Os meus filmes

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Título enganoso – não vou falar aqui de cinema, embora já o tenha feito (há poucos blogues de fotografia onde os leitores possam educar o seu gosto cinematográfico através do conhecimento de cineastas como Luchino Visconti, Richard Linklater e Michael Haneke). O título pretende ser uma sátira às pessoas que gostam de traduzir tudo directamente do inglês e entendem que film pode ser traduzido para filme, mas esta última é uma palavra inventada, porque film tem uma tradução em português, que é  «película». (Film não se refere especificamente à película fotográfica ou cinematográfica: também designa, por exemplo, o papel celofane ou os plásticos usados para envolver alimentos.)

Também não vou escrever sobre os meus filmes – se eu vos contasse como correu o meu último julgamento, pensariam que tinha aderido à equipa de guionistas de uma série humorística qualquer –, mas sim sobre as minhas películas. Desde que comprei a OM já experimentei vinte películas diferentes (todas de negativos): da Kodak, usei rolos de Tri-X, Portra 160, Ektar 100, Gold 200 e T-Max 100 e 400; experimentei Ilford FP4, HP5, Pan F e Delta 100 e 400 (além de um rolo Pan 400 que já atingira a idade núbil, mas cujos resultados pareceram agradar a muitos visitantes do meu Flickr); usei também Fuji (Superia 200), Fomapan 200, Ferrania Solaris, Kentmere 400, Agfa APX 100 (também usei 400, mas os resultados foram inconclusivos) e agora outro rolo Agfa, este a cores, que é o Vista 400. Além da ovelha negra chamada Lomography Earl Grey, que foi a pior que experimentei. Foram muitos rolos. Apesar de ainda me faltar experimentar outros tantos – vários da Fuji, todos da Rollei e da Adox e algumas variedades das marcas que mencionei anteriormente –, penso que já posso elaborar algumas conclusões.

A primeira é que o preto-e-branco é a minha linguagem. Já escrevi aqui, ainda há bem pouco tempo, que fotografar a cores é difícil pelas exigências de harmonia da cor. Devo acrescentar outra dificuldade: a de encontrar motivos em que a cor, mais que as formas, seja o elemento gráfico preponderante. Convenhamos que o Porto é uma cidade um bocado granítica e monocromática (e eu não tenho particular gosto em fotografar graffiti). O preto-e-branco favorece as formas e as linhas, pelo que se adequa melhor às minhas opções estéticas. Daí que tenha adquirido muitos mais rolos de preto-e-branco que de cores. Por regra, demoro muito mais a expor rolos a cores, o que é revelador quanto às dificuldades com que me deparo. Isto não quer dizer que tenha desistido da cor, mas seguramente significa que estabeleci uma preferência.

E, já que me refiro a preferências, quais são os rolos que mais me satisfazem? Para o preto-e-branco, a resposta é mais ou menos óbvia: o FP4 é aquele ao qual volto sempre. Já expus trinta e seis rolos desta película. Gosto do seu contraste e da nitidez incrível, mas exige algumas precauções, como expor sistematicamente para as altas luzes de maneira a evitar a sobreexposição.

O que me leva a outra conclusão: eu gosto de películas lentas. Comigo a fotografia em lugares pouco iluminados é uma excepção, não a regra. Além de não apreciar aberturas demasiado estreitas: não sou um tarado do bokeh (eu gostava de cremar in vivo a criatura que se lembrou de importar esta palavra para o Ocidente), mas um bocadinho de desfoque de vez em quando não faz mal nenhum. As películas de alta velocidade (ou sensibilidade, se preferirem) obrigam-me a fotografar com f/11 sempre que aparece um raio de sol. Contudo, nas diversas ocasiões em que um rolo ISO 400 é útil, demorei a decidir qual preferia: o Tri-X? O HP5? Sob reserva de fazer mais algumas experiências, penso ter encontrado uma película que poderia usar sempre que quiser fotografar em estações do metro: a Kentmere 400. Contudo, devo também dizer que foi agradável experimentar películas ASA 200. Usei duas: Fomapan 200 e Kodak Gold 200. É uma sensibilidade muito versátil e agradável de usar. Não compreendo por que razão a Ilford não fabrica películas ISO 200.

