O futuro não tem espelho, parte 2

A homogeneização a que aludi no final do texto anterior tem o resultado perverso, e paradoxal, de os produtos que o consumidor pode escolher serem sucedâneos uns dos outros: tanto faz comprar um Volkswagen, um Opel ou um Renault, porque têm especificações e preços idênticos e as únicas diferenças são cosméticas. Hoje em dia os construtores estão a borrifar-se no prazer de conduzir e na individualidade, porque apenas uma minoria procura estes atributos; como a maioria dos consumidores não sabe se o automóvel que quer comprar é de tracção traseira ou dianteira, os construtores oferecem produtos que agradam a quem não vê no automóvel mais que um meio de locomoção. A aparência tem muito mais importância do que a substância, como pode testemunhar um meu conhecido que, pensando que estava a adquirir um todo-o-terreno da Honda (as formas do veículo sugeriam-no), deu por si com um SUV de tracção à frente sem qualquer vocação para trilhos de terra e lama ou para galgar dunas. Ah – e a tendência para o rebanho que os consumidores demonstram terá por efeito que um dia todos os automóveis sejam de caixa automática e, pior ainda, autónomos.

O leitor que me seguiu até aqui estará porventura a indagar onde quero chegar com tudo isto. No caso da indústria fotográfica, a conjugação das exigências expressas na Internet e da vontade dos grandes fabricantes em realizar economias em detrimento dos consumidores minoritários está a conduzir à homogeneização da oferta. Any camera you like, as long as it’s mirrorless podia ser um novo slogan se Henry Ford fosse vivo e produzisse câmaras em lugar de automóveis. Sim, porque a indústria está progressivamente a fazer desaparecer as DSLR – as câmaras de telémetro estão reduzidas a um nicho ocupado exclusivamente pela Leica – e a trocá-las por câmaras mirrorless.

Não pode ser outra a conclusão a extrair das apresentações das Nikon Z6 e Z7, há duas semanas, e da Canon EOS R, que ocorreu anteontem. Olhando para estas câmaras, posso dizer, com segurança, que o futuro é isto: as DSLR vão desaparecer. O que, de resto, não é novidade nenhuma: a Olympus eutanasiou a sua última DSLR, a E-5, em 2013, e agora só vende câmaras mirrorless.

Isto é bom ou mau? Estas câmaras só podem ter visores electrónicos, o que as coloca na família das bridge dos turistas se sandália e peúga branca; é seguramente mais barato para os fabricantes adquirir visores electrónicos OEM ao preço da uva mijona e incorporá-los nas câmaras do que incluir um espelho, um pentaprisma e um visor óptico – e, no entanto, podem cobrar o mesmo preço – ou mais elevado – que uma DSLR, porque os tais foristas do dpreview.com ficam tão embasbacados com a simples menção do adjectivo «electrónico» que pagam alegremente o dobro do que a câmara realmente vale para ter toda aquela inovação. A tecnologia reflex já vem do tempo dos periscópios dos primeiros submarinos; está portanto horrivelmente obsoleta e ultrapassada. O visor electrónico é o futuro. Pouco importa se a percepção do movimento é melhor com uma reflex, ou se a focagem é mais rápida: as mirrorless são o que está a dar. O visor electrónico é o futuro, e isso basta – mesmo se este futuro já vem do tempo das primeiras bridge.

Repito a pergunta: – isto é bom ou mau? Nem uma coisa nem outra: é o que é. As mirrorless vão substituir as DSLR no mercado muito mais volumoso dos amadores. A Canon e a Nikon estão, com os seus modelos novos, a fazer uma transição suave e gradativa das DSLR para as mirrorless. A procura de câmaras DSLR vai diminuir até se confinar aos profissionais que precisam da focagem mais rápida e de um visor com o qual vêem a acção em directo e em tempo real, e têm uma colecção de objectivas concebidas para usar com corpos DSLR. Do ponto de vista da qualidade da imagem não haverá diferença, porque os sensores são o que determina a qualidade, juntamente com as objectivas, e os sensores são os mesmos que estão nas entranhas das melhores DSLR. Claro que vão passar décadas até que os sistemas mirrorless tenham uma gama de objectivas tão completa como as DSLR, mas isto não afecta os consumidores que entretanto se habituaram a pensar nos corpos como estando no coração de um sistema – é neles que está a tecnologia de ponta –, sendo as lentes meros «periféricos» (juro que li isto num artigo do dpreview.com!); e, de resto, há adaptadores para usar as objectivas «antigas».

