Técnica e telemóveis

As pessoas que conhecem as minhas fotografias sabem que elas não têm um conteúdo técnico assinalável. Pelo contrário, são raras aquelas em que recorro às técnicas fotográficas. Não por falta de confiança – o que seria perfeitamente legítimo quando se usa uma máquina fotográfica de película, na qual obviamente é impossível confirmar imediatamente os resultados –, nem por desconhecê-las, mas porque o tipo de fotografia que me interessa não requer o uso de técnicas especiais.

O que não significa que despreze as técnicas fotográficas. Pelo contrário: se eu tivesse uma palavra a dizer quanto aos curricula de um curso de fotografia, as aulas incluiriam, entre outras, o disparo do flash à segunda cortina, o arrastamento, o panning e até o zoom burst. Uma fotografia que viva só da técnica é uma fotografia vazia, uma demonstração fútil de conhecimento da técnica, mas – já o disse várias vezes – a técnica pode ser um poderoso auxiliar da expressão.

Este curso de fotografia para cuja elaboração eu seria chamado (o que seria tão certo de acontecer como eu ganhar o Prémio Nobel da literatura à custa dos textos do Número f/) seria só para alunos que tivessem câmaras a sério. Podiam ser DSLR, mirrorless ou compactas avançadas, mas teriam de ter controlos manuais da exposição e do flash, porque só com esses comandos é possível criar efeitos visuais através das técnicas fotográficas. O que quer dizer que, se dependesse de mim, nenhum curso de fotografia aceitaria smartphones.

Os smartphones não têm controlos de exposição. Existem apps que reproduzem os efeitos da exposição, mas são os algoritmos do processador, e não o utilizador, que criam esses efeitos. A única criatividade que existe nestas apps está em quem as programou. O que as apps fazem, por outras palavras, é simular os comandos de uma câmara: se pensarem bem, as objectivas dos telemóveis têm uma abertura fixa, o que implica, evidentemente, que não pode haver qualquer tipo de controlo sobre a abertura. Estamos aqui claramente no reino da fantasia, porque, se o utilizador não pode regular a abertura, não controla a exposição. Nem a abertura, o que vimos ser impossível, nem  o tempo de exposição, nem o ISO. Se eu quiser dar à fotografia um efeito criativo como o panning ou o arrastamento de objectos em movimento, preciso de dominar as técnicas: preciso de saber quais são as repercussões da abertura e do tempo de exposição na imagem e conhecer a lei da reciprocidade. Ora, com um telemóvel nada disto faz sentido: como não tenho qualquer controlo sobre o tempo de exposição, não posso fazer um panning nem dar um efeito de arrastamento.

Claro que o fanático da tecnologia que vier ler este texto vai dizer que eu vivo no passado, que a tecnologia evoluiu e que aquilo que faço com esforço está ao alcance do deslizar de um dedo sobre um slider no ecrã do smartphone. E eu, evidentemente, devo conformar-me com esta era de prodígios tecnológicos em que não é preciso saber fotografia para fotografar. Todavia, tanto quanto é do meu conhecimento não existe nenhuma app que consiga reproduzir técnicas como o arrastamento – o intencional, não o acidental – e o panning. Há algumas que simulam o bokeh, o qual depende sobretudo do uso de distâncias focais que os telemóveis, por limitações físicas óbvias, não podem ter, mas o artifício é tão evidente que não engana ninguém. Um dia as apps vão imitar todos estes efeitos, mas serão sempre isso mesmo: imitações.

Por tudo isto, e correndo o risco de parecer um pedante, digo que só um tolo pode pensar que o seu smartphone faz o mesmo que uma câmara fotográfica. É mentira. Aliás, a «fotografia computacional» é exactamente isto: uma mentira. É uma manipulação da imagem que dispensa o controlo e os conhecimentos do utilizador, pelo que não é exagerado dizer que é um embuste. Querem usar técnicas fotográficas? Aprendam fotografia e aprendam a utilizar uma câmara a sério. O resto é batota.

