Os meus filmes

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Título enganoso – não vou falar aqui de cinema, embora já o tenha feito (há poucos blogues de fotografia onde os leitores possam educar o seu gosto cinematográfico através do conhecimento de cineastas como Luchino Visconti, Richard Linklater e Michael Haneke). O título pretende ser uma sátira às pessoas que gostam de traduzir tudo directamente do inglês e entendem que film pode ser traduzido para filme, mas esta última é uma palavra inventada, porque film tem uma tradução em português, que é  «película». (Film não se refere especificamente à película fotográfica ou cinematográfica: também designa, por exemplo, o papel celofane ou os plásticos usados para envolver alimentos.)

Também não vou escrever sobre os meus filmes – se eu vos contasse como correu o meu último julgamento, pensariam que tinha aderido à equipa de guionistas de uma série humorística qualquer –, mas sim sobre as minhas películas. Desde que comprei a OM já experimentei vinte películas diferentes (todas de negativos): da Kodak, usei rolos de Tri-X, Portra 160, Ektar 100, Gold 200 e T-Max 100 e 400; experimentei Ilford FP4, HP5, Pan F e Delta 100 e 400 (além de um rolo Pan 400 que já atingira a idade núbil, mas cujos resultados pareceram agradar a muitos visitantes do meu Flickr); usei também Fuji (Superia 200), Fomapan 200, Ferrania Solaris, Kentmere 400, Agfa APX 100 (também usei 400, mas os resultados foram inconclusivos) e agora outro rolo Agfa, este a cores, que é o Vista 400. Além da ovelha negra chamada Lomography Earl Grey, que foi a pior que experimentei. Foram muitos rolos. Apesar de ainda me faltar experimentar outros tantos – vários da Fuji, todos da Rollei e da Adox e algumas variedades das marcas que mencionei anteriormente –, penso que já posso elaborar algumas conclusões.

A primeira é que o preto-e-branco é a minha linguagem. Já escrevi aqui, ainda há bem pouco tempo, que fotografar a cores é difícil pelas exigências de harmonia da cor. Devo acrescentar outra dificuldade: a de encontrar motivos em que a cor, mais que as formas, seja o elemento gráfico preponderante. Convenhamos que o Porto é uma cidade um bocado granítica e monocromática (e eu não tenho particular gosto em fotografar graffiti). O preto-e-branco favorece as formas e as linhas, pelo que se adequa melhor às minhas opções estéticas. Daí que tenha adquirido muitos mais rolos de preto-e-branco que de cores. Por regra, demoro muito mais a expor rolos a cores, o que é revelador quanto às dificuldades com que me deparo. Isto não quer dizer que tenha desistido da cor, mas seguramente significa que estabeleci uma preferência.

E, já que me refiro a preferências, quais são os rolos que mais me satisfazem? Para o preto-e-branco, a resposta é mais ou menos óbvia: o FP4 é aquele ao qual volto sempre. Já expus trinta e seis rolos desta película. Gosto do seu contraste e da nitidez incrível, mas exige algumas precauções, como expor sistematicamente para as altas luzes de maneira a evitar a sobreexposição.

O que me leva a outra conclusão: eu gosto de películas lentas. Comigo a fotografia em lugares pouco iluminados é uma excepção, não a regra. Além de não apreciar aberturas demasiado estreitas: não sou um tarado do bokeh (eu gostava de cremar in vivo a criatura que se lembrou de importar esta palavra para o Ocidente), mas um bocadinho de desfoque de vez em quando não faz mal nenhum. As películas de alta velocidade (ou sensibilidade, se preferirem) obrigam-me a fotografar com f/11 sempre que aparece um raio de sol. Contudo, nas diversas ocasiões em que um rolo ISO 400 é útil, demorei a decidir qual preferia: o Tri-X? O HP5? Sob reserva de fazer mais algumas experiências, penso ter encontrado uma película que poderia usar sempre que quiser fotografar em estações do metro: a Kentmere 400. Contudo, devo também dizer que foi agradável experimentar películas ASA 200. Usei duas: Fomapan 200 e Kodak Gold 200. É uma sensibilidade muito versátil e agradável de usar. Não compreendo por que razão a Ilford não fabrica películas ISO 200.