No fundo, continuará a haver oferta suficiente para todos, mas os mais exigentes terão de pagar fortunas por produtos de nicho, nos quais as DSLR estarão incluídas. Nada que não se veja noutros bens de consumo: se o leitor precisar de um automóvel sem as inestéticas portas traseiras (que acrescem ao peso e ao preço), a Ferrari e a Porsche ainda terão alguns modelos com essa característica obsoleta – tal como a Canon e a Nikon ainda irão ter um ou dois modelos de DSLR no catálogo. A preços proibitivos.

M. V. M.

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O futuro não tem espelho, parte 1

O consumidor tem hoje uma voz que não tinha nos primórdios da produção em massa de bens de consumo. Foram feitos enormes progressos em matéria de qualidade e de segurança e a oferta de produtos e serviços evoluiu, salvo algumas perversões de relevância variada, para uma concorrência quase perfeita: parece que não há nada que as pessoas possam imaginar e a indústria não ofereça (ou melhor: venda).

A indústria fotográfica é um bom exemplo. Se o consumidor se contenta com um telemóvel, há-os desde os mais simples aos que têm duas e três câmaras para compensar a impossibilidade de usar um zoom óptico; o turista de peúga branca sob sandália Birkenstock tem uma cornucópia de câmaras bridge por onde escolher; escolha é coisa que não falta para amadores empenhados, profissionais e nerds da técnica: podem escolher entre DSLRs e mirrorless, com sensores cropped, full-frame ou de médio formato. As opções parecem intermináveis, como se houvesse tudo para todos. Até as películas merecem a atenção da indústria! Hoje não pode haver quem se queixe de não haver o que quer ter.

O problema actual desta atenção ao consumidor é que uns têm mais voz que outros. Antes faziam-se estudos de mercado e a oferta ajustava-se à procura; agora, com a Internet, os fabricantes vão aos websites de referência ler as caixas de comentários e as discussões nos fóruns. Simplesmente, quem frequenta as caixas de comentários e os fóruns dos websites ditos de referência é uma mão-cheia de indivíduos que nutrem um interesse anómalo pelas questões técnicas. Eles não vão descansar enquanto não tiverem uma câmara (as objectivas são irrelevantes, ou quase, para estes seres) que preencha todas as especificações técnicas imagináveis por €200 ou menos.

Este frequentador do ciberespaço tem outra característica que não mencionei acima por merecer tratamento especial: é louco pela inovação. Há pessoas receptivas à inovação quando esta traz progressos reais, e depois há aquelas para quem a inovação é um fim em si. Estas pessoas têm uma aversão enorme a tudo o que não seja digital e electrónico e estão no topo da pirâmide dos frequentadores das caixas de comentários e fóruns do dpreview.com. E são particularmente exigentes: se uma câmara vem equipada com vídeo 4K e 30 fps, eles querem 6K e 60 fps; se as objectivas são estabilizadas mas o sensor não, a câmara é obsoleta antes de ter sido lançada. Se os fabricantes lançam uma câmara com sensor APS-C, não presta: tinha de ser full-frame. A lista de exigências deste grupo não pára. Nunca estão satisfeitos. (Saber se compram as câmaras que exigem é outra questão, tal como saber se precisam delas ou se o que fazem com câmaras tão evoluídas tem algum valor.)

