Efeméride

Verifico com alguma preocupação, ao ler os meus últimos textos, que estes estão embebidos em amargura. São textos azedos e zangados. Chega. Não há razão para sobrecarregar os leitores com as minhas quezílias. Hoje o texto é festivo: assinala um aniversário. Foi no dia 12 de Junho de 2013 que adquiri a minha Olympus OM-2n e, consequentemente, descobri a fotografia analógica. (Quer dizer: já a conhecia, mas não com a intimidade que adquiri desde que comprei a OM.)

Que posso eu dizer acerca desta máquina caprichosa – já foi reparada duas vezes e volta e meia o espelho bloqueia – que me ensinou tudo o que eu precisava de saber sobre fotografia? Assim de repente, posso dizer que a resposta está incluída na pergunta: aprendi com ela tudo o que eu precisava de saber sobre fotografia. As correlações de reciprocidade entre abertura, tempo de exposição e sensibilidade já não têm dificuldades: uso-as instintivamente. Teorizar a exposição, neste momento, seria como se me indagasse sobre os mecanismos físicos do caminhar ou do respirar: são coisas que se fazem, não se pensam.

Talvez por causa da dificuldade em usar técnicas fotográficas especiais, as minhas fotografias tornaram-se mais simples e menos dependentes da técnica. O que é bom – embora, para ser verdadeiro, esta fosse uma tendência que já vinha de antes, pois foi mais ou menos no início de 2012 que decidi que as minhas fotografias precisavam de mais conteúdo e menos técnica. Embora fazer fotografia nocturna e arrastamentos seja um desafio excitante com uma máquina de película, o uso desta última contribuiu para que me dedicasse a fotografias mais singelas e procurasse – e esta é uma demanda que ainda não chegou ao fim e provavelmente nunca chegará – dar-lhes mais sentido, mais significado.

Depois há o lado puramente hedonístico. Parafraseando um amigo meu (não necessariamente a propósito da fotografia analógica), é uma ganza fotografar com uma máquina como a OM-2n. É. Accionar uma máquina como estas é um prazer. É tudo manual – penso que nunca fiz nenhuma fotografia recorrendo ao modo semi-automático de «preferência à abertura» – e cada disparo é uma experiência física: com a OM, o movimento das cortinas e o impacto do espelho sentem-se na ponta dos dedos da mão esquerda (eu sou daqueles que segura a objectiva por baixo, envolvendo-a com os dedos, como ditam os cânones). Ao contrário de outras máquinas, como algumas digitais e as de obturador central, sente-se e percebe-e o que está a acontecer. De certa forma, a máquina acaba por tornar-se numa extensão do corpo, criando-se uma simbiose, mas o gozo de fotografar com uma máquina que usa rolos e não um sensor não acaba aqui: depois de se sentir a vibração do disparo, há que avançar a película. Dito de uma forma simples: fazer uma fotografia sem accionar a patilha de avanço da película não é fotografar: é colher imagens.

Há outros factores. Não posso dizer que o facto de ter um número reduzido de exposições ao meu dispor me ensinou muito, porque já me havia dado conta da necessidade de fotografar menos e melhor (ou da inutilidade de tirar milhares de fotografias, o que vai dar ao mesmo) antes de comprar a OM. Diria que esta necessidade de pensar melhor antes de fotografar – de julgar o valor fotográfico de cada cena e seleccionar só as que valem a pena – foi uma causa, e não uma consequência, da compra da OM. E houve outros benefícios, como descobrir as diferenças entre películas. Fotografar com película é como namorar: temos de conhecer todas as que pudermos antes de escolher aquela a quem queremos dedicar-nos. (Eu sei que isto é piegas, mas eu avisei que chegava de amargura!) Já que estamos no campo das relações interpessoais, a fotografia analógica permitiu-me conhecer gente interessante. Também conheci gente interessante quando fotografava com a E-P1, mas com os analoguistas aprende-se mais.

Eu sei que a fotografia analógica não é perfeita. O rolo 135 é muito limitado e exige as melhores objectivas existentes para que não mostre as suas deficiências em demasia. (Talvez assim percebam por que tanta gente sonha acordada com as Leica M.) Contudo, o prazer de fotografar com uma máquina analógica é tão grande que não me imagino a voltar ao digital. Só no caso extremamente improvável de me tornar profissional, ou qualquer coisa semelhante, é que sentiria desejo de voltar a fotografar digital.