Quanto à cor, remeto para o texto em que me refiro às dificuldades suplementares que as películas implicam. Apesar de a minha preferência não ir para a fotografia a cores, não posso negar que me diverti com os rolos Ferrania e que fiquei surpreendido com o desempenho do Kodak Gold 200. Os outros são demasiado dependentes das condições de luz. Curiosamente, a película que estou correntemente a usar é a primeira de alta velocidade que uso. (Depois digo-vos das minhas impressões.)

A maior surpresa da minha experiência com películas, porém, é a resolução do pormenor que algumas possibilitam. Claro que as lentes Olympus OM, em particular a grande-angular, contribuem para esta resolução, mas as películas desempenham um papel importante. Descobrir isto foi uma surpresa, mas há uma explicação: a fotografia no formato 135 precisa de toda a resolução de que for capaz para que não se perca demasiada nitidez nas ampliações. As minhas fotografias são, com a excepção daquelas em que falhei a focagem, inacreditavelmente nítidas. Esta, como referi, foi uma grande surpresa. Só comparável ao prazer que se extrai de fotografar com uma máquina analógica, mas estas são contas de outro rosário.

M. V. M.

Obituário: Holga

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Segundo as notícias, a Holga acabou. A maquinaria usada na produção das câmaras e lentes foi «deitada fora» e «não há nada para vender», informou um representante da fábrica na China. Isto significa, por outras palavras, que os lomógrafos vão ter menos escolha, mas mais adiante veremos que isto não é tão grave e importante como parece.

Primeiro, um pouco de história: a Holga foi lançada na China em 1981. A sua história e as razões por detrás do lançamento coincidem com as da Lomo, embora as câmaras russas precedam cronologicamente a Holga e esta tivesse a peculiaridade de ser uma máquina de médio formato que fotografava com a relação de aspecto 6×6. Apesar de ter sido um sucesso no início, as vendas decaíram quando o formato 135 começou a ser introduzido no mercado chinês. Com o consumismo veio o digital, o que não ajudou a causa. A Holga ainda lançou câmaras TLR e 135, mas sem grande sucesso.

Curiosamente, o que manteve as Holga vivas até agora foi a Lomography (ou Lomografia, se quiserem). As Holga eram uma alternativa às Lomo e Diana do formato 135 e partilhavam com estas a qualidade de construção – ou falta dela – e a imprevisibilidade absoluta dos resultados, com o visor errático e os valores de exposição fixos (embora a exposição pudesse ser ajustada em função da luminosidade).

Há muito de bom a dizer sobre as Holga e o movimento conhecido por Lomography. Os seus aderentes são os fotógrafos mais descontraídos e menos presunçosos do mundo. As câmaras podem ter infiltrações de luz intoleráveis, a exposição pode ser errática, as cores podem sair ainda mais psicadélicas que quando se usa um rolo de Ektar 100 com luz solar e as imagens podem surgir mal enquadradas – mas isto não é tão mau como parece. Pelo contrário, nas fotografias dos lomógrafos há uma alegria e uma falta absoluta de qualquer pretensão que são uma variação muito agradável à busca obsessiva da precisão que a fotografia digital propugna. Digamos que os lomógrafos são o extremo oposto dos tarados que usam as suas Nikon D810 para fotografar os seus gatos com diferentes sensibilidades ISO. E é bom não ser confundido com estes últimos.

O que não se pode fazer, quando se usa uma Holga ou uma Lomo, é tentar usá-la como se usa uma Nikon FE2 ou uma Olympus OM-2: aquelas câmaras não são para se ter o máximo de nitidez e precisão na exposição: são para as pessoas que as usam se divertirem – quer dizer: para se divertirem mais que os utilizadores de câmaras sérias (mas a diversão é uma coisa muito séria!). E isto nota-se imediatamente nas fotografias. Se me perguntarem se prefiro ver fotografias de lomógrafos ou do Rui Palha, eu não hesito: vou imediatamente colar o nariz à montra da Embaixada Lomográfica. Ah!, que estou eu a dizer? Prefiro ver fotografias de lomógrafos às minhas!

