas que Alfredo Cunha fez no dia 25 de Abril de 1974 é a de Salgueiro Maia posando junto a um Chaimite, olhando directamente a lente de Alfredo Cunha. O capitão Salgueiro Maia foi, como todas as pessoas da minha geração e mais velhas sabem, o operacional do 25 de Abril. Não vou ter a temeridade de dizer que sem ele o 25 de Abril não teria acontecido, mas foi fundamental: foi o homem no terreno. Todos os portugueses estão em dívida com ele.

Do outro lado da história está a organização juvenil do único partido que não aprovou a Constituição emanada do 25 de Abril e do poder constituinte democraticamente legitimado após a revolução. Um partido que, conjuntamente com o outro grande partido da sua ala política, tentou em 2003 apagar a história subliminarmente, usando o slogan «Abril é evolução» (havia ali um R, mas quase imperceptível), um partido que procurou identificar-se com os nacionalismos e populismos por razões eleitoralistas, ao mudar a denominação para «Popular»; numa palavra, um partido que esteve sempre do outro lado em relação às conquistas de Abril. Não vou dizer, apesar do número considerável de eminências da ditadura que o compunham, que era um partido fascista, porque Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa não o merecem, mas digamos que o CDS-PP não é o primeiro partido que vem à mente quando pedem para associar partidos políticos e o 25 de Abril.

Por tudo isto, foi de um cinismo vizinho da hipocrisia e do descaramento que a Juventude Popular tivesse elaborado um cartaz – ou melhor: tecnicamente é um meme, já que nunca foi imprimido e é apenas uma imagem usada no facebook – onde surge uma fotografia de Salgueiro Maia, ainda por cima acompanhada de um slogan que diz: «A liberdade é de quem a dá aos outros! …e não dos que se afirmam donos dela.»

O que a JP quis com este cartaz é bem claro: foi dizer que a esquerda – se faz algum sentido usar esta divisão antiquada – que hoje ocupa o poder não é dona da liberdade. O que não é mentira nenhuma, mas é um despropósito completo vindo de quem vem: antes de mais, por ninguém ter clamado a propriedade da liberdade; depois, porque, quando se fala do 25 de Abril e das suas conquistas, é bom lembrar que, a despeito dos excessos de uma esquerda oportunista que tentou tomar o poder, quem aderiu ao espírito de Abril foi a esquerda e quem se lhe opôs foi a direita na qual o CDS muito cedo se filiou, apesar do nome que sugeria uma filiação centrista e moderada. Tenho todas as razões para crer que Salgueiro Maia não seria militante do CDS-PP se fosse vivo (e é mais que provável que não tivesse autorizado a utilização da sua imagem num meme da Juventude Popular).

Mas o Número f/ não é um blogue político: o seu tema é a fotografia. Por falar em fotografia, a de Salgueiro Maia que figura no meme da Juventude Popular é a de Alfredo Cunha a que aludi no segundo parágrafo. A JP usou-a porque, enfim, para aquelas cabecinhas, tudo o que está na internet é público e, deste modo, pode ser usado livremente, não é verdade?

Não, não é. Não é por uma fotografia figurar na internet que cai no domínio público. O facto de ser divulgada num meio tão aberto não implica que se torne de livre utilização. Isto é algo que estou farto de dizer aqui no Número f/, mas a minha insignificância faz com que ninguém me dê ouvidos e continue a publicar fotografias na chafurdice chamada facebook sem ao menos ter o cuidado de incluir o nome do autor na própria fotografia, como o exige o Código do Direito de Autor.

Evidentemente, Alfredo Cunha não se conformou quando viu a sua fotografia usurpada – este termo é acertadíssimo em todas as suas acepções – pela Juventude Popular e intentou uma acção para reivindicar a autoria da fotografia. Só espero que o tribunal não veja um obstáculo na exigência legal de inclusão do nome do autor no corpo da fotografia, porque é evidente que Alfredo Cunha tem todas as razões e mais uma para agir judicialmente.

A reacção da JP à notícia da propositura da acção foi risível: aqueles meninos, alguns deles filhos dos advogados que dominam o mercado da advocacia e cujos escritórios fazem negócio com o poder executivo, não se lembraram de nenhum argumento melhor que este: Alfredo Cunha move-se por razões ideológicas, porque a fotografia foi usada anteriormente e ele nunca reagiu assim (embora, evidentemente, sejam incapazes de mencionar uma única utilização indevida anterior da fotografia). O tipo de argumento que pode ser ouvido numa tasca, vindo de um adepto da bola alcoolizado. E tiveram ainda a lata de dizer que Alfredo Cunha não falou com eles! Isto é de tal maneira ridículo que nem merece mais considerações, a não ser para formular esta dúvida: então o autor é que tem de falar com os utilizadores da obra? Não será mais ao contrário?

