Férias forçadas

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Há pouco mais de dois anos, mais concretamente no dia 11 de Outubro de 2014, escrevi um texto que tive o gosto duvidoso de intitular As velhas e as suas manias (embora depois tivesse o cuidado de esclarecer que a prosa não era sobre psicologia da terceira idade: não que alguém fosse pensar que era, porque nessa altura já todos sabiam que não sou um psicólogo geriátrico). Nesse texto abordei um estranho problema técnico que se estava a passar com a minha Olympus OM-2n: o anel que controla o tempo de exposição prendia, tornando-se ocasionalmente difícil de manusear.

Este problema, que desde então ocorreu amiúde, pareceu manifestar-se com mais intensidade quando fazia frio e a humidade era mais intensa, mas também aconteceu em dias mornos – mas nunca no Verão, nem nos dias quentes da Primavera e do Outono. No Domingo, dia 19, voltou a acontecer. De manhã tudo correu bem, mas durante a tarde o comando emperrou de vez na posição 1/1000. Infelizmente, eu tenho muito pouca sensibilidade para certos mecanismos: embora saiba perfeitamente quando estou a poupar ou a desperdiçar a energia do motor do automóvel, tenha sensibilidade para determinar o momento ideal para mudar de velocidade e domine o ponto de embraiagem na perfeição, há certas coisas que me derrotam por completo. Fechaduras manhosas, por exemplo. E, como agora descobri, comandos do tempo de exposição situados à volta da baioneta. Tal como não consigo rodar uma chave numa fechadura que exija um determinado truque para abrir, também não consegui desbloquear o comando da OM-2.

O Raúl Sá Dantas conseguiu-o. Desbloqueou o comando, mas este último já não controlava nada. O tempo de exposição assinalado nada tinha que ver com o real. As cortinas moviam-se instantaneamente quando o comando estava na posição de 1 segundo, o que não podia ter acontecido e significa que o controlo do obturador ficou bloqueado, provavelmente em 1/1000. Isto quer dizer que a minha Olympus OM-2n está avariada. É oficial. Vai ser entregue, para reparação, a um homem chamado Igor, que não é certamente o assistente do Doutor Frankenstein (embora não seja impossível que a minha máquina venha a receber peças de outra, o que pode ser havido como um pouco shelleyano).

Isto é estranho. Há duas semanas tive oportunidade de manusear uma Olympus OM-1, que era o modelo que Maitani-san concebeu antes de decidir colocar electrónicas inúteis dentro das máquinas. O comando do tempo de exposição da OM-1 roda como uma faca quente sobre manteiga derretida. Há quem especule que isto se deve à ausência de controlos electrónicos no mecanismo do obturador, já que a OM-1 não tem nenhum modo de exposição automático ou semi-automático, mas embora tal explicação não me pareça plausível, não posso sinceramente confirmar ou infirmá-la. O que sei é que o comando do tempo de exposição das OM-1 – ou, pelo menos, do exemplar que tive nas mãos – é de uma suavidade irresistível. O que é quase difícil de acreditar, atendendo a que podemos estar a referir-nos a mecanismos fabricados há trinta anos.

Seja como for, vou ter de fazer uma pausa nas fotografias. Fotografar com a E-P1 já não me dá qualquer prazer e, de resto, não suporto a falta de nitidez daquele sensor. Prefiro esperar pelo conserto da OM a fotografar digital. Eu sei, eu sei: se gosto de fotografia, devia gostar de fotografar com o que quer que fosse que tivesse à minha disposição, mas eu não funciono assim. Afeiçoei-me à fotografia analógica e jurei-lhe fidelidade eterna.

Isto pode ser uma boa oportunidade para reflectir sobre que tipo de fotografia quero realmente fazer. Sinto que preciso de aproveitar melhor a cor e trabalhar com ela para fazer melhores composições, em lugar de fazer transposições do género de fotografias que fazia a preto-e-branco para as cores. Talvez aproveite para andar mais atento e descobrir mais motivos, quem sabe?

