Cores. Cores. A vida é a cores

Ontem recebi, via Dropbox, as digitalizações de mais um rolo a cores. Desta vez foi um Agfa Vista 400, rolo ao qual perdoo uma ligeira falta de acutância e um tingimento vermelho acentuado por fazer tudo o resto tão bem, por tão pouco dinheiro. Podia ficar mais satisfeito com o 160NS, ou com o 400H, ambos da Fujifilm, mas estes rolos custam os olhos da cara. O seu uso justifica-se num contexto profissional – apesar de ser discutível o uso de película 135 para fins profissionais, evidentemente.

Adiante, que não é sobre rolos que quero escrever. Eu não tinha grandes expectativas quanto às exposições deste último rolo. Fiz fotografias naquele estilo a que se pode chamar «de rua», dentro do que costumava fazer quando usava os meus Ilford FP4, e, como imaginava que tais fotografias não iam resultar muito bem a cores, calculei que teria sido um desperdício de tempo e dinheiro.

Estava enganado. As fotografias que fiz são inteiramente válidas – pelo menos segundo os meus próprios critérios, e a despeito de poder considerá-las péssimas daqui a uma semana –, mesmo sendo a cores. Vou mais longe: a cor atribui-lhes uma dimensão suplementar, um interesse extra em relação a imagens semelhantes a preto-e-branco.

Isto faz-me pensar se não terei perdido demasiado tempo ao fotografar quase exclusivamente a preto-e-branco durante mais de três anos. Vendo bem, foi tudo uma questão de moda: habituei-me a ver fotografias a preto-e-branco e limitei-me a aderir à moda. Foi um erro: em lugar de procurar exprimir-me pelos meus próprios meios, preferi o conforto de seguir o que os outros faziam.

Foi um disparate, embora justificado pela verdura e ignorância. Como só conhecia fotografia de rua a preto-e-branco, não imaginava que fosse possível fazê-la de outra maneira. O que mudou tudo, fazendo-me fotografar a cores? Dois factores, por ordem crescente de importância. O primeiro foi ter encontrado uma película capaz de resultados consistentes sob todas as condições de luz. Isto foi essencial – tanto que agora me parece que não fotografava tanto a cores por as películas que experimentei não me terem deixado satisfeito. O segundo foi ter-me familiarizado com um triunvirato de fotógrafos de rua que utilizaram a cor de maneira excepcional: Fred Herzog, Saul Leitner e Joel Meyerowitz.

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Fred Herzog, “Main Barber”

O que eu gosto, nas fotografias de Herzog, Leiter e Meyerowitz, é elas provarem que a fotografia de rua não tem necessariamente de ser a preto-e-branco. Olho para aquelas fotografias, e está lá tudo o que define a fotografia de rua: as pequenas histórias do quotidiano, os sinais da vida urbana, a estética, a composição – e, evidentemente, as cores. E são fotografias que funcionam.

A fotografia de rua tornou-se muito cliché. Tem apenas que ver com a estética, composta de contrastes exagerados e do omnipresente preto-e-branco, e acontece, invariavelmente, em cenários nos quais a presença de uma pessoa é um mero pretexto para a aposição do rótulo de «fotografia de rua». Sim, ainda há fotografias de rua em preto-e-branco maravilhosas, mas a vida é a cores. Foi William Albert Allard quem disse “Eu vejo a cores”. Tenho razões para crer que não estava apenas a declarar que não era daltónico.

Fred Herzog, Saul Leiter e Joel Meyerowitz mostraram-me que é possível uma abordagem diferente para a fotografia de rua. Foi uma verdadeira revelação. Antes, já me tinha deixado fascinar pelo uso que Harry Gruyaert e William Albert Allard fazem da cor, mas estes dois não são fotógrafos de rua – mesmo que, ocasionalmente, tenham feito fotografias que caem dentro dessa definição. Foram Herzog, Leiter e Meyerowitz quem levou a cor para a fotografia de rua. Ainda bem que eles – ou a sua obra, já que Saul Leiter morreu em 2016 – existem: libertaram-me de um espartilho.

