Cores. Cores. A vida é a cores

Ontem recebi, via Dropbox, as digitalizações de mais um rolo a cores. Desta vez foi um Agfa Vista 400, rolo ao qual perdoo uma ligeira falta de acutância e um tingimento vermelho acentuado por fazer tudo o resto tão bem, por tão pouco dinheiro. Podia ficar mais satisfeito com o 160NS, ou com o 400H, ambos da Fujifilm, mas estes rolos custam os olhos da cara. O seu uso justifica-se num contexto profissional – apesar de ser discutível o uso de película 135 para fins profissionais, evidentemente.

Adiante, que não é sobre rolos que quero escrever. Eu não tinha grandes expectativas quanto às exposições deste último rolo. Fiz fotografias naquele estilo a que se pode chamar «de rua», dentro do que costumava fazer quando usava os meus Ilford FP4, e, como imaginava que tais fotografias não iam resultar muito bem a cores, calculei que teria sido um desperdício de tempo e dinheiro.

Estava enganado. As fotografias que fiz são inteiramente válidas – pelo menos segundo os meus próprios critérios, e a despeito de poder considerá-las péssimas daqui a uma semana –, mesmo sendo a cores. Vou mais longe: a cor atribui-lhes uma dimensão suplementar, um interesse extra em relação a imagens semelhantes a preto-e-branco.

Isto faz-me pensar se não terei perdido demasiado tempo ao fotografar quase exclusivamente a preto-e-branco durante mais de três anos. Vendo bem, foi tudo uma questão de moda: habituei-me a ver fotografias a preto-e-branco e limitei-me a aderir à moda. Foi um erro: em lugar de procurar exprimir-me pelos meus próprios meios, preferi o conforto de seguir o que os outros faziam.

Foi um disparate, embora justificado pela verdura e ignorância. Como só conhecia fotografia de rua a preto-e-branco, não imaginava que fosse possível fazê-la de outra maneira. O que mudou tudo, fazendo-me fotografar a cores? Dois factores, por ordem crescente de importância. O primeiro foi ter encontrado uma película capaz de resultados consistentes sob todas as condições de luz. Isto foi essencial – tanto que agora me parece que não fotografava tanto a cores por as películas que experimentei não me terem deixado satisfeito. O segundo foi ter-me familiarizado com um triunvirato de fotógrafos de rua que utilizaram a cor de maneira excepcional: Fred Herzog, Saul Leitner e Joel Meyerowitz.

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Fred Herzog, “Main Barber”

O que eu gosto, nas fotografias de Herzog, Leiter e Meyerowitz, é elas provarem que a fotografia de rua não tem necessariamente de ser a preto-e-branco. Olho para aquelas fotografias, e está lá tudo o que define a fotografia de rua: as pequenas histórias do quotidiano, os sinais da vida urbana, a estética, a composição – e, evidentemente, as cores. E são fotografias que funcionam.

A fotografia de rua tornou-se muito cliché. Tem apenas que ver com a estética, composta de contrastes exagerados e do omnipresente preto-e-branco, e acontece, invariavelmente, em cenários nos quais a presença de uma pessoa é um mero pretexto para a aposição do rótulo de «fotografia de rua». Sim, ainda há fotografias de rua em preto-e-branco maravilhosas, mas a vida é a cores. Foi William Albert Allard quem disse “Eu vejo a cores”. Tenho razões para crer que não estava apenas a declarar que não era daltónico.

Fred Herzog, Saul Leiter e Joel Meyerowitz mostraram-me que é possível uma abordagem diferente para a fotografia de rua. Foi uma verdadeira revelação. Antes, já me tinha deixado fascinar pelo uso que Harry Gruyaert e William Albert Allard fazem da cor, mas estes dois não são fotógrafos de rua – mesmo que, ocasionalmente, tenham feito fotografias que caem dentro dessa definição. Foram Herzog, Leiter e Meyerowitz quem levou a cor para a fotografia de rua. Ainda bem que eles – ou a sua obra, já que Saul Leiter morreu em 2016 – existem: libertaram-me de um espartilho.

No Sábado perguntaram-me quando ia voltar ao preto-e-branco. Isto que estou a fazer não é um mero flirt com as cores, como fiz quando experimentei os Kodak Ektar e Gold e o Ferrania Solaris. Vou certamente voltar a usar rolos de preto-e-branco, mas não com a quase exclusividade com que o fiz até há pouco. Não quero estar limitado a um estilo ou a uma estética.

