Cromos, postais e portfolios

Nos últimos três ou quatro fins-de-semana, o bom tempo que esteve levou-me à praia. Não para apanhar sol ou tomar banho – ainda é cedo para isso –, mas para fotografar. Encontrei um verdadeiro filão numa praia não muito longe de onde moro. Aos fins-de-semana, aquele areal e o passeio que o orla enchem-se de cromos, o que me tem possibilitado fazer fotografias com um tom razoavelmente sarcástico: ver um homem maduro e gordo deitado no muro que delimita a praia, de tronco nu e com as calças do fato de treino arregaçadas, é para mim uma cena irresistível. Tal como ver um sujeito de setenta anos vestido com fato a tocar harmónica e castanholas e a dançar.

Este cenário agrada-me de tal maneira que dou por mim a consultar o website do Instituto Português do Mar e da Atmosfera para saber, com antecedência, se vai estar sol no próximo fim-de-semana. A sério. Isto é, evidentemente, o resultado de estar a fotografar a cores e de ter adquirido familiaridade com os fotógrafos da cor (aos quais devo juntar, além dos habituais sobre quem estou sempre a escrever, os nomes de Martin Parr e Alex Webb). Fotografar a cor deixa-me com um estado de espírito mais leve, menos sério, desobrigado de fazer fotografias brilhantes, ou rigorosas, ou cheias de significado. (Não deixa de ser irónico estar a escrever estas coisas um dia depois de ter recomendado o visionamento do documentário que Wim Wenders fez sobre Sebastião Salgado, cujas fotografias são do mais sério que se pode imaginar.)

Por outro lado, estou a fazer estas fotografias com uma película que, sob sol intenso, dá às fotografias um aspecto resolutamente antiquado, o que não é mau mas por vezes não resulta muito bem, obrigando-me a recorrer à edição mais do que gostaria. Este ar antiquado levou-me a pensar que seria uma boa ideia dar a estas fotografias um título comum, que podia ser «Postais da Praia» ou, melhor ainda, Postcards From the Seaside. Ou qualquer outra coisa, desde que associe as fotografias às cores dos bilhetes postais dos anos 60 e 70. O Agfa Vista 200 dá cores assim.

E, depois de tudo fotografado, ponho-me a pensar se vale realmente a pena fazer uma abordagem metódica a um determinado tema quando se é um mero amador. Um profissional, ou um amador ambicioso, pode e deve organizar portfolios que sejam consistentes, mas quando se trata de amadores como eu, sinto sempre uma sensação dolorosa de inutilidade quando me demoro a explorar um determinado tema, à qual se junta uma ponta de pretensão que pode ser considerada patética. Se não sou um profissional, por que devo agir como se o fosse? É estar a despender energias sem resultados.

Não me parece que os amadores desinteressados se devam deixar influenciar pelos profissionais e pelo que estes fazem. Quanto mais não seja por se poder estar a pisar a linha ténue da imitação ao fazê-lo, mas sobretudo porque é inútil. Ninguém quer saber do portfolio deste amador desinteressado. O facto de se publicar séries de fotografias no facebook ou no Flickr não vai chamar a atenção de nenhum guru da fotografia que vá apadrinhar o nosso trabalho e levar-nos pela mão ao caminho da fama. Pensar que isso pode acontecer é um disparate.

A questão que o amador deve colocar é, antes de mais, o que quer da sua fotografia. Quer tornar-se num profissional, ter fama e ser reconhecido? Tudo bem, mas primeiro tem de fazer uma pergunta a si mesmo, à qual deve responder com a maior honestidade e sinceridade possível, esquecendo as opiniões sempre favoráveis dos que lhe são chegados e os likes nas redes sociais. Essa pergunta é – serei suficientemente bom? Esta qualidade é algo que se adquire com muito trabalho. Não basta ter um «olhar» (expressão nauseabunda que me causa vómitos) e muito menos importa o equipamento e a técnica.

