Direito de autor, 25 de Abril, os “jotinhas” e o fotógrafo de Abril

Por Alfredo Cunha

Alfredo Cunha é o homem que, aos 19 anos, fez algumas das fotografias mais importantes do 25 de Abril. É notável que alguém tão jovem tivesse uma percepção tão incisiva sobre o que estava a acontecer nesses momentos da nossa história, porque as suas fotografias mais notórias são plenas de simbolismo, o qual parece impossível de imaginar ter sido intuído por uma mente tão jovem.

Uma das fotografias mais emblemáticas que Alfredo Cunha fez no dia 25 de Abril de 1974 é a de Salgueiro Maia posando junto a um Chaimite, olhando directamente a lente de Alfredo Cunha. O capitão Salgueiro Maia foi, como todas as pessoas da minha geração e mais velhas sabem, o operacional do 25 de Abril. Não vou ter a temeridade de dizer que sem ele o 25 de Abril não teria acontecido, mas foi fundamental: foi o homem no terreno. Todos os portugueses estão em dívida com ele.

Do outro lado da história está a organização juvenil do único partido que não aprovou a Constituição emanada do 25 de Abril e do poder constituinte democraticamente legitimado após a revolução. Um partido que, conjuntamente com o outro grande partido da sua ala política, tentou em 2003 apagar a história subliminarmente, usando o slogan «Abril é evolução» (havia ali um R, mas quase imperceptível), um partido que procurou identificar-se com os nacionalismos e populismos por razões eleitoralistas, ao mudar a denominação para «Popular»; numa palavra, um partido que esteve sempre do outro lado em relação às conquistas de Abril. Não vou dizer, apesar do número considerável de eminências da ditadura que o compunham, que era um partido fascista, porque Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa não o merecem, mas digamos que o CDS-PP não é o primeiro partido que vem à mente quando pedem para associar partidos políticos e o 25 de Abril.

Por tudo isto, foi de um cinismo vizinho da hipocrisia e do descaramento que a Juventude Popular tivesse elaborado um cartaz – ou melhor: tecnicamente é um meme, já que nunca foi imprimido e é apenas uma imagem usada no facebook – onde surge uma fotografia de Salgueiro Maia, ainda por cima acompanhada de um slogan que diz: «A liberdade é de quem a dá aos outros! …e não dos que se afirmam donos dela.»

O que a JP quis com este cartaz é bem claro: foi dizer que a esquerda – se faz algum sentido usar esta divisão antiquada – que hoje ocupa o poder não é dona da liberdade. O que não é mentira nenhuma, mas é um despropósito completo vindo de quem vem: antes de mais, por ninguém ter clamado a propriedade da liberdade; depois, porque, quando se fala do 25 de Abril e das suas conquistas, é bom lembrar que, a despeito dos excessos de uma esquerda oportunista que tentou tomar o poder, quem aderiu ao espírito de Abril foi a esquerda e quem se lhe opôs foi a direita na qual o CDS muito cedo se filiou, apesar do nome que sugeria uma filiação centrista e moderada. Tenho todas as razões para crer que Salgueiro Maia não seria militante do CDS-PP se fosse vivo (e é mais que provável que não tivesse autorizado a utilização da sua imagem num meme da Juventude Popular).

Mas o Número f/ não é um blogue político: o seu tema é a fotografia. Por falar em fotografia, a de Salgueiro Maia que figura no meme da Juventude Popular é a de Alfredo Cunha a que aludi no segundo parágrafo. A JP usou-a porque, enfim, para aquelas cabecinhas, tudo o que está na internet é público e, deste modo, pode ser usado livremente, não é verdade?

Não, não é. Não é por uma fotografia figurar na internet que cai no domínio público. O facto de ser divulgada num meio tão aberto não implica que se torne de livre utilização. Isto é algo que estou farto de dizer aqui no Número f/, mas a minha insignificância faz com que ninguém me dê ouvidos e continue a publicar fotografias na chafurdice chamada facebook sem ao menos ter o cuidado de incluir o nome do autor na própria fotografia, como o exige o Código do Direito de Autor.