Quanto à cor, remeto para o texto em que me refiro às dificuldades suplementares que as películas implicam. Apesar de a minha preferência não ir para a fotografia a cores, não posso negar que me diverti com os rolos Ferrania e que fiquei surpreendido com o desempenho do Kodak Gold 200. Os outros são demasiado dependentes das condições de luz. Curiosamente, a película que estou correntemente a usar é a primeira de alta velocidade que uso. (Depois digo-vos das minhas impressões.)

A maior surpresa da minha experiência com películas, porém, é a resolução do pormenor que algumas possibilitam. Claro que as lentes Olympus OM, em particular a grande-angular, contribuem para esta resolução, mas as películas desempenham um papel importante. Descobrir isto foi uma surpresa, mas há uma explicação: a fotografia no formato 135 precisa de toda a resolução de que for capaz para que não se perca demasiada nitidez nas ampliações. As minhas fotografias são, com a excepção daquelas em que falhei a focagem, inacreditavelmente nítidas. Esta, como referi, foi uma grande surpresa. Só comparável ao prazer que se extrai de fotografar com uma máquina analógica, mas estas são contas de outro rosário.

M. V. M.

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O futuro da Ilford (e o meu)

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A Harman Technology, proprietária da marca Ilford Photo, foi adquirida por uma sociedade de investimentos britânica denominada Pemberstone Ventures Ltd. Apesar das promessas formuladas aquando do anúncio da aquisição – entre elas a de que vão alargar a venda de película a um público mais jovem –, não me sinto inteiramente tranquilo quanto ao futuro da Ilford.

O que uma sociedade de investimentos faz é, numa palavra, especular. Compram barato para vender caro e, se o negócio não correr bem, liquidam a sociedade adquirida. Uma sociedade de investimentos não acrescenta nada à economia: apenas serve para fazer enriquecer os administradores e accionistas. Tal como os especuladores imobiliários, o seu interesse não é fornecer bens ou serviços a quem os quer ou precisa deles: é, pura e simplesmente, vender as empresas com o maior lucro possível. É evidente que, entretanto, têm de administrar as sociedades adquiridas para que elas sejam apetecíveis aos futuros adquirentes e dêem lucro, mas nós vimos, aquando da crise dos subprime, o que as sociedades que se dedicam à especulação são capazes: venderam lixo sob o disfarce de fundos aparentemente aliciantes e, com isto, destruíram a economia de países inteiros e a vida de milhões de pessoas.

Isto quer dizer que, se as coisas correrem bem, a Harman será vendida a outro grupo, que por sua vez a venderá de novo. Muito do que acontecer no futuro próximo estará nas mãos, quer do conselho de administração da Pemberstone, quer nas dos administradores da Harman, que poderão ser os actuais ou outros designados pela sociedade adquirente; mas as coisas podem correr mal por uma série de razões: se a Pemberstone designar administradores incompetentes, ou se interferirem nas decisões dos actuais administradores da Harman, ou ainda se decidirem que afinal o negócio do material fotográfico analógico não é tão rentável como isso, podem destruir uma empresa que já data de de 1879. Porque o que interessa, a uma sociedade de investimentos, não é o que a companhia adquirida produz, nem os trabalhadores ou os clientes: é o dinheiro. Só isto conta. Se a Harman não for vendável, acabam com ela. Este é o mundo frio e impiedoso dos negócios.

Vou, deste modo, esperar que deixem os actuais administradores em paz e que estes continuem com o bom trabalho que estão a fazer, mas a promessa de alargar a clientela aos jovens pode querer dizer produzir mais barato, o que é geralmente sinónimo de baixa qualidade. Mas tudo bem – agora vou ser tremendamente egoísta –, desde que mantenham o FP4 e o HP5 em produção. O FP4, já sabem o que penso dele: é o melhor rolo existente à superfície da Terra, o meu rolo de eleição, aquele com o qual podia fotografar sem precisar de mais nenhum. O HP5 tem um grão muito grosseiro, mas vai ser o meu rolo preferido para sensibilidade ASA 400.

Na verdade, cansei-me do Kodak Tri-X. Este pode ser um rolo lendário, mas estou farto das suas sombras pesadas e da sua nitidez muito inferior à dos Ilford. O HP5 é melhor em praticamente tudo: no contraste, na descrição do pormenor e nos extremos da gama dinâmica, o HP5 faz do Tri-X um capacho. Só mesmo na qualidade do grão é que o Tri-X é melhor, mas isto não chega para compensar o resto. Só compreendo a devoção que os amantes da fotografia analógica nutrem pelo Tri-X por quererem seguir a lenda, porque de resto não existe qualquer outro motivo para usar o Kodak Tri-X em lugar de um Ilford.

