Agfa Vista 400

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A Agfa é uma companhia europeia antiga; como todas as companhias europeias antigas, tem uma história extremamente interessante, tendo-se tornado numa das gigantes da imagiologia. Sendo o resultado da fusão de duas companhias que se desenvolveram separadamente – a Agfa na Alemanha, a Gevaert na Bélgica –, a Agfa-Gevaert BV não tem, hoje em dia, a importância que teve para a indústria fotográfica até finais do século passado.

Embora a Agfa-Gevaert ainda exista, e continue a produzir película, já não tem a dimensão que tinha quando os seus produtos rivalizavam com os da Zeiss e a película que produz é para fotografia aérea. Curiosamente, não é a Agfa-Gevaert que produz a película Agfaphoto: a película para fotografia aérea é cortada, inserida em rolos e vendida ao público pela Lomography e pela Rollei. A Agfaphoto, essa, encomenda película à Fujifilm. Digamos que os APX, Vista e Precisa são películas OEM, que são fabricadas no Japão para uma companhia denominada Lupus Imaging Media (que é, aparentemente, a proprietária da marca «Agfaphoto»). Portanto, a película Agfa não é Agfa e a película que a Agfa faz também não. Eu sei que é confuso, por isso nem sequer me vou esforçar por perceber como isto tudo aconteceu.

O que eu sei é que, para película Fujifilm, o Agfa Vista 400 tem uma deficiência surpreendente: os verdes são péssimos. Mortiços na melhor das hipóteses, completamente deslavados e esbranquiçados na pior. O Agfa Vista 400 só não me merece impropérios por o seu preço ser tão modesto, mas posso dizer que, sendo mais caro, consegue ser apenas ligeiramente melhor que o Fuji Superia 200, que é um dos piores rolos a cores que experimentei.

Esta minha apreciação tem de ser lida cum grano salis. Os rolos que usei até hoje, com a aparente excepção do Ferrania Solaris, do Kodak Gold e do Superia, são para uso profissional. A sua qualidade está a léguas da dos rolos vendidos ao público em geral. Deste modo, quando digo que o Agfa Vista é sofrível, é como se estivesse a referir-me a, digamos, um Opel Insignia: este fica a perder para os modelos equivalentes da Mercedes, Audi e BMW – e mesmo para o Peugeot 508 –, mas é bastante melhor que, digamos, um Volkswagen Polo. É tudo uma questão de escalão.

Dito isto, eu esperava que o Agfa Vista me desse cores subtis, mas correctas. A parte da subtileza é cumprida com algum aprumo, mas a correcção deixa qualquer coisa a desejar. Muitas das fotografias que fiz foram invadidas por uma matiz vermelha que adulterou alguns tons. Por exemplo, a areia mais parece terra. Os amarelos parecem ser a cor que mais sofre com esta matiz. Avancei com a referência ao verde ainda antes de entrar na análise das características desta película porque, como todos sabem, a Fujifilm é reputada pela beleza dos seus verdes. Ora, esta beleza está completamente ausente do Agfa Vista 400, o que me surpreendeu. Este é um rolo que dá às fotografias um aspecto antiquado que não me agrada inteiramente.

O grão, como seria de esperar numa película ASA 400, é abundante. Contudo, esta película lembra as tentativas da minha Canon compacta em fotografar com valores ISO superiores a 100: o ruído era inaceitável. O grão do Agfa Vista 400 é horrível nas fotografias feitas com pouca luz, embora discreto e virtualmente indiscernível nas demais.

Então há alguma coisa de bom a dizer a favor desta película? Sim. Os azuis são espectaculares, embora de tempos a tempos possam surgir um pouco desbotados. Quando a luz ambiente é boa, o tingimento vermelho e o grão não afectam demasiado a qualidade da imagem, apenas restando a questão da vibração das cores, que é sobretudo uma questão de gosto. Por mim, prefiro um bocadinho mais de saturação. E o tingimento, diga-se, é bem mais benigno do que quando são as matizes ciano e magenta a invadir a imagem.

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E é uma boa película para fotografar à sombra. Embora os melhores resultados surjam com luz solar pouco intensa, como a que é típica do Outono e Inverno, nas fotografias feitas à sombra – ou, genericamente, com luz escassa – inexiste o tingimento azul que afecta as películas calibradas para luz do dia, como a Portra 160.

