Os meus filmes

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Título enganoso – não vou falar aqui de cinema, embora já o tenha feito (há poucos blogues de fotografia onde os leitores possam educar o seu gosto cinematográfico através do conhecimento de cineastas como Luchino Visconti, Richard Linklater e Michael Haneke). O título pretende ser uma sátira às pessoas que gostam de traduzir tudo directamente do inglês e entendem que film pode ser traduzido para filme, mas esta última é uma palavra inventada, porque film tem uma tradução em português, que é  «película». (Film não se refere especificamente à película fotográfica ou cinematográfica: também designa, por exemplo, o papel celofane ou os plásticos usados para envolver alimentos.)

Também não vou escrever sobre os meus filmes – se eu vos contasse como correu o meu último julgamento, pensariam que tinha aderido à equipa de guionistas de uma série humorística qualquer –, mas sim sobre as minhas películas. Desde que comprei a OM já experimentei vinte películas diferentes (todas de negativos): da Kodak, usei rolos de Tri-X, Portra 160, Ektar 100, Gold 200 e T-Max 100 e 400; experimentei Ilford FP4, HP5, Pan F e Delta 100 e 400 (além de um rolo Pan 400 que já atingira a idade núbil, mas cujos resultados pareceram agradar a muitos visitantes do meu Flickr); usei também Fuji (Superia 200), Fomapan 200, Ferrania Solaris, Kentmere 400, Agfa APX 100 (também usei 400, mas os resultados foram inconclusivos) e agora outro rolo Agfa, este a cores, que é o Vista 400. Além da ovelha negra chamada Lomography Earl Grey, que foi a pior que experimentei. Foram muitos rolos. Apesar de ainda me faltar experimentar outros tantos – vários da Fuji, todos da Rollei e da Adox e algumas variedades das marcas que mencionei anteriormente –, penso que já posso elaborar algumas conclusões.

A primeira é que o preto-e-branco é a minha linguagem. Já escrevi aqui, ainda há bem pouco tempo, que fotografar a cores é difícil pelas exigências de harmonia da cor. Devo acrescentar outra dificuldade: a de encontrar motivos em que a cor, mais que as formas, seja o elemento gráfico preponderante. Convenhamos que o Porto é uma cidade um bocado granítica e monocromática (e eu não tenho particular gosto em fotografar graffiti). O preto-e-branco favorece as formas e as linhas, pelo que se adequa melhor às minhas opções estéticas. Daí que tenha adquirido muitos mais rolos de preto-e-branco que de cores. Por regra, demoro muito mais a expor rolos a cores, o que é revelador quanto às dificuldades com que me deparo. Isto não quer dizer que tenha desistido da cor, mas seguramente significa que estabeleci uma preferência.

E, já que me refiro a preferências, quais são os rolos que mais me satisfazem? Para o preto-e-branco, a resposta é mais ou menos óbvia: o FP4 é aquele ao qual volto sempre. Já expus trinta e seis rolos desta película. Gosto do seu contraste e da nitidez incrível, mas exige algumas precauções, como expor sistematicamente para as altas luzes de maneira a evitar a sobreexposição.

O que me leva a outra conclusão: eu gosto de películas lentas. Comigo a fotografia em lugares pouco iluminados é uma excepção, não a regra. Além de não apreciar aberturas demasiado estreitas: não sou um tarado do bokeh (eu gostava de cremar in vivo a criatura que se lembrou de importar esta palavra para o Ocidente), mas um bocadinho de desfoque de vez em quando não faz mal nenhum. As películas de alta velocidade (ou sensibilidade, se preferirem) obrigam-me a fotografar com f/11 sempre que aparece um raio de sol. Contudo, nas diversas ocasiões em que um rolo ISO 400 é útil, demorei a decidir qual preferia: o Tri-X? O HP5? Sob reserva de fazer mais algumas experiências, penso ter encontrado uma película que poderia usar sempre que quiser fotografar em estações do metro: a Kentmere 400. Contudo, devo também dizer que foi agradável experimentar películas ASA 200. Usei duas: Fomapan 200 e Kodak Gold 200. É uma sensibilidade muito versátil e agradável de usar. Não compreendo por que razão a Ilford não fabrica películas ISO 200.

Quanto à cor, remeto para o texto em que me refiro às dificuldades suplementares que as películas implicam. Apesar de a minha preferência não ir para a fotografia a cores, não posso negar que me diverti com os rolos Ferrania e que fiquei surpreendido com o desempenho do Kodak Gold 200. Os outros são demasiado dependentes das condições de luz. Curiosamente, a película que estou correntemente a usar é a primeira de alta velocidade que uso. (Depois digo-vos das minhas impressões.)

