A pergunta não respondida

Por Christian Schad

Hoje regresso a um tema que me preocupou desde que comecei a interessar-me seriamente por fotografia. Já o abordei há muito tempo, quando o Número f/ ainda era o ISO 100, mas eu sou daquelas pessoas que nunca têm opiniões demasiado dogmáticas e estou sempre pronto a questionar tudo – ou, pelo menos, como quanto ao tema deste texto, a avaliar tudo à luz dos conhecimentos e da experiência entretanto adquiridos.

O tema é o da natureza artística da fotografia. Regresso à pergunta nunca respondida satisfatoriamente: a fotografia é uma arte? Esta é uma questão que se me tem imposto ultimamente e me leva a ter um sentido crítico cada vez mais exacerbado – especialmente em relação às minhas próprias fotografias.

Esta necessidade de rever tudo o que aprendi quanto à relação entre arte e fotografia veio por ter descoberto que ainda há quem esteja arreigado a uma concepção de fotografia que pensava ter caído há muito em desuso. Segundo a concepção a que me refiro, a fotografia não pode ser arte porque é um processo mecânico e automático de representar objectos reais e, como tal, incapaz de criar. Este conceito nasce de uma ideia de arte como pensamento abstracto: se a máquina representa objectos reais, não é capaz de abstracção; se não é capaz de abstracção, não pode criar. E, como a arte é criação, a fotografia não é arte.

Este é o tipo de argumento que se usava no Século XIX, quando os paladinos das artes visuais convencionais se sentiam ameaçados por essa forma de representação visual que era a fotografia. Nesse século, a crítica de arte Elizabeth Eastlake – que chamava à câmara unreasoning machine – entendia que a fotografia tinha o seu lugar, desde que não alimentasse a pretensão de ser arte; mesmo um fotógrafo como John Ruskin proclamava que as suas fotografias não eram arte, mas meras representações da realidade por imagens.

Há algum sentido nesta concepção de fotografia? Sim – pelo menos se pensarmos na fotografia no seu conjunto, na forma como ela é vulgarmente usada. A fotografia reproduz por imagens objectos reais. Só quando estamos diante de usos de processos fotográficos como os utilizados por José Luís Neto, que usa os químicos da revelação sobre papel sensível à luz para criar padrões abstractos, sem recorrer a uma câmara (e consequentemente não retratando objectos) é que a fotografia escapa a esta regra. Mesmo as «schadografias» de Christian Schad são representações de objectos reais.

Felizmente o conceito de arte evoluiu. Hoje a forma que o artista emprega para exprimir as suas ideias é irrelevante: o que conta é a originalidade do seu pensamento. Se não fosse assim, teríamos de recusar a qualidade de arte às instalações de Nils Völker, que se baseiam em objectos industriais e recorrem a máquinas. O mesmo na fotografia: o que verdadeiramente conta é a originalidade. O que importa é a visão pessoal do fotógrafo, e não o meio ou a técnica que empregou para a exprimir.

Evidentemente, esta forma de expressão está apenas ao alcance de alguns. Ninguém pense que, só por ter uma câmara e dominar as técnicas, é capaz de se exprimir artisticamente. O que muitos fazem, consciente ou inconscientemente, é imitar o que foi feito por outros antes deles. Quando vejo as minhas fotografias com objectividade, compreendo que não fui capaz de transcender esta etapa. Apenas uma minoria é capaz de criar fotografias nas quais se pode discernir uma marca criativa pessoal. Regresso às palavras de Koudelka: «Acho maravilhoso que todos possam tirar fotografias, tal como acho maravilhoso toda a gente poder escrever. Mas há muito poucos escritores e há muito poucos fotógrafos. Todos têm uma câmara, todos podem carregar no botão. Todos têm um lápis, todos podem assinar. Mas isto não significa que haja muitos grandes escritores e não significa que haja muitos grandes fotógrafos».

