Relatório trimestral

De volta a um assunto que apenas me interessa marginalmente, mas que nem por isso deixa de ser útil ir acompanhando: a evolução do mercado do material fotográfico. Como sabem, o mercado das câmaras e lentes tem vindo a diminuir de volume de ano para ano, o que acontece desde 2007, o ano do lançamento do iPhone. Esta descida tem sido progressiva, mas acentuada, e nem as mirrorless conseguiram inverter essa tendência. (De qualquer modo, as mirrorless não são tão populares como os seus donos gostam de acreditar, nem vão matar as DSLRs como alguns esperam.)

Após quase dez anos de declínio, as vendas parecem estar a recuperar no primeiro trimestre deste ano. Nada de particularmente entusiasmante – o crescimento das vendas em Março deste ano foi até um pouco menor do que em 2016 –, mas parece haver uma tendência consistente de aumento das vendas. (Fonte: CIPA.)

Isto tem algumas interpretações. Depois de uma explosão nas vendas, que teve lugar em concomitância com a afirmação das câmaras digitais – na viragem e início do século –, as vendas diminuíram dramaticamente. E mesmo estes números eram sustentados pelas compactas, as quais foram as câmaras que mais sofreram com o advento dos telemóveis equipados com câmaras. Isto significa que houve aquilo que agora se chama um ajustamento: o mercado voltou aos níveis anteriores ao boom digital.

Isto acontece por uma razão: o mercado especializou-se. Os níveis de vendas actuais são baixos, mas relevantes. São, sobretudo, adequados a uma nova realidade em que nem todos os consumidores compram câmaras DSLR, como acontecia há quinze anos. A qualidade de imagem passou a ser uma consideração secundária e as pessoas que dantes compravam compactas (incluindo as bridge) e DSLRs baratas aderiram aos telemóveis, deixando a Canon, a Nikon e a Pentax sozinhas num mercado que voltou a ser altamente especializado.

Isto significa que os fabricantes lidam agora com volumes de produção muito mais reduzidos, o que coloca um enorme problema porque as divisões de fotografia das principais marcas cresceram, à custa do boom de vendas a que aludi, fazendo com que adquirissem uma dimensão que hoje em dia é insustentável. A Canon, apesar da sua posição na área do material de escritório, adquiriu a divisão de imagiologia médica da Toshiba, o que foi decerto um excelente negócio num mercado que é, curiosamente, dominado pela Olympus. A Ricoh também tem uma actividade diversificada, tal como a Panasonic. A estas marcas é relativamente fácil amortecerem as perdas de vendas de material fotográfico.

O mesmo não se pode dizer da Nikon. Dos fabricantes japoneses, é o único que está verdadeiramente em maus lençóis. O seu volume de vendas em ópticas e imagiologia – a Nikon faz lentes oftalmológicas e microscópios, entre outros – é reduzido porque a Nikon foi sempre, e preponderantemente, um fabricante especializado de câmaras e lentes. Deste modo, é o grande fabricante mais afectado pela diminuição de vendas de material fotográfico, o que a levou a cancelar o lançamento das Nikon DL, uma série de compactas com sensores de 1” e zooms rápidos.

Estas melhorias de vendas não podem deixar de ser boas notícias para a Nikon. Entretanto, a rival Canon, a despeito do seu conservadorismo, vende quase duas câmaras por cada uma que a Nikon vende. E, por cada mirrorless vendida, vendem-se duas DSLR. Neste segmento particular das mirrorless, todas as marcas têm vindo a decrescer no seu volume de vendas, menos uma: não, não é a Fujifilm, que permanece num orgulhoso último lugar entre os fabricantes de câmaras mirrorless. A excepção ao declínio de vendas das sem-espelho é a Sony. O que é perfeitamente explicável: as Sony são câmaras tecnologicamente sofisticadas, incorporando inúmeras inovações, o que agrada a um público que se horroriza ao saber que as DSLR têm nas suas entranhas um espelho de funcionamento mecânico, o que lhes lembra barcos à vela e locomotivas a vapor. O lado bom é que, apesar de gritarem muito nas páginas de comentários do dpreview.com, estes consumidores são poucos.

