O melhor dos dois mundos

Ctein tinha razão. O formato 35 mm – ou «135», para sermos mais precisos – impôs-se pelo aspecto prático, não pela qualidade de que é capaz. As películas 135 comuns não fazem melhor do que aquilo que uma Canon 70D ou uma Nikon D7300 são capazes. Só se nos dermos à bizarria de fotografar com rolos de slide é que vemos alguma superioridade da fotografia analógica em relação à digital, porque a qualidade de imagem das câmaras digitais evoluídas é hoje superior à dos Kodak Gold, Portra, Ektar e todos esses rolos de utilização mais comum.

Há um último reduto para a fotografia analógica: o médio formato. As câmaras digitais, com excepção das de médio formato profissionais como as Mamiya Leaf, Phase One e Hasselblad, ainda não conseguiram o tipo de qualidade que as máquinas analógicas de médio formato e os rolos 120 são capazes de atingir. O que torna tudo mais interessante no caso da fotografia analógica é que a qualidade de imagem depende em 80% da película utilizada e 20% das lentes, pelo que qualquer velharia, desde que não tenha infiltrações de luz e seja equipada com lentes de qualidade, é capaz de fazer melhor que a maioria das câmaras digitais.

Até aqui tenho estado a escrever com a fotografia a cores em mente. É nesta que a qualidade das câmaras digitais está a ultrapassar a fotografia analógica. O preto-e-branco levanta outro tipo de considerações que tornam o desempenho da película pancromática incomparavelmente melhor que a de qualquer câmara digital. A superioridade não está nos números – obter um valor de 5 MB com a digitalização de um negativo 135 já é um bom resultado, embora diga mais sobre a qualidade do scanner do que da película –, mas na estética. É impossível a uma câmara digital reproduzir a beleza das altas luzes de um Tri-X ou um Ilford FP4 e só com muita manipulação digital se chega perto dos contrastes que se obtêm imediatamente quando se usa um bom rolo. Só com horas de edição é possível fazer com que uma imagem de uma câmara digital seja minimamente comparável, mas consegue sempre distinguir-se uma imagem de um negativo digitalizado de uma fotografia digital. E, se imprimirmos ambas, as diferenças são ainda mais evidentes – com vantagem para o analógico. Repito que esta não é uma questão de tamanho ou de número de pixéis: é na estética inimitável que os rolos a preto-e-branco prevalecem. Nem as Leica M Monochrom nem as cassetes Phase One Achromatic, aparelhos concebidos de raiz para apenas registar imagens em preto-e-branco, conseguem simular a beleza de uma imagem analógica.

Isto deixa-me a pensar sobre o que quero usar para fotografar. Para o preto-e-branco tenho tudo o que preciso: uma máquina soberba, que no seu tempo era a melhor câmara 135 do mercado, lentes sensacionais e uma preferência indissolúvel pelo melhor rolo a preto-e-branco existente à superfície da Terra, aquele com o qual todos os demais se medem e ficam a perder: o Ilford FP4. Não tenho, pois, qualquer necessidade de mudar: estou imensamente bem servido e satisfeito no que respeita a fotografias a preto-e-branco.

E na cor? Este texto vem na senda do anterior, em que apreciei os resultados da minha experiência mais recente com um rolo a cores. Esta foi satisfatória, mas apenas em termos relativos. É evidente que uma fotografia feita com um rolo a cores montado numa Olympus OM-2n será sempre bastante melhor que uma tirada com um telemóvel, mas não se a compararmos com o que pode ser obtido com uma câmara digital de gama intermédia, como as DSLR que referi anteriormente. Pelo que o melhor dos dois mundos será manter a OM-2n para fotografar a preto-e-branco e adquirir uma máquina de médio formato para fotografar a cores. (Sendo certo que, se fotografar com rolos de médio formato a preto-e-branco, a qualidade poderá atingir níveis intergalácticos.)

