Certezas e dúvidas

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Há um ano, por esta altura, tinha duas certezas e uma incerteza. Estava convicto de que a minha linguagem fotográfica era o preto-e-branco e de que a única película que valia a pena usar era a Ilford FP4. A minha dúvida era qual película havia de usar quando quisesse fotografar a cores, nas raríssimas ocasiões em que tal me apetecesse.

Hoje as certezas estão um pouco mitigadas. Tenho retirado tanta satisfação das fotografias mais recentes, todas elas a cores, que a certeza de que a minha linguagem é o preto-e-branco está agora severamente abalada. Não é que tenha deixado de apreciar o preto-e-branco; é mais por, como o nosso ex-Presidente Jorge Sampaio podia ter dito, haver vida para além do preto-e-branco. O preto-e-branco não se tornou subitamente detestável, nem a cor uma musa inspiradora; o que se deu em mim foi apenas a descoberta de que é possível fotografar com películas a cores com resultados muito satisfatórios – o que ainda não havia aprendido por ter usado películas que não convinham a todas as condições de iluminação com que normalmente fotografo.

Antes de me referir ao que me levou a redescobrir a satisfação das cores, uma palavra quanto à película a preto-e-branco que considerei – e provavelmente ainda considero – a melhor que existe à superfície da terra: sim, os Ilford FP4 são os melhores rolos 135 que existem. Em termos estritamente subjectivos, porém, dei comigo a extrair grande prazer do Kentmere 400. Embora ainda me falte experimentar o Kentmere 100, que é aquele com o qual as comparações relativamente ao FP4 são válidas, os Kentmere podem muito bem ser o negócio do século para quem expõe película a preto-e-branco.

As minhas experiências com cores foram, até aos últimos meses do ano passado, deveras frustrantes: dos rolos que havia experimentado até então, uns eram deliberadamente maus, outros só resultavam bem debaixo de certas condições de luz e outros ainda eram de tal maneira garridos ou granulosos (ou ambos) que não me serviam. Esta insatisfação com as películas a cores contribuiu decisivamente para me levar a centrar a minha fotografia no preto-e-branco (embora o grosso das fotografias que fiz antes de ter a OM-2 fosse já monocromática). Isto durou até ao dia em que resolvi deixar de lado algumas preconcepções e experimentei uma película que sempre me havia parecido medíocre: a Agfa Vista.

Devo dizer que não foi só a película que me determinou a fotografar de novo a cores: foi também, e sobretudo, o conhecimento da obra de fotógrafos como William Albert Allard, Harry Gruyaert, Joel Meyerowitz, Saul Leiter e Fred Herzog. Com os três últimos, descobri que se pode fazer fotografia de rua a cores – e, com isto, livrei-me de uma maneira de fotografar que se está a tornar estafada.

Houve, portanto, uma inversão nas minhas certezas e dúvidas. Agora tenho dúvidas quanto à minha forma de expressão preferida e à película predilecta para a obter, mas ganhei, em contrapartida, uma certeza: os rolos que quero usar, quando fotografo a cores, são os Agfa Vista. A minha breve experiência com o Fujifilm X-Tra 400 apenas serviu para confirmar esta minha preferência. Não, a Agfa não é a película perfeita, mas tem inúmeras virtudes: a descrição das cores, a despeito da intromissão de algumas matizes espúrias, é muito natural; e tem consideravelmente menos grão que o Fujifilm. É uma película que se comporta bem em praticamente todas as condições de iluminação, dando bons resultados nas sombras.

E é barato. O único rolo que me deu melhores resultados foi o muito caro Kodak Portra 160, e mesmo assim este último não é muito bom para fotografar com luz escassa. O humilde Agfa Vista é mais versátil. Apesar de a matiz magenta que afecta algumas fotografias me ir obrigar a recorrer à edição de imagem com mais frequência do que seria desejável, penso que esta é uma contrapartida modesta para o enorme benefício que é poder fotografar em qualquer lugar, independentemente de a luz ser artificial ou natural, de fazer sol ou estar à sombra.