No Sábado perguntaram-me quando ia voltar ao preto-e-branco. Isto que estou a fazer não é um mero flirt com as cores, como fiz quando experimentei os Kodak Ektar e Gold e o Ferrania Solaris. Vou certamente voltar a usar rolos de preto-e-branco, mas não com a quase exclusividade com que o fiz até há pouco. Não quero estar limitado a um estilo ou a uma estética.

M. V. M.

Certezas e dúvidas

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Há um ano, por esta altura, tinha duas certezas e uma incerteza. Estava convicto de que a minha linguagem fotográfica era o preto-e-branco e de que a única película que valia a pena usar era a Ilford FP4. A minha dúvida era qual película havia de usar quando quisesse fotografar a cores, nas raríssimas ocasiões em que tal me apetecesse.

Hoje as certezas estão um pouco mitigadas. Tenho retirado tanta satisfação das fotografias mais recentes, todas elas a cores, que a certeza de que a minha linguagem é o preto-e-branco está agora severamente abalada. Não é que tenha deixado de apreciar o preto-e-branco; é mais por, como o nosso ex-Presidente Jorge Sampaio podia ter dito, haver vida para além do preto-e-branco. O preto-e-branco não se tornou subitamente detestável, nem a cor uma musa inspiradora; o que se deu em mim foi apenas a descoberta de que é possível fotografar com películas a cores com resultados muito satisfatórios – o que ainda não havia aprendido por ter usado películas que não convinham a todas as condições de iluminação com que normalmente fotografo.

Antes de me referir ao que me levou a redescobrir a satisfação das cores, uma palavra quanto à película a preto-e-branco que considerei – e provavelmente ainda considero – a melhor que existe à superfície da terra: sim, os Ilford FP4 são os melhores rolos 135 que existem. Em termos estritamente subjectivos, porém, dei comigo a extrair grande prazer do Kentmere 400. Embora ainda me falte experimentar o Kentmere 100, que é aquele com o qual as comparações relativamente ao FP4 são válidas, os Kentmere podem muito bem ser o negócio do século para quem expõe película a preto-e-branco.

As minhas experiências com cores foram, até aos últimos meses do ano passado, deveras frustrantes: dos rolos que havia experimentado até então, uns eram deliberadamente maus, outros só resultavam bem debaixo de certas condições de luz e outros ainda eram de tal maneira garridos ou granulosos (ou ambos) que não me serviam. Esta insatisfação com as películas a cores contribuiu decisivamente para me levar a centrar a minha fotografia no preto-e-branco (embora o grosso das fotografias que fiz antes de ter a OM-2 fosse já monocromática). Isto durou até ao dia em que resolvi deixar de lado algumas preconcepções e experimentei uma película que sempre me havia parecido medíocre: a Agfa Vista.

Devo dizer que não foi só a película que me determinou a fotografar de novo a cores: foi também, e sobretudo, o conhecimento da obra de fotógrafos como William Albert Allard, Harry Gruyaert, Joel Meyerowitz, Saul Leiter e Fred Herzog. Com os três últimos, descobri que se pode fazer fotografia de rua a cores – e, com isto, livrei-me de uma maneira de fotografar que se está a tornar estafada.

Houve, portanto, uma inversão nas minhas certezas e dúvidas. Agora tenho dúvidas quanto à minha forma de expressão preferida e à película predilecta para a obter, mas ganhei, em contrapartida, uma certeza: os rolos que quero usar, quando fotografo a cores, são os Agfa Vista. A minha breve experiência com o Fujifilm X-Tra 400 apenas serviu para confirmar esta minha preferência. Não, a Agfa não é a película perfeita, mas tem inúmeras virtudes: a descrição das cores, a despeito da intromissão de algumas matizes espúrias, é muito natural; e tem consideravelmente menos grão que o Fujifilm. É uma película que se comporta bem em praticamente todas as condições de iluminação, dando bons resultados nas sombras.