O que me faz tremer é pensar que um dia alguns destes parvinhos vão chegar a ministros e secretários de estado. Vem aí a nova geração que sucederá a Paulo Núncio e Sérgio Monteiro. A geração dos donativos feitos ao partido pelo Jacinto Leite Capelo Rego terá continuidade.

M. V. M.

Pulitzer

Eu não sei quantos dos meus leitores seguem o que se passa pelo mundo. Para além da mãe de todas as bombas, das ameaças pífias do comediante que governa a Coreia do Norte e do plebiscito que pode transformar Recep Tayyip Erdogan num califa e a Turquia num Estado medieval, há um país onde, a pretexto da guerra ao narcotráfico, acontecem carnificinas todos os dias. Esse país é as Filipinas.

Rodrigo Duterte, actual presidente das Filipinas, é um daqueles psicopatas sem ideologia nem um plano para a sua nação que conseguem engodar o povo e ganhar eleições com um discurso que vai ao encontro, não das necessidades reais das pessoas, mas do ódio que lhes é inculcado. Esse ódio, em regra, não corresponde a uma ameaça real ou iminente, nem a nada de essencial, referindo-se a fenómenos de diminuta repercussão, mas que, por uma propaganda eficaz, são percebidos como fundamentais. Donald Trump ganhou as eleições com esse discurso e foi com ele que o Brexit ganhou o referendo que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia. No caso de Duterte, o fenómeno que lhe deu a vitória não foi a imigração ilegal nem a perniciosidade da livre circulação de pessoas, mas o tráfico de droga. Sob o pretexto do combate ao tráfico, está a acontecer um verdadeiro massacre nas Filipinas. Num relatório da Amnistia Internacional pode ler-se que não se trata de uma guerra contra as drogas, mas de uma guerra contra os pobres, e que as operações policiais são dirigidas contra pessoas pobres e indefesas, mediante provas forjadas e com recurso ao recrutamento de assassinos a soldo.

Este ano o Prémio Pulitzer de fotografia, na categoria de notícias da actualidade (breaking news: não há uma tradução literal e fidedigna em português) foi atribuído ao fotojornalista Daniel Berehulak. O texto de hoje é sobre uma das fotografias que Berehulak fez em Manila, no velório de um homem assassinado na sequência da guerra às drogas de Duterte, a qual adquiriu importância por ter sido a que o The New York Times publicou no seu Twitter para anunciar a atribuição do Pulitzer.

O fotojornalismo cumpre a sua missão quando tem por objecto acontecimentos como este. O fotojornalista ajuda a dar uma impressão sobre os acontecimentos para a qual as palavras podem não ser suficientes. O bom fotojornalista vai mais longe e consegue criar fotografias emblemáticas do acontecimento que cobrem, como fizeram Koudelka e W. Eugene Smith. Deste modo, é função do fotojornalista gerar uma consciência universal para o acontecimento que se está a testemunhar. Se o fizer através de uma fotografia altamente simbólica, maior será o valor dele.

O que vou escrever de seguida pode parecer frívolo, e deixo aos leitores o eventual juízo sobre a futilidade do meu entendimento. A fotografia que mostro é simbólica, no sentido em que a expressão da criança que se vê ao centro é, de facto, emblemática –  embora tenha algumas reservas quanto à sua eficácia na necessária agitação das consciências embotadas –, mas de resto é uma fotografia indigna de um Prémio Pulitzer. Sinto que posso dizer isto com toda a rotundidade, porque Daniel Berehulak fez fotografias incomparavelmente melhores. Esta, porém, causa, antes de mais, a impressão desnecessária de o fotojornalista estar a espreitar um velório, violando algo íntimo e sagrado. Essa impressão é acentuada pela perspectiva e pela composição, que é completamente descuidada e apressada. A posição da câmara, olhando a cena do alto, torna a imagem banal, e a composição está longe de ser a mais expressiva: há corpos indevidamente cortados e há aquele objecto, no lado direito da imagem, que parece ser uma esfregona e que rouba a atenção que devia concentrar-se no corpo que está a ser velado. Não há nada a fazer: aquela esfregona retira toda e qualquer pretensão de dignidade e seriedade à fotografia. Incomoda, os olhos vão involuntariamente cravar-se nela. Não vemos a criança a chorar nem o morto: só vemos a esfregona. De resto, a luz é demasiado festiva para a ocasião, sendo mais apropriada a uma sessão de karaoke que a um velório, o que, evidentemente, não é culpa do fotógrafo (embora a conversão para preto-e-branco pudesse ter ajudado), mas o que esta fotografia parece é uma intromissão de alguém num velório para tirar uma fotografia com um telemóvel. Ah – e é tão fácil colocar uma criança a gritar de dor no enquadramento para obter um efeito pungente! Infelizmente, não consigo afastar a palavra «exploração» da minha mente ao ver aquela criança e a sua dor.