M. V. M.

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O futuro não tem espelho, parte 2

A homogeneização a que aludi no final do texto anterior tem o resultado perverso, e paradoxal, de os produtos que o consumidor pode escolher serem sucedâneos uns dos outros: tanto faz comprar um Volkswagen, um Opel ou um Renault, porque têm especificações e preços idênticos e as únicas diferenças são cosméticas. Hoje em dia os construtores estão a borrifar-se no prazer de conduzir e na individualidade, porque apenas uma minoria procura estes atributos; como a maioria dos consumidores não sabe se o automóvel que quer comprar é de tracção traseira ou dianteira, os construtores oferecem produtos que agradam a quem não vê no automóvel mais que um meio de locomoção. A aparência tem muito mais importância do que a substância, como pode testemunhar um meu conhecido que, pensando que estava a adquirir um todo-o-terreno da Honda (as formas do veículo sugeriam-no), deu por si com um SUV de tracção à frente sem qualquer vocação para trilhos de terra e lama ou para galgar dunas. Ah – e a tendência para o rebanho que os consumidores demonstram terá por efeito que um dia todos os automóveis sejam de caixa automática e, pior ainda, autónomos.

O leitor que me seguiu até aqui estará porventura a indagar onde quero chegar com tudo isto. No caso da indústria fotográfica, a conjugação das exigências expressas na Internet e da vontade dos grandes fabricantes em realizar economias em detrimento dos consumidores minoritários está a conduzir à homogeneização da oferta. Any camera you like, as long as it’s mirrorless podia ser um novo slogan se Henry Ford fosse vivo e produzisse câmaras em lugar de automóveis. Sim, porque a indústria está progressivamente a fazer desaparecer as DSLR – as câmaras de telémetro estão reduzidas a um nicho ocupado exclusivamente pela Leica – e a trocá-las por câmaras mirrorless.

Não pode ser outra a conclusão a extrair das apresentações das Nikon Z6 e Z7, há duas semanas, e da Canon EOS R, que ocorreu anteontem. Olhando para estas câmaras, posso dizer, com segurança, que o futuro é isto: as DSLR vão desaparecer. O que, de resto, não é novidade nenhuma: a Olympus eutanasiou a sua última DSLR, a E-5, em 2013, e agora só vende câmaras mirrorless.

Isto é bom ou mau? Estas câmaras só podem ter visores electrónicos, o que as coloca na família das bridge dos turistas se sandália e peúga branca; é seguramente mais barato para os fabricantes adquirir visores electrónicos OEM ao preço da uva mijona e incorporá-los nas câmaras do que incluir um espelho, um pentaprisma e um visor óptico – e, no entanto, podem cobrar o mesmo preço – ou mais elevado – que uma DSLR, porque os tais foristas do dpreview.com ficam tão embasbacados com a simples menção do adjectivo «electrónico» que pagam alegremente o dobro do que a câmara realmente vale para ter toda aquela inovação. A tecnologia reflex já vem do tempo dos periscópios dos primeiros submarinos; está portanto horrivelmente obsoleta e ultrapassada. O visor electrónico é o futuro. Pouco importa se a percepção do movimento é melhor com uma reflex, ou se a focagem é mais rápida: as mirrorless são o que está a dar. O visor electrónico é o futuro, e isso basta – mesmo se este futuro já vem do tempo das primeiras bridge.

Repito a pergunta: – isto é bom ou mau? Nem uma coisa nem outra: é o que é. As mirrorless vão substituir as DSLR no mercado muito mais volumoso dos amadores. A Canon e a Nikon estão, com os seus modelos novos, a fazer uma transição suave e gradativa das DSLR para as mirrorless. A procura de câmaras DSLR vai diminuir até se confinar aos profissionais que precisam da focagem mais rápida e de um visor com o qual vêem a acção em directo e em tempo real, e têm uma colecção de objectivas concebidas para usar com corpos DSLR. Do ponto de vista da qualidade da imagem não haverá diferença, porque os sensores são o que determina a qualidade, juntamente com as objectivas, e os sensores são os mesmos que estão nas entranhas das melhores DSLR. Claro que vão passar décadas até que os sistemas mirrorless tenham uma gama de objectivas tão completa como as DSLR, mas isto não afecta os consumidores que entretanto se habituaram a pensar nos corpos como estando no coração de um sistema – é neles que está a tecnologia de ponta –, sendo as lentes meros «periféricos» (juro que li isto num artigo do dpreview.com!); e, de resto, há adaptadores para usar as objectivas «antigas».

