Cadavre exquis

A última notícia oriunda do Reino da Fotografia Analógica (RFA) é a de um evento que, se formos a ver bem, era bastante previsível. A Fujifilm vai acabar com a película Neopan Acros 100 no mês de Outubro.

Isto quer dizer que é a segunda vez, no espaço de menos de um mês, que dou conta, aqui no Número f/, do futuro desaparecimento de uma película. Antes fora a Agfaphoto Vista, agora a Neopan Acros 100. No caso desta última, a Fujifilm já havia suprimido as Acros de sensibilidade mais alta (1600 e 400); agora é a vez da versão mais insensível.

Isto levanta duas questões sobre as quais vale a pena especular. A primeira é a de saber se isto é o prenúncio do fim definitivo da fotografia analógica; a outra é o que estará na base desta decisão da Fujifilm. (Há ainda uma terceira, que é a de saber se tenho pena que esta película acabe, mas o leitor facilmente se aperceberá da resposta ao ler o restante.)

Não, o facto de a Fujifilm ter decidido acabar com a Acros 100 não prenuncia o fim da fotografia analógica. Lembro-me de um slogan da extrema-esquerda, ouvido nos tempos do PREC, que era «por cada camarada morto, mil se levantam». Com as películas acontece mais ou menos o mesmo: a ADOX está a construir uma fábrica nova, a Ilford decidiu alargar a comercialização das Pan 100 e 400, a Kodak está a ressuscitar o Ektachrome, a Ferrania – embora mais lentamente que o previsto – está a regressar ao mercado e, por outro lado, fabricantes como a Foma não dão sinais de irem parar a produção tão cedo. Há até bizarrias como as películas pré-expostas da Dubblefilm, para quem tem dinheiro de sobra e quer gastá-lo estupidamente. Por tudo isto, o fim da produção do Neopan Acros 100 é a morte da andorinha que não prenuncia o fim da primavera. Significa apenas que a andorinha faleceu, pobrezinha.

Andorinha esta que, diga-se, não tinha assim tantos atractivos. Nunca a experimentei por ser inacreditavelmente cara – os preços dos rolos 135 oscilam entre €9 e €10 –, mas o que via na Internet (e era confirmado por quem a usou) era que a Neopan Acros produzia imagens muito rendilhadas, cheias de microcontraste, que mais pareciam obtidas com recurso ao HDR. No meu entender, não existe qualquer benefício em usar esta película – especialmente quando se podem comprar rolos de Kodak T-Max 100 e Ilford Delta 100 (e dispenso-me de aludir aos Ilford FP4, que fazem dos Neopan esfregonas e limpam o soalho com elas).

Curiosamente, a despeito do preço elevado, a Neopan Acros 100 era bastante popular. Que terá, então, determinado a cessação da produção?

O facto de ser uma película cara tem desde logo um significado muito claro: os custos de produção são demasiado elevados. A Fujifilm tomou esta decisão baseada na lógica fria dos números: a despeito da popularidade, a clientela é apenas um nicho e não compensa, a uma empresa com a dimensão da Fujifilm, manter toda a maquinaria envolvida na produção de uma película em laboração para alimentar um mercado que consiste em alguns milhares de consumidores. O grupo Harman (Ilford e Kentmere), a ADOX, Ferrania e todos esses fabricantes conseguem manter os seus níveis de produção porque são pequenos e ágeis: esgotam toda a produção e não necessitam de investimentos colossais. Poderíamos pensar que um gigante como a Fujifilm teria a maior facilidade em investir na produção de película, mas não é bem assim que as coisas se passam. A Fujifilm funciona com base em economias de escala que não resultam com este tipo de produto. Tal como nos automóveis: a Mercedes ou a Ford podiam fazer pequenos desportivos descapotáveis, com caixas de velocidades manuais e tracção traseira para puristas, mas o número de consumidores não justificaria o investimento e, de resto, o seu preço seria proibitivo. Aliás, esta notícia não devia ser surpresa para ninguém: a Fujifilm tem vindo a cessar a produção de películas a uma cadência estonteante, pelo que mais tarde ou mais cedo a Neopan Acros 100 seria eutanasiada.

Deste modo, não há nada a temer com o fim de uma película. Por morrer uma película não acaba a fotografia argêntea. E não se dá o caso de não existirem excelentes alternativas.