M. V. M.

Isto promete

https://i2.wp.com/bergger.com/media/catalog/product/cache/3/image/650x650/9df78eab33525d08d6e5fb8d27136e95/d/s/dsc00856.jpg

Este ano está a começar com muitas coisinhas boas para os aficionados da fotografia analógica. Primeiro foi a notícia do regresso da Ektachrome; e hoje fiquei também a saber que a Bergger, uma empresa francesa que está no mercado há mais de um século (apeteceu-me acrescentar «sem ninguém dar por isso», mas pode não ser verdade…), relançou a película para preto-e-branco Pancro 400 (lê-se «Pancrô catressã», carregando nos rr) nos formatos 120, 135 e em chapas 4×5, 5×7, 13×18 e 8×10. Como se diz para aquelas bandas: oh-la-la (lê-se «ô-lá-lá»). Contudo, o rolo 135 custa, se for importado directamente do website da Bergger (pelo que há que acrescentar os custos da remessa), a quantia de €6,46. O que o torna pouco competitivo quando comparado com o Ilford HP5 e, sobretudo, com o excelente Kentmere 400. (Mas, ao preço que o Tri-X está, pode ser uma boa alternativa para os adeptos da película mitológica da Kodak).

E a FILM Ferrania, na qual eu começava fundadamente a descrer, vai finalmente colocar no mercado a película preto-e-branco P30 Alpha. Que, apesar do nome, tem uma sensibilidade ASA 80. A FILM Ferrania, que, como sabem, renasceu graças a um crowdfunding – seria disparatado dizer que é uma startup – tem uma grande tradição e um orgulho muito particular no seu passado. E não sem razão, diga-se. No entanto, eu esperaria um pouco, em lugar de pernoitar à porta da loja para ser o primeiro comprador: o projecto FILM Ferrania baseou-se na recuperação de maquinarias da primitiva Ferrania e isso vê-se bem nas fotografias com que se exemplificam as qualidades do P30. Estou certo que os problemas verificados (riscos e variações no contraste) serão resolvidos, mas isto pode demorar. Seja como for, parabéns à FILM Ferrania – não apenas por relançar películas, mas também pela honestidade de não esconder os problemas dos potenciais clientes e assumir que esta película está ainda, como o nome indica, na fase alpha de desenvolvimento (segue-se o beta-testing e, depois, o produto final).

Eu não vou ser cabotino ao ponto de dizer que os dois últimos produtos não me interessam por ter decidido usar película a cores. Ambos me interessam. A julgar pelas amostras disponíveis na internet, a Bergger parece ter uma qualidade muito límpida (a despeito de ser ASA 400) e a P30 deve ser interessante, a julgar pelo contraste muito agudo que surge em algumas fotografias (embora este contraste possa ser resultado dos problemas iniciais a que aludi). Eu faço questão absoluta de experimentar ambas e vou fazê-lo quando estiverem disponíveis em Portugal.

Há mais. O que vou escrever é quase um truísmo, mas tem de ser mencionado. O facto de haver empresas a renascer e a lançar novas películas no mercado (ou novas versões de velhas películas) só pode querer dizer uma coisa – a fotografia analógica está hoje mais pujante do que há dez ou quinze anos, quando a fotografia digital se impôs no mercado. Este entusiasmo crescente não é uma coisa de velhos nostálgicos de vistas curtas que se recusam a aceitar os benefícios da fotografia digital e insistem nas suas práticas arcanas: quando vou a lojas onde se vende material para fotografia analógica, vejo que os clientes são predominantemente jovens, alguns dos quais ainda sem terem chegado aos vintes. O mesmo quando ando na rua e atento nas máquinas que as pessoas transportam consigo. É extremamente salutar ver este interesse crescente pela fotografia analógica. Egoisticamente, assegura-me que o material – especialmente as películas, evidentemente – ainda estará disponível por muitos anos, mas este interesse dos jovens significa, sobretudo, que há uma multidão que ainda leva a fotografia a sério. O que é motivo de esperança.

