Fora do tema: uma notícia triste

Hoje recebi uma notícia triste via email. O Conselho Regional do Porto da Ordem dos Advogados comunicou o falecimento do Dr. Alberto Luís, advogado da cidade do Porto.

É possível que alguns não estranhem este nome, já que o Dr. Alberto Luís era o marido de uma figura notória do Porto: a escritora Agustina Bessa-Luís. (Curiosamente, conheceram-se através de um anúncio de jornal.) Mas não foi este status marital agora interrompido que me entristeceu: eu tive oportunidade de conhecer pessoalmente o Dr. Alberto Luís. E, apesar das circunstâncias – às quais passarei de seguida –, foi uma experiência extremamente enriquecedora e agradável.

Em 1989 eu tinha acabado de me licenciar e inscrevi-me na Ordem dos Advogados como advogado estagiário. Nesta condição, tive de frequentar aulas providas pelo centro de estágio do então denominado Conselho Distrital do Porto da Ordem. Tanto quanto me lembro, tive aulas de Processo Civil (uma duplicação inútil e soporífica da cadeira da faculdade), Direito Comercial, Processo Penal e Deontologia Profissional, que era a única matéria com um pouco de pertinência para advogados estagiários. Ora, estas aulas de Deontologia eram ministradas pelo Dr. Alberto Luís.

As aulas foram extremamente enriquecedoras. Não necessariamente pelas matérias ministradas, mas sobretudo pelo brilho que o Dr. Alberto Luís lhes trazia. Os relatos da sua experiência pessoal eram de uma riqueza e interesse tal que me levaram a apreciar muito mais este aspecto do que os ensinamentos sobre deontologia: na verdade, bastava-me ler as normas do Estatuto da Ordem dos Advogados para conhecer esta matéria, pelo que aquilo que aproveitava dessas aulas era a narração dos episódios da vida profissional – especialmente por serem contados por um homem ilustrado e um orador brilhante.

Não que essas aulas agradassem a todos, note-se bem: surpreendi a alguns colegas comentários corrosivos acerca da pretensa senilidade do Dr. Alberto Luís. O que me deixou confuso, porquanto não apenas escutava com todo o interesse o que ele dizia, como me apercebia que os episódios e pequenas histórias narrados não eram tergiversações: tinham sempre cabimento e integravam-se num discurso lógico, estruturado e coerente. Nem todos têm paciência para este estilo docente: alguns prefeririam algo mais objectivo e directo – mas que melhor do que a experiência profissional de um advogado que era a encarnação dos valores deontológicos para aprender a ética da profissão?

O curso de advogado estagiário obrigava à prestação de uma prova escrita – neste caso uma dissertação escrita sobre um tema à escolha (eu escrevi um texto mediocríssimo sobre a prisão preventiva) – e provas orais: curiosamente, apenas me lembro de duas destas últimas: a de Processo Penal – um conjunto de perguntas aleatórias sobre assuntos aleatórios formuladas pelo Dr. Gil Moreira dos Santos (penso que não fiz grande figura) – e a de Deontologia, na qual me defrontei (por assim dizer) com o Dr. Alberto Luís. Houve uma certa titubeação nas minhas respostas: a doença que havia de vitimar o meu pai um ano mais tarde roubara-me concentração e tempo, pelo que não consegui preparar-me convenientemente. Simplesmente, eu posso permitir-me a imodéstia de dizer que sou um bom conversador. Isto possibilitou-me suprir as minhas deficiências no conhecimento da matéria, mas era visível que estava a ser esquivo. Quando o Dr. Alberto Luís insistiu que eu respondesse a uma pergunta concreta sobre a deontologia profissional, respondi qualquer coisa como que nenhuma regra deontológica era mais importante que a minha consciência.

Não sei se o Dr. Alberto Luís apreciou a minha resposta ou se apenas confirmou a sua convicção de que eu estava particularmente mal preparado (o que era pouco importante, porque a prova não era eliminatória), mas sorriu à minha resposta e, logo depois, olhou para um papel que tinha à sua frente e disse-me que eu tinha um argumento muito forte a meu favor: era licenciado por Coimbra. Pois era (sou). Nós, os alumni conimbricensii, conhecemo-nos uns aos outros. Sobretudo, sabemos que Coimbra nos forja de uma maneira muito especial.

