O meu ranking de rolos

AGFA

Parecendo que não, já tenho uma dose considerável de experiência com rolos. Embora todos eles sejam negativos do formato 135 – nada de slides nem de rolos de médio formato, portanto –, já usei uma variedade considerável de rolos: a cores ou a preto-e-branco, de baixa ou alta velocidade, de grão cúbico ou tabular.

Apesar de ainda me faltar experimentar muitos rolos – excluindo os que de todo não me interessam, como mais rolos de grão tabular, o Agfa Vista ou os Foma – penso que posso estabelecer uma hierarquia nos rolos que já usei quanto à sua qualidade. Por ordem decrescente, a minha classificação seria a seguinte:

1.º: Ilford FP4 Plus 125

2.º: Kodak Portra 160

3.º (ex æquo): Kodak Tri-X 400, Ilford Pan F Plus 50

5.º: Agfa APX 100

6.º: Ilford HP5 Plus 400

7.º: Kodak T-Max 100

8.º: Fujifilm Superia 200

9.º: Kodak Ektar 100

É evidente que esta é uma listagem subjectiva: é a minha listagem. Felizmente isto não é nenhum fórum de fotografia, caso contrário haveria uma reacção incrivelmente hostil das hordas de adeptos do Kodak Tri-X por não o ter colocado em primeiro lugar. (Embora os fãs da Kodak possam sempre retirar algum conforto do facto de surgirem quatro rolos desta marca entre os nove da lista.) E os puristas do preto-e-branco poderão não me perdoar por surgir um rolo a cores em segundo lugar. Pouco me importa: esta é uma classificação de acordo com os meus gostos e preferências, e não segundo testes e medições exaustivos nos quais apenas se procuram critérios técnicos. Esta listagem tem mais que ver com as minhas necessidades fotográficas do que com critérios de qualidade absoluta – embora tenha a ligeira suspeita de que, se fosse este o padrão, os resultados seriam sensivelmente os mesmos.

M. V. M.

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Surf (um texto descaradamente narcisista e petulante)

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Já vos disse aqui que não sei ao certo por que me nasceu o interesse em fotografar surfistas. Não tenho qualquer tipo de afinidade com o surf e nunca me senti tentado a experimentá-lo, talvez por receio do insucesso – um traço de personalidade muito caracteristicamente meu, que decerto me tapou alguns caminhos ao logo da vida. A maneira como fotografo surfistas também não é exactamente aquela que vem à mente quando se pensa em fotografias de surfistas: normalmente imaginamos grandes planos de surfistas em acção, em cima das pranchas e enquadrados por ondas espectaculares. E – evidentemente! – essas fotografias em que pensamos são a cores. Um desporto como este exige cores. O que significa que faço tudo ao contrário: quando fotografo surfistas em acção, estes aparecem num plano longínquo; a maioria das minhas fotografias mostra surfistas a entrar ou a sair da água e alguns a fazer exercícios de aquecimento, ou simplesmente à espera de uma boa oportunidade para entrar na água. E, para agravar um pouco mais a condenação, as minhas fotografias são a preto-e-branco. A ignomínia torna-se completa por, ao invés de mostrar imagens perfeitamente iluminadas, optar por fotografar a contra-luz, obtendo silhuetas. Em termos simples, posso dizer que faço tudo ao contrário do que o senso comum manda. (Ah!, é verdade: em lugar de usar uma Canon 5D com uma lente EF 70-200, faço estas fotografias com uma Olympus OM-2n e uma lente 135mm. O descrédito torna-se agora completo.)