M. V. M.

E se tivéssemos um pouco de calma?

A actual obsessão da comunidade fotográfica é esta câmara:

Resultado de imagem para fuji GFX-50S

Isto é a Fujifilm GFX-50S. Muitos, incluindo a própria Fujifilm, referem-se a esta câmara digital que está agora a ser lançada no comércio como sendo de «médio formato», mas isto é obviamente um disparate porque a GFX-50S (claro que tinha de incluir um “X”, senão não era uma Fuji) tem um sensor com área de 43.8×32.9mm, enquanto o verdadeiro médio formato – aquele dos rolos de película 120 – tem as dimensões de 6×6 (em centímetros), 6×9, 6×7 ou 6×4,5. Portanto, esta é uma câmara 4×3; está algures entre o verdadeiro médio formato e o 36×24 a que se convencionou chamar «full frame». Numa palavra: esta não é uma câmara de médio formato (mas mais tarde voltaremos à área do sensor).

Esta câmara é cara – posto ser a mais barata das médio formato (chamemos-lhes assim) digitais –, é grande e é feia, o que teoricamente contradiz os argumentos que as pessoas usam para justificar o seu interesse pelas mirrorless (quase me esquecia de mencionar que esta GFX-50S é uma câmara sem-espelho). Com efeito, não é transportável, é desajeitada e vai usar lentes enormes, mas que se dane: é uma mirrorless e as mirrorless, afinal, não são boas por serem compactas e relativamente baratas: são boas porque nelas é tudo electrónico. Os fanáticos das mirrorless sentem-se tão incomodados que parece que lhes falta o ar quando lhes mostram uma SLR (digital ou não). «Oh, não, que coisa obsoleta e grotesca: um espelho – e ainda por cima de accionamento mecânico. Mas estamos no Século XIX, ou quê?», dirão eles, porque só o que é electrónico é bom, porque «electrónico» é sinónimo de progresso e de futuro. O mesmo quanto ao visor óptico, evidentemente, porque se é «óptico» é rudimentar e obsoleto.

E isto é uma Fuji. Sabem, aquela marca que conseguiu pôr alucinados que outrora usavam T-shirts a dizer «I shoot raw» a fotografar em JPEG, porque isto é a única coisa que as mirrorless da Fuji fazem bem: fotografar JPEG com o processador a aplicar à imagem um filtro que imita as transparências da Fujifilm – o Velvia, o Provia e outras já extintas, mas que viverão para sempre na sua imitação digital. No resto, as Fuji fazem tudo mal: os ficheiros Raw não têm nitidez, a focagem automática é um desastre e só se tornam boas depois de um número incomensurável de actualizações. Podia ser divertido, de uma forma mais ou menos lomográfica, fotografar com as Fuji X-Não-Sei-Das-Quantas, por causa das cores, mas estas câmaras são caríssimas. E as lentes também. E, embora a falsa médio formato tenha um sensor Bayer, e não os inúteis X-Trans, as pessoas babam-se por esta câmara porque é uma Fuji. A Hasselblad tem uma câmara mirrorless com um sensor enorme que é muito mais bonita (posto um pouco mais cara), mais pequena e manuseável, mas não tem os filtros que simulam o Velvia e o Provia, por isso não presta.

