Como fazer fotografia de rua sem fazer figura de parvo

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O tema do relacionamento entre as pessoas e a forma como deve ser usado na fotografia de rua, que abordei mais ou menos ao de leve no texto de ontem, merece mais algum desenvolvimento. Uma vez que eu sou um pouco tímido – ou talvez pessimista, ou descrente nas qualidades dos outros –, é-me por vezes difícil abordar estranhos e pedir-lhes para fotografá-los. Quando o faço, obtenho por vezes reacções negativas, mas nada que seja particularmente violento ou traumático: às vezes recebo, como resposta, um simples abanar da cabeça no sentido horizontal. Por regra, a conversa termina aí mesmo; quando recebo estas recusas, não insisto; despeço-me com uma fórmula, que pode ser «tudo bem» ou outra qualquer – dependendo da pessoa que me tinha proposto fotografar. Poderia contornar estas recusas fotografando furtivamente ou sendo descarado e fotografando sem sequer dirigir uma palavra à pessoa fotografada, mas não faço nem uma nem outra.

Não fotografo furtivamente porque qualquer tentativa de fazê-lo é inútil; pode até redundar no enxovalho e no ridículo. Por um conjunto de circunstâncias que não vale a pena estar a aprofundar (mas que poderão, eventualmente, ser o sintoma de uma sensação generalizada de medo), as pessoas que andam na rua estão mais atentas do que nunca e apercebem-se facilmente de todo e qualquer movimento que lhes pareça estranho. Fotografar furtivamente implica movimentos dessa natureza. Sinceramente, um sujeito com uma câmara parcialmente escondido atrás de um poste de iluminação ou de um muro pode pensar que está a ser discreto e a passar despercebido, mas não está. O seu comportamento é de tal maneira anómalo que qualquer pessoa minimamente atenta se apercebe da sua presença.

O excelente Carlos Machado, formador no Workshop de Técnicas Fotográficas do Instituto Português de Fotografia que frequentei em 2011, disse, numa das sessões, algo que ficou gravado na minha memória: «Eu, quando fotografo, gosto de dizer ao que venho». Embora essas palavras me tenham parecido contraditórias com os propósitos da dita «fotografia de rua», hoje parecem-me particularmente acertadas. Agora, quando tenho interesse em fotografar pessoas, prefiro mostrar-me com a câmara, sem qualquer tentativa de ser candid. Se vejo que a pessoa em questão se sente desconfortável, não a fotografo ou abordo-a. Fotografar furtivamente é abjecto: diminui o fotógrafo e fá-lo passar por um idiota – ou um tarado, na pior das hipóteses.

O descaramento, entendendo-se como tal fotografar alguém sem pedir consentimento e mesmo contra a vontade da pessoa, também não me parece uma prática boa de seguir. Demonstra, antes de mais, sobranceria. E também desprezo pelas pessoas, ignorando grosseiramente o direito que estas têm à sua privacidade. É muito fácil, a quem procede assim, esgrimir argumentos jurídicos: «eu tenho o direito de fotografar em lugares públicos», ou «o que pode ser visto pode ser fotografado». Ops – quem pensa assim não é jurista, pois se o fosse saberia que este não é um direito absoluto e que, mesmo que o fosse, existe uma barreira a que os juristas chamam abuso do direito. Nem tudo o que é legal é necessariamente legítimo, e a própria lei contém em si um limite – a honra, reputação ou simples decoro da pessoa fotografada.

Simplesmente, se é certo que é permitido fotografar pessoas em lugares públicos sem o seu consentimento, também o é que há questões que ultrapassam largamente a esfera do jurídico. Tenho conhecimento de histórias de fotógrafos de rua que se viram em apuros por fotografarem pessoas sem o seu consentimento. Mesmo que os primeiros tenham o direito de fazê-lo, deveriam compreender que nem toda a gente aprecia ser fotografada. Mais vale conversar um pouco, ou mesmo desistir da fotografia se a pessoa não quer mesmo ser fotografada. Ela merece essa consideração. Usar o argumento do direito é muito interessante, mas não pode, de forma alguma, colidir com o respeito que é devido aos outros.

