Nas nuvens

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As manhãs de chuva são um tédio. Especialmente as de Domingo, quando não há nada que nos obrigue a sair de casa. Tentei sair para fotografar, mas a chuva não me deixou, pelo que voltei atrás e sentei ao computador.

Como o tédio costuma inspirar ideias parvas, resolvi ver se o DxO Optics já se tinha decidido a abrir os ficheiros TIFF em escala de cinzas em que as digitalizações converteram as minhas fotografias. Népias. Nem sequer as reconhece – quanto mais abri-las. Isto é uma pena, porque os ajustes do DxO são particularmente eficazes – desde que não se confie na compensação da exposição «inteligente», que deixa sistematicamente as imagens subexpostas – e a redução do ruído é a menos destrutiva de todos os programas que experimentei. Os leitores mais veteranos poderão (ou não) lembrar-se que escolhi o DxO Pro 7 em detrimento do Lightroom 4 depois de ter testado ambos em 2012, mas hoje, em face desta limitação do DxO, resolvi tentar de novo o Lightroom. Podia ser que este último condescendesse em abrir e editar os ficheiros TIFF monocromáticos.

Antes de prosseguir, algumas palavras sobre a edição de imagem dos ficheiros digitalizados realizados a partir dos meus negativos: eu não sou um purista que entende que as imagens devem ser mostradas tal como saíram da câmara (ou do scanner); se puder recuperar uma imagem, tendo os meios para o fazer, seria tolo se me mantivesse arreigado a princípios obtusos. Mas também não sou dos que trabalham as imagens no computador até as tornarem noutra coisa completamente diferente daquilo que vi quando decidi premir o botão do obturador: as minhas necessidades quanto às fotografias analógicas convertidas resumem-se a alguns ajustamentos – em especial a redução das altas luzes, porque estas podem sempre sair um pouco exageradas quando se expõe para as sombras –, à remoção de manchas e ao recorte e rectificação do nível. Por vezes preciso de ir mais longe para recuperar uma ou outra fotografia subexposta ou sobreexposta, mas uso a edição com muita parcimónia. Tenho usado o Windows Live Photo Gallery para estes ajustamentos da exposição, mas este programa converte os ficheiros de escala de cinzas a 16% em RGB ao adicionar-lhes uma transparência. Para lhes devolver a natureza de imagens monocromáticas, uso o Photoshop CS e transformo-os em escalas de cinzas, mas o CS não serve apenas para isto: as suas ferramentas de correcção da perspectiva (que podem ser encontradas em Filter → Lens Correction → Custom) são bastante eficazes – embora não tanto como as do DxO. Isto é tão complicado que, se pudesse usar apenas um programa, seria uma enorme poupança de tempo e trabalho.

Pois bem: retomando o tema deste texto, resolvi experimentar o Lightroom. Tal como vaticinara há já algum tempo, quando a Adobe decidiu agrupar as suas ferramentas de manipulação de imagem na Creative Cloud, o Lightroom também já só está disponível nesta última. A CC não o incluía quando foi lançada, pelo que o Lr podia ser adquirido e instalado no computador sem estar ligado a um servidor mundial, mas agora só se acede a ele subscrevendo a Creative Cloud. Mesmo assim resolvi experimentar o Lightroom, que vai agora na versão 5.7; descarreguei-o – o que é uma operação fastidiosa e demorada – e não tardei a experimentá-lo.

Vieram-me de imediato à mente os motivos por que, quando fotografava exclusivamente digital, rejeitei o Lr em benefício do DxO. Este programa, apesar de ter uns filtros muito fancy, faz exactamente o mesmo que qualquer outro (Windows Live Photo Gallery incluído) no que toca à exposição. Permite, é certo, um ajuste muito preciso dos tons nas fotografias a preto-e-branco, mas no essencial não faz mais nem melhor que outros programas. Pelo contrário, a redução do ruído e o unsharp mask não são nada subtis e estragam mais do que consertam. Além disto, converte as imagens em RGB, pelo que nunca poderia dispensar o Photoshop CS se quisesse revertê-las para escalas de cinzas. Pior do que as insuficiências da aplicação (sim, porque, com a migração para a cloud, o Lr deixou de ser um programa para se tornar numa app) é o preço: o Lr pode ser subscrito pela quantia de €12,29 mensais, o que perfaz a quantia anual de €147,48. Contudo, é importante referir que a Adobe tem um preço especial se o «usuário» fizer uma subscrição anual: €146,71. O que quer dizer que a subscrição deste último plano significa uma poupança considerável: setenta e sete cêntimos! Ao menos têm sentido de humor…