As considerações sobre qualidade de imagem não têm lugar quando se usa uma Holga. Felizmente não há conversas sobre resolução e megapixéis entre os seus utilizadores. Tudo o que eles querem é fotografar – e isto, embora possa parecer contraditório, traz criatividade e vontade de explorar. Não há nada como o incerto e o imprevisível para que as pessoas se ponham a usar a imaginação. (Claro que estou a falar de cor: eu não sei ao certo o que se passa na cabeça dos lomógrafos e o mais perto que estive de me tornar num foi quando usei um rolo Lomography Earl Grey e, antes disto, quando andei a namorar uma Lomo Fisheye 2, ainda antes de aderir à fotografia analógica.)

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Sim, o M. V. M. já andou a sonhar acordado com isto

E agora, como vai ser o mundo sem Holgas? Não muito diferente: o que as Holga trouxeram à Lomografia foi máquinas de médio formato mais baratas, mas esta não é uma verdadeira necessidade para os lomógrafos, que em regra ficam perfeitamente contentes por fotografar rolos 135. Os que precisarem do médio formato terão sempre as Lubitel, que são mais caras mas também melhores que as Holga. (Mas ao querer «melhor» não se estará a sair do espírito da Lomografia?)

Como os Yo La Tengo poderiam ter dito, and then nothing turned itself upside down. A Lomografia não vai certamente morrer com o desaparecimento das Holga e muito menos vai acabar a fotografia analógica. Vai haver menos uma câmara à escolha, mas decerto os lomógrafos encontrarão alternativas.

M. V. M.

Ranking actualizado

Raparigas manifestando a sua felicidade por serem fotografadas com um Ilford HP5
Raparigas manifestando a sua felicidade por serem fotografadas com um Ilford HP5

Não me apetece experimentar mais rolos. Apenas quero usar mais um rolo que ainda não experimentei, que é o Fujifilm 400H (ou o 160NS, caso alguma vez consiga encontrá-lo). É um rolo extremamente caro, mas se me der as cores dos rolos de slide da Fujifilm, pode valer a pena.

Quanto aos preto-e-branco, a minha preferência continua idêntica. O FP4 é a película a que regresso sempre. Para sensibilidades altas a confusão é ainda substancial: o Tri-X é um belíssimo rolo, tal como o Delta 400, mas tenho vindo, depois de uma má impressão inicial, a apreciar cada vez mais o HP5. Tem muito grão, mas este dá textura e expressão às fotografias. Não é ideal para retratos, mas as suas características de contraste levam a que o considere o melhor rolo ASA 400.

Os mais atentos vão reparar, ao ler o meu ranking actualizado, que os Ilford ocupam seis dos sete primeiros lugares, incluindo os dois primeiros. Pois é – nada a fazer. São os melhores. Pelo menos para as minhas fotografias. Podem começar a chamar-me «Mr. Ilford». Ou Señor Ilford. Monsieur Ilford. Herr Ilford. Ilford-san. A minha fidelidade aos Ilford só é superada por aquela que os cães dedicam aos seus donos.

Penso, deste modo, que posso viver muito feliz apenas usando dois rolos para preto-e-branco: o FP4 por defeito e o HP5 quando me apetecer fotografar com pouca luz. Vai ser assim porque não suporto ter de fotografar com aberturas f/11 e f/16 sempre que o sol brilha um pouco mais, o que me impede em absoluto de usar rolos de velocidade alta com regularidade. E o FP4, embora não me dê o contraste do Pan F, é mais versátil: fotografa-se bem com ele de noite, o que é importante para mim, e tem um f/stop a mais em relação ao Pan F, o que faz diferença quando a luz começa a escassear.

Quanto à cor, vou esperar que a Ferrania não tenha usado o crowdfunding para ficar com o dinheiro dos aderentes (é um esquema cada vez mais comum na internet) e retome mesmo a produção do Solaris 100. Se tal não acontecer – e eu espero que aconteça, porque o Solaris é extremamente divertido –, terei de usar o Kodak Portra 160 para fotografar debaixo de luz solar e o Ektar 100 quando quiser fotografar com luz escassa. Com a reserva de poder vir a usar os Fuji se obtiver bons resultados. Apesar de a minha apreciação do Ektar 100 ter sido menos que favorável, fi-la com base em fotografias feitas sob luz do dia; em zonas de sombra e debaixo de luz escassa, porém, o Ektar 100 mantém admiravelmente o equilíbrio das cores, pelo que essa apreciação foi um pouco injusta.

