Back in Black (and White)

De volta ao tema deste blogue para dizer, como Arnold Schwarzenegger, I’m back. E, parafraseando os AC/DC, Back in Black – ou melhor, in black and white. Agora que recebi as digitalizações das fotografias que fiz com o Ilford Pan 400, já tenho alguma coisa a dizer.

Antes de me referir às características desta película, porém, algumas considerações sobre este regresso ao preto-e-branco. Voltar às películas pancromáticas depois de um ano a fotografar a cores foi como voltar a casa depois de uma longa estada num país estrangeiro. Um país agradável, mas que não é a terra à qual pertenço. Vejo que a minha estética se adequa muito mais ao preto-e-branco do que à cor. Eu não sou um fotógrafo de renome nem para lá caminho, mas se o fosse seria mais da escola de Ray K. Metzker que da de Harry Gruyaert.

Curiosamente, ao comparar duas fotografias do mesmo local – uma a cores e a outra a preto-e-branco –, senti que, embora a fotografia a preto-e-branco fosse mais coerente (em termos puramente gráficos), lhe faltava qualquer coisa que a fotografia a cores tinha em abundância: a primeira parecia recessa, sem vivacidade, sem snap. Talvez seja apenas uma questão de hábito – mas lá que a fotografia a cores me pareceu mais vívida e vibrante, pareceu.

Felizmente não tenho de fazer opções definitivas. Se me apetecer, o próximo rolo pode ser a cores. A experiência não foi de todo de rejeitar. Se tivesse de fazer uma escolha tão drástica, porém, creio que optaria pelo preto-e-branco. Com ele as linhas e os volumes ganham maior importância e eu preciso desse contexto gráfico.

Dito isto, a película que usei neste meu regresso ao preto-e-branco é um bastardo da Ilford. É uma película que é feita para mercados específicos – está para a Ilford como o C-Elysée para a Citroën –, mas, tal como aqui em Portugal acabamos a comprar carros como este último e o Fiat Tipo, também aqui o Ilford Pan 400 é uma alternativa barata ao luxuriante HP5.

O Pan 400 é, ao que me parece, um Kentmere 400 rebaptizado. Não tenho muita certeza quanto a isto – é lógico, pois a Kentmere e a Ilford pertencem ambas à Harman Technology –, porque o Pan 400 parece-me ter características de resolução que o aproximam seriamente do HP5. Não sei onde a Ilford conseguiu cortar quase 2 euros ao valor do HP5 se assim for, mas o que é certo é que as fotografias que recebi se assemelham em muito às que havia feito anteriormente com o HP5. Há um menor requinte na apresentação: neste particular, o Pan 400 lembra-me mais o Fomapan 200 ou o já referido Kentmere 400, embora com um recorte mais pronunciado dos objectos. (Mas as altas luzes são tipicamente Ilford.) O grão é interessante e expressivo, o que é uma vantagem sobre o HP5, cujo grão faz com que as pessoas pareçam acometidas de varicela.

Mais do que maçar o leitor com elementos técnicos (quanto aos quais, de resto, não tenho habilitações para me pronunciar), importa responder a uma questão importante: é bom negócio poupar cerca de um euro e meio e preterir o HP5 em favor do Pan 400?

A resposta é: sim. Esta película dá uma resolução semelhante e, embora a qualidade de imagem pareça inferior, não se perde realmente muito. A Ilford faz muito bem em oferecer esta película: as suas películas perdiam posição de mercado para rolos como os Fomapan e Agfa APX e o nome Ilford vende mais que o Kentmere. A despeito de já não existir o sufoco económico de há apenas dois anos, gastar um-euro-e-meio para adquirir uma película que é pouco melhor que a sua equivalente mais barata faz pouco sentido.

M. V. M.

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A novidade da semana

Ainda não sei muito bem o que pensar da grande notícia fotográfica da semana. Esta minha hesitação deixou-me paralisado, sem conseguir mover um músculo, com a mente bloqueada – o que explica a ausência de textos no Número f/ – e sem reacção a estímulos externos.