Será, contudo, que a produção artística fotográfica é tão marginal que se deve recusar de todo o estatuto de arte à fotografia? Se pensarmos na fotografia como um processo, sim. A fotografia, enquanto meio de atingir um resultado, não é uma arte: é uma técnica. O que é artístico é o resultado obtido: é a fotografia que incorpora a originalidade e o pensamento criativo do fotógrafo. Pouco importa se os objectos que figuram nela são reais, ou se foi usada uma máquina: o importante é que o fotógrafo tenha conseguido exprimir a forma como os vê – a forma pessoal e única como interpreta a realidade.

Por tudo isto, não hesito em declarar o óbito destas teorias que recusam à fotografia um carácter artístico por recorrer a mecanismos e automatismos. É uma concepção estreita e antiquada que foi há muito superada.

M. V. M.

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As leis do interessante

Por Bernd e Hilla Becher

A reacção dos leitores ao curtíssimo texto de ontem deixou-me a pensar se me teria sabido exprimir bem. Como não sou de formular apenas uma hipótese, houve outra que se me impôs: os leitores do Número f/ não são alunos, eu não sou professor e o texto não era nenhum teste. E, mesmo que todas estas circunstâncias se verificassem, estamos em plenas férias escolares de Verão. Ninguém quer fazer testes, muito menos com este calor.

Na verdade, a minha intenção era apenas lançar um pequeno desafio: queria saber como teriam interpretado a frase de Roland Barthes que citei, e se as ideias que a citação terá provocado coincidiam com as minhas. O mais certo é ter-me exprimido mal. Fiz muitos testes, especialmente na faculdade, em cujo enunciado surgiam questões que consistiam numa citação qualquer, seguida do objectivo exigido ao aluno, que era o de comentar essa citação. Por vezes a fórmula era qualquer coisa como «Diga o que que pensa acerca desta frase» (ou qualquer coisa equivalente), mas em alguns testes era «comente esta afirmação» ou, simplesmente, «comente».

Teria gostado de saber o que os leitores ficaram a pensar da afirmação de Barthes. Eu li o livro, pelo que sei que ideia se quis exprimir, mas teria sido interessante perceber que tipo de pensamentos a frase despertou. Não aconteceu, infelizmente, mas talvez reflectir filosoficamente sobre a fotografia não seja o passatempo mais apetecido em tempo de Verão. Eu compreendo. Aliás, a razão de o texto de ontem praticamente se ter resumido a uma citação é um exemplo perfeito da falta de disposição mental para escrever longas dissertações bloguísticas.

A afirmação é um pouco obscura, ou pelo menos um pouco abstrusa, mais parecendo um jogo de paradoxos sem grande sentido, mas há muita razão nela. O que eu entendo a partir desta frase é que o fotógrafo precisa de se desenvencilhar das convenções. Ele deve levar a sua expressão pessoal cada vez mais longe. Isto é desafiar as leis do provável e do possível: evitar o óbvio Para Roland Barthes, a apreciação subjectiva da fotografia compõe-se, além do significado que apresenta à mente – o studium –, de algo que se dirige aos sentidos, que os atinge e fere: o punctum. É aquele elemento da imagem que desperta uma sensação visceral no espectador. Para que a fotografia tenha este elemento não é necessário que seja em si mesma interessante: o que conta é que fira os sentidos do espectador. Decerto que o elemento subjectivo, numa certa acepção, desperta o interesse do espectador, mas o punctum pode existir mesmo numa fotografia que, à partida, e apreciada no seu todo, é desinteressante. Pode estar num dente podre de uma criança numa fotografia de William Klein ou no sapato de uma matrona num mero retrato de família.

Além de transcender as barreiras do possível e do provável, o fotógrafo deve – como um acrobata – superar o limite do interessante. Muitas vezes o interesse está, não na fotografia em si, não no seu objecto, mas naquilo que transmite ao espectador. O «interessante» é, assim, um padrão rígido que condiciona a criação da fotografia, vinculando o fotógrafo a um conceito. O que, evidentemente, é um limite que importa transcender. A fotografia só é válida se transmitir algo – uma sensação – a alguém. O fotógrafo pode passar a vida inteira a procurar fazer fotografias interessantes e não o conseguir por não ter percebido que o interesse está nos olhos de quem vê as fotografias, não no seu conceito de «interessante».

