Os meus filmes

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Título enganoso – não vou falar aqui de cinema, embora já o tenha feito (há poucos blogues de fotografia onde os leitores possam educar o seu gosto cinematográfico através do conhecimento de cineastas como Luchino Visconti, Richard Linklater e Michael Haneke). O título pretende ser uma sátira às pessoas que gostam de traduzir tudo directamente do inglês e entendem que film pode ser traduzido para filme, mas esta última é uma palavra inventada, porque film tem uma tradução em português, que é  «película». (Film não se refere especificamente à película fotográfica ou cinematográfica: também designa, por exemplo, o papel celofane ou os plásticos usados para envolver alimentos.)

Também não vou escrever sobre os meus filmes – se eu vos contasse como correu o meu último julgamento, pensariam que tinha aderido à equipa de guionistas de uma série humorística qualquer –, mas sim sobre as minhas películas. Desde que comprei a OM já experimentei vinte películas diferentes (todas de negativos): da Kodak, usei rolos de Tri-X, Portra 160, Ektar 100, Gold 200 e T-Max 100 e 400; experimentei Ilford FP4, HP5, Pan F e Delta 100 e 400 (além de um rolo Pan 400 que já atingira a idade núbil, mas cujos resultados pareceram agradar a muitos visitantes do meu Flickr); usei também Fuji (Superia 200), Fomapan 200, Ferrania Solaris, Kentmere 400, Agfa APX 100 (também usei 400, mas os resultados foram inconclusivos) e agora outro rolo Agfa, este a cores, que é o Vista 400. Além da ovelha negra chamada Lomography Earl Grey, que foi a pior que experimentei. Foram muitos rolos. Apesar de ainda me faltar experimentar outros tantos – vários da Fuji, todos da Rollei e da Adox e algumas variedades das marcas que mencionei anteriormente –, penso que já posso elaborar algumas conclusões.

A primeira é que o preto-e-branco é a minha linguagem. Já escrevi aqui, ainda há bem pouco tempo, que fotografar a cores é difícil pelas exigências de harmonia da cor. Devo acrescentar outra dificuldade: a de encontrar motivos em que a cor, mais que as formas, seja o elemento gráfico preponderante. Convenhamos que o Porto é uma cidade um bocado granítica e monocromática (e eu não tenho particular gosto em fotografar graffiti). O preto-e-branco favorece as formas e as linhas, pelo que se adequa melhor às minhas opções estéticas. Daí que tenha adquirido muitos mais rolos de preto-e-branco que de cores. Por regra, demoro muito mais a expor rolos a cores, o que é revelador quanto às dificuldades com que me deparo. Isto não quer dizer que tenha desistido da cor, mas seguramente significa que estabeleci uma preferência.

E, já que me refiro a preferências, quais são os rolos que mais me satisfazem? Para o preto-e-branco, a resposta é mais ou menos óbvia: o FP4 é aquele ao qual volto sempre. Já expus trinta e seis rolos desta película. Gosto do seu contraste e da nitidez incrível, mas exige algumas precauções, como expor sistematicamente para as altas luzes de maneira a evitar a sobreexposição.

O que me leva a outra conclusão: eu gosto de películas lentas. Comigo a fotografia em lugares pouco iluminados é uma excepção, não a regra. Além de não apreciar aberturas demasiado estreitas: não sou um tarado do bokeh (eu gostava de cremar in vivo a criatura que se lembrou de importar esta palavra para o Ocidente), mas um bocadinho de desfoque de vez em quando não faz mal nenhum. As películas de alta velocidade (ou sensibilidade, se preferirem) obrigam-me a fotografar com f/11 sempre que aparece um raio de sol. Contudo, nas diversas ocasiões em que um rolo ISO 400 é útil, demorei a decidir qual preferia: o Tri-X? O HP5? Sob reserva de fazer mais algumas experiências, penso ter encontrado uma película que poderia usar sempre que quiser fotografar em estações do metro: a Kentmere 400. Contudo, devo também dizer que foi agradável experimentar películas ASA 200. Usei duas: Fomapan 200 e Kodak Gold 200. É uma sensibilidade muito versátil e agradável de usar. Não compreendo por que razão a Ilford não fabrica películas ISO 200.