Tive o prazer e a honra de conhecer um dos homens mais notáveis da cidade do Porto. Aquilo não foi uma prova oral: foi uma conversa. Uma das mais interessantes e memoráveis da minha vida. Tanto que me lembro bem dela, mesmo que tenham passado vinte e oito anos. Algumas pessoas deixam marcas destas nas outras. Penso que é a isto que chamam eternidade.

M. V. M.

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A importância de ser Ernst

Por Ernst Haas

Agora que os efeitos da depressão em que induzi os leitores do último texto já dissiparam, vou voltar à técnica. Tenho para mim que a técnica só é importante se ajudar a conferir expressão à fotografia. Neste aspecto há um fotógrafo que considero absolutamente exemplar na conjugação entre técnica e expressão: este fotógrafo foi o austríaco Ernst Haas. Ficaram-me na memória fotografias feitas por este fotógrafo (que nos deixou demasiado cedo) durante corridas de touros, nas quais Haas usou o arrastamento. O efeito atingido tem um cunho artístico indesmentível e torna a fotografia extremamente expressiva. Haas nunca teve receio de experimentar técnicas – nem teve problemas em converter-se à fotografia a cores –, mas as técnicas que usou nunca foram mais que meras auxiliares da expressão. Hoje o que mais se vê é fotografias em que a técnica é utilizada como um fim em si, sendo o motivo secundário e a mensagem inexistente: a única coisa que o fotógrafo diz, com estas fotografias frívolas, é qualquer coisa como «olha que bem que eu domino a técnica». Não me parece suficiente para apreciar uma fotografia.

Mas hoje não queria escrever sobre os tipos de técnica implícitos na fase experimental de Ernst Haas: era uma questão técnica diferente e mais simples. Como sabem, tenho passado os meus últimos meses a fotografar com película 135 a cores, o que é quase anátema na comunidade analógica. Descobri, como também já narrei, uma película que, embora não me satisfaça inteiramente, atinge um bom equilíbrio nas áreas mais importantes. Esta película é a Agfa Vista. Tem muito grão e privilegia os vermelhos e magentas, mas estes são problemas fáceis de corrigir. Quando são verdadeiros problemas, porque por vezes descubro que as fotografias fazem mais sentido na versão não corrigida.

Ora, é possível que alguns ainda se lembrem de eu ter afirmado aqui que é muito difícil fotografar a cores. Especialmente com película. Descobri que tudo se torna mais difícil com o Agfa Vista, o qual, quando não é correctamente exposto, produz cores deslavadas e francamente feias. Aprendi com isto duas coisas: uma é o que os pioneiros da fotografia a cores como William Eggleston sabiam desde o início: fotografar com película a cores implica expor para as altas luzes. A outra, que está relacionada com a primeira, é que, mesmo apontando para as altas luzes, não se deve confiar na indicação do fotómetro. Deve subexpor-se. E não timidamente: por vezes deve tirar-se -1 EV ao que o ponteiro indica ser a exposição ideal.

Com isto, o Agfa Vista parece que ganhou outra vida. Os azuis, que são o ponto forte desta película, tornam-se ainda melhores; as outras cores tornam-se mais ricas, sem serem berrantes. Faz perguntar por que há tanta gente a gastar fortunas com rolos como o Portra e com diapositivos.

E o melhor de tudo é que esta maneira de fotografar não tem nenhum inconveniente. A película a cores tem uma gama de exposição tão boa que as sombras não ficam bloqueadas se se subexpuser como eu preconizo. É evidente que, se se exagerar na subexposição, as fotografias ficam simplesmente escuras e pesadas, mas eu estou a referir-me a -1 EV, o que equivale a fotografar com f/11 em vez de f/8, ou com 1/1000 em vez de 1/500. Não é muito, nem mesmo se levarmos em conta que já estamos a expor para as altas luzes.