Estabelecer um bom relacionamento interpessoal tem várias vantagens: permite conhecer melhor as pessoas e obter destas uma atitude colaborativa. É certo que as pessoas têm uma tendência instintiva para posar quando se deixam fotografar, o que explica que alguns fotógrafos de rua prefiram ser furtivos para obter fotografias espontâneas, mas é possível evitar esta propensão para posar para a câmara. Bastam duas ou três palavras. Há dias fiz a fotografia que ilustra este texto, na qual um grupo de cinco jovens sentava nos degraus da Praça D. João I num momento de convívio e descontracção. O enquadramento era tão interessante, com duas raparigas sentadas no chão frente a frente enquadrando dois dos rapazes que sentavam nos degraus, que não resisti. Perguntei-lhes se podia fotografá-los, e eles acederam. Todos olharam para a câmara, mas eu persuadi-os a comportarem-se espontaneamente, ignorando a minha presença. Isto fez com que a fotografia resultasse espontânea e natural.

Como vêem por este texto e pelo de ontem, não se perde nada em chegar à fala com as pessoas que se quer fotografar. Isto, notem bem, está a ser escrito pelo M. V. M., que foi agraciado à nascença com uma timidez inexplicável. Felizmente, o meu interesse pelas pessoas faz-me superá-la. É muito pior ser apanhado numa atitude esquisita, ao tentar ser furtivo, do que receber uma recusa. E, quando as pessoas consentem, a experiência fotográfica pode ser extremamente recompensadora.

M. V. M.

A mãe de todos os conselhos

Ainda bem que não sou um opinion maker da fotografia. Deste modo sou poupado a comentários e e-mails de novatos perguntando-me que câmara deviam comprar.

Comprar uma câmara devia ser um acto exclusivamente individual. Num mundo ideal, o novato adquiriria a câmara que melhor conviesse às suas aspirações e à sua maneira de fotografar, mas mesmo não sendo assim que as coisas se passam, dar conselhos nesta matéria é absurdo: o conselheiro tenderá sempre a recomendar câmaras que conhece ou de que gosta. É por esta razão que fico contente por não ter ninguém a fazer-me essa pergunta: se recomendasse uma câmara a uma pessoa que pedira o meu conselho e aquela não o satisfizesse, carregaria uma culpa eterna sobre os ombros.

Isto não quer dizer que essa pessoa (inexistente) ficasse sem uma resposta. Não recomendaria a câmara x ou y, mas, mesmo correndo o risco de parecer um lunático, aconselharia um iter para o novato verdadeiramente interessado em fotografia:

1. Compra uma máquina SLR de película. Estas câmaras são baratas e duram uma eternidade, há bons rolos a dar com um pau – e muitos deles a preços surpreendentes – e há certamente um laboratório nas imediações para revelar e digitalizar os teus negativos.

Por que faço uma recomendação tão estranha, nestes tempos em que o digital equivale a 98% do mercado? Porque a película ensinará ao aspirante a fotógrafo tudo que há para saber sobre fotografia; sobre a técnica, com certeza, porque estando privado do hábito detestável de ver as fotografias no ecrã logo depois de tirá-las (o chimping), o aprendiz terá de desenvolver as suas competências e aprender a confiar nos seus conhecimentos, mas o conteúdo das fotografias também vai ser beneficiado, já que o aspirante vai tornar-se mais selectivo ao aprender que cada fotografia tem um custo. É importante contrariar a tendência, que vem com o uso de câmaras digitais, de fotografar tudo o aparece à frente dos olhos: não há nada a aprender com isto. A película vai fazer o novato perceber que cada fotografia tem (deve ter) um valor intrínseco.

2. Uma vez dominada a máquina de película, podes concluir que te apaixonaste pelos rolos ou que as limitações deste meio estão a impedir-te de progredir. No primeiro caso, compra uma máquina de película de médio formato. Se, contudo, descobriste que o uso de película estava a limitar a tua progressão, compra uma câmara mirrorless da Sony, Panasonic ou Olympus. Com esta aquisição poderás usar facilmente uma infinidade de lentes em segunda mão, mas de excelente qualidade e preço baixo, que podes usar através de adaptadores (os quais também não são caros). E, evidentemente, já tens as lentes da máquina de película para usar, pelo que não vais ter de gastar muitas centenas de euros com lentes «digitais». Claro que a experiência anterior com uma SLR te familiarizou com a focagem manual, pelo que vai correr tudo bem – mesmo que vás sentir muito frequentemente a falta de um bom ecrã de focagem, porque essas coisas do MF Assist e do Focus Peaking não têm, nem de perto nem de longe, a precisão dos microprismas de um ecrã de focagem.

