Slides

Por William Eggleston

Por vezes deixo-me intrigar e ponho-me a especular sobre uma questão: devo ou não fazer uma experiência com um rolo de slides?

Os slides, ou positivos (ou ainda transparências) são películas nas quais a imagem não surge com os tons invertidos, como nos negativos. A sua função primordial é ser projectados por via de um aparelho próprio (projector de slides), mas esta não é nem nunca foi a única razão para usar película de slide. Estas películas são procuradas, sobretudo, pela sua qualidade superior. Pelo menos é isto que leio e ouço mais frequentemente. E também pelas cores: Kodachrome, Provia, Astia e Velvia são designações que costumam ser usadas como sinónimos de cores saturadas e vibrantes, mas também há o Ektachrome para equilibrar as coisas (e há pelo menos duas películas de slide a preto-e-branco, uma da Foma e outra da Agfaphoto, mas são proibitivas).

Aprendi, com a minha mente inquisitiva, que a qualidade da película de slide tem contrapartidas. Uma é o preço: é impossível adquirir um rolo por menos de €10. A outra é a gama de exposição. Diz quem sabe infinitamente mais que eu que, para fotografar com película de slide, é necessário acertar com a exposição como quem acerta no bull’s eye ao lançar dardos. Os negativos a cores perdoam muito mais: só há sobreexposição ou subexposição se a diferença entre a exposição ideal e a seleccionada exceder cerca de 4EV. Quando se fotografa com slides, o mais natural é que as altas luzes estourem e as sombras bloqueiem facilmente. E, ao contrário de algumas películas negativas, o pormenor perdido é irrecuperável.

Também sei que, para evitar esta estreiteza na exposição, era costume fotografar com o céu ligeiramente encoberto e expor para as altas luzes, o que saturava as cores e conferia contraste às imagens sem bloquear as sombras em demasia. (Fotografar com céu limpo implicava perder o pormenor por acção do bloqueio das sombras quando se expunha para as altas luzes, o que era considerado um compromisso aceitável.) Ora, isto é severamente limitativo. Eu ando – até agora! – à procura de uma película colorida que me dê versatilidade. É possível que a tenha encontrado na Kodak Ultramax, mesmo se a sua sensibilidade de 400 ISO a torna difícil de usar no Verão. Usar película de slide implicaria só fotografar em condições muito favoráveis, o que seria uma maçada.

Isto não quer dizer que tenha desistido de experimentar. Apesar de não ser muito aventureiro, gosto de desafios. Acertar com a exposição num rolo de slides seria algo que me tentaria, mas seria uma experiência cara: os rolos são caros e a revelação também.

Fazer a experiência, por outro lado, poderá servir apenas para confirmar o que sei de antemão. Seria como pontapear um paralelepípedo para saber se é duro. Não tem interesse, porque tenho um conhecimento apriorístico razoavelmente preciso. Mas, se a reputação de películas como as Fujifilm for merecida, os resultados podem ser deslumbrantes. Nunca saberei ao certo o que esperar se não fizer a experiência. Penso que é a isto que chamam «dilema».

M. V. M.

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Obituário

As máquinas fotográficas mais bonitas do mundo actualmente em produção são as Leica M. Penso que este juízo de valor não merece discussão. As únicas excepções foram a M5 e as digitais M8 e M9. A primeira era uma Leica com os lados quadrados fabricada no Canadá – embora a sua qualidade não seja contestada –, ao passo que as digitais M8 e M9 eram gordas: demasiado profundas, nada tinham de esbelto; e eram desconfortáveis de segurar.

Esta semana soube-se que uma das M vai deixar de ser fabricada: a M7, de película, que fora lançada no comércio em 2002. Por que será que ninguém está inconsolavelmente triste? Porque esta é uma máquina carregada de electrónicas. Funciona manualmente ou no modo de prioridade à abertura e requer uma bateria. Tem um botão para ligar e desligar, necessário para accionar o fotómetro e o comando electrónico do obturador, o qual funciona quando o modo de prioridade à abertura é seleccionado. O obturador pode funcionar em modo manual ou electrónico, mas no modo electrónico pode ser usado com os tempos de exposição de 1/60 e 1/125 se a bateria falhar. Outra característica desta Leica M7 é a de fixar a exposição automaticamente (função AE-L) pressionando o botão do obturador até metade do curso.