O meu conselho é este: experimentem subexpor ligeiramente, mesmo se estiverem a usar uma câmara digital. O contraste e a saturação vão beneficiar. Provavelmente vão ter sombras bloqueadas, mas a informação está toda na imagem e é facílimo levantar as sombras na edição de imagem. Experimentem. Afinal de contas, se experimentar resultou com Ernst Haas, por que não havia de resultar convosco?

M. V. M.

Crise de Verão

Aqui estou eu depois de mais um longo silêncio. Eu devia ter mais cuidado e prestar mais atenção aos leitores, porque estes longos interregnos podem ser tomados por desprezo, mas não é nada disso: tenho tido tanto que escrever que não me sobra vontade de redigir seja o que for para o Número f/.

Há outra razão além do cansaço dos dedos e do cérebro por tanto escrever. Estou mais uma vez numa daquelas fases em que ponho o hobby de fotografar em crise. Os meus estudos levam-me a especular sobre conceitos como os de arte, originalidade e criação e eu não encontro nada disto quando olho para as fotografias que faço. A minha mente, que abomina a mediocridade e odeia o desperdício, debate-se com a seguinte ambivalência: por um lado, não vale a pena fotografar se não tenho nada de artístico, original e criativo a mostrar; por outro, fotografar continua a ser uma actividade agradável e divertida. Como resultado, divirto-me a fazer fotografias vazias de qualquer sentido. O que contribui para a fadiga que, por seu turno, se repercute na ausência de textos no Número f/.

Quando as coisas começam a melhorar, aparece sempre qualquer coisa para destruir a minha ténue recuperação. Neste caso foi um texto no The Online Photographer escrito por Jim Hughes, composto por escritos que ficaram de fora da biografia que este autor americano escreveu sobre W. Eugene Smith. Eu já sabia que a minha melhor fotografia nunca poderá sequer comparar-se à pior de W. Eugene Smith; ler as linhas escritas por Jim Hughes faz-me ver que também fico muito aquém do melhor fotógrafo de sempre como ser humano. É verdade – W. Eugene Smith podia ser um salafrário que mantinha uma vida em comum com uma mulher paralela ao seu casamento, mas tirando este concubinato secreto era um ser humano excepcional. Suponho que é necessário ser uma grande pessoa para fazer grandes fotografias. Pensar nestas coisas retira-me por completo a vontade de fotografar: tudo o que faço me parece frívolo, vácuo e inútil – e eu pergunto-me se essas fotografias não serão o espelho da minha vida. Não convém pensar muito nestas coisas.

É evidente que me questiono se vale a pena continuar a fotografar quando os resultados são tão miseráveis. Empreendi uma busca por sentido que me levou a rejeitar a técnica e as considerações sobre equipamento – o único website para o qual tenho paciência é o T. O. P., mas não quando o Mike Johnston desata a entoar loas ao iPhone e às Fuji X-Qualquer-Coisa – e agora dou por mim sem encontrar o que procuro. É como se o caminho que percorri me tivesse levado a um beco sem saída. Sinto-me tentado a abandonar a fotografia se não encontrar algo verdadeiramente significativo para fotografar muito em breve. Não vale a pena fotografar se não se tem nada de novo a acrescentar à fotografia. Claro que me vai custar, depois de ter investido tanto na fotografia, mas fotografar sem um propósito é uma mera perda de tempo. E o tempo não pára nem espera por mim.

Claro que as coisas podem mudar. Amanhã mesmo pode acontecer qualquer coisa que me faça mudar completamente de ideias – se, entretanto, não me der para comparar as minhas fotografias com a dos mestres.

M. V. M.

As leis do interessante

Por Bernd e Hilla Becher

A reacção dos leitores ao curtíssimo texto de ontem deixou-me a pensar se me teria sabido exprimir bem. Como não sou de formular apenas uma hipótese, houve outra que se me impôs: os leitores do Número f/ não são alunos, eu não sou professor e o texto não era nenhum teste. E, mesmo que todas estas circunstâncias se verificassem, estamos em plenas férias escolares de Verão. Ninguém quer fazer testes, muito menos com este calor.

