Férias forçadas

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Há pouco mais de dois anos, mais concretamente no dia 11 de Outubro de 2014, escrevi um texto que tive o gosto duvidoso de intitular As velhas e as suas manias (embora depois tivesse o cuidado de esclarecer que a prosa não era sobre psicologia da terceira idade: não que alguém fosse pensar que era, porque nessa altura já todos sabiam que não sou um psicólogo geriátrico). Nesse texto abordei um estranho problema técnico que se estava a passar com a minha Olympus OM-2n: o anel que controla o tempo de exposição prendia, tornando-se ocasionalmente difícil de manusear.

Este problema, que desde então ocorreu amiúde, pareceu manifestar-se com mais intensidade quando fazia frio e a humidade era mais intensa, mas também aconteceu em dias mornos – mas nunca no Verão, nem nos dias quentes da Primavera e do Outono. No Domingo, dia 19, voltou a acontecer. De manhã tudo correu bem, mas durante a tarde o comando emperrou de vez na posição 1/1000. Infelizmente, eu tenho muito pouca sensibilidade para certos mecanismos: embora saiba perfeitamente quando estou a poupar ou a desperdiçar a energia do motor do automóvel, tenha sensibilidade para determinar o momento ideal para mudar de velocidade e domine o ponto de embraiagem na perfeição, há certas coisas que me derrotam por completo. Fechaduras manhosas, por exemplo. E, como agora descobri, comandos do tempo de exposição situados à volta da baioneta. Tal como não consigo rodar uma chave numa fechadura que exija um determinado truque para abrir, também não consegui desbloquear o comando da OM-2.

O Raúl Sá Dantas conseguiu-o. Desbloqueou o comando, mas este último já não controlava nada. O tempo de exposição assinalado nada tinha que ver com o real. As cortinas moviam-se instantaneamente quando o comando estava na posição de 1 segundo, o que não podia ter acontecido e significa que o controlo do obturador ficou bloqueado, provavelmente em 1/1000. Isto quer dizer que a minha Olympus OM-2n está avariada. É oficial. Vai ser entregue, para reparação, a um homem chamado Igor, que não é certamente o assistente do Doutor Frankenstein (embora não seja impossível que a minha máquina venha a receber peças de outra, o que pode ser havido como um pouco shelleyano).

Isto é estranho. Há duas semanas tive oportunidade de manusear uma Olympus OM-1, que era o modelo que Maitani-san concebeu antes de decidir colocar electrónicas inúteis dentro das máquinas. O comando do tempo de exposição da OM-1 roda como uma faca quente sobre manteiga derretida. Há quem especule que isto se deve à ausência de controlos electrónicos no mecanismo do obturador, já que a OM-1 não tem nenhum modo de exposição automático ou semi-automático, mas embora tal explicação não me pareça plausível, não posso sinceramente confirmar ou infirmá-la. O que sei é que o comando do tempo de exposição das OM-1 – ou, pelo menos, do exemplar que tive nas mãos – é de uma suavidade irresistível. O que é quase difícil de acreditar, atendendo a que podemos estar a referir-nos a mecanismos fabricados há trinta anos.

Seja como for, vou ter de fazer uma pausa nas fotografias. Fotografar com a E-P1 já não me dá qualquer prazer e, de resto, não suporto a falta de nitidez daquele sensor. Prefiro esperar pelo conserto da OM a fotografar digital. Eu sei, eu sei: se gosto de fotografia, devia gostar de fotografar com o que quer que fosse que tivesse à minha disposição, mas eu não funciono assim. Afeiçoei-me à fotografia analógica e jurei-lhe fidelidade eterna.

Isto pode ser uma boa oportunidade para reflectir sobre que tipo de fotografia quero realmente fazer. Sinto que preciso de aproveitar melhor a cor e trabalhar com ela para fazer melhores composições, em lugar de fazer transposições do género de fotografias que fazia a preto-e-branco para as cores. Talvez aproveite para andar mais atento e descobrir mais motivos, quem sabe?

Em todo o caso, a pausa não se estende ao Número f/. Os leitores poderão ficar contentes ao saber que o facto de não ir fotografar durante um lapso de tempo que pode ser considerável não se vai repercutir na produção foto-literária do M. V. M. Ou talvez entendam que bem podia aproveitar para fazer umas férias bloguísticas. (Ah! Vou recusar-vos esse prazer!)