3. Claro que nada disto se aplica se só queres tirar umas fotos casuais e partilhá-las, caso em que ficas mais bem servido se fotografares com o teu smartphone. No entanto, se seguires este meu conselho, tal significa que tens um interesse verdadeiramente sério em tornares-te num fotógrafo. Tens de estar preparado para algo que pode parecer absurdo, dada a profusão de fotografias digitais e de meios para a usar que existem hoje: é que a fotografia não é fácil; há uma curva de aprendizagem muito acentuada que é necessário vencer antes de obter resultados minimamente aceitáveis.

Isto é o que eu devia ter feito em lugar de ter começado com uma câmara digital. Hoje olho para as minhas primeiras imagens – as minhas primeiras 20.000 imagens! – com um sentimento de vergonha. Eles foram um completo desperdício de tempo. Tivesse eu começado com a OM, e teria poupado muito tempo e muitos vexames.

4. Tira um curso de fotografia, ou pelo menos participa num workshop. Por muitos ensinamentos que possas retirar da internet, e por muitos bons conselhos que recebas, nada substitui uma aprendizagem verdadeira e própria, com alguém que sabe muito mais que tu e num estabelecimento credível. Eu participei num workshop do Instituto Português de Fotografia; foi caro, mas os ensinamentos que recolhi foram inestimáveis. Foi a única coisa em que acertei…

M. V. M.

O mistério azul e outras histórias

O Mistério Azul

Img - 005Ainda a propósito das cores adulteradas que afectaram algumas das minhas fotografias quando as gravei no Kodak Portra 160, hoje confirmei uma das explicações plausíveis para o fenómeno. Por alguma razão que não sei explicar, todas as câmaras, grandes ou pequenas, analógicas ou digitais, tingem a imagem de azul quando se fotografa à sombra. Olhando para as fotografias em que o referido fenómeno se manifestou, verifiquei uma característica comum: todas têm por sujeito objectos debaixo de sombra. Ter começado pelo digital para me voltar mais tarde para o rolo de 35mm privou-me de entender esta característica das câmaras, porque estava habituado a que a E-P1 equilibrasse as cores mediante a luminosidade existente. Na verdade, quando uso a E-P1 fotografo quase sempre com o WB (White Balance, ou equilíbrio dos brancos) no modo automático, deixando que o processador da câmara opere a sua magia. As câmaras de rolo não têm nada parecido com isto. Infelizmente. A única solução é procurar não fotografar objectos debaixo de sombras. O que não faz muita diferença, desde que se esteja avisado deste fenómeno. Deve encarar-se o rolo a cores como uma forma de capturar cores vibrantes debaixo de luz intensa, o que o torna ideal para fazer fotografias alegres e divertidas. (Evidentemente, isto não se aplica aos rolos de preto-e-branco, que muitas vezes beneficiam da subexposição dada pelas sombras.)

O Poderoso DxO Film Pack

Quando processei as digitalizações do Portra 160, deu-me a curiosidade de usar as simulações de filme do DxO Optics Pro 8. Apesar de ter algumas reservas quanto a esta imitação, a este fingimento de se ter fotografado com outro rolo, tenho de reconhecer que os resultados são fantásticos. O programa processa as imagens para lhe dar o aspecto do Fuji Astia e do Provia e também dos Kodak Ektachrome 100 e do famosíssimo Kodachrome 64. Os resultados, com este último, foram simplesmente espectaculares: as cores tornaram-se mais vivas e vibrantes e os contrastes mais acentuados. Por vezes as pessoas associam a fotografia convencional a cores deslavadas e antiquadas, mas o Kodachrome é tudo menos isso: as cores são saturadas e vibrantes e as imagens tornam-se exuberantes na sua riqueza cromática.