Organizar portfolios é bom, mas só se a resposta àquela pergunta for positiva e se quiser mostrá-los a quem conta. Aliás, é assim que a Magnum recruta os seus cooperadores. Fora este caminho para a profissionalização, é bem melhor e mais divertido ter uma abordagem descontraída da fotografia, capturando momentos sem grandes considerações de consistência e coerência. Convém nunca esquecer que, para um amador, a fotografia é um divertimento e é também uma terapia, ou um escape. Não devemos sobrecarregá-la com preocupações escusadas, nem transformá-la no que Lloyd Cole genialmente chamou um carnaval de seriedade.

M. V. M.

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Da inutilidade dos livros de fotografia digital

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Ontem tive uma daquelas ideias que por vezes me atingem como se fossem raios caindo sobre cata-ventos em plena tempestade eléctrica. Ou seja, uma ideia fulminante. A ideia é a seguinte: é uma estupidez escrever livros para ensinar a fotografia digital.

Com efeito, a fotografia digital é demasiado simples – ou, pelo menos, tão simples que não requer qualquer tipo de aprendizagem. Escrever um livro ensinando a fotografar no domínio digital é, assim, o mesmo que escrever um manual sobre lavar os dentes ou apertar os atacadores dos sapatos. (Com a falta de desenvolvimento de aptidões das nossas crianças à custa dos telemóveis e das PlayStations, é bem possível que no futuro surjam livros como estes nos escaparates, juntamente com outros como «Pentear o Cabelo em 10 Lições».) A fotografia digital não tem ciência nenhuma e tudo o que é preciso saber sobre ela já existia no tempo da fotografia analógica.

Estes livros são inúteis por outra razão: os profissionais e os amadores sérios já sabem tudo o que está neles, e os demais escolheram fotografar digital porque basta apontar a lente a uma cena qualquer e carregar num botão. Não há ciência nenhuma em carregar num botão. O Michael Freeman e o Joel Santos não trouxeram nenhuma contribuição ao mundo da fotografia. Claro que há a edição de imagem, mas quem é que não sabe usar o Lightroom? Aquilo é a coisa mais simples que pode existir!

A compra de livros que ensinam a fotografia digital é, deste modo, uma perda estúpida de tempo e de dinheiro. Se formos a ver bem as coisas, o que se tem de aprender na fotografia é a exposição: a abertura, o tempo de exposição, a sensibilidade ISO, a lei da reciprocidade e a medição. O resto não é importante ou não se pode ensinar. É impossível ensinar alguém a ter sensibilidade ou a ser original: estas são qualidades que se têm ou não e que, se não se tiverem, não vão decerto ser adquiridas a ler um livro do Joel Santos (a leitura deste só servirá para se ficar com ideias ridículas, como fotografar hindus e paisagens banais).

Até agora estive sobretudo em modo sarcástico, mas sempre com a esperança de que o leitor inteligente – noção que abrange todos os meus leitores – compreenda que há uma torrente de seriedade correndo sob as palavras jocosas. É que a fotografia digital não tem nada que saber. A única coisa que trouxe de verdadeiramente novo foi o equilíbrio dos brancos, mas isto não faz – ou não devia fazer – parte do acto de fotografar. Accionar o equilíbrio das cores na câmara só é possível quando se fotografa ficheiros JPEG, o que, como sabemos, é coisa para ignorantes. As pessoas que fazem por merecer o seu lugar no seio da humanidade fotografam em Raw.

A prova do que estou a dizer é que os cursos de fotografia a sério se baseiam na fotografia analógica, compreendendo expor película e revelá-la. Poderão perguntar por que são usados métodos tão obsoletos na pedagogia fotográfica, mas esta é uma pergunta que, por a resposta ser tão óbvia, nem sequer devia ser feita.

É que a fotografia é luz. Esta sua essência é mais facilmente compreendida quando se usa um meio que é sujeito a transformações físicas – a emulsão – por acção da luz. Num sensor, tudo o que acontece é a luz ser capturada pelos fotodíodos e convertida em impulsos eléctricos. Não há nenhuma magia nisto: é tudo electrónica e, como tal, só interessa aos nerds. Numa emulsão, por seu turno, há uma modificação na estrutura molecular da superfície sensível à luz cujos resultados se tornam visíveis na revelação. O escrever com luz que é o étimo de Fotografia só acontece verdadeiramente com a fotografia analógica. Na fotografia digital tudo o que existe é uma transferência e processamento de dados, o que, convenhamos, é demasiado prosaico e não permite aprender muito sobre a natureza da luz.