Poder-se-ia concluir, deste modo, que faço tudo mal, desde a escolha dos motivos até à do equipamento. Pois bem: macacos me mordam se estas não são as minhas melhores fotografias! Se não forem as melhores, são pelo menos as que me dá mais gozo fazer. Melhor ainda, são aquelas que me deixam mais satisfeito: todos aqueles desvios em relação ao que devia ser uma fotografia de surfistas resultam em fotografias que reputo de originais. Com efeito, apesar de não conhecer todas as fotografias de surf que existem, nunca vi nenhumas iguais às minhas. E, a avaliar pela reacção das pessoas que as vêem, as fotografias não são más de todo. Os leitores mais atentos ao pormenor já repararam que a frase que escolhi como lema do Número f/ é a citação do grande Bert Stern que aparece na coluna do lado direito: «As fotografias são como drogas». As fotografias que fiz com o Ilford Pan F – o rei do contraste – são as mais viciantes que fiz até hoje: não me canso de contemplá-las e sinto um orgulho desmedido nelas. O contraste extremo de um rolo ASA 50 favorece estas fotografias como nenhumas outras: as silhuetas são de um negro quase perfeito, o contraste entre as figuras dos surfistas e o fundo é o melhor que obtive até hoje, as altas luzes parecem ter a tonalidade da prata e, em termos estéticos, parecem-me bastante conseguidas. Uma delas (que não é a da imagem do topo; aquela a que me refiro só vai ser visível no Flickr daqui a algumas semanas) ficou de tal maneira bonita que me leva a pensar se não é bonita demais, bonita a ponto de ser um cliché romântico. Os reflexos no areal, o recorte perfeito das figuras, da espuma das ondas e da areia, o esbatimento do fundo… estas são fotografias que, se mas tivessem mostrado há quatro anos e me tivessem dito que eu seria capaz de fazer fotografias destas, teria telefonado imediatamente para o 112 com a indicação que trouxessem o colete de forças e internassem essa pessoa num quarto almofadado do hospício mais próximo.

Não sei se os leitores do Número f/ e os visitantes do Flickr vão partilhar o meu entusiasmo por estas fotografias. É bem possível que esteja a confundir o entusiasmo por tê-las feito com a sua qualidade intrínseca, ilusão que Garry Winogrand diagnosticou há algumas décadas, mas penso que encontrei aqui uma maneira original de fazer fotografia, e uma que é do meu inteiro agrado. Não estranharia se um dia me desse na cabeça comprar um rolo Ilford Pan F e o esgotasse a fotografar surfistas e bodyboarders.

Como já vos contei, fazer estas fotografias – mesmo sem saber ao certo como elas iam resultar, porque a OM-2 não tem um ecrã que mas mostre instantaneamente – foi tão divertido que me levou a atrasar a viagem até á Rua de Sá da Bandeira para ver a exposição de fotografias de Rui Palha. É evidente que, de um ponto de vista de qualidade intrínseca, as fotografias dele estão muitos degraus acima das minhas. Seria uma pretensão tola comparar-me a Rui Palha. De qualquer modo, o mais certo é que o meu atraso não tenha sido particularmente notado. Contudo, não pude deixar de sentir que estava a divertir-me muito mais a fotografar do que estaria se tivesse passado a manhã a visitar a exposição. O Rui Palha que me perdoe por não ter comparecido a tempo e ter preferido demorar-me a fotografar surfistas na Praia de Matosinhos, mas valeu a pena. Conhecer pessoalmente o melhor fotógrafo de rua português não é nada comparado com o que senti ao ver as fotografias de surfistas e bodyboarders que fiz nessa manhã de sábado, 22 de Fevereiro! (Agora a sério: a oportunidade de nos conhecermos pessoalmente, e não apenas via Facebook, há-de chegar; aquelas fotografias é que não podiam esperar.)

M. V. M.

Como eu edito as minhas digitalizações

Não gosto de editar as digitalizações dos negativos. Sou de opinião que isto, não sendo de forma alguma um sacrilégio, contraria a razão de ser de fotografar com rolos. Com efeito, gosto que os rolos me dêem exactamente o tipo de qualidade de imagem que quero; se isto não acontece, prefiro usar outro rolo. Contudo, há factores que me levam a recorrer à edição de imagem para tratar os ficheiros digitalizados.

v750m_fca-cnr-nn_690x460Os negativos que envio para revelação e digitalização são todos impecavelmente digitalizados num scanner Epson V750, que é o melhor entre os não-especializados. As imagens são convertidas em positivos e gravadas como ficheiros TIFF. Por alguma razão (que, para mim, apenas encontra explicação nos domínios do esoterismo), os ficheiros TIFF apenas têm cerca de 3 MB em média quando os recebo via Dropbox, mas, uma vez tratados no programa de edição, atingem entre 8 e 10 MB. Repito que não faço a menor ideia por que isto acontece – embora seja evidente que é acrescentada informação ao ficheiro –, mas sei que basta um pequeníssimo ajuste nos parâmetros da luminosidade (por exemplo, reduzindo muito ligeiramente as sombras ou as altas luzes) para que o ficheiro TIFF atinja estes últimos valores. Depois de descobrir este pequeno truque, passei a introduzir ajustamentos mínimos no programa de edição – mas sempre com o cuidado de manter a fotografia tão próxima do original quanto possível, pelo que as alterações são sempre insignificantes.