Paralelamente a isto, existe uma tendência na indústria que tem um efeito perverso, que é a uniformização dos produtos. As empresas copiam as fórmulas de sucesso e tendem a homogeneizar os produtos. A diversificação que referi só é real até ao ponto em que um produto, ou sua variante, é lucrativo. Insiro aqui um exemplo retirado da indústria automóvel: os veículos ditos de «3 portas» (com apenas uma porta de cada lado e outra para acesso à mala) estão a desaparecer: a Peugeot e a Land Rover vão «descontinuar» os modelos, respectivamente, 208 e Evoque de três portas, e automóveis como o Renault Clio, o Ford Focus e o Volkswagen Polo já são exclusivamente oferecidos com cinco portas. Como os consumidores que não precisam das portas traseiras (ou não as querem) são em menor número, não têm direito às linhas mais puras e individuais de um «3 portas». É um paradoxo, mas estamos a voltar ao tempo em que Henry Ford  impingia o Ford T, que era apenas vendido com a cor preto, com o slogan any colour you like, as long as it’s black. Há muitos segmentos de mercado, mas em cada segmento a oferta das diversas marcas tende a ser idêntica. Os fabricantes impõem, não apenas os produtos, mas os gostos dos consumidores. Conformam a disposição do consumidor por formas subtis, de maneira a que este adquira, não o que necessita, mas o que convém à indústria. O consumidor tem tudo o que a indústria decidiu que ele precisa – coupés desportivos de 4 portas, SUVs com linhas de coupé, monovolumes com prestações desportivas, entre outras aberrações –, mas não lhe dão um carro com o número de portas de que verdadeiramente precisa. (Continua)

M. V. M.

Publicidade enganosa

Tenho as minhas razões para ter deixado correr tanto tempo sem escrever uma linha para o Número f/, mas algumas são de ordem pessoal e, se me permitem, prefiro manter alguma reserva sobre elas. Pelo facto peço as minhas desculpas aos leitores.

Dito isto, esta treta da «fotografia computacional» continua a moer-me o juízo mais do que devia. Há um limite para a ilusão, e esse limite é sistematicamente ultrapassado pelas pessoas que imaginam ter no seu smartphone uma câmara muito capaz. Não têm, evidentemente. As imagens que aquilo produz não resistem a ser mostradas num ecrã maior que o do próprio aparelho. Vê-las no computador é eloquente quanto às limitações da câmara que as tirou, com a imprecisão das cores, a destruição do pormenor (por acção da redução do ruído) e, por vezes, a ausência de nitidez por deficiência da focagem a serem os principais problemas.

Contudo, há quem acredite tolamente que todos os problemas de uma objectiva e um sensor menos que medíocres podem ser ultrapassados pelos algoritmos do processador de imagem e chamam a isso «fotografia computacional»; alguns levam o delírio ao ponto de acreditarem que podem usar o smartphone como se fosse uma câmara convencional e controlar a exposição através de uma app. Esta crença, quando não resulta de uma fé febril nos poderes da electrónica, apenas demonstra ignorância quanto ao funcionamento da câmara de um smartphone.

As apps que prometem uma experiência fotográfica semelhante à de usar uma DSLR – sim, há quem leve a falácia a esse ponto – incluem um controlo da abertura, do tempo de exposição e do ISO. Qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe que isto é impossível. Como as objectivas dos smartphones são de abertura fixa – seria impossível montar um diafragma numa objectiva  tão pequena –, é uma falsidade pensar-se que se pode ter controlo manual sobre a exposição. A abertura (fixa) das objectivas é, no geral, algures entre f/1.8 e f/2.8, o que é compensado por tempos de exposição que podem chegar a 1/33000 – o que é necessário para evitar a sobre-exposição quando se fotografa sob luz solar intensa. Deste modo, o que estas apps fazem é simular «computacionalmente» os efeitos dos parâmetros da exposição seleccionados pelo utilizador. Este último não acciona o diafragma nem o movimento das cortinas do obturador – até porque estas últimas não existem, já que o obturador dos smartphones é electrónico.

De resto, não vejo qual é a utilidade destas apps. Se alguém quer ter controlo manual sobre a exposição, fica mais bem servido com uma câmara na qual accione o diafragma e o obturador. Um smartphone não é nem nunca será um substituto de uma DSLR: tudo o que pode fazer é imitar, de forma mais ou menos grosseira, a qualidade de imagem de uma câmara decente, mas este resultado é obtido à custa de batota, com a manipulação da imagem pelo processador. Serve para selfies e para as fotografias parvas que se publicam no instagram (desde que vistas no ecrã do telemóvel), mas nada mais. Pretender o contrário é puro delírio.

A Apple foi, em tempos, proibida de usar a expressão «qualidade profissional» para definir os atributos da câmara do iPhone, por ser considerada publicidade enganosa, mas parece que os tribunais e as autoridades de defesa do consumidor são mais brandos quando se trata de apps que prometem pro level images.