Compreender a fotografia analógica – o que pressupõe entender a luz – dispensa a aquisição de conhecimentos ulteriores para dominar a fotografia digital. Quem controla uma máquina fotográfica de película não terá quaisquer dificuldades em manusear uma câmara digital. Já o oposto não é verdadeiro: o digitalista nativo poderá sentir-se perdido e inseguro se lhe puserem uma máquina fotográfica de película nas mãos.

Por tudo isto, escrever livros sobre fotografia digital é inútil – mas não tanto como lê-los.

M. V. M.

Da validade do conhecimento apriorístico

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Todo o conhecimento científico necessita de ser validado pela experimentação; se não se materializar através da experiência, nunca será explicação nem modo de proceder: será meramente especulação.

A experiência, por si só, de pouco vale: o empirismo é por natureza casuístico e, como tanto, incapaz de estabelecer regras universais. Contudo, a experiência tem o papel importante de comprovar o conhecimento teórico.

Ainda não basta. Para que o conhecimento possa erigir-se em lei (no sentido normativo, não no jurídico, que hoje não é aqui chamado), é necessário que a experiência seja repetível e os resultados sejam consistentes.

Antes que pensem que reabri um compêndio de Filosofia do 12.º Ano de Escolaridade, deixem-me esclarecer que isto tem tudo que ver com fotografia. Mais concretamente com algo que jurei a mim mesmo nunca experimentar, mas que, por um conjunto de circunstâncias fortuitas, acabei por fazer: expus um rolo expirado.

Todo o meu conhecimento acerca dos rolos expirados era apriorístico: isto é, existia sem experimentação. O que, usando uma linguagem mais terrena, significava que falava do que não sabia – ou melhor: do que pensava que não sabia, mas que, curiosamente, se revelou verdadeiro, apesar de algumas dúvidas. Sabia, por exemplo, que o decurso do tempo diminui a sensibilidade da película. Sabia-o por ter lido algures, não por ter conhecimento através da minha experiência. Não podia, deste modo, afirmar que essa asserção era verdadeira (é uma regra elementar de bom senso não falar daquilo que não se tem a certeza, nem fazer afirmações que não se podem provar).

Pois bem: cortando a eito, posso dizer que é verdade. Os rolos a preto-e-branco expirados comportam-se como se tivessem um ou dois EV de sensibilidade a menos. Um rolo 400 ASA expirado comporta-se como se fosse um rolo 200 ou 100 ASA, consoante seja mais ou menos antigo. O que significa, evidentemente, que necessita de tempos de exposição duas ou quatro vezes mais longos do que um rolo 400 ASA normal (i. e. não expirado).

A minha experiência foi com um Ilford Pan 400 que deveria ser exposto antes de Julho de 2000. Era, portanto, um rolo com idade para se emancipar pelo casamento. Quando vi as digitalizações, fiquei horrorizado com a quantidade de grão. Eu sabia – desta vez por experiência própria – que os Ilford de velocidade ASA elevada são muito granulosos, mas este é um grão verdadeiramente deletério que destrói os contornos finos dos objectos, tal como o ruído digital quando é muito exacerbado. Além disto, as imagens estavam, na sua maioria, claramente subexpostas.

O grão e a subexposição estão relacionados. O grão não é mais que cristais de prata que não foram convenientemente expostos à luz. Deste modo, faz todo o sentido inferir que as películas expiradas perdem sensibilidade. (Refiro-me apenas às películas para preto-e-branco; as coloridas colocam problemas ainda mais sérios por causa da deterioração das gelatinas RGB.) Curiosamente, algumas imagens, feitas sob luz mais favorável, têm um aspecto aceitável – mas esta impressão só dura até as aumentarmos e visualizarmos as áreas de sombras.

Apesar de me faltar o elemento da repetibilidade para confirmar por completo as minhas conclusões, penso que não voltarei a usar rolos expirados. Eles não me dão o tipo de qualidade que pretendo das minhas fotografias. Eu suporto o grão do Ilford HP5 e do Kodak Tri-X (e gosto, pelo menos em algumas imagens, do seu aspecto distinto), mas o que vi nestas digitalizações do Pan 400 é simplesmente repulsivo: é como se tivesse fotografado com uma compacta digital com ISO 800 e tivesse convertido as imagens para preto-e-branco.

