Certezas e dúvidas

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Há um ano, por esta altura, tinha duas certezas e uma incerteza. Estava convicto de que a minha linguagem fotográfica era o preto-e-branco e de que a única película que valia a pena usar era a Ilford FP4. A minha dúvida era qual película havia de usar quando quisesse fotografar a cores, nas raríssimas ocasiões em que tal me apetecesse.

Hoje as certezas estão um pouco mitigadas. Tenho retirado tanta satisfação das fotografias mais recentes, todas elas a cores, que a certeza de que a minha linguagem é o preto-e-branco está agora severamente abalada. Não é que tenha deixado de apreciar o preto-e-branco; é mais por, como o nosso ex-Presidente Jorge Sampaio podia ter dito, haver vida para além do preto-e-branco. O preto-e-branco não se tornou subitamente detestável, nem a cor uma musa inspiradora; o que se deu em mim foi apenas a descoberta de que é possível fotografar com películas a cores com resultados muito satisfatórios – o que ainda não havia aprendido por ter usado películas que não convinham a todas as condições de iluminação com que normalmente fotografo.

Antes de me referir ao que me levou a redescobrir a satisfação das cores, uma palavra quanto à película a preto-e-branco que considerei – e provavelmente ainda considero – a melhor que existe à superfície da terra: sim, os Ilford FP4 são os melhores rolos 135 que existem. Em termos estritamente subjectivos, porém, dei comigo a extrair grande prazer do Kentmere 400. Embora ainda me falte experimentar o Kentmere 100, que é aquele com o qual as comparações relativamente ao FP4 são válidas, os Kentmere podem muito bem ser o negócio do século para quem expõe película a preto-e-branco.

As minhas experiências com cores foram, até aos últimos meses do ano passado, deveras frustrantes: dos rolos que havia experimentado até então, uns eram deliberadamente maus, outros só resultavam bem debaixo de certas condições de luz e outros ainda eram de tal maneira garridos ou granulosos (ou ambos) que não me serviam. Esta insatisfação com as películas a cores contribuiu decisivamente para me levar a centrar a minha fotografia no preto-e-branco (embora o grosso das fotografias que fiz antes de ter a OM-2 fosse já monocromática). Isto durou até ao dia em que resolvi deixar de lado algumas preconcepções e experimentei uma película que sempre me havia parecido medíocre: a Agfa Vista.

Devo dizer que não foi só a película que me determinou a fotografar de novo a cores: foi também, e sobretudo, o conhecimento da obra de fotógrafos como William Albert Allard, Harry Gruyaert, Joel Meyerowitz, Saul Leiter e Fred Herzog. Com os três últimos, descobri que se pode fazer fotografia de rua a cores – e, com isto, livrei-me de uma maneira de fotografar que se está a tornar estafada.

Houve, portanto, uma inversão nas minhas certezas e dúvidas. Agora tenho dúvidas quanto à minha forma de expressão preferida e à película predilecta para a obter, mas ganhei, em contrapartida, uma certeza: os rolos que quero usar, quando fotografo a cores, são os Agfa Vista. A minha breve experiência com o Fujifilm X-Tra 400 apenas serviu para confirmar esta minha preferência. Não, a Agfa não é a película perfeita, mas tem inúmeras virtudes: a descrição das cores, a despeito da intromissão de algumas matizes espúrias, é muito natural; e tem consideravelmente menos grão que o Fujifilm. É uma película que se comporta bem em praticamente todas as condições de iluminação, dando bons resultados nas sombras.

E é barato. O único rolo que me deu melhores resultados foi o muito caro Kodak Portra 160, e mesmo assim este último não é muito bom para fotografar com luz escassa. O humilde Agfa Vista é mais versátil. Apesar de a matiz magenta que afecta algumas fotografias me ir obrigar a recorrer à edição de imagem com mais frequência do que seria desejável, penso que esta é uma contrapartida modesta para o enorme benefício que é poder fotografar em qualquer lugar, independentemente de a luz ser artificial ou natural, de fazer sol ou estar à sombra.