M. V. M.

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A novidade da semana

Ainda não sei muito bem o que pensar da grande notícia fotográfica da semana. Esta minha hesitação deixou-me paralisado, sem conseguir mover um músculo, com a mente bloqueada – o que explica a ausência de textos no Número f/ – e sem reacção a estímulos externos.

E que notícia foi esta que me conseguiu deixar em estado catatónico? Uma empresa – acho que é a isto que se chama startup – lançou uma campanha de angariação de fundos na Internet (um kickstarter, isto eu sei de certeza) para produzir nem mais nem menos que uma máquina fotográfica analógica. Uma SLR, com visor óptico e pentaprisma e tudo. Se tiverem sucesso – eu desconfio sempre um bocado destas campanhas –, será o primeiro lançamento de uma máquina SLR de formato 135 em vinte e cinco anos. Pelo menos é o que dizem, porque tenho a impressão que houve lançamentos de máquinas SLR deste formato depois de 1992. Seja como for, é sempre de ficar atento a uma notícia destas. Não é todos os dias que são anunciadas máquinas analógicas.

Uma característica irritante desta máquina anunciada é o nome: chama-se Reflex. Assim mesmo, tal como está gravado na parte frontal do alojamento do pentaprisma: REFLEX. Ninguém pode acusar os mentores deste projecto de terem uma imaginação delirante – pelo menos para nomes, porque no que toca à câmara propriamente dita a história é bem diferente. Bem vêem, esta câmara torna real o sonho de muitos amantes de objectivas «analógicas», que é o de usar objectivas de sistemas diferentes num só corpo: em lugar de recorrer a adaptadores, que podem deteriorar as propriedades ópticas das objectivas, a Reflex permite a montagem de diversas baionetas. Há um painel amovível chamado I-Plate – mais uma demonstração de falta de imaginação para nomes – que é montado no corpo da máquina e tem embutida uma de diversas baionetas – M42, Nikon F, Olympus OM, Canon FD e Pentax PK. Uma solução engenhosa que toda a gente já imaginara mas nunca ninguém se atreveu a fazer. Só por isto as pessoas por detrás do projecto Reflex já merecem algum crédito.

As novidades não ficam pelas baionetas intermutáveis. O painel traseiro (criativamente chamado I-Back) é também modular. Em lugar de uma tampa amovível que se abre para instalar o rolo, como em todas as outras máquinas de película, toda a parte traseira da máquina é desmontável. O rolo não é montado no corpo, mas num módulo que encaixa na parte traseira da câmara. O que tem a vantagem de se poder mudar de rolo à luz do dia, desde que este esteja previamente instalado num módulo adicional. É verdade que a Ricoh GXR é ainda mais prática, porque o mesmo módulo aloja a baioneta e um sensor, mas a Ricoh GXR é uma câmara digital (e, por sinal, bastante feia e muito limitada: não tem visor de qualquer espécie).

A Reflex é uma câmara interessante. Não se pode dizer que é bonita como uma Nikon FM3A ou uma Olympus OM-1: as suas linhas invocam as Praktica e as Kiev dos anos 60 do século passado. Mas é uma máquina com toques agradáveis, como uma saliência discreta no painel frontal para tornar o manuseamento mais cómodo e seguro e o botão do obturador instalado no painel frontal. Há também um pormenor que é supérfluo para a maioria dos entusiastas da fotografia analógica, mas não deixa de ser curioso: esta máquina tem incorporados um flash e um dispositivo de iluminação por LED. Provavelmente, atento o seu tamanho, são demasiado fracos para iluminar objectos a mais de meio metro de distância, mas há-de haver quem lhes encontre alguma utilidade. Mais importante, porém, é que os tempos de exposição vão até 1/4000 com um obturador de cortinas de comando electrónico que possibilita o uso da máquina no modo de prioridade à abertura.

O objectivo – a esta hora já ultrapassado – é angariar £100,000, mas se o financiamento atingir £150,000, poderá ser lançada uma app que fará com que a máquina comunique (via Bluetooth) com outros dispositivos e grave no smartphone os metadados da fotografia. Aqui está uma app que me poderia fazer usar o telemóvel durante as minhas sessões fotográficas.

