Representação e expressão

Eu não sei quantos leitores fotografam e, entre os que o fazem, quantos usam redes sociais (Flickr, Instagram, 500px, etc.) para publicar as suas fotografias. Eu uso o Flickr: é uma forma de mostrar as fotografias e também de armazená-las (além da memória do computador e do disco externo). Uma coisa aprendi com o Flickr: a popularidade das fotografias não é a medida do seu valor.

Eu explico: houve várias ocasiões em que me apareceu um número desmesurado de notificações em relação a certas fotografias. Estas últimas, cerca de dez ao todo, foram publicadas numa página chamada «Explore». Há um grupo de sujeitos que utiliza as fotografias de outras pessoas  e as publica na referida página sem que estas últimas possam suscitar qualquer oposição. Os autores das fotografias ficam felizes da vida porque recebem milhares – muitos milhares – de visualizações e as suas fotografias são adicionadas às favoritas de um número incontável de visitantes do Flickr, mas nada disto me impressiona.

Na verdade, quando isto me acontece, fico indiferente. Por duas razões: a primeira é que não fotografo para ser imensamente popular. Fotografo para satisfazer uma ideia estética, ou outra coisa qualquer, mas já passei a fase do olha que bom que eu sou há muito. A segunda é que as fotografias que utilizam abusivamente ao publicá-las neste Explore são meramente banais. Não estão de maneira nenhuma entre as minhas mais satisfatórias. (A minha fotografia «mais satisfatória» é a que vou fazer amanhã, parafraseando a grande Imogen Cunningham.) São, invariavelmente, cenas «de rua», que é o que eu vou fazendo enquanto não encontro um objecto que verdadeiramente me interessa.

As fotografias em que pretendo exprimir alguma coisa diferente são, invariavelmente, as menos populares. Têm poucas visualizações e ninguém as inclui entre as suas favoritas, mas não levo isto a mal. É uma coisa que acontece por causa da forma como a maioria das pessoas vê fotografias: apenas a estética do motivo lhes interessa. Para a maioria das pessoas, a fotografia é representação. Aqueles que estão receptivos a interpretar uma fotografia e ver o que se quis exprimir com elas é extremamente reduzido. Lembro-me de,uma vez, ter mostrado algumas impressões a um amigo particularmente culto e este as ter olhado com uma indiferença que me entristeceu: estava à espera de ver fotografias de pessoas ou paisagens reconhecíveis. Não lhe interessou a estética, nem o estado de espírito que elas transmitiam.

Ainda há muita gente para quem a fotografia é a mera reprodução da imagem de coisas ou pessoas. Aliás, dizer «muita gente» é um eufemismo: os que se predispõem a ver o que a fotografia exprime são uma pequena minoria – e, a alguns, é preciso dizer-lhes o que a fotografia exprime. É triste? Certamente. Vai fazer-me abandonar as minhas tentativas de fazer fotografias expressivas? Não.

Tomemos o exemplo da fotografia do topo: estava num parque de estacionamento triste, vazio, escuro e medonho – uma metáfora da solidão, portanto – e dirigia-me para o meu carro quando vi um automóvel que foi sempre um dos meus favoritos na sua espécie: um Alfa Romeo GT Coupé, com as suas ópticas traseiras minimalistas. Pensei que o contraste entre a linha e a cor da óptica do Alfa GT com o vazio e a escuridão dava uma imagem expressiva e interessante, mas pelos vistos enganei-me redondamente: a fotografia é inacreditavelmente impopular. É evidente que muitos viram nela apenas um farolim de um carro, mas não foi isso que eu vi. Ou, pelo menos, não foi apenas isso. O que eu vi, quando me apercebi da presença do Alfa GT naquele lugar, foi uma série de contrastes dos quais me apercebi instantaneamente: os contrastes entre a beleza da linha do automóvel e a fealdade prosaica do parque de estacionamento, entre o design curvilíneo de génio e a construção funcional e rectangular do lugar que alojava o automóvel e, sobretudo, entre os prazeres terrenos que um Alfa Romeo simboliza e a solidão escura, sinistra e vazia do lugar. E também a realidade de que aquele automóvel vistoso não era mais que um mero objecto inanimado, reduzido a um vulto indistinto pela escuridão. Sob este ponto de vista, esta fotografia parece-me uma das minhas mais conseguidas – porque consegui exprimir qualquer coisa. É uma pena se outros não a compreendem, mas que posso fazer se a predisposição para compreender não existe?