Um facto arreliante é que não consigo abrir ficheiros TIFF com o DxO Optics nem com o Olympus Viewer. No primeiro, aparece-me a mensagem internal error e, no segundo, onde devia aparecer a imagem surge um rectângulo completamente negro. Ainda mais intrigante é o facto de ter conseguido abrir ficheiros TIFF obtidos a partir de um rolo a cores Kodak Portra 160 que usei no Verão passado. Será um problema exclusivo do preto-e-branco? Será um daqueles achaques de que nunca ninguém morreu? Seja como for, isto obriga-me a fazer os ajustamentos no Windows Live Photo Gallery, o que, curiosamente, até não é mau de todo. Como as alterações são mínimas, o uso deste programa tão básico não é um problema; de resto, o WLPG tem duas características interessantes: o nivelamento da imagem é eficaz e a ferramenta de remoção de manchas funciona extremamente bem. Atenta a ligeireza das modificações que introduzo nas imagens, chego a não sentir necessidade de programas mais evoluídos. O único aspecto em que sinto a falta do DxO é na correcção geométrica, mas, de uma maneira tortuosa, isto acaba por ser um benefício porque me obriga a fotografar melhor, sendo mais criterioso com a posição da câmara.

Como não gosto de mostrar fotografias desniveladas (é pena que o ecrã de focagem da minha OM-2 não tenha linhas para ajudar a enquadrar os motivos), o WLPG acaba por ser útil, mas, ressalvado o incremento no tamanho, para pouco mais serve. Não faço muitos crops das digitalizações e, como penso já ter deixado suficientemente claro, os retoques são reduzidos ao mínimo: um tracinho a mais ou a menos nas sombras ou nas altas luzes, e está feito. É tudo o que faço no que respeita a edição de imagem, porque o meu interesse não é fazer fotografias que possa melhorar no computador, mas fazê-las bem à primeira. Neste aspecto, devo dizer que os rolos que me deixaram mais frustrado foram o Agfa APX 100 e o Ilford Pan F. Dei por mim a necessitar de fazer retoques de monta nas imagens feitas a partir destes rolos: o Ilford por causa da acentuação das sombras, que deixou algumas fotografias demasiado pesadas, e o Agfa por conta do escasso contraste que encontrei em várias imagens. Esta foi uma das razões por que fui crítico em relação a estes rolos: se preciso de usar tão intensamente a edição de imagem, é porque aqueles não dão às fotografias o aspecto que quero.

Claro que a minha vida seria mais simples se trabalhasse intensamente os ficheiros no computador: pouparia dinheiro, porque poderia comprar rolos baratuchos e depois, em casa, retocava as imagens até ficarem como eu queria; mas – não é isto que eu faço com a câmara digital? Neste caso, que sentido faria usar a OM?

M. V. M.

ADENDA: embora estes textos do Número f/ sejam evolutivos, na acepção de que novas experiências e aprendizagens levam-me a usar processos diferentes dos que descrevi nos textos mais antigos (o que torna estes últimos desactualizados e, por vezes, contraditórios), há muitos leitores que vêm ter a este blogue através dos motores de pesquisa, que os direccionam para textos que, entretanto, perderam actualidade.

No caso da edição das digitalizações, há um passo importante que descobri e uso por rotina do qual importa dar conhecimento ao leitor que consulte este texto isoladamente. A edição com o WLPG adiciona informação porque acrescenta uma transparência quando a imagem é retocada. Também converte os ficheiros digitalizados, que são em escalas de cinza quando saem do scanner, em RGB. Descobri que posso devolver-lhes a natureza de pretos-e-brancos puros com o Photoshop CS. O processo está descrito aqui. É altamente aconselhável fazer esta conversão, uma vez que toda e qualquer informação de cor que tenha sido adicionada vai ser removida, com a consequência de o ficheiro ocupar menos espaço em disco. M. V. M.