A maior surpresa da minha experiência com películas, porém, é a resolução do pormenor que algumas possibilitam. Claro que as lentes Olympus OM, em particular a grande-angular, contribuem para esta resolução, mas as películas desempenham um papel importante. Descobrir isto foi uma surpresa, mas há uma explicação: a fotografia no formato 135 precisa de toda a resolução de que for capaz para que não se perca demasiada nitidez nas ampliações. As minhas fotografias são, com a excepção daquelas em que falhei a focagem, inacreditavelmente nítidas. Esta, como referi, foi uma grande surpresa. Só comparável ao prazer que se extrai de fotografar com uma máquina analógica, mas estas são contas de outro rosário.

M. V. M.

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Ranking actualizado

Raparigas manifestando a sua felicidade por serem fotografadas com um Ilford HP5
Raparigas manifestando a sua felicidade por serem fotografadas com um Ilford HP5

Não me apetece experimentar mais rolos. Apenas quero usar mais um rolo que ainda não experimentei, que é o Fujifilm 400H (ou o 160NS, caso alguma vez consiga encontrá-lo). É um rolo extremamente caro, mas se me der as cores dos rolos de slide da Fujifilm, pode valer a pena.

Quanto aos preto-e-branco, a minha preferência continua idêntica. O FP4 é a película a que regresso sempre. Para sensibilidades altas a confusão é ainda substancial: o Tri-X é um belíssimo rolo, tal como o Delta 400, mas tenho vindo, depois de uma má impressão inicial, a apreciar cada vez mais o HP5. Tem muito grão, mas este dá textura e expressão às fotografias. Não é ideal para retratos, mas as suas características de contraste levam a que o considere o melhor rolo ASA 400.

Os mais atentos vão reparar, ao ler o meu ranking actualizado, que os Ilford ocupam seis dos sete primeiros lugares, incluindo os dois primeiros. Pois é – nada a fazer. São os melhores. Pelo menos para as minhas fotografias. Podem começar a chamar-me «Mr. Ilford». Ou Señor Ilford. Monsieur Ilford. Herr Ilford. Ilford-san. A minha fidelidade aos Ilford só é superada por aquela que os cães dedicam aos seus donos.

Penso, deste modo, que posso viver muito feliz apenas usando dois rolos para preto-e-branco: o FP4 por defeito e o HP5 quando me apetecer fotografar com pouca luz. Vai ser assim porque não suporto ter de fotografar com aberturas f/11 e f/16 sempre que o sol brilha um pouco mais, o que me impede em absoluto de usar rolos de velocidade alta com regularidade. E o FP4, embora não me dê o contraste do Pan F, é mais versátil: fotografa-se bem com ele de noite, o que é importante para mim, e tem um f/stop a mais em relação ao Pan F, o que faz diferença quando a luz começa a escassear.

Quanto à cor, vou esperar que a Ferrania não tenha usado o crowdfunding para ficar com o dinheiro dos aderentes (é um esquema cada vez mais comum na internet) e retome mesmo a produção do Solaris 100. Se tal não acontecer – e eu espero que aconteça, porque o Solaris é extremamente divertido –, terei de usar o Kodak Portra 160 para fotografar debaixo de luz solar e o Ektar 100 quando quiser fotografar com luz escassa. Com a reserva de poder vir a usar os Fuji se obtiver bons resultados. Apesar de a minha apreciação do Ektar 100 ter sido menos que favorável, fi-la com base em fotografias feitas sob luz do dia; em zonas de sombra e debaixo de luz escassa, porém, o Ektar 100 mantém admiravelmente o equilíbrio das cores, pelo que essa apreciação foi um pouco injusta.

De todos os rolos para preto-e-branco disponíveis, apenas não usei os Rollei e o Fuji Neopan. Os primeiros são, tanto quanto sei, idênticos ao Agfa APX; o Neopan, esse, é demasiado caro; não me parece que valha a pena experimentá-lo quando os Ilford – e também o Tri-X – dão tão bons resultados.