Neste caso, as escolhas são inúmeras. Já referi que, atenta a contribuição da película para a qualidade da imagem no médio formato analógico, tudo o que é necessário é que a máquina funcione bem e tenha lentes decentes, pelo que a gama de escolhas vai desde as máquinas de fole como as Zeiss Ikonta e as Agfa Isolette até às precursoras do médio formato actual como as Mamiya 645. Pelo meio existem máquinas tão interessantes como as Rolleiflex, a Yashica Mat 124G, as Pentax 6×7 e 645, a Pentacon Six, as Fujifilm de telémetro, a Mamiya 6 ou a Hasselblad 500 C/M. Desde que haja dinheiro, é só escolher: se estiverem em bom estado, todas fotografam com um nível de qualidade absurdamente elevado, independentemente do ano de fabrico. Falta-me apenas saber: a) se vou ter dinheiro disponível, quer para a máquina, quer para revelar e digitalizar rolos que permitem entre oito e doze exposições; b) se tenho um interesse pela fotografia a cores que me leve a comprar mais um sistema fotográfico e c) se tenho coragem de ser visto na rua com uma TLR ou uma Agfa Isolette. Ainda não tenho resposta para nenhuma destas questões.

M. V. M.

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Quando os adversários se tornam aliados

Fotografia por Vivian Maier
Fotografia por Vivian Maier

Já escrevi aqui muitos textos sobre o antagonismo entre os domínios analógico e digital na fotografia. Todos eles se deveram à minha experiência com uma máquina analógica, que teve o efeito absolutamente inesperado – e, posso dizê-lo, indesejado – de nunca mais me ter apetecido fotografar com a câmara digital. Há motivos para isto que vão para além de uma possível superioridade do analógico: a câmara digital que usava não é, em termos comparativos – tanto quanto uma comparação desta ordem é legítima –, tão boa como a OM-2n; e não tenho lentes de qualidade para usar com a E-P1 – a não ser que monte as OM, o que me obriga a prescindir da focagem automática e a focar manualmente, o que, numa câmara digital, é uma experiência entediante que obriga a carregar em muitos botões.

O que é certo é que retiro muito mais prazer de fotografar com rolos do que de usar a câmara digital. Este é um elemento completamente subjectivo que, por si só, não possibilita estabelecer a superioridade de um domínio em relação ao outro. Com a câmara digital tenho ficheiros maiores, mas falta-lhes a nitidez das fotografias feitas com os rolos (o que só em parte pode ser atribuído às lentes). Seja como for, a minha preferência é estritamente pessoal e não posso, de maneira nenhuma, condenar liminarmente o digital só porque a minha experiência fotográfica é mais gratificante quando uso a máquina analógica. Provavelmente não teria havido o abandono do digital se tivesse uma câmara como, por exemplo, a Nikon Df.

Nunca foi minha intenção inventar uma guerra entre analógico e digital que fosse ganha pelo primeiro daqueles domínios. O que penso é que o analógico foi abandonado pelos fabricantes cedo demais, numa fase em que o digital ainda não tinha desenvolvido nem metade do seu potencial. Isto aconteceu por o digital ser mais rentável, e não com base em critérios de qualidade. Esta última acabou por chegar, mas muito mais tarde do que fora prometido. E não é universal: ainda é preciso uma câmara e lentes que custam vários milhares de euros para que o digital supere a qualidade de uma boa máquina analógica carregada com uma película de diapositivos.

Seja como for, o digital tem vantagens. Há até uma área em que o digital dá uma ajuda inestimável à fotografia analógica. Essa área é a das digitalizações. Com efeito, se não existisse a possibilidade de digitalizar películas, hoje a fotografia analógica estaria extinta. É impossível negar a realidade de que hoje todos vêem fotografias nos computadores; quase ninguém vê impressões, salvo os entusiastas mais fervorosos que frequentam exposições. Isto traz consigo muitos vícios, sobre os quais já escrevi diversas vezes, mas tem vantagens de monta.