E que notícia foi esta que me conseguiu deixar em estado catatónico? Uma empresa – acho que é a isto que se chama startup – lançou uma campanha de angariação de fundos na Internet (um kickstarter, isto eu sei de certeza) para produzir nem mais nem menos que uma máquina fotográfica analógica. Uma SLR, com visor óptico e pentaprisma e tudo. Se tiverem sucesso – eu desconfio sempre um bocado destas campanhas –, será o primeiro lançamento de uma máquina SLR de formato 135 em vinte e cinco anos. Pelo menos é o que dizem, porque tenho a impressão que houve lançamentos de máquinas SLR deste formato depois de 1992. Seja como for, é sempre de ficar atento a uma notícia destas. Não é todos os dias que são anunciadas máquinas analógicas.

Uma característica irritante desta máquina anunciada é o nome: chama-se Reflex. Assim mesmo, tal como está gravado na parte frontal do alojamento do pentaprisma: REFLEX. Ninguém pode acusar os mentores deste projecto de terem uma imaginação delirante – pelo menos para nomes, porque no que toca à câmara propriamente dita a história é bem diferente. Bem vêem, esta câmara torna real o sonho de muitos amantes de objectivas «analógicas», que é o de usar objectivas de sistemas diferentes num só corpo: em lugar de recorrer a adaptadores, que podem deteriorar as propriedades ópticas das objectivas, a Reflex permite a montagem de diversas baionetas. Há um painel amovível chamado I-Plate – mais uma demonstração de falta de imaginação para nomes – que é montado no corpo da máquina e tem embutida uma de diversas baionetas – M42, Nikon F, Olympus OM, Canon FD e Pentax PK. Uma solução engenhosa que toda a gente já imaginara mas nunca ninguém se atreveu a fazer. Só por isto as pessoas por detrás do projecto Reflex já merecem algum crédito.

As novidades não ficam pelas baionetas intermutáveis. O painel traseiro (criativamente chamado I-Back) é também modular. Em lugar de uma tampa amovível que se abre para instalar o rolo, como em todas as outras máquinas de película, toda a parte traseira da máquina é desmontável. O rolo não é montado no corpo, mas num módulo que encaixa na parte traseira da câmara. O que tem a vantagem de se poder mudar de rolo à luz do dia, desde que este esteja previamente instalado num módulo adicional. É verdade que a Ricoh GXR é ainda mais prática, porque o mesmo módulo aloja a baioneta e um sensor, mas a Ricoh GXR é uma câmara digital (e, por sinal, bastante feia e muito limitada: não tem visor de qualquer espécie).

A Reflex é uma câmara interessante. Não se pode dizer que é bonita como uma Nikon FM3A ou uma Olympus OM-1: as suas linhas invocam as Praktica e as Kiev dos anos 60 do século passado. Mas é uma máquina com toques agradáveis, como uma saliência discreta no painel frontal para tornar o manuseamento mais cómodo e seguro e o botão do obturador instalado no painel frontal. Há também um pormenor que é supérfluo para a maioria dos entusiastas da fotografia analógica, mas não deixa de ser curioso: esta máquina tem incorporados um flash e um dispositivo de iluminação por LED. Provavelmente, atento o seu tamanho, são demasiado fracos para iluminar objectos a mais de meio metro de distância, mas há-de haver quem lhes encontre alguma utilidade. Mais importante, porém, é que os tempos de exposição vão até 1/4000 com um obturador de cortinas de comando electrónico que possibilita o uso da máquina no modo de prioridade à abertura.

O objectivo – a esta hora já ultrapassado – é angariar £100,000, mas se o financiamento atingir £150,000, poderá ser lançada uma app que fará com que a máquina comunique (via Bluetooth) com outros dispositivos e grave no smartphone os metadados da fotografia. Aqui está uma app que me poderia fazer usar o telemóvel durante as minhas sessões fotográficas.