Quanto à cor, remeto para o texto em que me refiro às dificuldades suplementares que as películas implicam. Apesar de a minha preferência não ir para a fotografia a cores, não posso negar que me diverti com os rolos Ferrania e que fiquei surpreendido com o desempenho do Kodak Gold 200. Os outros são demasiado dependentes das condições de luz. Curiosamente, a película que estou correntemente a usar é a primeira de alta velocidade que uso. (Depois digo-vos das minhas impressões.)

A maior surpresa da minha experiência com películas, porém, é a resolução do pormenor que algumas possibilitam. Claro que as lentes Olympus OM, em particular a grande-angular, contribuem para esta resolução, mas as películas desempenham um papel importante. Descobrir isto foi uma surpresa, mas há uma explicação: a fotografia no formato 135 precisa de toda a resolução de que for capaz para que não se perca demasiada nitidez nas ampliações. As minhas fotografias são, com a excepção daquelas em que falhei a focagem, inacreditavelmente nítidas. Esta, como referi, foi uma grande surpresa. Só comparável ao prazer que se extrai de fotografar com uma máquina analógica, mas estas são contas de outro rosário.

M. V. M.

Ambivalente


Peço desculpa por voltar a escrever sobre películas, assunto que preocupa aproximadamente 0,0000000001% da população mundial, mas fui motivado por uma fotografia que fiz em Maio (podem vê-la aqui) e que me fez aperceber-me de como um particular rolo funciona.

A minha relação com o Ilford HP5 é extremamente ambivalente: nos aspectos principais de contraste e nitidez, as suas diferenças em relação ao FP4 são pouco discerníveis – o que é excelente numa película com uma sensibilidade ASA 400, que é considerada alta pelos padrões peliculares. Nestes particulares, o HP5 é superior ao Tri-X da Kodak – embora aceite que, para muitos, tanta nitidez possa ser excessiva. Seja como for, estas características (que são comuns a todos os Ilford que experimentei) adequam-se bem à minha forma de fotografar.

Nunca pude, porém, estabelecer o HP5 como o meu favorito para velocidades altas. Esta película tem demasiado grão, mas não é bem a quantidade que me preocupa: o Tri-X também tem muito grão. O que me impede de usar o HP5 regularmente é o facto de este grão ser demasiado grosseiro. Voltando à comparação com o Tri-X (que é inevitável, por razões óbvias), o grão do Kodak é abundante, mas mais fino. Usar o Tri-X significa conseguir um grão que contribui para a imagem; o Ilford, por vezes, torna-se destrutivo. Não tanto como o ruído numa má imagem digital, mas quase.

(A este propósito, posso recordar que foi há pouco tempo que acordei para a triste realidade de que o formato 135 é de uma qualidade que deixa muito a desejar. O que leio sobre o HP5 para médio formato – i. e. em rolos 120 – é geralmente muito favorável, porque nestas películas o grão não é um problema sério – ou, pelo menos, tão sério como nos rolos 135).

Contudo, há um número de fotografias em que o grão do Ilford HP5 resulta muito bem: contribui para as texturas e para aquilo a que se convencionou chamar o carácter de uma fotografia analógica: as fotografias feitas com este rolo não deixam dúvidas quanto ao meio empregado: são gloriosamente analógicas. Com ventos e marés favoráveis, até pode acontecer que o grão do HP5 não seja visível de todo e não interfira na apreciação da imagem. Nestas fotografias, o HP5 é simplesmente esplêndido: o seu contraste parece mais o de uma película de baixa velocidade que o de uma ASA 400 e a sua nitidez é simplesmente soberba.

A fotografia para a qual estabeleci a ligação (se a tiverem passado, podem abri-la aqui) é uma excepção. A textura favorece as características de grão e o próprio motivo parece beneficiar da maneira como o HP5 descreve a imagem. Foi um caso de ter o rolo certo para a fotografia certa. Há outras fotografias que beneficiam do HP5, mas há também muitas outras a que este rolo não presta nenhum favor: todas as que tenham rostos, desde logo. Há fotografias em que o grão é tão grosseiro que as pessoas parecem ter sarampo. E, de maneira geral, aquelas em que interessa preservar o pormenor.

Bastará isto para o usar sempre que quiser fotografar com pouca luz? É aqui que começa a minha ambivalência: o Tri-X nunca foi um rolo que me satisfizesse por completo e os rolos de grão tabular que experimentei – Ilford Delta 400 e Kodak T-Max 400 – não me entusiasmaram muito (embora o Delta 400 tenha, no essencial, as qualidades típicas dos Ilford). O HP5 dá-me algo que nenhuma das películas que enumerei é capaz: expressividade. Se a intenção for fazer fotografias deliberadamente granulosas – cheias de «carácter» analógico – sem resvalar para a frivolidade do lo-fi, este é o rolo ideal.