No fundo, continuará a haver oferta suficiente para todos, mas os mais exigentes terão de pagar fortunas por produtos de nicho, nos quais as DSLR estarão incluídas. Nada que não se veja noutros bens de consumo: se o leitor precisar de um automóvel sem as inestéticas portas traseiras (que acrescem ao peso e ao preço), a Ferrari e a Porsche ainda terão alguns modelos com essa característica obsoleta – tal como a Canon e a Nikon ainda irão ter um ou dois modelos de DSLR no catálogo. A preços proibitivos.

M. V. M.

A precisar de férias


Quase um mês sem escrever. Não há justificação. Digo melhor: há várias justificações, as quais vou passar a «elencar» (não é uma das palavras mais odiosas da língua portuguesa?):

– Não me apetece escrever. É isto, é muito simples. Passo mais tempo a ler – deixei-me enamorar completamente pelas obras de Stendhal – do que a fotografar. Estou a participar passivamente numa arte em lugar de estar a criar, mas entre ficar em casa a ler Lucien Leuwen e ir para o meio de um trânsito cada vez mais estupidificado para fotografar em lugares infestados por turistas, tenho tendido a preferir a primeira. Está a tornar-se impossível viver no Porto, o que é profundamente desmotivante para quem fotografa na rua como eu.

– Não há nada sobre o que valha a pena escrever (esta frase estará bem construída?). Vou aos websites de fotografia, e que vejo? Os artigos sobre teasers de uma futura câmara são os que mais interessam à comunidade fotográfica. A futura câmara é uma mirrorless que a Nikon vai lançar, o que significa apenas uma coisa: a Nikon está mal de massas e procura uma nova clientela entre os basbaques que se babam como jecos pavlovianos diante da mera inclusão das palavras «electrónico» e «digital» na descrição de um produto. A câmara, que vai ter um sensor full-frame e vai parecer uma Nikon 1 V2 que abusou de esteróides, nada vai acrescentar ao line-up da Nikon, que já tem a D610, a D750, a D810, a D5 e ainda a Df equipadas com sensores 36×24, mas há gente muito ruidosa que prefere um visor electrónico a um óptico porque entende que este último é rudimentar. E vai, evidentemente, obrigar ao fabrico de novas objectivas, porque esta mirrorless vai ter uma baioneta diferente da FX. Espero que esta não seja uma aventura ruinosa para a Nikon.

– Não estou inspirado. Escrever, mesmo que seja um mero texto num blogue, exige inspiração – e eu, de momento, não a tenho. Também não tenho para fotografar. Na verdade, ando descontente com uma série de coisas na minha vida e isso manifesta-se nesta falta de inspiração. Há duas semanas resolvi retirar um rolo da máquina e expor a película à luz directa. O rolo ainda ia a meio, mas fiquei de tal maneira insatisfeito com as fotografias que tinha feito até então que optei por destruí-las. Se uma fotografia não me diz nada, também não o dirá a quem a vê. Simples. Tinha feito fotografias que eram a repetição de outras e cheguei a falhar enquadramentos grotescamente.

Isto não quer dizer que tenha perdido o interesse pela fotografia, nem que esteja prestes a mudar de hobby. Significa, talvez, que a fotografia ocupa demasiado espaço na minha vida e estou a precisar de férias. Ou talvez isto que está a acontecer tenha a sua razão de ser no facto de me estar a obrigar a fotografar a cores. Começo a recear que sou peixe fora de água quando fotografo a cores.