Foi mais ou menos isto que a citação me fez pensar depois de ter lido A Câmara Clara. É uma opinião formada com base no conhecimento dos conceitos de Barthes, mas o que eu gostava mesmo era de ter conhecido os pensamentos que a frase suscitou nos leitores que não tinham este conhecimento. Não foi possível. Talvez para a próxima.

M. V. M.

O Presidente, o retrato, o artista de pechisbeque e o fotógrafo lorpa: reprise

Ainda com respeito ao texto de ontem sobre o «retrato oficial» do Presidente da República: decidi intitular esse texto, o qual foi motivado pela minha repulsa em relação à indiferença de todos diante do óbvio grotesco deste episódio, com um título longo e pouco original, no sentido em que lembra o de um filme de Peter Greenaway: chamei-lhe «O Presidente, o retrato, o artista de pechisbeque e o fotógrafo lorpa». Permitam-me decompor analiticamente este título, não sem antes repudiar de novo o silenciozinho canalha e o conformismo que caracterizam a atitude geral dos portugueses diante de acontecimentos dos quais este é apenas um exemplo (e nem sequer dos mais graves).

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, está a fazer campanha para o segundo mandato desde o dia em que tomou posse. Tudo o que ele diz ou faz está orientado para esse objectivo, apesar de não se ver quem poderá rivalizar com ele em 2021. Ele partiu para as eleições de 2016 com uma popularidade ímpar que lhe adveio de dez anos de exposição pública como comentador televisivo, mas eu devo-lhe um pouco mais de respeito do que aquele que a aparente genialidade dos seus comentários me mereceria. O Professor Marcelo Rebelo de Sousa é um intelectual de enorme craveira: ele doutorou-se em Direito Constitucional pela Universidade de Lisboa com a classificação de 19 valores. Diz-se que a sua tese foi tão brilhante que o único reparo que mereceu do júri foi formulado por José Joaquim Gomes Canotilho, que lhe apontou a escassez de referências bibliográficas. Diante disto, não pode ser invocado que ele desconheça o regime do direito de autor, embora este pertença ao ramo do direito civil e não ao direito público, como o direito constitucional e o administrativo. O que se pode argumentar é que ele não sabia da fotografia que o pintor de pechisbeque plagiou, mas isto é duvidoso. O que Marcelo Rebelo de Sousa quis foi mostrar comunhão com o gosto popular, arrancar exclamações de admiração ao vulgo com o seu gesto apenas aparentemente espontâneo de passar por uma rua, ver um quadro com o seu retrato e conferir-lhe estatuto de oficialidade. É evidente que tudo isto foi uma encenação, mas o que é a política senão a arte da encenação?

Quanto ao retrato, não me é possível atribuir-lhe qualquer mérito. Ainda que não fosse a imitação de uma fotografia, seria sempre uma pintura banal, uma espécie de desenvolvimento – nada original, diga-se – do estilo de Henrique Medina. Muito medíocre. Se juntarmos a isto o facto de ser uma imitação descarada, temos que este quadro não é mais que uma cópia a óleo (ou acrílico, ou seja o que for: não é importante) da fotografia de Orlando Almeida. As cópias, independentemente do meio pelo qual são obtidas, não têm qualquer tipo de valor: estão feridas pela falta de originalidade e de esforço criativo, o que lhes proíbe o estatuto de arte.

O que nos leva ao artista de pechisbeque. Para ele, não há nada de mal em usar obras de outros autores imitando-as descaradamente. É o meio mais fácil de fazer as coisas: não precisa de pensar, de criar, de ter uma ideia, de desenvolver um conceito: basta-lhe olhar para as obras que outros fizeram e copiá-las. É mesquinho e medíocre e, sobretudo, não merece a publicidade que obteve, mas o estilo do pintor de pechisbeque agrada a um povo que não tem educação visual suficiente para ir além das referências do real, o que foi aproveitado por Marcelo Rebelo de Sousa para lançar o seu beau geste. Mas é um estilo que, por se basear em imitações e ser inteiramente destituído de valor artístico e criativo, rivaliza com as «obras» dos pintores de rua que expõem e vendem os seus quadros de traços pueris na Rua de Santa Catarina. A única diferença é que o nosso artista de pechisbeque tem um atelier na Rua do Almada e agora, graças ao Presidente e ao seu gesto magnânimo, ascendeu a uma fama completamente imerecida. Perdoem-me se não comungo da admiração popular por ele, mas os imitadores e os medíocres não me merecem muito respeito.