Curiosamente, foi esta sofisticação que tornou a M7 numa pária entre as Leica M. Há gente para quem as Leica são tão melhores quanto menos progressos tecnológicos incorporarem, pelo que a MP – cuja única sofisticação é ter um fotómetro – e, ainda melhor, a M-A, que nem sequer tem um fotómetro incorporado, são as M de película reputadas como Leica puras. Aparentemente a Leica pensa o mesmo, pelo que a M-A e a MP não acompanharão a pobre M7 na caminhada ao longo do corredor da morte.

Há muito de legítimo nesta desconsideração pelas electrónicas. Eu, apesar de apenas poder recorrer à minha humilde OM-2n para aludir a esta matéria, confesso que nunca me passou pela cabeça usar o modo de exposição automático a que a Olympus chamava «preferência à abertura». Podia fazê-lo – tudo com que teria de me preocupar seria a escolha da abertura –, mas prefiro ter o controlo total da exposição, ainda que com o auxílio do fotómetro. Deste modo, se eu pudesse comportar o custo de uma Leica (e gostasse de visores de telémetro), a M7 não seria para mim. E não sou certamente o único a pensar assim.

Depois há uma máquina de película que já morreu há algum tempo, mas ninguém a avisou: é a Canon EOS-1V (o «V» é o número 5 em numeração romana). O quê? não sabiam que a Canon ainda vendia máquinas de película? Eu também não. Pensava que, entre os big boys, só a Nikon oferecia máquinas destas. A produção, como referi, já terminou (diz-se que em 2010, mas há informações contraditórias), mas os modelos em stock continuaram a ser vendidos. E agora esgotaram, pelo que as vendas chegaram obviamente ao fim.

Segundo li no The Online Photographer, os fabricantes de material fotográfico costumam, no caso de produtos historicamente relevantes, fazer um último ciclo de produção em larga quantidade para vender o stock como NOS (New Old Stock), controlando as existências através de aumentos estratégicos do preço. Aparentemente, foi isto que a Canon fez com a EOS-1V depois de ter cessado a produção.

Ao contrário da Leica M7, a Canon – que foi lançada em 2000 – tinha as linhas feias das DSLR actuais. Tinha também a reputação de ser uma máquina indestrutível e foi mantida no mercado, ao que se diz, para satisfazer as necessidades dos profissionais que se mantiveram fiéis à película.

Que significa isto para a fotografia analógica? Muito pouco. Não há significado nenhum quanto ao futuro próximo das películas. Não é mais um prego no caixão, não é o anjo da morte fazendo-se anunciar, nem é um abutre voando em círculos sobre a carcaça analógica. A Canon não tem vocação para produtos de nicho como as máquinas analógicas e, de resto, o fim da oferta da EOS-1V já estava previsto há muito. Quanto à M7, os adquirentes de Leicas analógicas não precisam dela: são pessoas que desdenham as electrónicas e querem ter controlo total do processo fotográfico. A fotografia analógica não vai morrer por perder estas máquinas.

M. V. M.

Kodak Ultramax

Um dos problemas de fazer experiências é que as fotografias resultantes servem o único propósito de confirmar ou infirmar a existência dos atributos do que está a ser experimentado. Evidentemente, isto redunda em fotografias que mostram que o produto A é excelente a fazer isto e sofrível a fazer aquilo, mas são completamente destituídas de sentido. Há dias, para mostrar o desempenho de uma objectiva quanto às aberrações cromáticas, dei-me ao disparate de mostrar aqui uma fotografia da divisória de vidro e metal que impede o meu vizinho de aceder à minha varanda para me estrangular quando ouço The Vaccines com o som no máximo[1]; isto é alguma coisa?