M. V. M.

Relatório trimestral

De volta a um assunto que apenas me interessa marginalmente, mas que nem por isso deixa de ser útil ir acompanhando: a evolução do mercado do material fotográfico. Como sabem, o mercado das câmaras e lentes tem vindo a diminuir de volume de ano para ano, o que acontece desde 2007, o ano do lançamento do iPhone. Esta descida tem sido progressiva, mas acentuada, e nem as mirrorless conseguiram inverter essa tendência. (De qualquer modo, as mirrorless não são tão populares como os seus donos gostam de acreditar, nem vão matar as DSLRs como alguns esperam.)

Após quase dez anos de declínio, as vendas parecem estar a recuperar no primeiro trimestre deste ano. Nada de particularmente entusiasmante – o crescimento das vendas em Março deste ano foi até um pouco menor do que em 2016 –, mas parece haver uma tendência consistente de aumento das vendas. (Fonte: CIPA.)

Isto tem algumas interpretações. Depois de uma explosão nas vendas, que teve lugar em concomitância com a afirmação das câmaras digitais – na viragem e início do século –, as vendas diminuíram dramaticamente. E mesmo estes números eram sustentados pelas compactas, as quais foram as câmaras que mais sofreram com o advento dos telemóveis equipados com câmaras. Isto significa que houve aquilo que agora se chama um ajustamento: o mercado voltou aos níveis anteriores ao boom digital.

Isto acontece por uma razão: o mercado especializou-se. Os níveis de vendas actuais são baixos, mas relevantes. São, sobretudo, adequados a uma nova realidade em que nem todos os consumidores compram câmaras DSLR, como acontecia há quinze anos. A qualidade de imagem passou a ser uma consideração secundária e as pessoas que dantes compravam compactas (incluindo as bridge) e DSLRs baratas aderiram aos telemóveis, deixando a Canon, a Nikon e a Pentax sozinhas num mercado que voltou a ser altamente especializado.

Isto significa que os fabricantes lidam agora com volumes de produção muito mais reduzidos, o que coloca um enorme problema porque as divisões de fotografia das principais marcas cresceram, à custa do boom de vendas a que aludi, fazendo com que adquirissem uma dimensão que hoje em dia é insustentável. A Canon, apesar da sua posição na área do material de escritório, adquiriu a divisão de imagiologia médica da Toshiba, o que foi decerto um excelente negócio num mercado que é, curiosamente, dominado pela Olympus. A Ricoh também tem uma actividade diversificada, tal como a Panasonic. A estas marcas é relativamente fácil amortecerem as perdas de vendas de material fotográfico.

O mesmo não se pode dizer da Nikon. Dos fabricantes japoneses, é o único que está verdadeiramente em maus lençóis. O seu volume de vendas em ópticas e imagiologia – a Nikon faz lentes oftalmológicas e microscópios, entre outros – é reduzido porque a Nikon foi sempre, e preponderantemente, um fabricante especializado de câmaras e lentes. Deste modo, é o grande fabricante mais afectado pela diminuição de vendas de material fotográfico, o que a levou a cancelar o lançamento das Nikon DL, uma série de compactas com sensores de 1” e zooms rápidos.

Estas melhorias de vendas não podem deixar de ser boas notícias para a Nikon. Entretanto, a rival Canon, a despeito do seu conservadorismo, vende quase duas câmaras por cada uma que a Nikon vende. E, por cada mirrorless vendida, vendem-se duas DSLR. Neste segmento particular das mirrorless, todas as marcas têm vindo a decrescer no seu volume de vendas, menos uma: não, não é a Fujifilm, que permanece num orgulhoso último lugar entre os fabricantes de câmaras mirrorless. A excepção ao declínio de vendas das sem-espelho é a Sony. O que é perfeitamente explicável: as Sony são câmaras tecnologicamente sofisticadas, incorporando inúmeras inovações, o que agrada a um público que se horroriza ao saber que as DSLR têm nas suas entranhas um espelho de funcionamento mecânico, o que lhes lembra barcos à vela e locomotivas a vapor. O lado bom é que, apesar de gritarem muito nas páginas de comentários do dpreview.com, estes consumidores são poucos.