Por fim, o fotógrafo lorpa. Vim a descobrir que, à semelhança do artista de pechisbeque, também ele é… bom, digamos antes que não é grande espingarda. É, quando muito, um amador razoável. Como muitos amadores, incorre na ilusão tola de querer popularidade, daí que não se tenha importado de ver a sua obra usurpada e até tenha gostado, porque interpreta esta promoção do retrato de pechisbeque à oficialidade como algo que também o beneficia. Hélas, o público não está preparado para conferir reconhecimento à obra imitada. Neste caso, ninguém quer saber da fotografia que o artista de pechisbeque usurpou, por isso dificilmente o fotógrafo beneficiará de algum reconhecimento além dos comentários elogiosos dos seus amigos do facebook.

Como disse, este é um pecado muito frequente entre os amadores: para eles, o que fazem são só fotografias e ficam felizes da vida se tiverem os seus warholianos quinze minutos de fama. O facto de estarem a permitir que o mau gosto e a imitação prevaleçam e que alguém ganhe dinheiro, prestígio e popularidade à sua custa é uma metáfora perfeita da descaracterização da fotografia enquanto criação intelectual do autor: hoje as fotografias são de todos e qualquer um pode apropriar-se delas e fazer delas o que quiser, mesmo que vá ganhar fortunas à custa daquilo que é o trabalho dos outros. Os esquerdelhos têm uma palavra para isto: é «exploração». Mas pronto, se este fotógrafo é adulto e não só consente como gosta de ser explorado, o problema não é meu. Aliás, nem sei por que estou preocupado com tudo isto. O importante é que o Presidente da República é tão próximo do povo que escolheu uma pintura de um artista popular para seu retrato oficial. O facto de o Presidente da República pertencer a uma das castas políticas mais antigas de Portugal e de a sua popularidade ser estudada e artificial não deve interferir nesta imagem idílica da promoção da arte do povo – tal como o retrato ser uma farsa grotesca não deve impedir-nos de conferir-lhe grandeza.

M. V. M.

Freak Show

A fotógrafa Naomi Harris propôs-se fazer uma viagem de cem dias pelos Estados Unidos da América, o que coincidiu mais ou menos com os cem dias da presidência de Donald Trump. O resultado, que pode ser analisado mais em pormenor no website da Vice, é muito semelhante – embora menos extremo – ao que Diane Arbus fez. Naomi Harris procurou votantes de Donald Trump e confrontou-os com a sua opção. Nada disto é representativo – as fotografias resultam numa caricatura de alguns eleitores –, mas mostra uma realidade algo perturbadora: muitos dos que votaram em Trump fizeram-no porque não suportavam a ideia de que Hillary Clinton fosse eleita.

Espero que esta escolha do que consideraram um mal menor não tenha sido determinada por razões sexistas, mas tenho a certeza de que muitos dos que fizeram essa opção estão arrependidos de sequer terem acordado no dia 8 de Novembro de 2016. Pelo menos Hillary Clinton saberia o que estaria a fazer, se tivesse sido eleita. Donald Trump é um caso de amadorismo, falta de preparação e de sobreavaliação das suas próprias capacidades, o que se nota na governação errática e francamente disparatada da administração Trump. (O que é pior é existirem dúvidas fundadas acerca da saúde mental de Donald J. Trump: muitos atribuem as suas decisões a perturbações do foro psíquico, o que bem pode ser verdade – especialmente depois do caso «covfefe».)