As opções do DxO Optics Pro 8 são apenas uma amostra. O DxO Film Pack, um plug-in que também pode ser instalado nos Photoshops, tem nem mais nem menos que vinte e seis simulações de filme preto-e-branco e doze a cores. Agfa, Fuji, Ilford, Kodak. Polaroid, Rollei – estão lá todos. Até está lá um rolo Lomography! Eu experimentei uma versão de ensaio, válida por 30 dias, mas na altura nutria um desprezo olímpico por essas coisas. Agora que tenho uma câmara convencional, prefiro the real thing, mas estas simulações de filme não deixam de ser interessantes por serem extremamente verosímeis. E se Sebastião Salgado usa o Dxo Film Pack, quem sou eu para o contrariar?

A artista, a carroça e o Rolls-Royce

Hoje tive uma das sessões fotográficas mais divertidas de sempre: fui para a Foz, à caça de clássicos, com a OM-2 e o Tri-X nas entranhas desta. Clássicos? Um Land Rover Defender de 1981 e um Jaguar XJS. Por enquanto. Entretanto, uma mulher ainda jovem aproximou-se de mim e fixou os olhos na minha câmara, que achou «linda». Conversámos um pouco sobre fotografia e material convencional e fiquei a saber que a mulher é uma artista plástica que também se dedica à fotografia, com um curso profissional do Instituto Português de Fotografia e tudo. E dá aulas de fotografia, ensinando a utilizar linhas no enquadramento. Convenci-a que não há razões, em termos de dispêndio, para não se ter uma câmara convencional e respectivas lentes. Talvez tenha evangelizado alguém para a fé da fotografia convencional. Foi um momento extremamente agradável, que culminou com um retrato que não deve ter ficado muito bem enquadrado (fi-lo na horizontal).

Logo a seguir, vi uma carroça puxada por um cavalo a percorrer a Rua de Gondarém. Pensei que tinha perdido uma oportunidade de fotografar aquele momento bizarro e completamente anacrónico, mas esta aconteceu um pouco mais tarde, porque o condutor da carroça havia parado numa esquina, no cruzamento imediatamente adiante. Pimba!, uma fotografia. Estou morto por acabar de expor o Tri-X para ver o que saiu dali.

E, quando voltava para o carro, que encontrei? Não, ainda não foi o DS (tenho a impressão que vou morrer com um ataque cardíaco quando encontrar um Boca-de-sapo, o que poderá, eventualmente, privar-me de fotografá-lo). Foi um Rolls-Royce que já fotografara antes. Foi com este Rolls como motivo que fiz uma fotografia a que chamei Spirit of Ecstasy, que considero a melhor fotografia de automóveis que fiz até hoje. Fotografei-o outra vez, procurando não repetir as fotografias que fizera da primeira vez.

Felizmente há dias assim.

M. V. M.

Do conhecimento

Hoje tive uma revelação. Não uma revelação em sentido fotográfico, como a revelação de película; foi mais como a de Saulo de Tarso na Estrada de Damasco. A revelação, que me surgiu como uma luz intensa e ofuscante (não, não era um flash apontado à minha cara), foi a seguinte: nós, amadores de fotografia, tendemos a pensar que qualquer um com um site ou blogue de fotografia na Internet é uma autoridade.

Isto podia ser verdade há quinze anos, quando ter um site era uma coisa importante (nesse tempo ainda não havia blogues, penso eu) que obrigava o seu autor a empenhar muito do seu tempo e dinheiro. O autor jogava a sua credibilidade em cada palavra que escrevia. Agora, com a proliferação de sites e blogues, não é bem assim. Há muita charlatanice na Internet. Há muita gente que não tem a mínima noção do que é o método científico e se põe a debitar teorias abstrusas com base no senso comum ou em informação deficientemente obtida. Isto é prejudicial, porque falseia o conhecimento. A visita de sites e blogues desta natureza pode ter o efeito pernicioso de nos levar a adquirir noções erradas que, dependendo do seu grau de importância, podem ter por consequência levar-nos a incorrer em erros graves.