Em todo o caso, a pausa não se estende ao Número f/. Os leitores poderão ficar contentes ao saber que o facto de não ir fotografar durante um lapso de tempo que pode ser considerável não se vai repercutir na produção foto-literária do M. V. M. Ou talvez entendam que bem podia aproveitar para fazer umas férias bloguísticas. (Ah! Vou recusar-vos esse prazer!)

M. V. M.

Um aniversário peculiar

Hoje fui a uma festa de aniversário. Aliás, não foi exactamente uma festa: não havia música ruidosa nem gente a dançar freneticamente. Foi um porto de honra e não comemorava o aniversário de ninguém – ou melhor, de nenhuma pessoa em especial. O porto de honra celebrava o quinto aniversário da Câmaras & Companhia.

O que vão ler a partir daqui é publicidade descarada. Não há, no Porto, escassez de lojas que vendam material fotográfico analógico. A AFF e a Colorfoto vendem rolos, químicos e papel. Até a Fnac vende rolos. E também não é a única loja (e laboratório) exclusivamente dedicada à fotografia convencional. Há, pelo menos, mais duas. Contudo, a Câmaras & Companhia tem qualquer coisa especial: à sua frente está alguém que pôs todo o seu profissionalismo e saber ao dispor dos entusiastas da película. Neste caso é um casal, porque o Raúl Sá Dantas e a Leonor tornaram-se indissociáveis.

É quase inimaginável o que eu aprendi graças a eles. Mesmo se não levo o entusiasmo por equipamento tão longe como o frequentador típico da Câmaras & Companhia, o acervo de conhecimentos que acumulei é assinalável. Se hoje tiro partido da película e da minha OM-2n, devo-o em grande parte ao Raúl e à Leonor.

Eu não vou fingir que sou cliente desde a primeira hora, porque não sou. A Câmaras & Companhia comemorou agora cinco anos e eu só fotografo com película há três anos e nove meses (mais dia menos dia). A primeira vez que entrei na Câmaras & Companhia, em Junho ou Julho de 2012, nem sequer foi para comprar material fotográfico: foi por me ter sentido fascinado – um fascínio à primeira vista – pela antepassada da Olympus E-P1 que usava então. Quis fotografá-la: era a Pen F, que estava sobre um dos expositores da loja. Nessa altura ainda estava longe de imaginar que me iria tornar num cliente assíduo.

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Também não foi a minha primeira escolha. Só cheguei à Câmaras & Companhia em Julho ou Agosto de 2013, numa altura em que já tinha a OM, depois de dois fracassos clamorosos com as revelações e digitalizações de dois T-Max (cujos autores, por decoro, permanecerão inominados). O que posso dizer é que, desde que conheci a qualidade das revelações e digitalizações do R. S. D., não tive mais necessidade de procurar outras lojas e laboratórios. Para quê? Mais ninguém oferece, além da qualidade, o saber e a simpatia que encontro na Câmaras & Companhia. Esta loja não é só uma loja (e um laboratório): é também um lugar de tertúlia e de conhecimento. Além de, evidentemente, ser um regalo para os olhos, com aquela cornucópia de câmaras e lentes clássicas.

Depois de ter entregado ao Raúl o primeiro rolo que confiei à Câmaras & Companhia, após uma longa e frutuosa conversa, despedi-me dele com uma frase muito cliché: citei Humphrey Bogart em Casablanca. Cliché ou não, foi verdade: aquele foi mesmo o início de uma bela amizade.

M. V. M.

E se tivéssemos um pouco de calma?

A actual obsessão da comunidade fotográfica é esta câmara:

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Isto é a Fujifilm GFX-50S. Muitos, incluindo a própria Fujifilm, referem-se a esta câmara digital que está agora a ser lançada no comércio como sendo de «médio formato», mas isto é obviamente um disparate porque a GFX-50S (claro que tinha de incluir um “X”, senão não era uma Fuji) tem um sensor com área de 43.8×32.9mm, enquanto o verdadeiro médio formato – aquele dos rolos de película 120 – tem as dimensões de 6×6 (em centímetros), 6×9, 6×7 ou 6×4,5. Portanto, esta é uma câmara 4×3; está algures entre o verdadeiro médio formato e o 36×24 a que se convencionou chamar «full frame». Numa palavra: esta não é uma câmara de médio formato (mas mais tarde voltaremos à área do sensor).