E é barato. O único rolo que me deu melhores resultados foi o muito caro Kodak Portra 160, e mesmo assim este último não é muito bom para fotografar com luz escassa. O humilde Agfa Vista é mais versátil. Apesar de a matiz magenta que afecta algumas fotografias me ir obrigar a recorrer à edição de imagem com mais frequência do que seria desejável, penso que esta é uma contrapartida modesta para o enorme benefício que é poder fotografar em qualquer lugar, independentemente de a luz ser artificial ou natural, de fazer sol ou estar à sombra.

M. V. M.

Os meus filmes

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Título enganoso – não vou falar aqui de cinema, embora já o tenha feito (há poucos blogues de fotografia onde os leitores possam educar o seu gosto cinematográfico através do conhecimento de cineastas como Luchino Visconti, Richard Linklater e Michael Haneke). O título pretende ser uma sátira às pessoas que gostam de traduzir tudo directamente do inglês e entendem que film pode ser traduzido para filme, mas esta última é uma palavra inventada, porque film tem uma tradução em português, que é  «película». (Film não se refere especificamente à película fotográfica ou cinematográfica: também designa, por exemplo, o papel celofane ou os plásticos usados para envolver alimentos.)

Também não vou escrever sobre os meus filmes – se eu vos contasse como correu o meu último julgamento, pensariam que tinha aderido à equipa de guionistas de uma série humorística qualquer –, mas sim sobre as minhas películas. Desde que comprei a OM já experimentei vinte películas diferentes (todas de negativos): da Kodak, usei rolos de Tri-X, Portra 160, Ektar 100, Gold 200 e T-Max 100 e 400; experimentei Ilford FP4, HP5, Pan F e Delta 100 e 400 (além de um rolo Pan 400 que já atingira a idade núbil, mas cujos resultados pareceram agradar a muitos visitantes do meu Flickr); usei também Fuji (Superia 200), Fomapan 200, Ferrania Solaris, Kentmere 400, Agfa APX 100 (também usei 400, mas os resultados foram inconclusivos) e agora outro rolo Agfa, este a cores, que é o Vista 400. Além da ovelha negra chamada Lomography Earl Grey, que foi a pior que experimentei. Foram muitos rolos. Apesar de ainda me faltar experimentar outros tantos – vários da Fuji, todos da Rollei e da Adox e algumas variedades das marcas que mencionei anteriormente –, penso que já posso elaborar algumas conclusões.

A primeira é que o preto-e-branco é a minha linguagem. Já escrevi aqui, ainda há bem pouco tempo, que fotografar a cores é difícil pelas exigências de harmonia da cor. Devo acrescentar outra dificuldade: a de encontrar motivos em que a cor, mais que as formas, seja o elemento gráfico preponderante. Convenhamos que o Porto é uma cidade um bocado granítica e monocromática (e eu não tenho particular gosto em fotografar graffiti). O preto-e-branco favorece as formas e as linhas, pelo que se adequa melhor às minhas opções estéticas. Daí que tenha adquirido muitos mais rolos de preto-e-branco que de cores. Por regra, demoro muito mais a expor rolos a cores, o que é revelador quanto às dificuldades com que me deparo. Isto não quer dizer que tenha desistido da cor, mas seguramente significa que estabeleci uma preferência.

E, já que me refiro a preferências, quais são os rolos que mais me satisfazem? Para o preto-e-branco, a resposta é mais ou menos óbvia: o FP4 é aquele ao qual volto sempre. Já expus trinta e seis rolos desta película. Gosto do seu contraste e da nitidez incrível, mas exige algumas precauções, como expor sistematicamente para as altas luzes de maneira a evitar a sobreexposição.

