Cadavre exquis

A última notícia oriunda do Reino da Fotografia Analógica (RFA) é a de um evento que, se formos a ver bem, era bastante previsível. A Fujifilm vai acabar com a película Neopan Acros 100 no mês de Outubro.

Isto quer dizer que é a segunda vez, no espaço de menos de um mês, que dou conta, aqui no Número f/, do futuro desaparecimento de uma película. Antes fora a Agfaphoto Vista, agora a Neopan Acros 100. No caso desta última, a Fujifilm já havia suprimido as Acros de sensibilidade mais alta (1600 e 400); agora é a vez da versão mais insensível.

Isto levanta duas questões sobre as quais vale a pena especular. A primeira é a de saber se isto é o prenúncio do fim definitivo da fotografia analógica; a outra é o que estará na base desta decisão da Fujifilm. (Há ainda uma terceira, que é a de saber se tenho pena que esta película acabe, mas o leitor facilmente se aperceberá da resposta ao ler o restante.)

Não, o facto de a Fujifilm ter decidido acabar com a Acros 100 não prenuncia o fim da fotografia analógica. Lembro-me de um slogan da extrema-esquerda, ouvido nos tempos do PREC, que era «por cada camarada morto, mil se levantam». Com as películas acontece mais ou menos o mesmo: a ADOX está a construir uma fábrica nova, a Ilford decidiu alargar a comercialização das Pan 100 e 400, a Kodak está a ressuscitar o Ektachrome, a Ferrania – embora mais lentamente que o previsto – está a regressar ao mercado e, por outro lado, fabricantes como a Foma não dão sinais de irem parar a produção tão cedo. Há até bizarrias como as películas pré-expostas da Dubblefilm, para quem tem dinheiro de sobra e quer gastá-lo estupidamente. Por tudo isto, o fim da produção do Neopan Acros 100 é a morte da andorinha que não prenuncia o fim da primavera. Significa apenas que a andorinha faleceu, pobrezinha.

Andorinha esta que, diga-se, não tinha assim tantos atractivos. Nunca a experimentei por ser inacreditavelmente cara – os preços dos rolos 135 oscilam entre €9 e €10 –, mas o que via na Internet (e era confirmado por quem a usou) era que a Neopan Acros produzia imagens muito rendilhadas, cheias de microcontraste, que mais pareciam obtidas com recurso ao HDR. No meu entender, não existe qualquer benefício em usar esta película – especialmente quando se podem comprar rolos de Kodak T-Max 100 e Ilford Delta 100 (e dispenso-me de aludir aos Ilford FP4, que fazem dos Neopan esfregonas e limpam o soalho com elas).

Curiosamente, a despeito do preço elevado, a Neopan Acros 100 era bastante popular. Que terá, então, determinado a cessação da produção?

O facto de ser uma película cara tem desde logo um significado muito claro: os custos de produção são demasiado elevados. A Fujifilm tomou esta decisão baseada na lógica fria dos números: a despeito da popularidade, a clientela é apenas um nicho e não compensa, a uma empresa com a dimensão da Fujifilm, manter toda a maquinaria envolvida na produção de uma película em laboração para alimentar um mercado que consiste em alguns milhares de consumidores. O grupo Harman (Ilford e Kentmere), a ADOX, Ferrania e todos esses fabricantes conseguem manter os seus níveis de produção porque são pequenos e ágeis: esgotam toda a produção e não necessitam de investimentos colossais. Poderíamos pensar que um gigante como a Fujifilm teria a maior facilidade em investir na produção de película, mas não é bem assim que as coisas se passam. A Fujifilm funciona com base em economias de escala que não resultam com este tipo de produto. Tal como nos automóveis: a Mercedes ou a Ford podiam fazer pequenos desportivos descapotáveis, com caixas de velocidades manuais e tracção traseira para puristas, mas o número de consumidores não justificaria o investimento e, de resto, o seu preço seria proibitivo. Aliás, esta notícia não devia ser surpresa para ninguém: a Fujifilm tem vindo a cessar a produção de películas a uma cadência estonteante, pelo que mais tarde ou mais cedo a Neopan Acros 100 seria eutanasiada.