Esta câmara é cara – posto ser a mais barata das médio formato (chamemos-lhes assim) digitais –, é grande e é feia, o que teoricamente contradiz os argumentos que as pessoas usam para justificar o seu interesse pelas mirrorless (quase me esquecia de mencionar que esta GFX-50S é uma câmara sem-espelho). Com efeito, não é transportável, é desajeitada e vai usar lentes enormes, mas que se dane: é uma mirrorless e as mirrorless, afinal, não são boas por serem compactas e relativamente baratas: são boas porque nelas é tudo electrónico. Os fanáticos das mirrorless sentem-se tão incomodados que parece que lhes falta o ar quando lhes mostram uma SLR (digital ou não). «Oh, não, que coisa obsoleta e grotesca: um espelho – e ainda por cima de accionamento mecânico. Mas estamos no Século XIX, ou quê?», dirão eles, porque só o que é electrónico é bom, porque «electrónico» é sinónimo de progresso e de futuro. O mesmo quanto ao visor óptico, evidentemente, porque se é «óptico» é rudimentar e obsoleto.

E isto é uma Fuji. Sabem, aquela marca que conseguiu pôr alucinados que outrora usavam T-shirts a dizer «I shoot raw» a fotografar em JPEG, porque isto é a única coisa que as mirrorless da Fuji fazem bem: fotografar JPEG com o processador a aplicar à imagem um filtro que imita as transparências da Fujifilm – o Velvia, o Provia e outras já extintas, mas que viverão para sempre na sua imitação digital. No resto, as Fuji fazem tudo mal: os ficheiros Raw não têm nitidez, a focagem automática é um desastre e só se tornam boas depois de um número incomensurável de actualizações. Podia ser divertido, de uma forma mais ou menos lomográfica, fotografar com as Fuji X-Não-Sei-Das-Quantas, por causa das cores, mas estas câmaras são caríssimas. E as lentes também. E, embora a falsa médio formato tenha um sensor Bayer, e não os inúteis X-Trans, as pessoas babam-se por esta câmara porque é uma Fuji. A Hasselblad tem uma câmara mirrorless com um sensor enorme que é muito mais bonita (posto um pouco mais cara), mais pequena e manuseável, mas não tem os filtros que simulam o Velvia e o Provia, por isso não presta.

Voltando ao sensor: as pessoas deixaram-se convencer que precisam de um sensor enorme por causa do bokeh e daquilo a que chamam «gama dinâmica», pelo que vão andar à volta da Fuji GFX feitas abelhas ensandecidas à volta da colmeia. É um disparate. As pessoas deviam, antes de se deixarem embarcar numa aventura ruinosa, perguntar a si mesmas e responder com muita honestidade se são suficientemente boas na fotografia para tirar partido de uma câmara com esta resolução (também seria sensato se perguntassem a si mesmas se a placa gráfica do seu computador aguenta processar ficheiros deste tamanho). De certeza que, se fossem francos consigo mesmos, 99% dos interessados na Fujifilm GFX responderiam que esta câmara não é para eles. Quanto aos restantes 1%, são os profissionais. Estes têm à sua disposição câmaras modulares muito sérias que lhes possibilitam usar cassetes (backs) diferentes, em lugar de estarem limitados a um só sensor, com uma focagem decente e lentes com obturador central com as quais o flash sincroniza em todas as velocidades. Não precisam da Fuji GFX-50S para nada.

Portanto, temos aqui uma câmara que não se percebe para quem é, ou qual a sua utilidade, mas muitos vão comprá-la porque sim. Porque é uma Fuji. Porque é uma mirrorless. E porque tem um sensor enorme. Esperem só até ver a cara destas pessoas quando souberem quanto vão custar as lentes para esta câmara.