E agora? Se as coisas correrem mal com o investimento na Harman, para onde me viro? A Agfa, aparentemente, acabou com os APX; o Fujifilm Neopan é ridiculamente caro; o Fomapan é um rolo bom e honesto, mas está muito longe de poder competir com os Ilford (e com o Tri-X, já agora). Só me resta esperar que as coisas corram bem com a Harman e que o FP4 e o HP5 se mantenham em produção por muitos e longos anos. Quando isso deixar de acontecer, logo se verá.

M. V. M.

Ranking actualizado

Raparigas manifestando a sua felicidade por serem fotografadas com um Ilford HP5
Raparigas manifestando a sua felicidade por serem fotografadas com um Ilford HP5

Não me apetece experimentar mais rolos. Apenas quero usar mais um rolo que ainda não experimentei, que é o Fujifilm 400H (ou o 160NS, caso alguma vez consiga encontrá-lo). É um rolo extremamente caro, mas se me der as cores dos rolos de slide da Fujifilm, pode valer a pena.

Quanto aos preto-e-branco, a minha preferência continua idêntica. O FP4 é a película a que regresso sempre. Para sensibilidades altas a confusão é ainda substancial: o Tri-X é um belíssimo rolo, tal como o Delta 400, mas tenho vindo, depois de uma má impressão inicial, a apreciar cada vez mais o HP5. Tem muito grão, mas este dá textura e expressão às fotografias. Não é ideal para retratos, mas as suas características de contraste levam a que o considere o melhor rolo ASA 400.

Os mais atentos vão reparar, ao ler o meu ranking actualizado, que os Ilford ocupam seis dos sete primeiros lugares, incluindo os dois primeiros. Pois é – nada a fazer. São os melhores. Pelo menos para as minhas fotografias. Podem começar a chamar-me «Mr. Ilford». Ou Señor Ilford. Monsieur Ilford. Herr Ilford. Ilford-san. A minha fidelidade aos Ilford só é superada por aquela que os cães dedicam aos seus donos.

Penso, deste modo, que posso viver muito feliz apenas usando dois rolos para preto-e-branco: o FP4 por defeito e o HP5 quando me apetecer fotografar com pouca luz. Vai ser assim porque não suporto ter de fotografar com aberturas f/11 e f/16 sempre que o sol brilha um pouco mais, o que me impede em absoluto de usar rolos de velocidade alta com regularidade. E o FP4, embora não me dê o contraste do Pan F, é mais versátil: fotografa-se bem com ele de noite, o que é importante para mim, e tem um f/stop a mais em relação ao Pan F, o que faz diferença quando a luz começa a escassear.

Quanto à cor, vou esperar que a Ferrania não tenha usado o crowdfunding para ficar com o dinheiro dos aderentes (é um esquema cada vez mais comum na internet) e retome mesmo a produção do Solaris 100. Se tal não acontecer – e eu espero que aconteça, porque o Solaris é extremamente divertido –, terei de usar o Kodak Portra 160 para fotografar debaixo de luz solar e o Ektar 100 quando quiser fotografar com luz escassa. Com a reserva de poder vir a usar os Fuji se obtiver bons resultados. Apesar de a minha apreciação do Ektar 100 ter sido menos que favorável, fi-la com base em fotografias feitas sob luz do dia; em zonas de sombra e debaixo de luz escassa, porém, o Ektar 100 mantém admiravelmente o equilíbrio das cores, pelo que essa apreciação foi um pouco injusta.

De todos os rolos para preto-e-branco disponíveis, apenas não usei os Rollei e o Fuji Neopan. Os primeiros são, tanto quanto sei, idênticos ao Agfa APX; o Neopan, esse, é demasiado caro; não me parece que valha a pena experimentá-lo quando os Ilford – e também o Tri-X – dão tão bons resultados.