Deste modo, o meu ranking pessoal actualizado de películas do formato 135 é como se segue:

1.º: Ilford FP4 Plus 125
2.º: Ilford Delta 400
3.º: Kodak Tri-X 400
4.º: Ilford Delta 400
5.º: Ilford Delta 100
6.º: Ilford Pan F Plus 50
7.º: Ilford HP5 Plus 400
8.º: Kodak Portra 160
9.º: Ferrania Solaris 100
10.º: Fomapan 200
11.º: Agfa APX 100
12.º: Kodak Ektar 100
13.º: Kodak T-Max 400
14.º: Kodak T-Max 100
15.º: Fujifilm Superia 200
16.º: Lomography Earl Grey

M. V. M.

O estado dos meus conhecimentos

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Até agora experimentei os seguintes rolos: Agfa APX 100 e APX 400; Ferrania Solaris; Fuji Superia 200; Ilford Delta 100, Delta 400, FP4, HP5 e Pan F; Kodak Ektar 100, Portra 160, T-Max 100, T-Max 400 e Tri-X; Lomography Earl Grey. Há algumas conclusões a extrair das minhas experiências com rolos de diferentes tipos e sensibilidades.

A primeira é a minha preferência por rolos de grão cúbico. (Os não iniciados já estarão completamente perdidos depois de lerem esta afirmação, mas eu ofereci uma explicação mais ou menos simples num texto do Número f/: podem lê-la aqui.) Não vou dizer que estes são melhores que os de grão tabular, porque isto de dizer o que é melhor é sempre um juízo pessoal. O que é melhor para mim não o é necessariamente para os outros. Simplesmente, a película de grão cúbico ajuda-me a obter a expressão que quero; é mais compatível, se quisermos, com a minha linguagem fotográfica. Eu não ando à procura da maior qualidade de imagem possível: a minha demanda é pelos rolos que melhor me ajudem a conseguir o aspecto que pretendo para as minhas fotografias. Já encontrei um vencedor para as velocidades ASA reduzidas, que é o Ilford FP4. Quando afirmo que este é o melhor rolo que a humanidade jamais produziu, esta expressão não é um exagero nem uma hipérbole porque transmite aquela que é a minha opinião. O FP4 é o melhor rolo para os meus propósitos. Outros preferirão o Tri-X ou o Fuji Neopan Acros, sobre o qual não me posso pronunciar por (ainda) o não ter experimentado; eu prefiro o FP4. É um rolo versátil, de uma qualidade acima da média e com um contraste e uma nitidez que são de chorar por mais. Contudo, se estivesse empenhado em obter a melhor qualidade possível, a minha preferência iria para os rolos de grão tabular. O mais provável, já que estes rolos precisam de contraste, seria optar pelo Ilford Delta 100. Em termos de qualidade, medida pela precisão na descrição das altas luzes, médios tons e sombras, bem como pela nitidez e pelo contraste, penso que é difícil encontrar melhor. Há o Neopan Acros da Fuji, que muitos juram ser o melhor, mas é um rolo excessivamente caro. Referi o Delta 100 e não o 400, apesar de ter ficado muito satisfeito com os resultados deste último, porque a comparação entre ambos fez-me chegar a outra conclusão: eu só gosto de fotografar com velocidades – ou sensibilidades, se preferirem – baixas.

Eu explico. Fotografar com rolos ASA (ou ISO) 400 obriga-me a usar tempos de exposição muito curtos e aberturas estreitas. Eu não gosto de fotografar com f/11, muito menos com f/16. Não sou daquelas pessoas que nutrem uma obsessão patológica pelo bokeh e passam o tempo a sonhar acordados com lentes f/0.9 – eu tenho muitas dúvidas se a abertura influi assim tanto no desfoque –, mas gosto de fotografar com aberturas amplas. As melhores experiências que tive quanto ao uso de aberturas largas foram quando usei os Ilford Pan F, com a sua velocidade ASA 50. Ora, é difícil usar aberturas largas quando está sol e tenho um rolo ASA 400 instalado na máquina. Estas circunstâncias obrigam-me frequentemente a recorrer às aberturas mais estreitas, o que não é ideal quando se quer jogar com a profundidade de campo. Quando a luz é intensa, o resultado de usar rolos 400 é uma perda substancial de contraste e abundância de grão, o qual nem sempre contribui para a expressividade da imagem.

Outra conclusão que retiro das minhas experiências com uma máquina fotográfica que grava as imagens em película é que sou um verdadeiro iconoclasta. Por que digo isto? Há, na comunidade fotográfica, uma verdadeira veneração por um rolo cujo uso, talvez por influência dos grandes fotógrafos do Século XX, adquiriu um estatuto de dogma. Este rolo é o Kodak Tri-X 400. Apesar de já ter usado cinco destes rolos, nunca fiquei convencido. Eu espero não ser assassinado por algum fundamentalista do Tri-X por esta blasfémia, mas não sou apreciador. Ou melhor: é muito bom, mas não dá às minhas fotografias o aspecto que pretendo delas. (De resto, seria uma pena ser assassinado agora: ainda quero fotografar os sargaceiros da Apúlia e cenas da faina piscatória mais expressivas do que as que captei até agora; o meu eventual assassínio poderia colidir com estes planos.) O Tri-X é considerado o rolo obrigatório para a fotografia de rua, mas a distância focal de 35mm também o é e eu detesto-a e prefiro usar uma lente de 50mm. Não, eu não acompanho a reverência que todos devotam ao Tri-X – embora não possa negar que é excelente. Talvez pensasse de maneira diferente se tivesse uma Leica, como aqueles nomes venerandos que construíram a reputação do Tri-X, mas, sendo as coisas o que são, é esta a minha conclusão.