A maior destas vantagens é, do meu ponto de vista, a divulgação da fotografia. Se ninguém tivesse digitalizado as imagens de Vivian Maier, apenas um núcleo extremamente reduzido de conhecedores teria acesso à sua obra. O mesmo se diga acerca do fotógrafo que ajudei a divulgar (junto de poucos, assumidamente, mas antes assim do que se nada tivesse feito) com o texto de ontem sobre a obra de Artur Pastor. Eu nunca teria conhecido Vivian Maier e teria um conhecimento limitado de Artur Pastor se as fotografias de ambos (e de outros, como Ray K. Metzker ou Lewis Baltz) não tivessem sido publicadas na internet. Esta publicação pressupõe, evidentemente, a digitalização das imagens.

Acredito que, para alguns, seja um verdadeiro sacrilégio transformar uma fotografia num conjunto de bytes, mas se essa é a maneira de conhecer espólios fotográficos importantíssimos, tanto pior para a pureza dos conceitos. O digital é, na acepção que trato neste texto, um aliado poderoso da fotografia analógica. Isto não deixa de ser irónico para quem vê o analógico e o digital por uma lógica de confronto, mas o que é certo é que a digitalização de negativos ajudou a manter a fotografia analógica viva. Sem esta tecnologia, a película só seria usada por um grupo muito restrito de excêntricos. Eu confesso que tardei a compreender isto, mas fotografar como se fazia até ao início dos anos 90, quando era forçoso imprimir as fotografias em formato 15×10 para as ver – quanto mais para as divulgar… – tornou-se impraticável.

Como vêem, os dois domínios não têm de ser antagónicos. Pelo contrário: ao menos neste particular das digitalizações, podem ser complementares. O domínio digital presta um enorme serviço à fotografia. Isto não significa que devamos esquecer os negativos por termos as imagens digitalizadas no computador ou no disco externo, porque estes ficheiros, ao contrário dos negativos, podem perder-se – mas que coisa inestimável que é ter acesso à obra dos grandes fotógrafos via internet! Mesmo que frequentássemos muitas exposições, nunca conheceríamos aquelas obras de uma forma tão completa. Os analoguistas ferrenhos já pensaram nisto?

M. V. M.

Scanner sacana

v750m_fca-cnr-nn_690x460Ainda tenho muito a dizer quanto às digitalizações de negativos. Embora tenha aderido irrestritamente à digitalização, este processo não deixa de ter os seus problemas e de suscitar algumas reservas.

Começando por estas últimas, devo dizer que há uma reserva que já venci há muito: a de que não faz sentido fotografar com película se é para converter os fotogramas em ficheiros digitais. Os que apontam esta aparente contradição argumentam que é uma complicação desnecessária, porque será muito mais simples, do ponto de vista do processo que conduz à imagem final, fotografar com uma câmara digital. Hmm… não. Quando eu conseguir reproduzir com uma câmara digital os resultados que obtenho fotografando com o Ilford FP4 e digitalizando os negativos, poderei atender a este argumento, mas a realidade é que, com o equipamento digital que tenho, não há comparação possível: a película é triliões de vezes melhor.

O que a digitalização faz é dar a possibilidade de corrigir (digitalmente) imagens feitas com rolos de película. Os problemas de um fotograma de um rolo não podem ser resolvidos na revelação, porque não se podem individualizar as imagens: os trinta e seis fotogramas vão ser todos revelados da mesma maneira. O facto de serem convertidos em ficheiros digitais permite corrigir a exposição, o nível, a perspectiva e o recorte. Isto não é mau: não é anátema, blasfémia, sacrilégio ou pecado. De resto, terei sempre os negativos, pelo que a pureza analógica fica sempre salvaguardada. Se quiser ampliar a imagem em papel de brometo de prata, é muito mais simples fazê-lo a partir do negativo do que se quiser fazer o mesmo com ficheiros digitais. Perguntem a Sebastião Salgado (ou leiam aqui).