Se isto basta ou não para que o use regularmente é o que ainda me falta decidir. O ideal seria uma película que conjugasse o grão subtil do Tri-X com a nitidez e o contraste do HP5. Hélas, essa película não existe. O Tri-X seria a escolha óbvia se eu tivesse uma Leica ou uma Nikon, com a nitidez fora de série das suas lentes, mas não tenho. Com o meu material, obtenho melhores fotografias usando os Ilford. Aparentemente, a minha busca ainda não terminou…

M. V. M.

Ranking actualizado

Raparigas manifestando a sua felicidade por serem fotografadas com um Ilford HP5
Raparigas manifestando a sua felicidade por serem fotografadas com um Ilford HP5

Não me apetece experimentar mais rolos. Apenas quero usar mais um rolo que ainda não experimentei, que é o Fujifilm 400H (ou o 160NS, caso alguma vez consiga encontrá-lo). É um rolo extremamente caro, mas se me der as cores dos rolos de slide da Fujifilm, pode valer a pena.

Quanto aos preto-e-branco, a minha preferência continua idêntica. O FP4 é a película a que regresso sempre. Para sensibilidades altas a confusão é ainda substancial: o Tri-X é um belíssimo rolo, tal como o Delta 400, mas tenho vindo, depois de uma má impressão inicial, a apreciar cada vez mais o HP5. Tem muito grão, mas este dá textura e expressão às fotografias. Não é ideal para retratos, mas as suas características de contraste levam a que o considere o melhor rolo ASA 400.

Os mais atentos vão reparar, ao ler o meu ranking actualizado, que os Ilford ocupam seis dos sete primeiros lugares, incluindo os dois primeiros. Pois é – nada a fazer. São os melhores. Pelo menos para as minhas fotografias. Podem começar a chamar-me «Mr. Ilford». Ou Señor Ilford. Monsieur Ilford. Herr Ilford. Ilford-san. A minha fidelidade aos Ilford só é superada por aquela que os cães dedicam aos seus donos.

Penso, deste modo, que posso viver muito feliz apenas usando dois rolos para preto-e-branco: o FP4 por defeito e o HP5 quando me apetecer fotografar com pouca luz. Vai ser assim porque não suporto ter de fotografar com aberturas f/11 e f/16 sempre que o sol brilha um pouco mais, o que me impede em absoluto de usar rolos de velocidade alta com regularidade. E o FP4, embora não me dê o contraste do Pan F, é mais versátil: fotografa-se bem com ele de noite, o que é importante para mim, e tem um f/stop a mais em relação ao Pan F, o que faz diferença quando a luz começa a escassear.

Quanto à cor, vou esperar que a Ferrania não tenha usado o crowdfunding para ficar com o dinheiro dos aderentes (é um esquema cada vez mais comum na internet) e retome mesmo a produção do Solaris 100. Se tal não acontecer – e eu espero que aconteça, porque o Solaris é extremamente divertido –, terei de usar o Kodak Portra 160 para fotografar debaixo de luz solar e o Ektar 100 quando quiser fotografar com luz escassa. Com a reserva de poder vir a usar os Fuji se obtiver bons resultados. Apesar de a minha apreciação do Ektar 100 ter sido menos que favorável, fi-la com base em fotografias feitas sob luz do dia; em zonas de sombra e debaixo de luz escassa, porém, o Ektar 100 mantém admiravelmente o equilíbrio das cores, pelo que essa apreciação foi um pouco injusta.

De todos os rolos para preto-e-branco disponíveis, apenas não usei os Rollei e o Fuji Neopan. Os primeiros são, tanto quanto sei, idênticos ao Agfa APX; o Neopan, esse, é demasiado caro; não me parece que valha a pena experimentá-lo quando os Ilford – e também o Tri-X – dão tão bons resultados.