Por tudo isto, o Agfa Vista é um rolo que tem defeitos e virtudes. Quanto a mim, os primeiros não chegam a sobrepor-se às qualidades e os únicos vícios que podem ser considerados redibitórios – pelo menos para alguns – são o tingimento vermelho e o grão excessivo. O resto pode até agradar aos adeptos de cores mortiças que se dedicam a um certo tipo de fotografia que está agora muito em voga.

Quanto a mim, penso que consigo obter resultados muito interessantes a partir do Agfa Vista depois de corrigidas as cores na edição de imagem. Simplesmente, usar a manipulação digital é uma das coisas que pretendo evitar: ainda estou à procura de uma película a cores que não precise de retoques no computador. Até agora, a que mais me satisfez foi a Kodak Gold 200, mas não morro de amores pelas suas cores saturadas. A demanda da película a cores perfeita continua, e tenho receio que só a encontre a preços incomportáveis – como a Fujifilm 400H, cujos rolos atingem os dois algarismos na nossa divisa actual.

M. V. M.

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Obituário: Holga

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Segundo as notícias, a Holga acabou. A maquinaria usada na produção das câmaras e lentes foi «deitada fora» e «não há nada para vender», informou um representante da fábrica na China. Isto significa, por outras palavras, que os lomógrafos vão ter menos escolha, mas mais adiante veremos que isto não é tão grave e importante como parece.

Primeiro, um pouco de história: a Holga foi lançada na China em 1981. A sua história e as razões por detrás do lançamento coincidem com as da Lomo, embora as câmaras russas precedam cronologicamente a Holga e esta tivesse a peculiaridade de ser uma máquina de médio formato que fotografava com a relação de aspecto 6×6. Apesar de ter sido um sucesso no início, as vendas decaíram quando o formato 135 começou a ser introduzido no mercado chinês. Com o consumismo veio o digital, o que não ajudou a causa. A Holga ainda lançou câmaras TLR e 135, mas sem grande sucesso.

Curiosamente, o que manteve as Holga vivas até agora foi a Lomography (ou Lomografia, se quiserem). As Holga eram uma alternativa às Lomo e Diana do formato 135 e partilhavam com estas a qualidade de construção – ou falta dela – e a imprevisibilidade absoluta dos resultados, com o visor errático e os valores de exposição fixos (embora a exposição pudesse ser ajustada em função da luminosidade).

Há muito de bom a dizer sobre as Holga e o movimento conhecido por Lomography. Os seus aderentes são os fotógrafos mais descontraídos e menos presunçosos do mundo. As câmaras podem ter infiltrações de luz intoleráveis, a exposição pode ser errática, as cores podem sair ainda mais psicadélicas que quando se usa um rolo de Ektar 100 com luz solar e as imagens podem surgir mal enquadradas – mas isto não é tão mau como parece. Pelo contrário, nas fotografias dos lomógrafos há uma alegria e uma falta absoluta de qualquer pretensão que são uma variação muito agradável à busca obsessiva da precisão que a fotografia digital propugna. Digamos que os lomógrafos são o extremo oposto dos tarados que usam as suas Nikon D810 para fotografar os seus gatos com diferentes sensibilidades ISO. E é bom não ser confundido com estes últimos.

O que não se pode fazer, quando se usa uma Holga ou uma Lomo, é tentar usá-la como se usa uma Nikon FE2 ou uma Olympus OM-2: aquelas câmaras não são para se ter o máximo de nitidez e precisão na exposição: são para as pessoas que as usam se divertirem – quer dizer: para se divertirem mais que os utilizadores de câmaras sérias (mas a diversão é uma coisa muito séria!). E isto nota-se imediatamente nas fotografias. Se me perguntarem se prefiro ver fotografias de lomógrafos ou do Rui Palha, eu não hesito: vou imediatamente colar o nariz à montra da Embaixada Lomográfica. Ah!, que estou eu a dizer? Prefiro ver fotografias de lomógrafos às minhas!

As considerações sobre qualidade de imagem não têm lugar quando se usa uma Holga. Felizmente não há conversas sobre resolução e megapixéis entre os seus utilizadores. Tudo o que eles querem é fotografar – e isto, embora possa parecer contraditório, traz criatividade e vontade de explorar. Não há nada como o incerto e o imprevisível para que as pessoas se ponham a usar a imaginação. (Claro que estou a falar de cor: eu não sei ao certo o que se passa na cabeça dos lomógrafos e o mais perto que estive de me tornar num foi quando usei um rolo Lomography Earl Grey e, antes disto, quando andei a namorar uma Lomo Fisheye 2, ainda antes de aderir à fotografia analógica.)