A minha única reserva é que a digitalização de negativos a preto-e-branco pode ser extremamente problemática. Um negativo é isso mesmo: as partes claras da imagem surgem escuras na película (e vice-versa) e depois há que inverter os tons de novo na ampliação ou na digitalização. Isto, para um scanner, é uma tarefa bem mais difícil do que parece: no caso de as fotografias ficarem sobreexpostas, a luz do scanner vai ter dificuldades incontáveis em converter o fotograma numa imagem positiva. Isto acontece porque as partes sobreexpostas da película surgem nesta como negros, os quais são tão mais densos e profundos quanto maior for a sobreexposição. A luz do scanner vai ter imensa dificuldade em penetrar na camada de negro do fotograma e isto tem por resultado uma exacerbação do grão na imagem e, quando a sobreexposição é manifestamente exagerada, o surgimento de padrões de ruído que destroem completamente qualquer verosimilhança que a fotografia pudesse ter com a realidade. Mesmo quando a sobreexposição é apenas ligeira, uma fotografia a preto-e-branco que esteja sobreexposta vai forçosamente apresentar quantidades consideráveis de grão, mesmo que tenha sido feita com um rolo ASA 50, 100 ou 125.

Deste modo, o scanner obriga a ser especialmente cuidadoso com a exposição, devendo expor-se para as sombras quando se usa película negativa para preto-e-branco. Desde que se tenha este cuidado, o problema da acentuação do grão nas digitalizações pode ser ultrapassado, mas esta não é a única dificuldade quando se trata de digitalizar negativos de preto-e-branco: é que o scanner, ao contrário do que faz com as películas a cores, não filtra as impurezas que existirem. Se surgirem pêlos, partículas de poeira ou outras impurezas no negativo ou no vidro, estas vão figurar na imagem – o que nem sempre é agradável de se ver. Aliás, nunca é agradável ver um pêlo numa fotografia, mesmo que seja mostrado em TIFF a 16 bits. E também já me apareceram umas listas verticais preocupantes, cuja origem não conheço, em algumas fotografias.

É evidente que estas são imperfeições que podem ser eliminadas porque passam, com a digitalização, para o domínio digital. Eu não gosto de mexer muito nas digitalizações porque tenho este princípio de fazer bem à primeira, mas não vejo nenhum inconveniente em melhorar uma fotografia. Nem me vejo a mandar imprimir todos os fotogramas de um rolo em formato 15×10, como se fazia no passado. Prefiro a digitalização. Sou um amante da fotografia que gosta de película e vive na era digital. Como muitos, sei que os dois domínios não são inconciliáveis. O scanner pode trazer alguns problemas, mas não existe, tanto quanto o meu conhecimento atinge, outra maneira de digitalizar negativos.

M. V. M.

Para memória futura

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Hoje, depois de ter ido buscar os negativos de mais um rolo primorosamente revelado e digitalizado, ocorreu-me um pensamento que milita a favor da fotografia convencional. Foi o seguinte: se eu um dia fosse um fotógrafo famoso (o que, evidentemente, não vai acontecer), as pessoas referir-se-iam a mim, depois de eu ter batido a bota, como tendo deixado um grande número de negativos. (Neste momento vai apenas em duas dezenas, mas como nunca vou ser um fotógrafo famoso, nada disto vem ao caso.) Se quisermos aludir a fotógrafos verdadeiramente famosos, veremos que Garry Winogrand deixou cerca de dois mil e quinhentos rolos por revelar, perto de seis mil e quinhentos revelados mas sem provas e provas de contacto de mais de três mil negativos. Vivian Maier, por seu turno, deixou cerca de trinta mil negativos.

Vamos agora imaginar como se refeririam a mim – de novo na hipótese absurda de eu me ter tornado um fotógrafo famoso – se eu apenas tivesse fotografado no domínio digital: poderiam, eventualmente, dizer que tinha deixado dez discos externos de dois terabytes cada, mas que infelizmente a sua (minha) obra perdeu-se porque já não existem computadores com interface para aceder ao conteúdo dos discos. (Vá lá, esta hipótese não é assim tão risível: quantos leitores têm computadores que lêem disquetes?) Seria lamentável: toda uma obra ficaria perdida!