Deste modo, o meu ranking pessoal actualizado de películas do formato 135 é como se segue:

1.º: Ilford FP4 Plus 125
2.º: Ilford Delta 400
3.º: Kodak Tri-X 400
4.º: Ilford Delta 400
5.º: Ilford Delta 100
6.º: Ilford Pan F Plus 50
7.º: Ilford HP5 Plus 400
8.º: Kodak Portra 160
9.º: Ferrania Solaris 100
10.º: Fomapan 200
11.º: Agfa APX 100
12.º: Kodak Ektar 100
13.º: Kodak T-Max 400
14.º: Kodak T-Max 100
15.º: Fujifilm Superia 200
16.º: Lomography Earl Grey

M. V. M.

O estado dos meus conhecimentos

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Até agora experimentei os seguintes rolos: Agfa APX 100 e APX 400; Ferrania Solaris; Fuji Superia 200; Ilford Delta 100, Delta 400, FP4, HP5 e Pan F; Kodak Ektar 100, Portra 160, T-Max 100, T-Max 400 e Tri-X; Lomography Earl Grey. Há algumas conclusões a extrair das minhas experiências com rolos de diferentes tipos e sensibilidades.

A primeira é a minha preferência por rolos de grão cúbico. (Os não iniciados já estarão completamente perdidos depois de lerem esta afirmação, mas eu ofereci uma explicação mais ou menos simples num texto do Número f/: podem lê-la aqui.) Não vou dizer que estes são melhores que os de grão tabular, porque isto de dizer o que é melhor é sempre um juízo pessoal. O que é melhor para mim não o é necessariamente para os outros. Simplesmente, a película de grão cúbico ajuda-me a obter a expressão que quero; é mais compatível, se quisermos, com a minha linguagem fotográfica. Eu não ando à procura da maior qualidade de imagem possível: a minha demanda é pelos rolos que melhor me ajudem a conseguir o aspecto que pretendo para as minhas fotografias. Já encontrei um vencedor para as velocidades ASA reduzidas, que é o Ilford FP4. Quando afirmo que este é o melhor rolo que a humanidade jamais produziu, esta expressão não é um exagero nem uma hipérbole porque transmite aquela que é a minha opinião. O FP4 é o melhor rolo para os meus propósitos. Outros preferirão o Tri-X ou o Fuji Neopan Acros, sobre o qual não me posso pronunciar por (ainda) o não ter experimentado; eu prefiro o FP4. É um rolo versátil, de uma qualidade acima da média e com um contraste e uma nitidez que são de chorar por mais. Contudo, se estivesse empenhado em obter a melhor qualidade possível, a minha preferência iria para os rolos de grão tabular. O mais provável, já que estes rolos precisam de contraste, seria optar pelo Ilford Delta 100. Em termos de qualidade, medida pela precisão na descrição das altas luzes, médios tons e sombras, bem como pela nitidez e pelo contraste, penso que é difícil encontrar melhor. Há o Neopan Acros da Fuji, que muitos juram ser o melhor, mas é um rolo excessivamente caro. Referi o Delta 100 e não o 400, apesar de ter ficado muito satisfeito com os resultados deste último, porque a comparação entre ambos fez-me chegar a outra conclusão: eu só gosto de fotografar com velocidades – ou sensibilidades, se preferirem – baixas.

Eu explico. Fotografar com rolos ASA (ou ISO) 400 obriga-me a usar tempos de exposição muito curtos e aberturas estreitas. Eu não gosto de fotografar com f/11, muito menos com f/16. Não sou daquelas pessoas que nutrem uma obsessão patológica pelo bokeh e passam o tempo a sonhar acordados com lentes f/0.9 – eu tenho muitas dúvidas se a abertura influi assim tanto no desfoque –, mas gosto de fotografar com aberturas amplas. As melhores experiências que tive quanto ao uso de aberturas largas foram quando usei os Ilford Pan F, com a sua velocidade ASA 50. Ora, é difícil usar aberturas largas quando está sol e tenho um rolo ASA 400 instalado na máquina. Estas circunstâncias obrigam-me frequentemente a recorrer às aberturas mais estreitas, o que não é ideal quando se quer jogar com a profundidade de campo. Quando a luz é intensa, o resultado de usar rolos 400 é uma perda substancial de contraste e abundância de grão, o qual nem sempre contribui para a expressividade da imagem.