Este é um projecto cheio de boas ideias. A baioneta modular é para muitos um sonho tornado realidade – ou será, se o projecto tiver viabilidade. Muitos coleccionadores de objectivas poderão fazer as suas sessões fotográficas com objectivas de baionetas diferentes recorrendo a um só corpo. E as coisas nem sequer sairão muito caras: o kit completo custará £600, o que é muito menos que uma câmara digital full frame. Apesar da minha desconfiança em relação a estes kickstarters, este tem, no mínimo, o mérito de basear-se numa ideia brilhante.

M. V. M.

De volta

Chega de silêncio. Durante cinco meses dediquei-me a um estudo exaustivo do ramo do direito que pretendo dominar – «dominar» como quem «domina» uma língua estrangeira, porque é impossível saber tudo sobre um sector do direito – e isto teve repercussões nefastas sobre a actividade bloguística do M. V. M. Tive menos tempo e disposição para escrever, mas sobretudo ganhei uma consciência renovada das minhas limitações na fotografia.

Eu explico. O estudo que empreendi foi sobre direito de autor. Este ramo do direito abrange obras literárias, artísticas e científicas e, entre as do meio, está – evidentemente – a obra fotográfica. Aprendi que, para que uma fotografia seja protegida pelo direito de autor – vamos esquecer o caso português, porque a legislação nacional na matéria é simplesmente grotesca –, tem de ser original. Por «original» entende-se ser criação intelectual do próprio autor. Embora o direito não possa ser explicação para tudo e a noção jurídica de «originalidade» seja mais limitada do que a que usamos de forma comum (como qualidade do que é único e inconfundível), o meu estudo levou-me a uma meditação introspectiva sobre as minhas fotografias. Concluí que, salvo dois ou três exemplos isolados, «original» não é certamente a palavra que primeiro vem à mente de quem vê as minhas fotografias.

Isto foi castrador. Dei por mim a trocar a fotografia por outras actividades por não me apetecer fazer fotografias que, quando não são iguais ao que outros fizeram antes de mim, são iguais ao que eu fiz antes. Demorei dois meses a expor um rolo à custa destas minhas meditações – e tenho a certeza de que vou ficar desiludido quando receber as digitalizações. Tive duas saídas com a máquina em que, simplesmente, não fiz uma única fotografia. Não valia a pena. Não seriam originais, não trariam nada de novo.

Não foi só as minhas fotografias que passei a ver com olhos mais críticos. Quando abria o Público – o único jornal que aposta no fotojornalismo – há apenas seis meses, extasiava-me com a qualidade das fotografias em geral. Hoje, quando as olho, faço muitas perguntas. São originais? Exprimem uma ideia? Há criatividade nelas? Uma ou outra respondem afirmativamente a todas estas questões – o que não é surpresa nenhuma quando um jornal emprega fotógrafos como Adriano Miranda –, mas não muitas mais.

Um dos meus problemas foi nunca ter conseguido desprender-me das minhas influências. Por vezes gostava de passar uma esponja sobre a memória que tenho de fotografias que vi, quer feitas por outros ou tiradas por mim. Estou constantemente a procurar referências na temática, na composição e na perspectiva. A minha única resistência é ao uso permanente da perspectiva de grande-angular, de que toda a gente abusa (e, quando toda a gente abusa de algo, que lugar há para a criatividade?). Gostava – e espero vir a consegui-lo – libertar-me de tudo isto e fazer fotografias verdadeiramente originais. Isto dá muito mais trabalho do que usar uma câmara no modo manual ou calcular as equivalências quando se usa um sensor inferior a 36x24mm.

Outra descoberta deste período sinistro foi que a minha mudança para a cor não era assim tão definitiva. Convenhamos que vivo numa cidade muito pouco cromática – o Porto não é exactamente Nova Deli ou Marraquexe –, o que torna difícil usar a linguagem da cor em pleno. As estéticas da cor e do preto-e-branco não são intermutáveis: uma fotografia que resulta muito bem a preto-e-branco pode ser um desastre a cores, e vice-versa. E eu sinto que a minha linguagem é a do preto-e-branco. Por causa disto, resolvi voltar às películas pancromáticas – nem que seja só para confirmar que estava certo quando resolvi dedicar-me à cor. O preto-e-branco é uma maneira fácil de dar à fotografia um cunho «artístico»: como há muita gente a ter a mesma ideia, fotografar a preto-e-branco deixou de ser muito original. Contudo, fotografar a cores ainda deixa menos espaço à originalidade: a cor torna as composições muito factuais.

