Fiat lux

Conforme prometido – eu sou uma pessoa razoavelmente leal e constante que raramente deixa de cumprir o que promete (ao que ajuda não fazer promessas impossíveis) –, conforme prometera, dizia, vou hoje partilhar com os leitores as minhas ideias acerca de iluminação. Refiro-me à iluminação dos motivos das fotografias, e não exactamente às fontes de luz como o flash ou a panóplia de iluminação de estúdio, que inclui luzes LED e reflectores com forma de guarda-chuvas.

Tenho para mim que não existe nada pior que fotografias feitas à sombra. Por vezes, quando ando na rua, deparo com cenas que podiam dar uma fotografia interessante e não as fotografo porque aquilo que quero fotografar não está suficientemente iluminado, diluindo-se na sombra do plano de fundo. Tem de haver sempre algo que destaque o motivo: se este estiver bem iluminado, o facto de existirem sombras no resto da imagem não é um problema: pelo contrário, até ajuda aquele a tornar-se mais explícito.

É isto que acontece quando se fotografa à sombra.

Contudo, há muita gente que fotografa à sombra. Isto não beneficia a imagem: fá-la perder contraste e pode torná-la indistinguível e pesada. Em casos como este, e à falta de um flash (o qual ajuda, mas só se forem usados tempos de exposição inferiores a 1/125 e se a distância em relação ao motivo não for muito grande), mais vale não fotografar. Para quê disparar, se se sabe de antemão que a fotografia vai ser um fracasso?

O segredo para obter uma boa iluminação não é segredo nenhum: é fotografar com boa luz. Como referi, podem obter-se resultados interessantes se só o motivo estiver iluminado e o plano de fundo for sombras, mas o oposto nunca é verdadeiro. Um exemplo clássico é o daqueles fotógrafos que gostam muito de fazer retratos com a pessoa retratada à frente de uma janela, mas o resultado é sempre mau: se se expuser para as altas luzes, a cara do retratado surge como uma silhueta, sendo impossível distinguir as feições; e, se se expuser para as sombras, não apenas a luz da janela vai ficar completamente estourada como o rosto vai continuar mal iluminado.

Já que aludo aos retratos, há uma regra muito simples: NUNCA (desculpem gritar) se fazem retratos contra a luz. O rosto tem, imperativamente, de ser iluminado directamente. E, já que o assunto é luz directa versus luz indirecta (ou a favor versus contra a luz), fica aqui outra recomendação: fotografar contra a luz, provendo o efeito de silhuetas, pode ser espectacular, mas só quando se fotografa a preto-e-branco. A fotografia a cores requer sempre luz directa. O contraste e as silhuetas que resultam espectacularmente bem na fotografia a preto-e-branco são impossíveis de reproduzir na fotografia a cores. O que acontece, quando se fotografa a cores contra a luz, é apenas fotografias mal iluminadas, falhas de contraste e com desvios consideráveis nas cores. Só em casos muito especiais – como se quisermos fazer desaparecer qualquer textura do motivo, apresentando-o como uma silhueta completamente negra, é que as fotografias a cores contra a luz ficam bem, mas estes são casos mais ou menos excepcionais.

Sim, é verdade que fotografar constantemente a favor da luz pode resultar em fotografias muito lugar-comum, mas é tarefa de quem fotografa fazer reverter esta aparente desvantagem a favor da fotografia, o que acontece se procurar motivos cujo interesse permaneça intacto apesar da banalidade da iluminação.

Há mais: a fotografia a cores – de novo ao contrário do preto-e-branco – dá-se muito mal com a luz cáustica. A luz do sol de um entardecer de Março pode ser aproveitada, mas só se se fotografar a favor dela – e mesmo assim com muitas precauções. Fotografar contra a luz quando esta é muito crua e intensa é desperdiçar uma fotografia.

Por fim, um conselho para quem, como eu, usa película: tudo o que escrevi acima se aplica e a parte de fotografar a favor da luz é especialmente verdadeira, mas, além deste cuidado, há que ter outro – a escolha da película. Algumas, como a Kodak Portra 160, estão equilibradas para dar os melhores resultados debaixo de luz natural ou de iluminação de estúdio. Estas películas costumam ser um desastre quando se fotografa à noite ou com muito pouca luz (mesmo que se use o tripé). A selecção da película é essencial, sendo raras as capazes de resultados homogéneos ao sol e à sombra.