Apesar de estar a atravessar um momento de relativo desafogo financeiro, os rolos e respectivas revelações e digitalizações custam dinheiro. Fazer experiências destas é um desperdício, resulta em fotografias sem sentido nenhum e, por estas razões, vai contra o próprio propósito de fotografar com película. No caso da última película a cores que expus, a Kodak Ultramax, concluí que apenas seis ou sete fotografias me deixaram satisfeito. O resto, mesmo se serviu para aferir o desempenho da película, vai para o caixote do lixo virtual. Apesar de, em regra, apenas duas ou três fotografias por cada rolo me deixarem verdadeiramente contente, costumo ficar satisfeito com um número que varia entre as quinze e as vinte; ora, a ratio de fotografias sem sentido atingiu níveis inaceitáveis com este Kodak Ultramax. Só para terem uma ideia de até onde levei o meu despautério, considerem que cheguei a fotografar flores no Jardim Botânico! Com muito bokeh! Há mais aviltante do que isto?

Pelo menos fiquei com algumas ideias sobre o pobre do Kodak Ultramax. É, diga-se a título preliminar, o Portra dos pobres: o aspecto e as matizes são sensivelmente os mesmos, mas perde para o primeiro na gama dinâmica porque – a menos que eu tenha o fotómetro avariado – o Ultramax tende a estourar as altas luzes com alguma facilidade. E é também menos conseguido quanto à nitidez. Talvez seja o grão – o Ultramax tem uma sensibilidade de 400 ASA, ou ISO – que destrói os contornos mais finos dos objectos. Ou sou eu que ando a falhar as focagens, não sei.

Tal como o Portra, o Ultramax exige cuidado com a exposição e com a orientação da luz. Quando tudo está a favor, as cores são extremamente agradáveis. Chegam mesmo a evocar o Kodachrome. Estamos longe dos tons garridos do Kodak Gold, mas não deixa de haver um ligeiro soupçon de Ektar 100 que se nota na forma como as cores são preservadas debaixo de iluminação escassa. Mas, se o ângulo em relação à fonte de luz for menos que muito favorável, os problemas são idênticos aos do Portra: os vermelhos e cianos comprometem a verosimilhança das cores. Há ainda, mesmo debaixo de luz solar favorável, uma exacerbação dos magentas que contribui para alguma frieza tonal.

O que referi não é tão grave como parece, nem é tão sério como no Portra, que é uma película de extremos. Com o Portra, as fotografias saem perfeitas ou desastrosas – como conduzir um automóvel desportivo que se comporta brilhantemente em boas mãos mas se despista ao mínimo erro do condutor –, mas o Ultramax é mais tolerante. As cores são muito verosímeis e, por regra, basta corrigir o vermelho nos comandos de HSL para que as cores sejam fiéis à realidade.

E agora a pergunta para um milhão de euros: será que o Ultramax é – descontando a questão do preço – um bom substituto para o Agfa Vista? Provavelmente é. Terei apenas de aprender a usá-lo de acordo com as suas qualidades, o que implica fotografar sempre a favor da luz e evitar a sobreexposição das altas luzes. Há muitas semelhanças entre as duas películas, mas nota-se que a Kodak é superior. A definição e o contraste são áreas em que o Kodak supera o Agfa.

Li em Kundera: Einmal ist Keinmal. Uma vez é vez nenhuma. Usar apenas um rolo não é bom para retirar conclusões definitivas. Isto não quer dizer que não tenha considerado o Ultramax muito promissor. E pode ser a emulsão que me vai ensinar a fotografar a cores. É possível que alguns leitores tenham estranhado quando defendi – já por várias vezes – que é muito difícil fotografar a cores. Mantenho, mesmo que soe absurdo a alguns. É certamente muito mais difícil que fotografar a preto-e-branco. Expor película colorida é uma ciência em si mesma. Uma ciência que quero aprender.