Neste meu regresso ao preto-e-branco vou experimentar um rolo diferente, embora de uma marca que me é familiar: é o Ilford Pan 400, ao que parece uma película desenvolvida para alguns mercados (espero que não seja o Citroën C-Elysée das películas). Sejam quais forem os resultados, eu vou dar-vos conta deles aqui no Número f/ – mas, se fosse a vós, não esperava de pé pela apreciação daqui do autor.

M. V. M.

Fujicolor C200

Eu sou, provavelmente, daquelas pessoas que pensam demais. Estou constantemente a questionar tudo o que faço e esta coisa da fotografia, evidentemente, não é excepção.

Desta vez foi o uso de uma daquelas películas «económicas» – da estirpe que era adquirida para as fotos de família, suficientemente versáteis para fotografar na praia ou dentro de casa – que me motivou algumas reflexões. Mas não daquelas que levam a conclusões cínicas e destrutivas. Pelo contrário.

Esta película a que me refiro é a Fujicolor C200, que pode ser adquirida por €3,00 individualmente ou por €5,00 num pacote de dois rolos. As reflexões que me suscitaram foi sobre o que quero para as minhas fotografias. No geral, o uso de película fez-me perceber que a qualidade da imagem não é – não pode ser – o principal objectivo da fotografia. Esta tem de ter, antes de mais, um conteúdo, nem que seja meramente estético. Digamos que, na hierarquia das minhas escolhas, a qualidade da imagem não vem em primeiro lugar.

Mas este Fujicolor fez-me ver outra coisa: eu não estou disposto a sacrificar por completo a qualidade da imagem. Por «qualidade da imagem» refiro-me a aspectos como a nitidez, o contraste e, com pertinência para o que tenho vindo a fazer desde Novembro do ano passado, a precisão das cores. E é exactamente esta a razão por que hesitei tanto tempo e fiz tantas experiências com películas diferentes: nenhuma me deu o que procurava. Umas eram demasiado garridas, outras só se comportavam bem debaixo de condições de luz muito específicas. Encontrei um bom equilíbrio nas Agfa Vista, mas não são de modo nenhum perfeitas: a nitidez deixa muito a desejar e os vermelhos e cianos tendem a deteriorar a apresentação das cores.

Dito isto, e sabendo que as películas da Agfaphoto são feitas pela Fujifilm, resolvi experimentar um rolo de Fujicolor C200. Talvez fosse esta a película que a Fujifilm produz para ser vendida sob a marca Agfa, o que me faria poupar algum dinheiro.

De certo modo, não me enganei. Há muitos aspectos em que a C200 e a Vista se equivalem. Simplesmente, e a despeito de ambas partilharem os mesmos defeitos, é como se tudo o que a Agfa Vista faz mal, a C200 fizesse pior: o grão é pior, tal como o contraste e a nitidez. O contraste, em particular, é quase inexistente na C200. E, evidentemente, há o equilíbrio das cores: o Vista 200 tinge as imagens de vermelho e de ciano, o que por vezes torna a correcção num pesadelo, mas a C200, talvez para fazer jus aos verdes que fizeram a reputação das películas Fujifilm, acrescenta os verdes a esta exacerbação das matizes. O que tem resultados simplesmente destrutivos: os vermelhos surgem indevidamente carregados, mais parecendo castanhos, o que é impossível de corrigir sem perder saturação nos azuis e nos próprios verdes. (E lá se vão os lendários verdes da Fuji pelo cano abaixo.)

