Isto promete

https://i2.wp.com/bergger.com/media/catalog/product/cache/3/image/650x650/9df78eab33525d08d6e5fb8d27136e95/d/s/dsc00856.jpg

Este ano está a começar com muitas coisinhas boas para os aficionados da fotografia analógica. Primeiro foi a notícia do regresso da Ektachrome; e hoje fiquei também a saber que a Bergger, uma empresa francesa que está no mercado há mais de um século (apeteceu-me acrescentar «sem ninguém dar por isso», mas pode não ser verdade…), relançou a película para preto-e-branco Pancro 400 (lê-se «Pancrô catressã», carregando nos rr) nos formatos 120, 135 e em chapas 4×5, 5×7, 13×18 e 8×10. Como se diz para aquelas bandas: oh-la-la (lê-se «ô-lá-lá»). Contudo, o rolo 135 custa, se for importado directamente do website da Bergger (pelo que há que acrescentar os custos da remessa), a quantia de €6,46. O que o torna pouco competitivo quando comparado com o Ilford HP5 e, sobretudo, com o excelente Kentmere 400. (Mas, ao preço que o Tri-X está, pode ser uma boa alternativa para os adeptos da película mitológica da Kodak).

E a FILM Ferrania, na qual eu começava fundadamente a descrer, vai finalmente colocar no mercado a película preto-e-branco P30 Alpha. Que, apesar do nome, tem uma sensibilidade ASA 80. A FILM Ferrania, que, como sabem, renasceu graças a um crowdfunding – seria disparatado dizer que é uma startup – tem uma grande tradição e um orgulho muito particular no seu passado. E não sem razão, diga-se. No entanto, eu esperaria um pouco, em lugar de pernoitar à porta da loja para ser o primeiro comprador: o projecto FILM Ferrania baseou-se na recuperação de maquinarias da primitiva Ferrania e isso vê-se bem nas fotografias com que se exemplificam as qualidades do P30. Estou certo que os problemas verificados (riscos e variações no contraste) serão resolvidos, mas isto pode demorar. Seja como for, parabéns à FILM Ferrania – não apenas por relançar películas, mas também pela honestidade de não esconder os problemas dos potenciais clientes e assumir que esta película está ainda, como o nome indica, na fase alpha de desenvolvimento (segue-se o beta-testing e, depois, o produto final).

Eu não vou ser cabotino ao ponto de dizer que os dois últimos produtos não me interessam por ter decidido usar película a cores. Ambos me interessam. A julgar pelas amostras disponíveis na internet, a Bergger parece ter uma qualidade muito límpida (a despeito de ser ASA 400) e a P30 deve ser interessante, a julgar pelo contraste muito agudo que surge em algumas fotografias (embora este contraste possa ser resultado dos problemas iniciais a que aludi). Eu faço questão absoluta de experimentar ambas e vou fazê-lo quando estiverem disponíveis em Portugal.

Há mais. O que vou escrever é quase um truísmo, mas tem de ser mencionado. O facto de haver empresas a renascer e a lançar novas películas no mercado (ou novas versões de velhas películas) só pode querer dizer uma coisa – a fotografia analógica está hoje mais pujante do que há dez ou quinze anos, quando a fotografia digital se impôs no mercado. Este entusiasmo crescente não é uma coisa de velhos nostálgicos de vistas curtas que se recusam a aceitar os benefícios da fotografia digital e insistem nas suas práticas arcanas: quando vou a lojas onde se vende material para fotografia analógica, vejo que os clientes são predominantemente jovens, alguns dos quais ainda sem terem chegado aos vintes. O mesmo quando ando na rua e atento nas máquinas que as pessoas transportam consigo. É extremamente salutar ver este interesse crescente pela fotografia analógica. Egoisticamente, assegura-me que o material – especialmente as películas, evidentemente – ainda estará disponível por muitos anos, mas este interesse dos jovens significa, sobretudo, que há uma multidão que ainda leva a fotografia a sério. O que é motivo de esperança.