Na verdade, a minha intenção era apenas lançar um pequeno desafio: queria saber como teriam interpretado a frase de Roland Barthes que citei, e se as ideias que a citação terá provocado coincidiam com as minhas. O mais certo é ter-me exprimido mal. Fiz muitos testes, especialmente na faculdade, em cujo enunciado surgiam questões que consistiam numa citação qualquer, seguida do objectivo exigido ao aluno, que era o de comentar essa citação. Por vezes a fórmula era qualquer coisa como «Diga o que que pensa acerca desta frase» (ou qualquer coisa equivalente), mas em alguns testes era «comente esta afirmação» ou, simplesmente, «comente».

Teria gostado de saber o que os leitores ficaram a pensar da afirmação de Barthes. Eu li o livro, pelo que sei que ideia se quis exprimir, mas teria sido interessante perceber que tipo de pensamentos a frase despertou. Não aconteceu, infelizmente, mas talvez reflectir filosoficamente sobre a fotografia não seja o passatempo mais apetecido em tempo de Verão. Eu compreendo. Aliás, a razão de o texto de ontem praticamente se ter resumido a uma citação é um exemplo perfeito da falta de disposição mental para escrever longas dissertações bloguísticas.

A afirmação é um pouco obscura, ou pelo menos um pouco abstrusa, mais parecendo um jogo de paradoxos sem grande sentido, mas há muita razão nela. O que eu entendo a partir desta frase é que o fotógrafo precisa de se desenvencilhar das convenções. Ele deve levar a sua expressão pessoal cada vez mais longe. Isto é desafiar as leis do provável e do possível: evitar o óbvio Para Roland Barthes, a apreciação subjectiva da fotografia compõe-se, além do significado que apresenta à mente – o studium –, de algo que se dirige aos sentidos, que os atinge e fere: o punctum. É aquele elemento da imagem que desperta uma sensação visceral no espectador. Para que a fotografia tenha este elemento não é necessário que seja em si mesma interessante: o que conta é que fira os sentidos do espectador. Decerto que o elemento subjectivo, numa certa acepção, desperta o interesse do espectador, mas o punctum pode existir mesmo numa fotografia que, à partida, e apreciada no seu todo, é desinteressante. Pode estar num dente podre de uma criança numa fotografia de William Klein ou no sapato de uma matrona num mero retrato de família.

Além de transcender as barreiras do possível e do provável, o fotógrafo deve – como um acrobata – superar o limite do interessante. Muitas vezes o interesse está, não na fotografia em si, não no seu objecto, mas naquilo que transmite ao espectador. O «interessante» é, assim, um padrão rígido que condiciona a criação da fotografia, vinculando o fotógrafo a um conceito. O que, evidentemente, é um limite que importa transcender. A fotografia só é válida se transmitir algo – uma sensação – a alguém. O fotógrafo pode passar a vida inteira a procurar fazer fotografias interessantes e não o conseguir por não ter percebido que o interesse está nos olhos de quem vê as fotografias, não no seu conceito de «interessante».

Foi mais ou menos isto que a citação me fez pensar depois de ter lido A Câmara Clara. É uma opinião formada com base no conhecimento dos conceitos de Barthes, mas o que eu gostava mesmo era de ter conhecido os pensamentos que a frase suscitou nos leitores que não tinham este conhecimento. Não foi possível. Talvez para a próxima.

M. V. M.

Le Grand Prix du Monaco

Os leitores muito atentos do Número f/ sabem que o seu autor, o M. V. M., tem uma fraqueza: gosta de automóveis e de desporto automóvel. Não ao ponto de andar com cachecóis e bonés da sua equipa ou piloto favoritos, mas um gosto que o leva, por exemplo, a manter-se a par dos campeonatos das fórmulas secundárias – aquelas por que cada piloto passa antes de chegar ao topo, que é como quem diz a Fórmula 1. Por exemplo, faço parte de um círculo muito restrito de pessoas que não ficaram nada surpreendidas por o finlandês Valtteri Bottas ter vencido este ano o seu primeiro grande prémio: acompanho a carreira dele desde 2009 (chamem-me o que quiserem depois desta revelação) e sei que é um campeão do mundo em potência.