Deste modo, não há nada a temer com o fim de uma película. Por morrer uma película não acaba a fotografia argêntea. E não se dá o caso de não existirem excelentes alternativas.

M. V. M.

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Especulação

Se os leitores ainda se lembram do texto anterior, sabem que no Sábado que passou comprei um rolo de película Agfa Vista 200. Foi uma decisão sentimental, motivada pela notícia de que a sua produção vai terminar – e, pensando bem, foi uma escolha errada, porque estou muito satisfeito com algumas das fotografias (a preto-e-branco) que tenho feito ultimamente .

Seja como for, adquiri um rolo de 36 exposições por €4,00. Embora tivesse pagado menos €0,50 do que da última vez que comprei um Agfa Vista numa loja, não consigo deixar de me sentir perturbado quando leio que, numa certa cadeia de lojas do Reino Unido, é possível adquirir o mesmo rolo por £1. Sim, uma libra, ou €1,14. Apesar de estar convencido que é impossível, nas condições de distribuição e revenda existentes em Portugal, igualar o preço britânico sem prejuízo, esta diferença de preços veio recordar-me um assunto no qual tenho pensado amiudadas vezes: a especulação em torno do preço do material analógico.

É sempre assim. Quando surgem tendências desta natureza, há sempre os oportunistas que aproveitam para esmifrar o consumidor o mais que podem. Já com o vinil foi a mesma coisa: LPs que custavam pouco mais que €10 quando me reconverti (no início deste século) custam agora o dobro ou mais. Quanto às películas, a subida dos preços é muito menos gradual: o Tri-X, que custava pouco mais de cinco euros quando comecei a usá-lo, custava já mais de sete decorridos apenas dois anos; agora anda muito perto dos oito euros. O mesmo com os Portra e o Ektar 100. Os Fujifilm, então, nem se fala: o Pro 400H custa dez euros. É uma fortuna. De uma maneira geral, só as películas de menor qualidade, como as C200, custam preços aceitáveis.

Há, no meio de tudo isto, um apontamento curioso: a Ilford, cujas películas sempre foram caras, está a aproveitar esta inflação para introduzir películas acessíveis – pelo menos de acordo com os seus próprios padrões – sob a forma dos Pan 100 e Pan 400. E as Foma, Rollei, etc., continuam a ser vendidas por preços que nada têm de obscenos.

Este aumento dos preços do material fotográfico analógico é, evidentemente, contrário às leis da economia. Curiosamente, as empresas que alinham neste jogo especulativo são as maiores, ou pelo menos aquelas que têm mais procura: a Fujifilm e a Kodak (ou Kodak Alaris). O aumento violento do preço do Tri-X não se justifica, nem por a escassez da procura ter aumentado o custo de produção, nem por dificuldades financeiras: a Kodak vai relançar os slides Ektachrome, o que leva a suspeitar que não é a falta de meios que obriga a aumentos como estes.

Passa-se o mesmo com corpos e objectivas em segunda mão. Há pouco mais de cinco anos, era possível comprar um corpo Nikon FE por cerca de 100 euros; agora não é surpresa que peçam mais que o dobro pelo mesmo corpo. Embora neste caso o aumento de preços possa parecer razoável, uma vez que os artigos já não se produzem e, em consequência, tendem a tornar-se escassos, o que é certo é que também se degradam com o tempo e que a escassez de câmaras cuja produção atingiu volumes de milhões é, no mínimo, muito discutível.

Portanto, o que não falta é gente a tentar encher os bolsos à custa do entusiasmo cada vez mais forte pela fotografia analógica. Claro que, neste negócio, há pessoas cuja honestidade é vedado questionar, mas estas, por regra, não podem escapar aos circuitos comerciais e à sua lógica perversa. Os comerciantes, por venderem menos, saem tão prejudicados como os consumidores finais.