M. V. M.

Moby Dick

Os sistemas mirrorless foram a melhor coisa que aconteceu aos nerds que, por grande azar nosso, se dedicam a tirar fotografias. Vejam só: tudo naquelas câmaras é electrónico. Não há lugar para coisas rudimentares e obsoletas como espelhos e pentaprismas (curiosamente, o facto de as objectivas serem feitas com vidro parece não perturbar tanto os nerds como a existência de um espelho e de um pentaprisma do mesmo material) e qualquer dia as câmaras mirrorless prescindem completamente das cortinas do obturador. Ainda por cima, são câmaras que atingem números de fotogramas por segundo incríveis, o que é importante quando se quer fotografar o gato que nunca sabe quando deve ficar quieto a fazer pose.

Quando estes sistemas estavam ainda numa fase de descolagem, era frequente esgrimir o argumento do tamanho: de facto, uma câmara mirrorless é mais pequena por não precisar do volume que o espelho exige nas SLR; e, como a distância entre a lente posterior da objectiva e o sensor é menor, as objectivas podem também ser mais pequenas. Isto originou uma vaga de fundo: de repente, descobriu-se que as DSLR e as suas objectivas para o formato full-frame eram monstruosas e, foi-se a ver, causaram uma epidemia de cifoses, lordoses e escolioses ao longo dos anos. Os pobres fotógrafos, derreados pelo peso das suas 11-22 e 70-200 e dos corpos DSLR monstruosos, saudaram efusivamente a chegada ao mercado de câmaras e objectivas leves e compactas. Finalmente iam poder entregar-se nas mãos de fisioterapeutas e corrigir as corcundas infligidas pelos paquidermes da Canon e Nikon durante tantos anos. Pelo menos era isto que se podia depreender dos websites de fotografia e respectivas caixas de comentários.

Agora a Sony veio mostrar que, afinal, não há nenhuma vantagem de tamanho. Lançou uma objectiva 400mm-f/2.8 que é mais leve 900 g que as rivais Canon e Nikon (o que é irrelevante, porque objectivas como estas são usadas com tripés ou monopés), mas em contrapartida é exactamente do mesmo tamanho e, ainda por cima, é mais cara.

Da esquerda para a direita: Canon, Nikon e Sony

Eu não sei o que pretende a Sony com esta objectiva: será afirmar-se como fabricante de objectivas? Será mostrar que pode rivalizar com a Canon e a Nikon e oferecer produtos de qualidade profissional numa categoria de equipamento que se tem destacado pela frivolidade e por só ter adeptos entre amadores obcecados por números e tecnologia? Quanto a mim, esta objectiva é um statement. A Sony quer mostrar que os seus sistemas mirrorless são tão bons como os sistemas DSLR da Canon e da Nikon, mas o seu objectivo não é convencer os profissionais: estes construíram os seus sistemas à volta das objectivas e não estão dispostos a gastar fortunas construindo novos sistemas de raiz para ter uma qualidade que, na melhor das hipóteses, é comparável ao que já têm. Ao invés, o potencial cliente da Sony compra uma α9 pelas suas especificações e sofisticação tecnológica. As objectivas vêm depois, tal como a qualidade da imagem. É este o tipo de consumidor que a Sony quer convencer com o seu Moby Dick.

Fica assim desfeita a última falácia dos propugnantes das mirrorless. A opção por sensores full-frame e de médio formato destrói a pretensa vantagem do peso e do tamanho, com os inconvenientes de um sistema de focagem automática que ainda carece de aperfeiçoamento, de obrigar ao uso de um visor electrónico, de uma ergonomia insuficiente e de um potencial sobreaquecimento (as Sony α7 são reputadas por aquecerem em demasia quando filmam vídeo). Assim de repente, e a despeito dos websites e seus comentaristas, não estou a ver os fotojornalistas a fugir em debandada da Canon e da Nikon e a aderir maciçamente à Sony. Seria necessário que a Sony oferecesse uma vantagem substancial em qualidade da imagem, funcionalidades e ergonomia, o que está muito longe de acontecer. Nenhum fotojornalista vai mudar de sistema para ter um visor electrónico.

M. V. M.

Cadavre exquis

A última notícia oriunda do Reino da Fotografia Analógica (RFA) é a de um evento que, se formos a ver bem, era bastante previsível. A Fujifilm vai acabar com a película Neopan Acros 100 no mês de Outubro.