M. V. M.

Os meus filmes

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Título enganoso – não vou falar aqui de cinema, embora já o tenha feito (há poucos blogues de fotografia onde os leitores possam educar o seu gosto cinematográfico através do conhecimento de cineastas como Luchino Visconti, Richard Linklater e Michael Haneke). O título pretende ser uma sátira às pessoas que gostam de traduzir tudo directamente do inglês e entendem que film pode ser traduzido para filme, mas esta última é uma palavra inventada, porque film tem uma tradução em português, que é  «película». (Film não se refere especificamente à película fotográfica ou cinematográfica: também designa, por exemplo, o papel celofane ou os plásticos usados para envolver alimentos.)

Também não vou escrever sobre os meus filmes – se eu vos contasse como correu o meu último julgamento, pensariam que tinha aderido à equipa de guionistas de uma série humorística qualquer –, mas sim sobre as minhas películas. Desde que comprei a OM já experimentei vinte películas diferentes (todas de negativos): da Kodak, usei rolos de Tri-X, Portra 160, Ektar 100, Gold 200 e T-Max 100 e 400; experimentei Ilford FP4, HP5, Pan F e Delta 100 e 400 (além de um rolo Pan 400 que já atingira a idade núbil, mas cujos resultados pareceram agradar a muitos visitantes do meu Flickr); usei também Fuji (Superia 200), Fomapan 200, Ferrania Solaris, Kentmere 400, Agfa APX 100 (também usei 400, mas os resultados foram inconclusivos) e agora outro rolo Agfa, este a cores, que é o Vista 400. Além da ovelha negra chamada Lomography Earl Grey, que foi a pior que experimentei. Foram muitos rolos. Apesar de ainda me faltar experimentar outros tantos – vários da Fuji, todos da Rollei e da Adox e algumas variedades das marcas que mencionei anteriormente –, penso que já posso elaborar algumas conclusões.

A primeira é que o preto-e-branco é a minha linguagem. Já escrevi aqui, ainda há bem pouco tempo, que fotografar a cores é difícil pelas exigências de harmonia da cor. Devo acrescentar outra dificuldade: a de encontrar motivos em que a cor, mais que as formas, seja o elemento gráfico preponderante. Convenhamos que o Porto é uma cidade um bocado granítica e monocromática (e eu não tenho particular gosto em fotografar graffiti). O preto-e-branco favorece as formas e as linhas, pelo que se adequa melhor às minhas opções estéticas. Daí que tenha adquirido muitos mais rolos de preto-e-branco que de cores. Por regra, demoro muito mais a expor rolos a cores, o que é revelador quanto às dificuldades com que me deparo. Isto não quer dizer que tenha desistido da cor, mas seguramente significa que estabeleci uma preferência.

E, já que me refiro a preferências, quais são os rolos que mais me satisfazem? Para o preto-e-branco, a resposta é mais ou menos óbvia: o FP4 é aquele ao qual volto sempre. Já expus trinta e seis rolos desta película. Gosto do seu contraste e da nitidez incrível, mas exige algumas precauções, como expor sistematicamente para as altas luzes de maneira a evitar a sobreexposição.

O que me leva a outra conclusão: eu gosto de películas lentas. Comigo a fotografia em lugares pouco iluminados é uma excepção, não a regra. Além de não apreciar aberturas demasiado estreitas: não sou um tarado do bokeh (eu gostava de cremar in vivo a criatura que se lembrou de importar esta palavra para o Ocidente), mas um bocadinho de desfoque de vez em quando não faz mal nenhum. As películas de alta velocidade (ou sensibilidade, se preferirem) obrigam-me a fotografar com f/11 sempre que aparece um raio de sol. Contudo, nas diversas ocasiões em que um rolo ISO 400 é útil, demorei a decidir qual preferia: o Tri-X? O HP5? Sob reserva de fazer mais algumas experiências, penso ter encontrado uma película que poderia usar sempre que quiser fotografar em estações do metro: a Kentmere 400. Contudo, devo também dizer que foi agradável experimentar películas ASA 200. Usei duas: Fomapan 200 e Kodak Gold 200. É uma sensibilidade muito versátil e agradável de usar. Não compreendo por que razão a Ilford não fabrica películas ISO 200.