De todos os rolos para preto-e-branco disponíveis, apenas não usei os Rollei e o Fuji Neopan. Os primeiros são, tanto quanto sei, idênticos ao Agfa APX; o Neopan, esse, é demasiado caro; não me parece que valha a pena experimentá-lo quando os Ilford – e também o Tri-X – dão tão bons resultados.

Deste modo, o meu ranking pessoal actualizado de películas do formato 135 é como se segue:

1.º: Ilford FP4 Plus 125
2.º: Ilford Delta 400
3.º: Kodak Tri-X 400
4.º: Ilford Delta 400
5.º: Ilford Delta 100
6.º: Ilford Pan F Plus 50
7.º: Ilford HP5 Plus 400
8.º: Kodak Portra 160
9.º: Ferrania Solaris 100
10.º: Fomapan 200
11.º: Agfa APX 100
12.º: Kodak Ektar 100
13.º: Kodak T-Max 400
14.º: Kodak T-Max 100
15.º: Fujifilm Superia 200
16.º: Lomography Earl Grey

M. V. M.

O estado dos meus conhecimentos

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Até agora experimentei os seguintes rolos: Agfa APX 100 e APX 400; Ferrania Solaris; Fuji Superia 200; Ilford Delta 100, Delta 400, FP4, HP5 e Pan F; Kodak Ektar 100, Portra 160, T-Max 100, T-Max 400 e Tri-X; Lomography Earl Grey. Há algumas conclusões a extrair das minhas experiências com rolos de diferentes tipos e sensibilidades.

A primeira é a minha preferência por rolos de grão cúbico. (Os não iniciados já estarão completamente perdidos depois de lerem esta afirmação, mas eu ofereci uma explicação mais ou menos simples num texto do Número f/: podem lê-la aqui.) Não vou dizer que estes são melhores que os de grão tabular, porque isto de dizer o que é melhor é sempre um juízo pessoal. O que é melhor para mim não o é necessariamente para os outros. Simplesmente, a película de grão cúbico ajuda-me a obter a expressão que quero; é mais compatível, se quisermos, com a minha linguagem fotográfica. Eu não ando à procura da maior qualidade de imagem possível: a minha demanda é pelos rolos que melhor me ajudem a conseguir o aspecto que pretendo para as minhas fotografias. Já encontrei um vencedor para as velocidades ASA reduzidas, que é o Ilford FP4. Quando afirmo que este é o melhor rolo que a humanidade jamais produziu, esta expressão não é um exagero nem uma hipérbole porque transmite aquela que é a minha opinião. O FP4 é o melhor rolo para os meus propósitos. Outros preferirão o Tri-X ou o Fuji Neopan Acros, sobre o qual não me posso pronunciar por (ainda) o não ter experimentado; eu prefiro o FP4. É um rolo versátil, de uma qualidade acima da média e com um contraste e uma nitidez que são de chorar por mais. Contudo, se estivesse empenhado em obter a melhor qualidade possível, a minha preferência iria para os rolos de grão tabular. O mais provável, já que estes rolos precisam de contraste, seria optar pelo Ilford Delta 100. Em termos de qualidade, medida pela precisão na descrição das altas luzes, médios tons e sombras, bem como pela nitidez e pelo contraste, penso que é difícil encontrar melhor. Há o Neopan Acros da Fuji, que muitos juram ser o melhor, mas é um rolo excessivamente caro. Referi o Delta 100 e não o 400, apesar de ter ficado muito satisfeito com os resultados deste último, porque a comparação entre ambos fez-me chegar a outra conclusão: eu só gosto de fotografar com velocidades – ou sensibilidades, se preferirem – baixas.