Eu não sou de fazer pré-juízos sobre outros países. Da última vez que o fiz, sai-me tudo ao contrário. Esperava que Bruxelas fosse uma cidade fria, de gente antipática, e saiu-me uma versão maior e mais civilizada de Lisboa. Não meço os norte-americanos pelos trolls que inundam os espaços de comentários (todos os espaços de comentários, desde websites de fotografia até aos puramente políticos) nem pelas pessoas ilustradas nesta road trip de Naomi Harris. Os Estados Unidos terão os seus cromos, como todos os outros países, mas não são (espero) um gigantesco freak show. Contudo, é exactamente esta a ideia com que fica quem vir esta colecção de fotografias.

Uma coisa, porém, é certa: as pessoas que Naomi Harris fotografou só podiam ter votado em Donald Trump. Neste aspecto são muito emblemáticas. E as fotografias são feitas com um enorme sentido de mordacidade: não há qualquer tentativa para compreender ou desculpar a escolha que estas pessoas fizeram: gente ridícula vota em candidatos ridículos, gente tacanha vota em candidatos tacanhos, gente obtusa vota em candidatos obtusos.

Ver estas fotografias produz em mim o efeito de reflectir acerca da decadência, não dos Estados Unidos, mas de toda a civilização ocidental. O grotesco ostentado orgulhosamente por certas pessoas faz-me pensar se não estará definitivamente perdida a noção de decoro. Como «decoro» não é o termo mais apropriado para definir Donald Trump, as coisas acabam por ganhar uma certa coerência lógica…

M. V. M.

Da casualidade

Por Andrea de Franciscis

Por vezes acontece-me. Nem sempre, mas por vezes. Ando pela internet ociosamente, à procura sei lá bem de quê, quando deparo com algo que me parece merecedor de particular atenção. Aconteceu outra vez neste dia 27 de Maio: andava à procura de qualquer coisa (neste caso, da forma correcta de pronunciar um certo apelido italiano de ressonância altamente medieva, mas não posso de momento revelar por que fazia tão estranha busca) quando descobri um conjunto de fotografias que me pareceu excelente, dentro do estilo situado entre o documental e o emotivo que a maravilhosa Mary Ellen Mark usou quando fotografou “Rat” e outros miúdos marginais de Seattle, mas possivelmente com menor envolvimento entre fotógrafo e fotografados.

O fotógrafo cuja obra descobri chama-se Andrea de Franciscis, italiano que vive na Índia. Ele é o autor de uma série de fotografias, que descobri num artigo do website Narratively, sobre os viciados invisíveis da Índia. São fotografias chocantes de crianças viciadas em drogas (algumas improvisadas, como cola e líquido corrector), mas extraordinárias pelo seu sentido de composição e pelo preto-e-branco belíssimo.

Por Andrea de Franciscis

As minhas pesquisas sobre este Andrea de Franciscis – continuo sem fazer a mais pequena ideia sobre a pronúncia correcta deste apelido (dé frantxíchis?) – levaram-me também ao website do Centro Italiano de Fotografia, que dedica uma página ao recém-descoberto (por mim e, espero, pelos meus leitores) fotógrafo italiano. As fotografias que figuram nessa página estão num território que se situa a este de Steve McCurry e a oeste de Raghubir Singh (ou vice-versa). Têm mais vida que as do Grande Mestre do Photoshop, mas são mais formais e rígidas que as de Singh. Em todo o caso, são interessantes no rigor e na técnica, que é usada com bom gosto e na medida do necessário para dar expressão à imagem.

Pensei que seria boa ideia dar a conhecer este fotógrafo aos meus leitores. Decerto não é um dos rostos que mudou a história da fotografia artística, mas conseguiu produzir beleza a partir da sordidez e fotografou a Índia mostrando a sua essência sem cair no cliché estafado. Penso que, por estes dois motivos, merece menção aqui no Número f/ – e decerto merece que os leitores dêem uma espiada nas suas fotografias.

M. V. M.

O portfolio

Esta tarde, talvez por ter despachado o trabalho rapidamente e ter ficado muito cedo sem nada melhor para fazer, resolvi submeter um portfolio composto por quarenta das minhas fotografias à apreciação dos cooperadores da Magnum. Não, não me tornei pretensioso nem nutro quaisquer ilusões: o meu estado de espírito era sensivelmente o mesmo de quem joga no Euromilhões ou, mais correctamente, de quem visita o site de um fabricante de automóveis de luxo e se entretém com o configurador juntando estofos de couro perfurado e jantes de titânio à lista dos extras de um dado modelo, apesar de saber que nunca poderá adquiri-lo. Em duas palavras, isto chama-se sonhar acordado.