Quando se visitam sites e blogues de fotografia, há que ter muito cuidado com o que se lê. O ideal é confrontar o que se lê com fontes – não necessariamente outros sites ou blogues – fidedignas, ou que sejam merecedoras de crédito. Acima de tudo, há que previamente colher alguma informação sobre o autor. O facto de alguém ter um site ou um blogue não significa, como se infere do que escrevi acima, que essa pessoa esteja habilitada a transmitir conhecimentos. Hoje em dia muitos se bastam com um conhecimento empírico, formado pelo senso comum e por consultas noutros sites e blogues, com os seus respectivos fóruns e espaços de comentários, e imaginam que esses conhecimentos – muitos dos quais não resistem a dois minutos de reflexão séria – são válidos e verdadeiros.

Como alguém que fez muita pesquisa na sua área de conhecimento, posso dizer-vos que a obtenção de referências bibliográficas não é uma tarefa fácil, mas é imprescindível para fundamentar o que se diz ou escreve. O que se lê deve sempre ser confrontado com o que escrevem outros autores, de modo a que sejamos capazes de encontrar correntes de opinião comuns – que podem mesmo assim não ser verdadeiras –, confirmar ou infirmar os nossos conhecimentos e cimentar as nossas opiniões. Este esforço de fundamentação é complementar do conhecimento teórico. Nem todos os que andam a publicar na Internet têm esse conhecimento, embora se esforcem por disfarçar essa falta com uma aparência de cientificidade, designadamente quando, por exemplo, usam muitas equações para demonstrar os seus pontos de vista.

Como se costuma dizer, contra mim falo. Eu afirmo tudo isto apesar de ter um blogue, o que poderia ser interpretado como uma manifestação de sobranceria. Não é. Quando escrevo seja o que for no Número f/, faço-o sem qualquer tipo de pretensão. Nunca me arroguei nenhuma autoridade em matéria de fotografia, que de resto não tenho. O que tenho, isso sim, é o hábito sistemático de fundamentar o que escrevo. Nunca escrevo nada de que não tenha a certeza e, se não me é possível estar absolutamente seguro de algo, digo-o, para não induzir o leitor em erro. Tenho conhecimentos teóricos suficientes, o que não me deixa incorrer em erros graves, mas não sou, de maneira nenhuma, imune ao erro.

Normalmente, os sites e blogues a que me refiro têm um carácter predominantemente técnico. Afastai-vos deste tipo de sites! O conhecimento técnico, em tudo que exceda o essencial para saber o elementar sobre fotografia – a luz e a exposição –, só serve para semear a confusão e adquirir concepções erróneas. Há dias envolvi-me, involuntariamente, numa discussão com um sujeito a quem dão muito crédito na Internet, sobre se a minha OM-2n tem um obturador electrónico. EU QUERO LÁ SABER SE O BENDITO DO OBTURADOR É ELECTRÓNICO! Eu quero é aprender a fazer boas fotografias. Para isto só preciso de saber o que o obturador faz, para que serve e como o comando. O resto não é importante. Pode ter interesse para as mentes mais inquisitivas, mas acreditem em mim: não é por saber que o obturador é electrónico que vão fazer fotografias melhores.

A obsessão pela técnica é um disparate. Mais disparatado, porém, é pensar que toda a gente que publica na Internet percebe de técnica e seguir os seus ensinamentos. Muitos não percebem, ou percebem tanto como eu e o leitor. Por isso, meus caros leitores, a minha mensagem é esta: não confiem em tudo o que lêem na Internet. Nem mesmo no que eu escrevo aqui no Número f/. Confrontem sempre o que lêem, aqui ou noutros sítios, com outras fontes de informação, para confirmar ou infirmar o que lêem. Esta é a única via para adquirir conhecimentos sólidos. E procurem aprender sempre com quem sabe mais que vós (nós). Foi por esta razão que frequentei um workshop de técnica fotográfica no Instituto Português de fotografia: precisei de confirmar os conhecimentos que adquiri – e estes foram maioritariamente obtidos na Internet – com quem sabia muito mais do que eu. Acima de tudo, tenham em mente que só precisam de adquirir conhecimentos que vos ajudem a fotografar melhor. O resto é supérfluo e só traz confusão.