Quanto à cor, remeto para o texto em que me refiro às dificuldades suplementares que as películas implicam. Apesar de a minha preferência não ir para a fotografia a cores, não posso negar que me diverti com os rolos Ferrania e que fiquei surpreendido com o desempenho do Kodak Gold 200. Os outros são demasiado dependentes das condições de luz. Curiosamente, a película que estou correntemente a usar é a primeira de alta velocidade que uso. (Depois digo-vos das minhas impressões.)

A maior surpresa da minha experiência com películas, porém, é a resolução do pormenor que algumas possibilitam. Claro que as lentes Olympus OM, em particular a grande-angular, contribuem para esta resolução, mas as películas desempenham um papel importante. Descobrir isto foi uma surpresa, mas há uma explicação: a fotografia no formato 135 precisa de toda a resolução de que for capaz para que não se perca demasiada nitidez nas ampliações. As minhas fotografias são, com a excepção daquelas em que falhei a focagem, inacreditavelmente nítidas. Esta, como referi, foi uma grande surpresa. Só comparável ao prazer que se extrai de fotografar com uma máquina analógica, mas estas são contas de outro rosário.

M. V. M.

O Kentmere 400

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Os que têm boa memória – ou paciência para reter na memória as coisas que escrevo no Número f/ – lembrar-se-ão decerto que prometi deixar aqui escrita a minha opinião sobre uma película a preto-e-branco de uma marca denominada Kentmere, mais concretamente o Kentmere 400 (não é impossível que se lembrem dos meus sarcasmos quanto à pedanteria deste nome).

Pois bem, aqui está. Cortando a eito, e estragando todo o suspense que poderia manter o interesse intacto até ao fim, tenho de dizer que o Kentmere 400 é excelente. Os únicos rivais que lhe conheço são o Tri-X e o Ilford HP5, os quais são consideravelmente mais caros. Este rolo é mais da estirpe dos Fomapan e Agfa do que dos dois primeiros, mas tem características que o irmanam com o Kodak e o Ilford. É uma película que resolve muito bem os pormenores subtis e que assinala todos os quadradinhos correctos com uma cruz bem entusiástica. Contraste? Sim. Muito, mesmo em circunstâncias de luz intensa que não favorecem as películas ASA 400. Nitidez? Sem dúvida. Quase ao nível do HP5, que é a referência. Gama dinâmica? As sombras são um pouco carregadas – o que o torna semelhante ao Fomapan –, mas as altas luzes raramente estouraram nas fotografias que fiz. Melhor: apesar de eu expor sistematicamente para as altas luzes, fiz muitas fotografias (deliberadamente) em condições que obrigaram a usar exposições que facilmente poderiam fazer com que as altas luzes estourassem. Pois bem, isto nunca aconteceu – mesmo em circunstâncias tão extremas como a iluminação de estações do metro. O que é notável.

Dizer que estou entusiasmado com o que fiz usando este rolo é dizer pouco. Tinha esperanças muito modestas, mas o Kentmere 400 é muito bom. Tão bom que estou, neste momento, a considerar se este não deve ser o meu favorito para fotografar com sensibilidade elevada. Como sabem, há uma falta generalizada de Tri-X e o HP5 é um rolo cujo grão nunca me entusiasmou: é abundante e grosseiro, mas raramente contribui para dar atmosfera às fotografias.

Chegamos assim ao que melhor define o Kentmere – mais que a nitidez, o contraste ou a gama dinâmica –: o grão. O grão do Kentmere 400 é abundante – muito abundante. Mais do que o do Ilford HP5 e muitíssimo mais que o Tri-X. Simplesmente, este é um grão que contribui para a estética da fotografia. Dá-lhe atmosfera, dá-lhe estado de espírito. E fá-lo sem destruir os motivos, o que é assinalável. As fotografias adquirem um ambiente muito noir, se for caso disso, mas é impossível que o grão destrua a subtileza das linhas como acontece com os Lomography.