M. V. M.

Os meus filmes

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Título enganoso – não vou falar aqui de cinema, embora já o tenha feito (há poucos blogues de fotografia onde os leitores possam educar o seu gosto cinematográfico através do conhecimento de cineastas como Luchino Visconti, Richard Linklater e Michael Haneke). O título pretende ser uma sátira às pessoas que gostam de traduzir tudo directamente do inglês e entendem que film pode ser traduzido para filme, mas esta última é uma palavra inventada, porque film tem uma tradução em português, que é  «película». (Film não se refere especificamente à película fotográfica ou cinematográfica: também designa, por exemplo, o papel celofane ou os plásticos usados para envolver alimentos.)

Também não vou escrever sobre os meus filmes – se eu vos contasse como correu o meu último julgamento, pensariam que tinha aderido à equipa de guionistas de uma série humorística qualquer –, mas sim sobre as minhas películas. Desde que comprei a OM já experimentei vinte películas diferentes (todas de negativos): da Kodak, usei rolos de Tri-X, Portra 160, Ektar 100, Gold 200 e T-Max 100 e 400; experimentei Ilford FP4, HP5, Pan F e Delta 100 e 400 (além de um rolo Pan 400 que já atingira a idade núbil, mas cujos resultados pareceram agradar a muitos visitantes do meu Flickr); usei também Fuji (Superia 200), Fomapan 200, Ferrania Solaris, Kentmere 400, Agfa APX 100 (também usei 400, mas os resultados foram inconclusivos) e agora outro rolo Agfa, este a cores, que é o Vista 400. Além da ovelha negra chamada Lomography Earl Grey, que foi a pior que experimentei. Foram muitos rolos. Apesar de ainda me faltar experimentar outros tantos – vários da Fuji, todos da Rollei e da Adox e algumas variedades das marcas que mencionei anteriormente –, penso que já posso elaborar algumas conclusões.

A primeira é que o preto-e-branco é a minha linguagem. Já escrevi aqui, ainda há bem pouco tempo, que fotografar a cores é difícil pelas exigências de harmonia da cor. Devo acrescentar outra dificuldade: a de encontrar motivos em que a cor, mais que as formas, seja o elemento gráfico preponderante. Convenhamos que o Porto é uma cidade um bocado granítica e monocromática (e eu não tenho particular gosto em fotografar graffiti). O preto-e-branco favorece as formas e as linhas, pelo que se adequa melhor às minhas opções estéticas. Daí que tenha adquirido muitos mais rolos de preto-e-branco que de cores. Por regra, demoro muito mais a expor rolos a cores, o que é revelador quanto às dificuldades com que me deparo. Isto não quer dizer que tenha desistido da cor, mas seguramente significa que estabeleci uma preferência.

E, já que me refiro a preferências, quais são os rolos que mais me satisfazem? Para o preto-e-branco, a resposta é mais ou menos óbvia: o FP4 é aquele ao qual volto sempre. Já expus trinta e seis rolos desta película. Gosto do seu contraste e da nitidez incrível, mas exige algumas precauções, como expor sistematicamente para as altas luzes de maneira a evitar a sobreexposição.

O que me leva a outra conclusão: eu gosto de películas lentas. Comigo a fotografia em lugares pouco iluminados é uma excepção, não a regra. Além de não apreciar aberturas demasiado estreitas: não sou um tarado do bokeh (eu gostava de cremar in vivo a criatura que se lembrou de importar esta palavra para o Ocidente), mas um bocadinho de desfoque de vez em quando não faz mal nenhum. As películas de alta velocidade (ou sensibilidade, se preferirem) obrigam-me a fotografar com f/11 sempre que aparece um raio de sol. Contudo, nas diversas ocasiões em que um rolo ISO 400 é útil, demorei a decidir qual preferia: o Tri-X? O HP5? Sob reserva de fazer mais algumas experiências, penso ter encontrado uma película que poderia usar sempre que quiser fotografar em estações do metro: a Kentmere 400. Contudo, devo também dizer que foi agradável experimentar películas ASA 200. Usei duas: Fomapan 200 e Kodak Gold 200. É uma sensibilidade muito versátil e agradável de usar. Não compreendo por que razão a Ilford não fabrica películas ISO 200.