M. V. M.

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As minhas inquietações

Lembram-se de, no último texto, ter escrito: «tenho a certeza de que vou ficar desiludido quando receber as digitalizações», referindo-me ao meu último rolo – o tal que demorei dois meses a expor? Pois bem: não fiquei desiludido. Também não fiquei encantado: cerca de metade das fotografias são desinteressantes, mal feitas ou falhadas por qualquer outra razão. A outra metade não é nada por que sinta um orgulho desmedido, mas algumas das fotografias são passos na direcção certa. A direcção certa é a de usar nelas uma linguagem que seja só minha. Ainda não cheguei lá, mas pelo menos sei por onde ir.

Por vezes pergunto-me por que sou assim. Às vezes tenho o sentimento de que esta minha busca da originalidade é quase obsessiva. Vejo outras pessoas a fotografar, todas contentes, sem preocupações de qualquer espécie (embora por vezes ainda me apeteça ver um piano Bösendorfer de concerto a cair de grande altura sobre pessoas que fazem selfies ou fotografam com tablets) e sinto-me alheado, desirmanado, desenraizado. Tenho oportunidades de fotografar em grupo ou com outra pessoa, mas rejeito-as com a veemência de um sociopata. Nunca pertenceria a um clube de fotografia nem participaria em competições. A fotografia é uma caça – e, no meu caso, uma caça solitária: as presas não são para partilhar e a presença de vários caçadores espanta a caça.

Talvez leve as coisas demasiado a sério, especialmente tendo em conta que não sou nenhum Paulo Nozolino; mas sinto que, se não aspirar a fazer boas fotografias, nunca mais vou sequer conseguir fazer alguma que, pelo menos, seja razoável. Também não sou nenhum guardião da arte, mas assumo que devo dar um contributo, mesmo que seja um grão de areia numa praia, para que a fotografia não seja completamente abastardada.

Sim, porque eu sou daqueles esquisitinhos que se escandalizam por haver demasiada gente a tirar fotografias. Não me refiro aos turistas e às selfies, mas aos pseudo-artistas, àqueles que não fazem mais que copiar e imitar o que outros fizeram. Os turistas e os narcisistas de pouco me importam, porque o que fazem é natural. O facto de todos os smartphones terem câmaras incorporadas é um convite a fotografar e, mesmo que as fotografias não tenham qualidade nem exprimam nada de especial, as pessoas divertem-se com o que têm à mão. Não há nada de mal nisto; o meu único motivo de irritação é a figura esplendorosamente estúpida que algumas pessoas fazem quando tiram selfies, mas é a figura, e não a selfie, que me enerva. E nunca por muito tempo.

Os pretensiosos, esses, são a pior espécie à superfície da terra. Eles tornam a atmosfera irrespirável com os pastiches que pretendem fazer passar por arte. Cometem o pecado mortal de ser banais: nunca vou compreender por que razão toda a gente quer fazer fotografias iguais a outras: fotografias nocturnas de rastos de estrelas, auroras boreais, paisagens de montanhas com perspectiva de ultra-grande-angular com um rochedo no plano frontal, etc. Não compreendo por que há gente que gasta milhares de euros e perde dias inteiros das suas vidas em expedições fotográficas (ao menos que aproveitem o passeio…) para fazer estas fotografias. Toda a gente as viu, toda a gente as faz. Para quê, então? Fotografar é como falar: para quê falar se não se tem nada a dizer? O turista fala das suas viagens, o narcisista mostra que o é com as selfies; são honestos. Mas os pretensiosos lembram-me os alunos marrões cuja aquisição de conhecimentos depende exclusivamente da capacidade de memorizar. Não são versáteis, não criam, só papagueiam o que leram (neste caso, o que viram).

Pronto, já desabafei. Agora estou a pensar se o meu regresso ao preto-e-branco não foi precipitado. Fiquei contente com algumas das fotografias que fiz com este meu último rolo (que era, evidentemente, a cores) e devia ter insistido. Até porque o preto-e-branco é o novo HDR dos pseudo-artistas.