M. V. M.

Prova de contacto

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A imagem que estão a ver no topo deste texto é uma prova de contacto, que infelizmente não coube toda no vidro do meu scanner. A prova de contacto é um conjunto de miniaturas, imprimidas (sim, o particípio passado do verbo imprimir é este, e não «impressas») em papel fotográfico, das fotografias de um rolo. Ou, se quiserem, é a impressão directa do rolo, sem ampliação ou redução. Serve um propósito, que é o de seleccionar quais os fotogramas que deverão ser imprimidos. Já me tinha referido a esta opção na segunda-feira, no texto O Meu Primeiro Rolo e Outras Histórias; apesar de não ser barata, a prova de contacto poupa muito mais dinheiro a quem fotografa com rolo: a partir dela podemos escolher apenas as melhores fotografias, aquelas que queremos imprimir ou digitalizar, e excluir os fotogramas falhados. É, pois, uma opção inteligente que tem a vantagem de gastar menos dinheiro do que se mandássemos imprimir todas as fotografias do rolo e tem por único inconveniente o facto de ser necessário esperar mais tempo pelas impressões, mas não me parece que alguém tenha morrido por esperar mais um ou dois dias pelas suas impressões.

A prova de contacto exige uma lupa. As imagens são pequenas – são do tamanho do negativo –, pelo que a sua análise deve ser feita com a ajuda de um instrumento óptico que as amplie. É possível, contudo, ter uma boa ideia quanto aos tons (no meu caso, as minhas primeiras fotografias foram a preto-e-branco) e à exposição a partir das miniaturas. Já quanto à resolução e à nitidez, torna-se difícil fazer um juízo preciso.

E que me disse a prova de contacto? Que eu fiz uma boa aprendizagem da fotografia, antes de mais. Permitam-me dizê-lo assim, sem falsa modéstia, mas a verdade é que apenas uma das trinta e seis fotografias ficou claramente mal exposta, e ficou assim porque, depois de uma sessão fotográfica a fotografar no modo de prioridade à abertura (A) com a E-P1, esqueci-me de regular a exposição na OM para aquela fotografia, com a consequência de a estourar. Não me importei, porque também não era muito significativa. Algumas fotografias (poucas) ficaram subexpostas, mas este tema da exposição numa câmara convencional terá um texto próprio. Provavelmente o de amanhã.

Outra conclusão que retirei da análise da prova de contacto é que a Olympus OM-2 é, de facto, uma máquina fotográfica de qualidade excepcional. Se estiver com a exposição correcta, não há problemas em fotografar altas luzes, porque não há perda de resolução nem clarões que possam ser considerados preocupantes. Evidentemente, o filme também ajudou, já que a sua velocidade ASA 100 torna-o insensível a excessos de luz.

Outro resultado interessante desta minha primeira experiência com um rolo foi não ter falhado a focagem em nenhum dos fotogramas. Já tinha escrito que é incrivelmente fácil focar com a OM-2, graças a um ecrã de focagem extremamente preciso e a um visor enorme e incrivelmente límpido, mas permaneceu sempre uma pequena dúvida que me manteve intranquilo até hoje. Este receio era afinal completamente infundado.

Por fim, uma decepção: a profundidade de campo não é tão estreita como eu imaginara. Quando foquei, a diferença entre os planos em foco e as áreas desfocadas pareciam substanciais através do visor, mas esta percepção é muito diferente da realidade: é, afinal, mais fácil manter a nitidez ao longo de todos os planos do que eu imaginava. Apesar de a profundidade de campo ser mais estreita do que a da E-P1, a diferença não é muito significativa: isto confirma que são sempre necessárias aberturas grandes para focar selectivamente.

Fiquei extremamente satisfeito com esta minha primeira experiência com material convencional. Afinal de contas, valeu a pena insistir em fugir aos modos de exposição automáticos quando fotografava apenas digital, tal como valeu a pena fazer o workshop do Instituto Português de Fotografia. Aprendi bem e agora sinto que sou capaz de fotografar com qualquer câmara e formato.

M. V. M.

Aprendizagem

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Li algures, já não me lembro onde nem por quem, que, depois de aprendermos a fotografar, devemos esquecer tudo o que aprendemos. Isto parece não fazer sentido mas, se pensarmos um pouco, até faz.