O que me leva a outra conclusão: eu gosto de películas lentas. Comigo a fotografia em lugares pouco iluminados é uma excepção, não a regra. Além de não apreciar aberturas demasiado estreitas: não sou um tarado do bokeh (eu gostava de cremar in vivo a criatura que se lembrou de importar esta palavra para o Ocidente), mas um bocadinho de desfoque de vez em quando não faz mal nenhum. As películas de alta velocidade (ou sensibilidade, se preferirem) obrigam-me a fotografar com f/11 sempre que aparece um raio de sol. Contudo, nas diversas ocasiões em que um rolo ISO 400 é útil, demorei a decidir qual preferia: o Tri-X? O HP5? Sob reserva de fazer mais algumas experiências, penso ter encontrado uma película que poderia usar sempre que quiser fotografar em estações do metro: a Kentmere 400. Contudo, devo também dizer que foi agradável experimentar películas ASA 200. Usei duas: Fomapan 200 e Kodak Gold 200. É uma sensibilidade muito versátil e agradável de usar. Não compreendo por que razão a Ilford não fabrica películas ISO 200.

Quanto à cor, remeto para o texto em que me refiro às dificuldades suplementares que as películas implicam. Apesar de a minha preferência não ir para a fotografia a cores, não posso negar que me diverti com os rolos Ferrania e que fiquei surpreendido com o desempenho do Kodak Gold 200. Os outros são demasiado dependentes das condições de luz. Curiosamente, a película que estou correntemente a usar é a primeira de alta velocidade que uso. (Depois digo-vos das minhas impressões.)

A maior surpresa da minha experiência com películas, porém, é a resolução do pormenor que algumas possibilitam. Claro que as lentes Olympus OM, em particular a grande-angular, contribuem para esta resolução, mas as películas desempenham um papel importante. Descobrir isto foi uma surpresa, mas há uma explicação: a fotografia no formato 135 precisa de toda a resolução de que for capaz para que não se perca demasiada nitidez nas ampliações. As minhas fotografias são, com a excepção daquelas em que falhei a focagem, inacreditavelmente nítidas. Esta, como referi, foi uma grande surpresa. Só comparável ao prazer que se extrai de fotografar com uma máquina analógica, mas estas são contas de outro rosário.

M. V. M.

Três anos

Foi no dia 12 de Junho de 2013 que comprei a Olympus OM-2n, uma máquina fotográfica que gasta rolos de película. Por esta altura já toda a gente sabe que fotografo praticamente em exclusivo com ela. Já me cansei de escrever aqui sobre isto e, reciprocamente, o leitor já se cansou de lê-lo, mas quando penso nas razões por que uso este meio por muitos considerado anacrónico, por vezes surgem-me perguntas às quais tenho dificuldade em responder.

A fotografia analógica só a espaços pode ser considerada melhor que a digital. Não é tão versátil, é tudo menos prática e alguns equiparam a qualidade que o formato 135 tinha a oferecer, na sua época de ouro, com a que se pode conseguir hoje com um iPhone (o que é discutível, evidentemente, mas não anda assim tão longe da verdade). Neste caso, por que insisto? Afinal de contas, tinha uma câmara digital que, aliada a um programa de edição de imagem quase perfeito, me dava resultados mais que satisfatórios. Por que é esta última que uso apenas de vez em quando, e não a outra? E por que troquei a comodidade de ver os resultados imediatamente por esperas de vários dias?

A resposta concentra-se numa única palavra: prazer. Na verdade, factores como ser obrigado a ser comedido no número de fotografias (e, por esta via, ser mais selectivo), ou ser forçado a dominar a técnica, já não contam; contaram nos primeiros tempos, mas agora o que sobreleva é o prazer de fotografar com a OM-2. Não por ser a OM-2, mas por ser uma máquina fotográfica analógica e uma SLR. Há qualquer coisa de exultante em fotografar com uma máquina como esta: a claridade do visor, a facilidade em focar, a acção mecânica e o som do disparo, com a vibração do obturador e do espelho a darem expressão corpórea ao gesto de fotografar, e o accionamento do avanço do rolo concorrem para que usar a OM-2 seja um prazer. Aliás, já nem concebo fotografar sem usar um visor e sem accionar a alavanca do avanço do rolo. Ambos me parecem essenciais e indissociáveis do acto de fotografar.