M. V. M.

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Agfa Vista 200 (mas antes, um acréscimo ao texto anterior)

No texto sobre a OM-1 omiti uma vantagem em relação à OM-2: a primeira tem um comando que bloqueia o espelho. Isto é útil em exposições longas, quando a mínima vibração – como a provocada pelo impacto do espelho no momento do disparo – pode interferir com a nitidez. Não sei por que razão a OM-2 não tem esta função, mas também devo dizer que, nas exposições longas que fiz com a minha máquina, nunca tive problemas de falta de nitidez causada pelo impacto do espelho. Mirror lock is overrated.

***

Os meus leitores já sabem que voltei a fotografar a cores, depois de mais de três anos em que as minhas únicas fugas ao preto-e-branco se resumiram a algumas experiências com película colorida. Nenhuma destas experiências me deu resultados satisfatórios até ao dia em que resolvi experimentar um rolo que, por causa da matiz vermelha de que me apercebera em muitas das fotografias que consultei na internet, havia decidido nunca usar. Este rolo, como sabem, é o Agfa Vista.

Apesar de a matiz vermelha existir, não é um problema tão grave quanto supus. Mais: de todas as películas coloridas que experimentei, a Agfa é a única com a qual consegui resultados consistentes em condições diferentes de iluminação. As cores são sempre razoavelmente precisas, quer fotografe ao sol ou debaixo da luz ténue das estações subterrâneas do Metro. Nenhum outro rolo – mesmo aqueles cuja qualidade é notoriamente superior à do humilde Agfa Vista – me ofereceu esta consistência: os que resultam bem com luz solar, como o Kodak Portra 160, são um desastre com luz artificial. E os que mantêm a precisão das cores na fotografia nocturna são berrantes e erráticos quando usados ao sol.

As películas 135 de alta sensibilidade como são as ASA 400 – eu sei que isto parece anedótico numa era em que os valores ISO das câmaras digitais se escrevem com sete algarismos – têm, como não é novidade, um grão muito pronunciado. O Agfa Vista não é, evidentemente, excepção. E as digitalizações não fazem absolutamente nada para disfarçar o aspecto pouco límpido que o grão dá às fotografias.

Isto lembrou-me que, de facto, não sou um homem de altas sensibilidades: estão a ler um blogue que, na sua incarnação anterior, se chamava «ISO 100». (Querem melhor prova?) Até agora apenas havia experimentado a versão ASA 400 do Agfa Vista. Recentemente, porém, tive a oportunidade de usar a versão ASA 200. Como seria porventura de prever, o grão é menos abundante, mas nem por isso deixa de estar presente e também não é lá muito límpido. Em comparação com a versão mais sensível, o Vista 200 é praticamente idêntico na apresentação das cores, pelo que não vale a pena acrescentar muito ao que já escrevi sobre o assunto. Contudo, parece-me – ainda estou para confirmá-lo com histogramas – que, além da matiz vermelha característica do Vista 400, há também uma abundância relativa de cianos.

Nada disto, porém, é suficiente para me afastar dos Agfa Vista. Esta continua a ser a película a cores mais homogénea e consistente que conheço, com o bónus de ser barata. Pormenor interessante: um dos reparos que li na internet é que, por causa dos vermelhos, a Agfa Vista é uma película inadequada para retratos, já que falseia a cor da pele. Curiosamente, não notei nada disto. Pelo contrário, os tons de pele parecem-me bastante verosímeis.

Acima de tudo, as Agfa Vista são as únicas películas que me dão o tipo de saturação das cores que quero: nem demasiado vívidas, nem particularmente desmaiadas (como agora parece ser moda na internet). Esta combinação de consistência e agradabilidade faz com que, a despeito das suas falhas, estas Agfa Vista sejam as películas que mais se adequam ao que quero fazer da minha fotografia. E agora tenho uma alternativa quando me apetecer usar aberturas maiores. Nada mau.