M. V. M.

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Fuji Superia X-Tra 400

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Nem de propósito: eu a publicar um texto altamente sarcástico sobre a Fujifilm e as digitalizações do rolo Fujifilm Superia X-Tra 400 a chegar via Dropbox, pela mão do inestimável Raúl Sá Dantas. Como já devem ter percebido pela comparação entre as duas circunstâncias, não tenho muito de bom a dizer da película que expus. Também não tenho nada de terrivelmente mau a relatar, na verdade, mas as minhas objecções são suficientes para rejeitar o X-Tra 400.

Lembram-se do que escrevi acerca do Agfa Vista 400? Pois bem: todas as características deste último estão presentes no Fujifilm. Os desvios das matizes são praticamente os mesmos e a aparência da imagem é, no geral, muito idêntica. Isto não é surpresa nenhuma, porque sabemos que a película Agfa é feita pela Fujifilm, mas existe uma diferença – há mais, mas são subtis – que me intriga: o grão. As fotografias que fiz com os Agfa são muito granulosas, como provavelmente seria de esperar de uma película ASA 400, mas o grão deste Fujifilm é horrível. A imagem ganha um aspecto grosseiro, sem sofisticação de qualquer espécie (não que o Agfa Vista seja muito límpido e sofisticado, mas fica a ganhar na comparação). Péssimo.

O Agfa e o Fuji partilham o tingimento vermelho que resulta muito bem com objectos nos quais essa cor é bastante viva, mas interfere com outras matizes (especialmente com os amarelos) de uma maneira que nem sempre é positiva. Por exemplo, a areia fica parecida com terra. Depois há os famosos verdes da Fujifilm. É simples – os verdes do Superia X-Tra são excelentes. Hélas, são, juntamente com os vermelhos, os únicos tons em que esta película pode ser considerada precisa. O problema é que o entusiasmo da Fujifilm pelos verdes faz com que estes tons invadam motivos iluminados artificialmente. O que resulta muito bem em alguns ambientes, mas não em todos, Naqueles em que resulta bem, contudo, resulta mesmo muito bem, dando à imagem uma atmosfera muito cool.

Simplesmente, a Fujifilm Superia X-Tra 400 não tem nada que a destaque da Agfa Vista. Pelo contrário, adiciona-lhe um tingimento verde espúrio e um grão insuportável. Os rolos Fujifilm são mais caros que os Agfa – embora não muito –, mas não fazem melhor. A escolha entre os dois é muito óbvia: entre dois rolos de qualidade praticamente igual, mas em que um deles é marginalmente pior e mais caro, não vejo onde está a dificuldade na escolha.

Contudo, importa dizer que o Superia X-Tra é muito melhor que o Superia normal, que foi o primeiro rolo a cores que experimentei. O Superia 200 transformava os vermelhos em magentas e alguns azuis em cianos (o que fazia com que o mar parecesse uma piscina gigantesca). Neste particular, se o amador da fotografia estiver irremediavelmente amarrado à Fujifilm e não estiver disposto a pagar o preço do 160 NS e do Pro 400 H, nem quiser reduzir os seus padrões de qualidade usando o Superia standard, o X-Tra é o melhor rolo existente no mercado. A questão é que há escolhas fora do Planeta Fujifilm, e uma delas é tão boa ou melhor e mais barata (refiro-me, evidentemente, ao Agfa Vista).

Penso que esta experiência me ajudou a assentar numa película a cores. Apesar de gostar de experiências, não passo sem ter um ponto de referência, como o marujo que passa a vida a viajar mas tem sempre um porto de abrigo para onde gosta de voltar. (Eu sei que esta metáfora é pirosa, mas são 23h38 e eu tive um longo dia.) No preto-e-branco, esse porto de abrigo ao qual retorno sempre é o Ilford FP4; na cor, será provavelmente o Agfa Vista. Não, não é perfeito – mas é versátil: as cores são razoavelmente correctas de dia e aguentam-se muito bem à noite (ao contrário do Kodak Portra, que custa quase o dobro do preço). Os meus próximos rolos a cores vão ser os Agfa (mas vou ficar dia e noite a matutar como o fabricante de uma película produz artigos de mais qualidade para os outros do que para si mesmo).