O que concluí das experiências com rolos

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Parece-me que, com o Ilford Pan F 50, concluí as minhas investigações de rolos de negativos para preto-e-branco. Dos rolos relevantes, apenas ficaram de fora os Rollei – há um modelo que se usa com velocidade ASA 20 com iluminação escassa e ASA 12 com luz normal! – e o Fujifilm Neopan 100, que é demasiado caro (€8,50). Com estas experiências, aprendi três ou quatro realidades sobre os rolos, as quais apenas serviram para confirmar a minha preferência pelo Ilford FP4.

1. Os rolos para preto-e-branco têm tanto mais contraste quanto menor for a sua sensibilidade. Esta é a regra, mas há rolos que, para a mesma velocidade ASA, mostram características de contraste diferentes: o Agfa APX 100 supera, por larga margem, o Kodak T-Max 100; o Ilford HP5 dá mais contraste que o Kodak Tri-X. De qualquer forma, se o que se quer é contraste, deve escolher-se um rolo com uma velocidade ASA diminuta. Os resultados mais radicais que obtive foram, como seria de esperar, os do Ilford Pan F 50. A questão, com rolos como este, é evitar a subexposição dos médios tons, o que se faz medindo a exposição nas sombras (o que implica o risco de as altas luzes estourarem) ou sobreexpor ligeiramente. Por outro lado, é importante ter em conta que estes rolos de elevado contraste têm menor gama dinâmica que os rolos mais rápidos, pelo que a descrição dos médios tons nunca é tão boa como, por exemplo, a do Tri-X.

2. Os rolos de grão cúbico são preferíveis aos de grão tabular. A fotografia digital teve um efeito interessante sobre os rolos: uma vez que os fotógrafos profissionais aderiram maciçamente à fotografia digital, a prioridade deixou de ser o uso de rolos perfeitos para grandes ampliações – o que era obrigatório para obter a maior qualidade de imagem possível – para passar a ser o contributo dado pelo rolo para a expressividade da fotografia. Um pouco de grão dá mais carácter à fotografia do que a sua ausência completa, pelo que os rolos de grão cúbico, apesar de poderem fazer a imagem parecer mais grosseira, emprestam à fotografia um aspecto inconfundível. Ver uma fotografia feita com um rolo de grão tabular, sem saber que equipamento foi usado, pode deixar dúvidas se foi feita com uma câmara digital ou com uma analógica; uma fotografia feita com um rolo de grão cúbico reconhece-se imediatamente, mesmo que o grão seja fino. Este aspecto sobreleva, para o entusiasta, à perfeição da imagem que é garantida pelo grão tabular.

3. Quanto maior for a sensibilidade, mais grão surge na imagem. Esta afirmação pode fazer-me merecer a alcunha de Captain Obvious, mas a verdade é que nem todo o grão é da mesma natureza. O grão do Ilford HP5 é muito mais agressivo e inestético do que o do Kodak Tri-X. Por outro lado, ver digitalizações é enganoso porque, por qualquer motivo que desconheço, o scanner induz um granulado em tudo semelhante ao ruído das fotografias digitais na imagem, tornando a apreciação dos efeitos do grão muito difícil. Contudo, não deixa de ser verdade que os rolos de velocidade elevada produzem mais grão. Uma coisa é certa: o grão, mesmo se grosseiro como o do HP5, resulta sempre melhor do que o ruído das fotografias digitais.

4. Diferentes rolos servem diferentes usos. Todos os rolos que experimentei foram desenvolvidos para um uso profissional, o que explica o seu preço. E cada rolo serve para uma aplicação diferente: rolos como o Agfa APX 100, o Ilford Pan F 50 e o Kodak T-Max são para a fotografia de motivos estáticos e prestam-se a ser usados no estúdio, com condições de luz controladas e com a câmara montada num tripé. Os rolos como o Pan F (e os Rollei, que não foram experimentados) servem para quando se quer o maior contraste, enquanto as velocidades ASA elevadas se destinam (ou destinavam, porque hoje todos optaram pela fotografia digital) a fotojornalistas e a fotógrafos de desportos e da vida selvagem. Parece ter havido, ao longo do tempo, uma evolução no sentido da especialização, o que determinou o lançamento de rolos para aplicações específicas, como é demonstrado pela criação do rolo de grão tabular, que se destina a grandes ampliações.