M. V. M.

A morte saiu à rua num dia assim

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Mário Soares pelo grande Alfredo Cunha

Este texto também é sobre fotografia, mas primeiro o mais importante. Ontem morreu Mário Soares. Como já foi dito tudo sobre ele, apenas escrevo que ele foi o pai da nossa democracia. Soares tornou-se numa espécie de figura paterna de quase todos os portugueses, com excepção de alguns ressentidos que, por a sua mente não conseguir abarcar o mundo e a realidade destes dias, vivem presos a um passado distante do qual nem sequer se recordam com precisão. Eu sou um dos que via em Soares uma figura paterna: foi o pai da democracia, da liberdade e da integração na Europa. Mário Soares era um colosso, um gigante da intelectualidade, com as suas três licenciaturas (em Filosofia, História e Direito) – e um dos últimos estadistas portugueses. Quando Adriano Moreira e Freitas do Amaral nos deixarem, não restará senão uma chusma de medíocres cujo nome a história bem cedo apagará.

Hoje de manhã soube da morte de Guilherme Pinto, antigo presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, que tive oportunidade de conhecer in persona. Literalmente, com palavrões e conversas informais e tudo. Era, mais que um político, um ser humano. O seu último gesto público deu-nos a medida da sua dignidade e grandeza: renunciou ao cargo de presidente da câmara uma semana antes de morrer.

E, ao almoço, chegou-me a notícia da morte do Professor Daniel Serrão. Apesar de não concordar com as posições que o seu catolicismo arreigado lhe determinou, e que defendeu estrenuamente enquanto presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, devo reconhecer a maneira serena como sempre participou nas discussões públicas.

O Professor Daniel Serrão morreu em consequência de complicações com origem num traumatismo craniano sofrido num atropelamento. Foi atropelado em 2014, numa passadeira, na rua onde morava. Não consigo conceber maior ignomínia, entre os condutores, do que atropelar um peão numa passadeira. É o epítome da ausência de civismo e da alarvidade do condutor português. E levou à morte um homem da grandeza do Professor Daniel Serrão. Revoltante.

Uma vez conheci o seu neto Filipe. Foi um episódio insignificante – ele tinha cerca de onze anos –, mas, no final de uma conversa breve, disse-me algo que, por me ter tocado tão fundo, me levou a responder-lhe com estas palavras: «Tu és um rapaz com cabeça e, sobretudo, com bons princípios. Continua assim». De facto, o mundo precisa de pessoas como ele. E como o avô, que terá tido uma quota-parte substancial na formação de um ser humano genuinamente bom.

Agora já posso votar a minha atenção para coisas insignificantes. Ontem entretive-me a processar as digitalizações do segundo rolo Agfa Vista que expus. Usei o DxO Optics 9, graças a um upgrade gratuito que a DxO resolveu oferecer. A versão 9 tem um algoritmo de redução do ruído muito sofisticado, mostrando, numa pequena janela, a ampliação a 100% de uma porção da imagem.

Ver esse pedacinho da fotografia ampliado confrontou-me de novo com a realidade de que o formato 135 não tem um nível de qualidade suficiente. Se, a esta falta natural de definição (à qual nem as lentes Zuiko podem acudir), somarmos o grão de uma película 400 ASA, temos por resultado uma qualidade equiparável a uma câmara digital com sensor pequeno.

Talvez seja o Agfa Vista que é muito fraquinho – ou melhor: a culpa é da Fujifilm, que fabrica esta película – e outros rolos tenham melhor qualidade, mas não gostei nada do que vi. Contudo, como nada é inteiramente mau – ou, pelo menos, tão mau que não haja algo que se aproveite –, descobri o seguinte: os tons de pele que o Agfa Vista descreve são simplesmente perfeitos. Qualquer alteração no HSL, por ínfima que seja, destrói de imediato o equilíbrio que faz deste rolo uma opção excelente para retratos. Desde que se acerte com a iluminação e a exposição, o Agfa Vista é capaz de uma veracidade na descrição dos tons de pele que envergonha o Kodak Portra 160.

O que me aproximou um pouco mais de me decidir por esta película como a minha favorita para fotografar a cores. Apesar de ainda precisar de ver o que o Fuji Superia X-Tra consegue fazer, o Agfa tem um equilíbrio entre defeitos e virtudes, e entre preço e qualidade geral, que o torna numa boa opção. Claro que não é uma película de slides, ou de médio formato – mas a qualidade de imagem não pode ser o único critério. De que me serve uma fotografia isenta de grão e com contornos imensamente bem definidos, se a pele de uma pessoa surgir azulada?