Evidentemente, Alfredo Cunha não se conformou quando viu a sua fotografia usurpada – este termo é acertadíssimo em todas as suas acepções – pela Juventude Popular e intentou uma acção para reivindicar a autoria da fotografia. Só espero que o tribunal não veja um obstáculo na exigência legal de inclusão do nome do autor no corpo da fotografia, porque é evidente que Alfredo Cunha tem todas as razões e mais uma para agir judicialmente.

A reacção da JP à notícia da propositura da acção foi risível: aqueles meninos, alguns deles filhos dos advogados que dominam o mercado da advocacia e cujos escritórios fazem negócio com o poder executivo, não se lembraram de nenhum argumento melhor que este: Alfredo Cunha move-se por razões ideológicas, porque a fotografia foi usada anteriormente e ele nunca reagiu assim (embora, evidentemente, sejam incapazes de mencionar uma única utilização indevida anterior da fotografia). O tipo de argumento que pode ser ouvido numa tasca, vindo de um adepto da bola alcoolizado. E tiveram ainda a lata de dizer que Alfredo Cunha não falou com eles! Isto é de tal maneira ridículo que nem merece mais considerações, a não ser para formular esta dúvida: então o autor é que tem de falar com os utilizadores da obra? Não será mais ao contrário?

O que me faz tremer é pensar que um dia alguns destes parvinhos vão chegar a ministros e secretários de estado. Vem aí a nova geração que sucederá a Paulo Núncio e Sérgio Monteiro. A geração dos donativos feitos ao partido pelo Jacinto Leite Capelo Rego terá continuidade.

M. V. M.

Pulitzer

Eu não sei quantos dos meus leitores seguem o que se passa pelo mundo. Para além da mãe de todas as bombas, das ameaças pífias do comediante que governa a Coreia do Norte e do plebiscito que pode transformar Recep Tayyip Erdogan num califa e a Turquia num Estado medieval, há um país onde, a pretexto da guerra ao narcotráfico, acontecem carnificinas todos os dias. Esse país é as Filipinas.

Rodrigo Duterte, actual presidente das Filipinas, é um daqueles psicopatas sem ideologia nem um plano para a sua nação que conseguem engodar o povo e ganhar eleições com um discurso que vai ao encontro, não das necessidades reais das pessoas, mas do ódio que lhes é inculcado. Esse ódio, em regra, não corresponde a uma ameaça real ou iminente, nem a nada de essencial, referindo-se a fenómenos de diminuta repercussão, mas que, por uma propaganda eficaz, são percebidos como fundamentais. Donald Trump ganhou as eleições com esse discurso e foi com ele que o Brexit ganhou o referendo que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia. No caso de Duterte, o fenómeno que lhe deu a vitória não foi a imigração ilegal nem a perniciosidade da livre circulação de pessoas, mas o tráfico de droga. Sob o pretexto do combate ao tráfico, está a acontecer um verdadeiro massacre nas Filipinas. Num relatório da Amnistia Internacional pode ler-se que não se trata de uma guerra contra as drogas, mas de uma guerra contra os pobres, e que as operações policiais são dirigidas contra pessoas pobres e indefesas, mediante provas forjadas e com recurso ao recrutamento de assassinos a soldo.

Este ano o Prémio Pulitzer de fotografia, na categoria de notícias da actualidade (breaking news: não há uma tradução literal e fidedigna em português) foi atribuído ao fotojornalista Daniel Berehulak. O texto de hoje é sobre uma das fotografias que Berehulak fez em Manila, no velório de um homem assassinado na sequência da guerra às drogas de Duterte, a qual adquiriu importância por ter sido a que o The New York Times publicou no seu Twitter para anunciar a atribuição do Pullitzer.

O fotojornalismo cumpre a sua missão quando tem por objecto acontecimentos como este. O fotojornalista ajuda a dar uma impressão sobre os acontecimentos para a qual as palavras podem não ser suficientes. O bom fotojornalista vai mais longe e consegue criar fotografias emblemáticas do acontecimento que cobrem, como fizeram Koudelka e W. Eugene Smith. Deste modo, é função do fotojornalista gerar uma consciêncai universal para o acontecimento que se está a testemunhar. Se o fizer através de uma fotografia altamente simbólica, maior será o valor dele.