Isto quer dizer que é a segunda vez, no espaço de menos de um mês, que dou conta, aqui no Número f/, do futuro desaparecimento de uma película. Antes fora a Agfaphoto Vista, agora a Neopan Acros 100. No caso desta última, a Fujifilm já havia suprimido as Acros de sensibilidade mais alta (1600 e 400); agora é a vez da versão mais insensível.

Isto levanta duas questões sobre as quais vale a pena especular. A primeira é a de saber se isto é o prenúncio do fim definitivo da fotografia analógica; a outra é o que estará na base desta decisão da Fujifilm. (Há ainda uma terceira, que é a de saber se tenho pena que esta película acabe, mas o leitor facilmente se aperceberá da resposta ao ler o restante.)

Não, o facto de a Fujifilm ter decidido acabar com a Acros 100 não prenuncia o fim da fotografia analógica. Lembro-me de um slogan da extrema-esquerda, ouvido nos tempos do PREC, que era «por cada camarada morto, mil se levantam». Com as películas acontece mais ou menos o mesmo: a ADOX está a construir uma fábrica nova, a Ilford decidiu alargar a comercialização das Pan 100 e 400, a Kodak está a ressuscitar o Ektachrome, a Ferrania – embora mais lentamente que o previsto – está a regressar ao mercado e, por outro lado, fabricantes como a Foma não dão sinais de irem parar a produção tão cedo. Há até bizarrias como as películas pré-expostas da Dubblefilm, para quem tem dinheiro de sobra e quer gastá-lo estupidamente. Por tudo isto, o fim da produção do Neopan Acros 100 é a morte da andorinha que não prenuncia o fim da primavera. Significa apenas que a andorinha faleceu, pobrezinha.

Andorinha esta que, diga-se, não tinha assim tantos atractivos. Nunca a experimentei por ser inacreditavelmente cara – os preços dos rolos 135 oscilam entre €9 e €10 –, mas o que via na Internet (e era confirmado por quem a usou) era que a Neopan Acros produzia imagens muito rendilhadas, cheias de microcontraste, que mais pareciam obtidas com recurso ao HDR. No meu entender, não existe qualquer benefício em usar esta película – especialmente quando se podem comprar rolos de Kodak T-Max 100 e Ilford Delta 100 (e dispenso-me de aludir aos Ilford FP4, que fazem dos Neopan esfregonas e limpam o soalho com elas).

Curiosamente, a despeito do preço elevado, a Neopan Acros 100 era bastante popular. Que terá, então, determinado a cessação da produção?

O facto de ser uma película cara tem desde logo um significado muito claro: os custos de produção são demasiado elevados. A Fujifilm tomou esta decisão baseada na lógica fria dos números: a despeito da popularidade, a clientela é apenas um nicho e não compensa, a uma empresa com a dimensão da Fujifilm, manter toda a maquinaria envolvida na produção de uma película em laboração para alimentar um mercado que consiste em alguns milhares de consumidores. O grupo Harman (Ilford e Kentmere), a ADOX, Ferrania e todos esses fabricantes conseguem manter os seus níveis de produção porque são pequenos e ágeis: esgotam toda a produção e não necessitam de investimentos colossais. Poderíamos pensar que um gigante como a Fujifilm teria a maior facilidade em investir na produção de película, mas não é bem assim que as coisas se passam. A Fujifilm funciona com base em economias de escala que não resultam com este tipo de produto. Tal como nos automóveis: a Mercedes ou a Ford podiam fazer pequenos desportivos descapotáveis, com caixas de velocidades manuais e tracção traseira para puristas, mas o número de consumidores não justificaria o investimento e, de resto, o seu preço seria proibitivo. Aliás, esta notícia não devia ser surpresa para ninguém: a Fujifilm tem vindo a cessar a produção de películas a uma cadência estonteante, pelo que mais tarde ou mais cedo a Neopan Acros 100 seria eutanasiada.

Deste modo, não há nada a temer com o fim de uma película. Por morrer uma película não acaba a fotografia argêntea. E não se dá o caso de não existirem excelentes alternativas.

M. V. M.

A novidade da semana

Ainda não sei muito bem o que pensar da grande notícia fotográfica da semana. Esta minha hesitação deixou-me paralisado, sem conseguir mover um músculo, com a mente bloqueada – o que explica a ausência de textos no Número f/ – e sem reacção a estímulos externos.