O Kentmere 400 não é o melhor rolo para preto-e-branco de sensibilidade ASA 400. Esta distinção pertence ao Kodak Tri-X. Contudo, em relação a este, o que o Kentmere perde em requinte recupera em expressão. Este não é o tipo de grão com que os adeptos do lo-fi sonham, mas é um grão que atinge um equilíbrio único: mesmo se não tem a discrição do grão do Tri-X, o do Kentmere ajuda a obter certos resultados. É o tipo de grão, por exemplo, que favorece a expressividade em retratos. Por oposição, o Ilford HP5 tem um grão que se coloca numa posição antagónica em relação às qualidades desta película, fazendo com que seja percebido nas imagens como uma aberração. (O grão é uma aberração da imagem, mas pode ser usada em seu favor; o problema é que o grão do Ilford HP5 faz com que as pessoas retratadas pareçam ter varicela.)

Se o leitor ficou com a impressão de que gostei muito do Kentmere 400, acertou em cheio. De facto, fiquei muito bem impressionado com ele. Pertencendo a Kentmere à mesma Harman Technology que detém a Ilford, provavelmente não é surpresa nenhuma que apresente algumas qualidades, embora não seja nem de perto nem de longe um HP5 revisto para ser vendido mais barato. O Kentmere 400 tem um aspecto muito distinto, com muito carácter e umas altas luzes que são de chorar por mais. Não tem a acutância do HP5 nem a versatilidade que fez do Tri-X o favorito dos fotojornalistas, mas o que tem é um grão que resulta bem: se o fotógrafo tiver destreza e imaginação, pode usar este grão com resultados que o Tri-X e o HP5 não atingem por serem demasiado bons. O Kentmere é inferior em qualidade? Talvez. Mas é expressivo e nem por isso é desprovido dos atributos que constroem o conceito de qualidade de imagem.

M. V. M.

Três anos

Foi no dia 12 de Junho de 2013 que comprei a Olympus OM-2n, uma máquina fotográfica que gasta rolos de película. Por esta altura já toda a gente sabe que fotografo praticamente em exclusivo com ela. Já me cansei de escrever aqui sobre isto e, reciprocamente, o leitor já se cansou de lê-lo, mas quando penso nas razões por que uso este meio por muitos considerado anacrónico, por vezes surgem-me perguntas às quais tenho dificuldade em responder.

A fotografia analógica só a espaços pode ser considerada melhor que a digital. Não é tão versátil, é tudo menos prática e alguns equiparam a qualidade que o formato 135 tinha a oferecer, na sua época de ouro, com a que se pode conseguir hoje com um iPhone (o que é discutível, evidentemente, mas não anda assim tão longe da verdade). Neste caso, por que insisto? Afinal de contas, tinha uma câmara digital que, aliada a um programa de edição de imagem quase perfeito, me dava resultados mais que satisfatórios. Por que é esta última que uso apenas de vez em quando, e não a outra? E por que troquei a comodidade de ver os resultados imediatamente por esperas de vários dias?

A resposta concentra-se numa única palavra: prazer. Na verdade, factores como ser obrigado a ser comedido no número de fotografias (e, por esta via, ser mais selectivo), ou ser forçado a dominar a técnica, já não contam; contaram nos primeiros tempos, mas agora o que sobreleva é o prazer de fotografar com a OM-2. Não por ser a OM-2, mas por ser uma máquina fotográfica analógica e uma SLR. Há qualquer coisa de exultante em fotografar com uma máquina como esta: a claridade do visor, a facilidade em focar, a acção mecânica e o som do disparo, com a vibração do obturador e do espelho a darem expressão corpórea ao gesto de fotografar, e o accionamento do avanço do rolo concorrem para que usar a OM-2 seja um prazer. Aliás, já nem concebo fotografar sem usar um visor e sem accionar a alavanca do avanço do rolo. Ambos me parecem essenciais e indissociáveis do acto de fotografar.

Depois há as lentes. Embora não tenham a mesma reputação que as Nikon, Zeiss e Leica, as lentes Zuiko para o sistema OM são maravilhosas. Têm toda a nitidez que se pode esperar de boas lentes, são comedidas nas distorções e aberrações e, acima de tudo, funcionam bem depois de todo este tempo. Sobretudo, constituem um sistema completo que abrange as distâncias focais mais importantes, o que é algo que não tinha com a câmara digital.