Isto vai passar. Daqui a algum tempo regresso ao preto-e-branco, às composições simples e aos contrastes ilfordianos. Até lá, resta-me pedir paciência aos leitores que ainda não desistiram de ler estes meus disparates. (Bem hajam!)

M. V. M.

Moby Dick

Os sistemas mirrorless foram a melhor coisa que aconteceu aos nerds que, por grande azar nosso, se dedicam a tirar fotografias. Vejam só: tudo naquelas câmaras é electrónico. Não há lugar para coisas rudimentares e obsoletas como espelhos e pentaprismas (curiosamente, o facto de as objectivas serem feitas com vidro parece não perturbar tanto os nerds como a existência de um espelho e de um pentaprisma do mesmo material) e qualquer dia as câmaras mirrorless prescindem completamente das cortinas do obturador. Ainda por cima, são câmaras que atingem números de fotogramas por segundo incríveis, o que é importante quando se quer fotografar o gato que nunca sabe quando deve ficar quieto a fazer pose.

Quando estes sistemas estavam ainda numa fase de descolagem, era frequente esgrimir o argumento do tamanho: de facto, uma câmara mirrorless é mais pequena por não precisar do volume que o espelho exige nas SLR; e, como a distância entre a lente posterior da objectiva e o sensor é menor, as objectivas podem também ser mais pequenas. Isto originou uma vaga de fundo: de repente, descobriu-se que as DSLR e as suas objectivas para o formato full-frame eram monstruosas e, foi-se a ver, causaram uma epidemia de cifoses, lordoses e escolioses ao longo dos anos. Os pobres fotógrafos, derreados pelo peso das suas 11-22 e 70-200 e dos corpos DSLR monstruosos, saudaram efusivamente a chegada ao mercado de câmaras e objectivas leves e compactas. Finalmente iam poder entregar-se nas mãos de fisioterapeutas e corrigir as corcundas infligidas pelos paquidermes da Canon e Nikon durante tantos anos. Pelo menos era isto que se podia depreender dos websites de fotografia e respectivas caixas de comentários.

Agora a Sony veio mostrar que, afinal, não há nenhuma vantagem de tamanho. Lançou uma objectiva 400mm-f/2.8 que é mais leve 900 g que as rivais Canon e Nikon (o que é irrelevante, porque objectivas como estas são usadas com tripés ou monopés), mas em contrapartida é exactamente do mesmo tamanho e, ainda por cima, é mais cara.

Da esquerda para a direita: Canon, Nikon e Sony

Eu não sei o que pretende a Sony com esta objectiva: será afirmar-se como fabricante de objectivas? Será mostrar que pode rivalizar com a Canon e a Nikon e oferecer produtos de qualidade profissional numa categoria de equipamento que se tem destacado pela frivolidade e por só ter adeptos entre amadores obcecados por números e tecnologia? Quanto a mim, esta objectiva é um statement. A Sony quer mostrar que os seus sistemas mirrorless são tão bons como os sistemas DSLR da Canon e da Nikon, mas o seu objectivo não é convencer os profissionais: estes construíram os seus sistemas à volta das objectivas e não estão dispostos a gastar fortunas construindo novos sistemas de raiz para ter uma qualidade que, na melhor das hipóteses, é comparável ao que já têm. Ao invés, o potencial cliente da Sony compra uma α9 pelas suas especificações e sofisticação tecnológica. As objectivas vêm depois, tal como a qualidade da imagem. É este o tipo de consumidor que a Sony quer convencer com o seu Moby Dick.

Fica assim desfeita a última falácia dos propugnantes das mirrorless. A opção por sensores full-frame e de médio formato destrói a pretensa vantagem do peso e do tamanho, com os inconvenientes de um sistema de focagem automática que ainda carece de aperfeiçoamento, de obrigar ao uso de um visor electrónico, de uma ergonomia insuficiente e de um potencial sobreaquecimento (as Sony α7 são reputadas por aquecerem em demasia quando filmam vídeo). Assim de repente, e a despeito dos websites e seus comentaristas, não estou a ver os fotojornalistas a fugir em debandada da Canon e da Nikon e a aderir maciçamente à Sony. Seria necessário que a Sony oferecesse uma vantagem substancial em qualidade da imagem, funcionalidades e ergonomia, o que está muito longe de acontecer. Nenhum fotojornalista vai mudar de sistema para ter um visor electrónico.