M. V. M.

Agfa Vista 400

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A Agfa é uma companhia europeia antiga; como todas as companhias europeias antigas, tem uma história extremamente interessante, tendo-se tornado numa das gigantes da imagiologia. Sendo o resultado da fusão de duas companhias que se desenvolveram separadamente – a Agfa na Alemanha, a Gevaert na Bélgica –, a Agfa-Gevaert BV não tem, hoje em dia, a importância que teve para a indústria fotográfica até finais do século passado.

Embora a Agfa-Gevaert ainda exista, e continue a produzir película, já não tem a dimensão que tinha quando os seus produtos rivalizavam com os da Zeiss e a película que produz é para fotografia aérea. Curiosamente, não é a Agfa-Gevaert que produz a película Agfaphoto: a película para fotografia aérea é cortada, inserida em rolos e vendida ao público pela Lomography e pela Rollei. A Agfaphoto, essa, encomenda película à Fujifilm. Digamos que os APX, Vista e Precisa são películas OEM, que são fabricadas no Japão para uma companhia denominada Lupus Imaging Media (que é, aparentemente, a proprietária da marca «Agfaphoto»). Portanto, a película Agfa não é Agfa e a película que a Agfa faz também não. Eu sei que é confuso, por isso nem sequer me vou esforçar por perceber como isto tudo aconteceu.

O que eu sei é que, para película Fujifilm, o Agfa Vista 400 tem uma deficiência surpreendente: os verdes são péssimos. Mortiços na melhor das hipóteses, completamente deslavados e esbranquiçados na pior. O Agfa Vista 400 só não me merece impropérios por o seu preço ser tão modesto, mas posso dizer que, sendo mais caro, consegue ser apenas ligeiramente melhor que o Fuji Superia 200, que é um dos piores rolos a cores que experimentei.

Esta minha apreciação tem de ser lida cum grano salis. Os rolos que usei até hoje, com a aparente excepção do Ferrania Solaris, do Kodak Gold e do Superia, são para uso profissional. A sua qualidade está a léguas da dos rolos vendidos ao público em geral. Deste modo, quando digo que o Agfa Vista é sofrível, é como se estivesse a referir-me a, digamos, um Opel Insignia: este fica a perder para os modelos equivalentes da Mercedes, Audi e BMW – e mesmo para o Peugeot 508 –, mas é bastante melhor que, digamos, um Volkswagen Polo. É tudo uma questão de escalão.

Dito isto, eu esperava que o Agfa Vista me desse cores subtis, mas correctas. A parte da subtileza é cumprida com algum aprumo, mas a correcção deixa qualquer coisa a desejar. Muitas das fotografias que fiz foram invadidas por uma matiz vermelha que adulterou alguns tons. Por exemplo, a areia mais parece terra. Os amarelos parecem ser a cor que mais sofre com esta matiz. Avancei com a referência ao verde ainda antes de entrar na análise das características desta película porque, como todos sabem, a Fujifilm é reputada pela beleza dos seus verdes. Ora, esta beleza está completamente ausente do Agfa Vista 400, o que me surpreendeu. Este é um rolo que dá às fotografias um aspecto antiquado que não me agrada inteiramente.

O grão, como seria de esperar numa película ASA 400, é abundante. Contudo, esta película lembra as tentativas da minha Canon compacta em fotografar com valores ISO superiores a 100: o ruído era inaceitável. O grão do Agfa Vista 400 é horrível nas fotografias feitas com pouca luz, embora discreto e virtualmente indiscernível nas demais.

Então há alguma coisa de bom a dizer a favor desta película? Sim. Os azuis são espectaculares, embora de tempos a tempos possam surgir um pouco desbotados. Quando a luz ambiente é boa, o tingimento vermelho e o grão não afectam demasiado a qualidade da imagem, apenas restando a questão da vibração das cores, que é sobretudo uma questão de gosto. Por mim, prefiro um bocadinho mais de saturação. E o tingimento, diga-se, é bem mais benigno do que quando são as matizes ciano e magenta a invadir a imagem.

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E é uma boa película para fotografar à sombra. Embora os melhores resultados surjam com luz solar pouco intensa, como a que é típica do Outono e Inverno, nas fotografias feitas à sombra – ou, genericamente, com luz escassa – inexiste o tingimento azul que afecta as películas calibradas para luz do dia, como a Portra 160.