Eu explico. Fotografar com rolos ASA (ou ISO) 400 obriga-me a usar tempos de exposição muito curtos e aberturas estreitas. Eu não gosto de fotografar com f/11, muito menos com f/16. Não sou daquelas pessoas que nutrem uma obsessão patológica pelo bokeh e passam o tempo a sonhar acordados com lentes f/0.9 – eu tenho muitas dúvidas se a abertura influi assim tanto no desfoque –, mas gosto de fotografar com aberturas amplas. As melhores experiências que tive quanto ao uso de aberturas largas foram quando usei os Ilford Pan F, com a sua velocidade ASA 50. Ora, é difícil usar aberturas largas quando está sol e tenho um rolo ASA 400 instalado na máquina. Estas circunstâncias obrigam-me frequentemente a recorrer às aberturas mais estreitas, o que não é ideal quando se quer jogar com a profundidade de campo. Quando a luz é intensa, o resultado de usar rolos 400 é uma perda substancial de contraste e abundância de grão, o qual nem sempre contribui para a expressividade da imagem.

Outra conclusão que retiro das minhas experiências com uma máquina fotográfica que grava as imagens em película é que sou um verdadeiro iconoclasta. Por que digo isto? Há, na comunidade fotográfica, uma verdadeira veneração por um rolo cujo uso, talvez por influência dos grandes fotógrafos do Século XX, adquiriu um estatuto de dogma. Este rolo é o Kodak Tri-X 400. Apesar de já ter usado cinco destes rolos, nunca fiquei convencido. Eu espero não ser assassinado por algum fundamentalista do Tri-X por esta blasfémia, mas não sou apreciador. Ou melhor: é muito bom, mas não dá às minhas fotografias o aspecto que pretendo delas. (De resto, seria uma pena ser assassinado agora: ainda quero fotografar os sargaceiros da Apúlia e cenas da faina piscatória mais expressivas do que as que captei até agora; o meu eventual assassínio poderia colidir com estes planos.) O Tri-X é considerado o rolo obrigatório para a fotografia de rua, mas a distância focal de 35mm também o é e eu detesto-a e prefiro usar uma lente de 50mm. Não, eu não acompanho a reverência que todos devotam ao Tri-X – embora não possa negar que é excelente. Talvez pensasse de maneira diferente se tivesse uma Leica, como aqueles nomes venerandos que construíram a reputação do Tri-X, mas, sendo as coisas o que são, é esta a minha conclusão.

A minha aprendizagem da fotografia nunca estará completa. É possível que tenha escrito anteriormente muita coisa que está em contradição com o que estão a ler, mas a aprendizagem é assim mesmo: substituem-se as noções erradas por outras certas e abrem-se novas frentes de conhecimento. Eu não sabia nada sobre rolos até Junho de 2013, altura em que comprei a OM-2; esta coisa das películas era completamente nova para mim e só agora pude chegar a estas conclusões – que podem não ser definitivas. Não se surpreendam se daqui a um ano estiver a escrever coisas que contradizem este texto.

M. V. M.

O Lomography Earl Grey (adenda)

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A minha apreciação do rolo Lomography Earl Grey não tem nada que ver com preconceitos nem com a eventual falta de pedigree em comparação com outros rolos. Quanto aos primeiros, é relativamente fácil, a um certo número de amantes da fotografia, desdenhar a lomografia. Já disse muitas vezes que não me incluo nesse grupo e que sinto bastante simpatia pelo movimento lomográfico: estão entre os mais criativos dentre os que praticam a fotografia. Também não é por usar rolos prestigiosos como os Ilford e o Tri-X que me deixo influenciar: afinal de contas, apaixonei-me por um rolo de uma marca que hoje é (mas nem sempre o foi) relativamente obscura e é o rolo mais barato que alguma vez comprei: é, como alguns já terão percebido, o Ferrania Solaris. Este é, de resto, o mais próximo que chego do estilo da lomografia, usando cores saturadas e alegres – mas (isto é crucial) precisas.