Tudo isto é muito triste, mas é assim que a economia funciona. É como Keynes dizia: «o capitalismo é a crença espantosa de que os piores patifes farão as maiores patifarias e irão com isso prover ao bem de todos».

M. V. M.

As minhas depressões

Ainda estou sob o efeito de um acontecimento traumático: na Quinta-feira à noite, não sei porquê, deu-me na telha ouvir um dos álbuns de Jazz mais reputados de sempre. Esse álbum é Jazz At Massey Hall, gravação ao vivo de um concerto em Toronto, no ano de 1953, do quinteto formado por Charlie Parker (saxofone alto), Dizzy Gillespie (trompete), Bud Powell (piano), Charles Mingus (contrabaixo) e Max Roach (bateria). A audição começou bem: com Perdido, confirmei tudo o que sabia sobre Parker, Gillespie, Mingus e Max Roach. Todos músicos abençoados pela genialidade. Contudo, foi a primeira vez que ouvi Bud Powell: é visível que a inspiração de Thelonious Monk veio deste pianista – embora Powell seja tecnicamente menos limitado.

Seguiu-se Salt Peanuts. Um refrão foleirito, mas audível – pelo menos até ao momento em que Dizzy Gillespie começa a emitir uns sons absurdos, tentando cantar as palavras «salt peanuts». Faltam-me palavras para descrever o que me passou pela mente ao ouvir aquilo. Imaginem que estão prestes a atingir o clímax e o vosso parceiro ou parceira decide fazer uma imitação do Nicolau Breyner (ou da Ivone Silva): foi essa a sensação que me perpassou. O meu interesse por Jazz At Massey Hall murchou imediatamente e parei de ouvir o álbum. Cada um daqueles músicos foi um génio – mas ainda bem que o concerto de Toronto foi a primeira e única ocasião em que este quinteto se juntou.

Não se aflijam, porque este texto não é completamente fora do tema. Apeteceu-me mencionar isto para justificar o estado de espírito que me assolou e, sobretudo, porque entendo ser dever de cada um preservar a higiene mental do seu semelhante. E esta é a minha contribuição para a saúde pública. Eis-vos avisados: não ouçam Jazz At Massey Hall.

O resultado desta audição – oh, como eu gostava de poder esquecer aquelas palavras cantadas tão idioticamente por John Birks Gillespie! – foi fazer-me entrar em depressão profunda. Passei o dia de ontem deitado, com duas bolas de silicone obstruindo-me os ouvidos e evitando ver fosse o que fosse que me lembrasse Toronto, o ano de 1953, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Charles Mingus ou Max Roach. Comer amendoins salgados estava, evidentemente, fora de qualquer cogitação.

Hoje já não tenho a audição de Salt Peanuts presente na minha memória, mas os efeitos da depressão continuaram a manifestar-se. Andei todo o dia triste e soturno. De tarde, fiz fotografias tristes e soturnas e, quando levei o rolo para revelar e digitalizar, vi caixas de Agfa Vista 200 e 400 à venda na loja. Senti uma comoção profunda e não resisti: de olhos mareados de lágrimas, resolvi fazer um interregno na fotografia pancromática e prestar a minha última homenagem ao defunto Agfa Vista 200. Agora resta-me esperar que a depressão induzida pelo Dizzy Gillespie desvaneça, porque a vida é a cores e a vida não deve ser deprimente.

(Nota: este texto é satírico. É verdade que ouvi Jazz At Massey Hall e que comprei um rolo Agfa Vista, mas estava apenas a brincar quando disse que as palavras «salt peanuts» zurradas por Dizzy Gillespie me fizeram entrar em depressão. Não fizeram: apenas me fizeram deplorar o ridículo e sentir-me embaraçado. O conselho de não ouvirem aquele disparate é sério. Não ouçam. Pode levar-vos a nunca mais respeitar aqueles monstros do Be-bop, ou mesmo a nunca mais ouvir Jazz, o que seria lamentável.)

(P. S.: também nunca tive nenhuma parceira que se pusesse a imitar o Nicolau Breyner em momentos íntimos.)

M. V. M.

Agfa Vista, R. I. P.