Nem sequer posso dizer que fico mal servido em matéria de qualidade de imagem. As fotografias podem ser menores em tamanho, mas não perdem nada em nitidez. Isto é o que facilmente descobre quem usa máquinas analógicas e rolos de qualidade. No meu caso, encontrei uma película que me satisfaz por completo; com ela, as minhas fotografias têm toda a nitidez e contraste que espero delas. E sem ter de recorrer à edição de imagem, a qual uso apenas esparsamente.

Usar película é uma experiência que vivo apenas pela metade. Escapa-me uma parte substancial do processo, que é a revelação. Em lugar de a dominar (o que seria materialmente impossível, por diversas razões), entrego-a a outrem. Tive a sorte de a falta de qualidade dos serviços que experimentei com os meus primeiros rolos me ter empurrado para a Câmaras & Companhia, onde as mãos experientes do Raúl Sá Dantas fazem maravilhas. Estes três anos são também a história de uma aproximação com o Raúl e a Leonor que ultrapassa em muito a mera relação entre cliente e fornecedor. O que aprendi com eles é simplesmente inestimável, mas são também pessoas excelentes que me orgulho de conhecer.

Estes três anos com uma máquina analógica serviram para me ajudar a definir um estilo, mas sobretudo para dar às minhas fotografias um cunho próprio. Agora procuro que as fotografias exprimam as minhas concepções gráficas, em lugar de simplesmente mostrar coisas ou fazer fotografias iguais às de outras pessoas. Procuro, em especial, que as minhas fotografias vivam da luz e da maneira como ela incide sobre os motivos que escolho. É possível que tivesse feito as mesmas escolhas se fotografasse com uma câmara digital, mas os rolos fazem isto melhor. Só há uma câmara digital – a Leica M Monochrom – capaz de reproduzir as altas luzes como o Kodak Tri-X e, sobretudo, os Ilford, mas essa câmara é caríssima.

Não sei quanto tempo isto vai durar. Se for um daqueles ressurgimentos como o do vinil, poderei continuar com esta maluquice de expor rolos por mais uma ou duas décadas. O que é bom.

M. V. M.

Mais sobre a guerra entre o analógico e o digital

Eu ainda não me decidi completamente acerca da luta entre os domínios analógico e digital. Embora tenha aderido quase incondicionalmente ao primeiro, não consigo dizer que o outro é destituído de mérito.

Há um aspecto em que, na minha modesta opinião, a fotografia analógica continua a ser a melhor: é mais autêntica. E fotografar com película confere a quem o faz uma impressão de dificuldade e valor que leva a ponderar melhor o interesse de cada fotografia, mas quando o tema é a qualidade de imagem de cada um dos domínios, a resposta é mais difícil.

Para dizer a verdade, a fotografia digital já ultrapassou a grande limitação que o formato 135 tem: o tamanho das imagens. Ver um negativo digitalizado em tamanhos superiores a 1500x1000px já mostra alguns limites, e as ampliações perdem nitidez em tamanhos maiores que 20×16 cm. Com os formatos médio e grande a história é outra, evidentemente, mas mesmo aqui o digital está a ganhar terreno.

Hoje recebi duas opiniões contraditórias que não me ajudaram em nada nas minhas decisões. Um fotógrafo profissional reformado assegurou-me que é uma asneira fotografar com película colorida. Esta opinião condiz com o que eu penso, mas apenas pelo facto de as películas a cores serem equilibradas para um único tipo de condições de luz: um rolo equilibrado para as sombras dá cores berrantes debaixo de luz solar e, inversamente, um outro equilibrado para luz solar dá péssimos resultados na fotografia nocturna. Mas, no mesmo dia, dizem-me outra coisa que também confirmei ser verdade: a película 135 tem uma gama dinâmica com a qual nem o melhor sensor do mundo pode sequer sonhar. É muito simples: com película 135, as altas luzes nunca estouram e as sombras nunca ficam enegrecidas. Com película 135 a cores pode abusar-se da exposição em 4 EV’s, ao passo que, na fotografia digital, mesmo com a exposição correcta as altas luzes podem estourar.