Voltando ao sensor: as pessoas deixaram-se convencer que precisam de um sensor enorme por causa do bokeh e daquilo a que chamam «gama dinâmica», pelo que vão andar à volta da Fuji GFX feitas abelhas ensandecidas à volta da colmeia. É um disparate. As pessoas deviam, antes de se deixarem embarcar numa aventura ruinosa, perguntar a si mesmas e responder com muita honestidade se são suficientemente boas na fotografia para tirar partido de uma câmara com esta resolução (também seria sensato se perguntassem a si mesmas se a placa gráfica do seu computador aguenta processar ficheiros deste tamanho). De certeza que, se fossem francos consigo mesmos, 99% dos interessados na Fujifilm GFX responderiam que esta câmara não é para eles. Quanto aos restantes 1%, são os profissionais. Estes têm à sua disposição câmaras modulares muito sérias que lhes possibilitam usar cassetes (backs) diferentes, em lugar de estarem limitados a um só sensor, com uma focagem decente e lentes com obturador central com as quais o flash sincroniza em todas as velocidades. Não precisam da Fuji GFX-50S para nada.

Portanto, temos aqui uma câmara que não se percebe para quem é, ou qual a sua utilidade, mas muitos vão comprá-la porque sim. Porque é uma Fuji. Porque é uma mirrorless. E porque tem um sensor enorme. Esperem só até ver a cara destas pessoas quando souberem quanto vão custar as lentes para esta câmara.

M. V. M.

Shocker!

Resultado de imagem para ektachrome

Apesar de estar a decorrer a CES, na qual já foram lançadas câmaras importantes como a Panasonic GH5 e a Nikon D5600, a notícia do dia de hoje, 6 de Janeiro de 2017, foi o anúncio, feito pela Kodak Alaris, de que a produção do Ektachrome ia ser reiniciada.

Acredito que esta notícia pode levar muita gente a sair eufórica para rua em celebração (o que pode ser algo impróprio se for lida logo a seguir ao duche matinal), mas não obstante eu ser um entusiasta da fotografia analógica que ainda está a tentar determinar qual a película a cores mais adequada aos seus gostos, posso dar por certo que essa película não é o Ektachrome.

Com efeito, o Kodak Ektachrome é – para quem ainda não o saiba depois do furor que a notícia causou – uma película para slides (ou, mais adequadamente, diapositivos). Ao contrário dos negativos, nos quais os tons e as cores surgem invertidos, nas películas para diapositivos a imagem é vista tal como ela é na realidade, o que quer dizer que pode ser projectada directamente depois de revelada. O Ektachrome era uma película reputada pelas suas cores neutras e precisas – ao contrário da Kodachrome, que era conhecida pelas suas cores saturadas. (Há quem diga que um dos motivos pelos quais a Kodak perdeu a supremacia no mercado dos diapositivos foi o Ektachrome ter sido deixado sozinho quando a Kodak cessou a produção do Kodachrome, o que foi aproveitado pela Fujifilm para impor os seus Astia, Provia e Velvia.)

Ora, eu nunca me deixei tentar pelos diapositivos. Principalmente por ser conhecedor de que estas películas têm uma gama dinâmica extremamente limitada, sendo demasiado fácil estourar as altas luzes ou perder o pormenor nas sombras devido à sua latitude estreita, mas também por razões monetárias: estas películas custam todas preços que se escrevem com dois algarismos. Pelo contrário, as películas de negativos a cores têm um alcance dinâmico de cerca de quatro EV’s. É preciso ser particularmente inábil (ou ter o fotómetro avariado) para estourar as altas luzes ou escurecer as sombras com películas de negativos. É certo que as imagens feitas com película de diapositivos são maravilhosas, mas as de negativos de médio formato ainda o são mais e, se descontarmos a despesa com a câmara, saem mais baratas. De resto, não me parece que a diferença de preço entre negativos e diapositivos justifique a aquisição destes últimos: o acréscimo de qualidade não é proporcional à diferença no custo.

Então será esta uma notícia que me deixa indiferente? Não, de maneira nenhuma. Ela é mais uma prova de que a película está a conhecer um renascimento em tudo semelhante ao que tem vindo a acontecer com os discos de vinil desde o final dos anos 90 do século passado. Isto pode ser uma surpresa para a maioria das pessoas – ainda hoje li um comentário que comparava esta notícia ao retomar da produção do Ford T, o que apenas prova que essa pessoa não tem nada a não ser ar naquela cabeça –, mas não para os que nunca deixaram de acreditar na película. É, por isto, uma boa notícia.