M. V. M.

Certezas e dúvidas

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Há um ano, por esta altura, tinha duas certezas e uma incerteza. Estava convicto de que a minha linguagem fotográfica era o preto-e-branco e de que a única película que valia a pena usar era a Ilford FP4. A minha dúvida era qual película havia de usar quando quisesse fotografar a cores, nas raríssimas ocasiões em que tal me apetecesse.

Hoje as certezas estão um pouco mitigadas. Tenho retirado tanta satisfação das fotografias mais recentes, todas elas a cores, que a certeza de que a minha linguagem é o preto-e-branco está agora severamente abalada. Não é que tenha deixado de apreciar o preto-e-branco; é mais por, como o nosso ex-Presidente Jorge Sampaio podia ter dito, haver vida para além do preto-e-branco. O preto-e-branco não se tornou subitamente detestável, nem a cor uma musa inspiradora; o que se deu em mim foi apenas a descoberta de que é possível fotografar com películas a cores com resultados muito satisfatórios – o que ainda não havia aprendido por ter usado películas que não convinham a todas as condições de iluminação com que normalmente fotografo.

Antes de me referir ao que me levou a redescobrir a satisfação das cores, uma palavra quanto à película a preto-e-branco que considerei – e provavelmente ainda considero – a melhor que existe à superfície da terra: sim, os Ilford FP4 são os melhores rolos 135 que existem. Em termos estritamente subjectivos, porém, dei comigo a extrair grande prazer do Kentmere 400. Embora ainda me falte experimentar o Kentmere 100, que é aquele com o qual as comparações relativamente ao FP4 são válidas, os Kentmere podem muito bem ser o negócio do século para quem expõe película a preto-e-branco.

As minhas experiências com cores foram, até aos últimos meses do ano passado, deveras frustrantes: dos rolos que havia experimentado até então, uns eram deliberadamente maus, outros só resultavam bem debaixo de certas condições de luz e outros ainda eram de tal maneira garridos ou granulosos (ou ambos) que não me serviam. Esta insatisfação com as películas a cores contribuiu decisivamente para me levar a centrar a minha fotografia no preto-e-branco (embora o grosso das fotografias que fiz antes de ter a OM-2 fosse já monocromática). Isto durou até ao dia em que resolvi deixar de lado algumas preconcepções e experimentei uma película que sempre me havia parecido medíocre: a Agfa Vista.

Devo dizer que não foi só a película que me determinou a fotografar de novo a cores: foi também, e sobretudo, o conhecimento da obra de fotógrafos como William Albert Allard, Harry Gruyaert, Joel Meyerowitz, Saul Leiter e Fred Herzog. Com os três últimos, descobri que se pode fazer fotografia de rua a cores – e, com isto, livrei-me de uma maneira de fotografar que se está a tornar estafada.

Houve, portanto, uma inversão nas minhas certezas e dúvidas. Agora tenho dúvidas quanto à minha forma de expressão preferida e à película predilecta para a obter, mas ganhei, em contrapartida, uma certeza: os rolos que quero usar, quando fotografo a cores, são os Agfa Vista. A minha breve experiência com o Fujifilm X-Tra 400 apenas serviu para confirmar esta minha preferência. Não, a Agfa não é a película perfeita, mas tem inúmeras virtudes: a descrição das cores, a despeito da intromissão de algumas matizes espúrias, é muito natural; e tem consideravelmente menos grão que o Fujifilm. É uma película que se comporta bem em praticamente todas as condições de iluminação, dando bons resultados nas sombras.

E é barato. O único rolo que me deu melhores resultados foi o muito caro Kodak Portra 160, e mesmo assim este último não é muito bom para fotografar com luz escassa. O humilde Agfa Vista é mais versátil. Apesar de a matiz magenta que afecta algumas fotografias me ir obrigar a recorrer à edição de imagem com mais frequência do que seria desejável, penso que esta é uma contrapartida modesta para o enorme benefício que é poder fotografar em qualquer lugar, independentemente de a luz ser artificial ou natural, de fazer sol ou estar à sombra.