O que vou escrever de seguida pode parecer frívolo, e deixo aos leitores o eventual juízo sobre a futilidade do meu entendimento. A fotografia que mostro é simbólica, no sentido em que a expressão da criança que se vê ao centro é, de facto, emblemática –  embora tenha algumas reservas quanto à sua eficácia na necessária agitação das consciências embotadas –, mas de resto é uma fotografia indigna de um Prémio Pulitzer. Sinto que posso dizer isto com toda a rotundidade, porque Daniel Berehulak fez fotografias incomparavelmente melhores. Esta, porém, causa, antes de mais, a impressão desnecessária de o fotojornalista estar a espreitar um velório, violando algo íntimo e sagrado. Essa impressão é acentuada pela perspectiva e pela composição, que é completamente descuidada e apressada. A posição da câmara, olhando a cena do alto, torna a imagem banal, e a composição está longe de ser a mais expressiva: há corpos indevidamente cortados e há aquele objecto, no lado direito da imagem, que parece ser um espanador e que rouba a atenção que devia concentrar-se no corpo que está a ser velado. Não há nada a fazer: aquele espanador retira toda e qualquer pretensão de dignidade e seriedade à fotografia. Incomoda, os olhos vão involuntariamente cravar-se nele. Não vemos a criança a chorar nem o morto: só vemos um espanador. A luz é demasiado festiva para a ocasião, sendo mais apropriada a uma sessão de karaoke que a um velório, o que, evidentemente, não é culpa do fotógrafo (embora a conversão para preto-e-branco pudesse ter ajudado), mas o que esta fotografia parece é uma intromissão de alguém num velório para tirar uma fotografia com um telemóvel. Ah – e é tão fácil colocar uma criança a gritar de dor no enquadramento para obter um efeito pungente! Infelizmente, não consigo afastar a palavra «exploração» da minha mente ao ver aquela criança e a sua dor.

Velórios? Comparem esta fotografia com as que W. Eugene Smith (acima) e Josef Koudelka fizeram. Eu não quero ser negativo ou destruidor: o mundo precisa de ganhar consciência acerca da barbárie que está a acontecer nas Filipinas – mas será que esta fotografia de Berehulak contribui para esse despertar? Duvido. Melhor: tenho a certeza que não.

M. V. M.

Quando os mestres vêm em meu auxílio

Não estou nada arrependido de ter tomado a decisão de fotografar a cores. Nem um bocadinho. Saturei-me do preto-e-branco. É um caminho demasiado batido e senti que não tinha nada de novo a dizer.

Com a cor, contudo, foi como se abrisse uma janela e deixasse entrar luz num quarto que, se não era escuro, era pelo menos tenuemente iluminado. Não é impossível fazer o tipo de fotografia a que estou acostumado a cores, embora também deva dizer que ainda não exploro a cor como podia. (Fotografar cenários cobertos de graffiti é simples demais.)

Como já devo ter referido cerca de uma centena de vezes, foram fotógrafos como Saul Leiter que me convenceram ser possível fazer o tipo de fotografia a que mais frequentemente me dedico a cores; mas houve dois outros, também eles profusamente referenciados no Número f/, que realmente me interessaram pela cor, embora não sejam facilmente catalogáveis como «fotógrafos de rua»: William Albert Allard e Harry Gruyaert, o grande fotógrafo belga.

Gruyaert, cooperador da agência Magnum que tem agora 75 anos – nasceu no dia 25 de Agosto de 1941 –, decidiu fazer fotografia de rua em Paris. Eu não precisava de mais incentivos para fotografar a cores, mas ver estas fotografias trouxe-me um pouco mais de motivação. Acima de tudo, deixou-me com a certeza de que aquilo que estou a tentar fazer – fotografia de rua a cores – é válido e interessante. Não que vá imitar estas fotografias, nem que me tenha sido mostrado um caminho: saber que um fotógrafo desta grandeza se entregou à fotografia de rua a cores funcionou antes como uma espécie de aprovação ou legitimação do que estou a tentar fazer.