Decerto os resultados teriam sido melhores se tivesse aumentado os tempos de exposição, mas suspeito que a própria qualidade do grão é afectada pela passagem do tempo. Prefiro não tentar. Mesmo se os rolos expirados são baratos, a revelação e a digitalização não o são. E pagar a digitalização e revelação de rolos cujas fotografias se mostrarão insatisfatórias seria, no mínimo, uma estupidez.

Não usem rolos expirados. Se tiverem mesmo de fazê-lo (por exemplo, por terem grandes quantidades de película guardada para além da data até à qual devia ser usada), multipliquem o tempo de exposição por dois ou por quatro, mas o que é mesmo boa ideia é usar rolos novos. Evitem cair na armadilha de pensar que poupam dinheiro ao comprar rolos expirados: mais vale fazer menos fotografias, expondo rolos novos de forma conscienciosa, do que tirar milhares de fotografias que apenas vão embaraçar-vos pela falta de qualidade. Se querem mesmo fazer milhares de fotografias por dia, é mais inteligente fotografar com uma câmara digital. Mesmo se é o próprio leitor quem revela e digitaliza os rolos, é uma estultícia perder tempo com algo que nem sequer tem virtudes estéticas que possam caracterizá-lo como um estilo.

A experiência limitou-se a comprovar o que eu já sabia: os rolos expirados são uma ilusão e uma perda de tempo. Contudo, teve a utilidade de me mostrar a extensão e alcance destes postulados. Por outras palavras, ainda foi pior do que eu pensava. Esqueçam os rolos expirados.

M. V. M.

Conselho útil, parte 2

Exortar o iniciado a comprar e usar um tripé parece-me um bom conselho, mas vou mais longe: esse hipotético iniciado não deve, pelo facto de usar equipamento modesto, incorrer no erro de comprar um tripé barato por pensar que é o que melhor se adequa às suas necessidades presentes, ou que é suficiente para o equipamento actual. Ele mais tarde poderá evoluir o seu equipamento, caso em que o tripé comprado na fnac por €40 será, não apenas inútil, mas prejudicial. Esse tripé nunca dará estabilidade a uma DSLR de gama média ou alta equipada com uma lente de qualidade. Deste modo, o iniciado deve adquirir o melhor tripé que puder. Não há problema nenhum se parecer sobredimensionado em relação à câmara: hoje pode parecê-lo, mas no futuro, quando se tiver evoluído para equipamento mais substancial, não o será. Fazer upgrades de tripés não faz muito sentido porque é um acessório duradoruro que não está sujeito à obsolescência. E, quem sabe, um dia esse iniciado não sentirá a tentação de adquirir uma câmara de película de médio formato, uma Hasselblad 500 C/M ou uma Mamiya RZ67, que são magníficas mas têm ergonomia zero: neste caso o tripé pode ser, mais que uma utilidade, uma necessidade. Pelo que é de bom senso que o primeiro tripé adquirido seja também o último.

Um bom tripé implica, evidentemente, uma boa cabeça. Deve, aliás, esclarecer-se que, por hábito, usamos a denominação tripé de forma errada. O tripé é a parte que compreende as pernas, as molas, a aranha e a coluna central. A parte superior, aquela à qual a câmara é fixada, denomina-se cabeça. Os tripés em forma de kit, que geralmente são vendidos como um conjunto que compreende a cabeça e o tripé propriamente dito, são, a meu ver, de evitar: são pensados para alcançar uma qualidade minimamente satisfatória a preços reduzidos, pelo que são sempre um compromisso. Nunca se devem comprar conjuntos cuja cabeça não seja separável do tripé: o que o comprador deve procurar é um tripé de qualidade, de preferência de fibra de carbono, e uma cabeça compatível. A vantagem de comprar um tripé e cabeça separados está no facto se poderem montar diferentes tipos de cabeça; mais tarde poderão ser adquiridas cabeças para usos específicos, como as de cardan, mas as de rótula são mais compactas, a sua fixação é extremamente firme e permitem uma liberdade de rotação superior. O comprador de uma cabeça de tipologia Arca Swiss poderá entender que nunca vai precisar de mais nenhuma, pelo que também neste caso é válido o conselho dado anteriormente: deve comprar-se a melhor cabeça que se puder.