M. V. M.

O meu novo dilema

A imagem com que ilustrei o texto de ontem – a minha fotografia, não a de Fred Herzog – não dá senão uma pálida ideia do que ali referi sobre a nova dimensão que a cor acrescenta às fotografias ditas de rua. Podia ter escolhido outra, que ilustrasse melhor os benefícios da cor, mas não o fiz. Por uma razão: é que aquela ilustração é exemplificativa do tipo de fotografia que teria feito se estivesse a usar o preto-e-branco. Como o texto tentou ser acerca da possibilidade de fazer fotografia dita de rua a cores, a ilustração pareceu-me adequada: quando faço fotografia nas ruas, gosto daquele tipo de cenário todo bem compostinho e cheio de simetrias e geometrias. O facto de esta fotografia ser a cores não retira nada à estética.

Por outro lado, tem-me passado pela cabeça uma ideia que pode ser disparatada, mas não deixa de ter a sua racionalidade. Uma possibilidade que tenho é converter digitalizações de fotogramas a cores para preto-e-branco. Eu sei que alguns podem pensar que é sacrilégio converter fotografias analógicas a cores para preto-e-branco, mas se pensarmos bem o mal de raiz já está feito e não é a conversão: é o que foi feito antes – a digitalização. Ora, se estou diante de uma imagem digital, que me impede de convertê-la para monocromático?

Sinto-me cada vez menos preconceituoso – e, o que é o mesmo, mais aberto – em relação à edição de imagem. Quando o negativo é digitalizado, torna-se numa imagem digital. Assim sendo, por que não havia de tirar partido dos instrumentos que a fotografia digital trouxe? Uma grande parte das fotografias a cores que publico no Flickr teriam muito pior aspecto se eu as mostrasse tal como o scanner as deixou. Especialmente no caso das fotografias feitas com o Fujifilm Superia, que deixa todas as imagens com um tingimento verde que é difícil de suportar. O tingimento vermelho do Agfa Vista é muito mais benéfico, embora também seja capaz de produzir resultados indesejáveis. Seja como for, não vejo qualquer problema em editar imagens a partir de digitalizações de negativos.

Claro que isto levanta uma questão que, por esta altura, o leitor dotado de um mínimo de perspicácia já terá formulado: se é assim, não seria melhor usar uma câmara digital? Esta questão é extremamente pertinente, mas soçobra por duas razões. A primeira é que as imagens a cores feitas com película têm mais latitude que as digitais. É muito simples: com os rolos nunca tenho altas luzes estouradas nem sombras excessivas (a menos que falhe por completo a exposição, o que quase nunca me acontece). A segunda razão, e a mais importante, é que não há nenhuma câmara, nem nenhum programa de processamento de imagem, que seja capaz de simular o efeito de uma fotografia analógica a preto-e-branco. Quando inventarem uma câmara com sensores intermutáveis, sendo um deles o da Leica Monochrom e o outro o da Nikon D5, terão criado a câmara digital perfeita, mas por enquanto esse monstro de Frankenstein não existe.

Sendo assim, será que converter digitalizações a cores para preto-e-branco é boa ideia? Para tentar preservar um mínimo de pureza analógica, usei o célebre comando do Photoshop CS Image → Mode → Grayscale com a fotografia do texto de ontem.

O resultado é decepcionante. Mostra, em primeiro lugar, um facto importante: as fotografias a preto-e-branco precisam de uma nitidez de que o Agfa Vista não é capaz. Mas também se vê que os contrastes não são idênticos àqueles que consigo quando uso películas muito contrastadas, como as Ilford FP4 e Pan F. Meh – até as de alta sensibilidade, como a Tri-X, saem melhor que isto. Esta imagem não é verosímil enquanto fotografia analógica a preto-e-branco: tem a palavra «digital» espalhada em toda a sua superfície.

O que me deixa num dilema: estou a gostar demasiado de explorar a cor, mas não vou, de maneira nenhuma, renegar o preto-e-branco. Tal como não tenho de desaprender a minha língua pátria quando falo ou escrevo em inglês, também não preciso de excluir o preto-e-branco das minhas fotografias. A possibilidade de comprar um segundo corpo OM para fotografar exclusivamente a preto-e-branco começa a ganhar foros de inevitabilidade.