As fotografias de rua que Harry Gruyaert fez em Paris são alegres, cheias de vida e de dinâmica. O elemento gráfico determinante é a cor, e são fotografias que, ao contrário da fotografia de rua a preto-e-branco altamente estilizada dos nossos dias, se concentram nas pessoas e não nos cenários. A fotografia de rua a preto-e-branco incorre frequentemente no erro de ser dominada pelos cenários, tratando as pessoas como meros pretextos para justificar o rótulo de «fotografia de rua», mas as fotografias de Gruyaert não podiam ser mais opostas a este conceito estético algo frívolo.

E nem se pode dizer que sejam rígidas e formais. Pelo contrário. As fotografias que a Magnum apresenta no seu website são orgânicas, livres na forma e plenas de vitalidade. São imediatas, no sentido em que apenas importa o que elas pretendem transmitir. Tão-pouco interessa que elas tenham ruído – ou será grão? –: o importante é mostrar a ideia que o fotógrafo teve ao deparar-se com uma cena. As considerações técnicas não são para aqui chamadas. Definitivamente, Harry Gruyaert não dá um chavo pelo bokeh e as teorias da abertura equivalente não o devem preocupar em demasia.

E há também o motivo de interesse que é o de, aos 75 anos, fazer algo de novo. Eu tenho por característica admirar aqueles que não vêem na idade um obstáculo, nem se deixam estagnar com fórmulas ou estilos que eles mesmos consagraram. Se não se tiver esta curiosidade permanente de procurar coisas novas, não vale a pena fazer seja o que for. O pior inimigo da vida são as rotinas. Também isto, este aspecto extremamente pessoal de lição de vida, funciona como um estímulo para mim.

No caso de não se terem apercebido da ligação para a página da Magnum que deixei acima, podem clicar aqui.

M. V. M.

Como ver fotografias

Hoje passei um Domingo horrível. Uma boa parte do dia foi passada a esperar. Não quero pormenorizar, mas estive largas horas sem fazer nada, apenas esperando. Há maneira melhor de passar um Domingo? Só se for num hipermercado, ou na fila para as caixas de uma grande superfície comercial em dia de preços sem IVA.

Onde eu estava havia Wi-Fi gratuita e disponível ao público. Como tinha o meu smartphone comigo, decidi usá-lo para aquela que é a sua vocação (além de fazer e receber chamadas e de enviar e receber mensagens, claro): acedi à internet através dele.

O meu smartphone tem um ecrã com uma resolução razoável. Não é nenhum iPhone, mas é bastante legível. Quando abri as páginas do Flickr, porém, fiquei alarmado: as fotografias surgiam muito escuras. E não era um problema com as minhas fotografias: as de outros utilizadores, bem como as fotografias publicadas noutros sites – o que incluía fotografias de fotógrafos profissionais –, tinham o mesmo problema: um excesso de contraste e de sombras.

Evidentemente que me lembrei de alterar o brilho do ecrã. Foi a primeira coisa que me veio à mente. O smartphone ainda tinha a pré-definição, que ficava a cerca de 75% da luminosidade possível. Aumentar o brilho não resolveu quase nada: as fotografias continuavam demasiado escuras.

Curiosamente, esta característica é boa para ver fotografias tiradas com outros smartphones, ajudando a disfarçar o péssimo desempenho nas altas luzes e a falta de contraste que são males crónicos dos sensores e lentes minúsculos dos smartphones. Vistas em tamanhos pequenos, estas fotografias parecem todas excelentes, cheias de contraste, com boa resolução, sem ruído e com cores saturadas (o meu smartphone é como os monitores HP: privilegia a matiz vermelha). Contudo, com fotografias correctamente expostas, a visualização torna-se num pesadelo.

As pessoas que vêem fotografias através de smartphones podem fazer uma ideia completamente errada acerca delas. Embora a tendência seja para que todas as fotografias pareçam fabulosamente boas quando vistas em tamanhos tão pequenos como os do ecrã de um smartphone, algumas fotografias, mesmo quando correctamente expostas, parecem demasiado escuras, ocultando muito do pormenor nelas presente.

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Josef Koudelka. Isto não é para se ver com um smartphone.