Por tudo isto, o Agfa Vista é um rolo que tem defeitos e virtudes. Quanto a mim, os primeiros não chegam a sobrepor-se às qualidades e os únicos vícios que podem ser considerados redibitórios – pelo menos para alguns – são o tingimento vermelho e o grão excessivo. O resto pode até agradar aos adeptos de cores mortiças que se dedicam a um certo tipo de fotografia que está agora muito em voga.

Quanto a mim, penso que consigo obter resultados muito interessantes a partir do Agfa Vista depois de corrigidas as cores na edição de imagem. Simplesmente, usar a manipulação digital é uma das coisas que pretendo evitar: ainda estou à procura de uma película a cores que não precise de retoques no computador. Até agora, a que mais me satisfez foi a Kodak Gold 200, mas não morro de amores pelas suas cores saturadas. A demanda da película a cores perfeita continua, e tenho receio que só a encontre a preços incomportáveis – como a Fujifilm 400H, cujos rolos atingem os dois algarismos na nossa divisa actual.

M. V. M.

Os meus filmes

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Título enganoso – não vou falar aqui de cinema, embora já o tenha feito (há poucos blogues de fotografia onde os leitores possam educar o seu gosto cinematográfico através do conhecimento de cineastas como Luchino Visconti, Richard Linklater e Michael Haneke). O título pretende ser uma sátira às pessoas que gostam de traduzir tudo directamente do inglês e entendem que film pode ser traduzido para filme, mas esta última é uma palavra inventada, porque film tem uma tradução em português, que é  «película». (Film não se refere especificamente à película fotográfica ou cinematográfica: também designa, por exemplo, o papel celofane ou os plásticos usados para envolver alimentos.)

Também não vou escrever sobre os meus filmes – se eu vos contasse como correu o meu último julgamento, pensariam que tinha aderido à equipa de guionistas de uma série humorística qualquer –, mas sim sobre as minhas películas. Desde que comprei a OM já experimentei vinte películas diferentes (todas de negativos): da Kodak, usei rolos de Tri-X, Portra 160, Ektar 100, Gold 200 e T-Max 100 e 400; experimentei Ilford FP4, HP5, Pan F e Delta 100 e 400 (além de um rolo Pan 400 que já atingira a idade núbil, mas cujos resultados pareceram agradar a muitos visitantes do meu Flickr); usei também Fuji (Superia 200), Fomapan 200, Ferrania Solaris, Kentmere 400, Agfa APX 100 (também usei 400, mas os resultados foram inconclusivos) e agora outro rolo Agfa, este a cores, que é o Vista 400. Além da ovelha negra chamada Lomography Earl Grey, que foi a pior que experimentei. Foram muitos rolos. Apesar de ainda me faltar experimentar outros tantos – vários da Fuji, todos da Rollei e da Adox e algumas variedades das marcas que mencionei anteriormente –, penso que já posso elaborar algumas conclusões.

A primeira é que o preto-e-branco é a minha linguagem. Já escrevi aqui, ainda há bem pouco tempo, que fotografar a cores é difícil pelas exigências de harmonia da cor. Devo acrescentar outra dificuldade: a de encontrar motivos em que a cor, mais que as formas, seja o elemento gráfico preponderante. Convenhamos que o Porto é uma cidade um bocado granítica e monocromática (e eu não tenho particular gosto em fotografar graffiti). O preto-e-branco favorece as formas e as linhas, pelo que se adequa melhor às minhas opções estéticas. Daí que tenha adquirido muitos mais rolos de preto-e-branco que de cores. Por regra, demoro muito mais a expor rolos a cores, o que é revelador quanto às dificuldades com que me deparo. Isto não quer dizer que tenha desistido da cor, mas seguramente significa que estabeleci uma preferência.

E, já que me refiro a preferências, quais são os rolos que mais me satisfazem? Para o preto-e-branco, a resposta é mais ou menos óbvia: o FP4 é aquele ao qual volto sempre. Já expus trinta e seis rolos desta película. Gosto do seu contraste e da nitidez incrível, mas exige algumas precauções, como expor sistematicamente para as altas luzes de maneira a evitar a sobreexposição.