Outra conclusão que retiro das minhas experiências com uma máquina fotográfica que grava as imagens em película é que sou um verdadeiro iconoclasta. Por que digo isto? Há, na comunidade fotográfica, uma verdadeira veneração por um rolo cujo uso, talvez por influência dos grandes fotógrafos do Século XX, adquiriu um estatuto de dogma. Este rolo é o Kodak Tri-X 400. Apesar de já ter usado cinco destes rolos, nunca fiquei convencido. Eu espero não ser assassinado por algum fundamentalista do Tri-X por esta blasfémia, mas não sou apreciador. Ou melhor: é muito bom, mas não dá às minhas fotografias o aspecto que pretendo delas. (De resto, seria uma pena ser assassinado agora: ainda quero fotografar os sargaceiros da Apúlia e cenas da faina piscatória mais expressivas do que as que captei até agora; o meu eventual assassínio poderia colidir com estes planos.) O Tri-X é considerado o rolo obrigatório para a fotografia de rua, mas a distância focal de 35mm também o é e eu detesto-a e prefiro usar uma lente de 50mm. Não, eu não acompanho a reverência que todos devotam ao Tri-X – embora não possa negar que é excelente. Talvez pensasse de maneira diferente se tivesse uma Leica, como aqueles nomes venerandos que construíram a reputação do Tri-X, mas, sendo as coisas o que são, é esta a minha conclusão.

A minha aprendizagem da fotografia nunca estará completa. É possível que tenha escrito anteriormente muita coisa que está em contradição com o que estão a ler, mas a aprendizagem é assim mesmo: substituem-se as noções erradas por outras certas e abrem-se novas frentes de conhecimento. Eu não sabia nada sobre rolos até Junho de 2013, altura em que comprei a OM-2; esta coisa das películas era completamente nova para mim e só agora pude chegar a estas conclusões – que podem não ser definitivas. Não se surpreendam se daqui a um ano estiver a escrever coisas que contradizem este texto.

M. V. M.

O Ilford Delta 400

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Pela primeira vez tenho diante de mim digitalizações de um rolo em relação ao qual não sei o que pensar: não há nada, nas imagens feitas a partir do Ilford Delta 400, que lhe confira superioridade, mas também não há nada que o diminua em relação aos melhores. Não há nenhum fracasso clamoroso – este rolo parece fazer tudo bem –, mas também não há nada que o faça atingir a excelência de alguns dos seus irmãos: o FP4 é o melhor rolo para preto-e-branco existente à face do planeta; o Pan F tem o melhor contraste que conheço e é, de todos os rolos que experimentei, o que melhor transmite o tom da prata que caracteriza a boa fotografia a preto-e-branco; o Delta 100 é o melhor rolo de grão tabular no mercado; este Delta 400, porém, deixa-me sem saber o que dizer. Tanto pode ser o melhor rolo que já experimentei como um rolo indiferente. A minha primeira reacção, ao ver as imagens, foi considerar estas últimas as melhores que já fiz quanto à sua qualidade, mas uma observação mais criteriosa atenuou esta impressão.

As qualidades que distinguem os Ilford dos demais rolos estão presentes no Delta 400. Contraste? Sim, tem-no e é muito bom, mas nada de verdadeiramente especial. Nitidez? Sim, decerto. Mais na linha do Delta 100 e do Pan F que do FP4 e HP5, mas muito boa. O Delta 400 tem, contudo, um problema mais ou menos sério, que é o grão. Apesar de as imagens serem tão suaves que parecem ter o toque acetinado do papel de ampliação mesmo quando vistas no monitor, há algumas circunstâncias em que o grão se torna excessivo. Há áreas da imagem em que o scanner causa uma exacerbação do grão, seja qual for o rolo empregue e o seu tipo de grão, mas alguns rolos sofrem mais com isto do que outros. O HP5, por exemplo, tem um grão de tal maneira grosseiro que chega a tornar-se desagradável ver certas porções da imagem, enquanto o Kodak Tri-X, sendo igualmente de grão cúbico – e por definição mais grosseiro que o tabular –, passa muito bem o teste do scanner. Pois bem: apesar de ser um rolo de grão tabular, o Delta 400 produz um grão comparável ao do HP5. Mesmo se o grão é por natureza mais benigno que o grão cúbico, e sendo certo que, por ser mais fino, se manifesta bem menos do que nas imagens feitas com o HP5, o Ilford Delta 400 produz muito mais grão e este é mais grosseiro que o do seu oponente mais directo, o Kodak T-Max 400.

Este último é o que mais se presta a comparações com o Delta 400, por terem ambos a mesma velocidade e tipo de grão. A apresentação das imagens de ambos é muito semelhante na suavidade do seu aspecto geral, como seria de esperar de rolos de grão tabular. As diferenças estão no grão, que é mais fino no Kodak (embora também seja abundante, por ser um rolo ASA 400) e no contraste, em que o Ilford tem melhor desempenho. Contudo, a superioridade do contraste do Delta 400 não sobreleva à diferença na apresentação do grão. Diria que, se tivesse de estabelecer uma hierarquia entre estes dois rolos com base numa apreciação global, haveria uma ligeiríssima superioridade do Kodak, mas o resultado final seria um empate.