M. V. M.

Leica Zagato

Não se está a passar nada de muito interessante no Planeta Fotografia. O que é natural, porque, convenhamos, já está tudo inventado. Quando é assim, tudo se resume a evoluções de pormenor – mais megapixéis, mais fotogramas por segundo, mais sensibilidade ISO, mas, no essencial, nada de novo.

Na semana passada as únicas novidades vieram da Leica. Uma compacta com sensor de 1 polegada, que não é mais que uma Panasonic com o famoso ponto vermelho a adicionar umas centenas de euros ao preço, e uma M10 redesenhada por nem mais nem menos que o Atelier Zagato.

Isto interessa-me. Para quem eventualmente não souber, o Atelier Zagato é uma das mais famosas casas italianas de design automóvel. Não tem a notoriedade de uma Pininfarina ou Bertone, mas alguns dos seus designs são simplesmente incríveis. Desde o maravilhoso Aston Martin DB4 (foto em baixo) ao Maserati Mostro, passando pelo excêntrico Alfa Romeo SZ dos anos 90, os modelos Zagato são extremos, provocadores, exuberantes e, sobretudo, belos. A Zagato é uma casa que, por desenhar veículos de séries limitadas, sem os constrangimentos da grande produção, pode ousar. A Bertone e a Pininfarina – especialmente a primeira – não sobreviveram à ousadia dos seus designs, mas a Zagato, aparentemente, continua a porfiar.

E agora a Leica entendeu que seria boa ideia encomendar uma série especial da sua M digital, a M10, ao atelier Zagato. O resultado foi decepcionante, pelo menos para mim que conheço razoavelmente bem a história do design automóvel da Zagato. Não há aqui um mínimo de ousadia. Talvez seja difícil redesenhar uma Leica M – até por esta ser uma câmara extremamente bonita –, mas não há a originalidade, a criação e o atrevimento de um Aston Martin Virage Shooting Brake. É apenas um redesign do topo da câmara, com uma pequena bossa no lugar onde a mão direita agarra a câmara, e nada mais. É usado alumínio em vez de latão, mas isto pouco acrescenta à estética. Pelo contrário, até a deteriora: em lugar do couro, o corpo é revestido de alumínio canelado. O único sinal de distinção é, aliás, de gosto questionável: o interior do para-sol da objectiva 35mm-f/1.4 é ornado com a inscrição «ZAGATO». Este nome surge dez vezes à volta da circunferência interior do para-sol. Ao menos não é em fundo vermelho, como nos binóculos que Zagato desenhou para a mesma Leica.

O nome Zagato contribui para acrescentar cerca de seis mil euros ao conjunto constituído pelo corpo M10 e pela objectiva 35mm-f/1.4. Decididamente, um mau negócio – especialmente se atendermos a que a M10 não precisa de retoques de designers externos à Leica para ser uma câmara bonita.

A quem se destina esta câmara? Não sei. Provavelmente a gente que nunca dará o devido valor à tradição Leica e a comprará apenas por armanço – ou, o que é pior, para especular e revendê-la por um preço ainda mais alto no eBay daqui a alguns anos. A Leica, com estas séries especiais, não faz mais que legitimar as invectivas dos que gostam de descarregar o seu ressentimento contra «os ricos» na Internet. Sic transit gloria mundi.

M. V. M.

Obituário

As máquinas fotográficas mais bonitas do mundo actualmente em produção são as Leica M. Penso que este juízo de valor não merece discussão. As únicas excepções foram a M5 e as digitais M8 e M9. A primeira era uma Leica com os lados quadrados fabricada no Canadá – embora a sua qualidade não seja contestada –, ao passo que as digitais M8 e M9 eram gordas: demasiado profundas, nada tinham de esbelto; e eram desconfortáveis de segurar.