Quando vou fotografar, nunca tenho presentes na minha mente as técnicas e as funções da câmara. Não por me ter esquecido delas, ou por não as conhecer. Os meus conhecimentos, que eram estritamente empíricos até Novembro de 2011, consolidaram-se com o workshop do Instituto Português de Fotografia. Sou capaz de operar qualquer câmara razoavelmente complexa, compreendendo-se como tal tudo abaixo das profissionais como a Nikon D4 e a Canon 1D. Ou pelo menos sei para que servem os botões. O facto de ter uma câmara que permite aceder a todas as funções avançadas presentes em qualquer câmara DSLR de gama média também ajuda, evidentemente, mas acima de tudo é necessário compreender a exposição para entender quais os comandos que agem sobre ela e o modo como o fazem.

Seja como for, quando saio para fotografar nunca estou a pensar que funções vou usar. Normalmente os meus únicos pensamentos são do género: «está muito sol, hoje é melhor fotografar a f/8», ou qualquer coisa equivalente. Mais parece que todos os conhecimentos se varreram da minha mente. Simplesmente, quando se me deparam cenas difíceis, que requerem a aplicação de funções complexas, os conhecimentos vêm à mente de forma natural, sem precisar de pensar muito nelas. O facto de não ter de pensar muito significa uma menor probabilidade de perder uma fotografia por ter estado a tentar descobrir que técnica deveria usar. Se deparo com uma luz difícil, tenho de fazer uma opção instantânea, que é escolher qual a parte da cena que quero que fique bem iluminada na imagem. Tenho de escolher os parâmetros da exposição apontando a câmara à área que quero bem exposta e bloquear a exposição. Isto não me demora mais que alguns segundos.

Não escrevo como o faço por ser presunçoso ou imaginar que sou algum mestre da fotografia. Faço-o por tudo isto me ter tornado consciente da importância de adquirir conhecimentos sólidos. (O que não se aplica apenas à fotografia.) É muito importante ter uma aprendizagem consistente das técnicas fotográficas: essa aprendizagem é, ao contrário do que se possa imaginar, extremamente libertadora. Alguns poderão, eventualmente, opor que as opções técnicas não são importantes porque a câmara se encarrega de escolher por nós, sendo os conhecimentos dispensáveis. Pensar assim é, na minha opinião, um erro. É que as câmaras funcionam muito bem nos modos automáticos, mas apenas em situações médias (ou normais, se quiserem). Quando se levantam problemas difíceis, a câmara não consegue substituir-se ao utilizador. É assim com o equilíbrio dos brancos, o qual, deixado no modo automático, tende a procurar temperaturas elevadas, dando um tingimento azul e frio à imagem, quando a luz é escassa. É assim também quando há contrastes muito acentuados entre zonas bem e mal iluminadas da imagem. Em casos como estes, quem fotografa deve estar preparado para controlar a câmara. Caso contrário obterá resultados muito diferentes dos que pretendia.

Com bons conhecimentos, em contrapartida, podemos concentrar-nos no essencial, que é captar momentos relevantes. Só temos de nos preocupar com a escolha dos motivos e com a composição e o enquadramento – o que também é tanto mais rápido quanto maiores forem os nossos conhecimentos. As técnicas, essas, afluirão naturalmente, sem que precisemos de pensar muito nelas.

Isto implica uma aprendizagem sistemática, que não se pode adquirir empiricamente. O resultado de aprender pela experiência é sempre lacunoso e os conhecimentos obtidos não cobrem a totalidade das situações fotográficas que podem levantar problemas à feitura de uma fotografia. Aprender com artigos na Internet, por exemplo, pode responder a questões pontuais, mas nunca substitui uma aprendizagem sistemática e devidamente estruturada. Foi por entender este facto que decidi frequentar um workshop de técnicas fotográficas numa escola de excelência como é o Instituto Português de Fotografia. Validei os conhecimentos que já levava, adquiri conhecimentos novos e, sobretudo, estruturei a minha aprendizagem. Valeu bem a pena.

Se os conhecimentos adquiridos forem consistentes e se enraizarem bem na mente, não é necessário pensar muito: saberemos instantaneamente o que é preciso fazer. É como aprender uma língua estrangeira: quanto mais profundamente a aprendermos, menos temos de pensar antes de falar, ler ou escrever. Aliás, isto aplica-se a todas as aprendizagens. Geralmente não temos consciência dos conhecimentos adquiridos, mas eles estão lá, para serem usados quando for necessário.