M. V. M.

Pretextos

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Permitam-me começar o Ano Novo com uma Resmunguice Velha. Depois de ler muita coisa sobre o aparentemente interminável debate entre telemóveis e câmaras a sério, apercebi-me de algo que se me afigura deveras perturbador: os adeptos do iPhone gastam o melhor tempo das suas vidas a tentar justificar a atribuição do estatuto de «câmara» ao seu telemóvel.

Eu explico: as pessoas compram o iPhone, usam-no para tirar fotografias e depois – reparem bem na inclusão desta palavra depois, porque ela é determinante –, perante a evidência de que o iPhone nunca terá a qualidade de uma câmara decente, tentam usar pretextos para usá-lo como se fosse uma câmara. Estes pretextos vão do estafadíssimo lugar-comum de que a melhor câmara é a que trazemos connosco até ao uso do iPhone como um «bloco de notas» fotográfico. Não há muitos mais pretextos pelo meio, salvo os inventados por lunáticos que clamam ter vendido as suas DSLR e lentes para agora só fotografar com o iPhone (o que apenas demonstra que são estúpidos) ou os daqueles que afirmam não precisar de mais qualidade – o que é um argumento mais que legítimo: nem toda a gente precisa de uma qualidade de imagem superior; nem todos imprimem fotografias em 60×40.

Mas detenhamo-nos um pouco sobre os outros argumentos e veremos que não passam de pretextos a posteriori para justificar o injustificável. Estes pretextos, note-se, são usados por pessoas que sabem uma ou duas coisas sobre fotografia (o que nem sempre quer dizer que fotografam bem) mas, por algum motivo que por completo me escapa, pretendem impingir o iPhone e os seus pretensos méritos fotográficos.

Quanto à questão da «melhor câmara», as pessoas que precisam de ter sempre uma câmara à mão são gente que não leva a fotografia muito a sério. São pessoas que querem fazer fotografias banais para partilhar no facebook e no Instagram. Não há nenhum mal nisto, a não ser o facto de a imagem ir progressivamente tomando o lugar da expressão oral na comunicação interpessoal (ela mesma «desmaterializada» à custa das redes sociais), degradando o nível da expressão escrita e falada, e a banalização e descrédito da fotografia a que o abuso permitido pelos telemóveis e as redes sociais conduz. Quem se interessa por fotografia – o que inclui um número de pessoas que, não sendo profissionais ou amadores empenhados, gostam contudo que as suas fotografias tenham significado e um pouco mais de qualidade – sabe que as capacidades fotográficas dos telemóveis é muito limitada. A maioria das pessoas nem sequer leva os iPhones a sério, porque tem a noção de que quem quer fotografar com um intuito minimamente sério usa uma câmara. De resto, a fotografia não é exactamente um impulso homeostático, nem existe qualquer obrigação de fotografar compulsivamente tudo o que vemos à nossa frente (nem a nós mesmos), pelo que o argumento da «melhor câmara» não passa de um pretexto para justificar o uso de um aparelho menos que medíocre em lugar de uma câmara minimamente decente.

Outro argumento é o do «bloco de notas fotográfico». É tão óbvia a sua estultícia que nem merece muita reflexão, mas permitam-me que perca o meu tempo com esta inanidade. Usar um smartphone como «bloco de notas fotográfico» significa, aparentemente, fotografar um determinado motivo com o iPhone e voltar lá mais tarde com uma câmara a sério. Mais ou menos como os escritores que estão sempre a ter inspirações na pior altura possível, que é quando não estão a escrever. Pelo menos é assim que esta tese do «bloco de notas» é apresentada. Ora, isto é ignorar que cada oportunidade fotográfica é irrepetível. As condições que estas pessoas viram e fotografaram com o «bloco de notas fotográfico» que anda sempre no seu bolso não vão ser as mesmas que encontrarão quando voltarem ao mesmo lugar. O pretexto do «bloco de notas» não passa de uma desculpa esfarrapada para o pecadillo de fotografar com o iPhone.