A minha aprendizagem da fotografia nunca estará completa. É possível que tenha escrito anteriormente muita coisa que está em contradição com o que estão a ler, mas a aprendizagem é assim mesmo: substituem-se as noções erradas por outras certas e abrem-se novas frentes de conhecimento. Eu não sabia nada sobre rolos até Junho de 2013, altura em que comprei a OM-2; esta coisa das películas era completamente nova para mim e só agora pude chegar a estas conclusões – que podem não ser definitivas. Não se surpreendam se daqui a um ano estiver a escrever coisas que contradizem este texto.

M. V. M.

O Ilford Delta 400

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Pela primeira vez tenho diante de mim digitalizações de um rolo em relação ao qual não sei o que pensar: não há nada, nas imagens feitas a partir do Ilford Delta 400, que lhe confira superioridade, mas também não há nada que o diminua em relação aos melhores. Não há nenhum fracasso clamoroso – este rolo parece fazer tudo bem –, mas também não há nada que o faça atingir a excelência de alguns dos seus irmãos: o FP4 é o melhor rolo para preto-e-branco existente à face do planeta; o Pan F tem o melhor contraste que conheço e é, de todos os rolos que experimentei, o que melhor transmite o tom da prata que caracteriza a boa fotografia a preto-e-branco; o Delta 100 é o melhor rolo de grão tabular no mercado; este Delta 400, porém, deixa-me sem saber o que dizer. Tanto pode ser o melhor rolo que já experimentei como um rolo indiferente. A minha primeira reacção, ao ver as imagens, foi considerar estas últimas as melhores que já fiz quanto à sua qualidade, mas uma observação mais criteriosa atenuou esta impressão.

As qualidades que distinguem os Ilford dos demais rolos estão presentes no Delta 400. Contraste? Sim, tem-no e é muito bom, mas nada de verdadeiramente especial. Nitidez? Sim, decerto. Mais na linha do Delta 100 e do Pan F que do FP4 e HP5, mas muito boa. O Delta 400 tem, contudo, um problema mais ou menos sério, que é o grão. Apesar de as imagens serem tão suaves que parecem ter o toque acetinado do papel de ampliação mesmo quando vistas no monitor, há algumas circunstâncias em que o grão se torna excessivo. Há áreas da imagem em que o scanner causa uma exacerbação do grão, seja qual for o rolo empregue e o seu tipo de grão, mas alguns rolos sofrem mais com isto do que outros. O HP5, por exemplo, tem um grão de tal maneira grosseiro que chega a tornar-se desagradável ver certas porções da imagem, enquanto o Kodak Tri-X, sendo igualmente de grão cúbico – e por definição mais grosseiro que o tabular –, passa muito bem o teste do scanner. Pois bem: apesar de ser um rolo de grão tabular, o Delta 400 produz um grão comparável ao do HP5. Mesmo se o grão é por natureza mais benigno que o grão cúbico, e sendo certo que, por ser mais fino, se manifesta bem menos do que nas imagens feitas com o HP5, o Ilford Delta 400 produz muito mais grão e este é mais grosseiro que o do seu oponente mais directo, o Kodak T-Max 400.

Este último é o que mais se presta a comparações com o Delta 400, por terem ambos a mesma velocidade e tipo de grão. A apresentação das imagens de ambos é muito semelhante na suavidade do seu aspecto geral, como seria de esperar de rolos de grão tabular. As diferenças estão no grão, que é mais fino no Kodak (embora também seja abundante, por ser um rolo ASA 400) e no contraste, em que o Ilford tem melhor desempenho. Contudo, a superioridade do contraste do Delta 400 não sobreleva à diferença na apresentação do grão. Diria que, se tivesse de estabelecer uma hierarquia entre estes dois rolos com base numa apreciação global, haveria uma ligeiríssima superioridade do Kodak, mas o resultado final seria um empate.