M. V. M.

OCOLOY e outras terapias para os desinspirados

Por vezes há que experimentar qualquer coisa diferente para renovar o entusiasmo. Muitos recorrem à aquisição de material, mas existe o risco de se fazer fotografias desinspiradas com material diferente (não necessariamente melhor), o que não faz com que o problema se resolva.

Uma experiência que alguns recomendam é conhecida pelo acrónimo OCOLOY: one camera, one lens, one year. Trata-se, como os leitores que dominam o inglês (i. e. todos os leitores) já perceberam, de passar um ano a fotografar com apenas uma câmara e uma lente. Os zooms estão excluídos, evidentemente, porque contrariam o espírito da experiência, que é usar apenas uma lente de uma determinada distância focal. (De resto, quem usa zooms não merece ocupar um lugar no seio da espécie humana.)

Que posso dizer acerca disto? Eu não seria capaz de passar um ano usando só uma lente, mas uso sempre a mesma máquina desde 2013 – o que, pelas minhas contas, perfaz mais de um ano – e, sobretudo, houve uma fase da minha vida em que usei apenas uma lente durante um lapso temporal que, se não perfez um ano – foi cerca de três meses –, foi consideravelmente longo. Foi quando comprei a E-P1. Agora, pensando nisso, devo concluir que tive uma inspiração ou um golpe de sorte quando a comprei, porque na mesma caixa vinha uma lente de distância focal fixa, mais concretamente a M.Zuiko 17mm-f/2.8, que não é grande coisa opticamente mas não deixa de ser interessante (à sua maneira). E, sobretudo, foi um instrumento de aprendizagem.

O que é de relevo, neste caso, é que aqueles três meses ensinaram-me muita coisa. Usar uma só distância focal ensinou-me a aproximar-me das coisas e a procurar as melhores perspectivas para aquela distância focal. Ensinou-me tudo o que havia para aprender, bom ou mau, quanto aos 17mm que, no sensor 4/3, fornecem o campo de visão aproximado de uma 35mm. Não interessa se gostei ou não de fotografar com uma distância focal tão mitificada: o que importa foi que retirei enormes ensinamentos da experiência. O OCOLOY dá resultado – mas não me parece que seja necessário um ano: uns seis meses devem chegar para aprender qualquer coisa. Nem que seja a a detestar os zooms.

***

No último texto referi que o facto de ter estado privado de fotografar foi produtivo, porque quando saí novamente à rua com a OM senti um contentamento renovado. O que não disse – estou a fazê-lo agora – foi que no dia seguinte, um domingo, o cansaço voltou. A culpa não foi minha nem da máquina: foi dos turistas. É cansativo andar nas ruas do Porto e descobrir-se que se é o único português, mas ainda mais extenuante é ver que toda aquela gente passa cada dois segundos a tirar fotografias compulsivamente, de tudo e delas mesmas. A câmara é uma extensão do corpo do turista: sempre foi. Mas esta obsessão de fotografar tudo é quase doentia.

O apogeu do cansaço foi quando estava à espera de uma boa oportunidade para fotografar uma rua velha do Porto e um palhaço qualquer decidiu que, se eu estava a fotografar aquele lugar, ele tinha mais direito do que eu de fazê-lo e plantou-se à minha frente, com o seu telemovelzinho na mão, durante uma eternidade, sem sequer dizer água-vai. Felizmente, esta rudeza não existe entre os aficionados da fotografia, que são corteses e não fazem aos outros o que não gostariam que lhes fizessem a eles. Um turista com um telemóvel é demasiado estúpido para entender isto.

Mas, fora isto, mantém-se verdadeiro que o afastamento da fotografia durante algum tempo me fez renascer um entusiasmo que estava algo esmorecido, à custa da rotina de só fotografar aos fins-de-semana e raramente sair do Porto. O tempo que passei sem câmara fez-me ver as coisas com olhos renovados, e tenho quase a certeza que o efeito seria mais intenso se tivesse estado ainda mais tempo sem fotografar.