Agora só falta que um ou dois fabricantes japoneses façam o que a Rega e a Pro-Ject sempre fizeram, com os seus gira-discos de alta qualidade e relativamente acessíveis, e apresentem máquinas fotográficas analógicas como as SLR dos anos 70 (a Nikon FM10 não conta: é uma máquina de plástico encomendada à Cosina). Quem sabe este não pode tornar-se num nicho altamente lucrativo… Pelo menos a Kodak pensa que é.

M. V. M.

Agfa Vista 400

img-031

A Agfa é uma companhia europeia antiga; como todas as companhias europeias antigas, tem uma história extremamente interessante, tendo-se tornado numa das gigantes da imagiologia. Sendo o resultado da fusão de duas companhias que se desenvolveram separadamente – a Agfa na Alemanha, a Gevaert na Bélgica –, a Agfa-Gevaert BV não tem, hoje em dia, a importância que teve para a indústria fotográfica até finais do século passado.

Embora a Agfa-Gevaert ainda exista, e continue a produzir película, já não tem a dimensão que tinha quando os seus produtos rivalizavam com os da Zeiss e a película que produz é para fotografia aérea. Curiosamente, não é a Agfa-Gevaert que produz a película Agfaphoto: a película para fotografia aérea é cortada, inserida em rolos e vendida ao público pela Lomography e pela Rollei. A Agfaphoto, essa, encomenda película à Fujifilm. Digamos que os APX, Vista e Precisa são películas OEM, que são fabricadas no Japão para uma companhia denominada Lupus Imaging Media (que é, aparentemente, a proprietária da marca «Agfaphoto»). Portanto, a película Agfa não é Agfa e a película que a Agfa faz também não. Eu sei que é confuso, por isso nem sequer me vou esforçar por perceber como isto tudo aconteceu.

O que eu sei é que, para película Fujifilm, o Agfa Vista 400 tem uma deficiência surpreendente: os verdes são péssimos. Mortiços na melhor das hipóteses, completamente deslavados e esbranquiçados na pior. O Agfa Vista 400 só não me merece impropérios por o seu preço ser tão modesto, mas posso dizer que, sendo mais caro, consegue ser apenas ligeiramente melhor que o Fuji Superia 200, que é um dos piores rolos a cores que experimentei.

Esta minha apreciação tem de ser lida cum grano salis. Os rolos que usei até hoje, com a aparente excepção do Ferrania Solaris, do Kodak Gold e do Superia, são para uso profissional. A sua qualidade está a léguas da dos rolos vendidos ao público em geral. Deste modo, quando digo que o Agfa Vista é sofrível, é como se estivesse a referir-me a, digamos, um Opel Insignia: este fica a perder para os modelos equivalentes da Mercedes, Audi e BMW – e mesmo para o Peugeot 508 –, mas é bastante melhor que, digamos, um Volkswagen Polo. É tudo uma questão de escalão.

Dito isto, eu esperava que o Agfa Vista me desse cores subtis, mas correctas. A parte da subtileza é cumprida com algum aprumo, mas a correcção deixa qualquer coisa a desejar. Muitas das fotografias que fiz foram invadidas por uma matiz vermelha que adulterou alguns tons. Por exemplo, a areia mais parece terra. Os amarelos parecem ser a cor que mais sofre com esta matiz. Avancei com a referência ao verde ainda antes de entrar na análise das características desta película porque, como todos sabem, a Fujifilm é reputada pela beleza dos seus verdes. Ora, esta beleza está completamente ausente do Agfa Vista 400, o que me surpreendeu. Este é um rolo que dá às fotografias um aspecto antiquado que não me agrada inteiramente.