O que me leva a outra conclusão: eu gosto de películas lentas. Comigo a fotografia em lugares pouco iluminados é uma excepção, não a regra. Além de não apreciar aberturas demasiado estreitas: não sou um tarado do bokeh (eu gostava de cremar in vivo a criatura que se lembrou de importar esta palavra para o Ocidente), mas um bocadinho de desfoque de vez em quando não faz mal nenhum. As películas de alta velocidade (ou sensibilidade, se preferirem) obrigam-me a fotografar com f/11 sempre que aparece um raio de sol. Contudo, nas diversas ocasiões em que um rolo ISO 400 é útil, demorei a decidir qual preferia: o Tri-X? O HP5? Sob reserva de fazer mais algumas experiências, penso ter encontrado uma película que poderia usar sempre que quiser fotografar em estações do metro: a Kentmere 400. Contudo, devo também dizer que foi agradável experimentar películas ASA 200. Usei duas: Fomapan 200 e Kodak Gold 200. É uma sensibilidade muito versátil e agradável de usar. Não compreendo por que razão a Ilford não fabrica películas ISO 200.

Quanto à cor, remeto para o texto em que me refiro às dificuldades suplementares que as películas implicam. Apesar de a minha preferência não ir para a fotografia a cores, não posso negar que me diverti com os rolos Ferrania e que fiquei surpreendido com o desempenho do Kodak Gold 200. Os outros são demasiado dependentes das condições de luz. Curiosamente, a película que estou correntemente a usar é a primeira de alta velocidade que uso. (Depois digo-vos das minhas impressões.)

A maior surpresa da minha experiência com películas, porém, é a resolução do pormenor que algumas possibilitam. Claro que as lentes Olympus OM, em particular a grande-angular, contribuem para esta resolução, mas as películas desempenham um papel importante. Descobrir isto foi uma surpresa, mas há uma explicação: a fotografia no formato 135 precisa de toda a resolução de que for capaz para que não se perca demasiada nitidez nas ampliações. As minhas fotografias são, com a excepção daquelas em que falhei a focagem, inacreditavelmente nítidas. Esta, como referi, foi uma grande surpresa. Só comparável ao prazer que se extrai de fotografar com uma máquina analógica, mas estas são contas de outro rosário.

M. V. M.

Mais dificuldades da cor: as películas

Kodak Ektar 100
Kodak Ektar 100

O último texto já ia demasiado longo e tive de deixar de fora uma dificuldade da cor que a fotografia digital ultrapassa com relativa facilidade, mas ainda exige muita experiência de quem fotografa com película: o equilíbrio das cores.

Como é sabido – e isto aplica-se à fotografia analógica e à digital –, as cores não têm uma apresentação uniforme consoante as diferentes condições de luz. Algo que se aprende em qualquer workshop é que uma fotografia tirada debaixo da luz do sol tem umas cores muito diferentes de outra que tiver sido tirada com iluminação artificial (e dentro desta há variações). Fotografar debaixo de sombra tem, quando se usa o esquema RGB, o inconveniente de recobrir a imagem com uma matiz azul, ao passo que fotografar sob luz solar muito intensa torna as cores deslavadas e tingidas de ciano.

A fotografia digital resolveu esta questão com alguma facilidade ao possibilitar a alteração do equilíbrio dos brancos, quer pelos automatismos do processador quando se fotografa em JPEG, quer usando as ferramentas da edição de imagem. Deste modo é sempre possível chegar aos tons ideais quando se fotografa digital.

E com película? Evidentemente, quando se fotografa no domínio analógico não há lugar ao equilíbrio dos brancos. Esta é uma invenção trazida com a fotografia digital. Quem insere um rolo a cores na sua máquina fotográfica terá de se conformar com fotografar sempre com as mesmas condições de luz ou aceitar resultados insatisfatórios quando fotografa debaixo de uma iluminação diversa daquela para a qual a película foi pensada. As películas a cores têm um equilíbrio próprio que não pode ser alterado: as que são equilibradas para luz solar dão resultados que vão do bom ao excelente quando se fotografa com luz natural, mas são péssimas para fotografia nocturna. Os seus tons são neutros e agradáveis quando se fotografa sob a luz para a qual foram equilibradas, mas fotografar com elas à noite – ou mesmo debaixo de sombras densas durante o dia – introduz matizes azuis arroxeadas que destroem por completo a agradabilidade da imagem. Um exemplo disto é o Kodak Portra 160.