Eu já estava à espera disto quando a Adobe engendrou a Creative Cloud. O Lr podia ser adquirido por menos do que esta anualidade e, mesmo que o seu utilizador actualizasse o programa todos os anos, nunca ficaria tão caro como estas subscrições. Agora quem tem o Lightroom (ou qualquer outro programa) só tem duas opções: ou mantém um programa desactualizado ou adere à Cloud. Que espertos que eles são: mesmo que alguém saque o Lightroom à borla, não vai poder senão usar uma versão desactualizada; pouco importa, aos responsáveis da Adobe, se alguém sacar o Lightroom. (O que até não será má ideia porque, tanto quanto me lembro, o Lightroom 4 era mais simples e claro do que este 5.7 e fazia o mesmo.)

Há mais: com a subscrição da Cloud, o utente assina um termo que permite à Adobe o acesso e recolha de informações sobre as suas fotografias. Eu acredito que a equipa do Photoshop use este acesso para melhorar o programa e traçar perfis dos utilizadores, das câmaras e das lentes, mas o potencial desta recolha para violação da propriedade intelectual é tão grande que mais vale que o consumidor consciente se mantenha afastado da Cloud. Não digo que a própria Adobe vá roubar as fotografias dos seus clientes, mas não é impossível que algum hacker pirateie a Cloud e se aproprie delas. O que pode ser um caso sério.

M. V. M.

Alegrias e tristezas da fotografia digital

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Dois dias inteiros sem escrever. E nem sequer tenho uma justificação válida para o facto. Espero que os leitores – que, a avaliar pelas estatísticas, fogem em debandada quando não há textos novos no Número f/ – me perdoem esta falta. Por vezes o meu cérebro comporta-se como um citrino seco: espremo-o e não sai nada.

E, por vezes, esta mesma massa encefálica fica sujeita a um fenómeno a que anglo-saxónicos chamam brain fade e escrevo disparates. Foi o caso de um texto recente, de título Empatada, em que escrevi uma data de disparates irreflectidos sobre a falta de uso da minha câmara digital, que é, como todos sabem, a antediluviana Olympus E-P1. Nesse texto cheguei mesmo a ponderar a sua venda, o que teria sido uma tremenda asneira. Deixem-me explicar porquê:

A E-P1 é uma câmara com uma qualidade de imagem mais que razoável: as suas cores (em Raw) são agradáveis, embora tendam para uma saturação que, se é certo que fez a boa reputação das Olympus digitais, se torna excessiva na maior parte dos casos. Curiosamente, as pessoas tendem a sobrevalorizar os azuis da Olympus, mas as cores que a E-P1 melhor descreve são os castanhos e os verdes, bem como algumas gradações do vermelho (mas não o vermelho vivo, que por vezes surge berrante). Além das cores – a despeito destas reservas –, a E-P1 tem boa resolução, mesmo que as lentes que uso com ela nem sempre mostrem o potencial da câmara. Embora eu nunca tenha sido daquelas pessoas que analisam as fotografias pelos parâmetros técnicos, ontem reparei que a Pancake 17mm-f/2.8 tem, além de outros, um defeito que é geralmente invocado pelos pixel peepers para negar a qualidade de uma lente: a falta de nitidez nos cantos da imagem. É mais uma deficiência a juntar à distorção de barril, às aberrações cromáticas, à tendência para ser afectada por clarões e halos e aos problemas de transmissão de luz que fazem com que as altas luzes estourem com muito maior alacridade do que quando se usa vidro de qualidade.