O motivo desta igualdade é serem ambos algo desenxabidos na maneira como apresentam as imagens. As fotografias são, em ambos estes rolos, um pouco falhas de carácter: são demasiado macias, demasiado suaves. Eu não gosto da aspereza excessiva do Ilford HP5, mas o Delta 400 e o T-Max chegam a fazer com que as fotografias se tornem desinteressantes: é tudo demasiado perfeito, demasiado neutro, demasiado seguro. Há muito de bom a dizer sobre os rolos de grão tabular – o melhor exemplo que conheço destes rolos é o Ilford Delta 100, que é mais interessante que a versão 400 –, porque a sua limpidez deve favorecer tipos de fotografia em que se exige uma descrição muito neutra – os retratos são o primeiro exemplo que vem à mente – e prestar-se a grandes ampliações. São, deste modo, a melhor escolha para trabalhos profissionais.

Simplesmente, eu não sou um profissional. Posso jogar com a expressividade e o carácter dos rolos de grão cúbico porque não tenho o problema de ser obrigado a mostrar a melhor qualidade possível nas minhas fotografias. O grão tabular não confere às fotografias o tipo de apresentação que eu pretendo. Isto pode parecer estranho a leitores menos familiarizados com a fotografia analógica, mas a apresentação dos rolos de grão cúbico, como o Ilford FP4 e o Kodak Tri-X, é muito diferente da das películas de grão tabular. Isto é estritamente uma questão de gosto pessoal, porque, apesar de tudo, o Kodak T-Max 400 e o Ilford Delta 400 são rolos de uma qualidade soberba. Podia muito bem usá-los regularmente como os meus rolos de eleição para velocidades ASA altas, porque nenhum deles me deixou ficar mal. Pelo contrário.

A avaliação deste rolo torna-se difícil porque, a despeito do grão, as imagens que recebi hoje são de uma qualidade que me faz pensar nas fotografias do meu álbum de bolso de fotografias de Josef Koudelka – não em termos de conteúdo artístico, evidentemente, mas de apresentação dos meios-tons e dos pormenores. Sobretudo, temo que, se rejeitar este rolo em favor do Kodak Tri-X, que tem vindo a ser o meu favorito para sensibilidades altas, esteja a cometer uma injustiça. Como referi no início, o Delta 400 deixou-me sem saber muito bem o que pensar dele. Creio que lhe vou dar outra oportunidade. Há muito de promissor no que vi hoje.

M. V. M.

O Kodak T-Max 400

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Antes de iniciar o texto de hoje, devo fazer aqui uma espécie de declaração de intenções. Eu não levo a mal se uma grande parte dos meus leitores considerar uma perda de tempo ler sobre películas neste primeiro quartel do Século XXI. Fazer uma apreciação de películas é tão novo e actual como discutir qual o melhor carburador para motores de automóveis numa época em que a injecção electrónica se tornou há muito a norma e os motores eléctricos são vistos como a tecnologia do futuro. Contudo, há muita gente que ainda usa película. Vou mais longe: há muitos que estão agora a descobrir o prazer enorme que é fotografar com rolos ou chapas. Deste modo, não me parece de todo inoportuno ou inconveniente abordar este assunto.

No texto de Sexta-feira referi que a minha busca do rolo ideal para preto-e-branco ainda não acabou. Quer dizer: quanto a rolos de velocidade média ou alta, porque o de velocidade baixa está encontrado há muito – é o Ilford FP4, que é, sem disputa, o melhor rolo de preto-e-branco alguma vez fabricado. Quanto a rolos ASA 400, porém, a minha indefinição é completa: há, evidentemente, o Kodak Tri-X, o rolo mais reverenciado da história da fotografia, mas a verdade é que os seus resultados nem sempre me satisfazem: o contraste não é muito bom e os médios tons também não. Eu não preciso do contraste exagerado que agora está em voga, mas gosto de contrastes fortes. (O problema das pessoas é pensarem que «contraste» é abundância de negros, o que é um erro: contraste é a diferenciação entre os tons claros e escuros.)

Por seu turno, também aludi aqui à compra, por uma contingência absolutamente fortuita, daquele que foi o rolo mais caro de sempre entre os negativos para preto-e-branco que já adquiri: o Kodak T-Max 400. Usar película de grão tabular para velocidades altas pode ser uma ideia inteligente: afinal, se o problema destas velocidades (ou sensibilidades, se quiserem) é o grão excessivo, usar película de grão ultra-fino pode ser uma boa ideia. Deste modo, embora ainda esteja combalido por ter despendido mais dois terços do que aquilo que o T-Max 400 custa nas lojas decentes, pareceu-me interessante experimentar este rolo.