Pois bem: apesar de existir o risco de no futuro não haver scanners de película nem ampliadores (mas estou convencido que haverá sempre quem preserve a arte da ampliação), não deixa de ser certo que os negativos são um acervo importante que permanecerá intacto e inadulterado muitos anos depois da morte do seu dono. Se não fosse assim, não teríamos conhecimento da obra de Vivian Maier e de uma parte substancial das fotografias de Garry Winogrand. No digital, porém, além da questão da obsolescência dos meios de gravação e conservação de ficheiros informáticos, acresce outro perigo – o da corrupção dos ficheiros. E se o disco externo em que se conservam milhares de fotografias tiver sido afectado por um vírus?

A hipótese de as gerações futuras terem interesse pelas minhas fotografias é meramente académica, mas mesmo se me ativer aos meus interesses concretos de mero amador sem ilusões de grandeza, este pode ser um problema muito sério. Eu digitalizo os meus negativos (ou melhor: encomendo as digitalizações) e guardo as digitalizações no computador enquanto preciso de as ter acessíveis; mais tarde, guardo-as num disco externo. No caso de avaria no disco rígido do computador, poderei perder as digitalizações que ainda não estiverem guardadas no disco externo, mas este último também pode avariar, ou podem os ficheiros nele guardados ser corrompidos ou ficarem inacessíveis por qualquer outro motivo. Em qualquer destes casos não precisarei de ficar excessivamente preocupado com as minhas fotografias porque tenho um suporte físico que poderei usar – os negativos. Boas ou más, as minhas fotografias não desaparecerão comigo.

Esta é uma vantagem inestimável. Claro que há algumas variáveis que distorcem um pouco estas premissas; por exemplo, se houver um incêndio os negativos perdem-se na mesma; ou pode o famoso fotógrafo digital armazenar tudo numa cloud, assim salvaguardando a integridade dos seus preciosos ficheiros digitais. (Mas neste caso tem de mencionar no testamento o nome de utilizador e a palavra-passe para os tornar acessíveis… pensando bem, as clouds não têm grande utilidade em termos de memória futura. Mau exemplo.) De qualquer modo, o que é inegável é que a memória das fotografias ficará muito mais bem preservada através dos negativos (ou das transparências, claro) do que pelos meios digitais. Hoje em dia todos ficam fascinados com a ideia de «desmaterialização», mas os suportes físicos são sempre necessários. No caso da fotografia, diria que são imprescindíveis.

Aludi até aqui apenas às películas e aos ficheiros informáticos, mas existe outra forma de preservar as fotografias que é comum a ambos os domínios: as impressões. Estas são também um meio extremamente idóneo de preservação, como é evidente. Há sempre os riscos de perda ou deterioração, que são bem mais graves do que no caso dos negativos, mas as fotografias impressas podem também constituir um excelente acervo de memória de uma obra fotográfica. Nos dias que vivemos é dada muito pouca importância à impressão, mas ao negligenciarmo-la estamos a comprometer a memória. E isto não se aplica apenas aos fotógrafos famosos.

Como vêem, o digital não é resposta para tudo. É efémero e volátil, pelo que não pode ter pretensões a preservar o passado.

M. V. M.

Mais coisas que eu aprendi

zonescale

Se os leitores que se deram ao trabalho de consultar os meus dois textos anteriores tiverem ficado com a impressão de que fotografar com negativos para preto-e-branco é incrivelmente difícil, têm razão. São necessários conhecimentos prévios de técnicas ancestrais que assumem foros de esoterismo. Se ficaram com a impressão de que é necessário executar um rito iniciático e ingressar numa seita secreta para expor rolos de preto-e-branco com uma qualidade aceitável, talvez tenham razão. (Pensando bem, talvez seja este o motivo por que incorri em tantos erros.)