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Apenas um rolo resistiu favoravelmente a todas as comparações. Esse rolo é o Ilford FP4 Plus 125. É suficientemente rápido para enfrentar a maioria das situações de luminosidade, mas sem abrir mão de um contraste elevado; tem uma nitidez que deixa os rolos das outras marcas a chorar baba e ranho e tem o toque inconfundível da prata: é um rolo cheio de carácter e de uma enorme versatilidade. É o campeão dos rolos para preto-e-branco. É caro, mas não tanto como o Fujifilm Neopan e, de resto, a sua qualidade faz com que cada um dos seiscentos e cinquenta cêntimos que custa seja bem empregue.

M. V. M.

O Ilford Pan F

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Os que me acompanham sabem que gosto de contraste nas minhas fotografias, em particular nas de preto-e-branco. Sabem, também – ou, pelo menos, deduzi-lo-ão com suficiente facilidade – que escolho os meus rolos em função desta característica. O que poderão não saber é que sou também moderado e gosto de equilíbrio. Tal como não aprecio um rolo com pouco contraste, um que o tenha em demasia pode não ser o mais conveniente.

Deste modo, já há alguns meses que o meu rolo de eleição é o Ilford FP4 Plus 125. É um rolo completo, um all-rounder consumado: é bom em tudo. Tem bom contraste, excelente acutância e, do lado do laboratório, uma boa latitude que o torna versátil na revelação, o que significa que perdoa facilmente eventuais erros na exposição. Esta escolha do FP4 como o meu rolo favorito – sendo, consequentemente, a minha referência para rolos de preto-e-branco – não me impediu de, por curiosidade (mas também por vontade de publicar aqui os resultados), experimentar outros rolos.

O último deles foi o Ilford Pan F Plus 50, o rolo com a velocidade ASA mais baixa que já usei. Atenta esta variável, contava obter certos resultados, como um contraste muito acentuado e uma ausência quase total de grão. As digitalizações, que recebi esta manhã, confirmaram estas impressões apriorísticas, mas também me trouxeram algumas surpresas.

O Ilford Pan F é um típico Ilford: as suas características principais coincidem com as do FP4 e do HP5, sendo um rolo com excelente acutância, o que garante uma discriminação do pormenor que nenhum dos rolos de outras marcas que experimentei consegue superar. Assim, este é mais um rolo que privilegia o microcontraste, conferindo às imagens uma nitidez capaz de deixar os digitalistas mais fanáticos em estado de negação. Deste modo, quem sai aos seus não degenera: este é mais um puro-sangue da Ilford.

Tal como os outros Ilford que conheço, o Pan F é um rolo para os que apreciam o contraste. É aqui, porém, que começa a divergir do FP4 e do HP5: o Pan F pode ser descrito, sem desprimor ou exagero, como um rolo que tem demasiado contraste. Este contraste extremo pode levar a um efeito indesejado, que é a acentuação excessiva das sombras. As altas luzes são também exacerbadas pelas características deste rolo, mas aqui, curiosamente, as diferenças entre o Pan F e o FP4 não são tão acentuadas como cheguei a pensar. Pelo que as altas luzes não são particularmente problemáticas, estando mais ou menos ao nível das que obtive com o Agfa APX 100.

As sombras, porém, podem ser um problema de difícil resolução. Elas obscurecem a imagem mais do que o necessário. É como se o rolo, subitamente dotado de vontade própria, decidisse que cada fotografia tinha de resultar num chiaroscuro. Resultado: histogramas em forma de U. Altas luzes ofuscantes, sombras profundas e… muito pouco pelo meio.

Antes que pensem que estou a ser destrutivo, deixem-me rectificar: este rolo é fabuloso para motivos em que se requer muito contraste. Como vos narrei no Domingo, no dia anterior tinha-me parecido mais interessante ir fotografar para a Praia de matosinhos do que chegar cedinho à exposição de Rui Palha. Pois bem: nessa sessão fotográfica, quase toda ela dedicada a surfistas e bodyboarders, o rolo que usei foi o Ilford Pan F. Como ficaram as fotografias? Numa palavra: espantosas! Estas foram, por uma larga margem, as melhores fotografias que fiz com o surf e o bodyboard como tema. O contraste providenciou um efeito absolutamente fenomenal, possibilitando silhuetas perfeitamente recortadas. O facto de as altas luzes serem proeminentes apenas contribuiu para tornar estas fotografias ainda melhores. Orgulho-me das fotografias que fiz nesse Sábado de manhã como de poucas outras.