M. V. M.

A noite

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Gosto da noite e de fotografar à noite. A noite é quando a vida se torna mais vívida: de dia tudo parece encoberto, como se uniformizado por um manto a que chamamos «quotidiano», ou «dia-a-dia»: mesmo as emoções mais intensas passam despercebidas debaixo da normalidade do dia.

À noite, porém, tudo se torna mais nítido, como quando pomos um objecto de metal brilhante defronte a um fundo negro: as emoções represadas durante o dia libertam-se, sensações como o medo e o desejo tornam-se mais visíveis, mas também a desolação, a miséria e a solidão se tornam mais angustiantes. É como se os contrastes da vida se tornassem mais fortes, mais vibrantes. De dia tudo é normal; à noite tudo muda.

Há muito tempo que não fotografava à noite. Ou melhor: há muito tempo que não fotografava a noite. Fotografar à noite foi algo que fiz muitas vezes, com longas exposições e outros tédios de iniciado na fotografia. Fotografar a vida à noite, isso, fi-lo bem menos.

Como os leitores portugueses sabem, o mês de Janeiro é tipicamente frio, mas este Janeiro está a ser, na semana do dia em que escrevo, um dos mais frios que me lembro. Tão frio, especialmente à noite, que a Câmara Municipal da minha cidade decidiu abrir uma estação do metro aos sem-abrigo, o que, a despeito de eu já estar um pouco cansado de fotografar nestes lugares, me tentou. Tenho enormes objecções a fotografar sem-abrigo – é quase imoral, do meu ponto de vista –, mas pensei que esta abertura poderia dar bons temas para fotografar.

Infelizmente, enganei-me. Devo ter ido demasiado cedo, porque só vi dois sem-abrigo e estavam ambos a dirigir-se para a estação. Contudo, não me abstive de fotografar, mesmo se as fotografias vão certamente ficar muito iguais a outras que fiz anteriormente.

Quando saí da estação do Bolhão, o frio só impelia a voltar para casa, mas quando resolvi ir fotografar tinha apenas sete ou oito exposições no rolo que estava a usar. Uma vez que ainda não tinha gastado todos os fotogramas, parei na estação do metro da Trindade e esgotei o rolo. Há pelo menos uma destas fotografias que pode ser uma keeper, como dizem os anglo-americanos.

Mas foi quando conduzia pelo caminho de volta a casa que me deu verdadeira vontade de fotografar mais vezes à noite. As formas humanas defronte a montras coloridas, os semáforos e as luzes dos automóveis, a iluminação de alguns lugares públicos, tudo isto pareceu-me mais irresistível do que nunca. A razão para isto? Estar nesta onda de fotografar a cores.

É verdade. Se a vida é a cores, à noite ainda o é mais. Se faz sentido fotografar a preto-e-branco de dia, à noite já não é bem assim. A noite acentua as cores e dá-lhes vibração. Pareceu-me, enquanto olhava certas oportunidades fotográficas que estava a perder por já não ter mais exposições, que só faz sentido fotografar a noite a cores. De súbito, esta minha opção pelas cores em detrimento (pelo menos provisório) do preto-e-branco pareceu ainda mais inteligente. Só espero que o Fuji X-Tra não me deixe ficar mal.