Depois há as lentes. Embora não tenham a mesma reputação que as Nikon, Zeiss e Leica, as lentes Zuiko para o sistema OM são maravilhosas. Têm toda a nitidez que se pode esperar de boas lentes, são comedidas nas distorções e aberrações e, acima de tudo, funcionam bem depois de todo este tempo. Sobretudo, constituem um sistema completo que abrange as distâncias focais mais importantes, o que é algo que não tinha com a câmara digital.

Nem sequer posso dizer que fico mal servido em matéria de qualidade de imagem. As fotografias podem ser menores em tamanho, mas não perdem nada em nitidez. Isto é o que facilmente descobre quem usa máquinas analógicas e rolos de qualidade. No meu caso, encontrei uma película que me satisfaz por completo; com ela, as minhas fotografias têm toda a nitidez e contraste que espero delas. E sem ter de recorrer à edição de imagem, a qual uso apenas esparsamente.

Usar película é uma experiência que vivo apenas pela metade. Escapa-me uma parte substancial do processo, que é a revelação. Em lugar de a dominar (o que seria materialmente impossível, por diversas razões), entrego-a a outrem. Tive a sorte de a falta de qualidade dos serviços que experimentei com os meus primeiros rolos me ter empurrado para a Câmaras & Companhia, onde as mãos experientes do Raúl Sá Dantas fazem maravilhas. Estes três anos são também a história de uma aproximação com o Raúl e a Leonor que ultrapassa em muito a mera relação entre cliente e fornecedor. O que aprendi com eles é simplesmente inestimável, mas são também pessoas excelentes que me orgulho de conhecer.

Estes três anos com uma máquina analógica serviram para me ajudar a definir um estilo, mas sobretudo para dar às minhas fotografias um cunho próprio. Agora procuro que as fotografias exprimam as minhas concepções gráficas, em lugar de simplesmente mostrar coisas ou fazer fotografias iguais às de outras pessoas. Procuro, em especial, que as minhas fotografias vivam da luz e da maneira como ela incide sobre os motivos que escolho. É possível que tivesse feito as mesmas escolhas se fotografasse com uma câmara digital, mas os rolos fazem isto melhor. Só há uma câmara digital – a Leica M Monochrom – capaz de reproduzir as altas luzes como o Kodak Tri-X e, sobretudo, os Ilford, mas essa câmara é caríssima.

Não sei quanto tempo isto vai durar. Se for um daqueles ressurgimentos como o do vinil, poderei continuar com esta maluquice de expor rolos por mais uma ou duas décadas. O que é bom.

M. V. M.

Mais sobre a guerra entre o analógico e o digital

Eu ainda não me decidi completamente acerca da luta entre os domínios analógico e digital. Embora tenha aderido quase incondicionalmente ao primeiro, não consigo dizer que o outro é destituído de mérito.

Há um aspecto em que, na minha modesta opinião, a fotografia analógica continua a ser a melhor: é mais autêntica. E fotografar com película confere a quem o faz uma impressão de dificuldade e valor que leva a ponderar melhor o interesse de cada fotografia, mas quando o tema é a qualidade de imagem de cada um dos domínios, a resposta é mais difícil.

Para dizer a verdade, a fotografia digital já ultrapassou a grande limitação que o formato 135 tem: o tamanho das imagens. Ver um negativo digitalizado em tamanhos superiores a 1500x1000px já mostra alguns limites, e as ampliações perdem nitidez em tamanhos maiores que 20×16 cm. Com os formatos médio e grande a história é outra, evidentemente, mas mesmo aqui o digital está a ganhar terreno.

Hoje recebi duas opiniões contraditórias que não me ajudaram em nada nas minhas decisões. Um fotógrafo profissional reformado assegurou-me que é uma asneira fotografar com película colorida. Esta opinião condiz com o que eu penso, mas apenas pelo facto de as películas a cores serem equilibradas para um único tipo de condições de luz: um rolo equilibrado para as sombras dá cores berrantes debaixo de luz solar e, inversamente, um outro equilibrado para luz solar dá péssimos resultados na fotografia nocturna. Mas, no mesmo dia, dizem-me outra coisa que também confirmei ser verdade: a película 135 tem uma gama dinâmica com a qual nem o melhor sensor do mundo pode sequer sonhar. É muito simples: com película 135, as altas luzes nunca estouram e as sombras nunca ficam enegrecidas. Com película 135 a cores pode abusar-se da exposição em 4 EV’s, ao passo que, na fotografia digital, mesmo com a exposição correcta as altas luzes podem estourar.