O T-Max 400 tem, como seria de prever, grandes semelhanças com a versão ASA 100, que experimentei no início da minha conversão à fotografia analógica sem grandes resultados. Tal como neste último, as imagens são extremamente límpidas e suaves. O grão, mesmo naquelas porções da imagem que o scanner tem dificuldade em penetrar, permanece sempre muito bem controlado. O contraste está, como seria previsível, em igualdade com o Tri-X, que é um rolo de grão cúbico. Em muitos aspectos este é um rolo quase ideal: as ampliações devem resultar extremamente límpidas, mesmo em grandes tamanhos.

É difícil, depois de ter visto as imagens que fiz com este rolo, apontar-lhe defeitos: o grão é excelente para uma película ASA 400, o contraste varia entre o bom e o muito bom e a agradabilidade geral da imagem é francamente positiva. Contudo, como frequentemente acontece com tudo o que é estudado para ser perfeito, o Kodak T-Max 400 é um rolo cujas imagens não excitam. Falta-lhe, tal como ao T-Max 100, uma característica inefável à qual só posso chamar «carácter». As imagens são excelentes, mas não têm a vida que os Ilford lhes conferem. Todos os Ilford, note-se bem: apesar de ainda não conhecer os resultados que podem ser obtidos com o Delta 400 que ainda estou a expor, posso dizer, pelo que vi no Delta 100 em comparação com o rival T-Max 100, que este não é um problema da natureza do grão. O Delta 100 é um rolo de grão tabular, mas tem carácter. Na minha opinião, o ar distinto que tem quando comparado com os T-Max deve-se ao melhor contraste – não ao contraste global, de que os Kodak não são falhos, mas ao contraste local: há, no Ilford, uma descrição do pormenor que acentua a nitidez da imagem, tornando-a mais viva e expressiva.

Uma experiência curiosa é comparar o Ilford HP5 com este T-Max 400. No primeiro há muito grão, e este é grosseiro – mas as imagens têm muito mais carácter; são mais expressivas e têm mais espírito de película. O microcontraste é muito superior, o que cria a ilusão de haver mais nitidez (o que não é, evidentemente, verdadeiro). O que me parece, contudo, é que este microcontraste é uma marca muito própria dos Ilford, sejam eles de grão cúbico ou tabular. Como referi, ainda não sei de que é capaz o Ilford Delta 400 – mas, se for tão bom como o Delta 100 e tiver as características de ausência de grão do Kodak T-Max, pode muito bem vir a ser o meu rolo de eleição para velocidades ASA elevadas.

Devo, porém, dizer que o Kodak, mesmo não sendo distinto como os Ilford, é bom. Muito bom mesmo. Não me importaria de usar este rolo sempre que precisasse da sensibilidade alta. A qualidade do grão é simplesmente fenomenal. É um Tri-X mais educado, se quisermos. Optar por este rolo significaria imagens com menos espírito analógico, mas livrar-me-ia do grão excessivo do Tri-X e, sobretudo, do Ilford HP5. Mas o Kodak T-Max 400 tem um adversário à espreita… watch this space!

M. V. M.

Ano novo

É apenas um pressentimento que tenho, mas creio que 2015 vai ser um bom ano. Refiro-me, em especial, à fotografia, mas penso que posso estar optimista quanto a outras facetas da vida. No que toca à fotografia, porém, tenho a certeza de que vou consolidar os conhecimentos que já tenho e adquirir mais alguns. Vou também, com toda a certeza, renovar o meu entusiasmo pela fotografia.

Por que me veio este surto de optimismo? Em Dezembro do ano passado andava um pouco desinspirado, sem saber muito bem o que fotografar. No dia 21 desse mês, porém, aconteceu-me passar o dia na casa de praia dos meus tios em Vila Chã. De manhã demos uma enorme caminhada rumo a norte – o tempo estava ameno, aqueles passadiços de madeira sobre as dunas convidam a caminhar e a conversa seguia agradável –, mas de tarde fui para sul. A uma pequena distância da casa de praia dos meus tios fica o núcleo piscatório de Vila Chã. Fiquei absolutamente assoberbado com a beleza desta vila de pescadores e, sobretudo, com o incrível potencial fotográfico do lugar: se as lentes sonhassem, a minha grande-angular sonharia decerto com aqueles barcos e com a maneira como poderia projectar as suas proas na imagem.