M. V. M.

A morte saiu à rua num dia assim

https://imagens.publicocdn.com/imagens.aspx/1095523?tp=UH&db=IMAGENS&w=1920
Mário Soares pelo grande Alfredo Cunha

Este texto também é sobre fotografia, mas primeiro o mais importante. Ontem morreu Mário Soares. Como já foi dito tudo sobre ele, apenas escrevo que ele foi o pai da nossa democracia. Soares tornou-se numa espécie de figura paterna de quase todos os portugueses, com excepção de alguns ressentidos que, por a sua mente não conseguir abarcar o mundo e a realidade destes dias, vivem presos a um passado distante do qual nem sequer se recordam com precisão. Eu sou um dos que via em Soares uma figura paterna: foi o pai da democracia, da liberdade e da integração na Europa. Mário Soares era um colosso, um gigante da intelectualidade, com as suas três licenciaturas (em Filosofia, História e Direito) – e um dos últimos estadistas portugueses. Quando Adriano Moreira e Freitas do Amaral nos deixarem, não restará senão uma chusma de medíocres cujo nome a história bem cedo apagará.

Hoje de manhã soube da morte de Guilherme Pinto, antigo presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, que tive oportunidade de conhecer in persona. Literalmente, com palavrões e conversas informais e tudo. Era, mais que um político, um ser humano. O seu último gesto público deu-nos a medida da sua dignidade e grandeza: renunciou ao cargo de presidente da câmara uma semana antes de morrer.

E, ao almoço, chegou-me a notícia da morte do Professor Daniel Serrão. Apesar de não concordar com as posições que o seu catolicismo arreigado lhe determinou, e que defendeu estrenuamente enquanto presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, devo reconhecer a maneira serena como sempre participou nas discussões públicas.

O Professor Daniel Serrão morreu em consequência de complicações com origem num traumatismo craniano sofrido num atropelamento. Foi atropelado em 2014, numa passadeira, na rua onde morava. Não consigo conceber maior ignomínia, entre os condutores, do que atropelar um peão numa passadeira. É o epítome da ausência de civismo e da alarvidade do condutor português. E levou à morte um homem da grandeza do Professor Daniel Serrão. Revoltante.

Uma vez conheci o seu neto Filipe. Foi um episódio insignificante – ele tinha cerca de onze anos –, mas, no final de uma conversa breve, disse-me algo que, por me ter tocado tão fundo, me levou a responder-lhe com estas palavras: «Tu és um rapaz com cabeça e, sobretudo, com bons princípios. Continua assim». De facto, o mundo precisa de pessoas como ele. E como o avô, que terá tido uma quota-parte substancial na formação de um ser humano genuinamente bom.

Agora já posso votar a minha atenção para coisas insignificantes. Ontem entretive-me a processar as digitalizações do segundo rolo Agfa Vista que expus. Usei o DxO Optics 9, graças a um upgrade gratuito que a DxO resolveu oferecer. A versão 9 tem um algoritmo de redução do ruído muito sofisticado, mostrando, numa pequena janela, a ampliação a 100% de uma porção da imagem.

Ver esse pedacinho da fotografia ampliado confrontou-me de novo com a realidade de que o formato 135 não tem um nível de qualidade suficiente. Se, a esta falta natural de definição (à qual nem as lentes Zuiko podem acudir), somarmos o grão de uma película 400 ASA, temos por resultado uma qualidade equiparável a uma câmara digital com sensor pequeno.

Talvez seja o Agfa Vista que é muito fraquinho – ou melhor: a culpa é da Fujifilm, que fabrica esta película – e outros rolos tenham melhor qualidade, mas não gostei nada do que vi. Contudo, como nada é inteiramente mau – ou, pelo menos, tão mau que não haja algo que se aproveite –, descobri o seguinte: os tons de pele que o Agfa Vista descreve são simplesmente perfeitos. Qualquer alteração no HSL, por ínfima que seja, destrói de imediato o equilíbrio que faz deste rolo uma opção excelente para retratos. Desde que se acerte com a iluminação e a exposição, o Agfa Vista é capaz de uma veracidade na descrição dos tons de pele que envergonha o Kodak Portra 160.