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Sim, o M. V. M. já andou a sonhar acordado com isto

E agora, como vai ser o mundo sem Holgas? Não muito diferente: o que as Holga trouxeram à Lomografia foi máquinas de médio formato mais baratas, mas esta não é uma verdadeira necessidade para os lomógrafos, que em regra ficam perfeitamente contentes por fotografar rolos 135. Os que precisarem do médio formato terão sempre as Lubitel, que são mais caras mas também melhores que as Holga. (Mas ao querer «melhor» não se estará a sair do espírito da Lomografia?)

Como os Yo La Tengo poderiam ter dito, and then nothing turned itself upside down. A Lomografia não vai certamente morrer com o desaparecimento das Holga e muito menos vai acabar a fotografia analógica. Vai haver menos uma câmara à escolha, mas decerto os lomógrafos encontrarão alternativas.

M. V. M.

Uma moda estúpida

É isto que acontece quando se usam rolos expirados: se ampliarem a imagem, repararão numas bolinhas subtis que surgem no plano de fundo. Há quem goste...
É isto que acontece quando se usam rolos expirados: se ampliarem a imagem, repararão numas bolinhas subtis que surgem no plano de fundo, no céu. Há quem goste…

Eu não gosto de patetices em fotografia. Detesto ver gente a entregar-se a coisas completamente estúpidas como desafios de fotografias, fotografar com phablets, fazer selfies, abusar do HDR e outros disparates. Talvez esta minha aversão se deva ao respeito que sinto dever conservar pela fotografia – ou se calhar talvez seja por levá-la demasiado a sério (e possivelmente a levar-me a mim mesmo demasiado a sério). Seja como for, sou avesso a brincadeiras com fotografias.

Estes disparates não afectam apenas os utilizadores de equipamento digital. Tenho acompanhado, na medida do possível, as tendências de quem usa película e apercebo-me de uma que reputo de completamente estúpida: o uso de filmes expirados.

Como a película é feita com matéria orgânica – o acetato que serve de base é obtido a partir de algodão –, ela deteriora-se com a passagem do tempo. Os elementos químicos tornam-se instáveis e isto tem por efeito que os resultados da revelação sejam imprevisíveis e incontroláveis. O grão acentua-se drasticamente, perde-se nitidez e as cores tornam-se imprecisas. Em alguns rolos, em particular nos de cor, podem surgir artefactos absolutamente indesejáveis. Por este motivo, os fabricantes estabelecem datas de validade a partir das quais não podem assegurar a sua qualidade. Quem usa películas expiradas fá-lo por sua conta e risco. De resto, é bem possível que a película perca as suas propriedades mesmo antes de expirado o prazo de validade: para que os elementos químicos que a compõem se mantenham estáveis, são necessários alguns cuidados na utilização e armazenamento. Por exemplo, os rolos não devem ser sujeitos a temperaturas superiores a cerca de 21º C. É por este motivo que muitas pessoas conservam os seus rolos no frigorífico – o que, atenta a natureza perecível dos componentes da película, é uma boa prática.

A decomposição dos elementos químicos da película repercute-se na diminuição da velocidade (sensibilidade), de modo que um rolo ISO 400 vai comportar-se, na prática, como se a sua sensibilidade fosse ISO 200 ou mesmo 100, no caso de ter decorrido um lapso de tempo muito longo entre a data de validade e a sua utilização. Isto produz, como é previsível, fotografias sobreexpostas e uma acentuação do contraste, mas também, uma vez que o rolo vai normalmente ser revelado de acordo com a sua velocidade nominal, uma exacerbação do grão.

Diria, deste modo, que o uso de rolos expirados é um perfeito disparate, mas existe uma tendência quase patológica para que o número de pessoas que os usa seja, aparentemente, cada vez mais extenso. Isto é perfeito para os lojistas que querem à força toda escoar o stock de filme velho, mas muita gente gosta dos efeitos da película expirada. As imagens a preto-e-branco são falhas de nitidez, têm em regra um contraste excessivo, são demasiado granulosas e, por vezes, surgem aberrações tão desconcertantes como o aparecimento de algarismos (no caso dos rolos 120) e de círculos em tons contrastantes, como resultado da decomposição das gelatinas. As fotografias a cores, por seu turno, têm, além dos problemas referidos para o preto-e-branco, uma descrição das cores irreal – por regra estas surgem demasiado saturadas – e desvios muito sérios nas matizes.