Daí que não me pareça demasiado ousado ou disparatado sugerir uma pausa na fotografia sempre que esta ameaçar tornar-se demasiado rotineira. Fotografar não preenche nenhuma função vital nem é um impulso homeostático: sobreviveremos à privação. E dou por garantido que vai ser benéfico para a inspiração. Mais: pode fazer com que se definam novos objectivos, o que será sempre bom. E fica-se com tempo para se pensar no que temos andado a fazer e no que queremos fazer daí em diante, o que é ainda melhor.

M. V. M.

Ressurreição

E, ao décimo dia, ressuscitou

Estamos ainda a um dia do início da Semana Santa, altura em que celebramos a morte e ressurreição de Jesus Cristo, mas hoje já me sinto ufano e o meu espírito regozija: a minha OM levantou-se dos mortos e renasceu – embora duvide que tenha sido a Paixão que levou a minha máquina a perecer. Tenho a certeza que não morreu para me salvar e me redimir dos meus pecados, porque, francamente, não me recordo de ter incorrido em nenhum. A não ser o de fazer más fotografias, mas muitos cometem este pecado (e outros bem piores, como o de imitar) e não intervém uma avaria que os redima. Só acontece a mim.

Foi assim com incontida satisfação que hoje fui buscar a ressuscitada. Apesar de ter estado nas mãos de um homem chamado Igor – tal como o assistente de Frankenstein –, não consta que a OM tenha recebido partes de outros corpos nem que tenha sido trazida de volta à vida por um relâmpago fulminante, pelo que devo concluir que não houve intervenção divina nem sobrenatural na sua ressurreição. Devo também, evidentemente, estar grato por haver pessoas como o Igor e o R. S. D., porque sem eles tudo teria sido mais difícil (e provavelmente mais oneroso). Provavelmente a máquina teria de ter feito uma viagem até Souselas – parece que ali, no centro de assistência da Europa Ocidental da Olympus, também consertam máquinas analógicas – que me privaria dela durante muito mais tempo do que aquele em que estive abstinente de fotografias.

Se bem se recordam, o anel de selecção dos tempos de exposição da minha OM-2n havia encravado em 1/1000. Embora fosse possível fazer fotografias com este tempo – desde que existissem boas condições de luz –, pareceu-me boa ideia repará-la. Em boa hora o fiz: o comando dos tempos de exposição veio a trabalhar perfeitamente. E, sobretudo, com uma suavidade que nunca teve, pelo menos enquanto foi minha. Não é bem a suavidade de uma OM-1 em bom estado, que comparei à de uma faca quente deslizando em manteiga derretida, mas quase. Será mais uma faca morna deslizando sobre requeijão cremoso.

No primeiro fim-de-semana sem câmara não me senti particularmente angustiado por não fotografar. Foi até uma espécie de férias retemperadoras. Contudo, devo confessar que a perspectiva de outro fim-de-semana sem expedições fotográficas estava a começar a deixar-me preocupado – até porque entretanto sobreveio este estímulo que encontrei no website da Magnum e que me fez querer sair imediatamente à rua para fotografar.

Pois bem: este impulso teve de esperar mais alguns dias, mas valeu a pena. Não apenas porque a máquina me foi devolvida em perfeito estado, mas também porque a conjugação do contentamento por voltar a fotografar e do estímulo a que acabei de me referir resultou uma sessão divertida em que as oportunidades surgiram com muita naturalidade.

A privação teve os seus benefícios. Graças a ela, redescobri uma alegria em fotografar que pensava já ter esquecido. Não que fotografar se tenha tornado uma tristeza, ou um sacrifício, mas a sombra insidiosa da rotina começava a pairar sobre as minhas sessões fotográficas. Isto fez-me pensar se não será um exercício salutar privarmo-nos de fotografar durante um lapso considerável de tempo. Pelo menos parece-me ter o potencial de ser tão ou mais produtivo que aquela experiência de fotografar apenas com uma câmara e uma lente durante um ano que alguns advogam e clamam ser uma fonte de aprendizagem. A privação pode, quem sabe, fazer-nos reconsiderar os nosso objectivos e redireccionar a nossa fotografia. Pelo menos será uma ruptura na rotina, o que só por si é bom e estimulante.

Seja como for, sinto-me reconfortado por ter a OM de volta. Cheguei a temer o pior e a havê-la como irremediavelmente avariada e a ter de substituí-la. Felizmente não aconteceu – ou, se aconteceu, o bom do Igor trouxe-a de volta ao mundo dos vivos. Esta é uma boa altura do ano para ressurreições. Aliás, não podia ser melhor. Não consigo pensar em nenhuma outra época mais oportuna.