O que me aproximou um pouco mais de me decidir por esta película como a minha favorita para fotografar a cores. Apesar de ainda precisar de ver o que o Fuji Superia X-Tra consegue fazer, o Agfa tem um equilíbrio entre defeitos e virtudes, e entre preço e qualidade geral, que o torna numa boa opção. Claro que não é uma película de slides, ou de médio formato – mas a qualidade de imagem não pode ser o único critério. De que me serve uma fotografia isenta de grão e com contornos imensamente bem definidos, se a pele de uma pessoa surgir azulada?

M. V. M.

Agfa Vista 400

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A Agfa é uma companhia europeia antiga; como todas as companhias europeias antigas, tem uma história extremamente interessante, tendo-se tornado numa das gigantes da imagiologia. Sendo o resultado da fusão de duas companhias que se desenvolveram separadamente – a Agfa na Alemanha, a Gevaert na Bélgica –, a Agfa-Gevaert BV não tem, hoje em dia, a importância que teve para a indústria fotográfica até finais do século passado.

Embora a Agfa-Gevaert ainda exista, e continue a produzir película, já não tem a dimensão que tinha quando os seus produtos rivalizavam com os da Zeiss e a película que produz é para fotografia aérea. Curiosamente, não é a Agfa-Gevaert que produz a película Agfaphoto: a película para fotografia aérea é cortada, inserida em rolos e vendida ao público pela Lomography e pela Rollei. A Agfaphoto, essa, encomenda película à Fujifilm. Digamos que os APX, Vista e Precisa são películas OEM, que são fabricadas no Japão para uma companhia denominada Lupus Imaging Media (que é, aparentemente, a proprietária da marca «Agfaphoto»). Portanto, a película Agfa não é Agfa e a película que a Agfa faz também não. Eu sei que é confuso, por isso nem sequer me vou esforçar por perceber como isto tudo aconteceu.

O que eu sei é que, para película Fujifilm, o Agfa Vista 400 tem uma deficiência surpreendente: os verdes são péssimos. Mortiços na melhor das hipóteses, completamente deslavados e esbranquiçados na pior. O Agfa Vista 400 só não me merece impropérios por o seu preço ser tão modesto, mas posso dizer que, sendo mais caro, consegue ser apenas ligeiramente melhor que o Fuji Superia 200, que é um dos piores rolos a cores que experimentei.

Esta minha apreciação tem de ser lida cum grano salis. Os rolos que usei até hoje, com a aparente excepção do Ferrania Solaris, do Kodak Gold e do Superia, são para uso profissional. A sua qualidade está a léguas da dos rolos vendidos ao público em geral. Deste modo, quando digo que o Agfa Vista é sofrível, é como se estivesse a referir-me a, digamos, um Opel Insignia: este fica a perder para os modelos equivalentes da Mercedes, Audi e BMW – e mesmo para o Peugeot 508 –, mas é bastante melhor que, digamos, um Volkswagen Polo. É tudo uma questão de escalão.

Dito isto, eu esperava que o Agfa Vista me desse cores subtis, mas correctas. A parte da subtileza é cumprida com algum aprumo, mas a correcção deixa qualquer coisa a desejar. Muitas das fotografias que fiz foram invadidas por uma matiz vermelha que adulterou alguns tons. Por exemplo, a areia mais parece terra. Os amarelos parecem ser a cor que mais sofre com esta matiz. Avancei com a referência ao verde ainda antes de entrar na análise das características desta película porque, como todos sabem, a Fujifilm é reputada pela beleza dos seus verdes. Ora, esta beleza está completamente ausente do Agfa Vista 400, o que me surpreendeu. Este é um rolo que dá às fotografias um aspecto antiquado que não me agrada inteiramente.

O grão, como seria de esperar numa película ASA 400, é abundante. Contudo, esta película lembra as tentativas da minha Canon compacta em fotografar com valores ISO superiores a 100: o ruído era inaceitável. O grão do Agfa Vista 400 é horrível nas fotografias feitas com pouca luz, embora discreto e virtualmente indiscernível nas demais.