Contudo, continua a ser verdade que o equilíbrio das cores é uma vantagem da fotografia digital que faz a balança pender para esse lado. Quer isto dizer que o digital já ganhou a guerra? Há um último reduto, que é a fotografia a preto e branco. Não há nenhum programa de edição de imagem e nenhuma app que consiga o aspecto de uma fotografia feita com Kodak Tri-X, ou com Ilford FP4 e HP5. É impossível converter um ficheiro Raw de tal maneira que a imagem se assemelhe às fotografias feitas com essas películas. As altas luzes, em particular, são impossíveis de imitar por meios digitais. Não há nenhuma conversão que consiga reproduzir a beleza das altas luzes de um Ilford FP4.

Hoje mesmo, porém, tive oportunidade de confirmar aquilo que, pelo que tinha visto anteriormente, já suspeitava. Há uma câmara digital capaz de fotografias que têm o look das melhores películas, mesmo na descrição das altas luzes. Como foi isto possível? Repararam que, quando aludi à impossibilidade de reproduzir o aspecto tonal da película por meios digitais, me referi às conversões. Os ficheiros Raw ou DNG produzidos pelos sensores normais são a cores. As fotografias a preto e branco são obtidas convertendo os ficheiros em escalas de cinzentos ou retirando a saturação das cores (o que não dá bons resultados e, de resto, faz com que a imagem seja sempre RGB e não um preto e branco puro). Contudo, o que vi hoje foi o output de um sensor monocromático: um sensor ao qual foram retiradas as camadas RGB, produzindo imagens que são preto e branco puro. As imagens que vi hoje num monitor de altíssima qualidade são impossíveis de distinguir de digitalizações de negativos de médio formato.

A câmara que tem este sensor nas entranhas é a única que me levaria a voltar ao domínio digital. Infelizmente, é demasiado cara para as minhas posses. Creio que, se usar rolos até ao último dos meus dias, não gastarei tanto quanto essa câmara custa – até porque esta última precisa de lentes que custam quase tanto como o corpo.

Imagem: Wikipedia Commons

Essa câmara é a Leica M Monochrom. Representa o melhor dos dois mundos. Só não escrevo aqui que é a maior ameaça à fotografia analógica porque o seu preço torna-a proibitiva para o comum mortal. O que posso escrever é que esta é a única câmara digital capaz de produzir imagens tão boas como as que é possível obter com as melhores películas. E isto, meus amigos, é um feito memorável.

M. V. M.

Isto não é uma guerra

Linn_Sondek_LP12_LargeOs apologistas do progresso clamam que a evolução remeteu o vinil e a película para a obsolescência e os condenou à extinção, fazendo analogias com comboios a vapor e navios veleiros; os indefectíveis que, acompanhando ou não a evolução (porque nem todos os amantes do vinil e da película vivem amarrados ao passado), preferem os meios considerados antigos, defendem-se dos ataques – sim, porque para muitos isto é uma guerra – com argumentos que nem sempre são convincentes. Mas há também os que conseguem ver as coisas com um pouco mais de clareza e rejeitam a ideia de que se tem de estar de um lado ou do outro.

Eu estou mais perto destes últimos. Vi claramente as vantagens e os inconvenientes de cada um dos meios e fiz opções de acordo com esse conhecimento. Começando pela reprodução musical, posso dizer que nada substitui a satisfação que retiro de ouvir música gravada em vinil: o som é mais dinâmico, mais enérgico, e há uma melhor individualização das notas. Em comparação, o som dos formatos digitais é plano, por ser severamente limitado nas dinâmicas (especialmente a dos graves). Daí que, embora tenha acumulado um número considerável de CD’s, tenha agora mais LP’s – mesmo sem contar com os que tinha antes de aderir ao CD. Compro vinis porque me dá mais prazer ouvi-los. No entanto, não deitei o meu leitor de CD ao lixo: o CD é muito mais prático para a música clássica. Além de haver poucas edições novas de música clássica em vinil (a não ser nas etiquetas «audiófilas»), uma sinfonia desfruta-se melhor se for ouvida de uma vez do que se tiver de me levantar para virar o disco no final de cada andamento. O som não é tão dinâmico, mas é um compromisso aceitável.