Pelo contrário, se a película for equilibrada para luz artificial as cores surgem inautênticas se se fotografar durante o dia, sob luz solar intensa. Neste caso as cores surgem berrantes, predominando matizes vermelhas e amarelas. Um exemplo é o Kodak Ektar 100: péssimo sob luz solar forte, inacreditavelmente preciso debaixo de luz artificial e escassa. Outros rolos equilibrados para pouca luz dão igualmente cores saturadas sob luz do dia forte, mas com resultados bem mais agradáveis: é o caso do Kodak Gold 200 e do Ferrania Solaris, embora a saturação possa parecer excessiva para os gostos de muitos (em especial no caso do Ferrania). Se há um aspecto em que a fotografia digital tem uma vantagem considerável sobre a analógica, é o equilíbrio das cores.

O maior problema do uso de película a cores, independentemente das condições de luz para que são equilibradas, é o de manter a consistência das cores debaixo de luz intensa. Os pioneiros da cor, como William Eggleston, tinham o hábito de expor para as altas luzes para preservar a vibração e a saturação das cores, as quais ficam comprometidas pela intensidade excessiva da luz. Esta é uma prática recomendável, mas parece que já estou a ouvir alguém objectar: – mas as sombras vão ficar demasiado escuras. A resposta a esta questão é depende. Esse dodging das sombras é real no caso dos slides, que têm pouca latitude, mas os negativos têm uma vantagem de cerca de 4 EV sobre a fotografia digital e os diapositivos. Deste modo é possível preservar as sombras quando se expõe para as altas luzes, com a vantagem de, no caso de não se poder expor directamente para as altas luzes, estas nunca surgirem estouradas quando se usa rolos de negativos.

Outro problema de fotografar a cores com película é a imutabilidade, já não do equilíbrio das cores, mas da tonalidade. É impossível alterar esta última: se estamos a usar um Kodak Gold, todas as trinta e seis exposições vão ter tons saturados. Hoje é possível alterar a tonalidade na edição de imagem, o que não é nenhum sacrilégio mas não nos dá a medida das qualidades de uma determinada película.

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Como vêem, se no geral é difícil fotografar a cores, fazê-lo com película ainda o é mais. Seja como for, eu prometi a mim mesmo que não havia de morrer sem conseguir fazer fotografia analógica a cores em condições decentes. Isto veio-me à cabeça depois de ver tantas fotografias fabulosas de mestres da cor como (eu sei que estou sempre a mencioná-los, mas tenham paciência) William Albert Allard e Harry Gruyaert (o Alec Soth já é do tempo do digital). Por estas razões, resolvi fazer um interregno na fotografia a preto-e-branco e experimentar mais um rolo a cores, desta vez o Agfa Vista 400. Espero que a sensibilidade alta obste aos tingimentos espúrios ao fotografar à sombra e, pelo que vi na internet, conto com tonalidades agradáveis. E, tal como o Kentmere que foi objecto da minha última experiência, não é caro. Watch this space.

M. V. M.

Isto não é uma guerra

Linn_Sondek_LP12_LargeOs apologistas do progresso clamam que a evolução remeteu o vinil e a película para a obsolescência e os condenou à extinção, fazendo analogias com comboios a vapor e navios veleiros; os indefectíveis que, acompanhando ou não a evolução (porque nem todos os amantes do vinil e da película vivem amarrados ao passado), preferem os meios considerados antigos, defendem-se dos ataques – sim, porque para muitos isto é uma guerra – com argumentos que nem sempre são convincentes. Mas há também os que conseguem ver as coisas com um pouco mais de clareza e rejeitam a ideia de que se tem de estar de um lado ou do outro.

Eu estou mais perto destes últimos. Vi claramente as vantagens e os inconvenientes de cada um dos meios e fiz opções de acordo com esse conhecimento. Começando pela reprodução musical, posso dizer que nada substitui a satisfação que retiro de ouvir música gravada em vinil: o som é mais dinâmico, mais enérgico, e há uma melhor individualização das notas. Em comparação, o som dos formatos digitais é plano, por ser severamente limitado nas dinâmicas (especialmente a dos graves). Daí que, embora tenha acumulado um número considerável de CD’s, tenha agora mais LP’s – mesmo sem contar com os que tinha antes de aderir ao CD. Compro vinis porque me dá mais prazer ouvi-los. No entanto, não deitei o meu leitor de CD ao lixo: o CD é muito mais prático para a música clássica. Além de haver poucas edições novas de música clássica em vinil (a não ser nas etiquetas «audiófilas»), uma sinfonia desfruta-se melhor se for ouvida de uma vez do que se tiver de me levantar para virar o disco no final de cada andamento. O som não é tão dinâmico, mas é um compromisso aceitável.