M. V. M.

10 coisas que adoro e 10 coisas que detesto em fotografia (1)

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Adoro:

  1. Fotografar. Evidentemente. Adoro encontrar um motivo interessante e procurar o melhor ângulo para o fotografar. Adoro andar à volta do motivo e descobrir-lhe potencial fotográfico, e exercitar a mente para o fotografar da maneira mais original possível. Não me importo de me pôr em posições estranhas para fotografar: quando encontro algo que merece ser fotografado, abstraio-me de tudo o resto, incluindo os juízos que os transeuntes possam fazer; o que conta é o prazer de fotografar.
  2. HDRI. Ao contrário de muitos, não incluo o HDRI entre as técnicas manipulativas. As fotografias com recurso a esta técnica (pelo menos quando é bem empregue) parecem-me fascinantes. Só não gosto quando se suprimem as sombras por completo, o que torna a fotografia irreal, mas a maneira como os pormenores escondidos sob as altas luzes e as sombras surgem na imagem é qualquer coisa de mágico.
  3. Preto-e-branco. Tive desde sempre uma predilecção pela fotografia monocromática. Ela revela as formas, volumes e texturas de uma maneira que está completamente fora do alcance da fotografia a cores. Isto não significa que não gosto de fotografia a cores; significa, outrossim, que o preto-e-branco é muito mais expressivo.
  4. Usar o DxO Optics Pro. Este é o melhor programa de edição de imagem do mundo. Com ele, as fotografias alcançam um nível de qualidade que nenhum outro programa consegue imitar. E agora, com os comandos de tonalidade selectiva, introduzidos com a versão 8, ainda ficou melhor. Ao contrário do Lightroom, resiste ao teste da impressão.
  5. O Centro Português de Fotografia e o Instituto Português de Fotografia. O primeiro, pelo simples facto de estar instalado na minha cidade. Mas também pelas exposições, evidentemente. O segundo por ter aprendido lá e por ser uma escola potenciadora de excelência. É pena que os cursos sejam tão caros, mas se formam fotógrafos como o Daniel Rodrigues…
  6. Câmaras com estilo. O meu interesse por fotografia e por equipamento nasceu nos anos 70, a idade de ouro das SLR e das rangefinders. Naquele tempo ainda não havia a obsessão com a ergonomia que descambou nas actuais DSLR. As câmaras, no geral, eram bonitas. Gosto que alguns fabricantes, como a Olympus e a Fujifilm, se inspirem no estilo daquela época, e que a Leica lhe tenha dado continuidade com as suas M.
  7. Boas lentes. Fotografar é bom, mas quando se usam lentes de qualidade ainda é melhor. Com elas, as nossas fotografias ficam mais próximas daquilo que idealizáramos antes de premir o botão do obturador.
  8. Focar manualmente. Este modo de focar ensina-me a fotografar. Se não tivesse tido a inspiração de comprar as lentes OM, ainda hoje noções como a profundidade de campo seriam difíceis de entender. Focar manualmente, por outro lado, é uma experiência que torna o acto de fotografar mais físico e que obriga a pensar mais antes de fotografar. Não há nada como usar lentes de focagem manual para aprender a fotografar.
  9. Descobrir a obra de bons fotógrafos. É uma das coisas mais compensadoras que conheço. Gosto de saber da existência de determinado fotógrafo e mergulhar na sua obra. Não me importa se é um nome grande ou outro menos conhecido, como Peter Turnley ou o nosso António Pedrosa, sobre quem escrevi ontem: o que me importa é a qualidade das fotografias e entendê-las no contexto de uma obra.
  10. Livros sobre fotografia. Gosto. Não apenas de os ler, mas sobretudo de os reler. Há sempre qualquer coisa mais a aprender em cada nova leitura. E há um em particular que me ajudou a progredir: O Olhar do Fotógrafo, de Michael Freeman (Ed. Dinalivro). Devia ser de leitura obrigatória no 2.º Ciclo.

M. V. M.