Se ao menos não estivesse tanto frio…

M. V. M.

Factor X

Resultado de imagem para fujifilm superia x-tra 400Como sabemos, a Fujifilm tem uma obsessão pela letra “X”. A despeito de esta antepenúltima letra do alfabeto poder ser usada como incógnita – e o mundo empresarial não costuma gostar do desconhecido –, a Fuji usa-a prolificamente. Ele é a Fuji X-100, X-Pro, X-T, X-A, X-E… e todas, excepto a X-100, com a baioneta – adivinharam! – “X”. Até na nova câmara de médio formato conseguiram meter um “X”, chamando-lhe GFX. E, como seria mais ou menos previsível, a tecnologia do sensor que é a menina dos olhos da Fuji chama-se X-Trans.

Por alguma razão, a letra “X” é usada frequentemente como sinal de desenvolvimento e sofisticação tecnológicos. Talvez por causa do acrónimo XPTO, tão abundantemente utilizado nos filmes de animação, que designa «experimental». Ou por outra razão qualquer. Até nos automóveis é assim: a Citroën teve uma fase em que todos os seus modelos tinham um “X” (AX, BX, CX, XM, ZX, Xantia). E não esqueçamos o Castrol GTX.

Esta predilecção da Fuji pela letas “X” é conhecida da maioria dos leitores. O que muitos poderão não saber é que esta mania já vem dos tempos da película, uma vez que a Fuji fabricava (e ainda fabrica, como veremos daqui a pouco) películas denominadas X-Tra. Aparentemente, o X-Tra (nada que ver com o árbitro de futebol português Carlos X-Tra) denomina uma quarta camada de cor, sensível à tonalidade ciano, mas a própria Fuji não fornece muita informação acerca desta tecnologia.

Tudo isto só para dizer que começo o ano de 2017 experimentando uma nova película, que é, como os leitores mais perspicazes já terão certamente adivinhado, da Fujifilm. Não é um dos caríssimos 160NS ou 400H, nem os slides Velvia ou Provia, mas também não é o péssimo Superia 200, que experimentei uma vez e não gostei: converte os vermelhos em magentas. O rolo em questão é o Fujifilm Superia X-Tra 400. Decidi experimentá-lo porque não posso dizer que tenha ficado inteiramente satisfeito com o Agfa Vista, pelo que a minha demanda pela película a cores ideal ainda não acabou.

O que eu procuro, numa película a cores, é provavelmente uma utopia: quero que mantenha a acuidade dos tons debaixo de circunstâncias de iluminação difíceis, sem comprometer o equilíbrio das cores sob luz do dia; e quero cores que, não sendo mortiças, sejam discretas, não incorrendo em exageros de saturação. Sejam quais forem as condições de luz. O Kodak Portra 160 foi o que melhores resultados me deu com luz natural, mas nas exposições longas as cores tornam-se antiquadas e desagradáveis. O Kodak Ektar 100 é exactamente o oposto. Rolos como o Kodak Gold 200 e o Ferrania Solaris divertiram-me, mas não é aquelas cores garridas o que eu quero verdadeiramente.

O Agfa Vista, apesar do seu grão excessivo e de não ser muito preciso na descrição dos verdes e dos vermelhos, é o rolo que até hoje se aproximou mais do equilíbrio que pretendo; mas, se é verdade que resulta bem no geral, e que algumas das fotografias que fiz com ele ficaram surpreendentemente boas, as suas limitações são evidentes. Daí que não tenha dado a minha procura por concluída. Contudo, se este Fuji X-Tra não me der resultados melhores, o Agfa poderá tornar-se no meu rolo a cores de eleição. É certo que as cores precisarão de uns retoques no programa de edição de imagem, o que de certa maneira desafia o que se pretende de uma película, mas terá de servir.

Não espero muitas diferenças na qualidade geral entre o X-Tra e o Agfa, uma vez que é a Fujifilm que fabrica este último; mas penso poder esperar uma apresentação das cores melhor. Afinal, uma das cores em que o Agfa falha – o verde – é aquela que se considera ser o ponto forte da Fujifilm. Até o Superia 200, que é de resto muito fraquinho, mostra uns verdes excelentes. Mas por enquanto, o desempenho do Fuji Superia X-Tra é uma incógnita (see what I did here?).

M. V. M.