Simplesmente, este entusiasmo é refreado pela relativamente escassa versatilidade deste rolo – pelo menos quando comparado com o FP4. Este é um rolo que só mostra as suas verdadeiras qualidades em cenas de contraste extremo. O facto de acentuar as sombras torna-o difícil de usar, sendo talvez prudente expor para as sombras, mesmo correndo o risco de as altas luzes poderem estourar. No mínimo, este rolo requer a precaução de sobreexpor ligeiramente para que os médios tons não se transformem em sombras e negros. Não é, deste modo, um rolo para o dia-a-dia: o FP4 é bem mais acomodatício. Pode não ter tanto contraste, mas em situações médias comporta-se bastante melhor. Claro que o Pan F pode ser usado regularmente: é apenas uma questão de levantar as sombras na edição de imagem. Simplesmente, se eu uso rolos é para me libertar da manipulação e escolher os que correspondam às minhas opções estéticas. Pelo que o Pan F nunca seria um rolo que usasse no dia-a-dia.

A despeito de tudo isto, se me desse na cabeça expor um rolo inteiro na Praia de Matosinhos a fotografar surfistas e bodyboarders, não teria dúvidas sobre qual usaria. O Ilford Pan F 50 é o rolo perfeito para silhuetas e chiaroscuri. Com a vantagem de se poder usar aberturas mais amplas do que é habitual: um f/stop inteirinho! E é um daqueles rolos que dão à imagem o tom glorioso da prata, esse brilho inefável que só os bons rolos para preto-e-branco conseguem obter.

Resumindo: o Pan F é um rolo extraordinário, mas é para aplicações específicas. Não é um rolo para usar regularmente, mas recomendo-o com a maior veemência possível àqueles que procuram contrastes extremos.

M. V. M.

Ao virar de cada esquina

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de quase dois anos a procurá-lo obstinadamente, encontrei um Citroën DS no dia 15 de Dezembro do ano passado e fotografei-o. Desde então parece que não posso sair à rua sem encontrar um: no Domingo, 16 de Fevereiro, encontrei mais um; ontem, 23, dei com outro. O primeiro estava no meio de uma concentração – embora informal – de clássicos na Foz. Aliás, a sessão fotográfica desse dia foi como pescar num viveiro: não precisei de fazer qualquer esforço para encontrar clássicos. O Boca-de-sapo de ontem estava mais isolado, embora a poucos metros do local da concentração da semana anterior. Não posso dizer que a sorte tenha estado totalmente do meu lado: já tinha poucos fotogramas por expor e o rolo chegou ao fim depois de três fotografias. É melhor que tenham ficado decentes!

Passada toda esta penúria, os DS aparecem-me ao virar de cada esquina. Pode dizer-se que não há fome que não dê em fartura. Ainda bem que é assim – porque, além de imensamente fotogénico, o DS é um automóvel com um lugar só dele na história do automóvel. E não apenas pela estética: este é um dos automóveis com maior número de inovações técnicas e tecnológicas, o que o torna importante na evolução do automóvel. Em 1955, ano da sua apresentação, estava equipado com direcção assistida, travões de disco, suspensão hidropneumática autonivelante, cintos de segurança de série, faróis direccionais e uma caixa de velocidades semiautomática que prescindia do pedal da embraiagem. Um carro verdadeiramente revolucionário que deve, com certeza, ter causado uma sensação de estranheza e fascínio quando foi lançado, em 1955, no Salão Internacional do Automóvel de Paris. Numa altura em que os automóveis eram quase todos inspirados nas linhas dos carros americanos, nos Buicks e Cadillacs de linhas redondas e de barbatanas proeminentes, o DS deve ter sido uma aparição, como uma nave espacial vinda de uma banda desenhada do Flash Gordon que se tivesse materializado e tornado automóvel.