Pois bem: ontem resolvi usar outra vez a E-P1. Estou numa fase em que me quero dedicar à fotografia de despojos urbanos e industriais e, da última vez que estive num desses lugares, pensei que muitas das fotografias que fiz com o Tri-X ganhariam se incluísse a cor como elemento da composição. O lugar é a desactivada Companhia Portuguesa do Cobre, cujos interiores estavam decorados com aquelas a que Michael C. Johnston, do The Online Photographer, apelida de quiet colors: cores suaves e discretas que não gritam nem ferem os olhos. Pareceu-me, na minha avaliação, que a maneira como a E-P1 lida com os vermelhos neutros poderia resultar em imagens que descreveriam a desolação daquele lugar de um modo ainda mais plangente do que o preto-e-branco do Kodak Tri-X.

Não me enganei. As fotografias do interior da fábrica beneficiaram da cor. Tive de dessaturar um pouco as cores para que se tornassem mais neutras, de maneira a dar às imagens o efeito que pretendia. Penso que correu bem: as cores desmaiadas invadem as fotografias de uma aparência de morte e devastação que é exactamente aquilo que corresponde à minha intenção fotográfica. O uso da cor, porém, traz um inconveniente: a quantidade imensa de entulho e sujidade que se espalha aos montes pelo chão resulta por vezes demasiado explícita com a cor. O preto-e-branco redu-los a formas, o que tem a consequência de fazer esquecer que são, numa palavra, lixo. Torna-se mais fácil integrá-los no enquadramento se o preto-e-branco for usado, ao passo que a cor mostra exactamente aquilo que o entulho e os detritos são. Em consequência, as fotografias a cores podem tornar-se escatológicas, o que nem sempre é desejável.

Claro que poderia fazer fotografias a cores se usasse um rolo colorido, mas o digital dá-me mais latitude na edição de imagem e, graças ao equilíbrio automático dos brancos, evita que as imagens fiquem tingidas pela matiz azul que afecta as fotografias feitas à sombra. Usar a E-P1 teve também a vantagem de poder usar tempos de exposição superiores a meio segundo com a possibilidade de visualizar imediatamente o resultado, o que é uma vantagem: assim não estrago película com exposições falhadas e obtenho – mais ou menos – a fotografia que pretendia. E sem ruído, porque posso usar valores ISO baixos e o DxO Optics 8 encarrega-se de reduzir o pouco ruído presente a uma expressão mínima.

Tudo isto é verdadeiro, mas usar a E-P1 trará sempre uma enorme frustração pela forma como esta câmara estoura as altas luzes. Apesar de todas as vantegens do seu uso, é intolerável ver que tenho melhor gama dinâmica com um rolo a preto-e-branco do que com um sensor digital de 12,3 megapixéis. O estouro das altas luzes é duplamente pernicioso: além da perda severa de informação da imagem, a sua correcção na edição causa um escurecimento da imagem que se torna extremamente difícil de compensar. Isto reforça a minha convicção de que não vale a pena fotografar digital se não se tiver uma câmara com um sensor que seja, no mínimo, um full-frame.

M. V. M.

Limites (a propósito do Photoshop CS e da edição de imagem)

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Ao contrário do que eu pensava, o Photoshop CS6 é excelente a corrigir distorções geométricas (as quais parecem ter-se tornado a minha bête noire, especialmente depois de descobrir, com choque e horror, que a OM 28mm-f/3.5 tem níveis assustadores de distorção de barril). Custou-me a localizar as ferramentas de correcção da distorção, mas acabei por encontrá-las – embora tenha necessitado de ajuda, devido à minha inexperiência com este programa.

As ferramentas de correcção da perspectiva estão no menu Filter da barra superior (presumo que exista uma versão portuguesa do CS6 em que o menu recebe o nome de Filtro) e acede-se a elas no submenu Lens correction. Foi isto que me induziu em erro, por ter pensado, ao descobrir este menu, que esta era uma ferramenta na qual se seleccionavam os perfis de lentes concebidas para o digital, mas no submenu Lens correction existe um separador chamado Custom. É aqui que aparecem as ferramentas de que  necessitam os que, como eu, usam lentes pré-históricas. Aqui faz-se tudo manualmente: podem corrigir-se as distorções da lente, as aberrações cromáticas, a vinhetagem, a perspectiva – nos planos horizontal e vertical –, o ângulo e a escala. Falta algo que o DxO Optics tem, que é a corecção da distorção anamórfica típica das grandes-angulares, mas isto serve-me de pouco porque o DxO recusa-se a abrir as digitalizações.