M. V. M.

Da nitidez

Alfred Stieglitz, O’Keeffe In Black Coat with Hands to Neck

Ao que parece, hoje em dia o requisito essencial de qualquer lente é a nitidez. Aliás, retiro o «hoje em dia», porque, na verdade, desde há muito que a nitidez é procurada pelos fabricantes de lentes, mas nem sempre foi assim.

Com efeito, alguns pioneiros da fotografia moderna, como Alfred Stieglitz e Alvin Langdon Coburn, procuravam lentes – e frequentemente mandavam fazê-las por medida, com o nome do proprietário gravado no cano da lente – que não fossem completamente nítidas; lentes que induzissem uma névoa subtil, de maneira a que as fotografias tivessem uma aparência romântica e vagamente onírica. Olhando para as fotografias e retratos que Stieglitz fez da sua mulher, Georgia O’Keeffe, é fácil perceber que aquela nitidez imperfeita foi usada intencionalmente, sem corresponder a uma deficiência na concepção da lente.

Retrato por Alvin Langdon Coburn

Entretanto, Oskar Barnack inventou o formato 135, recorrendo a película de cinema e a um instrumento que possibilitava a transposição dos minúsculos negativos para tamanhos aceitáveis: o ampliador. Este instrumento necessita de toda a nitidez possível, de maneira a que as imagens possam ser gravadas em tamanhos grandes, pelo que a nitidez tornou-se num requisito essencial de todo o processo fotográfico – a começar, evidentemente, pela lente montada na máquina fotográfica.

O que nasceu daqui foi aquilo que todos sabemos: a busca da maior nitidez possível. Zeiss, Leica e Nikon quiseram fazer as lentes mais nítidas, o que, juntamente com a obsessão do superlativo que afecta os consumidores de material fotográfico e o advento da fotografia digital, redundou no que hoje vemos: fotografias com demasiada nitidez, tanta que chega a tornar os objectos inautênticos. A comunidade fotográfica não está preocupada com os resultados no papel ou no computador: ela avalia a nitidez através de gráficos e tabelas MTF.

Devo, contudo, ser justo. A nitidez não é um defeito. Pelo contrário. Aliás, é importante dizer que o cérebro reage negativamente à falta de nitidez. A nitidez é necessária, desde que corresponda ao que os olhos vêem. Simplesmente, as lentes e sensores actuais são capazes de uma resolução que é superior à dos olhos. Por vezes o recorte dos objectos é de tal maneira acutilante que a imagem sofre o paradoxo de, por querer ser hiper-real, se tornar irreal.

E não é bem isto que os fabricantes que citei pretendiam. O que a Zeiss, a Leica e a Nikon queriam era fazer lentes que suportassem bem as ampliações, sem que se perdesse muita nitidez no processo de transmissão de luz para o papel fotográfico. Só depois é que vieram os maluquinhos que comentam nos websites de referência pedir mais e mais nitidez só porque avaliam a nitidez da mesma maneira que os valores de sensibilidade ISO de uma câmara: quanto maior, melhor.

Tenho para mim que a nitidez é importante, mas não é tudo. Os antigos, como Langdon Coburn e Stieglitz, não deixavam de ter uma razão para procurar lentes de nitidez mitigada: a sua fotografia era um sucedâneo da pintura, pelo que essas objectivas convinham à sua linguagem estética. O excesso de nitidez que hoje vemos serve o quê? Nada. É a busca da nitidez pela nitidez, dos números, dos gráficos e das tabelas, como se tudo se resumisse a uma competição entre fabricantes para saber quem faz as lentes mais nítidas.

E os fabricantes entregam-se a estas puerilidades. Cada um procura o máximo de nitidez para satisfazer multidões que olham para o desempenho do equipamento como crianças a espreitar o interior de automóveis desportivos para ver quanto marca o velocímetro. E, contudo, essa nitidez toda não tem utilidade prática no mundo real. Pode ser deslumbrante num primeiro momento, mas o objectivo de um retrato é o de mostrar a pessoa retratada, não o de contar o número de poros que ela tem na cara. O excesso é sempre nocivo.