É difícil apontar o dedo à diferença entre as fotografias feitas com os Vista 200 e este C200, mas as primeiras são claramente mais agradáveis de se ver. Tecnicamente, as semelhanças entre as qualidades e os defeitos é insuficiente para favorecer uma em relação à outra, mas não há dúvidas que a estética e as cores das fotografias em que usei a Agfa são melhores. Isto é daquelas coisas que não têm uma explicação racional, mas acontecem. A película da Agfa, além de ser mais consistente sob diferentes condições de luz, é mais vibrante e produz cores mais precisas. A diferença entre ambas não é abismal – pelo contrário: quando a C200 funciona bem bem, os resultados são idênticos –, mas é suficiente para justificar a diferença de preço.

Esta experiência teve, pelo menos, o mérito de tornar mais perceptível o patamar de qualidade do qual não estou disposto a descer. A Agfa Vista não é perfeita, mas a C200 é muito insatisfatória.

M. V. M.

A importância de ser Ernst

Por Ernst Haas

Agora que os efeitos da depressão em que induzi os leitores do último texto já dissiparam, vou voltar à técnica. Tenho para mim que a técnica só é importante se ajudar a conferir expressão à fotografia. Neste aspecto há um fotógrafo que considero absolutamente exemplar na conjugação entre técnica e expressão: este fotógrafo foi o austríaco Ernst Haas. Ficaram-me na memória fotografias feitas por este fotógrafo (que nos deixou demasiado cedo) durante corridas de touros, nas quais Haas usou o arrastamento. O efeito atingido tem um cunho artístico indesmentível e torna a fotografia extremamente expressiva. Haas nunca teve receio de experimentar técnicas – nem teve problemas em converter-se à fotografia a cores –, mas as técnicas que usou nunca foram mais que meras auxiliares da expressão. Hoje o que mais se vê é fotografias em que a técnica é utilizada como um fim em si, sendo o motivo secundário e a mensagem inexistente: a única coisa que o fotógrafo diz, com estas fotografias frívolas, é qualquer coisa como «olha que bem que eu domino a técnica». Não me parece suficiente para apreciar uma fotografia.

Mas hoje não queria escrever sobre os tipos de técnica implícitos na fase experimental de Ernst Haas: era uma questão técnica diferente e mais simples. Como sabem, tenho passado os meus últimos meses a fotografar com película 135 a cores, o que é quase anátema na comunidade analógica. Descobri, como também já narrei, uma película que, embora não me satisfaça inteiramente, atinge um bom equilíbrio nas áreas mais importantes. Esta película é a Agfa Vista. Tem muito grão e privilegia os vermelhos e magentas, mas estes são problemas fáceis de corrigir. Quando são verdadeiros problemas, porque por vezes descubro que as fotografias fazem mais sentido na versão não corrigida.

Ora, é possível que alguns ainda se lembrem de eu ter afirmado aqui que é muito difícil fotografar a cores. Especialmente com película. Descobri que tudo se torna mais difícil com o Agfa Vista, o qual, quando não é correctamente exposto, produz cores deslavadas e francamente feias. Aprendi com isto duas coisas: uma é o que os pioneiros da fotografia a cores como William Eggleston sabiam desde o início: fotografar com película a cores implica expor para as altas luzes. A outra, que está relacionada com a primeira, é que, mesmo apontando para as altas luzes, não se deve confiar na indicação do fotómetro. Deve subexpor-se. E não timidamente: por vezes deve tirar-se -1 EV ao que o ponteiro indica ser a exposição ideal.

Com isto, o Agfa Vista parece que ganhou outra vida. Os azuis, que são o ponto forte desta película, tornam-se ainda melhores; as outras cores tornam-se mais ricas, sem serem berrantes. Faz perguntar por que há tanta gente a gastar fortunas com rolos como o Portra e com diapositivos.

E o melhor de tudo é que esta maneira de fotografar não tem nenhum inconveniente. A película a cores tem uma gama de exposição tão boa que as sombras não ficam bloqueadas se se subexpuser como eu preconizo. É evidente que, se se exagerar na subexposição, as fotografias ficam simplesmente escuras e pesadas, mas eu estou a referir-me a -1 EV, o que equivale a fotografar com f/11 em vez de f/8, ou com 1/1000 em vez de 1/500. Não é muito, nem mesmo se levarmos em conta que já estamos a expor para as altas luzes.