M. V. M.

A pergunta não respondida

Por Christian Schad

Hoje regresso a um tema que me preocupou desde que comecei a interessar-me seriamente por fotografia. Já o abordei há muito tempo, quando o Número f/ ainda era o ISO 100, mas eu sou daquelas pessoas que nunca têm opiniões demasiado dogmáticas e estou sempre pronto a questionar tudo – ou, pelo menos, como quanto ao tema deste texto, a avaliar tudo à luz dos conhecimentos e da experiência entretanto adquiridos.

O tema é o da natureza artística da fotografia. Regresso à pergunta nunca respondida satisfatoriamente: a fotografia é uma arte? Esta é uma questão que se me tem imposto ultimamente e me leva a ter um sentido crítico cada vez mais exacerbado – especialmente em relação às minhas próprias fotografias.

Esta necessidade de rever tudo o que aprendi quanto à relação entre arte e fotografia veio por ter descoberto que ainda há quem esteja arreigado a uma concepção de fotografia que pensava ter caído há muito em desuso. Segundo a concepção a que me refiro, a fotografia não pode ser arte porque é um processo mecânico e automático de representar objectos reais e, como tal, incapaz de criar. Este conceito nasce de uma ideia de arte como pensamento abstracto: se a máquina representa objectos reais, não é capaz de abstracção; se não é capaz de abstracção, não pode criar. E, como a arte é criação, a fotografia não é arte.

Este é o tipo de argumento que se usava no Século XIX, quando os paladinos das artes visuais convencionais se sentiam ameaçados por essa forma de representação visual que era a fotografia. Nesse século, a crítica de arte Elizabeth Eastlake – que chamava à câmara unreasoning machine – entendia que a fotografia tinha o seu lugar, desde que não alimentasse a pretensão de ser arte; mesmo um fotógrafo como John Ruskin proclamava que as suas fotografias não eram arte, mas meras representações da realidade por imagens.

Há algum sentido nesta concepção de fotografia? Sim – pelo menos se pensarmos na fotografia no seu conjunto, na forma como ela é vulgarmente usada. A fotografia reproduz por imagens objectos reais. Só quando estamos diante de usos de processos fotográficos como os utilizados por José Luís Neto, que usa os químicos da revelação sobre papel sensível à luz para criar padrões abstractos, sem recorrer a uma câmara (e consequentemente não retratando objectos) é que a fotografia escapa a esta regra. Mesmo as «schadografias» de Christian Schad são representações de objectos reais.

Felizmente o conceito de arte evoluiu. Hoje a forma que o artista emprega para exprimir as suas ideias é irrelevante: o que conta é a originalidade do seu pensamento. Se não fosse assim, teríamos de recusar a qualidade de arte às instalações de Nils Völker, que se baseiam em objectos industriais e recorrem a máquinas. O mesmo na fotografia: o que verdadeiramente conta é a originalidade. O que importa é a visão pessoal do fotógrafo, e não o meio ou a técnica que empregou para a exprimir.

Evidentemente, esta forma de expressão está apenas ao alcance de alguns. Ninguém pense que, só por ter uma câmara e dominar as técnicas, é capaz de se exprimir artisticamente. O que muitos fazem, consciente ou inconscientemente, é imitar o que foi feito por outros antes deles. Quando vejo as minhas fotografias com objectividade, compreendo que não fui capaz de transcender esta etapa. Apenas uma minoria é capaz de criar fotografias nas quais se pode discernir uma marca criativa pessoal. Regresso às palavras de Koudelka: «Acho maravilhoso que todos possam tirar fotografias, tal como acho maravilhoso toda a gente poder escrever. Mas há muito poucos escritores e há muito poucos fotógrafos. Todos têm uma câmara, todos podem carregar no botão. Todos têm um lápis, todos podem assinar. Mas isto não significa que haja muitos grandes escritores e não significa que haja muitos grandes fotógrafos».

Será, contudo, que a produção artística fotográfica é tão marginal que se deve recusar de todo o estatuto de arte à fotografia? Se pensarmos na fotografia como um processo, sim. A fotografia, enquanto meio de atingir um resultado, não é uma arte: é uma técnica. O que é artístico é o resultado obtido: é a fotografia que incorpora a originalidade e o pensamento criativo do fotógrafo. Pouco importa se os objectos que figuram nela são reais, ou se foi usada uma máquina: o importante é que o fotógrafo tenha conseguido exprimir a forma como os vê – a forma pessoal e única como interpreta a realidade.

Por tudo isto, não hesito em declarar o óbito destas teorias que recusam à fotografia um carácter artístico por recorrer a mecanismos e automatismos. É uma concepção estreita e antiquada que foi há muito superada.