E este não é o único problema. Ver fotografias num ecrã tão pequeno é limitador e frustrante. Claro que serve na perfeição para ver a fotografia do pimpolho e do gato no facebook, mas as fotografias mais sérias ficam muito prejudicadas. Aconteceu-me ver alguns clássicos de Koudelka no website da Magnum, e não gostei nada do que vi: a resolução era claramente insuficiente e o contraste, bem como os negros, eram simplesmente excessivos. As fotografias que vivem do pormenor e de subtilezas saem claramente prejudicadas, porque o objectivo de visualizar fotografias num smartphone é o de compreender o seu conteúdo em três segundos.

Nada disto significa que vá começar a fazer fotografias sobreexpostas para agradar a quem as vê em «dispositivos móveis». Concluí que as minhas fotografias são para ser vistas em monitores convencionais, com ecrãs de média e grande dimensão. Mas as minhas fotografias de pouco importam; o que é certo, o que sei por ter aprendido com os meus olhos, é que ver fotografias num computador, mesmo que muito bom, será sempre um triste sucedâneo da experiência de vê-las em papel. Mesmo assim, é muito melhor ver fotografias num computador convencional do que num smartphone, por melhor que seja o seu ecrã (e eu já vi fotografias em smartphones com ecrãs melhores que o meu). A evolução tem-se caracterizado por uma redução na qualidade em favor da abundância e do baixo custo, mas há limites a partir dos quais esta redução se torna inaceitável. Vejam lá os pimpolhos e os gatos dos vossos amigos nos telemóveis, mas usem os vossos monitores para ver fotografias um pouco mais intencionais.

M. V. M.

Cores. Cores. A vida é a cores

Ontem recebi, via Dropbox, as digitalizações de mais um rolo a cores. Desta vez foi um Agfa Vista 400, rolo ao qual perdoo uma ligeira falta de acutância e um tingimento vermelho acentuado por fazer tudo o resto tão bem, por tão pouco dinheiro. Podia ficar mais satisfeito com o 160NS, ou com o 400H, ambos da Fujifilm, mas estes rolos custam os olhos da cara. O seu uso justifica-se num contexto profissional – apesar de ser discutível o uso de película 135 para fins profissionais, evidentemente.

Adiante, que não é sobre rolos que quero escrever. Eu não tinha grandes expectativas quanto às exposições deste último rolo. Fiz fotografias naquele estilo a que se pode chamar «de rua», dentro do que costumava fazer quando usava os meus Ilford FP4, e, como imaginava que tais fotografias não iam resultar muito bem a cores, calculei que teria sido um desperdício de tempo e dinheiro.

Estava enganado. As fotografias que fiz são inteiramente válidas – pelo menos segundo os meus próprios critérios, e a despeito de poder considerá-las péssimas daqui a uma semana –, mesmo sendo a cores. Vou mais longe: a cor atribui-lhes uma dimensão suplementar, um interesse extra em relação a imagens semelhantes a preto-e-branco.

Isto faz-me pensar se não terei perdido demasiado tempo ao fotografar quase exclusivamente a preto-e-branco durante mais de três anos. Vendo bem, foi tudo uma questão de moda: habituei-me a ver fotografias a preto-e-branco e limitei-me a aderir à moda. Foi um erro: em lugar de procurar exprimir-me pelos meus próprios meios, preferi o conforto de seguir o que os outros faziam.

Foi um disparate, embora justificado pela verdura e ignorância. Como só conhecia fotografia de rua a preto-e-branco, não imaginava que fosse possível fazê-la de outra maneira. O que mudou tudo, fazendo-me fotografar a cores? Dois factores, por ordem crescente de importância. O primeiro foi ter encontrado uma película capaz de resultados consistentes sob todas as condições de luz. Isto foi essencial – tanto que agora me parece que não fotografava tanto a cores por as películas que experimentei não me terem deixado satisfeito. O segundo foi ter-me familiarizado com um triunvirato de fotógrafos de rua que utilizaram a cor de maneira excepcional: Fred Herzog, Saul Leitner e Joel Meyerowitz.

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Fred Herzog, “Main Barber”

O que eu gosto, nas fotografias de Herzog, Leiter e Meyerowitz, é elas provarem que a fotografia de rua não tem necessariamente de ser a preto-e-branco. Olho para aquelas fotografias, e está lá tudo o que define a fotografia de rua: as pequenas histórias do quotidiano, os sinais da vida urbana, a estética, a composição – e, evidentemente, as cores. E são fotografias que funcionam.