Todavia, há quem pense que isto tudo é imensamente divertido e se entretenha a comprar e expor películas expiradas. Esta é uma tendência que parece não parar de se disseminar, como uma verdadeira coqueluche. Eu não acho piada nenhuma a esta moda: é como se, de repente, toda a gente desatasse a vestir roupas encontradas nos caixotes do lixo e a consumir alimentos fora do prazo. Ainda por cima, as pessoas que usam películas expiradas gabam-se de que as suas fotografias são imensamente expressivas e têm muito carácter! Não é nada disso: aquelas fotografias são simplesmente fotografias defeituosas. Não fazem nada de edificante pela arte fotográfica. Podem agradar a lomógrafos e outras criaturas esgrouviadas, mas são simplesmente desagradáveis.

É possível que muita gente use rolos expirados por serem mais baratos e se enganem a si mesmos quando clamam essas tretas da expressividade e do carácter. A esses posso deixar um conselho: fariam bem melhor em adquirir rolos novos mais baratos – o Fomapan e o Agfa APX 100 são excelentes e não custam os olhos da cara – e fotografar menos, o que lhes traria a vantagem adicional de se tornarem mais selectivos e, por essa via, fotografarem melhor. Se o problema não é o custo, não existe desculpa para usar rolos expirados. Há certamente rolos novos que, pelas suas características, ajudam o fotógrafo a encontrar a sua forma de expressão: o Ilford HP5 e o Delta 400 têm um grão cheio de carácter e um contraste de chorar por mais, enquanto o Ferrania Solaris dá as cores saturadas que muitos procuram nos rolos expirados. Há sempre um rolo feito à medida dos gostos de cada um; é tudo uma questão de procurar e experimentar. Isto é mil vezes preferível a apresentar fotografias de m**** só porque é moda expor rolos expirados.

M. V. M.

O Lomography Earl Grey (adenda)

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A minha apreciação do rolo Lomography Earl Grey não tem nada que ver com preconceitos nem com a eventual falta de pedigree em comparação com outros rolos. Quanto aos primeiros, é relativamente fácil, a um certo número de amantes da fotografia, desdenhar a lomografia. Já disse muitas vezes que não me incluo nesse grupo e que sinto bastante simpatia pelo movimento lomográfico: estão entre os mais criativos dentre os que praticam a fotografia. Também não é por usar rolos prestigiosos como os Ilford e o Tri-X que me deixo influenciar: afinal de contas, apaixonei-me por um rolo de uma marca que hoje é (mas nem sempre o foi) relativamente obscura e é o rolo mais barato que alguma vez comprei: é, como alguns já terão percebido, o Ferrania Solaris. Este é, de resto, o mais próximo que chego do estilo da lomografia, usando cores saturadas e alegres – mas (isto é crucial) precisas.

Eu sinto necessidade de que os rolos tenham certas características para que correspondam às minhas ideias fotográficas: cingindo-me ao preto-e-branco, um rolo precisa de ter uma boa acutância, um bom contraste, pouco grão e alguma latitude na exposição, de maneira a não estourar facilmente nem carregar demasiado as sombras. Preciso da acutância porque gosto de fazer fotografias ricas em texturas e pormenores; o contraste é um elemento estético que não dispenso; o grão é tolerável se for discreto e contribuir para a imagem e a latitude é importante porque nem sempre é possível obter uma exposição equilibrada. Todos os rolos que experimentei até hoje me dão estas características: o Kodak Tri-X dá-me uma latitude estupenda, um contraste decente, uma acutância razoável e um grão cheio de carácter; o modesto Agfa APX 100 não é muito bom em latitude, mas tem uma acutância fenomenal, bom contraste e um grão que, embora mais abundante do que devia, também adiciona à estética; o Ilford Delta 100 tem tudo menos latitude, aspecto em que podia ser melhor, mas é, de todos os que usei, o que tem melhor grão. Depois há o FP4, que é excelente em tudo. Todos estes rolos cooperam com as minhas fotografias e ajudam-nas a adquirir a estética que pretendo.