Contudo, continua a ser verdade que o equilíbrio das cores é uma vantagem da fotografia digital que faz a balança pender para esse lado. Quer isto dizer que o digital já ganhou a guerra? Há um último reduto, que é a fotografia a preto e branco. Não há nenhum programa de edição de imagem e nenhuma app que consiga o aspecto de uma fotografia feita com Kodak Tri-X, ou com Ilford FP4 e HP5. É impossível converter um ficheiro Raw de tal maneira que a imagem se assemelhe às fotografias feitas com essas películas. As altas luzes, em particular, são impossíveis de imitar por meios digitais. Não há nenhuma conversão que consiga reproduzir a beleza das altas luzes de um Ilford FP4.

Hoje mesmo, porém, tive oportunidade de confirmar aquilo que, pelo que tinha visto anteriormente, já suspeitava. Há uma câmara digital capaz de fotografias que têm o look das melhores películas, mesmo na descrição das altas luzes. Como foi isto possível? Repararam que, quando aludi à impossibilidade de reproduzir o aspecto tonal da película por meios digitais, me referi às conversões. Os ficheiros Raw ou DNG produzidos pelos sensores normais são a cores. As fotografias a preto e branco são obtidas convertendo os ficheiros em escalas de cinzentos ou retirando a saturação das cores (o que não dá bons resultados e, de resto, faz com que a imagem seja sempre RGB e não um preto e branco puro). Contudo, o que vi hoje foi o output de um sensor monocromático: um sensor ao qual foram retiradas as camadas RGB, produzindo imagens que são preto e branco puro. As imagens que vi hoje num monitor de altíssima qualidade são impossíveis de distinguir de digitalizações de negativos de médio formato.

A câmara que tem este sensor nas entranhas é a única que me levaria a voltar ao domínio digital. Infelizmente, é demasiado cara para as minhas posses. Creio que, se usar rolos até ao último dos meus dias, não gastarei tanto quanto essa câmara custa – até porque esta última precisa de lentes que custam quase tanto como o corpo.

Imagem: Wikipedia Commons

Essa câmara é a Leica M Monochrom. Representa o melhor dos dois mundos. Só não escrevo aqui que é a maior ameaça à fotografia analógica porque o seu preço torna-a proibitiva para o comum mortal. O que posso escrever é que esta é a única câmara digital capaz de produzir imagens tão boas como as que é possível obter com as melhores películas. E isto, meus amigos, é um feito memorável.

M. V. M.

Isto não é uma guerra

Linn_Sondek_LP12_LargeOs apologistas do progresso clamam que a evolução remeteu o vinil e a película para a obsolescência e os condenou à extinção, fazendo analogias com comboios a vapor e navios veleiros; os indefectíveis que, acompanhando ou não a evolução (porque nem todos os amantes do vinil e da película vivem amarrados ao passado), preferem os meios considerados antigos, defendem-se dos ataques – sim, porque para muitos isto é uma guerra – com argumentos que nem sempre são convincentes. Mas há também os que conseguem ver as coisas com um pouco mais de clareza e rejeitam a ideia de que se tem de estar de um lado ou do outro.

Eu estou mais perto destes últimos. Vi claramente as vantagens e os inconvenientes de cada um dos meios e fiz opções de acordo com esse conhecimento. Começando pela reprodução musical, posso dizer que nada substitui a satisfação que retiro de ouvir música gravada em vinil: o som é mais dinâmico, mais enérgico, e há uma melhor individualização das notas. Em comparação, o som dos formatos digitais é plano, por ser severamente limitado nas dinâmicas (especialmente a dos graves). Daí que, embora tenha acumulado um número considerável de CD’s, tenha agora mais LP’s – mesmo sem contar com os que tinha antes de aderir ao CD. Compro vinis porque me dá mais prazer ouvi-los. No entanto, não deitei o meu leitor de CD ao lixo: o CD é muito mais prático para a música clássica. Além de haver poucas edições novas de música clássica em vinil (a não ser nas etiquetas «audiófilas»), uma sinfonia desfruta-se melhor se for ouvida de uma vez do que se tiver de me levantar para virar o disco no final de cada andamento. O som não é tão dinâmico, mas é um compromisso aceitável.