Se o som do vinil é, do meu ponto de vista e em termos bastante genéricos, consideravelmente melhor que o digital, a película é mais uma profissão de fé que outra coisa. A fotografia digital há muito ultrapassou o padrão de qualidade do rolo 135 e só o médio formato continua, por enquanto, a resistir à evolução da fotografia digital. Não é uma questão de qualidade em si, porque a película 135 não é falha em aspectos como a nitidez ou o contraste: é, sobretudo, um problema de tamanho. Com um negativo 135, até onde se podia ir na ampliação foi um problema que nunca foi resolvido satisfatoriamente; os profissionais tinham de recorrer ao médio formato para fazer grandes ampliações, deixando o 135 para as fotos de família e as destinadas à imprensa, que raramente eram ampliadas para além do tamanho 15×10. De um modo geral, pode dizer-se que 24×18 (centímetros) é o limite máximo até ao qual um negativo 135 pode ser ampliado – e só se for usada uma boa lente, com muita nitidez, um rolo com muita acutância e um ampliador com uma lente também ela de alta qualidade. A partir desse tamanho a nitidez é severamente prejudicada.

Há mais. Até agora, ainda estou para encontrar uma película a cores que me deixe inteiramente satisfeito. O Kodak Portra só pode ser usado em condições de luz ideais; o Ektar 100 só dá bons resultados com pouca luz; o Ferrania Solaris e o Kodak Gold 200 são por vezes demasiado garridos para o meu gosto. Nas poucas ocasiões em que sinto vontade ou necessidade de fotografar a cores, prefiro recorrer à câmara digital a comprar um rolo (embora ainda me falte experimentar os Fuji 160NS e 400H, que são excelentes – ao que se diz – mas muito caros).

a01Mas há dois factores que me fizeram optar por fotografar com película. O primeiro é as limitações da minha câmara digital. Com esta, posso fazer impressões em grandes tamanhos, mas não tenho, pelo menos com as lentes que comprei especificamente para esta câmara, a nitidez que consigo com a OM e os rolos Ilford. Embora a nitidez nem sempre seja o mais importante, é decisiva nas minhas escolhas. Isto deve soar estranhíssimo aos ouvidos de um digitalista militante, mas é verdade. Para obter uma boa nitidez com a câmara digital, tenho de recorrer às lentes da OM – e mesmo assim os resultados não são melhores do que os que tenho com película.

O outro factor é eu não conseguir, por muitas horas que perca às voltas com o programa de edição de imagem, reproduzir por via digital a estética que procuro para as fotografias a preto-e-branco. Com os rolos – especialmente os Ilford, mas também com o Tri-X – consigo esse look imediatamente, sem recorrer à edição de imagem; com as fotografias digitais posso chegar perto, mas nunca é exactamente a mesma coisa. Há sempre algo que denuncia a natureza digital da imagem.

O que quero dizer com este texto é que não existe, para mim, uma trincheira a separar os domínios analógico e digital. Esta não é nenhuma guerra e, mesmo se fosse, nenhuma das partes teria a supremacia absoluta sobre a outra. A fotografia digital pode não ter ainda suplantado a analógica – e, no que se refere à estética única da película a preto-e-branco, nunca a suplantará –, mas quantas fotografias «analógicas» conheceríamos hoje se não fosse a digitalização?

M. V. M.

O melhor dos dois mundos

Ctein tinha razão. O formato 35 mm – ou «135», para sermos mais precisos – impôs-se pelo aspecto prático, não pela qualidade de que é capaz. As películas 135 comuns não fazem melhor do que aquilo que uma Canon 70D ou uma Nikon D7300 são capazes. Só se nos dermos à bizarria de fotografar com rolos de slide é que vemos alguma superioridade da fotografia analógica em relação à digital, porque a qualidade de imagem das câmaras digitais evoluídas é hoje superior à dos Kodak Gold, Portra, Ektar e todos esses rolos de utilização mais comum.