O Lomography é, de todos os rolos para preto-e-branco que usei, o único que não tem nenhuma característica que eu possa aproveitar na minha maneira de fotografar. A acutância é medíocre, o contraste inexistente, a latitude estreita e o grão é grosseiro e feio. Mais: este grão contribui para destruir a nitidez da imagem da mesma maneira que o ruído corrompe uma fotografia digital. Será interessante para pessoas que seguem aquela corrente de pensamento pela qual a fotografia com película a preto-e-branco deve ser pouco definida e ter muito grão – o que é uma opção estética tão idónea como outra qualquer –, mas eu não vou nessa corrente.

O que me deixou mais frustrado, nesta experiência falhada com o Lomography Earl Grey, não foi a falta de qualidade em si: foi o facto de ter estragado as minhas fotografias. Algumas das fotografias que fiz usando este rolo podiam estar entre as minhas preferidas, mas sinto um certo embaraço em mostrá-las: fotografias sem definição a ponto de parecerem mal focadas, altas luzes completamente estouradas mesmo em fotografias nocturnas, um contraste deplorável e um grão horrível. Este rolo fez-me pensar que tinha subitamente desaprendido tudo o que sabia.

Apesar de ser o rolo para preto-e-branco mais barato que comprei até hoje, o Lomography Earl Grey é caro. O Agfa APX 100 custa apenas mais €0,50, mas é, ao contrário do Lomography, um rolo extremamente capaz que merece ser nomeado entre os melhores rolos existentes. O Earl Grey é caro mesmo para uso lomográfico: não faz sentido nenhum usar um rolo que custa €4,00 em máquinas que custam €60. Não sei muito bem a quem se destina este rolo. É um rolo decididamente ordinário que não serve nenhum objectivo fotográfico. Se os lomógrafos querem fotografar com máquinas baratas, é um contrasenso usar um rolo que custa quatro euros. Para os outros amantes da fotografia existem os Fomapan, que custam o mesmo que o Earl Grey, e o Agfa. Ambos garantem resultados altamente satisfatórios, sendo o Fomapan o preferido entre os estudantes de fotografia.

O Lomography não faz parte do universo dos rolos para entusiastas sérios e profissionais da fotografia. É um rolo que contém em si a ambiguidade de ser um desperdício de dinheiro para os lomógrafos e demasiado reles para ser usado com propósitos artísticos. Que mais se pode dizer de um rolo com o potencial de destruir fotografias pela sua falta completa de qualidade? Se eu fosse de dar classificações, fossem elas de zero a vinte ou de zero a cinco, dar-lhe-ia zero. Este é o pior rolo que já usei. Só o Ektar 100 se lhe compara em mediocridade, mas este último acaba por ser melhor pela sua aptidão para longas exposições. Este rolo fez-me sentir que gastei dinheiro estupidamente e – o que é bem pior – fez-me sentir que desperdicei o tempo que passei a fotografar com ele. Gastei-o fazendo fotografias que ficaram imprestáveis e nunca o vou recuperar, nem a ele nem às oportunidades que este rolo me fez esbanjar. Não comprem o Lomography Earl Grey nem que a Embaixada Lomográfica seja a única loja aberta. É preferível não fotografar a fotografar com este rolo.

M. V. M.

O Lomography Earl Grey

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Vou tentar ser o mais amável que puder. Eu simpatizo com a Lomography, com a Embaixada Lomográfica no Porto e com a lomografia em geral – apesar de não querer ser um seguidor. O que aquelas pessoas fazem é extrair prazer do acto de fotografar, tal como eu – com a diferença de eu não usar câmaras de plástico e poder, por vezes, parecer que me levo demasiado a sério. A mim e às minhas fotografias. Apesar desta diferença, a lomografia merece toda a minha estima.

Para analisarmos o fenómeno lomografia sem incorrer em injustiça ou sobranceria, temos de pôr de lado todas as concepções fotográficas a que estamos habituados. A lomografia não tem propósitos de criar obras-primas, as questões da técnica e do equipamento não são importantes, os lomógrafos não fotografam para ser reconhecidos, as regras da fotografia que conhecemos não se aplicam. É com olhos despidos de preconceito que devemos ver a lomografia. Vista assim é extremamente apelativa, embora se tenha tornado um fenómeno um pouco lifestyle demais para o meu gosto.