Deste modo, o meu ranking pessoal actualizado de películas do formato 135 é como se segue:

1.º: Ilford FP4 Plus 125
2.º: Ilford Delta 400
3.º: Kodak Tri-X 400
4.º: Ilford Delta 400
5.º: Ilford Delta 100
6.º: Ilford Pan F Plus 50
7.º: Ilford HP5 Plus 400
8.º: Kodak Portra 160
9.º: Ferrania Solaris 100
10.º: Fomapan 200
11.º: Agfa APX 100
12.º: Kodak Ektar 100
13.º: Kodak T-Max 400
14.º: Kodak T-Max 100
15.º: Fujifilm Superia 200
16.º: Lomography Earl Grey

M. V. M.

300 000

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Ontem aconteceu, pela quarta vez, um daqueles fenómenos de popularidade no Flickr. Alcancei um número total de visualizações de 300 000 pelas 19 horas, mas à meia noite o mesmo total já tinha atingido 304 787.

Estes números foram alcançados por causa de uma fotografia que foi parar ao Explore. A dita não era nada de especial e cheguei a pensar se era boa ideia publicá-la no Flickr (mesmo sendo este o que é). É apenas uma imagem que decidi fazer no passeio da estação do metro da Trindade, a partir do terraço da estação. Já tinha feito algumas fotografias naquele lugar – aprecio a textura do pavimento e as sombras que se formam –, mas sempre com a lente de 50 mm. Nessa tarde, porém, decidi ver o que acontecia se usasse a grande-angular; como cabia no enquadramento, resolvi usar o enorme respiradouro (se é que se pode chamar-lhe assim) na composição.

Devo dizer que não fiquei completamente satisfeito com esta fotografia. Para integrar aquele buraco enorme no enquadramento, tive de incluir algumas sombras e uma porção do espaço envolvente que não ficaram do meu agrado. Não gosto, em especial, dos cantos superiores: penso que a fotografia teria resultado muito melhor se todo o plano de fundo fosse o pavimento, sem as sombras das árvores e do poste de iluminação e sem o limite do passeio que se vêem nos cantos. Foi, deste modo, uma fotografia a que não dei grande importância. Se já tivesse o website, coisa de que por vezes me lembro mas continuo a procrastinar, não teria mostrado esta fotografia.

Acresce que esta fotografia era apenas uma das trinta e sete que resultaram da minha experiência com o Fomapan 200. Não procurei fazer obras-primas com este rolo: apenas procurei ver como ele reagia debaixo de diversas situações de luz. No caso desta fotografia, interessava-me conhecer as características de contraste desta película – embora também tenha de dizer que sou avesso a fazer fotografias completamente destituídas de sentido quando experimento rolos. Era uma experiência, mas usando uma cena que me interessava. Pensei a composição e o enquadramento antes de disparar. Não se deu o caso de fazer uma fotografia técnica, só para aferir o comportamento da película, sem qualquer cuidado com a composição.

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Quase que acertava com o momento em que cheguei às 300 000 visualizações…

Ao que parece, o público do Flickr tem uma apreciação fotográfica muito diferente da minha. À hora em que estou a escrever, esta fotografia já tem 11 649 visualizações, o que faz dela a mais vista de sempre no meu Flickr. 158 pessoas adicionaram-na às suas favoritas, o que é outro recorde absoluto.

Curiosamente, quando vista no Explore, esta fotografia passa quase despercebida. O que mais se vê ali é fotografias com cores espectaculares e com uma enorme panóplia de artifícios técnicos: macros, exposições de 30 segundos e mesmo alguns HDR. Como descobriram a minha fotografia é que eu não sei, porque as coisas acontecem muito rapidamente no Explore e pela altura em que as estatísticas começaram a assumir valores consideráveis já devia ter umas quatrocentas fotografias acima dela, tornando-a apenas visível a quem tiver especial afinidade com a roda de scroll do rato.

Estas coisas deixam-me sempre a pensar. Não posso dizer que tenha ficado eufórico, ou com a ilusão de que sou um fotógrafo imensamente popular – não sou nem uma coisa nem outra –, mas fiquei surpreendido. Diria que me senti grato a todos os que viram a fotografia, a elegeram como sua favorita ou deixaram um comentário; contudo, tenho consciência de que foi um fenómeno casual e que esta está longe de ser uma das minhas melhores fotografias. Eu não confundo popularidade com qualidade, sendo raras as ocasiões em que ambas coincidem. Não sei que pensar de tudo isto, a não ser que não tem grande importância. O Flickr é apenas o Flickr.