Então há alguma coisa de bom a dizer a favor desta película? Sim. Os azuis são espectaculares, embora de tempos a tempos possam surgir um pouco desbotados. Quando a luz ambiente é boa, o tingimento vermelho e o grão não afectam demasiado a qualidade da imagem, apenas restando a questão da vibração das cores, que é sobretudo uma questão de gosto. Por mim, prefiro um bocadinho mais de saturação. E o tingimento, diga-se, é bem mais benigno do que quando são as matizes ciano e magenta a invadir a imagem.

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E é uma boa película para fotografar à sombra. Embora os melhores resultados surjam com luz solar pouco intensa, como a que é típica do Outono e Inverno, nas fotografias feitas à sombra – ou, genericamente, com luz escassa – inexiste o tingimento azul que afecta as películas calibradas para luz do dia, como a Portra 160.

Por tudo isto, o Agfa Vista é um rolo que tem defeitos e virtudes. Quanto a mim, os primeiros não chegam a sobrepor-se às qualidades e os únicos vícios que podem ser considerados redibitórios – pelo menos para alguns – são o tingimento vermelho e o grão excessivo. O resto pode até agradar aos adeptos de cores mortiças que se dedicam a um certo tipo de fotografia que está agora muito em voga.

Quanto a mim, penso que consigo obter resultados muito interessantes a partir do Agfa Vista depois de corrigidas as cores na edição de imagem. Simplesmente, usar a manipulação digital é uma das coisas que pretendo evitar: ainda estou à procura de uma película a cores que não precise de retoques no computador. Até agora, a que mais me satisfez foi a Kodak Gold 200, mas não morro de amores pelas suas cores saturadas. A demanda da película a cores perfeita continua, e tenho receio que só a encontre a preços incomportáveis – como a Fujifilm 400H, cujos rolos atingem os dois algarismos na nossa divisa actual.

M. V. M.

Os meus filmes

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Título enganoso – não vou falar aqui de cinema, embora já o tenha feito (há poucos blogues de fotografia onde os leitores possam educar o seu gosto cinematográfico através do conhecimento de cineastas como Luchino Visconti, Richard Linklater e Michael Haneke). O título pretende ser uma sátira às pessoas que gostam de traduzir tudo directamente do inglês e entendem que film pode ser traduzido para filme, mas esta última é uma palavra inventada, porque film tem uma tradução em português, que é  «película». (Film não se refere especificamente à película fotográfica ou cinematográfica: também designa, por exemplo, o papel celofane ou os plásticos usados para envolver alimentos.)

Também não vou escrever sobre os meus filmes – se eu vos contasse como correu o meu último julgamento, pensariam que tinha aderido à equipa de guionistas de uma série humorística qualquer –, mas sim sobre as minhas películas. Desde que comprei a OM já experimentei vinte películas diferentes (todas de negativos): da Kodak, usei rolos de Tri-X, Portra 160, Ektar 100, Gold 200 e T-Max 100 e 400; experimentei Ilford FP4, HP5, Pan F e Delta 100 e 400 (além de um rolo Pan 400 que já atingira a idade núbil, mas cujos resultados pareceram agradar a muitos visitantes do meu Flickr); usei também Fuji (Superia 200), Fomapan 200, Ferrania Solaris, Kentmere 400, Agfa APX 100 (também usei 400, mas os resultados foram inconclusivos) e agora outro rolo Agfa, este a cores, que é o Vista 400. Além da ovelha negra chamada Lomography Earl Grey, que foi a pior que experimentei. Foram muitos rolos. Apesar de ainda me faltar experimentar outros tantos – vários da Fuji, todos da Rollei e da Adox e algumas variedades das marcas que mencionei anteriormente –, penso que já posso elaborar algumas conclusões.

A primeira é que o preto-e-branco é a minha linguagem. Já escrevi aqui, ainda há bem pouco tempo, que fotografar a cores é difícil pelas exigências de harmonia da cor. Devo acrescentar outra dificuldade: a de encontrar motivos em que a cor, mais que as formas, seja o elemento gráfico preponderante. Convenhamos que o Porto é uma cidade um bocado granítica e monocromática (e eu não tenho particular gosto em fotografar graffiti). O preto-e-branco favorece as formas e as linhas, pelo que se adequa melhor às minhas opções estéticas. Daí que tenha adquirido muitos mais rolos de preto-e-branco que de cores. Por regra, demoro muito mais a expor rolos a cores, o que é revelador quanto às dificuldades com que me deparo. Isto não quer dizer que tenha desistido da cor, mas seguramente significa que estabeleci uma preferência.