M. V. M.

Cores. Cores. A vida é a cores

Ontem recebi, via Dropbox, as digitalizações de mais um rolo a cores. Desta vez foi um Agfa Vista 400, rolo ao qual perdoo uma ligeira falta de acutância e um tingimento vermelho acentuado por fazer tudo o resto tão bem, por tão pouco dinheiro. Podia ficar mais satisfeito com o 160NS, ou com o 400H, ambos da Fujifilm, mas estes rolos custam os olhos da cara. O seu uso justifica-se num contexto profissional – apesar de ser discutível o uso de película 135 para fins profissionais, evidentemente.

Adiante, que não é sobre rolos que quero escrever. Eu não tinha grandes expectativas quanto às exposições deste último rolo. Fiz fotografias naquele estilo a que se pode chamar «de rua», dentro do que costumava fazer quando usava os meus Ilford FP4, e, como imaginava que tais fotografias não iam resultar muito bem a cores, calculei que teria sido um desperdício de tempo e dinheiro.

Estava enganado. As fotografias que fiz são inteiramente válidas – pelo menos segundo os meus próprios critérios, e a despeito de poder considerá-las péssimas daqui a uma semana –, mesmo sendo a cores. Vou mais longe: a cor atribui-lhes uma dimensão suplementar, um interesse extra em relação a imagens semelhantes a preto-e-branco.

Isto faz-me pensar se não terei perdido demasiado tempo ao fotografar quase exclusivamente a preto-e-branco durante mais de três anos. Vendo bem, foi tudo uma questão de moda: habituei-me a ver fotografias a preto-e-branco e limitei-me a aderir à moda. Foi um erro: em lugar de procurar exprimir-me pelos meus próprios meios, preferi o conforto de seguir o que os outros faziam.

Foi um disparate, embora justificado pela verdura e ignorância. Como só conhecia fotografia de rua a preto-e-branco, não imaginava que fosse possível fazê-la de outra maneira. O que mudou tudo, fazendo-me fotografar a cores? Dois factores, por ordem crescente de importância. O primeiro foi ter encontrado uma película capaz de resultados consistentes sob todas as condições de luz. Isto foi essencial – tanto que agora me parece que não fotografava tanto a cores por as películas que experimentei não me terem deixado satisfeito. O segundo foi ter-me familiarizado com um triunvirato de fotógrafos de rua que utilizaram a cor de maneira excepcional: Fred Herzog, Saul Leitner e Joel Meyerowitz.

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Fred Herzog, “Main Barber”

O que eu gosto, nas fotografias de Herzog, Leiter e Meyerowitz, é elas provarem que a fotografia de rua não tem necessariamente de ser a preto-e-branco. Olho para aquelas fotografias, e está lá tudo o que define a fotografia de rua: as pequenas histórias do quotidiano, os sinais da vida urbana, a estética, a composição – e, evidentemente, as cores. E são fotografias que funcionam.

A fotografia de rua tornou-se muito cliché. Tem apenas que ver com a estética, composta de contrastes exagerados e do omnipresente preto-e-branco, e acontece, invariavelmente, em cenários nos quais a presença de uma pessoa é um mero pretexto para a aposição do rótulo de «fotografia de rua». Sim, ainda há fotografias de rua em preto-e-branco maravilhosas, mas a vida é a cores. Foi William Albert Allard quem disse “Eu vejo a cores”. Tenho razões para crer que não estava apenas a declarar que não era daltónico.

Fred Herzog, Saul Leiter e Joel Meyerowitz mostraram-me que é possível uma abordagem diferente para a fotografia de rua. Foi uma verdadeira revelação. Antes, já me tinha deixado fascinar pelo uso que Harry Gruyaert e William Albert Allard fazem da cor, mas estes dois não são fotógrafos de rua – mesmo que, ocasionalmente, tenham feito fotografias que caem dentro dessa definição. Foram Herzog, Leiter e Meyerowitz quem levou a cor para a fotografia de rua. Ainda bem que eles – ou a sua obra, já que Saul Leiter morreu em 2016 – existem: libertaram-me de um espartilho.

No Sábado perguntaram-me quando ia voltar ao preto-e-branco. Isto que estou a fazer não é um mero flirt com as cores, como fiz quando experimentei os Kodak Ektar e Gold e o Ferrania Solaris. Vou certamente voltar a usar rolos de preto-e-branco, mas não com a quase exclusividade com que o fiz até há pouco. Não quero estar limitado a um estilo ou a uma estética.