Esta semana soube-se que uma das M vai deixar de ser fabricada: a M7, de película, que fora lançada no comércio em 2002. Por que será que ninguém está inconsolavelmente triste? Porque esta é uma máquina carregada de electrónicas. Funciona manualmente ou no modo de prioridade à abertura e requer uma bateria. Tem um botão para ligar e desligar, necessário para accionar o fotómetro e o comando electrónico do obturador, o qual funciona quando o modo de prioridade à abertura é seleccionado. O obturador pode funcionar em modo manual ou electrónico, mas no modo electrónico pode ser usado com os tempos de exposição de 1/60 e 1/125 se a bateria falhar. Outra característica desta Leica M7 é a de fixar a exposição automaticamente (função AE-L) pressionando o botão do obturador até metade do curso.

Curiosamente, foi esta sofisticação que tornou a M7 numa pária entre as Leica M. Há gente para quem as Leica são tão melhores quanto menos progressos tecnológicos incorporarem, pelo que a MP – cuja única sofisticação é ter um fotómetro – e, ainda melhor, a M-A, que nem sequer tem um fotómetro incorporado, são as M de película reputadas como Leica puras. Aparentemente a Leica pensa o mesmo, pelo que a M-A e a MP não acompanharão a pobre M7 na caminhada ao longo do corredor da morte.

Há muito de legítimo nesta desconsideração pelas electrónicas. Eu, apesar de apenas poder recorrer à minha humilde OM-2n para aludir a esta matéria, confesso que nunca me passou pela cabeça usar o modo de exposição automático a que a Olympus chamava «preferência à abertura». Podia fazê-lo – tudo com que teria de me preocupar seria a escolha da abertura –, mas prefiro ter o controlo total da exposição, ainda que com o auxílio do fotómetro. Deste modo, se eu pudesse comportar o custo de uma Leica (e gostasse de visores de telémetro), a M7 não seria para mim. E não sou certamente o único a pensar assim.

Depois há uma máquina de película que já morreu há algum tempo, mas ninguém a avisou: é a Canon EOS-1V (o «V» é o número 5 em numeração romana). O quê? não sabiam que a Canon ainda vendia máquinas de película? Eu também não. Pensava que, entre os big boys, só a Nikon oferecia máquinas destas. A produção, como referi, já terminou (diz-se que em 2010, mas há informações contraditórias), mas os modelos em stock continuaram a ser vendidos. E agora esgotaram, pelo que as vendas chegaram obviamente ao fim.

Segundo li no The Online Photographer, os fabricantes de material fotográfico costumam, no caso de produtos historicamente relevantes, fazer um último ciclo de produção em larga quantidade para vender o stock como NOS (New Old Stock), controlando as existências através de aumentos estratégicos do preço. Aparentemente, foi isto que a Canon fez com a EOS-1V depois de ter cessado a produção.

Ao contrário da Leica M7, a Canon – que foi lançada em 2000 – tinha as linhas feias das DSLR actuais. Tinha também a reputação de ser uma máquina indestrutível e foi mantida no mercado, ao que se diz, para satisfazer as necessidades dos profissionais que se mantiveram fiéis à película.

Que significa isto para a fotografia analógica? Muito pouco. Não há significado nenhum quanto ao futuro próximo das películas. Não é mais um prego no caixão, não é o anjo da morte fazendo-se anunciar, nem é um abutre voando em círculos sobre a carcaça analógica. A Canon não tem vocação para produtos de nicho como as máquinas analógicas e, de resto, o fim da oferta da EOS-1V já estava previsto há muito. Quanto à M7, os adquirentes de Leicas analógicas não precisam dela: são pessoas que desdenham as electrónicas e querem ter controlo total do processo fotográfico. A fotografia analógica não vai morrer por perder estas máquinas.

M. V. M.