O meu conselho é este: experimentem subexpor ligeiramente, mesmo se estiverem a usar uma câmara digital. O contraste e a saturação vão beneficiar. Provavelmente vão ter sombras bloqueadas, mas a informação está toda na imagem e é facílimo levantar as sombras na edição de imagem. Experimentem. Afinal de contas, se experimentar resultou com Ernst Haas, por que não havia de resultar convosco?

M. V. M.

Efeméride

Verifico com alguma preocupação, ao ler os meus últimos textos, que estes estão embebidos em amargura. São textos azedos e zangados. Chega. Não há razão para sobrecarregar os leitores com as minhas quezílias. Hoje o texto é festivo: assinala um aniversário. Foi no dia 12 de Junho de 2013 que adquiri a minha Olympus OM-2n e, consequentemente, descobri a fotografia analógica. (Quer dizer: já a conhecia, mas não com a intimidade que adquiri desde que comprei a OM.)

Que posso eu dizer acerca desta máquina caprichosa – já foi reparada duas vezes e volta e meia o espelho bloqueia – que me ensinou tudo o que eu precisava de saber sobre fotografia? Assim de repente, posso dizer que a resposta está incluída na pergunta: aprendi com ela tudo o que eu precisava de saber sobre fotografia. As correlações de reciprocidade entre abertura, tempo de exposição e sensibilidade já não têm dificuldades: uso-as instintivamente. Teorizar a exposição, neste momento, seria como se me indagasse sobre os mecanismos físicos do caminhar ou do respirar: são coisas que se fazem, não se pensam.

Talvez por causa da dificuldade em usar técnicas fotográficas especiais, as minhas fotografias tornaram-se mais simples e menos dependentes da técnica. O que é bom – embora, para ser verdadeiro, esta fosse uma tendência que já vinha de antes, pois foi mais ou menos no início de 2012 que decidi que as minhas fotografias precisavam de mais conteúdo e menos técnica. Embora fazer fotografia nocturna e arrastamentos seja um desafio excitante com uma máquina de película, o uso desta última contribuiu para que me dedicasse a fotografias mais singelas e procurasse – e esta é uma demanda que ainda não chegou ao fim e provavelmente nunca chegará – dar-lhes mais sentido, mais significado.

Depois há o lado puramente hedonístico. Parafraseando um amigo meu (não necessariamente a propósito da fotografia analógica), é uma ganza fotografar com uma máquina como a OM-2n. É. Accionar uma máquina como estas é um prazer. É tudo manual – penso que nunca fiz nenhuma fotografia recorrendo ao modo semi-automático de «preferência à abertura» – e cada disparo é uma experiência física: com a OM, o movimento das cortinas e o impacto do espelho sentem-se na ponta dos dedos da mão esquerda (eu sou daqueles que segura a objectiva por baixo, envolvendo-a com os dedos, como ditam os cânones). Ao contrário de outras máquinas, como algumas digitais e as de obturador central, sente-se e percebe-e o que está a acontecer. De certa forma, a máquina acaba por tornar-se numa extensão do corpo, criando-se uma simbiose, mas o gozo de fotografar com uma máquina que usa rolos e não um sensor não acaba aqui: depois de se sentir a vibração do disparo, há que avançar a película. Dito de uma forma simples: fazer uma fotografia sem accionar a patilha de avanço da película não é fotografar: é colher imagens.

Há outros factores. Não posso dizer que o facto de ter um número reduzido de exposições ao meu dispor me ensinou muito, porque já me havia dado conta da necessidade de fotografar menos e melhor (ou da inutilidade de tirar milhares de fotografias, o que vai dar ao mesmo) antes de comprar a OM. Diria que esta necessidade de pensar melhor antes de fotografar – de julgar o valor fotográfico de cada cena e seleccionar só as que valem a pena – foi uma causa, e não uma consequência, da compra da OM. E houve outros benefícios, como descobrir as diferenças entre películas. Fotografar com película é como namorar: temos de conhecer todas as que pudermos antes de escolher aquela a quem queremos dedicar-nos. (Eu sei que isto é piegas, mas eu avisei que chegava de amargura!) Já que estamos no campo das relações interpessoais, a fotografia analógica permitiu-me conhecer gente interessante. Também conheci gente interessante quando fotografava com a E-P1, mas com os analoguistas aprende-se mais.