M. V. M.

As leis do interessante

Por Bernd e Hilla Becher

A reacção dos leitores ao curtíssimo texto de ontem deixou-me a pensar se me teria sabido exprimir bem. Como não sou de formular apenas uma hipótese, houve outra que se me impôs: os leitores do Número f/ não são alunos, eu não sou professor e o texto não era nenhum teste. E, mesmo que todas estas circunstâncias se verificassem, estamos em plenas férias escolares de Verão. Ninguém quer fazer testes, muito menos com este calor.

Na verdade, a minha intenção era apenas lançar um pequeno desafio: queria saber como teriam interpretado a frase de Roland Barthes que citei, e se as ideias que a citação terá provocado coincidiam com as minhas. O mais certo é ter-me exprimido mal. Fiz muitos testes, especialmente na faculdade, em cujo enunciado surgiam questões que consistiam numa citação qualquer, seguida do objectivo exigido ao aluno, que era o de comentar essa citação. Por vezes a fórmula era qualquer coisa como «Diga o que que pensa acerca desta frase» (ou qualquer coisa equivalente), mas em alguns testes era «comente esta afirmação» ou, simplesmente, «comente».

Teria gostado de saber o que os leitores ficaram a pensar da afirmação de Barthes. Eu li o livro, pelo que sei que ideia se quis exprimir, mas teria sido interessante perceber que tipo de pensamentos a frase despertou. Não aconteceu, infelizmente, mas talvez reflectir filosoficamente sobre a fotografia não seja o passatempo mais apetecido em tempo de Verão. Eu compreendo. Aliás, a razão de o texto de ontem praticamente se ter resumido a uma citação é um exemplo perfeito da falta de disposição mental para escrever longas dissertações bloguísticas.

A afirmação é um pouco obscura, ou pelo menos um pouco abstrusa, mais parecendo um jogo de paradoxos sem grande sentido, mas há muita razão nela. O que eu entendo a partir desta frase é que o fotógrafo precisa de se desenvencilhar das convenções. Ele deve levar a sua expressão pessoal cada vez mais longe. Isto é desafiar as leis do provável e do possível: evitar o óbvio Para Roland Barthes, a apreciação subjectiva da fotografia compõe-se, além do significado que apresenta à mente – o studium –, de algo que se dirige aos sentidos, que os atinge e fere: o punctum. É aquele elemento da imagem que desperta uma sensação visceral no espectador. Para que a fotografia tenha este elemento não é necessário que seja em si mesma interessante: o que conta é que fira os sentidos do espectador. Decerto que o elemento subjectivo, numa certa acepção, desperta o interesse do espectador, mas o punctum pode existir mesmo numa fotografia que, à partida, e apreciada no seu todo, é desinteressante. Pode estar num dente podre de uma criança numa fotografia de William Klein ou no sapato de uma matrona num mero retrato de família.

Além de transcender as barreiras do possível e do provável, o fotógrafo deve – como um acrobata – superar o limite do interessante. Muitas vezes o interesse está, não na fotografia em si, não no seu objecto, mas naquilo que transmite ao espectador. O «interessante» é, assim, um padrão rígido que condiciona a criação da fotografia, vinculando o fotógrafo a um conceito. O que, evidentemente, é um limite que importa transcender. A fotografia só é válida se transmitir algo – uma sensação – a alguém. O fotógrafo pode passar a vida inteira a procurar fazer fotografias interessantes e não o conseguir por não ter percebido que o interesse está nos olhos de quem vê as fotografias, não no seu conceito de «interessante».

Foi mais ou menos isto que a citação me fez pensar depois de ter lido A Câmara Clara. É uma opinião formada com base no conhecimento dos conceitos de Barthes, mas o que eu gostava mesmo era de ter conhecido os pensamentos que a frase suscitou nos leitores que não tinham este conhecimento. Não foi possível. Talvez para a próxima.

M. V. M.

O Presidente, o retrato, o artista de pechisbeque e o fotógrafo lorpa: reprise

Ainda com respeito ao texto de ontem sobre o «retrato oficial» do Presidente da República: decidi intitular esse texto, o qual foi motivado pela minha repulsa em relação à indiferença de todos diante do óbvio grotesco deste episódio, com um título longo e pouco original, no sentido em que lembra o de um filme de Peter Greenaway: chamei-lhe «O Presidente, o retrato, o artista de pechisbeque e o fotógrafo lorpa». Permitam-me decompor analiticamente este título, não sem antes repudiar de novo o silenciozinho canalha e o conformismo que caracterizam a atitude geral dos portugueses diante de acontecimentos dos quais este é apenas um exemplo (e nem sequer dos mais graves).