Mas tenho uma equipa da minha preferência desde 1981. Essa equipa é a Ferrari e passei a simpatizar com ela por causa de um Grande Prémio em especial: o Grande Prémio do Mónaco de 1981. Nessa altura os Ferrari estavam equipados com motores turbocomprimidos cuja resposta era lenta e brusca, o que os tornava inadequados para pistas sinuosas – mas, apesar deste handicap, Gilles Villeneuve venceu no Mónaco com um Ferrari.

Ora, é precisamente do GP do Mónaco que vou escrever de seguida. E, no caso de pensarem que este era mais um dos meus impertinentes textos fora do tema, vou surpreender-vos: é mesmo sobre fotografia. Simplesmente, o GP do Mónaco é um evento de tal maneira único que merece alguma atenção – mesmo (e esta é outra surpresa) de fotógrafos que nada têm que ver com desporto automóvel.

Mas antes um pouco de contexto: o ambiente do Grande Prémio do Mónaco é completamente decadente. Quem já tiver ido a Montecarlo sabe como é frequente cruzarmo-nos com Rolls-Royces e automóveis similares. Quando fecham as ruas do principado para armar a tenda desse circo que é a F1, ao kitsch local junta-se o jet-set de todo o mundo: rappers, actores, criadores de moda, vedetas de outros desportos – you name it. Tudo com uma animação cheia de champanhe e caviar, com grandes festas e passagens de modelos. Repito-o: um acontecimento social completamente decadente. Contudo, para muitos, assistir ao GP do Mónaco é o sonho de uma vida: é viver a ilusão de, por um dia, ter feito parte desse mundo glitzy.

Por tudo isto, foi interessante verificar que Martin Parr, fotógrafo da Magnum a quem ainda há bem pouco me referi, andou a fotografar os bastidores do GP do Mónaco de 2017 (que, curiosamente, foi ganho por um Ferrari). Como era de esperar de Martin Parr, fotógrafo com uma visão finamente sarcástica do mundo, as fotografias que a Magnum mostrou no seu website (por uma questão de direitos autorais não as publico com o texto, mas podem vê-las aqui), as fotografias nada têm que ver com os automóveis, nem com as celebridades ou os modelos das passerelles. Aliás, só figuram nelas um piloto, mas é de uma das fórmulas secundárias que correm no Mónaco nos dias em que dura o GP, e um ex-piloto. O resto é o lado meramente humano e patético que só alguém desapaixonado, mas extremamente perspicaz, é capaz de ver num lugar e num acontecimento como aquele.

O que tem que se lhe diga. Os bons fotógrafos fazem isto: em lugar de se concentrarem naquilo que toda a gente sabe que é o que se está a passar, preferem observar o invulgar, o que se passa paralelamente, fora (neste caso) da pista. Mostram o lado que se vê quando descemos os olhos do glam das festas e da pista. Para fotografar o ambiente e as celebridades, há os fotógrafos contratados para produzir esses resultados; para fotografar a pista existem profissionais imensamente competentes como Mark Sutton e Rainer Schlegelmilch. Mas quem nos mostraria o resto, o lado comezinho e humano, senão um fotógrafo da Magnum?

M. V. M.

O portfolio

Esta tarde, talvez por ter despachado o trabalho rapidamente e ter ficado muito cedo sem nada melhor para fazer, resolvi submeter um portfolio composto por quarenta das minhas fotografias à apreciação dos cooperadores da Magnum. Não, não me tornei pretensioso nem nutro quaisquer ilusões: o meu estado de espírito era sensivelmente o mesmo de quem joga no Euromilhões ou, mais correctamente, de quem visita o site de um fabricante de automóveis de luxo e se entretém com o configurador juntando estofos de couro perfurado e jantes de titânio à lista dos extras de um dado modelo, apesar de saber que nunca poderá adquiri-lo. Em duas palavras, isto chama-se sonhar acordado.