O que as pessoas querem, com estas desculpas, é justificar o uso de um gadget caríssimo. É convencer os outros – e, sobretudo, a si mesmos – que os 900 euros que gastaram com um smartphone os habilitam a fotografar tão bem como se estivessem a usar uma câmara fotográfica verdadeira e própria, mas há quem, quando tudo o resto falha, use o argumento desesperado – a bomba atómica da retórica dos zelotas do iPhone – de que (segurem-se!) é o fotógrafo que conta, e não o equipamento. Oh, sim, sim. Yeah, right. Este é o melhor de todos. Esta retórica não é, diga-se, nada falha de presunção: é como se essas pessoas fossem, de facto, grandes fotógrafos – e todos sabem que os grandes fotógrafos são bons com qualquer coisa. Este é mais um argumento a posteriori, é apenas mais um pretexto. Ansel Adams, Harry Callahan e Jeanloup Sieff usaram Polaroids esporadicamente, mas não foi para provar que eram grandes com qualquer câmara que lhes fosse parar às mãos: foi para mostrar o que pode ser feito com um meio diferente e alguma imaginação. E para se divertirem. Os utilizadores do iPhone não têm imaginação e querem por força convencer (-se) que têm uma grande câmara, o que sabem muito bem ser falso, e são uns tristes.

Não, o iPhone não é uma boa câmara fotográfica e nunca vai substituir uma DSLR  ou uma boa mirrorless. O que há é gente que se deixou engodar pelo marketing insidioso e o adquiriu, imaginando que ia obter a qualidade apregoada. Foram enganados, mas não querem perder a face e procuram justificar a sua aquisição com pretextos rebuscadíssimos que alguns websites procuram erigir em verdades absolutas. E, no entanto, não há nada de mal em fotografar despretensiosamente com um iPhone. Quem o faz tem consciência de que a sua câmara é muito limitada e que é possível fazer melhor com outro tipo de equipamento, mas não se importa. Esta atitude é muito mais sã do que massacrar o juízo das pessoas com tretas como as da «melhor câmara», a do «bloco de notas» e a de o equipamento ser irrelevante.

M. V. M.

O Samuel e outras histórias

Interrompo hoje um longo silêncio que teve três causas: a primeira foi o trabalho – elaborar um recurso para o Tribunal da Relação exige um dispêndio de tempo e disponibilidade consideráveis, e esta não foi a minha única ocupação profissional da semana; outra foi uma pequena intervenção cirúrgica a que fui submetido ontem (uma intervenção que chegou com quarenta anos de atraso!) e, por fim, uma razão que me ocupou quase todo o tempo que sobrou: um gato novo. É verdade – o Sousa tem agora um substituto, de nome Samuel, um gato preto que adoptei, libertando-o da jaula do Canil Municipal que ocupou durante quatro meses.

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A pantera!

O gato é uma delícia. É ainda bastante jovem, mas já tem um crescimento apreciável. Ao contrário do Sousa, que adoptei quando tinha apenas dois meses, este veio já quase completamente formado. A escolha de um gato preto teve que ver com dois factores: 1) estes gatos são extremamente distintos e 2) por causa de superstições absurdas, são sistematicamente preteridos nas adopções. A verdade é que o Samuel tem classe e é manso, mas brincalhão. Não sei se vai ser um bom substituto do Sousa, mas também tinha dúvidas se este último ia alguma vez conseguir ocupar o lugar da gata que o antecedeu (o que ele mais que superou).

Chega de gatos. Não é por causa do Samuel que me vou tornar num gatógrafo – embora fotografar a negritude daquele pêlo tenha qualquer coisa de desafiador – e o assunto que pretendia para este texto não tem nada que ver com gatos: era para ser (e vai ser) a narrativa do choque que senti quando confrontei as minhas expectativas relativamente aos meus hobbies com a realidade.

Pois é. Quando comecei a ter rendimento disponível para hobbies, escolhi a alta fidelidade. Por que não? Era (sou) um apreciador omnívoro de música, pelo que reproduzi-la com a maior qualidade possível era um objectivo perfeitamente lógico.