O grão, como seria de esperar numa película ASA 400, é abundante. Contudo, esta película lembra as tentativas da minha Canon compacta em fotografar com valores ISO superiores a 100: o ruído era inaceitável. O grão do Agfa Vista 400 é horrível nas fotografias feitas com pouca luz, embora discreto e virtualmente indiscernível nas demais.

Então há alguma coisa de bom a dizer a favor desta película? Sim. Os azuis são espectaculares, embora de tempos a tempos possam surgir um pouco desbotados. Quando a luz ambiente é boa, o tingimento vermelho e o grão não afectam demasiado a qualidade da imagem, apenas restando a questão da vibração das cores, que é sobretudo uma questão de gosto. Por mim, prefiro um bocadinho mais de saturação. E o tingimento, diga-se, é bem mais benigno do que quando são as matizes ciano e magenta a invadir a imagem.

img-020

E é uma boa película para fotografar à sombra. Embora os melhores resultados surjam com luz solar pouco intensa, como a que é típica do Outono e Inverno, nas fotografias feitas à sombra – ou, genericamente, com luz escassa – inexiste o tingimento azul que afecta as películas calibradas para luz do dia, como a Portra 160.

Por tudo isto, o Agfa Vista é um rolo que tem defeitos e virtudes. Quanto a mim, os primeiros não chegam a sobrepor-se às qualidades e os únicos vícios que podem ser considerados redibitórios – pelo menos para alguns – são o tingimento vermelho e o grão excessivo. O resto pode até agradar aos adeptos de cores mortiças que se dedicam a um certo tipo de fotografia que está agora muito em voga.

Quanto a mim, penso que consigo obter resultados muito interessantes a partir do Agfa Vista depois de corrigidas as cores na edição de imagem. Simplesmente, usar a manipulação digital é uma das coisas que pretendo evitar: ainda estou à procura de uma película a cores que não precise de retoques no computador. Até agora, a que mais me satisfez foi a Kodak Gold 200, mas não morro de amores pelas suas cores saturadas. A demanda da película a cores perfeita continua, e tenho receio que só a encontre a preços incomportáveis – como a Fujifilm 400H, cujos rolos atingem os dois algarismos na nossa divisa actual.

M. V. M.

Marketing e a nova OM-D «profissional»

https://i1.wp.com/www.getolympus.com/media/catalog/product/cache/1/thumbnail/700x350/9df78eab33525d08d6e5fb8d27136e95/a/l/alternateview5_7.jpg
É um facto bem conhecido dos profissionais do marketing: os consumidores deixam-se enganar facilmente. Alguns, aparentemente, gostam de ser enganados, especialmente nesta era de pretensos desenvolvimentos tecnológicos.

Uma das maneiras de iludir os consumidores e convencê-los a comprar aquilo de que não precisam é ofuscá-los com tecnologia. Resulta com os pixéis do sensor de uma câmara, mas também com uma data de inutilidades de que as pessoas se deixam convencer de que precisam como de pão para a boca. É o caso do vídeo 4K (quantos têm televisões e computadores preparados para 4K?) e dos valores ISO astronómicos, mas também do número de disparos sequenciais, da ligação Wi-Fi e do GPS. Ai do fabricante que se atreva a não incluir qualquer destas funcionalidades numa câmara: esta torna-se obsoleta e ridícula no próprio dia da sua apresentação.

Uma das companhias mais activas no que toca a encher as suas câmaras de funções inúteis é, curiosamente, a Olympus. Que longe estamos dos valores de simplicidade e bom design de Yoshihisa Maitani: agora as câmaras da Olympus são as mais complicadas de operar, com menus infinitos e inacessíveis, botões com duplas funções, interruptores e manípulos para tudo e mais alguma coisa – e tudo isto em aparelhos minúsculos, tal como minúsculos são os sensores 4/3. A insistência da Olympus neste sensor é algo que nem sei como qualificar: teimosia? Obstinação? Estupidez?