Eu sei que a fotografia analógica não é perfeita. O rolo 135 é muito limitado e exige as melhores objectivas existentes para que não mostre as suas deficiências em demasia. (Talvez assim percebam por que tanta gente sonha acordada com as Leica M.) Contudo, o prazer de fotografar com uma máquina analógica é tão grande que não me imagino a voltar ao digital. Só no caso extremamente improvável de me tornar profissional, ou qualquer coisa semelhante, é que sentiria desejo de voltar a fotografar digital.

M. V. M.

Mais um dilema

Estou outra vez num dilema. Não estou inteiramente satisfeito com os resultados que tenho vindo a obter com o Agfa Vista 200. A versão 400 deu-me fotografias satisfatoriamente consistentes, posto que com um grão bastante grosseiro. O grão do Vista 200 é mais benéfico e, francamente, prefiro fotografar com ASA 200, mas o que eu não esperava era que o 200 fosse tão inconsistente.

É surpreendente, mas com o Vista 200 sou capaz de, fotografando com as mesmas condições de luz e essencialmente o mesmo motivo, obter resultados muito díspares. Uma imagem pode ficar excelente, com cores maravilhosas – os azuis do Agfa vista 200 são de chorar por mais –, e a outra um desastre, com desvios que nem com a função HSL do programa de edição de imagem podem ser corrigidos. Além disto, ao contrário do Vista 400 cuja matiz predominante e invasiva é o vermelho, o 200 exacerba à vez, e dependendo das condições de luz, o vermelho, o verde e, sobretudo, o ciano.

Claro que não esperava tanta diferença em relação à película mais rápida. Com o Agfa Vista 400 era-me fácil perdoar a relativa falta de acutância porque faz tudo o resto muito bem para o preço que custa. O Vista 200 é muito menos consistente e homogéneo – embora também tenha um bom desempenho quando se trata de preservar a veracidade das cores sob luz escassa –, o que faz com que seja difícil estabelecer uma preferência por esta película cuja virtude primordial é ser barata.

O que me leva a interrogar-me se realmente quero passar o resto da minha vida a fotografar com esta película. Considerar alternativas deixa-me assustado: os Kodak estão cada vez mais caros e não são nada homogéneos. Ou melhor: não têm a versatilidade que procuro. O Ektar 100 e o Gold 200 só são verdadeiramente bons com luz escassa e exposições longas, porque sob luz solar são berrantes; o Portra é ao contrário: muito bom com luz intensa, mas as cores são antiquadas e desagradáveis quando se fotografa à noite (é o verdadeiro rei dos cianos!).

Os únicos rolos a cores que me parecem suficientemente bons são os Fujifilm 160NS e 400H. Infelizmente, custam os olhos da cara. O 400H custa para cima de 10 euros. E são difíceis de encontrar. (O 160 NS, pelos vistos, é impossível de encontrar em rolos 135.)

O meu dilema é este: será que vale a pena fazer muitas fotografias e ficar descontente com elas? Não será melhor fazer menos fotografias com um suporte que me assegure melhores resultados? As respostas podem parecer óbvias, mas não são. Porque nem sempre sou um bom julgador do interesse fotográfico de uma cena e das fotografias que faço. Muitas vezes acontece-me parecer ter feito uma fotografia particularmente satisfatória e, ao ver a digitalização, descobrir que estava completamente errado. (Também acontece o contrário, mas muito raramente.) Isto significa que ainda desperdiço muitas fotografias, o que pode ser catastrófico se usar um rolo muito caro.

Vou reflectir acerca disto e, possivelmente – se conseguir encontrar rolos 135 do Fuji 160 NS –, fazer uma experiência. Pode acontecer ficar de tal maneira satisfeito que valha a pena ser mais selectivo e fotografar menos, mas melhor. Depois eu narro-vos a experiência.

M. V. M.