Velórios? Comparem esta fotografia com as que W. Eugene Smith (acima) e Josef Koudelka fizeram. Eu não quero ser negativo ou destruidor: o mundo precisa de tomar consciência da barbárie que está a acontecer nas Filipinas – mas será que esta fotografia de Berehulak contribui para esse despertar? Duvido. Melhor: tenho a certeza que não.

M. V. M.

Quando os mestres vêm em meu auxílio

Não estou nada arrependido de ter tomado a decisão de fotografar a cores. Nem um bocadinho. Saturei-me do preto-e-branco. É um caminho demasiado batido e senti que não tinha nada de novo a dizer.

Com a cor, contudo, foi como se abrisse uma janela e deixasse entrar luz num quarto que, se não era escuro, era pelo menos tenuemente iluminado. Não é impossível fazer o tipo de fotografia a que estou acostumado a cores, embora também deva dizer que ainda não exploro a cor como podia. (Fotografar cenários cobertos de graffiti é simples demais.)

Como já devo ter referido cerca de uma centena de vezes, foram fotógrafos como Saul Leiter que me convenceram ser possível fazer o tipo de fotografia a que mais frequentemente me dedico a cores; mas houve dois outros, também eles profusamente referenciados no Número f/, que realmente me interessaram pela cor, embora não sejam facilmente catalogáveis como «fotógrafos de rua»: William Albert Allard e Harry Gruyaert, o grande fotógrafo belga.

Gruyaert, cooperador da agência Magnum que tem agora 75 anos – nasceu no dia 25 de Agosto de 1941 –, decidiu fazer fotografia de rua em Paris. Eu não precisava de mais incentivos para fotografar a cores, mas ver estas fotografias trouxe-me um pouco mais de motivação. Acima de tudo, deixou-me com a certeza de que aquilo que estou a tentar fazer – fotografia de rua a cores – é válido e interessante. Não que vá imitar estas fotografias, nem que me tenha sido mostrado um caminho: saber que um fotógrafo desta grandeza se entregou à fotografia de rua a cores funcionou antes como uma espécie de aprovação ou legitimação do que estou a tentar fazer.

As fotografias de rua que Harry Gruyaert fez em Paris são alegres, cheias de vida e de dinâmica. O elemento gráfico determinante é a cor, e são fotografias que, ao contrário da fotografia de rua a preto-e-branco altamente estilizada dos nossos dias, se concentram nas pessoas e não nos cenários. A fotografia de rua a preto-e-branco incorre frequentemente no erro de ser dominada pelos cenários, tratando as pessoas como meros pretextos para justificar o rótulo de «fotografia de rua», mas as fotografias de Gruyaert não podiam ser mais opostas a este conceito estético algo frívolo.

E nem se pode dizer que sejam rígidas e formais. Pelo contrário. As fotografias que a Magnum apresenta no seu website são orgânicas, livres na forma e plenas de vitalidade. São imediatas, no sentido em que apenas importa o que elas pretendem transmitir. Tão-pouco interessa que elas tenham ruído – ou será grão? –: o importante é mostrar a ideia que o fotógrafo teve ao deparar-se com uma cena. As considerações técnicas não são para aqui chamadas. Definitivamente, Harry Gruyaert não dá um chavo pelo bokeh e as teorias da abertura equivalente não o devem preocupar em demasia.

E há também o motivo de interesse que é o de, aos 75 anos, fazer algo de novo. Eu tenho por característica admirar aqueles que não vêem na idade um obstáculo, nem se deixam estagnar com fórmulas ou estilos que eles mesmos consagraram. Se não se tiver esta curiosidade permanente de procurar coisas novas, não vale a pena fazer seja o que for. O pior inimigo da vida são as rotinas. Também isto, este aspecto extremamente pessoal de lição de vida, funciona como um estímulo para mim.

No caso de não se terem apercebido da ligação para a página da Magnum que deixei acima, podem clicar aqui.

M. V. M.