M. V. M.

Ah, os estereótipos! Onde estaríamos nós sem eles?

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Foto: Youg Hipster/Shutterstock

Os poucos que leram o texto do último Sábado sobre o aniversário da Câmaras & Companhia terão reparado que não fiz uma única alusão à solidez do crescimento da fotografia analógica, do qual a loja e laboratório do Raúl e da Leonor é uma verdadeira metáfora. Dispensei-me de referi-lo porque não gosto de ser repetitivo: já aludi ao assunto por várias vezes. O crescimento da fotografia analógica é um facto insofismável.

Contudo, muitos vêem a revivescência da fotografia analógica como um fenómeno tipicamente urbano, circunscrito a uma determinada subcultura e a um estilo de vida que, na verdade, é mais imaginado que real. Para estas pessoas, a fotografia analógica é um culto desenvolvido por aqueles a quem se convencionou chamar hipsters: sujeitos de barba e óculos, geralmente estudantes universitários com rendimento disponível, que gostam de roupas justas e vivem um estilo de vida alternativo, frequentando bares obscuros e ouvindo Yeah Yeah Yeahs (ou qualquer coisa muito mais underground). Simplesmente, se estas pessoas existem, não dou por provado que sejam elas quem fotografa com película. Pelo menos não é isso que vejo quando ando nas ruas – e acreditem que eu ando muito atento, como é obrigação de quem fotografa nas ruas (o que não é necessariamente o mesmo que fazer fotografia de rua).

De resto, quem atribui esta vitalidade da fotografia analógica aos hipsters não sabe do que fala. Em primeiro lugar – o que é um hipster? O que o caracteriza? É as calcinhas justas e as barbas? Também há habitantes de bairros sociais que vestem e se enfeitam da mesma maneira. São hipsters? Ou será o estilo de vida que os define? Quando ando por zonas frequentadas por gente que se assemelha a este estereótipo dos hipsters, o que mais vejo é iPhones; não se vê muitas máquinas fotográficas por ali, sejam elas analógicas ou digitais.

Mas também há os que pensam que a fotografia analógica é movida pela nostalgia, sendo praticada por gente que se recusa a largar os velhos hábitos e a acompanhar o progresso. Possivelmente, quando lhes falam de fotografia com película, imaginarão velhos corcundas, gotosos e atacados pelo Parkinson carregando máquinas 4×5 de madeira cobertas de teias de aranha.

Este último estereótipo ainda está mais afastado da verdade que o dos hipsters. Eu conheço uma boa parte da comunidade da fotografia analógica do Porto e não vejo ninguém que corresponda a este lugar-comum. As pessoas mais velhas que se dedicam à fotografia analógica são sensivelmente da minha idade; se eu podia ser considerado velho no Século XII, no tempo em que vivo sou alguém que ainda pode esperar viver umas boas três décadas. (E também não sou nenhum hipster, apesar de ter alguns pares de calças justas.) O que move essas pessoas como eu é o entusiasmo, característica que não é muito fácil de encontrar em gerontes (embora seja louvável de se ver quando acontece, como é o caso do meu mentor Fernando Aroso).

Reduzir tudo a estereótipos é estúpido. É abdicar de observar e raciocinar para aderir preguiçosamente ao que se ouve dizer. No caso da fotografia, os estereótipos que mencionei são de tal maneira asininos que chegam a assemelhar-se a caricaturas. Quem cultiva estes estereótipos faria muito melhor se experimentasse abrir os olhos e pensar pela sua cabeça. Se o fizesse, veria que não são os velhos nostálgicos que constituem a força motriz da fotografia analógica actual e que são muito raros os que, entre a multidão de jovens que usa máquinas de película, correspondem ao estereótipo do hipster.

E não é a nostalgia que move os entusiastas. Como podem os jovens sentir nostalgia de tempos que nunca viveram? E que nostalgia existe entre os que nunca abandonaram a fotografia analógica? Esta ideia da nostalgia pressupõe que a fotografia analógica entrou em desuso, como as grafonolas e os coches, o que nada tem de acertado. A fotografia analógica nunca deixou de existir; apenas perdeu terreno para a digital. Claro que nunca vai ter a expressão da fotografia digital, até porque entretanto esta última, graças aos smartphones, conquistou novas clientelas da ordem dos milhões – muitos milhões – de pessoas, tornando-se assim inalcançável, mas é inegável que a revivescência da fotografia analógica existe, está a crescer e não dá sinais de ir abrandar tão cedo. Não pode ser tudo à conta dos hipsters e de velhinhos corcundas!