Estas ferramentas do Photoshop são extremamente eficazes, fazendo o seu trabalho de correcção sem adicionar novas distorções. Alguém poderá perguntar-se se usar ferramentas como estas não é corromper a pureza da fotografia convencional; a minha resposta é que não. Numa troca de impressões com R. S. D. na Câmaras & Companhia, aprendi que estas correcções podem ser feitas durante a ampliação, quer fazendo variar o ângulo da cabeça do ampliador, quer inclinando o plano onde se prende o papel fotográfico. R. S. D. tem uma filosofia com a qual concordo por inteiro: o seu limite, na edição de imagem, é aquilo que se pode fazer no ampliador. Quando se amplia um negativo, é possível alterar o brilho e o contraste, bem como corrigir a perspectiva. Não tenho razões para me recusar a fazer no domínio digital o que se pode fazer na revelação e na ampliação.

Na verdade, a minha maneira de pensar sobre as questões da edição de imagem mudou muito ao longo dos últimos três anos. Quando penso na maneira como me recusei a usar a edição de imagem nos primeiros tempos, sinto-me envergonhado por ter mantido pontos de vista tão pouco razoáveis. Até porque sempre usei um módico de edição, quer acentuando contrastes, quer recortando a imagem. Ora, ao fazer isto, estava a editar a imagem. O pecado estava cometido. De resto, onde está a pureza da imagem tal qual ela saiu da câmara – isto no caso da fotografia digital – se o processador da câmara introduz tantos parâmetros que, comparado com o ficheiro Raw, o JPEG saído da câmara mais parece ser outra fotografia do mesmo motivo?

Mesmo nos negativos digitalizados me parece legítimo recorrer à edição de imagem. Esta permite, tal como descobri quando comecei a usar o Lightroom 4 e o DxO Optics Pro 7, restituir o grau de controlo sobre a imagem de que necessita quem fotografa. Permite, por outras palavras, tornar a imagem naquilo que foi idealizado antes de premir o botão do disparo. Isto é uma dádiva para quem fotografa com intenções sérias. Decerto que o Photoshop levanta questões éticas, mas as suas fronteiras estão muito mais longe do que pensava há apenas alguns anos. Se um programa me faculta tornar a imagem naquilo que eu pretendia e não pude atingir por limitações do equipamento utilizado, por que não tornar a imagem em algo que corresponda à minha intenção fotográfica?

Há, contudo, um limite. O utilizador do Photoshop que vá longe demais, tornando a imagem em algo muito diferente daquilo que a lente viu, não pode pretender que o produto final é a realidade que a câmara captou. Neste caso estará a mentir. A fotografia é uma arte visual na qual é legítimo usar todo o tipo de ferramentas; o que não se pode é pretender que uma fotografia completamente manipulada é uma descrição da realidade que a lente viu. Quem o fizer está a transformar uma ilusão – toda a fotografia é uma ilusão – numa mentira. E eu sempre fui ensinado que mentir é muito feio.

M. V. M.

Baralhado

Uma fotografia salva pelo DxO: talvez não acreditem, mas o vermelho era quase roxo antes da edição
Uma fotografia salva pelo DxO: talvez não acreditem, mas o vermelho era quase roxo antes da edição

Agora sim, estou completamente baralhado. Depois de ver o que aconteceu com algumas das fotografias feitas com o Kodak Portra 160, concluí que o problema cromático se devia à indução de matizes ciano e verde em certas imagens. Isto explica o tingimento arroxeado, mas não explica por que algumas cores – em particular os vermelhos – aparecem desbotadas, para além de dessaturadas.

Não sei explicar o aparecimento das matizes. É certamente alguma questão de composição das gelatinas, ou de sensibilidade da película a certas condições de luz. Não faço ideia. Já quanto às cores deslavadas, parece-me que o problema surge nas fotografias feitas com recurso a grandes aberturas, em particular a f/1.4 e f/2. Este não é um problema específico da fotografia convencional, nem dos rolos: quando uso a 50mm-f/1.4 na E-P1, acontece o mesmo. Nas fotografias digitais, tenho de usar a compensação da exposição no programa de edição de imagem para que as cores readquiram contraste e vibração.