M. V. M.

[1] Mentira; tenho o amplificador avariado e, de resto, o meu vizinho é um bacano que nunca me estrangularia – penso eu.

De volta à fotografia

Vamos voltar à fotografia, embora correndo o risco de alguns leitores desejarem que eu tivesse continuado a escrever sobre as minhas idiossincrasias musicais. É que o tema, hoje, é fotografia analógica.

Por uma conjugação aleatória de factores, estou a fazer duas experiências em simultâneo. Uma já sabem qual é: tem a Vivitar 24mm-f/2.8 por objecto. A outra é o Kodak Ultramax 400, um rolo de película a cores cujos resultados, ao ver as fotografias do meu amigo flickriano Tobi Gaulke, me pareceram suficientemente interessantes para justificar o acréscimo de preço em relação ao Agfa Vista (que, como de resto sabemos, está em vias de extinção).

Experimentar duas coisas ao mesmo tempo nunca é boa ideia, porque não é possível determinar qual dos componentes contribuiu para um determinado resultado: a saturação das cores – o que se nomeia a título meramente exemplificativo e hipotético – é trazida pela película ou pela objectiva? É evidente que tenho um meio de aferir objectivamente o valor do Ultramax, que é usar as objectivas com as quais tenho familiaridade, mas talvez agora os leitores compreendam por que me preocupei em fazer testes com a Vivitar 24mm com vista a determinar as suas características em relação à cor.

Ainda não posso dizer seja o que for quanto ao Kodak Ultramax, mas posso pronunciar-me acerca da película que usei anteriormente, a qual também havia estreado: a Ilford Pan 100. É uma versão mais grosseira do FP4, com a mesma tendência para exagerar as altas luzes e um pouco menos de acutância, mas é uma boa alternativa ao FP4, atenta a diferença de preço.

Houve qualquer coisa que correu muito mal com este rolo Ilford Pan 100: os últimos sete ou oito fotogramas estavam horrivelmente estourados, de uma forma que normalmente acontece quando se abre a tampa da câmara antes de rebobinar a película, mas eu tenho a certeza que não fiz nada disso. Eu sou honesto nessas coisas e já fiz esta asneira uma vez; não faria qualquer tipo de sentido estar a negar a pretensa falha diante de mim mesmo. Não foi essa a causa do problema. Aliás, se fosse, estaria bem menos preocupado, porque conheceria a causa. Isto pode ser uma falha clamorosa do fotómetro ou uma infiltração de luz na câmara. Não sei. Terei de mandar verificar a câmara.

Este problema deixou-me de tal maneira abúlico que só hoje arranjei coragem de me referir a ele no Número f/, apesar de ter as digitalizações desde Quarta-feira. Foi certamente esta a razão por que escrevi sobre outros temas que não a fotografia nos textos anteriores. Como Thomas Hobbes poderia ter dito perante esta minha perplexidade, oh well.

Fim-de-semana agridoce

Na sexta-feira recebi um email de efeito retardado: de início não me pareceu nada a que devesse dedicar excessiva preocupação, mas com o tempo compreendi que tinha razões mais que suficientes para me consternar.

O email foi remetido pela editora que manifestou interesse na publicação da minha monografia. Aquando do primeiro contacto, asseveraram-me que a obra seria editada no segundo trimestre deste ano, mais concretamente em Maio; chegado a Maio, depois de esperar em vão pelo contrato e pelas provas tipográficas, recebo este email em que me é dito que a edição foi atrasada para dar lugar a edições «urgentes» e que só asseguravam o lançamento para Outubro. Até aqui tudo bem; não me importaria de esperar. Contudo, logo de seguida dizem-me que compreenderiam no caso de eu «optar pela publicação em outra editora».

Não sei como interpretar isto; estarão a dizer-me, de forma não muito subtil, que perderam o interesse na edição e que devo procurar outra editora? A minha reacção inicial não foi interpretar a mensagem neste sentido: pelo contrário, vislumbrei aqui uma oportunidade de celebrar um contrato mais vantajoso do que aquele que me foi proposto. Agora não sei muito bem o que pensar. Foi um murro no estômago. E fiz figura de parvo diante de todos aqueles com quem partilhei o meu entusiasmo. A confiança já não é o que era.