Comparado com outros topo-de-gama da sua época, o DS era, de muito longe, o mais avançado: podia não ser o mais luxuoso – embora fosse dos mais caros –, e a Citroën, apesar de tudo, nunca teve o prestígio de uma Mercedes ou a imagem dinâmica de uma Alfa Romeo, mas o DS era um automóvel que mais parecia surgido de um laboratório, um carro cuja linha era a manifestação exterior de um conteúdo tecnológico que era simplesmente único. Os engenheiros da Citroën não seguiram o caminho de tentar agradar a todos os compradores e propuseram-se fazer um automóvel resolutamente diferente que contivesse todos os avanços da indústria automóvel em matéria de conforto e segurança. Decerto, os DS eram pouco potentes e tinham problemas de corrosão graves, mas nenhum outro automóvel se parecia com aquele nem competia com ele em conforto, segurança e inovação.

Por que persegui eu este automóvel tão teimosamente? E, já agora, qual a relevância disto para a fotografia e para os leitores do Número f/? Bem, quando era chavalo já gostava de automóveis. No meio dos carros daquela época, que consistiam em viaturas tão interessantes como os Ford Cortina e os Austin 1100, o DS era um automóvel particularmente distinto, mesmo muitos anos depois do seu lançamento. Não se confundia com nenhum outro. As suas linhas eram de tal maneira ousadas que este automóvel manteve o seu ar de carro do futuro mesmo nos anos 70, quando o design automóvel já evoluíra e abandonara as linhas moles e balofas das pequenas imitações de automóveis americanos que pululavam nas ruas e nas estradas. Para o pequeno M. V. M., ver um DS era uma fonte inesgotável de espanto e maravilhamento: era um automóvel solene, majestoso e distinto, quase inacessível na sua singularidade, mas, ao mesmo tempo, estranho – como se não fosse deste planeta. Foi esta impressão duradoura, quase de reverência, que me levou a considerar o DS o automóvel mais sofisticado e distinto de sempre – até surgir o Citroën SM.

É evidente que esta impressão, conjugada com o gosto por automóveis – que perdurou até hoje e não parece dar sinais de querer desaparecer –, tinha de se aliar a este gosto mais recente pela fotografia: fotografar um DS era algo que simplesmente não podia deixar de fazer – mais tarde ou mais cedo teria de acontecer. E vou fazer tantas fotografias quantas as oportunidades que tiver, porque quero fazer a fotografia perfeita do Citroën DS. Perfeita para mim, claro: pode não o ser para mais ninguém, mas tem de ser uma que me deixe completamente satisfeito.

Uma vez que mencionei o facto de ter esgotado um rolo com esta sessão de três fotografias, cumpre também informar que o dito rolo é o Ilford Pan F 50, que conto enviar para revelação e digitalização ASAP. Tenho bastante curiosidade em saber o que este rolo vale, porque nunca tinha fotografado com uma velocidade tão baixa. Não será um rolo para usar com regularidade – ASA 50 é limitativo em muitas situações fotográficas, como a fotografia de interiores –, mas espero algumas conclusões curiosas. Stay tuned

M. V. M.

Dos benefícios de fotografar com sensibilidades reduzidas

f536pan_product_1_media_galleryEstou, presentemente, a usar um rolo ASA 50. Quer se use a expressão ASA (de American Standards Association), que prefiro por pertencer ao mundo da película, quer nos exprimamos em termos de ISO, também usado na fotografia convencional mas com maior incidência na digital, ASA 50 (ou ISO 50) é um valor de sensibilidade muito baixo. É mesmo o valor mais baixo que já usei em toda a minha experiência de amador da fotografia, independentemente do modo como as câmara que usei registam as imagens. Esta é uma velocidade que me obriga a usar 1 EV abaixo do que é normal. Em lugar de fotografar a 1/500, tenho de usar 1/250; em lugar de 1/1000, uso 1/500. Isto obriga-me, por força da lei da reciprocidade, a usar aberturas maiores – o que não é tão mau como cheguei a pensar. Fotografias de interiores com pouca luz e ao anoitecer sem um tripé estão fora de questão, evidentemente, mas uma sensibilidade tão baixa é óptima para fotografar sob luz intensa: tem-se um domínio muito maior da exposição e da profundidade de campo. Usar aberturas mais largas é uma vantagem em muitas ocasiões: por exemplo, quando fotografo surfistas, um dos meus temas preferidos. Para quem tem uma câmara limitada a 1/1000, isto é um benefício incomensurável. Embora a OM-2 se comporte melhor a 1/1000 que a E-P1 a 1/4000 quando apontada para uma fonte de luz intensa, a redução na sensibilidade à luz é sempre vantajosa nestas condições: é como se tivesse montado um filtro de densidade neutra de 1 EV. Deste modo não tenho de optar por aberturas da ordem dos f/11 ou f/16, as quais introduzem difracção.