Uma característica desejável (embora não obrigatória) da cabeça é ter uma sapata – que é a parte desmontável da cabeça que se aparafusa à câmara – de remoção rápida (quick release). Quando há necessidade de montar e desmontar frequentemente a câmara no tripé, existe toda a vantagem em ter uma sapata que se desprenda rapidamente. A alternativa é estar constantemente a atarraxar e desatarraxar um manípulo, o que não é nada prático e pode fazer perder muito tempo.

Aqui está, numa frase simples, o conselho sobre o qual discorri durante todo este tempo: deve comprar-se o melhor tripé e a melhor cabeça que se puder. Não importa que câmara se tem ou se o tripé é desmesurado: é muito melhor ter um tripé exagerado em relação à câmara do que, no futuro, ter um tripé insuficiente para assegurar a estabilidade da câmara. Como, neste último caso, se imporá a compra de um tripé melhor, a aquisição do primeiro terá sido inútil, pelo que o adquirente terá perdido dinheiro.

O tripé é uma daquelas coisas em relação às quais não se deve olhar a despesas; é uma aquisição duradoura e, se for bem estimado e de boa qualidade, sobreviverá a todas as câmaras (especialmente às digitais) que o seu comprador for adquirindo. É um pouco como as lentes: assim como não faz qualquer sentido trocar uma lente de uma determinada distância focal e abertura máxima por outra idêntica só porque foi lançada uma mais recente, também o tripé é daqueles bens que, por o seu conceito estar definido e aperfeiçoado há muito tempo, resistem à lógica da obsolescência. Um bom tripé é para durar uma vida, pelo que deve começar-se de imediato com um que seja muito bom. Um mau tripé pode ter resultados desastrosos: é impreciso no manuseamento, inseguro na sua função de fixar solidamente a câmara e instável. É uma perda de tempo e de dinheiro. De resto, já é possível adquirir bons tripés e cabeças por preços acessíveis, pelo que não há desculpas para não os comprar.

M. V. M.

Conselho útil, parte 1

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Faço uma pequena pausa nos meus estudos europeus para dar um conselho muito específico a quem se inicia na fotografia. Eu sei que os leitores muito atentos poderão apontar uma contradição ao M. V. M., que já escreveu aqui sobre a inutilidade de dar conselhos em fotografia, mas referia-me apenas aos que incidiam sobre a forma de fotografar. Mantenho que é inútil dizer a um iniciado que deve fotografar assim ou assado, isto e não aquilo, desta ou daquela maneira, etc. Fotografar é – ou devia ser – um caminho muito pessoal que cabe a cada um descobrir.

Contudo, este conselho não é sobre a maneira de fotografar; não é sobre como ou o que fotografar. É sobre a aquisição de um acessório que não é bem um acessório, porque é essencial – pelo menos em muitas circunstâncias. Refiro-me ao tripé, esse acessório que converte instantaneamente a câmara num aparelho de alta precisão. A meu ver, não existe nenhum modo de fotografar com luz escassa, como à noite ou em interiores mal iluminados, que não implique usar um tripé. Decerto, é muito bom que existam câmaras capazes de fotografar com uma sensibilidade ISO 25600 ou superior, mas fazem-no à custa do incremento do ruído e o recurso prolongado a estas sensibilidades pode causar problemas se sobreaquecimento do sensor, o que provoca o surgimento de pixéis espúrios na imagem. Algumas câmaras são capazes de produzir imagens razoavelmente limpas – i. e. sem que o ruído se manifeste em demasia – quando se fotografa com sensibilidades muito altas, mas nem toda a gente tem dinheiro para essas câmaras. Acresce que muitas fotografias que parecem perfeitas não resistem a uma ampliação a 50%, mostrando falhas de nitidez provocadas pelo ruído.