Este é um projecto cheio de boas ideias. A baioneta modular é para muitos um sonho tornado realidade – ou será, se o projecto tiver viabilidade. Muitos coleccionadores de objectivas poderão fazer as suas sessões fotográficas com objectivas de baionetas diferentes recorrendo a um só corpo. E as coisas nem sequer sairão muito caras: o kit completo custará £600, o que é muito menos que uma câmara digital full frame. Apesar da minha desconfiança em relação a estes kickstarters, este tem, no mínimo, o mérito de basear-se numa ideia brilhante.

M. V. M.

Relatório trimestral

De volta a um assunto que apenas me interessa marginalmente, mas que nem por isso deixa de ser útil ir acompanhando: a evolução do mercado do material fotográfico. Como sabem, o mercado das câmaras e lentes tem vindo a diminuir de volume de ano para ano, o que acontece desde 2007, o ano do lançamento do iPhone. Esta descida tem sido progressiva, mas acentuada, e nem as mirrorless conseguiram inverter essa tendência. (De qualquer modo, as mirrorless não são tão populares como os seus donos gostam de acreditar, nem vão matar as DSLRs como alguns esperam.)

Após quase dez anos de declínio, as vendas parecem estar a recuperar no primeiro trimestre deste ano. Nada de particularmente entusiasmante – o crescimento das vendas em Março deste ano foi até um pouco menor do que em 2016 –, mas parece haver uma tendência consistente de aumento das vendas. (Fonte: CIPA.)

Isto tem algumas interpretações. Depois de uma explosão nas vendas, que teve lugar em concomitância com a afirmação das câmaras digitais – na viragem e início do século –, as vendas diminuíram dramaticamente. E mesmo estes números eram sustentados pelas compactas, as quais foram as câmaras que mais sofreram com o advento dos telemóveis equipados com câmaras. Isto significa que houve aquilo que agora se chama um ajustamento: o mercado voltou aos níveis anteriores ao boom digital.

Isto acontece por uma razão: o mercado especializou-se. Os níveis de vendas actuais são baixos, mas relevantes. São, sobretudo, adequados a uma nova realidade em que nem todos os consumidores compram câmaras DSLR, como acontecia há quinze anos. A qualidade de imagem passou a ser uma consideração secundária e as pessoas que dantes compravam compactas (incluindo as bridge) e DSLRs baratas aderiram aos telemóveis, deixando a Canon, a Nikon e a Pentax sozinhas num mercado que voltou a ser altamente especializado.

Isto significa que os fabricantes lidam agora com volumes de produção muito mais reduzidos, o que coloca um enorme problema porque as divisões de fotografia das principais marcas cresceram, à custa do boom de vendas a que aludi, fazendo com que adquirissem uma dimensão que hoje em dia é insustentável. A Canon, apesar da sua posição na área do material de escritório, adquiriu a divisão de imagiologia médica da Toshiba, o que foi decerto um excelente negócio num mercado que é, curiosamente, dominado pela Olympus. A Ricoh também tem uma actividade diversificada, tal como a Panasonic. A estas marcas é relativamente fácil amortecerem as perdas de vendas de material fotográfico.

O mesmo não se pode dizer da Nikon. Dos fabricantes japoneses, é o único que está verdadeiramente em maus lençóis. O seu volume de vendas em ópticas e imagiologia – a Nikon faz lentes oftalmológicas e microscópios, entre outros – é reduzido porque a Nikon foi sempre, e preponderantemente, um fabricante especializado de câmaras e lentes. Deste modo, é o grande fabricante mais afectado pela diminuição de vendas de material fotográfico, o que a levou a cancelar o lançamento das Nikon DL, uma série de compactas com sensores de 1” e zooms rápidos.

Estas melhorias de vendas não podem deixar de ser boas notícias para a Nikon. Entretanto, a rival Canon, a despeito do seu conservadorismo, vende quase duas câmaras por cada uma que a Nikon vende. E, por cada mirrorless vendida, vendem-se duas DSLR. Neste segmento particular das mirrorless, todas as marcas têm vindo a decrescer no seu volume de vendas, menos uma: não, não é a Fujifilm, que permanece num orgulhoso último lugar entre os fabricantes de câmaras mirrorless. A excepção ao declínio de vendas das sem-espelho é a Sony. O que é perfeitamente explicável: as Sony são câmaras tecnologicamente sofisticadas, incorporando inúmeras inovações, o que agrada a um público que se horroriza ao saber que as DSLR têm nas suas entranhas um espelho de funcionamento mecânico, o que lhes lembra barcos à vela e locomotivas a vapor. O lado bom é que, apesar de gritarem muito nas páginas de comentários do dpreview.com, estes consumidores são poucos.