A fotografia de rua tornou-se muito cliché. Tem apenas que ver com a estética, composta de contrastes exagerados e do omnipresente preto-e-branco, e acontece, invariavelmente, em cenários nos quais a presença de uma pessoa é um mero pretexto para a aposição do rótulo de «fotografia de rua». Sim, ainda há fotografias de rua em preto-e-branco maravilhosas, mas a vida é a cores. Foi William Albert Allard quem disse “Eu vejo a cores”. Tenho razões para crer que não estava apenas a declarar que não era daltónico.

Fred Herzog, Saul Leiter e Joel Meyerowitz mostraram-me que é possível uma abordagem diferente para a fotografia de rua. Foi uma verdadeira revelação. Antes, já me tinha deixado fascinar pelo uso que Harry Gruyaert e William Albert Allard fazem da cor, mas estes dois não são fotógrafos de rua – mesmo que, ocasionalmente, tenham feito fotografias que caem dentro dessa definição. Foram Herzog, Leiter e Meyerowitz quem levou a cor para a fotografia de rua. Ainda bem que eles – ou a sua obra, já que Saul Leiter morreu em 2016 – existem: libertaram-me de um espartilho.

No Sábado perguntaram-me quando ia voltar ao preto-e-branco. Isto que estou a fazer não é um mero flirt com as cores, como fiz quando experimentei os Kodak Ektar e Gold e o Ferrania Solaris. Vou certamente voltar a usar rolos de preto-e-branco, mas não com a quase exclusividade com que o fiz até há pouco. Não quero estar limitado a um estilo ou a uma estética.

M. V. M.

O meu bloco de notas

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Por Fred Herzog (obrigado, Nuno Oliveira!)

Ainda não disse tudo o que tinha a dizer acerca da exposição Eyes Wide Open. Como sabem, ontem fui à galeria da Biblioteca Almeida Garrett munido de um bloco de notas. Apesar de já conhecer alguns dos autores das fotografias expostas – de Otto Steinert a Robert Lebeck, de Cartier-Bresson a Paulo Nozolino, passando por Burri, Capa, Bischof, Salomon, Gilden, Sieff e muitos outros -, saí destas duas visitas com os meus conhecimentos substancialmente alargados.

Além dos mencionados, há aqueles fotógrafos que me eram mais ou menos desconhecidos e que já mencionei antes: Meyerowitz, Eggleston, Leiter, Inge Morath. Mas, para além de todos estes (e esquecendo aqueles que não me causaram uma impressão duradoura), houve outros, novos para mim, em cujas fotografias me detive demoradamente. São vinte e um nomes que ocupam duas páginas e meia do meu bloco de notas. São eles, pela ordem estabelecida por quem montou a exposição, Mehemed Fehmy Agha, Heinrich Heidersberger, Ilse Bing, Walter Vogel, Ulrich Mack, Lothar Rübelt, Ricard Terré, Sabine Weiss, Ramón Masats, Ara Güler, Fred Herzog, Saul Leiter, Paolo Roversi, Claude Dityvon, Rudi Meisel, Viktor Kolár e Bruce Davidson.

Depois há os portugueses, embora alguns possam ter reparado que já mencionei o Paulo Nozolino. Além de um senhor engravatado que escreveu uma carta a Ernst Leitz (em francês!) da qual uma cópia está exposta num dos mostruários, cujo nome me esqueci deliberadamente de anotar, e do grande Gérard Castello Lopes, anotei Carlos Calvet, Carlos Afonso Dias, Victor Palla e Jorge Guerra.

Não nos esqueçamos que esta lista foi elaborada a partir de uma exposição cujo denominador comum é o uso de material Leica. Porque há muitos outros que não usaram Leicas e nem por isso deixaram de ser grandes fotógrafos.

Esta foi uma exposição deveras interessante. Contudo, há uma exposição, porventura hipotética, cuja visita seria o corolário da minha vida de amador das coisas fotográficas: uma exposição da Magnum.  Seria como ver Nápoles: depois, poderia morrer. (Será que alguém da Magnum está a ler isto?)