Os valores de sensibilidade baixos são sempre recomendáveis, a menos que precisemos insuprivelmente de fotografar com pouca luz (o que, convenhamos, não acontece assim com tanta frequência) e não possamos recorrer ao flash ou ao tripé. Em condições de luz intensa, pode-se fotografar sem o receio de sobreexpor; sob luz normal, é possível usar aberturas maiores sem que a imagem perca contraste ou nitidez. Contudo, o que vemos hoje é uma tendência universal para a procura de valores de sensibilidade extremamente altos, à custa de uma mentalidade que valora mais os algarismos do que a percepção: todos querem que as fotografias feitas com ISO 25200 fiquem perfeitamente nítidas, como se, de repente, todos tivessemos sido acometidos da premência de fotografar sob escuridão total sem flash nem tripé. Claro que a quantidade de ocasiões em que essas pessoas vão usar essas sensibilidades não justifica a aquisição das câmaras que são capazes desses valores – em regra as full frame como a Canon 5D e as profissionais –, mas é como avaliar um carro pela velocidade que consta do taquímetro: não chegamos a atingir essa velocidade, mas podemos sempre gabar-nos, nas conversas com os amigos, que o nosso carro 250 Km/h. Há pessoas assim. Elas andem aí.

Pessoalmente, gostava que houvesse mais fabricantes a apetrechar as suas câmaras digitais com uma sensibilidade ISO 50. A Nikon fá-lo, mas tanto quanto é do meu conhecimento nenhuma outra marca propõe valores ISO abaixo dos 100 (mas posso estar enganado). É que, além da vantagem de usar aberturas maiores, um valor ISO assim baixo tem outra vantagem sobre a qual ainda não me pronunciei, mas faço-o agora: o ruído, tal como o grão nas películas, é muito menor. Tanto nas películas como nos sensores, quanto menor for a sensibilidade, menores são também esses artefactos designados, respectivamente, como grão e ruído. Isto significa, evidentemente, imagens mais limpas. Mesmo na fotografia nocturna, desde que se use um tripé, é melhor usar sensibilidades baixas, já que o ruído não afectará a qualidade da imagem. O mesmo quando se usam rolos: usar um rolo ASA 50 ou 100 garante fotografias isentas de grão. Apesar de o grão poder ser usado em benefício da fotografia em muitas ocasiões, o ruído digital só estraga. Mesmo o grão, quando é demasiado agressivo (como no Ilford HP5, mas não no Tri-X 400), estraga mais do que beneficia. Tive sempre a percepção de que o ruído é o maior inimigo da qualidade de imagem e, até hoje, ainda não aconteceu nada que me provasse o contrário. Não gosto de ver ruído nas fotografias, especialmente se este for de crominância. E também não gosto de um grão agressivo nas películas.

Que aprendi, então, com este uso de um rolo ASA 50? Que se torna muito mais fácil e recompensador fotografar sob luz intensa, antes do mais. E que, quando se fotografa, deve sempre jogar-se com o tempo de exposição e com a abertura, e não apenas com um deles. Usar aberturas grandes só traz vantagens, desde que não se abuse do valor máximo de que lente é capaz. No terreno – e eu só posso pronunciar-me sobre este aspecto, porque ainda não conheço os resultados das fotografias que estou a fazer com este rolo –, aquilo que se pode aprender sobre os requisitos da exposição, ao usar uma sensibilidade tão baixa, é imenso: é, certamente, muito mais do que aquilo que aprendi depois de usar rolos ASA 400 e infinitamente mais do que quando uso sensibilidades ISO elevadas na câmara digital: o único ensinamento que recolhi, sempre que fotografei com ISO 800 numa câmara digital, é que as fotografias ficam imprestáveis. O que, convenhamos, não é um contributo assim tão grande para a aprendizagem da fotografia.

M. V. M.