Eu sinto necessidade de que os rolos tenham certas características para que correspondam às minhas ideias fotográficas: cingindo-me ao preto-e-branco, um rolo precisa de ter uma boa acutância, um bom contraste, pouco grão e alguma latitude na exposição, de maneira a não estourar facilmente nem carregar demasiado as sombras. Preciso da acutância porque gosto de fazer fotografias ricas em texturas e pormenores; o contraste é um elemento estético que não dispenso; o grão é tolerável se for discreto e contribuir para a imagem e a latitude é importante porque nem sempre é possível obter uma exposição equilibrada. Todos os rolos que experimentei até hoje me dão estas características: o Kodak Tri-X dá-me uma latitude estupenda, um contraste decente, uma acutância razoável e um grão cheio de carácter; o modesto Agfa APX 100 não é muito bom em latitude, mas tem uma acutância fenomenal, bom contraste e um grão que, embora mais abundante do que devia, também adiciona à estética; o Ilford Delta 100 tem tudo menos latitude, aspecto em que podia ser melhor, mas é, de todos os que usei, o que tem melhor grão. Depois há o FP4, que é excelente em tudo. Todos estes rolos cooperam com as minhas fotografias e ajudam-nas a adquirir a estética que pretendo.

O Lomography é, de todos os rolos para preto-e-branco que usei, o único que não tem nenhuma característica que eu possa aproveitar na minha maneira de fotografar. A acutância é medíocre, o contraste inexistente, a latitude estreita e o grão é grosseiro e feio. Mais: este grão contribui para destruir a nitidez da imagem da mesma maneira que o ruído corrompe uma fotografia digital. Será interessante para pessoas que seguem aquela corrente de pensamento pela qual a fotografia com película a preto-e-branco deve ser pouco definida e ter muito grão – o que é uma opção estética tão idónea como outra qualquer –, mas eu não vou nessa corrente.

O que me deixou mais frustrado, nesta experiência falhada com o Lomography Earl Grey, não foi a falta de qualidade em si: foi o facto de ter estragado as minhas fotografias. Algumas das fotografias que fiz usando este rolo podiam estar entre as minhas preferidas, mas sinto um certo embaraço em mostrá-las: fotografias sem definição a ponto de parecerem mal focadas, altas luzes completamente estouradas mesmo em fotografias nocturnas, um contraste deplorável e um grão horrível. Este rolo fez-me pensar que tinha subitamente desaprendido tudo o que sabia.

Apesar de ser o rolo para preto-e-branco mais barato que comprei até hoje, o Lomography Earl Grey é caro. O Agfa APX 100 custa apenas mais €0,50, mas é, ao contrário do Lomography, um rolo extremamente capaz que merece ser nomeado entre os melhores rolos existentes. O Earl Grey é caro mesmo para uso lomográfico: não faz sentido nenhum usar um rolo que custa €4,00 em máquinas que custam €60. Não sei muito bem a quem se destina este rolo. É um rolo decididamente ordinário que não serve nenhum objectivo fotográfico. Se os lomógrafos querem fotografar com máquinas baratas, é um contrasenso usar um rolo que custa quatro euros. Para os outros amantes da fotografia existem os Fomapan, que custam o mesmo que o Earl Grey, e o Agfa. Ambos garantem resultados altamente satisfatórios, sendo o Fomapan o preferido entre os estudantes de fotografia.

O Lomography não faz parte do universo dos rolos para entusiastas sérios e profissionais da fotografia. É um rolo que contém em si a ambiguidade de ser um desperdício de dinheiro para os lomógrafos e demasiado reles para ser usado com propósitos artísticos. Que mais se pode dizer de um rolo com o potencial de destruir fotografias pela sua falta completa de qualidade? Se eu fosse de dar classificações, fossem elas de zero a vinte ou de zero a cinco, dar-lhe-ia zero. Este é o pior rolo que já usei. Só o Ektar 100 se lhe compara em mediocridade, mas este último acaba por ser melhor pela sua aptidão para longas exposições. Este rolo fez-me sentir que gastei dinheiro estupidamente e – o que é bem pior – fez-me sentir que desperdicei o tempo que passei a fotografar com ele. Gastei-o fazendo fotografias que ficaram imprestáveis e nunca o vou recuperar, nem a ele nem às oportunidades que este rolo me fez esbanjar. Não comprem o Lomography Earl Grey nem que a Embaixada Lomográfica seja a única loja aberta. É preferível não fotografar a fotografar com este rolo.