M. V. M.

O Fomapan 200

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Como avisei os leitores, aqui está a minha análise inteiramente subjectiva do rolo preferido dos estudantes de fotografia, o černobílý negativní film Fomapan 200. Comprei este rolo sem grandes ilusões: sabia que não iria, de maneira nenhuma, desviar-me da minha preferência pelos Ilford. Contudo, procurei fotografar como se estivesse a usar um rolo caríssimo (ao invés de fazer experiências sem sentido, só para avaliar o desempenho da película) e analisar os resultados da maneira mais isenta possível, sem deixar que as minhas preferências determinassem juízos prévios acerca das qualidades do Fomapan 200. O meu propósito não é o de induzir os leitores a comprar ou deixar de comprar este ou aquele rolo, mas o de fornecer-lhes as minhas impressões sobre ele.

As minhas sensações iniciais ao apreciar as fotografias feitas com o Fomapan 200 foram favoráveis. É necessário dizer que tive um cuidado especial para não estourar as altas luzes, medindo a exposição onde queria reter o pormenor em lugar de expor sistemática e dogmaticamente para as sombras. Deste modo, foram raras as fotografias que ficaram sobreexpostas, conseguindo também evitar a subexposição. O Fomapan 200, quando exposto deste modo, é uma película que faz praticamente tudo bem. Tanto é assim que, na verdade, não há muito a dizer sobre ela: é uma película extremamente competente que, pelo preço que custa, constitui uma excelente alternativa para o aficionado da fotografia analógica que não esteja disposto a gastar muito dinheiro em rolos.

Na lista das vantagens do Fomapan está, em primeiro lugar, o contraste: é muito bom. Melhor que o do Agfa APX 100 e infinitamente superior ao do Kodak T-Max 100 e todos os rolos de velocidades altas que experimentei – com a excepção dos Ilford HP5 e Delta 400. O Fomapan tem uma característica que me agrada: é perfeito para chiaroscuri. O grão é muito discreto e tem uma apresentação agradável à vista, superando o Agfa APX 100 a despeito de este ter uma velocidade inferior em 1 EV (mas perdendo um pouco para o T-Max 100, que é uma película de grão tabular). As altas luzes raramente estouram, sendo muito correctas quando se usam cuidados com a exposição. Tudo isto contribui para produzir imagens em que tudo parece impecavelmente bem ponderado, com os tons inconfundíveis do preto-e-branco genuíno (i. e. não-digital).

Comparar o Fomapan 200 aos Ilford, que são a minha referência em termos de qualidade absoluta, é porventura excessivo. Estes últimos são os melhores rolos que se fabricam à superfície da Terra e todas as outras marcas ficam a perder na comparação. Simplesmente, se avaliarmos as películas com base na ratio entre preço e qualidade – os Ilford são caros –, a diferença fica substancialmente reduzida e o Fomapan 200 aproxima-se perigosamente do FP4. Quando comparados em termos absolutos, o Fomapan tem duas desvantagens: a resolução e a descrição das sombras, que podem ter uma aparência um pouco pesada em certas fotografias. Note-se, contudo, que a resolução (ou, mais propriamente, a acutância) dos Ilford está num patamar altíssimo e que a descrição das sombras depende grandemente das opções tomadas pelo fotógrafo na exposição, e que o Fomapan parece menos propenso a estourar as altas luzes do que os Ilford.

O Fomapan 200 é tão bom que não me surpreende a sua popularidade entre os estudantes de fotografia. Eu, se tivesse de limitar o meu orçamento para película e fosse forçado a escolher entre o Fomapan e o Agfa APX 100, que é o mais próximo em função do preço, não hesitaria: este último tem uma descrição dos pormenores melhor, mas não tem o contraste do Fomapan. Não ficaria triste se tivesse de usar o Fomapan até ao fim dos meus dias, mesmo se de vez em quando sentisse saudades da resolução superior dos Ilford. Repito, porém, que esta é uma comparação injusta. A resolução do Fomapan não é má – está muito acima do desastre chamado Lomography Earl Grey, que é mais caro –, traduzindo-se num ligeiro suavizar dos contornos que é bastante benigno. (O Lomography faz com que todas as imagens pareçam ligeiramente desfocadas.)