Se o som do vinil é, do meu ponto de vista e em termos bastante genéricos, consideravelmente melhor que o digital, a película é mais uma profissão de fé que outra coisa. A fotografia digital há muito ultrapassou o padrão de qualidade do rolo 135 e só o médio formato continua, por enquanto, a resistir à evolução da fotografia digital. Não é uma questão de qualidade em si, porque a película 135 não é falha em aspectos como a nitidez ou o contraste: é, sobretudo, um problema de tamanho. Com um negativo 135, até onde se podia ir na ampliação foi um problema que nunca foi resolvido satisfatoriamente; os profissionais tinham de recorrer ao médio formato para fazer grandes ampliações, deixando o 135 para as fotos de família e as destinadas à imprensa, que raramente eram ampliadas para além do tamanho 15×10. De um modo geral, pode dizer-se que 24×18 (centímetros) é o limite máximo até ao qual um negativo 135 pode ser ampliado – e só se for usada uma boa lente, com muita nitidez, um rolo com muita acutância e um ampliador com uma lente também ela de alta qualidade. A partir desse tamanho a nitidez é severamente prejudicada.

Há mais. Até agora, ainda estou para encontrar uma película a cores que me deixe inteiramente satisfeito. O Kodak Portra só pode ser usado em condições de luz ideais; o Ektar 100 só dá bons resultados com pouca luz; o Ferrania Solaris e o Kodak Gold 200 são por vezes demasiado garridos para o meu gosto. Nas poucas ocasiões em que sinto vontade ou necessidade de fotografar a cores, prefiro recorrer à câmara digital a comprar um rolo (embora ainda me falte experimentar os Fuji 160NS e 400H, que são excelentes – ao que se diz – mas muito caros).

a01Mas há dois factores que me fizeram optar por fotografar com película. O primeiro é as limitações da minha câmara digital. Com esta, posso fazer impressões em grandes tamanhos, mas não tenho, pelo menos com as lentes que comprei especificamente para esta câmara, a nitidez que consigo com a OM e os rolos Ilford. Embora a nitidez nem sempre seja o mais importante, é decisiva nas minhas escolhas. Isto deve soar estranhíssimo aos ouvidos de um digitalista militante, mas é verdade. Para obter uma boa nitidez com a câmara digital, tenho de recorrer às lentes da OM – e mesmo assim os resultados não são melhores do que os que tenho com película.

O outro factor é eu não conseguir, por muitas horas que perca às voltas com o programa de edição de imagem, reproduzir por via digital a estética que procuro para as fotografias a preto-e-branco. Com os rolos – especialmente os Ilford, mas também com o Tri-X – consigo esse look imediatamente, sem recorrer à edição de imagem; com as fotografias digitais posso chegar perto, mas nunca é exactamente a mesma coisa. Há sempre algo que denuncia a natureza digital da imagem.

O que quero dizer com este texto é que não existe, para mim, uma trincheira a separar os domínios analógico e digital. Esta não é nenhuma guerra e, mesmo se fosse, nenhuma das partes teria a supremacia absoluta sobre a outra. A fotografia digital pode não ter ainda suplantado a analógica – e, no que se refere à estética única da película a preto-e-branco, nunca a suplantará –, mas quantas fotografias «analógicas» conheceríamos hoje se não fosse a digitalização?