Esperava que as pessoas que partilham este hobby fossem também elas grandes amantes da música, mas enganei-me redondamente. Custou-me a percebê-lo, porque os meus primeiros passos foram guiados pelo Francisco da Luz e Som, dono de um gosto musical particularmente distinto e variado, mas a realidade atingiu-me com o impacto de uma bola de demolição quando me apercebi que as revistas de alta fidelidade usavam discos de música banal para aferir as qualidades dos equipamentos testados. Nunca imaginei que alguém comprasse um amplificador Cyrus para ouvir Shola Ama, mas aparentemente havia uma revista que entendia ser tal facto perfeitamente plausível. Mais tarde, estava eu ao balcão da Imacústica à espera da minha vez quando interceptei uma conversa entre um cliente e o empregado; o cliente tinha uma meia-dúzia de CD’s na mão e estava a confessar que os tinha ali para ouvir «umas vozes». Os discos eram de gente como a Dulce Pontes. Comprar equipamento extraordinário para ouvir música ordinária pareceu-me uma aberração, mas era esta a realidade: os audiófilos são gente arrogante, sem gosto e com a mania que percebem de electrónica e de acústica. Não percebem. São uns otários com mais dinheiro que juízo que só dizem baboseiras quando abrem a boca.

Também me aconteceu pensar que quem despendia muito dinheiro em máquinas fotográficas e lentes o fazia porque esses eram os instrumentos de que necessitavam para exprimir melhor os seus ideais estéticos. Ops! – enganei-me outra vez. Não são. O fenómeno foi o mesmo que em relação à alta fidelidade, mas as referências foram diferentes. Depois de conhecer a obra de alguns fotógrafos como Koudelka, Cartier-Bresson e Doisneau (eram poucas as referências que tinha por essa altura), pareceu-me abjecto haver gente capaz de gastar fortunas em equipamento fotográfico por causa do desempenho. Se ao menos tivessem essa obsessão pelos números, mas fizessem fotografias decentes… nada disso: há os gatógrafos e há os que fotografam paredes de tijolo e quadros de cortiça.

Isto não faz sentido nenhum. Por vezes parece-me que os melhores melómanos são aqueles a quem não interessa como ouvem a música de que gostam e que os melhores fotógrafos são os que usam qualquer coisa para fotografar. Claro que não é bem assim: há audiófilos que constroem um sistema como se fosse um altar do qual adoram a sua música e há fotógrafos que se sacrificam para comprar bom material fotográfico porque só com ele podem exprimir as suas ideias fotográficas, mas estes são grupos minoritários.

Não estou com isto, de maneira nenhuma, a conferir legitimidade aos iPhonógrafos: estes aliam o vício dos gadgets à presunção, pelo que reúnem tudo o que o hobby da fotografia tem de deplorável. O que me espanta é ver gente carregada de câmaras e lentes (ou a imaginar que o seu telelé é uma câmara a sério, o que é delirante) a fazer más fotografias. O que é tão mau – se não for pior – do que usar um amplificador Audio Research e colunas Sonus Faber Guarnieri para ouvir Dulce Pontes.

O mundo é um lugar estranho.

M. V. M.

Marketing e a nova OM-D «profissional»

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É um facto bem conhecido dos profissionais do marketing: os consumidores deixam-se enganar facilmente. Alguns, aparentemente, gostam de ser enganados, especialmente nesta era de pretensos desenvolvimentos tecnológicos.

Uma das maneiras de iludir os consumidores e convencê-los a comprar aquilo de que não precisam é ofuscá-los com tecnologia. Resulta com os pixéis do sensor de uma câmara, mas também com uma data de inutilidades de que as pessoas se deixam convencer de que precisam como de pão para a boca. É o caso do vídeo 4K (quantos têm televisões e computadores preparados para 4K?) e dos valores ISO astronómicos, mas também do número de disparos sequenciais, da ligação Wi-Fi e do GPS. Ai do fabricante que se atreva a não incluir qualquer destas funcionalidades numa câmara: esta torna-se obsoleta e ridícula no próprio dia da sua apresentação.

Uma das companhias mais activas no que toca a encher as suas câmaras de funções inúteis é, curiosamente, a Olympus. Que longe estamos dos valores de simplicidade e bom design de Yoshihisa Maitani: agora as câmaras da Olympus são as mais complicadas de operar, com menus infinitos e inacessíveis, botões com duplas funções, interruptores e manípulos para tudo e mais alguma coisa – e tudo isto em aparelhos minúsculos, tal como minúsculos são os sensores 4/3. A insistência da Olympus neste sensor é algo que nem sei como qualificar: teimosia? Obstinação? Estupidez?