Os britânicos têm dois ditos interessantes que não têm correspondência na sabedoria popular portuguesa: um é you can’t make a silk purse of a sow’s ear (não se pode fazer uma bolsa de seda da orelha de uma porca) e outro, um pouco mais directo, é you can’t polish a turd (não se pode polir uma bosta). No entanto é isto mesmo que a Olympus anda a fazer desde 2002. Insistem num sensor – e consequentemente num formato e num sistema construído à sua volta – que nunca deu nem dará bons resultados.

Tudo isto vem a propósito da nova porta-estandarte da Olympus, a fastidiosamente denominada Olympus OM-D E-M1 Mark II. Evidentemente, esta câmara tem nas suas entranhas um sensor 4/3. A lista de funcionalidades, as mais delas inúteis, é infindável: 20 megapixéis, selagem contra os elementos, disparo sequencial de quinze exposições com o obturador mecânico e sessenta com o electrónico, tempo de exposição mínimo de 1/8000 com o obturador mecânico, estabilização de imagem em cinco eixos, gravação de vídeo em 4K, ecrã articulado em todas as direcções (como se pode viver sem isto?) e sensível ao toque, cento e vinte e um pontos de focagem automática, com detecção de fase no sensor, e umas coisas chamadas sensor shift e focus stacking – seja lá o que isso for.

Outro fenómeno típico das operações de marketing é o de nos tentar convencer que os progressos tecnológicos se sucedem a uma velocidade vertiginosa. No caso da Olympus, tentaram fazer-nos crer que a mudança do velho sensor Panasonic de 12,3 megapixéis para um fabricado pela Sony trouxe diferenças como da noite para o dia em matéria de qualidade de imagem. Conjugando isto com as funcionalidades enunciadas no parágrafo anterior, não surpreende que haja quem pense que a Olympus OM-D E-M1 Mark II é a câmara perfeita. Hmmm… não, não é. Esta profusão de tecnologia não contribui em praticamente nada para a qualidade de imagem.

Comecemos pelo ruído. Os níveis de ruído produzidos pelo sensor Sony de 20 megapixéis são embaraçosos. O ruído a ISO 800 é tão mau como o da minha E-P1 quando fotografo a ISO 400. Isto significa que, entre 2009 e 2016, tudo o que foi conseguido foi um progresso que se reduz a 1 EV. Muito pouco, e uma desilusão para quem se deixou enganar pelo marketing que prometia uma melhoria como do dia para a noite graças ao sensor novo. O ruído não era o único defeito do sensor Panasonic das primeiras mirrorless da Olympus: a tendência para estourar as altas luzes melhorou um pouco com a passagem para os sensores da Sony, mas as imagens continuam afectadas por uma claridade que não é a que vemos com os nossos olhos e que é o resultado da rápida saturação dos fotodiodos. Suporia, com base nisto, que também aqui os progressos não foram nada de sensacional.

Contudo, a Olympus está a pedir €1.800 por esta câmara, o que é mais do que custava a E-5, a última DSLR da marca. Com esta qualidade de imagem, o que esses mil e oitocentos euros pagam é a profusão de funções inúteis que esta câmara incorpora. Querem que se pague uma fortuna por uma câmara cuja qualidade de imagem não melhorou substancialmente em relação à E-P1 de 2009. Por este preço é possível comprar uma Pentax K-1, que é maior mas é uma full-frame e uma DSLR, com um visor óptico e uma qualidade de imagem superior. Ah – quase me esquecia de referir que a Olympus tem a pretensão de dizer que esta é uma câmara profissional. O sake que eles bebem às refeições é mesmo forte.

M. V. M.

A fotografia instantânea e eu

https://static.independent.co.uk/s3fs-public/styles/story_medium/public/thumbnails/image/2015/08/26/14/SX-70.jpg

Recordo-me vagamente de, em criança, ter tido aspirações ambíguas de fotografar com uma Polaroid. Estas fantasias pertenciam ao domínio do irrealizável, porque as Polaroid eram caras e não serviam os propósitos de uma máquina fotográfica de família; por isso, quando tinha treze anos, o que recebi foi uma Agfamatic Pocket 1000, que usava rolos 110 e me convenceu que jamais faria uma única fotografia decente.