Este tema das pescas é tão interessante que me fez voltar a Vila Chã pouco depois. Também visitei o centro piscatório de Angeiras, que é igualmente fascinante. Ambos são locais onde se pratica uma pesca artesanal, mas já com barcos de porte razoável. A visão dos barcos na areia e dos apetrechos de pesca é um verdadeiro maná para quem gosta de fotografia: tanto se pode fazer fotografias de bilhete-postal como encontrar ângulos extremamente originais. As curvaturas dos barcos, a profusão de apetrechos e as edificações providenciam motivos de uma beleza indescritível. Sempre que fui a essas aldeias piscatórias, porém, fi-lo em dias em que não havia faina. Pois bem: decidi que hei-de ir até Vila Chã ou Angeiras (ou ambas) em dias úteis, quando houver faina. Tenho a certeza de que vai valer a pena. Claro que outros já fotografaram ali, e ainda ontem um habitante de Vila Chã me informou que há muita gente a fotografar a faina, mas espero conseguir encontrar algo de novo, que ainda não tenha sido feito por ninguém. É provável que este interesse pelas coisas da pesca acabe por esgotar, mas espero que isso aconteça o mais tarde possível e quero aproveitar enquanto ele dura. Sinto que vai sair algo de bom disto. E, se este interesse esgotar, seguramente encontrarei outros.

2015 vai também ser o ano da Procura do Rolo Perfeito (PRP). Pensava que já o tinha encontrado no Ilford FP4 e, em larga medida, esta é a melhor película do mundo; mas é um rolo ASA 125, o que pode ser limitativo: o que ganho em profundidade de campo por usar aberturas maiores perco em versatilidade, porque não posso fotografar convenientemente com pouca luz. Eu devo confessar, de cabeça baixa e baraço no pescoço pela blasfémia, que não sou um enorme apreciador do Kodak Tri-X, que era o meu rolo rápido de eleição, pelo que estou a fazer algumas experiências com rolos de grão tabular. Já esgotei o rolo mais caro que comprei, o Kodak T-Max 400, e estou presentemente a usar um Ilford Delta 400. A experiência que fiz com o Agfa APX 400 foi inconclusiva porque usei-o com a Minolta 7S, que estava com o diafragma encravado em f/4, mas este é um rolo ao qual espero dar uma nova oportunidade. Os mais astutos terão reparado que o Delta e o T-Max são ambos películas de grão tabular, o que me deixa um pouco ambivalente em face das experencias que fiz com película deste tipo: o T-Max 100 não é grande espingarda, mas o Ilford Delta 100 é excelente. Um destes rolos poderá vir a ser o meu rolo ASA 400 predilecto. Ou não.

Fiz as viagens a Angeiras e Vila Chã por estradas secundárias que eram aquelas que percorria quando fazia praia no Corgo e no Funtão. Nessa altura não andava tão atento ao que via como agora, porque o interesse por fotografia ainda não tinha despertado; hoje olho para alguns locais e sinto vontade de parar e fazer daquelas fotografias minimalistas de locais desertos, cheias de espaço negativo, mas não paro. A maior parte destas fotografias só resultaria bem com cores e eu ando munido de rolos para preto-e-branco. Isto levou-me, por mais que uma vez, a questionar a sensatez desta minha escolha exclusiva da fotografia analógica. Se tivesse uma câmara digital, teria parado inúmeras vezes para fotografar. Claro que não servia qualquer câmara digital: tinha de ser uma reflex full-frame, mas não com aquelas formas de bloco de alcatrão derretido da maioria das DSLR. Não dou prémios a quem adivinhar que câmara seria esta (uma pista: não é a Sony α7). Ou isto ou, em alternativa, comprar outro corpo OM e andar sempre com duas máquinas – uma com rolo a cores e outra com preto-e-branco. A solução mais simples seria a câmara digital, mas – e o preço?

Não sonhes, M. V. M….

M. V. M. (com votos de um ano muito feliz para todos)

O Lomography Earl Grey (adenda)

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A minha apreciação do rolo Lomography Earl Grey não tem nada que ver com preconceitos nem com a eventual falta de pedigree em comparação com outros rolos. Quanto aos primeiros, é relativamente fácil, a um certo número de amantes da fotografia, desdenhar a lomografia. Já disse muitas vezes que não me incluo nesse grupo e que sinto bastante simpatia pelo movimento lomográfico: estão entre os mais criativos dentre os que praticam a fotografia. Também não é por usar rolos prestigiosos como os Ilford e o Tri-X que me deixo influenciar: afinal de contas, apaixonei-me por um rolo de uma marca que hoje é (mas nem sempre o foi) relativamente obscura e é o rolo mais barato que alguma vez comprei: é, como alguns já terão percebido, o Ferrania Solaris. Este é, de resto, o mais próximo que chego do estilo da lomografia, usando cores saturadas e alegres – mas (isto é crucial) precisas.