A Lomography não tem nada de pretensiosa, apesar de ter estado na vanguarda da defesa da fotografia convencional quando o digital tentou tomar a fotografia de assalto. Enquanto todas as marcas se voltavam para os computadores pequenos em que as câmaras se transformaram, a Lomography manteve vivos os formatos 135 e 120. Há muito mérito nisto. É até possível que, sem a Lomography, a fotografia convencional estivesse hoje extinta.

Dito isto, o material da Lomography não tem qualidade. Isto aplica-se às máquinas, mas também, como descobri ontem, aos rolos. Como sabem, experimentei um rolo Lomography Earl Grey, mais por a Embaixada Lomográfica ser a única loja de fotografia honesta aberta a um Domingo do que pela curiosidade em experimentá-lo; contudo, essa curiosidade veio mais tarde, já com aquele rolo na máquina. Foi com alguma expectativa que esperei pelas digitalizações deste rolo: afinal, foi o rolo para preto-e-branco mais barato que já comprei. Se fizesse um bom serviço, poderia ser uma escolha muito interessante.

O mínimo que posso dizer é que fiquei desiludido. Quando escrevi sobre o Kodak Ektar 100, usei uma expressão vernacular para o definir. Não vou fazer o mesmo aqui porque prometi, no início do texto, que ia tentar ser simpático, pela consideração que o movimento lomográfico me merece. Eu não diria que este é o pior rolo que já experimentei – quanto mais não fosse por causa do Ektar 100 –, mas posso dizer que o Lomography Earl Grey não se compara com o Ilford FP4, que não ficou nada ameaçado no seu 1.º Lugar do Ranking M. V. M. de Películas. Também não é melhor que os Kodak Tri-X e T-Max. É pior que os outros Ilford que usei. E é pior que o Agfa APX 100. Como, com esta enumeração, esgotei a minha lista de rolos para preto-e-branco, só resta concluir que o Lomography Earl Grey é o pior que já usei.

Ao contrário do Agfa APX 100 – que, por ser o segundo rolo mais barato que comprei até hoje, é o que melhor se presta a uma comparação –, o Lomography Earl Grey é falho em contraste e em acutância. O mesmo que dizer que as imagens que produz são planas e muito pouco nítidas. O APX 100 tem um defeito, que é uma abundância inexplicável de grão para um rolo de uma velocidade tão baixa, mas o Earl Grey parece um rolo ASA 400 exposto com a máquina regulada para 100, de tão abundante e grosseiro que o seu grão é. A sua semelhança com os rolos ASA 400 é reforçada pelo facto de todas as fotografias que fiz com este rolo terem ficado sobreexpostas, com altas luzes violentamente estouradas, mesmo quando regulei a exposição para que o ponteiro do fotómetro ficasse a meio da escala. Isto é inexplicável. Nunca me aconteceu com nenhum outro rolo. Obrigou-me a usar a edição de imagem muito para além do que considero ser o meu limite – e mesmo assim ficaram os problemas irresolúveis da falta de nitidez e do excesso de grão.

Vou voltar a ser simpático e especular que este é um rolo perfeito para as imagens lo-fi de que alguns lomógrafos gostam: é o rolo ideal para as Holga e as Lomo e para o tipo de qualidade de imagem que caracteriza a lomografia. Simplesmente, a apresentação deste Lomography Earl Grey não é para mim. Eu fui demasiado mimado pelo melhor rolo para preto-e-branco que existe à superfície da terra, o Ilford FP4 Plus 125. É o rolo que, uma vez compreendido, me dá exactamente o que quero da fotografia a preto-e-branco: contraste, acutância, limpidez (mas não tanta que desvirtue o preto-e-branco pela ausência total de grão) e latitude na exposição. O Lomography parece ter sido concebido para ser o antónimo destas qualidades. Se tivesse uma La Sardina ou uma Fisheye 2, porém, talvez este fosse o meu rolo de eleição.

M. V. M.

Eu, Lomógrafo? (2)

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Se o Lomography Earl Grey, que referi no texto de ontem, me der resultados subjectivamente mais interessantes que o Ilford FP4, como é que eu fico? Não seria a primeira vez que isto aconteceria comigo: eu tinha o Kodak Portra 160 como o meu rolo preferido para fotografia a cores e, de súbito, tudo mudou depois de experimentar o Ferrania Solaris, que caiu no planeta M. V. M. com o impacto de um asteróide de dimensões colossais. Nada me diz que não pode acontecer o mesmo desta vez.