Muito desta minha apreciação do Fomapan é condicionado pelo género de fotografias que fiz com ele: em lugar de fazer experiências absurdas, decidi usá-lo em condições normais e, embalado pelas fotografias de Lisboa, expu-lo quase por inteiro com cenas de rua. Algumas destas fotografias deixaram-me bastante entusiasmado, não pela qualidade do meio usado, mas pela sua qualidade intrínseca. Digamos que me saíram bem. Quando as vejo, fico com a dúvida se ficariam melhores se tivesse usado um Ilford. Provavelmente não: o Fomapan evita os contrastes excessivos dos Ilford, ainda que o faça à custa das sombras carregadas, que foram a característica que mais depressa notei nas fotografias feitas com o Fomapan que vi antes de experimentá-lo.

Em resumo: o Fomapan é muito bom. Se tivesse de classificá-lo de 0 a 20, em termos absolutos valeria um 13. Talvez um 14, se estivesse complacente. Em termos relativos, atendendo ao preço e à qualidade, levaria um 17. Este é um rolo que mesmo o entusiasta mais exigente pode usar, com a confiança de que nada vai correr mal.

M. V. M.

O meu fim-de-semana fotográfico

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A minha experiência com o Fomapan 200 chegou ao fim. Ontem esgotei o rolo e receberei as digitalizações para a semana. Em breve teremos recensão sobre o rolo dos estudantes de fotografia: stay tuned.

A minha experiência com o Fomapan coincidiu com o meu regresso à fotografia dita de rua, género para que não tenho muito jeito mas no qual insisto só pelo gozo que me dá. Depois das minhas fotografias lisboetas, em relação às quais o meu único lamento é serem poucas, redescobri o prazer que é andar pelas ruas à procura de pequenos teatros – usando uma expressão cara a Robert Doisneau – onde fotografar pessoas.

A este propósito, descobri que estou progressivamente a perder um traço de personalidade que pode ser um obstáculo quando se fotografa nas ruas: a timidez. Esta não me tem impedido, de um modo geral, de obter o que quero, mas confesso que tenho alguns problemas em abordar pessoas desconhecidas para fotografá-las. De uma maneira geral, não procuro o consentimento das pessoas para as fotografar porque pretendo que as minhas fotografias sejam espontâneas – eu não gosto de poses –, mas há ocasiões em que sinto que seria demasiado descaramento fotografar alguém sem o seu consentimento. Estou a trabalhar arduamente para ultrapassar aquilo que não é exactamente vergonha, mas é antes o receio do desconforto que a recusa me traria.

Mudando de assunto: ontem, enquanto queimava os últimos fotogramas do Fomapan na zona da Trindade antes de entregar o rolo na Câmaras & Companhia, deparei com uma tenda que abrigava uma feira do livro. Não tenho tido dinheiro para comprar livros – é sempre lamentável quando se tem de sacrificar as leituras para satisfazer necessidades comezinhas –, mas esta circunstância não me impediu de entrar e espreitar os escaparates. Os livros eram maioritariamente infanto-juvenis (categoria na qual é difícil encaixar os álbuns de BD de Milo Manara que estavam à venda), best sellers datados e livros práticos de escasso interesse, mas quando estava diante de uma estante cheia de livros de bolso da Taschen, a repositora colocou um álbum de bolso dedicado a Edward Weston. Por um preço impossível de resistir. Não o comprei porque ainda não havia terminado a sessão fotográfica e não é especialmente prático fotografar com livros debaixo do braço, mas hoje voltei lá e comprei-o. Trouxe também outro mini-álbum desta série Icons da Taschen intitulado Fotografia do Século XX – Museum Ludwig de Colónia. Foram duas aquisições que me souberam bem.

Edward Weston (1886-1958) foi um dos fotógrafos mais importantes de sempre. Depois de atravessar um período pictorialista (que, de resto, nunca abandonou verdadeiramente), interessou-se por formas puras – quer as encontrasse numa sanita, em legumes, moluscos, paisagens industriais e urbanas ou no corpo humano. Esta exploração das formas levou a que as suas fotografias perdessem a referência à realidade objectiva que a câmara vê e se aproximassem de uma linguagem abstracta. Weston foi um pioneiro modernista: apesar de, à luz da fotografia actual, as suas obras poderem parecer irremediavelmente ultrapassadas, ele foi um dos primeiros a aventurar-se pelo domínio das formas puras. O seu legado e influência são tão grandes que toda a fotografia moderna lhe deve algo.