Estes problemas levaram-me a despender imenso tempo a editar as imagens digitalizadas no DxO Pro 8. Este programa abandonou os comandos estranhos da versão 7 em favor de outros semelhantes aos do Lightroom, entre eles o HSL (Hue, Saturation and Lightness, ou matiz, saturação e luminosidade, que são as características das cores). As possibilidades de ajustamento da cor no DxO são agora praticamente infinitas. E a verdade é que correu bem: consegui recuperar os tons dos motivos que fotografara com bastante sucesso. Contudo, nunca consegui libertar-me da sensação de que estava a profanar as imagens ao editá-las digitalmente. Não estava. Pelo contrário, beneficiei-as grandemente. Mas a sensação ficou. Estranho…

Agora já não tenho nenhuma certeza quanto a nada: já não sei se quero digitalizar os rolos ou não, porque o que é certo é que as fotografias do Portra 160 que não foram afectadas por problemas ficaram simplesmente excelentes, não necessitando de qualquer trabalho de edição. São fotografias que podem ser passadas directamente para o papel sem necessidade de qualquer retoque. Contudo, a edição de imagem salvou fotografias que, em circunstâncias normais, teria de dar por perdidas. E algumas delas até não ficaram nada más em termos de temática, composição e técnica. O uso do verbo salvar, neste contexto, não tem nada de exagerado.

Também fiquei com dúvidas quanto aos conhecimentos adquiridos em fotografia. Imaginava que os rolos reagiam muito melhor que o sensor às aberturas grandes, mas o comportamento é essencialmente idêntico. Os problemas de um contrabalançam os do outro: o desbotamento é mais grave na película, mas as altas luzes não são tão nocivas para a imagem como no digital. E as dificuldades cromáticas deixaram-me a pensar que posso estar a fazer algo muito mal. Há certamente algo que não assimilei e que teve este resultado. Não vou descansar enquanto não souber qual é a causa destes problemas.

Além disto, este episódio fez-me ver que, apesar de tudo, a fotografia digital tem uma vantagem descomunal sobre o filme num aspecto técnico: o equilíbrio dos brancos. Esta é a única opção técnica (para além de aspectos inerentes à linguagem informática usada no digital, como o tamanho, qualidade e espaço de cor da imagem) que nasceu com o digital. Todas as funções da exposição nasceram no domínio da fotografia convencional, excepto o equilíbrio dos brancos. E não se pense que este só é importante quando se fotografa JPEG: em Raw o equilibrio dos brancos pode ser ajustado, com muito maior controlo, na edição de imagem. Nos rolos não temos esta opção: as câmaras – todas elas – tendem a alterar a temperatura da cor em função da luz; numa câmara convencional, temos de nos conformar com o resultado, enquanto que com uma digital podemos compensar a mudança da temperatura da cor. Isto é uma vantagem que, não sendo decisiva, é contudo muito importante. O que vem abalar um pouco o meu fervor convencional. Oh well.

M. V. M.

P. S. Tenho de parar com esta mania do oh well. Começa a tornar-se um vício.

Um negócio nebuloso

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A Adobe Systems teve hoje um dia em cheio. De uma assentada, anunciou que não iria lançar novas evoluções do Photoshop Cs6 nem de qualquer outro produto da família Photoshop, o que inclui o Lightroom, declarou que só vai manter o Cs6 à venda até Junho e introduziu evoluções importantes naquilo a que chama Creative Cloud. A partir de agora, quem quiser o último grito em apps, plug ins, upgrades, uplevels e updates dos produtos Photoshop tem de pagar uma subscrição e aderir àquilo a que a Adobe Systems chama Creative Cloud (CC). O que quer dizer que os clientes da Adobe, que compravam o software e pagavam pelos uplevels quando estes surgiam, vão ter de mudar para a Creative Cloud, o que, a despeito de a Adobe garantir o contrário, vai implicar pagar mais. Em contrapartida, os consumidores vão ter todas aquelas promessas parvas de maior rapidez, conectividade e outros chavões cibernéticos que são as papas e os bolos com que se enganam os tolos com um produto a que chamam, previsivelmente, «Photoshop CC» e só é acessível mediante subscrição paga (que pode ser mensal ou anual) da Creative Cloud.