M. V. M.

Sensibilidade e bom senso

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Eu não gosto de fotografar com sensibilidades – ou velocidades – elevadas. Os leitores que me acompanharam na minha transição para este blogue sabem que o anterior tinha o nome «ISO 100»; agora ficam todos a saber que essa designação não surgiu por acaso: senti desde muito cedo uma aversão ao uso de sensibilidades acima de 100, a qual se justificava pelo desempenho medíocre do sensor da minha Olympus E-P1, com a sua produção prolífica de ruído mesmo no valor ISO mais baixo; no caso dos rolos há a questão do grão, que é o equivalente analógico do ruído, mas não é por isto que a minha antipatia por sensibilidades altas se manteve na transição para a fotografia convencional. O grão, mesmo quando é grosseiro, contribui para a atmosfera da imagem – ao contrário do ruído digital, que é sempre nocivo e nada acrescenta à estética da fotografia.

A razão por que a minha preferência por sensibilidades baixas se manteve, agora que fotografo quase exclusivamente em película, é outra. As películas ASA 400 – valor que é o mais alto que alguma vez experimentarei – são interessantes porque o grão, embora abundante, contribui para a linguagem estética; além desta característica, na qual muitos descobrem a verdadeira natureza da fotografia analógica, há outra: as películas de alta sensibilidade permitem-me fotografar com pouca luz em condições que, se usasse uma película ISO 100 ou 125, obrigariam a empregar o tripé. É o caso da quase totalidade das fotografias de interiores que tenho feito. Contudo – e agora chego à razão por que não gosto de usar estas películas sensíveis – ASA 400 é uma sensibilidade que, na prática, impossibilita ou dificulta a fotografia de exteriores em dias de luz solar intensa. Nestas circunstâncias, um rolo 125 ISO como o Ilford FP4 deixa-me fotografar com, digamos, um tempo de exposição 1/500 e uma abertura f/8; com um Kodak Tri-X estes valores passam a ser 1/1000 (o limite da minha OM-2) e f/11.

Ora, eu não gosto de usar f/11. Nem f/16, abertura que tenho frequentemente de usar sob luz muito intensa quando uso um rolo 400 ASA (e que, por vezes, não é suficiente para evitar a sobreexposição). Eu gosto de aberturas amplas, mas não demasiado. As aberturas muito grandes têm o problema de tornar a focagem mais difícil, mas as muito estreitas criam difracção. O problema maior de fotografar com f/11 ou f/16, porém, é o de me retirar controlo sobre a profundidade de campo. E eu não gosto disso.

As pessoas gostam de lentes rápidas porque deixaram-se convencer que aberturas muito grandes são o requisito essencial dessa mariquice chamada bokeh, mas estão erradas: essa coisa obtém-se fotografando perto do motivo ou usando uma teleobjectiva. Contudo, é inegável que a abertura tem repercussões na profundidade de campo. Aberturas estreitas implicam que todos os planos adquiram nitidez e, apesar de eu não ser um fanático do bokeh, por vezes é desejável isolar um motivo ou criar certos efeitos. Ambos estes objectivos são impossibilitados quando se fotografa a f/11.

Outro problema é que, quando compro um rolo 400 ASA, estou amarrado a ele durante trinta e seis exposições (o que, no meu caso, pode significar três semanas, atenta a parcimónia com que fotografo). Supondo que compro um destes rolos por contar com céu nublado e tenho a surpresa de um Verão serôdio (como este que está no dia em que escrevo), tenho de me conformar a fotografar com f/11 e f/16 todo o tempo. Ou então vou para estações do metro e procuro interiores interessantes, o que não é muito mau mas limita a minha liberdade.

O ideal seria uma película com uma sensibilidade intermédia de alta qualidade, que seria 200 ISO, mas só existe uma: Fomapan 200. Embora tenha gostado do Fomapan quando o experimentei, não posso dizer que me deixou inteiramente satisfeito. Não percebo por que a Kodak – que usa esta sensibilidade num dos mais interessantes rolos a cores que usei, o Kodak Gold 200 – e a Ilford não fazem uma emulsão com estas características: seria a mais versátil de todas. Poderia usá-la em interiores, ainda que à custa de tempos de exposição algo prolongados, e debaixo de luz intensa. É uma pena que os fabricantes não leiam o Número f/.

M. V. M.