E que notícia foi esta que me conseguiu deixar em estado catatónico? Uma empresa – acho que é a isto que se chama startup – lançou uma campanha de angariação de fundos na Internet (um kickstarter, isto eu sei de certeza) para produzir nem mais nem menos que uma máquina fotográfica analógica. Uma SLR, com visor óptico e pentaprisma e tudo. Se tiverem sucesso – eu desconfio sempre um bocado destas campanhas –, será o primeiro lançamento de uma máquina SLR de formato 135 em vinte e cinco anos. Pelo menos é o que dizem, porque tenho a impressão que houve lançamentos de máquinas SLR deste formato depois de 1992. Seja como for, é sempre de ficar atento a uma notícia destas. Não é todos os dias que são anunciadas máquinas analógicas.

Uma característica irritante desta máquina anunciada é o nome: chama-se Reflex. Assim mesmo, tal como está gravado na parte frontal do alojamento do pentaprisma: REFLEX. Ninguém pode acusar os mentores deste projecto de terem uma imaginação delirante – pelo menos para nomes, porque no que toca à câmara propriamente dita a história é bem diferente. Bem vêem, esta câmara torna real o sonho de muitos amantes de objectivas «analógicas», que é o de usar objectivas de sistemas diferentes num só corpo: em lugar de recorrer a adaptadores, que podem deteriorar as propriedades ópticas das objectivas, a Reflex permite a montagem de diversas baionetas. Há um painel amovível chamado I-Plate – mais uma demonstração de falta de imaginação para nomes – que é montado no corpo da máquina e tem embutida uma de diversas baionetas – M42, Nikon F, Olympus OM, Canon FD e Pentax PK. Uma solução engenhosa que toda a gente já imaginara mas nunca ninguém se atreveu a fazer. Só por isto as pessoas por detrás do projecto Reflex já merecem algum crédito.

As novidades não ficam pelas baionetas intermutáveis. O painel traseiro (criativamente chamado I-Back) é também modular. Em lugar de uma tampa amovível que se abre para instalar o rolo, como em todas as outras máquinas de película, toda a parte traseira da máquina é desmontável. O rolo não é montado no corpo, mas num módulo que encaixa na parte traseira da câmara. O que tem a vantagem de se poder mudar de rolo à luz do dia, desde que este esteja previamente instalado num módulo adicional. É verdade que a Ricoh GXR é ainda mais prática, porque o mesmo módulo aloja a baioneta e um sensor, mas a Ricoh GXR é uma câmara digital (e, por sinal, bastante feia e muito limitada: não tem visor de qualquer espécie).

A Reflex é uma câmara interessante. Não se pode dizer que é bonita como uma Nikon FM3A ou uma Olympus OM-1: as suas linhas invocam as Praktica e as Kiev dos anos 60 do século passado. Mas é uma máquina com toques agradáveis, como uma saliência discreta no painel frontal para tornar o manuseamento mais cómodo e seguro e o botão do obturador instalado no painel frontal. Há também um pormenor que é supérfluo para a maioria dos entusiastas da fotografia analógica, mas não deixa de ser curioso: esta máquina tem incorporados um flash e um dispositivo de iluminação por LED. Provavelmente, atento o seu tamanho, são demasiado fracos para iluminar objectos a mais de meio metro de distância, mas há-de haver quem lhes encontre alguma utilidade. Mais importante, porém, é que os tempos de exposição vão até 1/4000 com um obturador de cortinas de comando electrónico que possibilita o uso da máquina no modo de prioridade à abertura.

O objectivo – a esta hora já ultrapassado – é angariar £100,000, mas se o financiamento atingir £150,000, poderá ser lançada uma app que fará com que a máquina comunique (via Bluetooth) com outros dispositivos e grave no smartphone os metadados da fotografia. Aqui está uma app que me poderia fazer usar o telemóvel durante as minhas sessões fotográficas.

Este é um projecto cheio de boas ideias. A baioneta modular é para muitos um sonho tornado realidade – ou será, se o projecto tiver viabilidade. Muitos coleccionadores de objectivas poderão fazer as suas sessões fotográficas com objectivas de baionetas diferentes recorrendo a um só corpo. E as coisas nem sequer sairão muito caras: o kit completo custará £600, o que é muito menos que uma câmara digital full frame. Apesar da minha desconfiança em relação a estes kickstarters, este tem, no mínimo, o mérito de basear-se numa ideia brilhante.