Contudo, as coisas podem tornar-se ainda mais complicadas. Ansel Adams e Fred Archer inventaram o chamado sistema de zonas (zone system) entre 1939 e 1940, com o propósito de expor e revelar, não apenas para as sombras ou altas luzes, mas para tons específicos. Para tanto, Adams graduou o espectro tonal em onze zonas (v. imagem), do preto absoluto (0%) ao branco absoluto (100%). Este sistema foi criado a pensar nas folhas de película empregues nas câmaras de grande formato que Ansel Adams usava, mas não deixa de ter cabimento quando o meio é o negativo de 35mm. Como sabemos, o tirano malvado fotómetro de cada câmara está calibrado no pressuposto que cada objecto reflecte 18% da luz incidente, o que implica, simplificando um pouco por motivos de clareza do texto, que os negros e os brancos surjam como tons de cinza. Para obter a tonalidade desejada, faz todo o sentido subexpor os motivos mais escuros e sobreexpor os mais claros, assim contrariando os desígnios do déspota maldito a medição do fotómetro de maneira a obter tons correctos. Cada zona corresponde ao dobro da anterior, pelo que a diferença entre a zona IV e a zona V é de um (1) EV. Deste modo, torna-se simples calcular os valores da exposição de maneira a obter a tonalidade pretendida. (Para uma informação mais precisa e completa sobre o sistema de zonas, v. este artigo e as ligações aí indicadas.)

Este sistema tem formas de aplicação prática nos cartões cinzentos usados por muitos fotógrafos para obter uma medição correcta, mas sobretudo na compensação da exposição, que foi introduzida nas máquinas fotográficas juntamente com a implementação dos modos de exposição semiautomáticos. Contudo, importa ter em conta que o uso do sistema de zonas implica medir a luz reflectida por um determinado motivo em vários pontos. O que torna as coisas mais complicadas do que precisam de ser.

Que posso eu dizer sobre isto? Não vou, de forma alguma, ser depreciativo quanto aos méritos deste sistema, mas penso que é inaplicável aos rolos de negativos. O sistema de zonas destina-se a obter a exposição correcta em várias áreas da cena fotográfica e a calcular o tempo de revelação ideal para essa exposição, mas se o género de trabalho que o uso do sistema implica é efectivo quando se está a expor e revelar uma folha de película (uma chapa) 4×5, e se é possível aplicar o sistema de zonas para ajustar a exposição em cada um dos doze, vinte e quatro ou trinta e seis fotogramas de um rolo, na revelação de negativos de 35mm e médio formato é impossível usá-lo. É que na revelação destes rolos é impossível individualizar cada fotograma, já que o rolo é revelado por todo. Esta é uma dificuldade de ordem prática que, quanto a mim, preclude o uso do sistema de zonas, que foi pensado para a exposição e para a revelação com vista a conseguir impressões correctas do ponto de vista tonal. Assim, não me parece valer a pena usá-lo na exposição se depois é impossível empregá-lo na revelação. Diferentes problemas requerem soluções diversas.

Deste modo, parece-me que se deve seguir um compromisso mais simples quando se usam rolos, que só pode ser a regra de expor para as sombras e revelar para as altas luzes. O que pode ser feito quando se usam rolos de negativos para preto-e-branco é, na presença de objectos próximos do negro ou do branco absoluto, ajustar a exposição em, respectivamente, -1EV ou +1EV, para aproximar a imagem do seu tom real.

Fica, porém, por saber como se deve proceder se quisermos fotografar um cavalo negro troteando sobre um manto de neve…

M. V. M.

O mistério das cores intrusivas

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Hoje de manhã, aproveitando uma avaria na internet que me deixou sem poder fazer o trabalho que tinha planeado, fui à Câmaras & Companhia levar o meu último rolo, o tal que tem temáticas completamente diferentes do que tenho feito até agora (estou com enormes expectativas, não apenas pelo aspecto temático e estético, mas também por querer saber se as técnicas que usei, recorrendo ao tripé e ao temporizador para fotografar com tempos de exposição reduzidos, produziram os resultados de que estou à espera). Pelo meio, mencionei o facto de as digitalizações conterem informação de cor e narrei a minha experiência com o Photoshop CS6 para converter as digitalizações dos rolos a preto-e-branco em escalas de cinzas.