Quanto à cor, remeto para o texto em que me refiro às dificuldades suplementares que as películas implicam. Apesar de a minha preferência não ir para a fotografia a cores, não posso negar que me diverti com os rolos Ferrania e que fiquei surpreendido com o desempenho do Kodak Gold 200. Os outros são demasiado dependentes das condições de luz. Curiosamente, a película que estou correntemente a usar é a primeira de alta velocidade que uso. (Depois digo-vos das minhas impressões.)

A maior surpresa da minha experiência com películas, porém, é a resolução do pormenor que algumas possibilitam. Claro que as lentes Olympus OM, em particular a grande-angular, contribuem para esta resolução, mas as películas desempenham um papel importante. Descobrir isto foi uma surpresa, mas há uma explicação: a fotografia no formato 135 precisa de toda a resolução de que for capaz para que não se perca demasiada nitidez nas ampliações. As minhas fotografias são, com a excepção daquelas em que falhei a focagem, inacreditavelmente nítidas. Esta, como referi, foi uma grande surpresa. Só comparável ao prazer que se extrai de fotografar com uma máquina analógica, mas estas são contas de outro rosário.

M. V. M.

Mais dificuldades da cor: as películas

Kodak Ektar 100
Kodak Ektar 100

O último texto já ia demasiado longo e tive de deixar de fora uma dificuldade da cor que a fotografia digital ultrapassa com relativa facilidade, mas ainda exige muita experiência de quem fotografa com película: o equilíbrio das cores.

Como é sabido – e isto aplica-se à fotografia analógica e à digital –, as cores não têm uma apresentação uniforme consoante as diferentes condições de luz. Algo que se aprende em qualquer workshop é que uma fotografia tirada debaixo da luz do sol tem umas cores muito diferentes de outra que tiver sido tirada com iluminação artificial (e dentro desta há variações). Fotografar debaixo de sombra tem, quando se usa o esquema RGB, o inconveniente de recobrir a imagem com uma matiz azul, ao passo que fotografar sob luz solar muito intensa torna as cores deslavadas e tingidas de ciano.

A fotografia digital resolveu esta questão com alguma facilidade ao possibilitar a alteração do equilíbrio dos brancos, quer pelos automatismos do processador quando se fotografa em JPEG, quer usando as ferramentas da edição de imagem. Deste modo é sempre possível chegar aos tons ideais quando se fotografa digital.

E com película? Evidentemente, quando se fotografa no domínio analógico não há lugar ao equilíbrio dos brancos. Esta é uma invenção trazida com a fotografia digital. Quem insere um rolo a cores na sua máquina fotográfica terá de se conformar com fotografar sempre com as mesmas condições de luz ou aceitar resultados insatisfatórios quando fotografa debaixo de uma iluminação diversa daquela para a qual a película foi pensada. As películas a cores têm um equilíbrio próprio que não pode ser alterado: as que são equilibradas para luz solar dão resultados que vão do bom ao excelente quando se fotografa com luz natural, mas são péssimas para fotografia nocturna. Os seus tons são neutros e agradáveis quando se fotografa sob a luz para a qual foram equilibradas, mas fotografar com elas à noite – ou mesmo debaixo de sombras densas durante o dia – introduz matizes azuis arroxeadas que destroem por completo a agradabilidade da imagem. Um exemplo disto é o Kodak Portra 160.

Pelo contrário, se a película for equilibrada para luz artificial as cores surgem inautênticas se se fotografar durante o dia, sob luz solar intensa. Neste caso as cores surgem berrantes, predominando matizes vermelhas e amarelas. Um exemplo é o Kodak Ektar 100: péssimo sob luz solar forte, inacreditavelmente preciso debaixo de luz artificial e escassa. Outros rolos equilibrados para pouca luz dão igualmente cores saturadas sob luz do dia forte, mas com resultados bem mais agradáveis: é o caso do Kodak Gold 200 e do Ferrania Solaris, embora a saturação possa parecer excessiva para os gostos de muitos (em especial no caso do Ferrania). Se há um aspecto em que a fotografia digital tem uma vantagem considerável sobre a analógica, é o equilíbrio das cores.