Eu sinto necessidade de que os rolos tenham certas características para que correspondam às minhas ideias fotográficas: cingindo-me ao preto-e-branco, um rolo precisa de ter uma boa acutância, um bom contraste, pouco grão e alguma latitude na exposição, de maneira a não estourar facilmente nem carregar demasiado as sombras. Preciso da acutância porque gosto de fazer fotografias ricas em texturas e pormenores; o contraste é um elemento estético que não dispenso; o grão é tolerável se for discreto e contribuir para a imagem e a latitude é importante porque nem sempre é possível obter uma exposição equilibrada. Todos os rolos que experimentei até hoje me dão estas características: o Kodak Tri-X dá-me uma latitude estupenda, um contraste decente, uma acutância razoável e um grão cheio de carácter; o modesto Agfa APX 100 não é muito bom em latitude, mas tem uma acutância fenomenal, bom contraste e um grão que, embora mais abundante do que devia, também adiciona à estética; o Ilford Delta 100 tem tudo menos latitude, aspecto em que podia ser melhor, mas é, de todos os que usei, o que tem melhor grão. Depois há o FP4, que é excelente em tudo. Todos estes rolos cooperam com as minhas fotografias e ajudam-nas a adquirir a estética que pretendo.

O Lomography é, de todos os rolos para preto-e-branco que usei, o único que não tem nenhuma característica que eu possa aproveitar na minha maneira de fotografar. A acutância é medíocre, o contraste inexistente, a latitude estreita e o grão é grosseiro e feio. Mais: este grão contribui para destruir a nitidez da imagem da mesma maneira que o ruído corrompe uma fotografia digital. Será interessante para pessoas que seguem aquela corrente de pensamento pela qual a fotografia com película a preto-e-branco deve ser pouco definida e ter muito grão – o que é uma opção estética tão idónea como outra qualquer –, mas eu não vou nessa corrente.

O que me deixou mais frustrado, nesta experiência falhada com o Lomography Earl Grey, não foi a falta de qualidade em si: foi o facto de ter estragado as minhas fotografias. Algumas das fotografias que fiz usando este rolo podiam estar entre as minhas preferidas, mas sinto um certo embaraço em mostrá-las: fotografias sem definição a ponto de parecerem mal focadas, altas luzes completamente estouradas mesmo em fotografias nocturnas, um contraste deplorável e um grão horrível. Este rolo fez-me pensar que tinha subitamente desaprendido tudo o que sabia.

Apesar de ser o rolo para preto-e-branco mais barato que comprei até hoje, o Lomography Earl Grey é caro. O Agfa APX 100 custa apenas mais €0,50, mas é, ao contrário do Lomography, um rolo extremamente capaz que merece ser nomeado entre os melhores rolos existentes. O Earl Grey é caro mesmo para uso lomográfico: não faz sentido nenhum usar um rolo que custa €4,00 em máquinas que custam €60. Não sei muito bem a quem se destina este rolo. É um rolo decididamente ordinário que não serve nenhum objectivo fotográfico. Se os lomógrafos querem fotografar com máquinas baratas, é um contrasenso usar um rolo que custa quatro euros. Para os outros amantes da fotografia existem os Fomapan, que custam o mesmo que o Earl Grey, e o Agfa. Ambos garantem resultados altamente satisfatórios, sendo o Fomapan o preferido entre os estudantes de fotografia.

O Lomography não faz parte do universo dos rolos para entusiastas sérios e profissionais da fotografia. É um rolo que contém em si a ambiguidade de ser um desperdício de dinheiro para os lomógrafos e demasiado reles para ser usado com propósitos artísticos. Que mais se pode dizer de um rolo com o potencial de destruir fotografias pela sua falta completa de qualidade? Se eu fosse de dar classificações, fossem elas de zero a vinte ou de zero a cinco, dar-lhe-ia zero. Este é o pior rolo que já usei. Só o Ektar 100 se lhe compara em mediocridade, mas este último acaba por ser melhor pela sua aptidão para longas exposições. Este rolo fez-me sentir que gastei dinheiro estupidamente e – o que é bem pior – fez-me sentir que desperdicei o tempo que passei a fotografar com ele. Gastei-o fazendo fotografias que ficaram imprestáveis e nunca o vou recuperar, nem a ele nem às oportunidades que este rolo me fez esbanjar. Não comprem o Lomography Earl Grey nem que a Embaixada Lomográfica seja a única loja aberta. É preferível não fotografar a fotografar com este rolo.

M. V. M.