M. V. M.

Lazy Sunday Afternoon

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1. Ontem, quando deixei aqui as minhas opiniões acerca do Agfa Vista, escrevi que a minha apreciação tinha de ser lida cum grano salis. Pois bem: hoje passei uma parte substancial da manhã a editar as digitalizações no computador, usando o DxO Optics 9. Já vamos às fotografias, mas para já devo acrescentar aqui que aproveitei o facto de a DxO ter estado a oferecer a versão 9 do programa de edição de imagem (que já vai na versão 11) para fazer um ligeiro upgrade, já que tinha a versão 8. As diferenças entre ambas as versões não são muitas – ao contrário do que notei quando evoluí da versão 7 para a 8 – e, sobretudo, este software continua a não reconhecer as digitalizações de negativos a preto-e-branco em formato TIFF. Não sei se a oferta ainda é válida, mas se for vale a pena descarregá-la e experimentar.

De volta ao Agfa Vista 400, dei por mim a fazer retoques mínimos, que incidiram sobretudo nas matizes vermelha, amarela, magenta e ciano que afectavam algumas fotografias. Curiosamente, em muitas preferi a apresentação anterior às correcções e regressei às versões originais. O Vista não é, afinal, assim tão mau. É pena o grão, mas as falhas que podem ser apontadas são perdoáveis se atendermos ao preço que custa cada rolo.

2. Voltei à exposição da Leica e, como prometido, levei um bloco de notas. Quis apontar nomes de fotógrafos que me interessaram e que ainda não conhecia. Não posso dizer que tive momentos de transcendência quando pesquisei a maioria desses nomes, mas alguns desses fotógrafos têm obra muito interessante. Dos vinte e um nomes que anotei, interessaram-me sobretudo os de Ricard Terré, Ramón Masats, Ara Güler, Paolo Roversi e Bruce Davidson. E, sobretudo, o de um fotógrafo que nos deixou neste ano de todas as mortes: Saul Leiter.

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Por Saul Leiter

Saul Leiter, como Joel Meyerowitz, foi um fotógrafo de rua que usou a cor. Isto interessou-me: como escrevi na semana passada, agora parece haver uma regra não escrita que obriga a fotografar na rua a preto-e-branco, mas o que é certo é que a vida é a cores. Tem-se abusado do preto-e-branco – e contra mim falo, porque tenho uma preferência pelo preto-e-branco e fotografar a cores é como falar uma língua estrangeira que não domino – ao ponto de se chegar ao extremo de a fotografia monocromática se tornar cliché. E nem é preciso ir aos grupos do facebook para perceber como este uso abusivo do preto-e-branco está a esvaziá-lo de interesse. Corremos o risco de um dia rejeitarmos fotografias de rua a preto-e-branco por nos parecerem banais.

Uma coisa é certa: a fotografia de rua ficou indelevelmente associada ao preto-e-branco. Deste modo, o emprego da cor na fotografia de rua tornou-se num desvio à norma, num acto de verdadeira subversão. E os mais subversivos dos fotógrafos são estes dois: Saul Leiter e Joel Meyerowitz. Eles aliam a narrativa dos pequenos episódios quotidianos ao elemento cor, que se torna proeminente na composição e domina visualmente a imagem. As cores de Leiter são fortes e saturadas, as de Meyerowitz mais subtis, mas há em ambos uma vontade de apreender a vida no que ela tem de vibrante e intenso, sem contudo abdicar da estética e do estilo.

3. Aposto que nem Leiter nem Meyerowitz ganharam daqueles prémios que premeiam fotografias vazias que vivem exclusivamente da técnica. Como o Travel Photographer Of The Year, por exemplo. Este ano o nosso Joel Santos ganhou vários prémios, com as fotografias fastidiosamente editadas e normalmente vácuas e frívolas que caracterizam o seu estilo, mas houve uma que posso considerar brilhante, que é esta:

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Curiosamente, foi feita com um drone. Deveria abominá-la só por isso, ou por não apreciar o seu autor? Com certeza que não. Esta fotografia é extremamente interessante e o seu autor está de parabéns.

4. Já que me refiro a um português, pesquisem este nome: Victor Palla. Foi sobretudo um designer gráfico, mas também um fotógrafo de excepção. Um dos poucos portugueses expostos na Eyes Wide Open.

M. V. M.