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, está a fazer campanha para o segundo mandato desde o dia em que tomou posse. Tudo o que ele diz ou faz está orientado para esse objectivo, apesar de não se ver quem poderá rivalizar com ele em 2021. Ele partiu para as eleições de 2016 com uma popularidade ímpar que lhe adveio de dez anos de exposição pública como comentador televisivo, mas eu devo-lhe um pouco mais de respeito do que aquele que a aparente genialidade dos seus comentários me mereceria. O Professor Marcelo Rebelo de Sousa é um intelectual de enorme craveira: ele doutorou-se em Direito Constitucional pela Universidade de Lisboa com a classificação de 19 valores. Diz-se que a sua tese foi tão brilhante que o único reparo que mereceu do júri foi formulado por José Joaquim Gomes Canotilho, que lhe apontou a escassez de referências bibliográficas. Diante disto, não pode ser invocado que ele desconheça o regime do direito de autor, embora este pertença ao ramo do direito civil e não ao direito público, como o direito constitucional e o administrativo. O que se pode argumentar é que ele não sabia da fotografia que o pintor de pechisbeque plagiou, mas isto é duvidoso. O que Marcelo Rebelo de Sousa quis foi mostrar comunhão com o gosto popular, arrancar exclamações de admiração ao vulgo com o seu gesto apenas aparentemente espontâneo de passar por uma rua, ver um quadro com o seu retrato e conferir-lhe estatuto de oficialidade. É evidente que tudo isto foi uma encenação, mas o que é a política senão a arte da encenação?

Quanto ao retrato, não me é possível atribuir-lhe qualquer mérito. Ainda que não fosse a imitação de uma fotografia, seria sempre uma pintura banal, uma espécie de desenvolvimento – nada original, diga-se – do estilo de Henrique Medina. Muito medíocre. Se juntarmos a isto o facto de ser uma imitação descarada, temos que este quadro não é mais que uma cópia a óleo (ou acrílico, ou seja o que for: não é importante) da fotografia de Orlando Almeida. As cópias, independentemente do meio pelo qual são obtidas, não têm qualquer tipo de valor: estão feridas pela falta de originalidade e de esforço criativo, o que lhes proíbe o estatuto de arte.

O que nos leva ao artista de pechisbeque. Para ele, não há nada de mal em usar obras de outros autores imitando-as descaradamente. É o meio mais fácil de fazer as coisas: não precisa de pensar, de criar, de ter uma ideia, de desenvolver um conceito: basta-lhe olhar para as obras que outros fizeram e copiá-las. É mesquinho e medíocre e, sobretudo, não merece a publicidade que obteve, mas o estilo do pintor de pechisbeque agrada a um povo que não tem educação visual suficiente para ir além das referências do real, o que foi aproveitado por Marcelo Rebelo de Sousa para lançar o seu beau geste. Mas é um estilo que, por se basear em imitações e ser inteiramente destituído de valor artístico e criativo, rivaliza com as «obras» dos pintores de rua que expõem e vendem os seus quadros de traços pueris na Rua de Santa Catarina. A única diferença é que o nosso artista de pechisbeque tem um atelier na Rua do Almada e agora, graças ao Presidente e ao seu gesto magnânimo, ascendeu a uma fama completamente imerecida. Perdoem-me se não comungo da admiração popular por ele, mas os imitadores e os medíocres não me merecem muito respeito.

Por fim, o fotógrafo lorpa. Vim a descobrir que, à semelhança do artista de pechisbeque, também ele é… bom, digamos antes que não é grande espingarda. É, quando muito, um amador razoável. Como muitos amadores, incorre na ilusão tola de querer popularidade, daí que não se tenha importado de ver a sua obra usurpada e até tenha gostado, porque interpreta esta promoção do retrato de pechisbeque à oficialidade como algo que também o beneficia. Hélas, o público não está preparado para conferir reconhecimento à obra imitada. Neste caso, ninguém quer saber da fotografia que o artista de pechisbeque usurpou, por isso dificilmente o fotógrafo beneficiará de algum reconhecimento além dos comentários elogiosos dos seus amigos do facebook.