Surpreendentemente, fiquei a saber que o scanner é configurado para digitalizar em escala de cinzas, o que foi confirmado por uma experiência com uma das minhas imagens guardadas no DropBox: depois de aberta uma das digitalizações no Photoshop, verificámos que o programa assumia a imagem como escala de cinzas. Pensando que talvez me tivesse equivocado, abri a imagem do topo, que foi feita com um rolo Agfa APX 100 e digitalizada pela Câmaras & Companhia, no Photoshop CS. Seleccionei as opções Image e, depois, Mode: o programa assumiu a imagem como RGB, i. e. como uma imagem a cores, e o histograma apresentava informação de cor, embora residual. Não interessa: residual ou não, o que tinha, neste último caso, era uma fotografia a cores e não um preto-e-branco puro.

O mistério adensou-se, mas penso ter encontrado a explicação: como nenhum dos meus programas de edição de imagem – o Olympus Viewer 2 e o DxO Optics Pro 8 – abre as digitalizações, presumivelmente por não reconhecerem o perfil ICC das imagens, via-me obrigado a tratá-las com o Windows Live Photo Gallery. Quando efectuava ajustamentos, por mínimos que fossem, a resolução das imagens passava de uma média de 3 MB para uma de 8 MB ou maior. Isto só pode significar uma coisa: os 5 megabytes que o WLPG adiciona contêm informação de cor. Não faço ideia como ou por que isto acontece, mas se os fotogramas são digitalizados como escalas de cinzas e o Photoshop, uma vez abertos os ficheiros directamente do DropBox, os assume como escalas de cinza, a única conclusão lógica é esta: o WLPG converte escalas de cinzas em RGB.

Mais tarde pude confirmar – não por ter ficado com dúvidas, mas para verificar se as conclusões eram consistentes e repetíveis – que os ficheiros produzidos pelo scanner são em escala de cinzas, e não em RGB. Abri uma digitalização (não editada) a partir do DropBox e o Photoshop assumiu-a como escala de cinzas, tal como aconteceu na experiência feita na Câmaras & Companhia. Deste modo, como o único passo que intermediou a digitalização e a abertura no Photoshop das imagens afectadas pela adição de cor foi a edição no WLPG, tornou-se forçoso concluir que este último adiciona informação de cor. Assim, é desaconselhável o uso do WLPG: este acrescenta mais resolução, mas é por adicionar informação inútil que só serve para roubar espaço aos discos.

No fundo isto não é muito importante, porque as diferenças entre as imagens transformadas em RGB pelo WLPG e as de escala de cinzas apresentam poucas diferenças no aspecto geral. As grandes diferenças verificam-se quando se elimina a informação de cor no Photoshop – e é certamente nesta fase que se perdem os 5 MB que o WLPG adicionou – e na deslocação subtil das curvas do histograma para a zona das sombras, o que só pode querer dizer que o WLPG também altera as definições de brilho. Isto só é importante se for intenção fazer impressões a partir dos ficheiros digitalizados, caso em que a impressão a jacto de tinta pode adicionar cor, ficando perdido por completo o propósito de obter uma impressão tão próxima quanto possível do preto-e-branco puro do ampliador. A verdade é que, no caso da impressão, a impressora vai assumir a imagem, não como um preto-e-branco, mas como uma fotografia a cores, gastando desnecessariamente os tinteiros de cor e eventualmente interferindo na qualidade final da impressão. Contudo, esta é uma questão meramente académica: para se ter um preto-e-branco puro em papel, a única metodologia válida é a ampliação do negativo em papel de substrato de sais de prata. Nada mais assegura a qualidade do preto-e-branco. De qualquer forma, fica aqui mais uma informação que pode (ou não) ser importante para algum leitor.