Também me lembro de que os meus sonhos infanto-juvenis esbarravam na limitação da escassez temática: depois de ter fotografado os meus pais, a minha irmã e mais um punhado de pessoas – tinha a certeza que os amigos considerariam ridícula qualquer manifestação da minha eventual vontade de fotografá-los e reagiriam com alguma hostilidade –, que me restaria para fotografar com a hipotética Polaroid? Os sonhos não duraram muito, mas deixaram qualquer coisa plantada na minha mente.

De volta aos nossos dias: a Fujifilm vai lançar papel para fotografia instantânea em formato quadrado (1:1), o projecto Impossible é um êxito e a Leica lançou a sua própria versão da Fujifilm Instax Mini 90, a que chamou «Sofort» (uma palavra alemã que é sinónima de «instantâneo»). Não parece haver dúvidas que a fotografia instantânea está cheia de vitalidade. Que pensar disto?

A fotografia instantânea é, e sempre foi, convivial por natureza. Embora tenha sido usada com fins artísticos por fotógrafos como Toto Frima ou William Albert Allard (que poderia ter feito as suas Polaroids com outra câmara qualquer), estas fotografias servem o propósito de amigos se fotografarem uns aos outros e se divertirem. O que não tem, evidentemente, nada de mal: pelo contrário, é muito menos absurdo que as selfies e, ao contrário destas últimas, implica um pouco de esforço cerebral.

Chegado aqui, enfrento uma encruzilhada: uma parte de mim deseja o sucesso desta forma de fotografia. Ela é parente próxima da Lomografia, porque em ambos os casos as pessoas que fotografam não levam o que fazem demasiado a sério: não têm pretensões de fazer arte nem de agradar a todos. São jovens conviviais, urbanos e sofisticados que querem simplesmente divertir-se a tirar polaróides.

Outro lado de mim – o lado pragmático, utilitarista e irremediavelmente fiel à terra – despreza a fotografia instantânea e considera-a frívola, oca e sem sentido; as polaróides são as selfies dos universitários ricos e a Toto Frima e o Allard foram provavelmente contratados pela Polaroid para legitimar intelectualmente a vacuidade da fotografia instantânea.

Uma parte de mim quer aderir a mais esta coqueluche revivalista; outra diz-me que a fotografia instantânea é um disparate. Mas depois vem a realidade intrometer-se e resolver em definitivo a questão, esclarecendo-me que, embora pudesse facilmente adquirir uma câmara instantânea – até as mais sofisticadas, as Polaroid SX70, podem ser adquiridas por valores módicos –, o preço do papel é proibitivo: a Impossible vende cassetes de papel fotográfico por €20, mas cada uma contém apenas 8 papéis – o que significa que cada fotografia fica por €2,50. Sai cara, esta fotografia convivial. Bem mais cara do que a fotografia com rolos 135.

Parece que os sonhos vagos e ambíguos da minha infância vão ficar por concretizar. Contudo, a minha costela que se recusa a envelhecer regozija com este sucesso da fotografia instantânea. Não é para mim – este tipo de fotografia não é para pessoas como eu –, mas há quem tenha imenso prazer em tirar polaróides. Este é um prazer que não prejudica outros, não tem consequências negativas (pelo contrário) e, sobretudo, ajuda a preservar a ligação da fotografia ao seu lado físico que se consubstancia no papel. Hoje a fotografia é praticamente imaterial; a fotografia instantânea mantém viva a tradição da impressão e do papel. Mesmo sendo em formatos minúsculos e com uma resolução discutível, esta é sem dúvida uma virtude. Um dia, quando todos os discos rígidos queimarem e as clouds deixarem de armazenar e disponibilizar dados, alguém manterá um acervo material de fotografias. Mesmo que algumas delas possam ser disparatadas, a memória terá triunfado sobre o efémero.

M. V. M.