M. V. M.

Relatório trimestral

De volta a um assunto que apenas me interessa marginalmente, mas que nem por isso deixa de ser útil ir acompanhando: a evolução do mercado do material fotográfico. Como sabem, o mercado das câmaras e lentes tem vindo a diminuir de volume de ano para ano, o que acontece desde 2007, o ano do lançamento do iPhone. Esta descida tem sido progressiva, mas acentuada, e nem as mirrorless conseguiram inverter essa tendência. (De qualquer modo, as mirrorless não são tão populares como os seus donos gostam de acreditar, nem vão matar as DSLRs como alguns esperam.)

Após quase dez anos de declínio, as vendas parecem estar a recuperar no primeiro trimestre deste ano. Nada de particularmente entusiasmante – o crescimento das vendas em Março deste ano foi até um pouco menor do que em 2016 –, mas parece haver uma tendência consistente de aumento das vendas. (Fonte: CIPA.)

Isto tem algumas interpretações. Depois de uma explosão nas vendas, que teve lugar em concomitância com a afirmação das câmaras digitais – na viragem e início do século –, as vendas diminuíram dramaticamente. E mesmo estes números eram sustentados pelas compactas, as quais foram as câmaras que mais sofreram com o advento dos telemóveis equipados com câmaras. Isto significa que houve aquilo que agora se chama um ajustamento: o mercado voltou aos níveis anteriores ao boom digital.

Isto acontece por uma razão: o mercado especializou-se. Os níveis de vendas actuais são baixos, mas relevantes. São, sobretudo, adequados a uma nova realidade em que nem todos os consumidores compram câmaras DSLR, como acontecia há quinze anos. A qualidade de imagem passou a ser uma consideração secundária e as pessoas que dantes compravam compactas (incluindo as bridge) e DSLRs baratas aderiram aos telemóveis, deixando a Canon, a Nikon e a Pentax sozinhas num mercado que voltou a ser altamente especializado.

Isto significa que os fabricantes lidam agora com volumes de produção muito mais reduzidos, o que coloca um enorme problema porque as divisões de fotografia das principais marcas cresceram, à custa do boom de vendas a que aludi, fazendo com que adquirissem uma dimensão que hoje em dia é insustentável. A Canon, apesar da sua posição na área do material de escritório, adquiriu a divisão de imagiologia médica da Toshiba, o que foi decerto um excelente negócio num mercado que é, curiosamente, dominado pela Olympus. A Ricoh também tem uma actividade diversificada, tal como a Panasonic. A estas marcas é relativamente fácil amortecerem as perdas de vendas de material fotográfico.

O mesmo não se pode dizer da Nikon. Dos fabricantes japoneses, é o único que está verdadeiramente em maus lençóis. O seu volume de vendas em ópticas e imagiologia – a Nikon faz lentes oftalmológicas e microscópios, entre outros – é reduzido porque a Nikon foi sempre, e preponderantemente, um fabricante especializado de câmaras e lentes. Deste modo, é o grande fabricante mais afectado pela diminuição de vendas de material fotográfico, o que a levou a cancelar o lançamento das Nikon DL, uma série de compactas com sensores de 1” e zooms rápidos.

Estas melhorias de vendas não podem deixar de ser boas notícias para a Nikon. Entretanto, a rival Canon, a despeito do seu conservadorismo, vende quase duas câmaras por cada uma que a Nikon vende. E, por cada mirrorless vendida, vendem-se duas DSLR. Neste segmento particular das mirrorless, todas as marcas têm vindo a decrescer no seu volume de vendas, menos uma: não, não é a Fujifilm, que permanece num orgulhoso último lugar entre os fabricantes de câmaras mirrorless. A excepção ao declínio de vendas das sem-espelho é a Sony. O que é perfeitamente explicável: as Sony são câmaras tecnologicamente sofisticadas, incorporando inúmeras inovações, o que agrada a um público que se horroriza ao saber que as DSLR têm nas suas entranhas um espelho de funcionamento mecânico, o que lhes lembra barcos à vela e locomotivas a vapor. O lado bom é que, apesar de gritarem muito nas páginas de comentários do dpreview.com, estes consumidores são poucos.

M. V. M.