Antes de entrar no tema de hoje, uma informação inútil – ou, pelo menos, de utilidade limitada: na semana passada saí do facebook. Estava a receber quotidianamente duas ou mais mensagens de email, com remetente identificado como «facebook», convidando-me a ver a publicação de F. que perdi ou a responder à mensagem de S. Depois ia à minha página e via que essas actividades facebookianas eram falsas, pelo que concluí estar a ser objecto de um esquema qualquer, engendrado por alguém que acedeu indevidamente ao meu endereço de email e à minha lista de contactos do facebook (os nomes mencionados nas mensagens de email correspondiam aos de «amigos» reais). Não estou para aturar isto, muito menos depois de me ter saturado da incrível frivolidade que as pessoas demonstram no facebook. Vai-me fazer falta para promover o livro, mas que se dane! Há coisas inaceitáveis – e ter a privacidade dos meus dados violada é, evidentemente, uma delas.

Nada como uma péssima notícia para animar depois de uma má notícia: há um tipo que vive no Japão e se dedica a comprar e vender máquinas fotográficas e narra as suas aventuras e desventuras num website chamado Japan Camera Hunter. Narra-nos o JCH, desta vez, que a película a cores Agfa Vista vai acabar. Que devo pensar disto?

Antes de mais, que fico um pouco triste. O Agfa Vista foi o rolo a cores que mais usei, e com resultados quase sempre satisfatórios. Era barato, mas de qualidade mais que aceitável. Por vezes era frustrante ter de corrigir o excesso de vermelho deste rolo, mas no geral era agradável de usar. Tinha muito grão, mesmo na versão ASA 200, e não tinha uma acutância do outro mundo, mas tinha uma virtude que apreciava: era muito consistente sob diferentes condições de iluminação. E tinha um contraste interessante.

Depois de ter fotografado exclusivamente a cores durante quase um ano, voltar ao preto-e-branco providenciou-me uma sensação semelhante à dos linces ibéricos que, depois do cativeiro, são devolvidos ao seu habitat natural. Isto não significa que não tivesse ficado satisfeito com a experiência; apenas que a cor não é a linguagem em que me exprimo mais fluentemente. Usar os Agfa, contudo, ajudou-me a fazer fotografias mais de acordo com as minhas ideias: não era demasiado garrido nem muito deslavado e podia fotografar à sombra sem que o tingimento azul-ciano que afecta outras emulsões se manifestasse em demasia.

Será que esta morte do Agfa Vista é um prenúncio do fim do revivalismo analógico? Hmmm… não. Convém começar por dizer que as Agfa já não eram produzidas pela Agfa-Gevaert, mas pela Fujifilm, por encomenda de uma empresa alemã denominada Lupus que, aparentemente, adquirira o direito de usar a marca Agfa (embora como «Agfaphoto»). Nós sabemos que a Fujifilm, para recuperar o dinheiro que investe nas suas frívolas mirrorless, tem vindo regularmente a suprimir a produção de películas, pelo que não é surpresa nenhuma que as Agfa acabem. Mas isto não quer dizer que a fotografia analógica vá finalmente descansar em paz no céu das tecnologias ultrapassadas: ainda há muitas películas por onde escolher – especialmente no domínio do preto-e-branco.

Vou ter saudades dos Agfa Vista.

Certo é que agora, quando quiser voltar a fotografar a cores, vou sentir-me órfão.As escolhas vão ficar bastante reduzidas. As películas equivalentes da Fujifilm (Fujicolor C200, Superia 200 e Superia X-Tra 400) são subjectivamente piores que as Agfa; a Kodak Gold é demasiado garrida, as Portra e Ektar são proibitivas (um dia vou escrever sobre a especulação que se faz agora com o preço do material analógico) e, a menos que a Ferrania apareça rapidamente com qualquer coisa, corro o risco de perder o gosto da fotografia a cores. O que não é fatal, porque o preto-e-branco é aquilo de que gosto. Mas no Verão sabe tão bem fotografar a cores…