E, já que me refiro a preferências, quais são os rolos que mais me satisfazem? Para o preto-e-branco, a resposta é mais ou menos óbvia: o FP4 é aquele ao qual volto sempre. Já expus trinta e seis rolos desta película. Gosto do seu contraste e da nitidez incrível, mas exige algumas precauções, como expor sistematicamente para as altas luzes de maneira a evitar a sobreexposição.

O que me leva a outra conclusão: eu gosto de películas lentas. Comigo a fotografia em lugares pouco iluminados é uma excepção, não a regra. Além de não apreciar aberturas demasiado estreitas: não sou um tarado do bokeh (eu gostava de cremar in vivo a criatura que se lembrou de importar esta palavra para o Ocidente), mas um bocadinho de desfoque de vez em quando não faz mal nenhum. As películas de alta velocidade (ou sensibilidade, se preferirem) obrigam-me a fotografar com f/11 sempre que aparece um raio de sol. Contudo, nas diversas ocasiões em que um rolo ISO 400 é útil, demorei a decidir qual preferia: o Tri-X? O HP5? Sob reserva de fazer mais algumas experiências, penso ter encontrado uma película que poderia usar sempre que quiser fotografar em estações do metro: a Kentmere 400. Contudo, devo também dizer que foi agradável experimentar películas ASA 200. Usei duas: Fomapan 200 e Kodak Gold 200. É uma sensibilidade muito versátil e agradável de usar. Não compreendo por que razão a Ilford não fabrica películas ISO 200.

Quanto à cor, remeto para o texto em que me refiro às dificuldades suplementares que as películas implicam. Apesar de a minha preferência não ir para a fotografia a cores, não posso negar que me diverti com os rolos Ferrania e que fiquei surpreendido com o desempenho do Kodak Gold 200. Os outros são demasiado dependentes das condições de luz. Curiosamente, a película que estou correntemente a usar é a primeira de alta velocidade que uso. (Depois digo-vos das minhas impressões.)

A maior surpresa da minha experiência com películas, porém, é a resolução do pormenor que algumas possibilitam. Claro que as lentes Olympus OM, em particular a grande-angular, contribuem para esta resolução, mas as películas desempenham um papel importante. Descobrir isto foi uma surpresa, mas há uma explicação: a fotografia no formato 135 precisa de toda a resolução de que for capaz para que não se perca demasiada nitidez nas ampliações. As minhas fotografias são, com a excepção daquelas em que falhei a focagem, inacreditavelmente nítidas. Esta, como referi, foi uma grande surpresa. Só comparável ao prazer que se extrai de fotografar com uma máquina analógica, mas estas são contas de outro rosário.

M. V. M.

Mais dificuldades da cor: as películas

Kodak Ektar 100
Kodak Ektar 100

O último texto já ia demasiado longo e tive de deixar de fora uma dificuldade da cor que a fotografia digital ultrapassa com relativa facilidade, mas ainda exige muita experiência de quem fotografa com película: o equilíbrio das cores.

Como é sabido – e isto aplica-se à fotografia analógica e à digital –, as cores não têm uma apresentação uniforme consoante as diferentes condições de luz. Algo que se aprende em qualquer workshop é que uma fotografia tirada debaixo da luz do sol tem umas cores muito diferentes de outra que tiver sido tirada com iluminação artificial (e dentro desta há variações). Fotografar debaixo de sombra tem, quando se usa o esquema RGB, o inconveniente de recobrir a imagem com uma matiz azul, ao passo que fotografar sob luz solar muito intensa torna as cores deslavadas e tingidas de ciano.

A fotografia digital resolveu esta questão com alguma facilidade ao possibilitar a alteração do equilíbrio dos brancos, quer pelos automatismos do processador quando se fotografa em JPEG, quer usando as ferramentas da edição de imagem. Deste modo é sempre possível chegar aos tons ideais quando se fotografa digital.