Nem tudo foi lamentações nesta semana. Hoje mesmo encontrei-me com o meu amigo alemão da Nikon Df, o Hendrik Lohmann, e a sua encantadora mulher (que me surpreendeu por ter uma Fujifilm XT20). Apesar de nos contactarmos via Flickr, o que é certo é que já não nos víamos há quatro anos e não há nada que substitua uma conversa face a face. Foram umas horas imensamente bem passadas.

O Hendrik evoluiu imenso desde o nosso primeiro encontro, e o equipamento teve uma influência absolutamente decisiva nessa evolução. Quando o conheci, fotografava exclusivamente com a 50mm-f/1.8 que vinha com a câmara, mas entretanto comprou um zoom 14-24-f/2.8, um bacamarte de uma objectiva com uma lente frontal do tamanho de uma lâmpada de iluminação pública. Desde então a sua fotografia passou a basear-se na perspectiva absolutamente delirante das ultra grande-angulares, além de manter o preto-e-branco e o gosto, que partilhamos, por contrastes acentuados. Não estou com isto a dizer que o equipamento faz fotografar melhor – tal seria uma estultícia –; o que digo é que o Hendrik adquiriu uma forma de expressão nova por poder explorar perspectivas que as objectivas standard não permitem. Para terem uma ideia do que estou a dizer, dêem uma olhadela aqui.

Outro episódio deste fim-de-semana é o que se segue. Penso que não contei isto aos meus leitores, mas ofereci à minha sobrinha Maria Luís, por ocasião do seu 6.º aniversário, uma máquina fotográfica descartável, daquelas que trazem um rolo dentro e se deitam fora depois de extraída a película. Pois bem: entretanto recebi as digitalizações do rolo. As fotografias que ela tirou ficaram deliciosas!

Antes, porém, deixem-me dizer-vos que o sorriso que iluminou o rosto dela, quando lhe ofereci a máquina, foi simplesmente impossível de descrever. Tinha acabado de lhe dar uma máquina fotográfica, com um visor como as máquinas a sério. Tudo a um nível muito superior ao das fotografias tiradas com um telemóvel – e muito mais importante. Nunca vou esquecer aquele sorriso, nem a forma instintiva como ela levou a máquina ao olho direito (que é como uma câmara deve ser usada: essas coisas de visualizar num ecrã é fingir que se fotografa, não é fotografar).

A rapariga fotografou, essencialmente, os colegas e amigos que foram à sua festa de aniversário, mas os retratos – posso chamar-lhes assim sem exagero nem receio de parecer excessivamente influenciado pelo afecto que nutro pela Maria Luís – ficaram simplesmente enternecedores. E muito bem executados. Se não acreditam, vejam este:

Talvez um dia o M. V. M. consiga fazer retratos assim

E a reacção da Maria Luís ao ver as digitalizações no computador não foi menos interessante. Propus-lhe mandar imprimir algumas das fotografias, no que ela assentiu; quando lhe perguntei quais queria ter em formato-papel, ela respondeu prontamente: «todas!» É evidente que não vão ser todas: há fotografias falhadas (mas qual de nós é capaz de expor um rolo, ou completar uma sessão fotográfica, sem falhar fotografias? Eu cá não sou, apesar de todo o cuidado que ponho na escolha dos motivos), mas a verdade é que são poucas. São mesmo poucas. Não estou a ser nepotista.

Há coisas que me deixam feliz e me fazem esquecer os contratempos.

M. V. M.

Cadavre exquis

A última notícia oriunda do Reino da Fotografia Analógica (RFA) é a de um evento que, se formos a ver bem, era bastante previsível. A Fujifilm vai acabar com a película Neopan Acros 100 no mês de Outubro.