O maior problema do uso de película a cores, independentemente das condições de luz para que são equilibradas, é o de manter a consistência das cores debaixo de luz intensa. Os pioneiros da cor, como William Eggleston, tinham o hábito de expor para as altas luzes para preservar a vibração e a saturação das cores, as quais ficam comprometidas pela intensidade excessiva da luz. Esta é uma prática recomendável, mas parece que já estou a ouvir alguém objectar: – mas as sombras vão ficar demasiado escuras. A resposta a esta questão é depende. Esse dodging das sombras é real no caso dos slides, que têm pouca latitude, mas os negativos têm uma vantagem de cerca de 4 EV sobre a fotografia digital e os diapositivos. Deste modo é possível preservar as sombras quando se expõe para as altas luzes, com a vantagem de, no caso de não se poder expor directamente para as altas luzes, estas nunca surgirem estouradas quando se usa rolos de negativos.

Outro problema de fotografar a cores com película é a imutabilidade, já não do equilíbrio das cores, mas da tonalidade. É impossível alterar esta última: se estamos a usar um Kodak Gold, todas as trinta e seis exposições vão ter tons saturados. Hoje é possível alterar a tonalidade na edição de imagem, o que não é nenhum sacrilégio mas não nos dá a medida das qualidades de uma determinada película.

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Como vêem, se no geral é difícil fotografar a cores, fazê-lo com película ainda o é mais. Seja como for, eu prometi a mim mesmo que não havia de morrer sem conseguir fazer fotografia analógica a cores em condições decentes. Isto veio-me à cabeça depois de ver tantas fotografias fabulosas de mestres da cor como (eu sei que estou sempre a mencioná-los, mas tenham paciência) William Albert Allard e Harry Gruyaert (o Alec Soth já é do tempo do digital). Por estas razões, resolvi fazer um interregno na fotografia a preto-e-branco e experimentar mais um rolo a cores, desta vez o Agfa Vista 400. Espero que a sensibilidade alta obste aos tingimentos espúrios ao fotografar à sombra e, pelo que vi na internet, conto com tonalidades agradáveis. E, tal como o Kentmere que foi objecto da minha última experiência, não é caro. Watch this space.

M. V. M.

Isto não é uma guerra

Linn_Sondek_LP12_LargeOs apologistas do progresso clamam que a evolução remeteu o vinil e a película para a obsolescência e os condenou à extinção, fazendo analogias com comboios a vapor e navios veleiros; os indefectíveis que, acompanhando ou não a evolução (porque nem todos os amantes do vinil e da película vivem amarrados ao passado), preferem os meios considerados antigos, defendem-se dos ataques – sim, porque para muitos isto é uma guerra – com argumentos que nem sempre são convincentes. Mas há também os que conseguem ver as coisas com um pouco mais de clareza e rejeitam a ideia de que se tem de estar de um lado ou do outro.

Eu estou mais perto destes últimos. Vi claramente as vantagens e os inconvenientes de cada um dos meios e fiz opções de acordo com esse conhecimento. Começando pela reprodução musical, posso dizer que nada substitui a satisfação que retiro de ouvir música gravada em vinil: o som é mais dinâmico, mais enérgico, e há uma melhor individualização das notas. Em comparação, o som dos formatos digitais é plano, por ser severamente limitado nas dinâmicas (especialmente a dos graves). Daí que, embora tenha acumulado um número considerável de CD’s, tenha agora mais LP’s – mesmo sem contar com os que tinha antes de aderir ao CD. Compro vinis porque me dá mais prazer ouvi-los. No entanto, não deitei o meu leitor de CD ao lixo: o CD é muito mais prático para a música clássica. Além de haver poucas edições novas de música clássica em vinil (a não ser nas etiquetas «audiófilas»), uma sinfonia desfruta-se melhor se for ouvida de uma vez do que se tiver de me levantar para virar o disco no final de cada andamento. O som não é tão dinâmico, mas é um compromisso aceitável.

Se o som do vinil é, do meu ponto de vista e em termos bastante genéricos, consideravelmente melhor que o digital, a película é mais uma profissão de fé que outra coisa. A fotografia digital há muito ultrapassou o padrão de qualidade do rolo 135 e só o médio formato continua, por enquanto, a resistir à evolução da fotografia digital. Não é uma questão de qualidade em si, porque a película 135 não é falha em aspectos como a nitidez ou o contraste: é, sobretudo, um problema de tamanho. Com um negativo 135, até onde se podia ir na ampliação foi um problema que nunca foi resolvido satisfatoriamente; os profissionais tinham de recorrer ao médio formato para fazer grandes ampliações, deixando o 135 para as fotos de família e as destinadas à imprensa, que raramente eram ampliadas para além do tamanho 15×10. De um modo geral, pode dizer-se que 24×18 (centímetros) é o limite máximo até ao qual um negativo 135 pode ser ampliado – e só se for usada uma boa lente, com muita nitidez, um rolo com muita acutância e um ampliador com uma lente também ela de alta qualidade. A partir desse tamanho a nitidez é severamente prejudicada.