O motivo desta igualdade é serem ambos algo desenxabidos na maneira como apresentam as imagens. As fotografias são, em ambos estes rolos, um pouco falhas de carácter: são demasiado macias, demasiado suaves. Eu não gosto da aspereza excessiva do Ilford HP5, mas o Delta 400 e o T-Max chegam a fazer com que as fotografias se tornem desinteressantes: é tudo demasiado perfeito, demasiado neutro, demasiado seguro. Há muito de bom a dizer sobre os rolos de grão tabular – o melhor exemplo que conheço destes rolos é o Ilford Delta 100, que é mais interessante que a versão 400 –, porque a sua limpidez deve favorecer tipos de fotografia em que se exige uma descrição muito neutra – os retratos são o primeiro exemplo que vem à mente – e prestar-se a grandes ampliações. São, deste modo, a melhor escolha para trabalhos profissionais.

Simplesmente, eu não sou um profissional. Posso jogar com a expressividade e o carácter dos rolos de grão cúbico porque não tenho o problema de ser obrigado a mostrar a melhor qualidade possível nas minhas fotografias. O grão tabular não confere às fotografias o tipo de apresentação que eu pretendo. Isto pode parecer estranho a leitores menos familiarizados com a fotografia analógica, mas a apresentação dos rolos de grão cúbico, como o Ilford FP4 e o Kodak Tri-X, é muito diferente da das películas de grão tabular. Isto é estritamente uma questão de gosto pessoal, porque, apesar de tudo, o Kodak T-Max 400 e o Ilford Delta 400 são rolos de uma qualidade soberba. Podia muito bem usá-los regularmente como os meus rolos de eleição para velocidades ASA altas, porque nenhum deles me deixou ficar mal. Pelo contrário.

A avaliação deste rolo torna-se difícil porque, a despeito do grão, as imagens que recebi hoje são de uma qualidade que me faz pensar nas fotografias do meu álbum de bolso de fotografias de Josef Koudelka – não em termos de conteúdo artístico, evidentemente, mas de apresentação dos meios-tons e dos pormenores. Sobretudo, temo que, se rejeitar este rolo em favor do Kodak Tri-X, que tem vindo a ser o meu favorito para sensibilidades altas, esteja a cometer uma injustiça. Como referi no início, o Delta 400 deixou-me sem saber muito bem o que pensar dele. Creio que lhe vou dar outra oportunidade. Há muito de promissor no que vi hoje.

M. V. M.

Pescas

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As minhas incursões por aldeias de pescadores estão a ser deveras interessantes. Já escrevi, num texto anterior, que a minha curiosidade por este tema fotográfico nasceu de uma maneira mais ou menos fortuita aquando daquilo que era para ser um mero passeio junto à praia; a verdade é que descobri que aqueles centros piscatórios são um cenário espectacular. Tanto que estou a consumir rolos a uma velocidade tal que me está a esvaziar a conta bancária a um ritmo alarmante (e o depósito de combustível também). No entanto, vale a pena: no Sábado, recebi as digitalizações de dois rolos, um dos quais – o T-Max 400 – foi quase exclusivamente dedicado a este tema. Gostei do que vi, embora outros sejam livres de ter opiniões diferentes.

As minhas fotografias sobre este tema não são muito diferentes de outras que vi. Quando muito, procurei aplicar as minhas ideias gráficas, que são bastante pessoais, às cenas que se me depararam. Além disto, estas fotografias têm um defeito: são vistas de fora. Salvo uma ou outra excepção, não há nelas uma noção de envolvimento na actividade que se desenvolve naqueles lugares. É quase tudo visto a uma certa distância, como se as cenas fossem vistas por um turista ou, pelo menos, um estranho que deambulasse por ali sem realmente se misturar no meio. O que, podendo parecer desinteressante, é inteiramente coerente com o modo como vi aqueles lugares. Não há nenhuma daquelas fotografias com close-ups de pescadores a descarregar peixe que são tão habituais quando o tema é pesca e pescadores. Isto deve-se a uma certa timidez minha que, todavia, consegui ultrapassar pelo menos numa fotografia. Espero que, nas próximas ocasiões, consiga exprimir melhor a actividade piscatória – mas, se não o conseguir, fica pelo menos uma interpretação que, embora distante, é a que muitos têm.