Há um último reduto para a fotografia analógica: o médio formato. As câmaras digitais, com excepção das de médio formato profissionais como as Mamiya Leaf, Phase One e Hasselblad, ainda não conseguiram o tipo de qualidade que as máquinas analógicas de médio formato e os rolos 120 são capazes de atingir. O que torna tudo mais interessante no caso da fotografia analógica é que a qualidade de imagem depende em 80% da película utilizada e 20% das lentes, pelo que qualquer velharia, desde que não tenha infiltrações de luz e seja equipada com lentes de qualidade, é capaz de fazer melhor que a maioria das câmaras digitais.

Até aqui tenho estado a escrever com a fotografia a cores em mente. É nesta que a qualidade das câmaras digitais está a ultrapassar a fotografia analógica. O preto-e-branco levanta outro tipo de considerações que tornam o desempenho da película pancromática incomparavelmente melhor que a de qualquer câmara digital. A superioridade não está nos números – obter um valor de 5 MB com a digitalização de um negativo 135 já é um bom resultado, embora diga mais sobre a qualidade do scanner do que da película –, mas na estética. É impossível a uma câmara digital reproduzir a beleza das altas luzes de um Tri-X ou um Ilford FP4 e só com muita manipulação digital se chega perto dos contrastes que se obtêm imediatamente quando se usa um bom rolo. Só com horas de edição é possível fazer com que uma imagem de uma câmara digital seja minimamente comparável, mas consegue sempre distinguir-se uma imagem de um negativo digitalizado de uma fotografia digital. E, se imprimirmos ambas, as diferenças são ainda mais evidentes – com vantagem para o analógico. Repito que esta não é uma questão de tamanho ou de número de pixéis: é na estética inimitável que os rolos a preto-e-branco prevalecem. Nem as Leica M Monochrom nem as cassetes Phase One Achromatic, aparelhos concebidos de raiz para apenas registar imagens em preto-e-branco, conseguem simular a beleza de uma imagem analógica.

Isto deixa-me a pensar sobre o que quero usar para fotografar. Para o preto-e-branco tenho tudo o que preciso: uma máquina soberba, que no seu tempo era a melhor câmara 135 do mercado, lentes sensacionais e uma preferência indissolúvel pelo melhor rolo a preto-e-branco existente à superfície da Terra, aquele com o qual todos os demais se medem e ficam a perder: o Ilford FP4. Não tenho, pois, qualquer necessidade de mudar: estou imensamente bem servido e satisfeito no que respeita a fotografias a preto-e-branco.

E na cor? Este texto vem na senda do anterior, em que apreciei os resultados da minha experiência mais recente com um rolo a cores. Esta foi satisfatória, mas apenas em termos relativos. É evidente que uma fotografia feita com um rolo a cores montado numa Olympus OM-2n será sempre bastante melhor que uma tirada com um telemóvel, mas não se a compararmos com o que pode ser obtido com uma câmara digital de gama intermédia, como as DSLR que referi anteriormente. Pelo que o melhor dos dois mundos será manter a OM-2n para fotografar a preto-e-branco e adquirir uma máquina de médio formato para fotografar a cores. (Sendo certo que, se fotografar com rolos de médio formato a preto-e-branco, a qualidade poderá atingir níveis intergalácticos.)

Neste caso, as escolhas são inúmeras. Já referi que, atenta a contribuição da película para a qualidade da imagem no médio formato analógico, tudo o que é necessário é que a máquina funcione bem e tenha lentes decentes, pelo que a gama de escolhas vai desde as máquinas de fole como as Zeiss Ikonta e as Agfa Isolette até às precursoras do médio formato actual como as Mamiya 645. Pelo meio existem máquinas tão interessantes como as Rolleiflex, a Yashica Mat 124G, as Pentax 6×7 e 645, a Pentacon Six, as Fujifilm de telémetro, a Mamiya 6 ou a Hasselblad 500 C/M. Desde que haja dinheiro, é só escolher: se estiverem em bom estado, todas fotografam com um nível de qualidade absurdamente elevado, independentemente do ano de fabrico. Falta-me apenas saber: a) se vou ter dinheiro disponível, quer para a máquina, quer para revelar e digitalizar rolos que permitem entre oito e doze exposições; b) se tenho um interesse pela fotografia a cores que me leve a comprar mais um sistema fotográfico e c) se tenho coragem de ser visto na rua com uma TLR ou uma Agfa Isolette. Ainda não tenho resposta para nenhuma destas questões.

M. V. M.