Como disse, este é um pecado muito frequente entre os amadores: para eles, o que fazem são só fotografias e ficam felizes da vida se tiverem os seus warholianos quinze minutos de fama. O facto de estarem a permitir que o mau gosto e a imitação prevaleçam e que alguém ganhe dinheiro, prestígio e popularidade à sua custa é uma metáfora perfeita da descaracterização da fotografia enquanto criação intelectual do autor: hoje as fotografias são de todos e qualquer um pode apropriar-se delas e fazer delas o que quiser, mesmo que vá ganhar fortunas à custa daquilo que é o trabalho dos outros. Os esquerdelhos têm uma palavra para isto: é «exploração». Mas pronto, se este fotógrafo é adulto e não só consente como gosta de ser explorado, o problema não é meu. Aliás, nem sei por que estou preocupado com tudo isto. O importante é que o Presidente da República é tão próximo do povo que escolheu uma pintura de um artista popular para seu retrato oficial. O facto de o Presidente da República pertencer a uma das castas políticas mais antigas de Portugal e de a sua popularidade ser estudada e artificial não deve interferir nesta imagem idílica da promoção da arte do povo – tal como o retrato ser uma farsa grotesca não deve impedir-nos de conferir-lhe grandeza.

M. V. M.

Freak Show

A fotógrafa Naomi Harris propôs-se fazer uma viagem de cem dias pelos Estados Unidos da América, o que coincidiu mais ou menos com os cem dias da presidência de Donald Trump. O resultado, que pode ser analisado mais em pormenor no website da Vice, é muito semelhante – embora menos extremo – ao que Diane Arbus fez. Naomi Harris procurou votantes de Donald Trump e confrontou-os com a sua opção. Nada disto é representativo – as fotografias resultam numa caricatura de alguns eleitores –, mas mostra uma realidade algo perturbadora: muitos dos que votaram em Trump fizeram-no porque não suportavam a ideia de que Hillary Clinton fosse eleita.

Espero que esta escolha do que consideraram um mal menor não tenha sido determinada por razões sexistas, mas tenho a certeza de que muitos dos que fizeram essa opção estão arrependidos de sequer terem acordado no dia 8 de Novembro de 2016. Pelo menos Hillary Clinton saberia o que estaria a fazer, se tivesse sido eleita. Donald Trump é um caso de amadorismo, falta de preparação e de sobreavaliação das suas próprias capacidades, o que se nota na governação errática e francamente disparatada da administração Trump. (O que é pior é existirem dúvidas fundadas acerca da saúde mental de Donald J. Trump: muitos atribuem as suas decisões a perturbações do foro psíquico, o que bem pode ser verdade – especialmente depois do caso «covfefe».)

Eu não sou de fazer pré-juízos sobre outros países. Da última vez que o fiz, sai-me tudo ao contrário. Esperava que Bruxelas fosse uma cidade fria, de gente antipática, e saiu-me uma versão maior e mais civilizada de Lisboa. Não meço os norte-americanos pelos trolls que inundam os espaços de comentários (todos os espaços de comentários, desde websites de fotografia até aos puramente políticos) nem pelas pessoas ilustradas nesta road trip de Naomi Harris. Os Estados Unidos terão os seus cromos, como todos os outros países, mas não são (espero) um gigantesco freak show. Contudo, é exactamente esta a ideia com que fica quem vir esta colecção de fotografias.

Uma coisa, porém, é certa: as pessoas que Naomi Harris fotografou só podiam ter votado em Donald Trump. Neste aspecto são muito emblemáticas. E as fotografias são feitas com um enorme sentido de mordacidade: não há qualquer tentativa para compreender ou desculpar a escolha que estas pessoas fizeram: gente ridícula vota em candidatos ridículos, gente tacanha vota em candidatos tacanhos, gente obtusa vota em candidatos obtusos.

Ver estas fotografias produz em mim o efeito de reflectir acerca da decadência, não dos Estados Unidos, mas de toda a civilização ocidental. O grotesco ostentado orgulhosamente por certas pessoas faz-me pensar se não estará definitivamente perdida a noção de decoro. Como «decoro» não é o termo mais apropriado para definir Donald Trump, as coisas acabam por ganhar uma certa coerência lógica…

M. V. M.