Felizmente, as lentes verdadeiramente boas são capazes de uma nitidez prodigiosa, mas realista. Com lentes como quase todas as Leica e a nova Zeiss Batis 135mm-f/2.8, os pormenores estão bem evidenciados, embora sejam apresentados de uma forma natural e orgânica. Infelizmente, este equilíbrio fica caro. (O que é mais uma razão para recorrer ao mercado de segunda mão.)

M. V. M.

Privação

Estar privado da minha máquina analógica não é o ideal num fim-de-semana, mas curiosamente não me custou tanto como pensava. E não é por ter chovido todo o fim-de-semana: é, principalmente, por não fazer sentido (do meu ponto de vista, claro) fotografar sem a OM.

Na verdade, não me apetece fotografar com a E-P1. Não por ser obsoleta, nem por ser digital, mas por uma razão muito elementar: não tem visor. Ou melhor: tem um visor óptico que posso montar na sapata do flash, o que torna a experiência de fotografar um pouco mais agradável do que usar o ecrã, mas não tenho o menor controlo do que estou a fazer quando uso o VF-1. Não sei qual é a exposição, não tenho qualquer tipo de informação. Nem sequer sei se tirei a tampa da lente. E só o posso usar com uma lente – uma lente de uma distância focal de que não gosto e falha de nitidez.

Usar as lentes OM é uma maçada. A E-P1 ainda não tem aquelas modernices do focus peaking e do focus stacking, pelo que tudo o que tenho à mão é a possibilidade de ampliar uma porção da imagem (até dez vezes), o que, se lembra aquelas pequenas lupas que saltavam da tampa das TLR, é muito pouco prático e muito, muito lento. Mais vale usar a hiperfocal.

Eu sei que isto me desqualifica por completo. Afinal de contas, se eu gosto de fotografia, devia ser capaz de fotografar com qualquer coisa que tivesse à mão porque o que conta é a fotografia, e não o equipamento, certo?

Errado. Fotografar é um prazer indissociável do equipamento. Não por causa do desempenho deste, ou das suas qualidades, mas porque se torna um prolongamento dos olhos e da mente. Uma câmara que só tem um ecrã para se compor não produz este efeito simbiótico. Pelo menos comigo. Pelo menos depois de experimentar fotografar com um visor tão bom como o da OM-2. E considero este factor hedonístico essencial: se ele não estiver presente, não adianta fotografar. Eu não fotografo por sentir a urgência de fixar algo numa imagem, mas para exprimir as minhas ideias estéticas. Só posso fazê-lo com uma máquina que seja uma extensão do meu corpo e da minha mente. A OM-2 é-o; é perfeita – desde o visor à alavanca de avanço da película, fotografar com ela tornou-se-me tão natural como respirar.

Outra razão por que estar sem a máquina não é tão frustrante como pensava é algo de que me apercebi ontem. Durante uma caminhada, fui tentando contar as oportunidades fotográficas que estava a perder. E foram bem poucas. Algumas delas eram ilusórias: pessoas muito sossegadas e quietas num cenário perfeito. Apercebi-me, então, que essas pessoas estavam muito sossegadas e quietas porque eu não tinha uma máquina fotográfica nas mãos. Se a tivesse, teriam reagido de outra maneira – e a oportunidade teria sido perdida. Mas também não andei verdadeiramente à procura de oportunidades.

Por tudo isto, não foi assim tão custoso passar um fim-de-semana sem fotografar. A minha fotografia não é muito espontânea e, francamente, não sinto tonturas e dores de cabeça por passar um fim-de-semana sem fotografar. Custa, evidentemente, mas não é como passar fome. Nem sequer é como ficar privado de outros prazeres.

Tudo isto é saudável: significa que a fotografia não é uma obsessão. O facto de não o ser faz com que consiga pensar mais lucidamente no que estou a fazer e atribuir-lhe o lugar que realmente ocupa na minha vida. É inestimável, evidentemente, mas não é tudo.

M. V. M.

A Olympus OM-1 e eu

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Mentiria se negasse que a avaria da minha OM-2 me deixou a pensar na aquisição de um corpo, o qual teria, forçosamente, de ser uma outra OM por causa das lentes. Podia ter-se dado o caso de a reparação não se justificar por ser demasiado onerosa, ou mesmo o de a avaria ser irreparável. Em qualquer dos casos, a solução seria sempre a mesma: adquirir outra máquina.