M. V. M.

Isto promete

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Este ano está a começar com muitas coisinhas boas para os aficionados da fotografia analógica. Primeiro foi a notícia do regresso da Ektachrome; e hoje fiquei também a saber que a Bergger, uma empresa francesa que está no mercado há mais de um século (apeteceu-me acrescentar «sem ninguém dar por isso», mas pode não ser verdade…), relançou a película para preto-e-branco Pancro 400 (lê-se «Pancrô catressã», carregando nos rr) nos formatos 120, 135 e em chapas 4×5, 5×7, 13×18 e 8×10. Como se diz para aquelas bandas: oh-la-la (lê-se «ô-lá-lá»). Contudo, o rolo 135 custa, se for importado directamente do website da Bergger (pelo que há que acrescentar os custos da remessa), a quantia de €6,46. O que o torna pouco competitivo quando comparado com o Ilford HP5 e, sobretudo, com o excelente Kentmere 400. (Mas, ao preço que o Tri-X está, pode ser uma boa alternativa para os adeptos da película mitológica da Kodak).

E a FILM Ferrania, na qual eu começava fundadamente a descrer, vai finalmente colocar no mercado a película preto-e-branco P30 Alpha. Que, apesar do nome, tem uma sensibilidade ASA 80. A FILM Ferrania, que, como sabem, renasceu graças a um crowdfunding – seria disparatado dizer que é uma startup – tem uma grande tradição e um orgulho muito particular no seu passado. E não sem razão, diga-se. No entanto, eu esperaria um pouco, em lugar de pernoitar à porta da loja para ser o primeiro comprador: o projecto FILM Ferrania baseou-se na recuperação de maquinarias da primitiva Ferrania e isso vê-se bem nas fotografias com que se exemplificam as qualidades do P30. Estou certo que os problemas verificados (riscos e variações no contraste) serão resolvidos, mas isto pode demorar. Seja como for, parabéns à FILM Ferrania – não apenas por relançar películas, mas também pela honestidade de não esconder os problemas dos potenciais clientes e assumir que esta película está ainda, como o nome indica, na fase alpha de desenvolvimento (segue-se o beta-testing e, depois, o produto final).

Eu não vou ser cabotino ao ponto de dizer que os dois últimos produtos não me interessam por ter decidido usar película a cores. Ambos me interessam. A julgar pelas amostras disponíveis na internet, a Bergger parece ter uma qualidade muito límpida (a despeito de ser ASA 400) e a P30 deve ser interessante, a julgar pelo contraste muito agudo que surge em algumas fotografias (embora este contraste possa ser resultado dos problemas iniciais a que aludi). Eu faço questão absoluta de experimentar ambas e vou fazê-lo quando estiverem disponíveis em Portugal.

Há mais. O que vou escrever é quase um truísmo, mas tem de ser mencionado. O facto de haver empresas a renascer e a lançar novas películas no mercado (ou novas versões de velhas películas) só pode querer dizer uma coisa – a fotografia analógica está hoje mais pujante do que há dez ou quinze anos, quando a fotografia digital se impôs no mercado. Este entusiasmo crescente não é uma coisa de velhos nostálgicos de vistas curtas que se recusam a aceitar os benefícios da fotografia digital e insistem nas suas práticas arcanas: quando vou a lojas onde se vende material para fotografia analógica, vejo que os clientes são predominantemente jovens, alguns dos quais ainda sem terem chegado aos vintes. O mesmo quando ando na rua e atento nas máquinas que as pessoas transportam consigo. É extremamente salutar ver este interesse crescente pela fotografia analógica. Egoisticamente, assegura-me que o material – especialmente as películas, evidentemente – ainda estará disponível por muitos anos, mas este interesse dos jovens significa, sobretudo, que há uma multidão que ainda leva a fotografia a sério. O que é motivo de esperança.

M. V. M.

E se tivéssemos um pouco de calma?