Se isto acontecer, espero que não pensem que me vou tornar um lomógrafo. Contudo, devo dizer que não tenho, ao contrário de muitos, um preconceito de fundo contra a Lomografia. Há gente que critica esta filosofia de fotografar por as câmaras serem umas porcarias de plástico, mas essas pessoas não estão a perceber a essência da Lomografia. Devo dizer que, quando vejo fotografias de lomógrafos, por vezes me sinto como se levasse a fotografia demasiado a sério e estivesse a passar ao lado da pura diversão que é fotografar.

Há muito de bom a dizer sobre a Lomografia. Não há nada de mau ou lamentável em fazer fotografias divertidas, ou em fazer fotografias só por diversão (não é bem a mesma coisa). Eu sou bastante – mas, aparentemente, não o suficiente – hedonista, no sentido em que fotografo porque me dá prazer fazê-lo. Compreendo o que é o prazer de fotografar, tal como o facto de alguém querer fazer fotografias divertidas. A Lomografia pode parecer frívola, mas não é: ao contrário das pessoas que fotografam com telemóveis e phablets, o lomógrafo é criativo: não fotografa para colher uma imagem descritiva da realidade que se lhe depara, mas para lhe dar uma interpretação pessoal. A escolha de rolos excessivamente saturados ou fora do prazo de validade corresponde a uma opção criativa e estética. Ora, a criatividade e a estética são aspectos essenciais da fotografia artística, pelo que os lomógrafos inserem-se neste segmento. Preferia mil vezes ser um lomógrafo a ser uma dessas pessoas que parecem ter uma compulsão para fotografar tudo o que vêem com o que tiverem à mão e «partilhar» as fotografias no Facebook. A minha maneira de fotografar está, neste particular, muito mais próxima da Lomografia do que da iPhonografia.

A Lomografia é uma modalidade da fotografia convencional – ou analógica, se preferirem. As câmaras usadas pelos lomógrafos baseiam-se nas Lomo, Diana e Holga de fabrico soviético, que eram câmaras baratas e mal construídas, sem sofisticações como controlos de exposição, mas são câmaras de película. A Lomografia só faz sentido se forem usadas câmaras para película; o digital é inaplicável. Penso que posso dizer, sem incorrer em falsidade grosseira, que a Lomografia foi crucial para manter os fabricantes de película activos, facto que permitiu a revivescência de uma forma de fotografar que esteve ameaçada de extinção pelo advento da fotografia digital. Da mesma forma que os DJ mantiveram as prensas de vinil em funcionamento, a Lomografia evitou – ou ajudou a evitar – que a fotografia convencional desaparecesse. Devemos, no mínimo, reconhecer-lhe este mérito.

A Lomografia é para gente que se imagina muito cool? Certamente. As fotografias que os lomógrafos fazem são memoráveis, ao ponto de poderem ser admiradas como fotografias significativas? Não. Tal como não são de execução técnica perfeita, o que de resto é impossível com câmaras que não se podem controlar. Simplesmente, não são estes os objectivos da Lomografia, nem quem a adopta tem em mente fazer fotografias perfeitas. Apesar de tudo, as fotografias dos lomógrafos transmitem uma enorme sensação de diversão e alegria. Os lomógrafos, embora excêntricos (ou seja o que for que lhes queiram chamar), têm uma virtude que muitos adeptos da fotografia não têm: estão a borrifar-se para as questões técnicas. Com eles é seguro que não se vai entrar numa discussão estúpida e infrutífera sobre a «abertura equivalente». Sabem o que têm de saber para usar as suas máquinas de plástico e construção deplorável: calcular o tempo de exposição e focar à zona. A única coisa que os preocupa é divertirem-se a fotografar. O que, convenhamos, é algo que todos os amadores deviam aprender a fazer, em lugar de tentarem fazer obras-primas para angariar uns likes no Facebook ou imitar os (seus) mestres.

O que me separa da Lomografia é que espero obter algo mais da fotografia do que o mero divertimento. Quero fazer fotografias que me encham de satisfação quando as (re)vejo, porque não me basta fotografar apenas porque é giro. Quero transmitir algo mais com as minhas fotografias. Mas o factor diversão é muito importante, como o uso do Ferrania Solaris me ensinou.

É por tudo isto que, a despeito de não estar a fazer planos para me tornar num lomógrafo, aprecio e respeito a Lomografia. É bem possível que, se não fosse esta corrente, a fotografia convencional tivesse desaparecido.