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O outro livro não é tão interessante. Duas ou três fotografias, acompanhadas de textos curtos, de fotógrafos dispostos por ordem alfabética. De Adams, Ansel, a Witkin, Joel Peter – passando Por Ernst Haas, Henri Cartier-Bresson (a Taschen teve o bom gosto de não seleccionar a Derrière la Gare de Saint-Lazare), Diane Arbus ou W. Eugene Smith. Apesar de sucinta, não deixa de ser uma antologia interessante. Quanto mais não seja pelo preço: cada um destes livros custou-me €5,00, o que significa que satisfiz a minha avidez pela fotobiografia por apenas €10.

Não existe comparação possível entre ver fotografias impressas num álbum ou no monitor de um computador: as tonalidades são muito mais agradáveis e as imagens ganham uma (ilusão de) tridimendoinalidade que o monitor não consegue sequer imitar. Comprar livros de fotografia continua a ser a melhor forma de tomar conhecimento da obra de grandes fotógrafos, a despeito da facilidade que é encontrar milhares de fotografias através de uma simples pesquisa no Google. Os álbuns, contudo, são apenas pequenos sucedâneos da visualização de fotografias em tamanhos grandes numa exposição, mas vale sempre a pena – até porque não há exposições todos os dias e o álbum estará sempre à mão.

M. V. M.

Černobílý negativní film

logo-fomaAqui está: agora já sabem como se diz «película negativa a preto-e-branco» em checo. Černobílý negativní film. Escusam de me agradecer: estou aqui para ensinar coisas fascinantes aos leitores, pelo que não fiz mais que a minha obrigação. Pelo contrário, eu é que agradeço.

Poderão alguns perguntar: para que queremos nós saber como se diz «película negativa a preto-e-branco» em checo? Ou por que quer o M. V. M. saber como se diz «película negativa a preto-e-branco» em checo? Ou ainda por que quer o M. V. M. que os leitores do Número f/ saibam como se diz «película negativa a preto-e-branco» em checo? Eu explico: entre os muitos fabricantes de películas ainda existentes, há um que tem vindo a laborar ininterruptamente para fornecer película aos fotógrafos. Quanto mais não seja, a comunidade fotográfica deve-lhe isso. Esse fabricante é checo e chama-se FOMA. É a FOMA que fabrica o černobílý negativní film Fomapan, que é o favorito dos estudantes de fotografia pelo seu baixo preço.

Simplesmente, não é apenas o baixo preço que leva as pessoas a comprar o Fomapan. Numa fase em que era mais dado a experiências com películas, pesquisei na internet algumas fotografias feitas com Fomapan e não fiquei inteiramente convencido: as sombras pareceram-me sempre tender para o pesado, o que podia ser escolha ou acidente dos autores das fotografias. Contudo, há um par de semanas voltei a encontrar fotografias feitas com o Fomapan que me deixaram convencido. Isto despertou-me a vontade de experimentá-lo.

Fomapan 200 CreativeA sensibilidade que escolhi foi ASA 200 (ou ISO 200, para os menos dados a anacronismos). Podia igualmente ter optado por ASA 100 ou 400, mas a velocidade que escolhi é mais versátil: posso fotografar com (relativamente) pouca luz e não tenho de recorrer constantemente a aberturas estreitas quando há luz em abundância. E, com um pouco de sorte, terei menos grão do que se tivesse optado por ASA 400. Vamos ver se é verdade aquilo que se diz de ser no meio que está a virtude.

As minhas primeiras impressões sobre este rolo não foram muito favoráveis: a película é extremamente espessa e criou algumas dificuldades na instalação – a extremidade da película não é arredondada, o que dificulta a inserção nas ranhuras –, fazendo com que a patilha de avançar a película não se desloque com a facilidade a que estou habituado. Há uma qualidade artesanal neste rolo, com autocolantes sobrepostos no cilindro do rolo e tudo, que me faz pensar que os métodos de fabrico poderão ser um pouco obsoletos. Estamos nos antípodas dos Ilford. Simplesmente, o que conta é a qualidade da imagem e, se esta for aceitável, o Fomapan pode ser um belo negócio.

Comprei o rolo na Quarta-feira, pelo que apenas fiz dez fotografias até agora. Ainda é muito cedo para conclusões, mas este vosso escriba promete-vos uma análise detalhada, com gráficos e tabelas, mal tenha as digitalizações editadas. (A parte dos gráficos e das tabelas é, evidentemente, uma facécia.) Até lá, desejo a todos um dobrý víkend.

M. V. M.