M. V. M.

Mais questões do preto-e-branco

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Já narrei aqui que, na minha busca de um nível de expressão diferente, fiz um retrato – acho que posso chamá-lo assim – do meu sobrinho Guilherme. Contei, nessa altura, que queria compensá-lo da sua desilusão por eu ter feito um retrato da irmã e não ter feito um dele. É evidente que, se fiz um retrato da Maria Luís, não foi por intenção de ignorar o Guilherme: foi porque se me deparou uma excelente oportunidade de fotografar a minha sobrinha.

O retrato do Guilherme agradou-me. De tal maneira que resolvi encomendar uma ampliação, i. e. uma impressão feita no ampliador em papel de brometo de prata. Quando cheguei à Câmaras & Companhia e vi a fotografia, não fiquei muito animado: a proporção não era a mesma, os níveis de nitidez também não e o contraste fez desaparecer alguns pormenores do plano de fundo. Posso confessar que fiquei desiludido.

A minha desilusão, porém, só durou até comparar a ampliação com a digitalização que guardo no meu computador. Confrontando as duas imagens, a nitidez da digitalização é de facto mais pronunciada e os pormenores omitidos na ampliação estão presentes, mas a imagem digitalizada tem uma matiz azul que, não sendo evidente quando se vê isoladamente, se torna conspícua ao comparar com uma ampliação. Esta última é o verdadeiro preto-e-branco, o preto-e-branco puro. À medida que os meus olhos saltavam de uma imagem para a outra, a minha preferência pela ampliação ia crescendo. Num impacto imediato, a digitalização ganha: tem mais snap, mais apelo visual – mas tudo isto desaparece ao fim de alguns segundos.

A ampliação foi feita a partir do negativo. Embora seja possível converter uma imagem digital num negativo e imprimi-la com o ampliador – um processo incrivelmente complexo que é usado, por exemplo, por Sebastião Salgado quando fotografa digital –, a ampliação de um negativo é a forma natural de imprimir fotografias feitas com rolo. No meu caso, usei o Ilford FP4 Plus 125, que é um rolo de preto-e-branco puro. Há rolos que não são de preto-e-branco puro: foram introduzidos para permitir a revelação com os químicos usados para revelar negativos de cores. É o caso do Ilford XP2, mas o FP4 tem de ser revelado pelos processos do preto-e-branco e a sua gradação é uma escala de cinzentos. Como o ampliador transfere uma imagem gravada num substrato de haletos de prata para papel de brometo ou cloreto de prata, há uma continuidade que assegura a pureza dos tons.

Este tipo de preto-e-branco é extremamente difícil de reproduzir digitalmente. Os resultados obtidos com programas como o Lightroom e o DxO Optics Pro na conversão de ficheiros Raw não são o preto-e-branco puro, mas uma desaturação das cores que deixa sempre uma matiz residual azul. Se observarem o histograma nestes dois programas, verão sempre uma orla azul quando fizerem essa conversão. A única forma de obter um preto-e-branco puro é, num programa como o Photoshop Cs, converter o ficheiro numa escala de cinzentos e eliminar a informação de cor. O Cs6 faz isto. Quando se usa este procedimento, os resultados podem desiludir: a imagem parece perder vivacidade e ganhar um aspecto recesso e antiquado, com pouco contraste, mas esta é a única forma de converter para preto-e-branco com um mínimo de êxito. O efeito não é muito convincente, não superando uma ampliação feita a partir de um negativo de preto-e-branco puro.

Por seu turno, a questão da nitidez das ampliações explica o ethos dos Ilford, com as suas características de nitidez e microcontraste: estas são necessárias para assegurar que o máximo de informação é transmitido na passagem do negativo para o papel. Há sempre uma perda de nitidez – pelo menos quando comparada com a de uma digitalização – que é contrariada pela pela acutância do rolo, mas não inteiramente.

O facto é que, mesmo com a menor nitidez, as ampliações ganham sempre às digitalizações. Depois de ver uma e outra, a digitalização parece falsa e artificial. Isto não quer dizer, evidentemente, que vá encomendar ampliações de todas as minhas fotografias, o que só seria viável no caso de me sair o Euromilhões – mas põe-me, pela primeira vez, a pensar seriamente em usar o Photoshop Cs.
M. V. M.