M. V. M.

Eu, a Fórmula 1 e Richard Kelley

Os leitores mais atentos sabem que o M. V. M. nutriu um interesse intenso pelas coisas do desporto automóvel, cujo pináculo é a modalidade denominada Fórmula 1. Este é um interesse inexplicável, porque o meu lado racional é em tudo avesso – ou devia ser – ao automóvel. Se formos a pensar bem, vivemos em cidades que foram concebidas (ou adaptadas) em função do automóvel, e se pensarmos mesmo a fundo, teremos de concluir que o automóvel é causa concorrente dos grandes conflitos dos nossos dias, os quais originam da luta pela posse daquilo que move os automóveis – o petróleo. Além de fomentar a cobiça e a vaidade, entre muitos outros problemas. O automóvel participa, deste modo, no absurdo da existência contemporânea. E a sua contribuição não é despicienda.

E, contudo, não consigo desviar os olhos quando vejo um Alfa Romeo 4C e ouço o som rouco do seu motor. Este gosto por automóveis – que, ao que se diz, é uma característica dos portuenses – levou-me, evidentemente, a ver grandes prémios de Fórmula 1. Este interesse está a esmorecer: este desporto, que era para pessoas conhecedoras que apreciavam a tecnologia e a técnica da condução, tornou-se num espectáculo de massas em tudo igual ao futebol. Não tenho paciência para a forma repugnante como a comunicação social tenta construir e destruir a reputação de pilotos, equipas e mesmo de dirigentes desportivos. Nos websites, os espaços de comentários tornaram-se lugares irrespiráveis onde ninguém no seu perfeito juízo quer permanecer.

Apesar de tudo, trinta e sete anos de atenção não se apagam facilmente. Tal como não desaparece a recordação dos tempos em que tudo era mais romântico – ou, pelo menos, mais romanceado. («Romântico», para quem não sabe, é aquilo em que a sensibilidade prevalece sobre a razão.) Estas evocações do passado vieram assombrar-me quando descobri o website de Richard Kelley, um fotojornalista cuja carreira se estendeu por quarenta e cinco anos. Descobri Kelley e as suas fotografias através de um artigo no The Online Photographer cujo assunto é o piloto François Cevert, que morreu nos treinos para o Grande Prémio dos Estados Unidos de 1973, na pista de Watkins Glen. A fotografia que ilustra o texto é espantosa: Uma característica de Cevert era os seus olhos incrivelmente expressivos, um olhar azul intenso que chegava a perturbar. Esta intensidade está presente na fotografia de Kelley, que a executou no dia em que Cevert morreu.

A curiosidade levou-me a visitar o website. Eu conhecia fotografias de Rainer Schlegelmilch, Bernard Cahier e Mark Sutton – e mesmo as de Martin Parr a que aludi neste texto do Número f/ – mas as de Richard Kelley estão noutro escalão. Fazem todas as outras parecer banais. Não são fotografias dos automóveis em acção na pista, mas de pilotos, engenheiros, chefes de equipa, mecânicos – numa palavra: fotografias de gente. São fotografias perfeitas, quer no conteúdo, quer na forma: vê-se a personalidade dos pilotos e o ambiente do paddock, mas vê-se sobretudo a marca pessoal do fotógrafo. Estas não são fotografias com propósito meramente ilustrativo: são obras originais, são arte. E a execução é brilhante, sublinhada pela atmosfera que só o grão das boas películas confere às fotografias.

O meu conselho: mesmo que não gostem de Fórmula 1, não deixem de visitar o website de Richard Kelley. As fotografias ali publicadas valem por si, não pelo que ilustram.

M. V. M.

Back in Black (and White)

De volta ao tema deste blogue para dizer, como Arnold Schwarzenegger, I’m back. E, parafraseando os AC/DC, Back in Black – ou melhor, in black and white. Agora que recebi as digitalizações das fotografias que fiz com o Ilford Pan 400, já tenho alguma coisa a dizer.