«Nas próximas ocasiões.» Sim, porque conto que haja mais algumas. As minhas primeiras incursões foram feitas nos dias em que habitualmente fotografo: fins-de-semana e feriados. Não se passa muita coisa nas aldeias piscatórias aos fins-de-semana e feriados. Deste modo, informei-me junto de um natural de Vila Chã (que, curiosamente, não é pescador) sobre os melhores dias e horas para fotografar a faina. Fiquei a saber que é a partir das nove e meia da manhã que as coisas começam a acontecer. Nesta conformidade, na última sexta-feira fui a Angeiras. A informação que recebi era boa, embora não tenha tido muito tempo para fotografar por compromissos ulteriores. Mesmo assim, fiquei satisfeito com o que fiz: nestas últimas fotografias, reveladas e digitalizadas por Raúl Sá Dantas em tempo recorde, já não aparecem apenas barcos e apetrechos: já surge gente – embora sem close-ups.

Este sábado fui à Aguda, que é outro centro piscatório. Curiosamente, não gostei tanto de fotografar lá como em Angeiras. O areal extenso retira a sensação de proximidade, convidando a fazer fotografias com muito espaço negativo – o que é igualmente válido, mas de modo nenhum exprime a dureza da faina: em Angeiras estive sempre próximo dos barcos e dos pescadores, o que permitiu uma percepção mais agreste da faina. Na Aguda tudo se passa como se estivesse a ver um filme, sem ter uma verdadeira noção da realidade da pesca. As cenas eram apenas coisas que estavam a acontecer ao longe.

O meu próximo alvo é Vila Chã. Não sei muito bem quando irei, pois esta semana e a próxima vão ser de muito trabalho, mas terei forçosamente de ir bem cedo. De preferência mais cedo do que as nove e meia, ao contrário do que me foi aconselhado. Espero, desta vez, conseguir uma interacção maior com os pescadores – não há motivo para o não fazer: aquela é gente boa, simples e franca –, mas não faço disso uma obrigação: a minha linguagem fotográfica não vive muito de close-ups de pessoas e, em qualquer caso, estaria a ser influenciado pelo que vi outros fazer, o que procuro sempre evitar.

No plano técnico, não há muito a dizer: a única dificuldade é a escolha de um rolo apropriado. O ideal seria usar o meu favorito FP4, mas há algumas circunstâncias que impõem uma velocidade ASA maior. O Kodak T-Max 400 não me convenceu; talvez o Ilford Delta se adeqúe melhor às minhas ideias. Uma coisa é certa: este é um empreendimento que me está a agradar e a fazer-me fotografar com avidez. Talvez por ser algo diferente de tudo o que fiz até aqui e me ter livrado de uma certa desinspiração, ou talvez pelo interesse intrínseco deste tema, estou a fazer fotografias a um ritmo potencialmente ruinoso: instalei o Ilford Delta na sexta-feira e, no Sábado, depois de ter estado na Aguda, descobri que já tinha vinte e quatro fotogramas expostos. Isto é uma ninharia para quem fotografa digital, mas para quem usa rolos com parcimónia – um rolo costuma durar-me cerca de três semanas – é uma verdadeira orgia fotográfica. Só de pensar que ainda há as Caxinas, a Apúlia e a Aguçadoura, e que ainda não desisti da ideia de fotografar num grande porto de pesca como Leixões… vou arruinar-me por conta das pescas. E logo eu que até não sou um grande apreciador de peixe!

M. V. M.

O Kodak T-Max 400

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Antes de iniciar o texto de hoje, devo fazer aqui uma espécie de declaração de intenções. Eu não levo a mal se uma grande parte dos meus leitores considerar uma perda de tempo ler sobre películas neste primeiro quartel do Século XXI. Fazer uma apreciação de películas é tão novo e actual como discutir qual o melhor carburador para motores de automóveis numa época em que a injecção electrónica se tornou há muito a norma e os motores eléctricos são vistos como a tecnologia do futuro. Contudo, há muita gente que ainda usa película. Vou mais longe: há muitos que estão agora a descobrir o prazer enorme que é fotografar com rolos ou chapas. Deste modo, não me parece de todo inoportuno ou inconveniente abordar este assunto.