M. V. M.

O Lomography Earl Grey

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Vou tentar ser o mais amável que puder. Eu simpatizo com a Lomography, com a Embaixada Lomográfica no Porto e com a lomografia em geral – apesar de não querer ser um seguidor. O que aquelas pessoas fazem é extrair prazer do acto de fotografar, tal como eu – com a diferença de eu não usar câmaras de plástico e poder, por vezes, parecer que me levo demasiado a sério. A mim e às minhas fotografias. Apesar desta diferença, a lomografia merece toda a minha estima.

Para analisarmos o fenómeno lomografia sem incorrer em injustiça ou sobranceria, temos de pôr de lado todas as concepções fotográficas a que estamos habituados. A lomografia não tem propósitos de criar obras-primas, as questões da técnica e do equipamento não são importantes, os lomógrafos não fotografam para ser reconhecidos, as regras da fotografia que conhecemos não se aplicam. É com olhos despidos de preconceito que devemos ver a lomografia. Vista assim é extremamente apelativa, embora se tenha tornado um fenómeno um pouco lifestyle demais para o meu gosto.

A Lomography não tem nada de pretensiosa, apesar de ter estado na vanguarda da defesa da fotografia convencional quando o digital tentou tomar a fotografia de assalto. Enquanto todas as marcas se voltavam para os computadores pequenos em que as câmaras se transformaram, a Lomography manteve vivos os formatos 135 e 120. Há muito mérito nisto. É até possível que, sem a Lomography, a fotografia convencional estivesse hoje extinta.

Dito isto, o material da Lomography não tem qualidade. Isto aplica-se às máquinas, mas também, como descobri ontem, aos rolos. Como sabem, experimentei um rolo Lomography Earl Grey, mais por a Embaixada Lomográfica ser a única loja de fotografia honesta aberta a um Domingo do que pela curiosidade em experimentá-lo; contudo, essa curiosidade veio mais tarde, já com aquele rolo na máquina. Foi com alguma expectativa que esperei pelas digitalizações deste rolo: afinal, foi o rolo para preto-e-branco mais barato que já comprei. Se fizesse um bom serviço, poderia ser uma escolha muito interessante.

O mínimo que posso dizer é que fiquei desiludido. Quando escrevi sobre o Kodak Ektar 100, usei uma expressão vernacular para o definir. Não vou fazer o mesmo aqui porque prometi, no início do texto, que ia tentar ser simpático, pela consideração que o movimento lomográfico me merece. Eu não diria que este é o pior rolo que já experimentei – quanto mais não fosse por causa do Ektar 100 –, mas posso dizer que o Lomography Earl Grey não se compara com o Ilford FP4, que não ficou nada ameaçado no seu 1.º Lugar do Ranking M. V. M. de Películas. Também não é melhor que os Kodak Tri-X e T-Max. É pior que os outros Ilford que usei. E é pior que o Agfa APX 100. Como, com esta enumeração, esgotei a minha lista de rolos para preto-e-branco, só resta concluir que o Lomography Earl Grey é o pior que já usei.

Ao contrário do Agfa APX 100 – que, por ser o segundo rolo mais barato que comprei até hoje, é o que melhor se presta a uma comparação –, o Lomography Earl Grey é falho em contraste e em acutância. O mesmo que dizer que as imagens que produz são planas e muito pouco nítidas. O APX 100 tem um defeito, que é uma abundância inexplicável de grão para um rolo de uma velocidade tão baixa, mas o Earl Grey parece um rolo ASA 400 exposto com a máquina regulada para 100, de tão abundante e grosseiro que o seu grão é. A sua semelhança com os rolos ASA 400 é reforçada pelo facto de todas as fotografias que fiz com este rolo terem ficado sobreexpostas, com altas luzes violentamente estouradas, mesmo quando regulei a exposição para que o ponteiro do fotómetro ficasse a meio da escala. Isto é inexplicável. Nunca me aconteceu com nenhum outro rolo. Obrigou-me a usar a edição de imagem muito para além do que considero ser o meu limite – e mesmo assim ficaram os problemas irresolúveis da falta de nitidez e do excesso de grão.