Não é só para evitar os efeitos nocivos das altas sensibilidades que o tripé serve. O tripé é obrigatório quando se usam tempos de exposição superiores ao valor da distância focal da lente. Sem ele, é mais que certo que as fotografias ficarão tremidas. É certo que as lentes e corpos equipados com estabilização de imagem podem assegurar bons resultados, mas nunca com exposições superiores a 1”. E mesmo assim é necessário ter mãos particularmente firmes. Mais vale, em casos como estes, confiar na estabilidade que o tripé assegura – e mesmo assim deve ter-se o cuidado de, quando possível, usar um disparador remoto, que pode ser um cabo disparador, uma aplicação móvel no caso de a câmara ter ligação Wi-Fi ou Bluetooth, ou simplesmente o temporizador da câmara. O simples acto de premir o botão do obturador pode induzir vibração quando os tempos de exposição são longos.

Além disto, o tripé tem uma vantagem inestimável quando se quer fazer fotografias com o máximo de rigor. Ao prover uma plataforma rígida, mas orientável, torna-se muito mais fácil nivelar a câmara e encontrar a melhor orientação nas dimensões vertical e horizontal. Recordo, a este propósito, o que escrevi aqui há alguns dias. É muito mais fácil encontrar a perspectiva ideal quando a câmara está montada num tripé. Daí que não tenha exagerado nem um bocadinho quando escrevi que o tripé é um acessório que converte a câmara num instrumento de precisão: quando se quer obter perspectivas rigorosas, não existe alternativa ao seu uso.

Há outro bom motivo para usar um tripé: algumas câmaras são tão pesadas que o esforço físico pode tornar-se excessivo. O cansaço provocado pela manipulação prolongada de uma câmara pesada pode causar perda de firmeza, o que se repercute na nitidez das imagens. De resto, há tipos de fotografia que, independentemente do peso e volume da câmara, requerem um tripé: longas exposições como as que se usam na fotografia nocturna e na astrofotografia são dois exemplos, mas mesmo a fotografia de paisagens, quando feita com luz abundante, exige o uso de um tripé. Ao contrário do que se pode pensar, este tipo de fotografia exige sempre tempos de exposição longos, por implicar o recurso a aberturas muito estreitas. Não foi por acaso que Ansel Adams denominou o grupo de fotógrafos que fundou «f/64». O uso de aberturas estreitas é essencial para que a profundidade de campo seja tão extensa quanto possível, de maneira a que todos os planos se mantenham bem nítidos. (Continua)

M. V. M.

Como fazer fotografia de rua sem fazer figura de parvo

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O tema do relacionamento entre as pessoas e a forma como deve ser usado na fotografia de rua, que abordei mais ou menos ao de leve no texto de ontem, merece mais algum desenvolvimento. Uma vez que eu sou um pouco tímido – ou talvez pessimista, ou descrente nas qualidades dos outros –, é-me por vezes difícil abordar estranhos e pedir-lhes para fotografá-los. Quando o faço, obtenho por vezes reacções negativas, mas nada que seja particularmente violento ou traumático: às vezes recebo, como resposta, um simples abanar da cabeça no sentido horizontal. Por regra, a conversa termina aí mesmo; quando recebo estas recusas, não insisto; despeço-me com uma fórmula, que pode ser «tudo bem» ou outra qualquer – dependendo da pessoa que me tinha proposto fotografar. Poderia contornar estas recusas fotografando furtivamente ou sendo descarado e fotografando sem sequer dirigir uma palavra à pessoa fotografada, mas não faço nem uma nem outra.

Não fotografo furtivamente porque qualquer tentativa de fazê-lo é inútil; pode até redundar no enxovalho e no ridículo. Por um conjunto de circunstâncias que não vale a pena estar a aprofundar (mas que poderão, eventualmente, ser o sintoma de uma sensação generalizada de medo), as pessoas que andam na rua estão mais atentas do que nunca e apercebem-se facilmente de todo e qualquer movimento que lhes pareça estranho. Fotografar furtivamente implica movimentos dessa natureza. Sinceramente, um sujeito com uma câmara parcialmente escondido atrás de um poste de iluminação ou de um muro pode pensar que está a ser discreto e a passar despercebido, mas não está. O seu comportamento é de tal maneira anómalo que qualquer pessoa minimamente atenta se apercebe da sua presença.