Isto quer dizer que é a segunda vez, no espaço de menos de um mês, que dou conta, aqui no Número f/, do futuro desaparecimento de uma película. Antes fora a Agfaphoto Vista, agora a Neopan Acros 100. No caso desta última, a Fujifilm já havia suprimido as Acros de sensibilidade mais alta (1600 e 400); agora é a vez da versão mais insensível.

Isto levanta duas questões sobre as quais vale a pena especular. A primeira é a de saber se isto é o prenúncio do fim definitivo da fotografia analógica; a outra é o que estará na base desta decisão da Fujifilm. (Há ainda uma terceira, que é a de saber se tenho pena que esta película acabe, mas o leitor facilmente se aperceberá da resposta ao ler o restante.)

Não, o facto de a Fujifilm ter decidido acabar com a Acros 100 não prenuncia o fim da fotografia analógica. Lembro-me de um slogan da extrema-esquerda, ouvido nos tempos do PREC, que era «por cada camarada morto, mil se levantam». Com as películas acontece mais ou menos o mesmo: a ADOX está a construir uma fábrica nova, a Ilford decidiu alargar a comercialização das Pan 100 e 400, a Kodak está a ressuscitar o Ektachrome, a Ferrania – embora mais lentamente que o previsto – está a regressar ao mercado e, por outro lado, fabricantes como a Foma não dão sinais de irem parar a produção tão cedo. Há até bizarrias como as películas pré-expostas da Dubblefilm, para quem tem dinheiro de sobra e quer gastá-lo estupidamente. Por tudo isto, o fim da produção do Neopan Acros 100 é a morte da andorinha que não prenuncia o fim da primavera. Significa apenas que a andorinha faleceu, pobrezinha.

Andorinha esta que, diga-se, não tinha assim tantos atractivos. Nunca a experimentei por ser inacreditavelmente cara – os preços dos rolos 135 oscilam entre €9 e €10 –, mas o que via na Internet (e era confirmado por quem a usou) era que a Neopan Acros produzia imagens muito rendilhadas, cheias de microcontraste, que mais pareciam obtidas com recurso ao HDR. No meu entender, não existe qualquer benefício em usar esta película – especialmente quando se podem comprar rolos de Kodak T-Max 100 e Ilford Delta 100 (e dispenso-me de aludir aos Ilford FP4, que fazem dos Neopan esfregonas e limpam o soalho com elas).

Curiosamente, a despeito do preço elevado, a Neopan Acros 100 era bastante popular. Que terá, então, determinado a cessação da produção?

O facto de ser uma película cara tem desde logo um significado muito claro: os custos de produção são demasiado elevados. A Fujifilm tomou esta decisão baseada na lógica fria dos números: a despeito da popularidade, a clientela é apenas um nicho e não compensa, a uma empresa com a dimensão da Fujifilm, manter toda a maquinaria envolvida na produção de uma película em laboração para alimentar um mercado que consiste em alguns milhares de consumidores. O grupo Harman (Ilford e Kentmere), a ADOX, Ferrania e todos esses fabricantes conseguem manter os seus níveis de produção porque são pequenos e ágeis: esgotam toda a produção e não necessitam de investimentos colossais. Poderíamos pensar que um gigante como a Fujifilm teria a maior facilidade em investir na produção de película, mas não é bem assim que as coisas se passam. A Fujifilm funciona com base em economias de escala que não resultam com este tipo de produto. Tal como nos automóveis: a Mercedes ou a Ford podiam fazer pequenos desportivos descapotáveis, com caixas de velocidades manuais e tracção traseira para puristas, mas o número de consumidores não justificaria o investimento e, de resto, o seu preço seria proibitivo. Aliás, esta notícia não devia ser surpresa para ninguém: a Fujifilm tem vindo a cessar a produção de películas a uma cadência estonteante, pelo que mais tarde ou mais cedo a Neopan Acros 100 seria eutanasiada.

Deste modo, não há nada a temer com o fim de uma película. Por morrer uma película não acaba a fotografia argêntea. E não se dá o caso de não existirem excelentes alternativas.

M. V. M.