No texto de Sexta-feira referi que a minha busca do rolo ideal para preto-e-branco ainda não acabou. Quer dizer: quanto a rolos de velocidade média ou alta, porque o de velocidade baixa está encontrado há muito – é o Ilford FP4, que é, sem disputa, o melhor rolo de preto-e-branco alguma vez fabricado. Quanto a rolos ASA 400, porém, a minha indefinição é completa: há, evidentemente, o Kodak Tri-X, o rolo mais reverenciado da história da fotografia, mas a verdade é que os seus resultados nem sempre me satisfazem: o contraste não é muito bom e os médios tons também não. Eu não preciso do contraste exagerado que agora está em voga, mas gosto de contrastes fortes. (O problema das pessoas é pensarem que «contraste» é abundância de negros, o que é um erro: contraste é a diferenciação entre os tons claros e escuros.)

Por seu turno, também aludi aqui à compra, por uma contingência absolutamente fortuita, daquele que foi o rolo mais caro de sempre entre os negativos para preto-e-branco que já adquiri: o Kodak T-Max 400. Usar película de grão tabular para velocidades altas pode ser uma ideia inteligente: afinal, se o problema destas velocidades (ou sensibilidades, se quiserem) é o grão excessivo, usar película de grão ultra-fino pode ser uma boa ideia. Deste modo, embora ainda esteja combalido por ter despendido mais dois terços do que aquilo que o T-Max 400 custa nas lojas decentes, pareceu-me interessante experimentar este rolo.

O T-Max 400 tem, como seria de prever, grandes semelhanças com a versão ASA 100, que experimentei no início da minha conversão à fotografia analógica sem grandes resultados. Tal como neste último, as imagens são extremamente límpidas e suaves. O grão, mesmo naquelas porções da imagem que o scanner tem dificuldade em penetrar, permanece sempre muito bem controlado. O contraste está, como seria previsível, em igualdade com o Tri-X, que é um rolo de grão cúbico. Em muitos aspectos este é um rolo quase ideal: as ampliações devem resultar extremamente límpidas, mesmo em grandes tamanhos.

É difícil, depois de ter visto as imagens que fiz com este rolo, apontar-lhe defeitos: o grão é excelente para uma película ASA 400, o contraste varia entre o bom e o muito bom e a agradabilidade geral da imagem é francamente positiva. Contudo, como frequentemente acontece com tudo o que é estudado para ser perfeito, o Kodak T-Max 400 é um rolo cujas imagens não excitam. Falta-lhe, tal como ao T-Max 100, uma característica inefável à qual só posso chamar «carácter». As imagens são excelentes, mas não têm a vida que os Ilford lhes conferem. Todos os Ilford, note-se bem: apesar de ainda não conhecer os resultados que podem ser obtidos com o Delta 400 que ainda estou a expor, posso dizer, pelo que vi no Delta 100 em comparação com o rival T-Max 100, que este não é um problema da natureza do grão. O Delta 100 é um rolo de grão tabular, mas tem carácter. Na minha opinião, o ar distinto que tem quando comparado com os T-Max deve-se ao melhor contraste – não ao contraste global, de que os Kodak não são falhos, mas ao contraste local: há, no Ilford, uma descrição do pormenor que acentua a nitidez da imagem, tornando-a mais viva e expressiva.

Uma experiência curiosa é comparar o Ilford HP5 com este T-Max 400. No primeiro há muito grão, e este é grosseiro – mas as imagens têm muito mais carácter; são mais expressivas e têm mais espírito de película. O microcontraste é muito superior, o que cria a ilusão de haver mais nitidez (o que não é, evidentemente, verdadeiro). O que me parece, contudo, é que este microcontraste é uma marca muito própria dos Ilford, sejam eles de grão cúbico ou tabular. Como referi, ainda não sei de que é capaz o Ilford Delta 400 – mas, se for tão bom como o Delta 100 e tiver as características de ausência de grão do Kodak T-Max, pode muito bem vir a ser o meu rolo de eleição para velocidades ASA elevadas.

Devo, porém, dizer que o Kodak, mesmo não sendo distinto como os Ilford, é bom. Muito bom mesmo. Não me importaria de usar este rolo sempre que precisasse da sensibilidade alta. A qualidade do grão é simplesmente fenomenal. É um Tri-X mais educado, se quisermos. Optar por este rolo significaria imagens com menos espírito analógico, mas livrar-me-ia do grão excessivo do Tri-X e, sobretudo, do Ilford HP5. Mas o Kodak T-Max 400 tem um adversário à espreita… watch this space!

M. V. M.