O excelente Carlos Machado, formador no Workshop de Técnicas Fotográficas do Instituto Português de Fotografia que frequentei em 2011, disse, numa das sessões, algo que ficou gravado na minha memória: «Eu, quando fotografo, gosto de dizer ao que venho». Embora essas palavras me tenham parecido contraditórias com os propósitos da dita «fotografia de rua», hoje parecem-me particularmente acertadas. Agora, quando tenho interesse em fotografar pessoas, prefiro mostrar-me com a câmara, sem qualquer tentativa de ser candid. Se vejo que a pessoa em questão se sente desconfortável, não a fotografo ou abordo-a. Fotografar furtivamente é abjecto: diminui o fotógrafo e fá-lo passar por um idiota – ou um tarado, na pior das hipóteses.

O descaramento, entendendo-se como tal fotografar alguém sem pedir consentimento e mesmo contra a vontade da pessoa, também não me parece uma prática boa de seguir. Demonstra, antes de mais, sobranceria. E também desprezo pelas pessoas, ignorando grosseiramente o direito que estas têm à sua privacidade. É muito fácil, a quem procede assim, esgrimir argumentos jurídicos: «eu tenho o direito de fotografar em lugares públicos», ou «o que pode ser visto pode ser fotografado». Ops – quem pensa assim não é jurista, pois se o fosse saberia que este não é um direito absoluto e que, mesmo que o fosse, existe uma barreira a que os juristas chamam abuso do direito. Nem tudo o que é legal é necessariamente legítimo, e a própria lei contém em si um limite – a honra, reputação ou simples decoro da pessoa fotografada.

Simplesmente, se é certo que é permitido fotografar pessoas em lugares públicos sem o seu consentimento, também o é que há questões que ultrapassam largamente a esfera do jurídico. Tenho conhecimento de histórias de fotógrafos de rua que se viram em apuros por fotografarem pessoas sem o seu consentimento. Mesmo que os primeiros tenham o direito de fazê-lo, deveriam compreender que nem toda a gente aprecia ser fotografada. Mais vale conversar um pouco, ou mesmo desistir da fotografia se a pessoa não quer mesmo ser fotografada. Ela merece essa consideração. Usar o argumento do direito é muito interessante, mas não pode, de forma alguma, colidir com o respeito que é devido aos outros.

Estabelecer um bom relacionamento interpessoal tem várias vantagens: permite conhecer melhor as pessoas e obter destas uma atitude colaborativa. É certo que as pessoas têm uma tendência instintiva para posar quando se deixam fotografar, o que explica que alguns fotógrafos de rua prefiram ser furtivos para obter fotografias espontâneas, mas é possível evitar esta propensão para posar para a câmara. Bastam duas ou três palavras. Há dias fiz a fotografia que ilustra este texto, na qual um grupo de cinco jovens sentava nos degraus da Praça D. João I num momento de convívio e descontracção. O enquadramento era tão interessante, com duas raparigas sentadas no chão frente a frente enquadrando dois dos rapazes que sentavam nos degraus, que não resisti. Perguntei-lhes se podia fotografá-los, e eles acederam. Todos olharam para a câmara, mas eu persuadi-os a comportarem-se espontaneamente, ignorando a minha presença. Isto fez com que a fotografia resultasse espontânea e natural.

Como vêem por este texto e pelo de ontem, não se perde nada em chegar à fala com as pessoas que se quer fotografar. Isto, notem bem, está a ser escrito pelo M. V. M., que foi agraciado à nascença com uma timidez inexplicável. Felizmente, o meu interesse pelas pessoas faz-me superá-la. É muito pior ser apanhado numa atitude esquisita, ao tentar ser furtivo, do que receber uma recusa. E, quando as pessoas consentem, a experiência fotográfica pode ser extremamente recompensadora.

M. V. M.

A mãe de todos os conselhos

Ainda bem que não sou um opinion maker da fotografia. Deste modo sou poupado a comentários e e-mails de novatos perguntando-me que câmara deviam comprar.