Os britânicos têm dois ditos interessantes que não têm correspondência na sabedoria popular portuguesa: um é you can’t make a silk purse of a sow’s ear (não se pode fazer uma bolsa de seda da orelha de uma porca) e outro, um pouco mais directo, é you can’t polish a turd (não se pode polir uma bosta). No entanto é isto mesmo que a Olympus anda a fazer desde 2002. Insistem num sensor – e consequentemente num formato e num sistema construído à sua volta – que nunca deu nem dará bons resultados.

Tudo isto vem a propósito da nova porta-estandarte da Olympus, a fastidiosamente denominada Olympus OM-D E-M1 Mark II. Evidentemente, esta câmara tem nas suas entranhas um sensor 4/3. A lista de funcionalidades, as mais delas inúteis, é infindável: 20 megapixéis, selagem contra os elementos, disparo sequencial de quinze exposições com o obturador mecânico e sessenta com o electrónico, tempo de exposição mínimo de 1/8000 com o obturador mecânico, estabilização de imagem em cinco eixos, gravação de vídeo em 4K, ecrã articulado em todas as direcções (como se pode viver sem isto?) e sensível ao toque, cento e vinte e um pontos de focagem automática, com detecção de fase no sensor, e umas coisas chamadas sensor shift e focus stacking – seja lá o que isso for.

Outro fenómeno típico das operações de marketing é o de nos tentar convencer que os progressos tecnológicos se sucedem a uma velocidade vertiginosa. No caso da Olympus, tentaram fazer-nos crer que a mudança do velho sensor Panasonic de 12,3 megapixéis para um fabricado pela Sony trouxe diferenças como da noite para o dia em matéria de qualidade de imagem. Conjugando isto com as funcionalidades enunciadas no parágrafo anterior, não surpreende que haja quem pense que a Olympus OM-D E-M1 Mark II é a câmara perfeita. Hmmm… não, não é. Esta profusão de tecnologia não contribui em praticamente nada para a qualidade de imagem.

Comecemos pelo ruído. Os níveis de ruído produzidos pelo sensor Sony de 20 megapixéis são embaraçosos. O ruído a ISO 800 é tão mau como o da minha E-P1 quando fotografo a ISO 400. Isto significa que, entre 2009 e 2016, tudo o que foi conseguido foi um progresso que se reduz a 1 EV. Muito pouco, e uma desilusão para quem se deixou enganar pelo marketing que prometia uma melhoria como do dia para a noite graças ao sensor novo. O ruído não era o único defeito do sensor Panasonic das primeiras mirrorless da Olympus: a tendência para estourar as altas luzes melhorou um pouco com a passagem para os sensores da Sony, mas as imagens continuam afectadas por uma claridade que não é a que vemos com os nossos olhos e que é o resultado da rápida saturação dos fotodiodos. Suporia, com base nisto, que também aqui os progressos não foram nada de sensacional.

Contudo, a Olympus está a pedir €1.800 por esta câmara, o que é mais do que custava a E-5, a última DSLR da marca. Com esta qualidade de imagem, o que esses mil e oitocentos euros pagam é a profusão de funções inúteis que esta câmara incorpora. Querem que se pague uma fortuna por uma câmara cuja qualidade de imagem não melhorou substancialmente em relação à E-P1 de 2009. Por este preço é possível comprar uma Pentax K-1, que é maior mas é uma full-frame e uma DSLR, com um visor óptico e uma qualidade de imagem superior. Ah – quase me esquecia de referir que a Olympus tem a pretensão de dizer que esta é uma câmara profissional. O sake que eles bebem às refeições é mesmo forte.