Se o som do vinil é, do meu ponto de vista e em termos bastante genéricos, consideravelmente melhor que o digital, a película é mais uma profissão de fé que outra coisa. A fotografia digital há muito ultrapassou o padrão de qualidade do rolo 135 e só o médio formato continua, por enquanto, a resistir à evolução da fotografia digital. Não é uma questão de qualidade em si, porque a película 135 não é falha em aspectos como a nitidez ou o contraste: é, sobretudo, um problema de tamanho. Com um negativo 135, até onde se podia ir na ampliação foi um problema que nunca foi resolvido satisfatoriamente; os profissionais tinham de recorrer ao médio formato para fazer grandes ampliações, deixando o 135 para as fotos de família e as destinadas à imprensa, que raramente eram ampliadas para além do tamanho 15×10. De um modo geral, pode dizer-se que 24×18 (centímetros) é o limite máximo até ao qual um negativo 135 pode ser ampliado – e só se for usada uma boa lente, com muita nitidez, um rolo com muita acutância e um ampliador com uma lente também ela de alta qualidade. A partir desse tamanho a nitidez é severamente prejudicada.

Há mais. Até agora, ainda estou para encontrar uma película a cores que me deixe inteiramente satisfeito. O Kodak Portra só pode ser usado em condições de luz ideais; o Ektar 100 só dá bons resultados com pouca luz; o Ferrania Solaris e o Kodak Gold 200 são por vezes demasiado garridos para o meu gosto. Nas poucas ocasiões em que sinto vontade ou necessidade de fotografar a cores, prefiro recorrer à câmara digital a comprar um rolo (embora ainda me falte experimentar os Fuji 160NS e 400H, que são excelentes – ao que se diz – mas muito caros).

a01Mas há dois factores que me fizeram optar por fotografar com película. O primeiro é as limitações da minha câmara digital. Com esta, posso fazer impressões em grandes tamanhos, mas não tenho, pelo menos com as lentes que comprei especificamente para esta câmara, a nitidez que consigo com a OM e os rolos Ilford. Embora a nitidez nem sempre seja o mais importante, é decisiva nas minhas escolhas. Isto deve soar estranhíssimo aos ouvidos de um digitalista militante, mas é verdade. Para obter uma boa nitidez com a câmara digital, tenho de recorrer às lentes da OM – e mesmo assim os resultados não são melhores do que os que tenho com película.

O outro factor é eu não conseguir, por muitas horas que perca às voltas com o programa de edição de imagem, reproduzir por via digital a estética que procuro para as fotografias a preto-e-branco. Com os rolos – especialmente os Ilford, mas também com o Tri-X – consigo esse look imediatamente, sem recorrer à edição de imagem; com as fotografias digitais posso chegar perto, mas nunca é exactamente a mesma coisa. Há sempre algo que denuncia a natureza digital da imagem.

O que quero dizer com este texto é que não existe, para mim, uma trincheira a separar os domínios analógico e digital. Esta não é nenhuma guerra e, mesmo se fosse, nenhuma das partes teria a supremacia absoluta sobre a outra. A fotografia digital pode não ter ainda suplantado a analógica – e, no que se refere à estética única da película a preto-e-branco, nunca a suplantará –, mas quantas fotografias «analógicas» conheceríamos hoje se não fosse a digitalização?

M. V. M.

Da validade do conhecimento apriorístico

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Todo o conhecimento científico necessita de ser validado pela experimentação; se não se materializar através da experiência, nunca será explicação nem modo de proceder: será meramente especulação.

A experiência, por si só, de pouco vale: o empirismo é por natureza casuístico e, como tanto, incapaz de estabelecer regras universais. Contudo, a experiência tem o papel importante de comprovar o conhecimento teórico.

Ainda não basta. Para que o conhecimento possa erigir-se em lei (no sentido normativo, não no jurídico, que hoje não é aqui chamado), é necessário que a experiência seja repetível e os resultados sejam consistentes.

Antes que pensem que reabri um compêndio de Filosofia do 12.º Ano de Escolaridade, deixem-me esclarecer que isto tem tudo que ver com fotografia. Mais concretamente com algo que jurei a mim mesmo nunca experimentar, mas que, por um conjunto de circunstâncias fortuitas, acabei por fazer: expus um rolo expirado.