M. V. M.

Eu, Lomógrafo? (1)

f136bw3_product_1_media_galleryNo Domingo que passou esgotei o rolo que trazia na máquina, um Ilford FP4. Logo na pior altura, quando me preparava para fotografar uma orquestra de Jazz (bom, uma orquestra de dez músicos, mas no Jazz dez músicos já é uma orquestra) que tocava na Praça de Lisboa. Mas deixem-me recuar um pouco: era Domingo e quase todas as lojas de fotografia estavam fechadas, mas precisava de um rolo. Apenas me lembrei de um grande espaço comercial de uma multinacional que funciona numa importante artéria comercial da cidade, que, curiosamente, até tem um laboratório de fotografia. Havia alguns rolos de qualidade à venda, entre os quais o Ilford FP4. Quando me informaram sobre o preço, porém, desisti da compra: aquela superfície comercial (que permanecerá inominada, não vão lembrar-se de intentar uma acção penal por difamação contra mim) vende o FP4 por um preço que é €1,50 mais caro do que em qualquer outra loja. Penso que só um néscio se lembrará de comprar rolos ali quando tem outras lojas que os vendem muito mais barato. A multinacional ficará muito contente por ter otários como esses entre os seus clientes, mas não contará comigo.

A minha sessão fotográfica parecia destinada a acabar prematuramente, mas quando passei pela Praça Carlos Alberto notei que a loja da Lomography Portugal estava aberta; apesar de não ter dado importância a este facto, quando o rolo que trazia na máquina esgotou lembrei-me da Lomography e entrei. Foi simpaticamente atendido por uma rapariga de cabelo azul – tenho-me cruzado com algumas nas minhas expedições fotográficas! – e fiquei a saber que só tinham rolos da própria Lomography. Nada de Ferrania, nada de Ilford, Kodak ou Fuji: só Lomography, a cores ou a preto-e-branco.

Eu sei que a Lomography tem uma tradição de rolos a cores divertidos, com cores meio-malucas, mas eu só tenho um quarto de maluquice (sou só meio-meio-maluco) quando o tema é a fotografia. O Ferrania Solaris, que é o rolo, digamos, menos ortodoxo que usei, tem aquelas cores saturadas que não correspondem à realidade que os olhos vêem, mas não é um rolo maluco: é muito competente e as suas cores são bonitas, não são fantasias que deixam as pessoas com o aspecto de quem meteu inadvertidamente a cara num micro-ondas ligado. Optei pelo preto-e-branco, cujas opções se resumiam a um rolo ASA 100 e outro ASA 400. O primeiro chama-se «Earl Grey», o outro «Lady Grey». Optei pelo primeiro, o que significa que comprei um rolo ao qual deram o nome de um chá. Espero perceber a relação entre um rolo de negativos e um tipo de chá quando vir as digitalizações, mas por agora parece-me um nome um pouco pateta para um rolo de negativos a preto-e-branco. Não tanto como uns tripés de marca «3 Legged Thing» que são montados no Reino Unido, mas pateta na mesma.

Eu não me canso de fazer experiências com rolos, e esta é mais uma. Quem sabe não tenho uma surpresa como a do Ferrania Solaris? Pelas imagens que vi na Internet – as quais são sempre de desconfiar, porque podem ser muito retocadas – parece ser um rolo muito interessante e a um preço bem catita: €4,00. Ou seja, metade do que teria pago na tal grande superfície comercial pelo FP4, faltando provar que este último é duas vezes melhor que o Earl Grey. E a um preço que é €0,50 inferior ao do rolo para preto-e-branco mais barato que comprei até hoje, o Agfa APX 100. A Lomography promete resultados de fazer cair o queixo no seu website, mas eu já me habituei a não levar este tipo de considerações à risca desde os meus doze anos, pelo que só me resta esgotar as exposições, entregar o rolo e esperar pelas digitalizações. Quem sabe não terei uma surpresa: embora me seja difícil conceber a existência de uma película para preto-e-branco melhor que o Ilford FP4, já percebi que o facto de um rolo ser barato não significa necessariamente que seja mau.

Seja qual for o resultado, os leitores do Número f/ conhecerão a minha opinião mal possa apreciar as fotografias que fiz com este novo (para mim) rolo. Não posso, de maneira nenhuma, excluir a possibilidade de adoptar o Earl Grey no futuro, como aconteceu com o Ferrania. Nestas coisas há que manter o espírito aberto.

M. V. M.