M. V. M.

Um aniversário peculiar

Hoje fui a uma festa de aniversário. Aliás, não foi exactamente uma festa: não havia música ruidosa nem gente a dançar freneticamente. Foi um porto de honra e não comemorava o aniversário de ninguém – ou melhor, de nenhuma pessoa em especial. O porto de honra celebrava o quinto aniversário da Câmaras & Companhia.

O que vão ler a partir daqui é publicidade descarada. Não há, no Porto, escassez de lojas que vendam material fotográfico analógico. A AFF e a Colorfoto vendem rolos, químicos e papel. Até a Fnac vende rolos. E também não é a única loja (e laboratório) exclusivamente dedicada à fotografia convencional. Há, pelo menos, mais duas. Contudo, a Câmaras & Companhia tem qualquer coisa especial: à sua frente está alguém que pôs todo o seu profissionalismo e saber ao dispor dos entusiastas da película. Neste caso é um casal, porque o Raúl Sá Dantas e a Leonor tornaram-se indissociáveis.

É quase inimaginável o que eu aprendi graças a eles. Mesmo se não levo o entusiasmo por equipamento tão longe como o frequentador típico da Câmaras & Companhia, o acervo de conhecimentos que acumulei é assinalável. Se hoje tiro partido da película e da minha OM-2n, devo-o em grande parte ao Raúl e à Leonor.

Eu não vou fingir que sou cliente desde a primeira hora, porque não sou. A Câmaras & Companhia comemorou agora cinco anos e eu só fotografo com película há três anos e nove meses (mais dia menos dia). A primeira vez que entrei na Câmaras & Companhia, em Junho ou Julho de 2012, nem sequer foi para comprar material fotográfico: foi por me ter sentido fascinado – um fascínio à primeira vista – pela antepassada da Olympus E-P1 que usava então. Quis fotografá-la: era a Pen F, que estava sobre um dos expositores da loja. Nessa altura ainda estava longe de imaginar que me iria tornar num cliente assíduo.

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Também não foi a minha primeira escolha. Só cheguei à Câmaras & Companhia em Julho ou Agosto de 2013, numa altura em que já tinha a OM, depois de dois fracassos clamorosos com as revelações e digitalizações de dois T-Max (cujos autores, por decoro, permanecerão inominados). O que posso dizer é que, desde que conheci a qualidade das revelações e digitalizações do R. S. D., não tive mais necessidade de procurar outras lojas e laboratórios. Para quê? Mais ninguém oferece, além da qualidade, o saber e a simpatia que encontro na Câmaras & Companhia. Esta loja não é só uma loja (e um laboratório): é também um lugar de tertúlia e de conhecimento. Além de, evidentemente, ser um regalo para os olhos, com aquela cornucópia de câmaras e lentes clássicas.

Depois de ter entregado ao Raúl o primeiro rolo que confiei à Câmaras & Companhia, após uma longa e frutuosa conversa, despedi-me dele com uma frase muito cliché: citei Humphrey Bogart em Casablanca. Cliché ou não, foi verdade: aquele foi mesmo o início de uma bela amizade.

M. V. M.

Certezas e dúvidas

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Há um ano, por esta altura, tinha duas certezas e uma incerteza. Estava convicto de que a minha linguagem fotográfica era o preto-e-branco e de que a única película que valia a pena usar era a Ilford FP4. A minha dúvida era qual película havia de usar quando quisesse fotografar a cores, nas raríssimas ocasiões em que tal me apetecesse.

Hoje as certezas estão um pouco mitigadas. Tenho retirado tanta satisfação das fotografias mais recentes, todas elas a cores, que a certeza de que a minha linguagem é o preto-e-branco está agora severamente abalada. Não é que tenha deixado de apreciar o preto-e-branco; é mais por, como o nosso ex-Presidente Jorge Sampaio podia ter dito, haver vida para além do preto-e-branco. O preto-e-branco não se tornou subitamente detestável, nem a cor uma musa inspiradora; o que se deu em mim foi apenas a descoberta de que é possível fotografar com películas a cores com resultados muito satisfatórios – o que ainda não havia aprendido por ter usado películas que não convinham a todas as condições de iluminação com que normalmente fotografo.