Há mais. Até agora, ainda estou para encontrar uma película a cores que me deixe inteiramente satisfeito. O Kodak Portra só pode ser usado em condições de luz ideais; o Ektar 100 só dá bons resultados com pouca luz; o Ferrania Solaris e o Kodak Gold 200 são por vezes demasiado garridos para o meu gosto. Nas poucas ocasiões em que sinto vontade ou necessidade de fotografar a cores, prefiro recorrer à câmara digital a comprar um rolo (embora ainda me falte experimentar os Fuji 160NS e 400H, que são excelentes – ao que se diz – mas muito caros).

a01Mas há dois factores que me fizeram optar por fotografar com película. O primeiro é as limitações da minha câmara digital. Com esta, posso fazer impressões em grandes tamanhos, mas não tenho, pelo menos com as lentes que comprei especificamente para esta câmara, a nitidez que consigo com a OM e os rolos Ilford. Embora a nitidez nem sempre seja o mais importante, é decisiva nas minhas escolhas. Isto deve soar estranhíssimo aos ouvidos de um digitalista militante, mas é verdade. Para obter uma boa nitidez com a câmara digital, tenho de recorrer às lentes da OM – e mesmo assim os resultados não são melhores do que os que tenho com película.

O outro factor é eu não conseguir, por muitas horas que perca às voltas com o programa de edição de imagem, reproduzir por via digital a estética que procuro para as fotografias a preto-e-branco. Com os rolos – especialmente os Ilford, mas também com o Tri-X – consigo esse look imediatamente, sem recorrer à edição de imagem; com as fotografias digitais posso chegar perto, mas nunca é exactamente a mesma coisa. Há sempre algo que denuncia a natureza digital da imagem.

O que quero dizer com este texto é que não existe, para mim, uma trincheira a separar os domínios analógico e digital. Esta não é nenhuma guerra e, mesmo se fosse, nenhuma das partes teria a supremacia absoluta sobre a outra. A fotografia digital pode não ter ainda suplantado a analógica – e, no que se refere à estética única da película a preto-e-branco, nunca a suplantará –, mas quantas fotografias «analógicas» conheceríamos hoje se não fosse a digitalização?

M. V. M.

Obituário: Holga

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Segundo as notícias, a Holga acabou. A maquinaria usada na produção das câmaras e lentes foi «deitada fora» e «não há nada para vender», informou um representante da fábrica na China. Isto significa, por outras palavras, que os lomógrafos vão ter menos escolha, mas mais adiante veremos que isto não é tão grave e importante como parece.

Primeiro, um pouco de história: a Holga foi lançada na China em 1981. A sua história e as razões por detrás do lançamento coincidem com as da Lomo, embora as câmaras russas precedam cronologicamente a Holga e esta tivesse a peculiaridade de ser uma máquina de médio formato que fotografava com a relação de aspecto 6×6. Apesar de ter sido um sucesso no início, as vendas decaíram quando o formato 135 começou a ser introduzido no mercado chinês. Com o consumismo veio o digital, o que não ajudou a causa. A Holga ainda lançou câmaras TLR e 135, mas sem grande sucesso.

Curiosamente, o que manteve as Holga vivas até agora foi a Lomography (ou Lomografia, se quiserem). As Holga eram uma alternativa às Lomo e Diana do formato 135 e partilhavam com estas a qualidade de construção – ou falta dela – e a imprevisibilidade absoluta dos resultados, com o visor errático e os valores de exposição fixos (embora a exposição pudesse ser ajustada em função da luminosidade).