Se eu não tivesse tido a lucidez de escolher o DxO Optics Pro em lugar do Lightroom, teria todo o direito de me sentir ludibriado. O que a Adobe fez foi trair a confiança de muitos milhares de consumidores, subtraindo-lhes arbitrariamente a possibilidade de evoluir os seus programas de maneira a encaminhá-los para o mais barato – para a Adobe, evidentemente – e lucrativo Creative Cloud. A Adobe vai poupar milhões com a CC, mas os consumidores vão pagar mais e nada garante que os preços de futuros uplevels não sejam enormemente agravados em relação à prática que vinha seguindo, nem é certo que as subscrições não encarecerão.

Isto só é possível por causa da posição de domínio da Adobe no campo do software gráfico e de edição de imagem. Graças aos milhões de patetas que entendem que os produtos da Adobe são os únicos do mercado, esta companhia ficou na posição que agora ocupa e, tal como a Microsoft com o seu Windows, arroga-se o direito de fazer o que muito bem entender. Sou profundamente avesso a tudo quanto seja monopólios, oligopólios, duopólios ou simples posições dominantes porque sempre tive consciência destes perigos, mas a verdade é que a ascensão da Adobe se deveu ao facto de os consumidores a tratarem como se fossem o único produtor de software gráfico – quando a verdade é que existem muitas outras alternativas (nem que seja o Gimp, que é gratuito).

A motivação da Adobe Systems, Inc. é muito simples: fazer mais dinheiro graças à impossibilidade prática de que alguém viole os códigos dos seus produtos. O Photoshop Cs6 era caro, o que levava a que muita gente o obtivesse por meios fraudulentos, descarregando-o e obtendo códigos de activação gratuitamente (os chamados cracks). Com o sistema cloud, isto é agora impossível. O que deixa aos consumidores duas alternativas: ou pagam para estar na Creative Cloud, ou mantêm software obsoleto. O que, atendendo à evolução do mercado fotográfico, com novas lentes e corpos a ser lançados todas as semanas – o que implica actualizações do software –, significa que ficar com os programas antigos não é opção para quem adquire material fotográfico novo. Há aqui uma espécie de condicionamento dos consumidores, porque o Lightroom pode trabalhar muito bem sem perfis de lentes e câmaras – embora implique mais esforço e complexidade –, mas os consumidores estão predispostos a adquirir todos os uplevels que sejam lançados para terem a comodidade dos automatismos permitidos pelos novos perfis de câmaras e lentes. Querem, por outras palavras, estar sempre na crista da onda. Sabedora deste facto, a Adobe priva agora os seus consumidores de novas evoluções do software para os obrigar a aderir à Creative Cloud e a pagar a respectiva subscrição.

Tenho para mim que o Photoshop Cs nunca foi verdadeiramente necessário para fotógrafos. É um bom software para design gráfico que tenha por base a fotografia, mas é excessivo e desnecessário para quem quer apenas editar as suas fotografias. O Lightroom, contudo, era um belíssimo programa de edição de imagem que, apesar de não ser o melhor – acreditem que esta minha afirmação é bem fundada, porque o experimentei –, merecia a sua popularidade. Os clientes da Adobe que adquiriram o Lightroom e pagaram pelos uplevels têm todas as razões para se sentirem revoltados.

Agora vejo como fui sensato – ou tive sorte – em não comprar o Lightroom 4: se o tivesse feito, seria obrigado a mudar para a Creative Cloud para ter acesso a evoluções do software. Claro que não estou livre de o fabricante do programa de edição de imagem que uso ter a mesma ideia, mas isto é improvável. E ainda bem. Nunca tinha compreendido muito bem o conceito de cloud, embora suspeitasse que fosse uma maneira sofisticada de violar direitos autorais; agora vejo que é um esquema para sacar mais dinheiro aos consumidores. O meu agradecimento à Adobe por me ter aberto os olhos para esta realidade.