E com película? Evidentemente, quando se fotografa no domínio analógico não há lugar ao equilíbrio dos brancos. Esta é uma invenção trazida com a fotografia digital. Quem insere um rolo a cores na sua máquina fotográfica terá de se conformar com fotografar sempre com as mesmas condições de luz ou aceitar resultados insatisfatórios quando fotografa debaixo de uma iluminação diversa daquela para a qual a película foi pensada. As películas a cores têm um equilíbrio próprio que não pode ser alterado: as que são equilibradas para luz solar dão resultados que vão do bom ao excelente quando se fotografa com luz natural, mas são péssimas para fotografia nocturna. Os seus tons são neutros e agradáveis quando se fotografa sob a luz para a qual foram equilibradas, mas fotografar com elas à noite – ou mesmo debaixo de sombras densas durante o dia – introduz matizes azuis arroxeadas que destroem por completo a agradabilidade da imagem. Um exemplo disto é o Kodak Portra 160.

Pelo contrário, se a película for equilibrada para luz artificial as cores surgem inautênticas se se fotografar durante o dia, sob luz solar intensa. Neste caso as cores surgem berrantes, predominando matizes vermelhas e amarelas. Um exemplo é o Kodak Ektar 100: péssimo sob luz solar forte, inacreditavelmente preciso debaixo de luz artificial e escassa. Outros rolos equilibrados para pouca luz dão igualmente cores saturadas sob luz do dia forte, mas com resultados bem mais agradáveis: é o caso do Kodak Gold 200 e do Ferrania Solaris, embora a saturação possa parecer excessiva para os gostos de muitos (em especial no caso do Ferrania). Se há um aspecto em que a fotografia digital tem uma vantagem considerável sobre a analógica, é o equilíbrio das cores.

O maior problema do uso de película a cores, independentemente das condições de luz para que são equilibradas, é o de manter a consistência das cores debaixo de luz intensa. Os pioneiros da cor, como William Eggleston, tinham o hábito de expor para as altas luzes para preservar a vibração e a saturação das cores, as quais ficam comprometidas pela intensidade excessiva da luz. Esta é uma prática recomendável, mas parece que já estou a ouvir alguém objectar: – mas as sombras vão ficar demasiado escuras. A resposta a esta questão é depende. Esse dodging das sombras é real no caso dos slides, que têm pouca latitude, mas os negativos têm uma vantagem de cerca de 4 EV sobre a fotografia digital e os diapositivos. Deste modo é possível preservar as sombras quando se expõe para as altas luzes, com a vantagem de, no caso de não se poder expor directamente para as altas luzes, estas nunca surgirem estouradas quando se usa rolos de negativos.

Outro problema de fotografar a cores com película é a imutabilidade, já não do equilíbrio das cores, mas da tonalidade. É impossível alterar esta última: se estamos a usar um Kodak Gold, todas as trinta e seis exposições vão ter tons saturados. Hoje é possível alterar a tonalidade na edição de imagem, o que não é nenhum sacrilégio mas não nos dá a medida das qualidades de uma determinada película.

Resultado de imagem para agfaphoto vista plus 400

Como vêem, se no geral é difícil fotografar a cores, fazê-lo com película ainda o é mais. Seja como for, eu prometi a mim mesmo que não havia de morrer sem conseguir fazer fotografia analógica a cores em condições decentes. Isto veio-me à cabeça depois de ver tantas fotografias fabulosas de mestres da cor como (eu sei que estou sempre a mencioná-los, mas tenham paciência) William Albert Allard e Harry Gruyaert (o Alec Soth já é do tempo do digital). Por estas razões, resolvi fazer um interregno na fotografia a preto-e-branco e experimentar mais um rolo a cores, desta vez o Agfa Vista 400. Espero que a sensibilidade alta obste aos tingimentos espúrios ao fotografar à sombra e, pelo que vi na internet, conto com tonalidades agradáveis. E, tal como o Kentmere que foi objecto da minha última experiência, não é caro. Watch this space.

M. V. M.