Há muito de bom a dizer sobre as Holga e o movimento conhecido por Lomography. Os seus aderentes são os fotógrafos mais descontraídos e menos presunçosos do mundo. As câmaras podem ter infiltrações de luz intoleráveis, a exposição pode ser errática, as cores podem sair ainda mais psicadélicas que quando se usa um rolo de Ektar 100 com luz solar e as imagens podem surgir mal enquadradas – mas isto não é tão mau como parece. Pelo contrário, nas fotografias dos lomógrafos há uma alegria e uma falta absoluta de qualquer pretensão que são uma variação muito agradável à busca obsessiva da precisão que a fotografia digital propugna. Digamos que os lomógrafos são o extremo oposto dos tarados que usam as suas Nikon D810 para fotografar os seus gatos com diferentes sensibilidades ISO. E é bom não ser confundido com estes últimos.

O que não se pode fazer, quando se usa uma Holga ou uma Lomo, é tentar usá-la como se usa uma Nikon FE2 ou uma Olympus OM-2: aquelas câmaras não são para se ter o máximo de nitidez e precisão na exposição: são para as pessoas que as usam se divertirem – quer dizer: para se divertirem mais que os utilizadores de câmaras sérias (mas a diversão é uma coisa muito séria!). E isto nota-se imediatamente nas fotografias. Se me perguntarem se prefiro ver fotografias de lomógrafos ou do Rui Palha, eu não hesito: vou imediatamente colar o nariz à montra da Embaixada Lomográfica. Ah!, que estou eu a dizer? Prefiro ver fotografias de lomógrafos às minhas!

As considerações sobre qualidade de imagem não têm lugar quando se usa uma Holga. Felizmente não há conversas sobre resolução e megapixéis entre os seus utilizadores. Tudo o que eles querem é fotografar – e isto, embora possa parecer contraditório, traz criatividade e vontade de explorar. Não há nada como o incerto e o imprevisível para que as pessoas se ponham a usar a imaginação. (Claro que estou a falar de cor: eu não sei ao certo o que se passa na cabeça dos lomógrafos e o mais perto que estive de me tornar num foi quando usei um rolo Lomography Earl Grey e, antes disto, quando andei a namorar uma Lomo Fisheye 2, ainda antes de aderir à fotografia analógica.)

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Sim, o M. V. M. já andou a sonhar acordado com isto

E agora, como vai ser o mundo sem Holgas? Não muito diferente: o que as Holga trouxeram à Lomografia foi máquinas de médio formato mais baratas, mas esta não é uma verdadeira necessidade para os lomógrafos, que em regra ficam perfeitamente contentes por fotografar rolos 135. Os que precisarem do médio formato terão sempre as Lubitel, que são mais caras mas também melhores que as Holga. (Mas ao querer «melhor» não se estará a sair do espírito da Lomografia?)

Como os Yo La Tengo poderiam ter dito, and then nothing turned itself upside down. A Lomografia não vai certamente morrer com o desaparecimento das Holga e muito menos vai acabar a fotografia analógica. Vai haver menos uma câmara à escolha, mas decerto os lomógrafos encontrarão alternativas.

M. V. M.

O melhor dos dois mundos

Ctein tinha razão. O formato 35 mm – ou «135», para sermos mais precisos – impôs-se pelo aspecto prático, não pela qualidade de que é capaz. As películas 135 comuns não fazem melhor do que aquilo que uma Canon 70D ou uma Nikon D7300 são capazes. Só se nos dermos à bizarria de fotografar com rolos de slide é que vemos alguma superioridade da fotografia analógica em relação à digital, porque a qualidade de imagem das câmaras digitais evoluídas é hoje superior à dos Kodak Gold, Portra, Ektar e todos esses rolos de utilização mais comum.

Há um último reduto para a fotografia analógica: o médio formato. As câmaras digitais, com excepção das de médio formato profissionais como as Mamiya Leaf, Phase One e Hasselblad, ainda não conseguiram o tipo de qualidade que as máquinas analógicas de médio formato e os rolos 120 são capazes de atingir. O que torna tudo mais interessante no caso da fotografia analógica é que a qualidade de imagem depende em 80% da película utilizada e 20% das lentes, pelo que qualquer velharia, desde que não tenha infiltrações de luz e seja equipada com lentes de qualidade, é capaz de fazer melhor que a maioria das câmaras digitais.