A actual obsessão da comunidade fotográfica é esta câmara:

Resultado de imagem para fuji GFX-50S

Isto é a Fujifilm GFX-50S. Muitos, incluindo a própria Fujifilm, referem-se a esta câmara digital que está agora a ser lançada no comércio como sendo de «médio formato», mas isto é obviamente um disparate porque a GFX-50S (claro que tinha de incluir um “X”, senão não era uma Fuji) tem um sensor com área de 43.8×32.9mm, enquanto o verdadeiro médio formato – aquele dos rolos de película 120 – tem as dimensões de 6×6 (em centímetros), 6×9, 6×7 ou 6×4,5. Portanto, esta é uma câmara 4×3; está algures entre o verdadeiro médio formato e o 36×24 a que se convencionou chamar «full frame». Numa palavra: esta não é uma câmara de médio formato (mas mais tarde voltaremos à área do sensor).

Esta câmara é cara – posto ser a mais barata das médio formato (chamemos-lhes assim) digitais –, é grande e é feia, o que teoricamente contradiz os argumentos que as pessoas usam para justificar o seu interesse pelas mirrorless (quase me esquecia de mencionar que esta GFX-50S é uma câmara sem-espelho). Com efeito, não é transportável, é desajeitada e vai usar lentes enormes, mas que se dane: é uma mirrorless e as mirrorless, afinal, não são boas por serem compactas e relativamente baratas: são boas porque nelas é tudo electrónico. Os fanáticos das mirrorless sentem-se tão incomodados que parece que lhes falta o ar quando lhes mostram uma SLR (digital ou não). «Oh, não, que coisa obsoleta e grotesca: um espelho – e ainda por cima de accionamento mecânico. Mas estamos no Século XIX, ou quê?», dirão eles, porque só o que é electrónico é bom, porque «electrónico» é sinónimo de progresso e de futuro. O mesmo quanto ao visor óptico, evidentemente, porque se é «óptico» é rudimentar e obsoleto.

E isto é uma Fuji. Sabem, aquela marca que conseguiu pôr alucinados que outrora usavam T-shirts a dizer «I shoot raw» a fotografar em JPEG, porque isto é a única coisa que as mirrorless da Fuji fazem bem: fotografar JPEG com o processador a aplicar à imagem um filtro que imita as transparências da Fujifilm – o Velvia, o Provia e outras já extintas, mas que viverão para sempre na sua imitação digital. No resto, as Fuji fazem tudo mal: os ficheiros Raw não têm nitidez, a focagem automática é um desastre e só se tornam boas depois de um número incomensurável de actualizações. Podia ser divertido, de uma forma mais ou menos lomográfica, fotografar com as Fuji X-Não-Sei-Das-Quantas, por causa das cores, mas estas câmaras são caríssimas. E as lentes também. E, embora a falsa médio formato tenha um sensor Bayer, e não os inúteis X-Trans, as pessoas babam-se por esta câmara porque é uma Fuji. A Hasselblad tem uma câmara mirrorless com um sensor enorme que é muito mais bonita (posto um pouco mais cara), mais pequena e manuseável, mas não tem os filtros que simulam o Velvia e o Provia, por isso não presta.

Voltando ao sensor: as pessoas deixaram-se convencer que precisam de um sensor enorme por causa do bokeh e daquilo a que chamam «gama dinâmica», pelo que vão andar à volta da Fuji GFX feitas abelhas ensandecidas à volta da colmeia. É um disparate. As pessoas deviam, antes de se deixarem embarcar numa aventura ruinosa, perguntar a si mesmas e responder com muita honestidade se são suficientemente boas na fotografia para tirar partido de uma câmara com esta resolução (também seria sensato se perguntassem a si mesmas se a placa gráfica do seu computador aguenta processar ficheiros deste tamanho). De certeza que, se fossem francos consigo mesmos, 99% dos interessados na Fujifilm GFX responderiam que esta câmara não é para eles. Quanto aos restantes 1%, são os profissionais. Estes têm à sua disposição câmaras modulares muito sérias que lhes possibilitam usar cassetes (backs) diferentes, em lugar de estarem limitados a um só sensor, com uma focagem decente e lentes com obturador central com as quais o flash sincroniza em todas as velocidades. Não precisam da Fuji GFX-50S para nada.

Portanto, temos aqui uma câmara que não se percebe para quem é, ou qual a sua utilidade, mas muitos vão comprá-la porque sim. Porque é uma Fuji. Porque é uma mirrorless. E porque tem um sensor enorme. Esperem só até ver a cara destas pessoas quando souberem quanto vão custar as lentes para esta câmara.

M. V. M.

Shocker!