Não estou à espera que Josef Koudelka me telefone anunciando, com alacridade incontida, que eu fui admitido na Magnum. É evidente que o meu coração e o meu cérebro explodiriam em simultâneo se isso acontecesse – o que, atento o consequente óbito da minha pessoa, me impediria de saborear o prazer de ter sido escolhido –, mas já ficaria contente se os cooperadores da Magnum não rissem das minhas fotografias quando as virem – se chegarem a vê-las, porque é possível que ignorem a minha candidatura por eu não ter curriculum de fotógrafo. (Convém ter em mente que, além do presidente Koudelka, são cooperadores da Magnum, entre outros, Alec Soth, Martin Parr, Peter van Agtmael, Harry Gruyaert, Georgui Pinkhassov, Abbas e Bruce Gilden – entre muitos outros. É uma verdadeira temeridade apresentar um portfolio a monstros como estes.)

Apenas sujeito este pequeno episódio à irrisão dos leitores porque esta candidatura (chamemos-lhe assim) implicou fazer uma selecção das fotografias a incluir no portfolio. (Já que o menciono, não tive de organizar nada, a não ser numerar as fotografias por ordem decrescente de preferência pessoal e carregá-las na página das candidaturas: não precisei de enviar um portfolio impresso, o que, se fosse exigido, me teria levado a não me candidatar.) Andei pelo Flickr à procura de fotografias que tivessem um mínimo de correlação com o espírito Magnum. (Penso que conheço o suficiente dos fotógrafos da Magnum para determinar o que é esse «espírito Magnum», mas posso estar completamente enganado.) Seja como for, o processo de selecção serviu para remexer em fotografias de que já nem sequer me lembrava.

A conclusão que retirei desta selecção é a de ser inútil publicar muitas fotografias no Flickr. Não vale a pena. Quem visita o photostream vê as fotografias que cabem no primeiro ecrã, nada mais. Depois, publicar fotografias desinteressantes ou supérfluas não contribui em nada para o conforto visual do visitante nem para a reputação do visitado. Eu bem podia ter apenas as quarenta fotografias que seleccionei publicadas no Flickr, porque quase todas as demais – e eu já tenho mais de 1700 fotografias no Flickr! – são redundantes e só estão ali para criar poluição visual.

Isto é assim mesmo: o tempo é o maior e mais exigente mestre que existe quando se trata de avaliar o que fazemos. Ao fim de alguns anos, aquilo que pensávamos ser uma obra-prima de mestre acaba por ser apenas a prima do mestre de obras. Algumas das fotografias que seleccionei resistiram ao teste do tempo; a maioria, porém, não. E, apesar de sentir que as minhas fotografias mais recentes são as melhores, daqui a dois anos posso pensar de uma maneira completamente diferente.

Outra conclusão importante é que a popularidade das fotografias que carregamos para o Flickr não quer dizer que aquelas sejam boas. Quer dizer, apenas e estritamente, que algumas pessoas gostam delas. Quem tem de ser o juiz não é o número de visualizações e de favoritos, mas o próprio autor das fotografias. Eu já tive várias fotografias no chamado «Explore» e, mesmo se algumas delas são razoavelmente interessantes, vê-las no meio das outras escolhidas é um anticlímax. As minhas fotografias passam praticamente despercebidas no meio de retratos cheios de bokeh, de macros de lagartas cheios de bokeh e de HDRs da Golden Gate (alguns sem nenhum bokeh). O «Explore» não afere a qualidade das fotografias: significa apenas que as pessoas que seleccionam uma determinada fotografia gostaram dela, nada mais.

Bom, agora resta-me esperar pelo email de Josef Koudelka anunciando que fui escolhido para integrar a Magnum. E o Ferrari Superfast fica mesmo a matar em azul Tour de France e com estofos de couro bege Tradizione.

M. V. M.