Até aqui tenho estado a escrever com a fotografia a cores em mente. É nesta que a qualidade das câmaras digitais está a ultrapassar a fotografia analógica. O preto-e-branco levanta outro tipo de considerações que tornam o desempenho da película pancromática incomparavelmente melhor que a de qualquer câmara digital. A superioridade não está nos números – obter um valor de 5 MB com a digitalização de um negativo 135 já é um bom resultado, embora diga mais sobre a qualidade do scanner do que da película –, mas na estética. É impossível a uma câmara digital reproduzir a beleza das altas luzes de um Tri-X ou um Ilford FP4 e só com muita manipulação digital se chega perto dos contrastes que se obtêm imediatamente quando se usa um bom rolo. Só com horas de edição é possível fazer com que uma imagem de uma câmara digital seja minimamente comparável, mas consegue sempre distinguir-se uma imagem de um negativo digitalizado de uma fotografia digital. E, se imprimirmos ambas, as diferenças são ainda mais evidentes – com vantagem para o analógico. Repito que esta não é uma questão de tamanho ou de número de pixéis: é na estética inimitável que os rolos a preto-e-branco prevalecem. Nem as Leica M Monochrom nem as cassetes Phase One Achromatic, aparelhos concebidos de raiz para apenas registar imagens em preto-e-branco, conseguem simular a beleza de uma imagem analógica.

Isto deixa-me a pensar sobre o que quero usar para fotografar. Para o preto-e-branco tenho tudo o que preciso: uma máquina soberba, que no seu tempo era a melhor câmara 135 do mercado, lentes sensacionais e uma preferência indissolúvel pelo melhor rolo a preto-e-branco existente à superfície da Terra, aquele com o qual todos os demais se medem e ficam a perder: o Ilford FP4. Não tenho, pois, qualquer necessidade de mudar: estou imensamente bem servido e satisfeito no que respeita a fotografias a preto-e-branco.

E na cor? Este texto vem na senda do anterior, em que apreciei os resultados da minha experiência mais recente com um rolo a cores. Esta foi satisfatória, mas apenas em termos relativos. É evidente que uma fotografia feita com um rolo a cores montado numa Olympus OM-2n será sempre bastante melhor que uma tirada com um telemóvel, mas não se a compararmos com o que pode ser obtido com uma câmara digital de gama intermédia, como as DSLR que referi anteriormente. Pelo que o melhor dos dois mundos será manter a OM-2n para fotografar a preto-e-branco e adquirir uma máquina de médio formato para fotografar a cores. (Sendo certo que, se fotografar com rolos de médio formato a preto-e-branco, a qualidade poderá atingir níveis intergalácticos.)

Neste caso, as escolhas são inúmeras. Já referi que, atenta a contribuição da película para a qualidade da imagem no médio formato analógico, tudo o que é necessário é que a máquina funcione bem e tenha lentes decentes, pelo que a gama de escolhas vai desde as máquinas de fole como as Zeiss Ikonta e as Agfa Isolette até às precursoras do médio formato actual como as Mamiya 645. Pelo meio existem máquinas tão interessantes como as Rolleiflex, a Yashica Mat 124G, as Pentax 6×7 e 645, a Pentacon Six, as Fujifilm de telémetro, a Mamiya 6 ou a Hasselblad 500 C/M. Desde que haja dinheiro, é só escolher: se estiverem em bom estado, todas fotografam com um nível de qualidade absurdamente elevado, independentemente do ano de fabrico. Falta-me apenas saber: a) se vou ter dinheiro disponível, quer para a máquina, quer para revelar e digitalizar rolos que permitem entre oito e doze exposições; b) se tenho um interesse pela fotografia a cores que me leve a comprar mais um sistema fotográfico e c) se tenho coragem de ser visto na rua com uma TLR ou uma Agfa Isolette. Ainda não tenho resposta para nenhuma destas questões.

M. V. M.

O Kodak Gold 200

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No texto de ontem manifestei o meu pessimismo quanto à fotografia a cores. Escrevi isto: «Este pode muito bem ter sido o último que comprei: a cor não faz parte da minha maneira de fotografar. Procurar motivos que conciliem a minha fotografia com a cor é praticamente impossível. Os tipos de fotografia para os quais a cor contribui, como paisagens ou retratos, não me interessam.»

Claro que isto foi escrito antes de ver os resultados da revelação e digitalização do Kodak Gold 200. Hoje não me sinto tão cínico quanto à fotografia a cores com película (o que, todavia, não oblitera o facto de sentir muito mais predisposição para fotografar a preto-e-branco). Por que mudei a minha opinião? Que aconteceu para que eu atenuasse a minha descrença na cor? Vou estragar o suspense do texto e dizer, logo no segundo parágrafo, o que conclui da minha experiência: o Kodak Gold 200 é um rolo espectacular!