M. V. M.

A fotografia instantânea e eu

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Recordo-me vagamente de, em criança, ter tido aspirações ambíguas de fotografar com uma Polaroid. Estas fantasias pertenciam ao domínio do irrealizável, porque as Polaroid eram caras e não serviam os propósitos de uma máquina fotográfica de família; por isso, quando tinha treze anos, o que recebi foi uma Agfamatic Pocket 1000, que usava rolos 110 e me convenceu que jamais faria uma única fotografia decente.

Também me lembro de que os meus sonhos infanto-juvenis esbarravam na limitação da escassez temática: depois de ter fotografado os meus pais, a minha irmã e mais um punhado de pessoas – tinha a certeza que os amigos considerariam ridícula qualquer manifestação da minha eventual vontade de fotografá-los e reagiriam com alguma hostilidade –, que me restaria para fotografar com a hipotética Polaroid? Os sonhos não duraram muito, mas deixaram qualquer coisa plantada na minha mente.

De volta aos nossos dias: a Fujifilm vai lançar papel para fotografia instantânea em formato quadrado (1:1), o projecto Impossible é um êxito e a Leica lançou a sua própria versão da Fujifilm Instax Mini 90, a que chamou «Sofort» (uma palavra alemã que é sinónima de «instantâneo»). Não parece haver dúvidas que a fotografia instantânea está cheia de vitalidade. Que pensar disto?

A fotografia instantânea é, e sempre foi, convivial por natureza. Embora tenha sido usada com fins artísticos por fotógrafos como Toto Frima ou William Albert Allard (que poderia ter feito as suas Polaroids com outra câmara qualquer), estas fotografias servem o propósito de amigos se fotografarem uns aos outros e se divertirem. O que não tem, evidentemente, nada de mal: pelo contrário, é muito menos absurdo que as selfies e, ao contrário destas últimas, implica um pouco de esforço cerebral.

Chegado aqui, enfrento uma encruzilhada: uma parte de mim deseja o sucesso desta forma de fotografia. Ela é parente próxima da Lomografia, porque em ambos os casos as pessoas que fotografam não levam o que fazem demasiado a sério: não têm pretensões de fazer arte nem de agradar a todos. São jovens conviviais, urbanos e sofisticados que querem simplesmente divertir-se a tirar polaróides.

Outro lado de mim – o lado pragmático, utilitarista e irremediavelmente fiel à terra – despreza a fotografia instantânea e considera-a frívola, oca e sem sentido; as polaróides são as selfies dos universitários ricos e a Toto Frima e o Allard foram provavelmente contratados pela Polaroid para legitimar intelectualmente a vacuidade da fotografia instantânea.

Uma parte de mim quer aderir a mais esta coqueluche revivalista; outra diz-me que a fotografia instantânea é um disparate. Mas depois vem a realidade intrometer-se e resolver em definitivo a questão, esclarecendo-me que, embora pudesse facilmente adquirir uma câmara instantânea – até as mais sofisticadas, as Polaroid SX70, podem ser adquiridas por valores módicos –, o preço do papel é proibitivo: a Impossible vende cassetes de papel fotográfico por €20, mas cada uma contém apenas 8 papéis – o que significa que cada fotografia fica por €2,50. Sai cara, esta fotografia convivial. Bem mais cara do que a fotografia com rolos 135.

Parece que os sonhos vagos e ambíguos da minha infância vão ficar por concretizar. Contudo, a minha costela que se recusa a envelhecer regozija com este sucesso da fotografia instantânea. Não é para mim – este tipo de fotografia não é para pessoas como eu –, mas há quem tenha imenso prazer em tirar polaróides. Este é um prazer que não prejudica outros, não tem consequências negativas (pelo contrário) e, sobretudo, ajuda a preservar a ligação da fotografia ao seu lado físico que se consubstancia no papel. Hoje a fotografia é praticamente imaterial; a fotografia instantânea mantém viva a tradição da impressão e do papel. Mesmo sendo em formatos minúsculos e com uma resolução discutível, esta é sem dúvida uma virtude. Um dia, quando todos os discos rígidos queimarem e as clouds deixarem de armazenar e disponibilizar dados, alguém manterá um acervo material de fotografias. Mesmo que algumas delas possam ser disparatadas, a memória terá triunfado sobre o efémero.

M. V. M.