M. V. M.

Anticlímax

DXO_OpticsProV8-B1Experimentei a versão 8 do DxO Optics Pro, depois de quase meio ano a usar o Pro 7 (que já ia na actualização 7.5.5). Apesar de a versão mais recente ser bem mais simpática de usar, imaginei sempre que era apenas uma questão de ergonomia que não justificava a despesa de evoluir para a versão nova; afinal de contas, o 7 tinha-me dado muito bons resultados, embora fosse mais trabalhoso obtê-los.

Deste modo, cheguei ao fim dos 31 dias de experiência e não comprei a versão 8. No dia seguinte ao último em que pude usar a versão de demonstração do Pro 8, fui fotografar. Voltei a usar a versão 7 para tratar as imagens dessa noite.

Como estava errado ao pensar que não havia grandes diferenças. De súbito, as deficiências do Pro 7 – ou melhor: as vantagens do Pro 8 sobre a versão anterior – tornaram-se evidentes: a dificuldade em evitar que a correcção da sobreexposição resultasse numa imagem subexposta, com negros demasiado pronunciados e perda de vibração das cores; a quase impossibilidade de corrigir por completo as altas luzes; e, em especial, o tratamento do ruído. Estes eram os principais problemas da versão anterior, dos quais me esquecera facilmente durante o mês em que usei a versão 8. Por vezes isto acontece: não nos damos conta da extensão de uma mudança até voltarmos ao que usávamos antes.

O tratamento selectivo da tonalidade através de controlos separados à la Lightroom, com sliders separados para as altas luzes, meios-tons, sombras e negros, é muito mais eficaz do que ajustar os pontos branco e negro e jogar com o brilho para compensar as falhas na atenuação das altas luzes. A versão 8 ficou mais parecida com o Lr4 no controlo que fornece ao utilizador, mas mantém uma vantagem crucial na correcção da geometria, distorções e aberrações causadas pela lente utilizada – pela lente em concreto, que foi estudada pelos laboratórios DxO e cujas correcções são aplicadas em função desse conhecimento.

E que dizer do ruído? Experimentar a versão 8 criou-me a ilusão de que, de repente, a minha câmara se tinha tornado menos ruidosa. Voltar ao Pro 7 fez-me voltar à realidade. Mais: regressou o problema dos pixéis mortos e dos pixéis luminosos, que me levou a confiar a câmara aos serviços de assistência da Olympus em Agosto. No Pro 8 este problema é resolvido quase por magia, por via de um slider. Desapareceu o aspecto áspero e granuloso das zonas onde o ruído se manifestava, e o pormenor é agora mais bem preservado. E nem sombra dos pixéis luminosos – o que significa que, afinal, aquele problema era exacerbado pelos algoritmos de redução do ruído usados no Pro 7.

A evolução para a versão 8 tornou-se-me obrigatória – mas só depois de voltar à versão anterior. Afinal, os avanços são muito mais extensos do que eu pensara. O dinheiro que gastei vai-me fazer falta, mas foi bem empregue: não podia deixar escapar a oportunidade de usar a melhor redução do ruído do mercado. Nem podia voltar atrás, depios do verdadeiro anticlímax que foi usar a versão anterior. Não que fosse má – afinal preferi-a ao Lightroom -, mas o Pro 8 está num patamar superior.

M. V. M.

8×7

Nunca imaginei que um upgrade de um programa de edição de imagem pudesse transformá-lo tão radicalmente, mas a versão 8 do DxO Optics Pro fez isso mesmo. É como se todos os problemas do 7 – que, diga-se, era já muito bom, tão bom que o comprei – tivessem sido levados em consideração e corrigidos. O 8 manteve tudo o que o 7 fazia bem, acrescentou funções novas e melhorou tudo o resto, tornando-o superior à versão anterior.