Antes de me referir ao que me levou a redescobrir a satisfação das cores, uma palavra quanto à película a preto-e-branco que considerei – e provavelmente ainda considero – a melhor que existe à superfície da terra: sim, os Ilford FP4 são os melhores rolos 135 que existem. Em termos estritamente subjectivos, porém, dei comigo a extrair grande prazer do Kentmere 400. Embora ainda me falte experimentar o Kentmere 100, que é aquele com o qual as comparações relativamente ao FP4 são válidas, os Kentmere podem muito bem ser o negócio do século para quem expõe película a preto-e-branco.

As minhas experiências com cores foram, até aos últimos meses do ano passado, deveras frustrantes: dos rolos que havia experimentado até então, uns eram deliberadamente maus, outros só resultavam bem debaixo de certas condições de luz e outros ainda eram de tal maneira garridos ou granulosos (ou ambos) que não me serviam. Esta insatisfação com as películas a cores contribuiu decisivamente para me levar a centrar a minha fotografia no preto-e-branco (embora o grosso das fotografias que fiz antes de ter a OM-2 fosse já monocromática). Isto durou até ao dia em que resolvi deixar de lado algumas preconcepções e experimentei uma película que sempre me havia parecido medíocre: a Agfa Vista.

Devo dizer que não foi só a película que me determinou a fotografar de novo a cores: foi também, e sobretudo, o conhecimento da obra de fotógrafos como William Albert Allard, Harry Gruyaert, Joel Meyerowitz, Saul Leiter e Fred Herzog. Com os três últimos, descobri que se pode fazer fotografia de rua a cores – e, com isto, livrei-me de uma maneira de fotografar que se está a tornar estafada.

Houve, portanto, uma inversão nas minhas certezas e dúvidas. Agora tenho dúvidas quanto à minha forma de expressão preferida e à película predilecta para a obter, mas ganhei, em contrapartida, uma certeza: os rolos que quero usar, quando fotografo a cores, são os Agfa Vista. A minha breve experiência com o Fujifilm X-Tra 400 apenas serviu para confirmar esta minha preferência. Não, a Agfa não é a película perfeita, mas tem inúmeras virtudes: a descrição das cores, a despeito da intromissão de algumas matizes espúrias, é muito natural; e tem consideravelmente menos grão que o Fujifilm. É uma película que se comporta bem em praticamente todas as condições de iluminação, dando bons resultados nas sombras.

E é barato. O único rolo que me deu melhores resultados foi o muito caro Kodak Portra 160, e mesmo assim este último não é muito bom para fotografar com luz escassa. O humilde Agfa Vista é mais versátil. Apesar de a matiz magenta que afecta algumas fotografias me ir obrigar a recorrer à edição de imagem com mais frequência do que seria desejável, penso que esta é uma contrapartida modesta para o enorme benefício que é poder fotografar em qualquer lugar, independentemente de a luz ser artificial ou natural, de fazer sol ou estar à sombra.

M. V. M.

Mais sobre edição de imagem

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Não há volta a dar-lhe: qualquer fotografia, tal como a câmara a captou, é insuficiente. Seja gravada num negativo – ou diapositivo – ou num sensor, nenhuma imagem está em condições de ser mostrada sem antes passar por uma fase de manipulação; quando nos referimos à fotografia analógica, esta fase desdobra-se na revelação e na ampliação (ou, em complemento ou alternativa a esta última, na digitalização); no campo da fotografia digital, esta manipulação denomina-se edição de imagem.

Logo por aqui se vê que, afinal de contas, não existe uma diferença tão acentuada entre os dois domínios. E as diferenças esbatem-se ainda mais quando se fotografa em Raw ou em negativo digital (DNG). Neste caso a edição de imagem no computador é uma verdadeira revelação digital. A manipulação – uso esta palavra sem o menor intuito pejorativo – da fotografia analógica consiste, numa primeira fase, na revelação. Logo aqui se pode alterar características como a tonalidade e o contraste, sendo as fotografias gravadas em rolo de película, contudo, menos manipuláveis neste estádio do que as chapas. É nestas que se pode aplicar todo o legado de Ansel Adams: só havendo uma imagem, é possível aplicar-lhe máscaras e outras ferramentas, o que é impossível com os rolos, que são revelados em bloco. As fotografias gravadas em rolos de película podem, contudo, ser manipuladas na ampliação: nesta etapa pode ajustar-se a geometria e usar-se inúmeros meios de fazer variar a tonalidade e o contraste.