Vou voltar a ser simpático e especular que este é um rolo perfeito para as imagens lo-fi de que alguns lomógrafos gostam: é o rolo ideal para as Holga e as Lomo e para o tipo de qualidade de imagem que caracteriza a lomografia. Simplesmente, a apresentação deste Lomography Earl Grey não é para mim. Eu fui demasiado mimado pelo melhor rolo para preto-e-branco que existe à superfície da terra, o Ilford FP4 Plus 125. É o rolo que, uma vez compreendido, me dá exactamente o que quero da fotografia a preto-e-branco: contraste, acutância, limpidez (mas não tanta que desvirtue o preto-e-branco pela ausência total de grão) e latitude na exposição. O Lomography parece ter sido concebido para ser o antónimo destas qualidades. Se tivesse uma La Sardina ou uma Fisheye 2, porém, talvez este fosse o meu rolo de eleição.

M. V. M.

Episódios da semana

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Na Quinta-feira à noite fui fotografar para o centro do Porto. Como sempre faço quando fotografo à noite, levei o tripé. Armar o tripé, e recolhê-lo depois de fotografar, é profundamente fastidioso, mas não conheço outra maneira de fotografar quando os tempos de exposição vão de 1/15 a 1/1 – se a luz for favorável e não obrigar a usar o modo bulb. Por vezes ponho-me a sonhar com um tripé motorizado que estendesse e recolhesse as pernas automaticamente, ou com uma câmara (inexistente) que me permitisse fotografar à noite com 1/250 sem grão ou ruído. Subia a Travessa de Cedofeita e cruzei-me com um homem de cerca de 30 anos, com um ar amalucado – ou, se não sofresse de distúrbios psíquicos, estava pelo menos com uma bêbeda considerável. Ao ver-me, lançou a seguinte frase: «Quem tem um tripé tem tudo!» Ri-me, mas fosse o que fosse que o indivíduo queria dizer com aquilo, é uma grande verdade. Nada substitui um tripé para fotografar à noite.

Pouco depois deparei com a Casa Margaridense, ainda na Travessa de Cedofeita. Esta loja, que agora faz também as vezes de um bar trendy (até quando é que a bolha da movida portuense vai durar sem rebentar?), é belíssima, com os seus móveis de madeira típicos das lojas antigas: tudo bem organizado, com prateleiras e armários dispostos de modo funcional, um balcão lindíssimo, também de madeira, que faz os clientes sentirem-se bem acolhidos. Entrei e perguntei a uma jovem, que se entretinha com o seu notebook na parte trendy, se podia fotografar. Nenhuma objecção. Corrreu tudo bem, excepto o facto de ter sentido necessidade de uma grande-angular de distância focal inferior a 28mm. Esta aceitação do acto de fotografar no interior daquele estabelecimento leva-me a perguntar por que não pode toda a gente agir assim: ao autorizar a fotografia, estão a publicitar o estabelecimento – ainda que para um público restrito.

O mesmo tipo de pensamentos foi-me suscitado neste Sábado. Passei pela Câmaras & Companhia para deixar o Lomography Earl Grey – o que significa que vamos ter recensão muito em breve! – e comprar outro rolo. A escolha foi para o Ferrania Solaris 100, um rolo que me faz sentir uma alegria muito especial em fotografar. A força da gravidade fez-me descer até à Ribeira. Como é habitual e faz parte da paisagem, um bando de miúdos saltava para o rio aproveitando o passadiço de um dos cruzeiros do Douro (outra bolha que vai estourar se a crise económica continuar). Uma rapariga de doze ou treze anos, vestida de vermelho – o Ferrania faz-me procurar cores vivas e alegres –, estava estendida ao sol no chão de granito, num esplendor de juventude que me trouxe à memória o poema de William Wordsworth:

What though the radiance
Which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass,
Of glory in the flower,
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.

Perguntei-lhe se podia fotografá-la. A resposta foi pronta, simples e concisa: «Claro!» Depois fez um sorriso só possível quando se é uma rapariga de doze ou treze anos. E eu perguntei-me outra vez por que não pode toda a gente ser assim, simples e tão desprovida de malícia que consegue perceber quando não há malícia nos outros. Este sim, é o povo do Porto!

M. V. M.