Resultado de imagem para ektachrome

Apesar de estar a decorrer a CES, na qual já foram lançadas câmaras importantes como a Panasonic GH5 e a Nikon D5600, a notícia do dia de hoje, 6 de Janeiro de 2017, foi o anúncio, feito pela Kodak Alaris, de que a produção do Ektachrome ia ser reiniciada.

Acredito que esta notícia pode levar muita gente a sair eufórica para rua em celebração (o que pode ser algo impróprio se for lida logo a seguir ao duche matinal), mas não obstante eu ser um entusiasta da fotografia analógica que ainda está a tentar determinar qual a película a cores mais adequada aos seus gostos, posso dar por certo que essa película não é o Ektachrome.

Com efeito, o Kodak Ektachrome é – para quem ainda não o saiba depois do furor que a notícia causou – uma película para slides (ou, mais adequadamente, diapositivos). Ao contrário dos negativos, nos quais os tons e as cores surgem invertidos, nas películas para diapositivos a imagem é vista tal como ela é na realidade, o que quer dizer que pode ser projectada directamente depois de revelada. O Ektachrome era uma película reputada pelas suas cores neutras e precisas – ao contrário da Kodachrome, que era conhecida pelas suas cores saturadas. (Há quem diga que um dos motivos pelos quais a Kodak perdeu a supremacia no mercado dos diapositivos foi o Ektachrome ter sido deixado sozinho quando a Kodak cessou a produção do Kodachrome, o que foi aproveitado pela Fujifilm para impor os seus Astia, Provia e Velvia.)

Ora, eu nunca me deixei tentar pelos diapositivos. Principalmente por ser conhecedor de que estas películas têm uma gama dinâmica extremamente limitada, sendo demasiado fácil estourar as altas luzes ou perder o pormenor nas sombras devido à sua latitude estreita, mas também por razões monetárias: estas películas custam todas preços que se escrevem com dois algarismos. Pelo contrário, as películas de negativos a cores têm um alcance dinâmico de cerca de quatro EV’s. É preciso ser particularmente inábil (ou ter o fotómetro avariado) para estourar as altas luzes ou escurecer as sombras com películas de negativos. É certo que as imagens feitas com película de diapositivos são maravilhosas, mas as de negativos de médio formato ainda o são mais e, se descontarmos a despesa com a câmara, saem mais baratas. De resto, não me parece que a diferença de preço entre negativos e diapositivos justifique a aquisição destes últimos: o acréscimo de qualidade não é proporcional à diferença no custo.

Então será esta uma notícia que me deixa indiferente? Não, de maneira nenhuma. Ela é mais uma prova de que a película está a conhecer um renascimento em tudo semelhante ao que tem vindo a acontecer com os discos de vinil desde o final dos anos 90 do século passado. Isto pode ser uma surpresa para a maioria das pessoas – ainda hoje li um comentário que comparava esta notícia ao retomar da produção do Ford T, o que apenas prova que essa pessoa não tem nada a não ser ar naquela cabeça –, mas não para os que nunca deixaram de acreditar na película. É, por isto, uma boa notícia.

Agora só falta que um ou dois fabricantes japoneses façam o que a Rega e a Pro-Ject sempre fizeram, com os seus gira-discos de alta qualidade e relativamente acessíveis, e apresentem máquinas fotográficas analógicas como as SLR dos anos 70 (a Nikon FM10 não conta: é uma máquina de plástico encomendada à Cosina). Quem sabe este não pode tornar-se num nicho altamente lucrativo… Pelo menos a Kodak pensa que é.

M. V. M.

Agfa Vista 400

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A Agfa é uma companhia europeia antiga; como todas as companhias europeias antigas, tem uma história extremamente interessante, tendo-se tornado numa das gigantes da imagiologia. Sendo o resultado da fusão de duas companhias que se desenvolveram separadamente – a Agfa na Alemanha, a Gevaert na Bélgica –, a Agfa-Gevaert BV não tem, hoje em dia, a importância que teve para a indústria fotográfica até finais do século passado.

Embora a Agfa-Gevaert ainda exista, e continue a produzir película, já não tem a dimensão que tinha quando os seus produtos rivalizavam com os da Zeiss e a película que produz é para fotografia aérea. Curiosamente, não é a Agfa-Gevaert que produz a película Agfaphoto: a película para fotografia aérea é cortada, inserida em rolos e vendida ao público pela Lomography e pela Rollei. A Agfaphoto, essa, encomenda película à Fujifilm. Digamos que os APX, Vista e Precisa são películas OEM, que são fabricadas no Japão para uma companhia denominada Lupus Imaging Media (que é, aparentemente, a proprietária da marca «Agfaphoto»). Portanto, a película Agfa não é Agfa e a película que a Agfa faz também não. Eu sei que é confuso, por isso nem sequer me vou esforçar por perceber como isto tudo aconteceu.