Comparando-o com os outros rolos a cores que experimentei, o Kodak Gold 200 não é o melhor em termos de qualidade de imagem absoluta: essa distinção continua a ir para o Kodak Portra 160. Contudo, há alguns aspectos em que o Gold 200 é bastante melhor (já lá vamos). O Gold 200 é infinitamente melhor que o Ektar 100 – um dos poucos rolos que me suscitou um ataque de coprolalia aqui no Número f/ –, é superior ao Fuji Superia 200 e é melhor que o Ferrania Solaris, mas é com este último que a comparação se torna interessante. O Gold 200 é um Ferrania Solaris em versão adulta; é um rolo de cores vivas, saturadas e vibrantes, como o congénere lígure, mas sem os exageros que tornavam algumas cores berrantes. É um rolo em que a alegria da cor se manifesta, mas não tão efusivamente. Digamos que é mais bem comportado. E, sobretudo, é mais maduro: não tem tanto grão nem tem os artefactos que encontrei nos Ferrania (embora ressalvando a possibilidade de esses se deverem ao facto de a película estar expirada, o que não posso confirmar ou infirmar porque os rolos que usei não tinham marcação do prazo de validade). Seja como for, o Kodak Gold 200 é um Ferrania Solaris um pouco mais discreto, mas não menos entusiástico. E sem os defeitos cruciais deste último.

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A característica que mais me agradou no Kodak Gold foi a sua aptidão para preservar a veracidade dos tons em exposições nocturnas e ao fotografar na sombra. O Portra 160 não serve para estes tipos de fotografia, tendo mesmo um desempenho pior que o miserável Ektar 100. O Kodak Gold, porém, é excelente: há decerto um pouco de verdes a mais, mas esta matiz não é tão destrutiva como o ciano que invade as exposições feitas naquelas condições com o Portra 160: com este último as cores são feias, antiquadas e imprecisas.

Esta aptidão para fotografar com luz escassa torna o Kodak Gold 200 num rolo imensamente interessante, mas as suas qualidades não terminam aí. Debaixo de luz solar também se porta bem. Muito bem até. Aqui as matizes invasoras são o amarelo e o ciano, mas a sua presença é discreta e facilmente corrigível – caso seja necessário, o que nem sempre se verifica. As cores são, no essencial, correctamente descritas – posto que com uma saturação agradável e suficientemente discreta para não ser berrante. Não existem no Gold 200 as aberrações que destroem por completo qualquer pretensão de veracidade do Ektar 100, as quais por vezes se manifestam também com o Portra 160 sob luz intensa. (Já que menciono este aspecto, convém dizer que o Kodak Gold parece beneficiar de uma ligeira subexposição: A sua descrição das altas luzes é por vezes demasiado entusiástica.)

O Kodak Gold partilha com o Ferrania Solaris uma outra característica que me surpreendeu: a descrição dos brancos. No Ferrania, estes são simplesmente imaculados. São brancos puríssimos, sem qualquer matiz. O Gold 200 é praticamente idêntico na sua ausência de matizes, mas os brancos são um pouco menos brilhantes.

Mais. Eu não faço retratos, mas fotografo frequentemente pessoas. (Não, não é a mesma coisa.) A descrição dos tons de pele do Kodak Gold 200 é absolutamente fantástica. Decerto, peles claras podem surgir mais brancas do que realmente são, mas antes isto que ver tonalidades ciano a conferir um tom esverdeado a uma pele morena. Este rolo, paradoxalmente, é melhor para retratos que o Portra – o qual, como o nome indica, foi estudado para beneficiar tons de pele em retratos.

Quer isto dizer que é o rolo perfeito? Não. O grão é abundante – embora não tão escandaloso como no Ferrania – e parece-me que o Portra 160 tem maior nitidez e contraste. Contudo, nenhum destes defeitos parece afectar demasiado as imagens produzidas por um rolo que parece ter tudo no ponto certo: é alegre sem ser berrante, é preciso sem ser clínico e não aparenta ter defeitos redibitórios. É, como referi, um Ferrania Solaris sem os problemas e exageros. Como não ando atrás da perfeição, mas antes do prazer de fazer fotografias agradáveis, o Kodak Gold 200 é agora o meu rolo a cores favorito.

M. V. M.