Antes de me referir às características desta película, porém, algumas considerações sobre este regresso ao preto-e-branco. Voltar às películas pancromáticas depois de um ano a fotografar a cores foi como voltar a casa depois de uma longa estada num país estrangeiro. Um país agradável, mas que não é a terra à qual pertenço. Vejo que a minha estética se adequa muito mais ao preto-e-branco do que à cor. Eu não sou um fotógrafo de renome nem para lá caminho, mas se o fosse seria mais da escola de Ray K. Metzker que da de Harry Gruyaert.

Curiosamente, ao comparar duas fotografias do mesmo local – uma a cores e a outra a preto-e-branco –, senti que, embora a fotografia a preto-e-branco fosse mais coerente (em termos puramente gráficos), lhe faltava qualquer coisa que a fotografia a cores tinha em abundância: a primeira parecia recessa, sem vivacidade, sem snap. Talvez seja apenas uma questão de hábito – mas lá que a fotografia a cores me pareceu mais vívida e vibrante, pareceu.

Felizmente não tenho de fazer opções definitivas. Se me apetecer, o próximo rolo pode ser a cores. A experiência não foi de todo de rejeitar. Se tivesse de fazer uma escolha tão drástica, porém, creio que optaria pelo preto-e-branco. Com ele as linhas e os volumes ganham maior importância e eu preciso desse contexto gráfico.

Dito isto, a película que usei neste meu regresso ao preto-e-branco é um bastardo da Ilford. É uma película que é feita para mercados específicos – está para a Ilford como o C-Elysée para a Citroën –, mas, tal como aqui em Portugal acabamos a comprar carros como este último e o Fiat Tipo, também aqui o Ilford Pan 400 é uma alternativa barata ao luxuriante HP5.

O Pan 400 é, ao que me parece, um Kentmere 400 rebaptizado. Não tenho muita certeza quanto a isto – é lógico, pois a Kentmere e a Ilford pertencem ambas à Harman Technology –, porque o Pan 400 parece-me ter características de resolução que o aproximam seriamente do HP5. Não sei onde a Ilford conseguiu cortar quase 2 euros ao valor do HP5 se assim for, mas o que é certo é que as fotografias que recebi se assemelham em muito às que havia feito anteriormente com o HP5. Há um menor requinte na apresentação: neste particular, o Pan 400 lembra-me mais o Fomapan 200 ou o já referido Kentmere 400, embora com um recorte mais pronunciado dos objectos. (Mas as altas luzes são tipicamente Ilford.) O grão é interessante e expressivo, o que é uma vantagem sobre o HP5, cujo grão faz com que as pessoas pareçam acometidas de varicela.

Mais do que maçar o leitor com elementos técnicos (quanto aos quais, de resto, não tenho habilitações para me pronunciar), importa responder a uma questão importante: é bom negócio poupar cerca de um euro e meio e preterir o HP5 em favor do Pan 400?

A resposta é: sim. Esta película dá uma resolução semelhante e, embora a qualidade de imagem pareça inferior, não se perde realmente muito. A Ilford faz muito bem em oferecer esta película: as suas películas perdiam posição de mercado para rolos como os Fomapan e Agfa APX e o nome Ilford vende mais que o Kentmere. A despeito de já não existir o sufoco económico de há apenas dois anos, gastar um-euro-e-meio para adquirir uma película que é pouco melhor que a sua equivalente mais barata faz pouco sentido.

M. V. M.

A novidade da semana

Ainda não sei muito bem o que pensar da grande notícia fotográfica da semana. Esta minha hesitação deixou-me paralisado, sem conseguir mover um músculo, com a mente bloqueada – o que explica a ausência de textos no Número f/ – e sem reacção a estímulos externos.

E que notícia foi esta que me conseguiu deixar em estado catatónico? Uma empresa – acho que é a isto que se chama startup – lançou uma campanha de angariação de fundos na Internet (um kickstarter, isto eu sei de certeza) para produzir nem mais nem menos que uma máquina fotográfica analógica. Uma SLR, com visor óptico e pentaprisma e tudo. Se tiverem sucesso – eu desconfio sempre um bocado destas campanhas –, será o primeiro lançamento de uma máquina SLR de formato 135 em vinte e cinco anos. Pelo menos é o que dizem, porque tenho a impressão que houve lançamentos de máquinas SLR deste formato depois de 1992. Seja como for, é sempre de ficar atento a uma notícia destas. Não é todos os dias que são anunciadas máquinas analógicas.