Ao trabalhar fotografias com a versão 8, fiquei desde logo com uma estranha sensação de familiaridade. Depois percebi porquê: editar com o Pro 8 é quase a mesma coisa que usar o Adobe Lightroom 4. Eu explico: o software da DxO funciona a partir de pré-definições, que são estabelecidas com base nos problemas detectados na análise exaustiva de cada corpo e cada lente – bem como nas diversas combinações destes –, sendo os parâmetros de correcção aplicados automaticamente. Quando se abre uma imagem, esta é imediatamente corrigida, sendo eliminadas as distorções e as aberrações cromáticas, o ruído e o excesso de sombras. Simplesmente, a imagem resultante – pelo menos no meu caso, em que uso uma E-P1 com as lentes 17mm ou 40-150mm (o programa não reconhece as lentes de focagem manual) – surgia, quase invariavelmente, com excesso de luminosidade. Para corrigir esta última era necessário passar à compensação da exposição, mas os resultados eram os de acentuar os pontos negros, aos quais acrescia uma perda de vibração das cores (os vermelhos ganhavam uma tonalidade magenta, os azuis tingiam-se de ciano). Era necessário passar a outro menu e ajustar o brilho, as sombras e o contraste para restituir a tonalidade natural, e nem por isso as altas luzes ficavam bem corrigidas.

Com o DxO 7…
…E com o 8

A versão 8 veio simplificar ainda mais o trabalho de edição. Agora existe um modo smart de compensação da exposição, que não produz o excesso de claridade da versão 7, não induz perdas de vibração das cores nem acentua os negros, sendo os demais ajustamentos feitos no menu smart lighting – que corresponde ao controlo da presença do Lightroom 4 – e num submenu novo para a DxO chamado selective tone, no qual se controlam separadamente as altas luzes, os médios-tons, as sombras e os negros. Estes controlos são copiados do Lightroom, e igualmente eficazes. Céus brancos, que pareciam impossíveis de corrigir no Pro 7 sem compromisso da cor e da qualidade da imagem, surgem agora azuis, com uma quantidade de pormenor surpreendente; pormenores ocultos sob as zonas sobreexpostas, que imaginara perdidos, estão afinal presentes, surgindo por efeito dos controlos das altas luzes e dos médios-tons. Os controlos das sombras e dos negros são também extremamente eficazes, bem como o contraste. Deixou de ser necessário percorrer o menu lighting, que prometia HDRI com uma só imagem; tudo o que é necessário, no Pro 8, é ajustar a compensação da exposição judiciosamente, até que as cores falsas desapareçam, e usar o submenu selective tone. A imagem processada no Pro 8 surge mais natural, embora não deixe de ser possível obter o pseudo-HDRI que o Pro 7 permitia. (O menu smart lighting dá a opção de reverter para os controlos de luminosidade do Pro 7.)

Os resultados no tratamento das altas luzes são quase milagrosos. Pormenor que parecia perdido é agora revelado, sendo possível encontrar contrastes sem escurecer excessivamente a imagem e sem perder as tonalidades correctas. Acima de tudo, esta evolução veio dar ao utilizador muito mais controlo sobre a imagem, o tipo de controlo pelo qual o Lightroom adquiriu a sua excelente reputação. Agora posso tornar a imagem exactamente naquilo que quero. Diria que a DxO se viu obrigada a imitar o Lightroom, mas é uma imitação que se justifica porque os comandos de tonalidade selectiva do Lr4 são (eram) um dos factores que lhe conferiam superioridade. Na verdade, raramente consegui recuperar as altas luzes no Pro 7 como o fazia com o Lightroom – mas agora a DxO nivelou as coisas. Se somarmos a esta melhoria uma correcção da distorção superior (e automática, desde que o programa reconheça a lente usada), bem como uma redução do ruído e eliminação das aberrações cromáticas sem paralelo, temos que o DxO Pro 8 é um programa que dispensa qualquer outro para produzir bons resultados. O Pro 7 era muito bom, mas era pensado como um programa para corrigir aberrações antes de a imagem ser tratada no Lightroom ou no Cs; agora é suficiente para melhorar qualquer imagem. E quem tiver o Lightroom 4 e não estiver disposto a mudar – o que é legítimo, porque é um programa excelente – pode sempre usar o plug-in da DxO para corrigir distorções da imagem, o ViewPoint.

M. V. M.