O que eu sei é que, para película Fujifilm, o Agfa Vista 400 tem uma deficiência surpreendente: os verdes são péssimos. Mortiços na melhor das hipóteses, completamente deslavados e esbranquiçados na pior. O Agfa Vista 400 só não me merece impropérios por o seu preço ser tão modesto, mas posso dizer que, sendo mais caro, consegue ser apenas ligeiramente melhor que o Fuji Superia 200, que é um dos piores rolos a cores que experimentei.

Esta minha apreciação tem de ser lida cum grano salis. Os rolos que usei até hoje, com a aparente excepção do Ferrania Solaris, do Kodak Gold e do Superia, são para uso profissional. A sua qualidade está a léguas da dos rolos vendidos ao público em geral. Deste modo, quando digo que o Agfa Vista é sofrível, é como se estivesse a referir-me a, digamos, um Opel Insignia: este fica a perder para os modelos equivalentes da Mercedes, Audi e BMW – e mesmo para o Peugeot 508 –, mas é bastante melhor que, digamos, um Volkswagen Polo. É tudo uma questão de escalão.

Dito isto, eu esperava que o Agfa Vista me desse cores subtis, mas correctas. A parte da subtileza é cumprida com algum aprumo, mas a correcção deixa qualquer coisa a desejar. Muitas das fotografias que fiz foram invadidas por uma matiz vermelha que adulterou alguns tons. Por exemplo, a areia mais parece terra. Os amarelos parecem ser a cor que mais sofre com esta matiz. Avancei com a referência ao verde ainda antes de entrar na análise das características desta película porque, como todos sabem, a Fujifilm é reputada pela beleza dos seus verdes. Ora, esta beleza está completamente ausente do Agfa Vista 400, o que me surpreendeu. Este é um rolo que dá às fotografias um aspecto antiquado que não me agrada inteiramente.

O grão, como seria de esperar numa película ASA 400, é abundante. Contudo, esta película lembra as tentativas da minha Canon compacta em fotografar com valores ISO superiores a 100: o ruído era inaceitável. O grão do Agfa Vista 400 é horrível nas fotografias feitas com pouca luz, embora discreto e virtualmente indiscernível nas demais.

Então há alguma coisa de bom a dizer a favor desta película? Sim. Os azuis são espectaculares, embora de tempos a tempos possam surgir um pouco desbotados. Quando a luz ambiente é boa, o tingimento vermelho e o grão não afectam demasiado a qualidade da imagem, apenas restando a questão da vibração das cores, que é sobretudo uma questão de gosto. Por mim, prefiro um bocadinho mais de saturação. E o tingimento, diga-se, é bem mais benigno do que quando são as matizes ciano e magenta a invadir a imagem.

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E é uma boa película para fotografar à sombra. Embora os melhores resultados surjam com luz solar pouco intensa, como a que é típica do Outono e Inverno, nas fotografias feitas à sombra – ou, genericamente, com luz escassa – inexiste o tingimento azul que afecta as películas calibradas para luz do dia, como a Portra 160.

Por tudo isto, o Agfa Vista é um rolo que tem defeitos e virtudes. Quanto a mim, os primeiros não chegam a sobrepor-se às qualidades e os únicos vícios que podem ser considerados redibitórios – pelo menos para alguns – são o tingimento vermelho e o grão excessivo. O resto pode até agradar aos adeptos de cores mortiças que se dedicam a um certo tipo de fotografia que está agora muito em voga.

Quanto a mim, penso que consigo obter resultados muito interessantes a partir do Agfa Vista depois de corrigidas as cores na edição de imagem. Simplesmente, usar a manipulação digital é uma das coisas que pretendo evitar: ainda estou à procura de uma película a cores que não precise de retoques no computador. Até agora, a que mais me satisfez foi a Kodak Gold 200, mas não morro de amores pelas suas cores saturadas. A demanda da película a cores perfeita continua, e tenho receio que só a encontre a preços incomportáveis – como a Fujifilm 400H, cujos rolos atingem os dois algarismos na nossa divisa actual.

M. V. M.