Não estou à espera que Josef Koudelka me telefone anunciando, com alacridade incontida, que eu fui admitido na Magnum. É evidente que o meu coração e o meu cérebro explodiriam em simultâneo se isso acontecesse – o que, atento o consequente óbito da minha pessoa, me impediria de saborear o prazer de ter sido escolhido –, mas já ficaria contente se os cooperadores da Magnum não rissem das minhas fotografias quando as virem – se chegarem a vê-las, porque é possível que ignorem a minha candidatura por eu não ter curriculum de fotógrafo. (Convém ter em mente que, além do presidente Koudelka, são cooperadores da Magnum, entre outros, Alec Soth, Martin Parr, Peter van Agtmael, Harry Gruyaert, Georgui Pinkhassov, Abbas e Bruce Gilden – entre muitos outros. É uma verdadeira temeridade apresentar um portfolio a monstros como estes.)

Apenas sujeito este pequeno episódio à irrisão dos leitores porque esta candidatura (chamemos-lhe assim) implicou fazer uma selecção das fotografias a incluir no portfolio. (Já que o menciono, não tive de organizar nada, a não ser numerar as fotografias por ordem decrescente de preferência pessoal e carregá-las na página das candidaturas: não precisei de enviar um portfolio impresso, o que, se fosse exigido, me teria levado a não me candidatar.) Andei pelo Flickr à procura de fotografias que tivessem um mínimo de correlação com o espírito Magnum. (Penso que conheço o suficiente dos fotógrafos da Magnum para determinar o que é esse «espírito Magnum», mas posso estar completamente enganado.) Seja como for, o processo de selecção serviu para remexer em fotografias de que já nem sequer me lembrava.

A conclusão que retirei desta selecção é a de ser inútil publicar muitas fotografias no Flickr. Não vale a pena. Quem visita o photostream vê as fotografias que cabem no primeiro ecrã, nada mais. Depois, publicar fotografias desinteressantes ou supérfluas não contribui em nada para o conforto visual do visitante nem para a reputação do visitado. Eu bem podia ter apenas as quarenta fotografias que seleccionei publicadas no Flickr, porque quase todas as demais – e eu já tenho mais de 1700 fotografias no Flickr! – são redundantes e só estão ali para criar poluição visual.

Isto é assim mesmo: o tempo é o maior e mais exigente mestre que existe quando se trata de avaliar o que fazemos. Ao fim de alguns anos, aquilo que pensávamos ser uma obra-prima de mestre acaba por ser apenas a prima do mestre de obras. Algumas das fotografias que seleccionei resistiram ao teste do tempo; a maioria, porém, não. E, apesar de sentir que as minhas fotografias mais recentes são as melhores, daqui a dois anos posso pensar de uma maneira completamente diferente.

Outra conclusão importante é que a popularidade das fotografias que carregamos para o Flickr não quer dizer que aquelas sejam boas. Quer dizer, apenas e estritamente, que algumas pessoas gostam delas. Quem tem de ser o juiz não é o número de visualizações e de favoritos, mas o próprio autor das fotografias. Eu já tive várias fotografias no chamado «Explore» e, mesmo se algumas delas são razoavelmente interessantes, vê-las no meio das outras escolhidas é um anticlímax. As minhas fotografias passam praticamente despercebidas no meio de retratos cheios de bokeh, de macros de lagartas cheios de bokeh e de HDRs da Golden Gate (alguns sem nenhum bokeh). O «Explore» não afere a qualidade das fotografias: significa apenas que as pessoas que seleccionam uma determinada fotografia gostaram dela, nada mais.

Bom, agora resta-me esperar pelo email de Josef Koudelka anunciando que fui escolhido para integrar a Magnum. E o Ferrari Superfast fica mesmo a matar em azul Tour de France e com estofos de couro bege Tradizione.

M. V. M.