Agora vem a surpresa: não seria outra OM-2. Nem uma OM-3 nem uma OM-4 (e muito menos uma das OM de dois ou três algarismos). Nada disso: a máquina que ponderei adquirir seria uma OM-1, que era, de resto, a que tinha em mente em 2013, quando me converti à película (como não consegui resistir ao estado de conservação perfeito em que a minha OM-2n estava quando a vi pela primeira vez, acabei por adquiri-la em detrimento da OM-1).

As razões para esta escolha da OM-1 são várias. Em primeiro lugar está ter sido a primeira OM. Eu sei que houve uma série de máquinas que receberam o nome de modelo «M-1» (o qual foi abandonado por insistência da Leica, que já tinha as suas «M» há muito), mas eram em tudo idênticas às que viriam a ser chamadas «OM-1».

(Um parêntesis histórico: as OM-1 mantiveram-se em produção já depois do lançamento da minha OM-2, que era uma alternativa semiautomática, e foram fabricadas até 1987, na versão «N». A OM-1 estava no mercado aquando do lançamento das sofisticadas OM-3 e OM-4. A isto chama-se longevidade. Mostrem-me uma câmara digital que tenha sido produzida durante quinze anos!)

As outras razões que me levariam a preferir uma OM-1 são o facto de ser inteiramente manual e ser mais simples. Ser manual implica que as únicas electrónicas são as do fotómetro, o que tem o potencial de tornar as OM-1 mais longevas que os modelos que se sucederam. (E, pelo que já li algures, a avaria que afectou a minha OM-2n poderia não ter acontecido se tivesse uma OM-1.) Não existindo modos de exposição semiautomáticos, não há electrónicas a comandar as cortinas do obturador.

Porque a OM-1 não tem o modo de «preferência à abertura» da OM-2, não existe comando de compensação da exposição. O que quer dizer que tem um comando a menos, potenciando assim a sua fiabilidade. A solução da OM-2, que junta o comando da compensação da exposição com o selector da sensibilidade da película, é elegante, mas pouco prática: é necessário levantar o comando rotativo para seleccionar a sensibilidade ASA (ou ISO). Na OM-1, a única função que o comando rotativo do lado direito serve é o de seleccionar a sensibilidade. É mais simples e mais bonito.

Mas a OM-1 tem uma desvantagem considerável: quando foi lançada, em 1972, ainda se fabricavam pilhas de mercúrio, e foi para trabalhar com estas pilhas que o fotómetro da OM-1 foi calibrado. O abandono do mercúrio – que foi impelido, pelo menos em parte, pelo desastre de Minamata, que já referi aqui a propósito de uma fotografia do meu predilecto W. Eugene Smith – obrigou ao uso de alternativas, que vão desde adaptadores até à utilização ad hoc de pilhas para próteses auditivas. Isto não é apenas mais uma das inúmeras discussões paranóicas da internet: a linearidade da voltagem é crucial para o bom funcionamento do fotómetro. As pilhas originais (de mercúrio) tinham cerca de 1,4 V, ao passo que as alternativas têm, em regra, 1,5 V.

É isto que me suscita reservas quanto à possível aquisição de uma OM-1. Entendo ser fundamental que o fotómetro funcione em condições ideais. O fotómetro da OM-2 é praticamente perfeito, desde que as pilhas estejam com carga suficiente. Detestaria ter uma máquina com um fotómetro em cujas medições não pudesse confiar. Usar o Sunny 16 é muito bonito, mas prefiro a comodidade de ter um ponteiro a dar-me indicações nas quais posso confiar e me permite resultados consistentes.

Se alguém me assegurasse que existe uma solução fiável para substituir as pilhas de mercúrio, poderia bem considerar a aquisição de uma OM-1 – mesmo que a minha OM-2 tenha conserto e este seja por um valor razoável, não seria um desperdício ter dois corpos similares. Um serviria para películas a cores, outro para o preto-e-branco. Se fosse assim, escolher entre fotografar a cores ou a preto-e-branco deixaria de ser um dilema cruel.

E não esqueçamos o funcionamento do anel de comando do tempo de exposição da OM-1, que desliza como faca quente em manteiga derretida…

M. V. M.