A fotografia digital tornou tudo isto mais fácil: era possível manipular fotografias analógicas, mas agora pode-se aplicar todas as ferramentas usadas na revelação e na ampliação de uma forma simples e eficiente. A edição de imagem tem um alcance e importância tal que atinge o paradoxo de contribuir para a subsistência da fotografia analógica, já que é possível processar digitalmente as digitalizações das películas. Pode facilmente adicionar-se elementos ao enquadramento, o que na fotografia analógica implicava duplas exposições ou sobreposições de negativos (o que era uma arte, mas consumia tempo e recursos), pode distorcer-se a perspectiva ad absurdum e operações como manipular o tom e o contraste tornaram-se básicas. A edição de imagem levou os limites da manipulação das fotografias tão longe que o último limite é as opções estéticas – ou mesmo éticas – do fotógrafo.

Por tudo isto, é importante não ter preconceitos quando o assunto em discussão é a edição de imagem. Ela não é mais do que aquilo que se fazia nos tanques de revelação e no ampliador, mas transferido para um computador. Contudo, sempre direi que a fronteira é exactamente esta: tudo o que exceda este uso da edição de imagem torna a fotografia numa falsidade.

As opções e variáveis são tantas que nem sei por onde começar. Também aqui é importante deixar as preferências de lado: não faz sentido pintarmo-nos com as cores de guerra de um determinado programa de edição de imagem e irmos para a internet atacar quem usa programas de outras marcas. O que deve ser feito é experimentar todos os programas – penso que não há nenhum, entre os pagos, que não ofereça a possibilidade de experimentar gratuitamente por um mês – e determinar qual aquele que produz os melhores resultados com menos trabalho. No meu caso, o DxO foi escolhido depois de o comparar longamente com o Lightroom (e tendo por referência o Olympus Viewer 2, gratuito para quem tem câmaras Olympus), mas outras pessoas poderão preferir outros programas.

Depois há que ver se não haverá um programa que corresponda a necessidades específicas: por exemplo, eu tenho por seguro que a melhor maneira de converter um ficheiro Raw para preto-e-branco é usar o Photoshop e escolher a opção Image → Mode → Grayscale (foi um gráfico experiente quem me deu este conselho, que sigo mais ou menos religiosamente), mas há quem não prescinda de filtrar os laranjas no Lightroom. Tudo bem. São metodologias que, no fundo, servem o mesmo objectivo.

Ainda quanto às necessidades, é talvez importante ter em conta que nem todos os programas de gráficos são importantes para quem fotografa. O Photoshop (propriamente dito, o da Adobe) e o Corel Photo-Paint não são estritamente necessários porque são programas vocacionados para artes gráficas. Quem os utiliza exclusivamente para retocar fotografias apenas aproveita 10% – ou menos – das funcionalidades dos programas. O mesmo se diga do clone open source do Photoshop, o Gimp. Estes programas, salvo quando são usados numa cloud (como o Photoshop CC), só servem para ocupar espaço no disco do computador.

Por fim, há que fazer escolhas baseadas no preço. O Lightroom pode ser usado em cloud, poupando espaço no disco, mas esta é uma opção bastante gravosa. Há programas pagos de altíssima qualidade, como o Phase One Capture One e o DxO, e há programas open source, como o Darktable que, ao que dizem, é muito bom. E, evidentemente, há também os que as marcas oferecem com a compra das suas câmaras. Por exemplo, os utilizadores das Fujifilm com sensores X-Trans obterão resultados menos que sofríveis com o Lightroom (o DxO nem se dá ao trabalho…), mas poderão ficar incrivelmente satisfeitos com o MyFinePix Studio.

Como vêem, a edição de imagem é um mundo variado e cheio de escolhas. Não me cabe a mim dizer quais as melhores. Como diria o eterno Morrissey, Why Don’t You Find Out For Yourself?

M. V. M.