Todo o meu conhecimento acerca dos rolos expirados era apriorístico: isto é, existia sem experimentação. O que, usando uma linguagem mais terrena, significava que falava do que não sabia – ou melhor: do que pensava que não sabia, mas que, curiosamente, se revelou verdadeiro, apesar de algumas dúvidas. Sabia, por exemplo, que o decurso do tempo diminui a sensibilidade da película. Sabia-o por ter lido algures, não por ter conhecimento através da minha experiência. Não podia, deste modo, afirmar que essa asserção era verdadeira (é uma regra elementar de bom senso não falar daquilo que não se tem a certeza, nem fazer afirmações que não se podem provar).

Pois bem: cortando a eito, posso dizer que é verdade. Os rolos a preto-e-branco expirados comportam-se como se tivessem um ou dois EV de sensibilidade a menos. Um rolo 400 ASA expirado comporta-se como se fosse um rolo 200 ou 100 ASA, consoante seja mais ou menos antigo. O que significa, evidentemente, que necessita de tempos de exposição duas ou quatro vezes mais longos do que um rolo 400 ASA normal (i. e. não expirado).

A minha experiência foi com um Ilford Pan 400 que deveria ser exposto antes de Julho de 2000. Era, portanto, um rolo com idade para se emancipar pelo casamento. Quando vi as digitalizações, fiquei horrorizado com a quantidade de grão. Eu sabia – desta vez por experiência própria – que os Ilford de velocidade ASA elevada são muito granulosos, mas este é um grão verdadeiramente deletério que destrói os contornos finos dos objectos, tal como o ruído digital quando é muito exacerbado. Além disto, as imagens estavam, na sua maioria, claramente subexpostas.

O grão e a subexposição estão relacionados. O grão não é mais que cristais de prata que não foram convenientemente expostos à luz. Deste modo, faz todo o sentido inferir que as películas expiradas perdem sensibilidade. (Refiro-me apenas às películas para preto-e-branco; as coloridas colocam problemas ainda mais sérios por causa da deterioração das gelatinas RGB.) Curiosamente, algumas imagens, feitas sob luz mais favorável, têm um aspecto aceitável – mas esta impressão só dura até as aumentarmos e visualizarmos as áreas de sombras.

Apesar de me faltar o elemento da repetibilidade para confirmar por completo as minhas conclusões, penso que não voltarei a usar rolos expirados. Eles não me dão o tipo de qualidade que pretendo das minhas fotografias. Eu suporto o grão do Ilford HP5 e do Kodak Tri-X (e gosto, pelo menos em algumas imagens, do seu aspecto distinto), mas o que vi nestas digitalizações do Pan 400 é simplesmente repulsivo: é como se tivesse fotografado com uma compacta digital com ISO 800 e tivesse convertido as imagens para preto-e-branco.

Decerto os resultados teriam sido melhores se tivesse aumentado os tempos de exposição, mas suspeito que a própria qualidade do grão é afectada pela passagem do tempo. Prefiro não tentar. Mesmo se os rolos expirados são baratos, a revelação e a digitalização não o são. E pagar a digitalização e revelação de rolos cujas fotografias se mostrarão insatisfatórias seria, no mínimo, uma estupidez.

Não usem rolos expirados. Se tiverem mesmo de fazê-lo (por exemplo, por terem grandes quantidades de película guardada para além da data até à qual devia ser usada), multipliquem o tempo de exposição por dois ou por quatro, mas o que é mesmo boa ideia é usar rolos novos. Evitem cair na armadilha de pensar que poupam dinheiro ao comprar rolos expirados: mais vale fazer menos fotografias, expondo rolos novos de forma conscienciosa, do que tirar milhares de fotografias que apenas vão embaraçar-vos pela falta de qualidade. Se querem mesmo fazer milhares de fotografias por dia, é mais inteligente fotografar com uma câmara digital. Mesmo se é o próprio leitor quem revela e digitaliza os rolos, é uma estultícia perder tempo com algo que nem sequer tem virtudes estéticas que possam caracterizá-lo como um estilo.

A experiência limitou-se a comprovar o que eu já sabia: os rolos expirados são uma ilusão e uma perda de tempo. Contudo, teve a utilidade de me mostrar a extensão e alcance destes postulados. Por outras palavras, ainda foi pior do que eu pensava. Esqueçam os rolos expirados.

M. V. M.