Uma característica irritante desta máquina anunciada é o nome: chama-se Reflex. Assim mesmo, tal como está gravado na parte frontal do alojamento do pentaprisma: REFLEX. Ninguém pode acusar os mentores deste projecto de terem uma imaginação delirante – pelo menos para nomes, porque no que toca à câmara propriamente dita a história é bem diferente. Bem vêem, esta câmara torna real o sonho de muitos amantes de objectivas «analógicas», que é o de usar objectivas de sistemas diferentes num só corpo: em lugar de recorrer a adaptadores, que podem deteriorar as propriedades ópticas das objectivas, a Reflex permite a montagem de diversas baionetas. Há um painel amovível chamado I-Plate – mais uma demonstração de falta de imaginação para nomes – que é montado no corpo da máquina e tem embutida uma de diversas baionetas – M42, Nikon F, Olympus OM, Canon FD e Pentax PK. Uma solução engenhosa que toda a gente já imaginara mas nunca ninguém se atreveu a fazer. Só por isto as pessoas por detrás do projecto Reflex já merecem algum crédito.

As novidades não ficam pelas baionetas intermutáveis. O painel traseiro (criativamente chamado I-Back) é também modular. Em lugar de uma tampa amovível que se abre para instalar o rolo, como em todas as outras máquinas de película, toda a parte traseira da máquina é desmontável. O rolo não é montado no corpo, mas num módulo que encaixa na parte traseira da câmara. O que tem a vantagem de se poder mudar de rolo à luz do dia, desde que este esteja previamente instalado num módulo adicional. É verdade que a Ricoh GXR é ainda mais prática, porque o mesmo módulo aloja a baioneta e um sensor, mas a Ricoh GXR é uma câmara digital (e, por sinal, bastante feia e muito limitada: não tem visor de qualquer espécie).

A Reflex é uma câmara interessante. Não se pode dizer que é bonita como uma Nikon FM3A ou uma Olympus OM-1: as suas linhas invocam as Praktica e as Kiev dos anos 60 do século passado. Mas é uma máquina com toques agradáveis, como uma saliência discreta no painel frontal para tornar o manuseamento mais cómodo e seguro e o botão do obturador instalado no painel frontal. Há também um pormenor que é supérfluo para a maioria dos entusiastas da fotografia analógica, mas não deixa de ser curioso: esta máquina tem incorporados um flash e um dispositivo de iluminação por LED. Provavelmente, atento o seu tamanho, são demasiado fracos para iluminar objectos a mais de meio metro de distância, mas há-de haver quem lhes encontre alguma utilidade. Mais importante, porém, é que os tempos de exposição vão até 1/4000 com um obturador de cortinas de comando electrónico que possibilita o uso da máquina no modo de prioridade à abertura.

O objectivo – a esta hora já ultrapassado – é angariar £100,000, mas se o financiamento atingir £150,000, poderá ser lançada uma app que fará com que a máquina comunique (via Bluetooth) com outros dispositivos e grave no smartphone os metadados da fotografia. Aqui está uma app que me poderia fazer usar o telemóvel durante as minhas sessões fotográficas.

Este é um projecto cheio de boas ideias. A baioneta modular é para muitos um sonho tornado realidade – ou será, se o projecto tiver viabilidade. Muitos coleccionadores de objectivas poderão fazer as suas sessões fotográficas com objectivas de baionetas diferentes recorrendo a um só corpo. E as coisas nem sequer sairão muito caras: o kit completo custará £600, o que é muito menos que uma câmara digital full frame. Apesar da minha desconfiança em relação a estes kickstarters, este tem, no mínimo, o mérito de basear-se numa ideia brilhante.

M. V. M.