Comprar uma câmara devia ser um acto exclusivamente individual. Num mundo ideal, o novato adquiriria a câmara que melhor conviesse às suas aspirações e à sua maneira de fotografar, mas mesmo não sendo assim que as coisas se passam, dar conselhos nesta matéria é absurdo: o conselheiro tenderá sempre a recomendar câmaras que conhece ou de que gosta. É por esta razão que fico contente por não ter ninguém a fazer-me essa pergunta: se recomendasse uma câmara a uma pessoa que pedira o meu conselho e aquela não o satisfizesse, carregaria uma culpa eterna sobre os ombros.

Isto não quer dizer que essa pessoa (inexistente) ficasse sem uma resposta. Não recomendaria a câmara x ou y, mas, mesmo correndo o risco de parecer um lunático, aconselharia um iter para o novato verdadeiramente interessado em fotografia:

1. Compra uma máquina SLR de película. Estas câmaras são baratas e duram uma eternidade, há bons rolos a dar com um pau – e muitos deles a preços surpreendentes – e há certamente um laboratório nas imediações para revelar e digitalizar os teus negativos.

Por que faço uma recomendação tão estranha, nestes tempos em que o digital equivale a 98% do mercado? Porque a película ensinará ao aspirante a fotógrafo tudo que há para saber sobre fotografia; sobre a técnica, com certeza, porque estando privado do hábito detestável de ver as fotografias no ecrã logo depois de tirá-las (o chimping), o aprendiz terá de desenvolver as suas competências e aprender a confiar nos seus conhecimentos, mas o conteúdo das fotografias também vai ser beneficiado, já que o aspirante vai tornar-se mais selectivo ao aprender que cada fotografia tem um custo. É importante contrariar a tendência, que vem com o uso de câmaras digitais, de fotografar tudo o aparece à frente dos olhos: não há nada a aprender com isto. A película vai fazer o novato perceber que cada fotografia tem (deve ter) um valor intrínseco.

2. Uma vez dominada a máquina de película, podes concluir que te apaixonaste pelos rolos ou que as limitações deste meio estão a impedir-te de progredir. No primeiro caso, compra uma máquina de película de médio formato. Se, contudo, descobriste que o uso de película estava a limitar a tua progressão, compra uma câmara mirrorless da Sony, Panasonic ou Olympus. Com esta aquisição poderás usar facilmente uma infinidade de lentes em segunda mão, mas de excelente qualidade e preço baixo, que podes usar através de adaptadores (os quais também não são caros). E, evidentemente, já tens as lentes da máquina de película para usar, pelo que não vais ter de gastar muitas centenas de euros com lentes «digitais». Claro que a experiência anterior com uma SLR te familiarizou com a focagem manual, pelo que vai correr tudo bem – mesmo que vás sentir muito frequentemente a falta de um bom ecrã de focagem, porque essas coisas do MF Assist e do Focus Peaking não têm, nem de perto nem de longe, a precisão dos microprismas de um ecrã de focagem.

3. Claro que nada disto se aplica se só queres tirar umas fotos casuais e partilhá-las, caso em que ficas mais bem servido se fotografares com o teu smartphone. No entanto, se seguires este meu conselho, tal significa que tens um interesse verdadeiramente sério em tornares-te num fotógrafo. Tens de estar preparado para algo que pode parecer absurdo, dada a profusão de fotografias digitais e de meios para a usar que existem hoje: é que a fotografia não é fácil; há uma curva de aprendizagem muito acentuada que é necessário vencer antes de obter resultados minimamente aceitáveis.

Isto é o que eu devia ter feito em lugar de ter começado com uma câmara digital. Hoje olho para as minhas primeiras imagens – as minhas primeiras 20.000 imagens! – com um sentimento de vergonha. Eles foram um completo desperdício de tempo. Tivesse eu começado com a OM, e teria poupado muito tempo e muitos vexames.

4. Tira um curso de fotografia, ou pelo menos participa num workshop. Por muitos ensinamentos que possas retirar da internet, e por muitos bons conselhos que recebas, nada substitui uma aprendizagem verdadeira e própria, com alguém que sabe muito mais que tu e num estabelecimento credível. Eu participei num workshop do Instituto Português de Fotografia; foi caro, mas os ensinamentos que recolhi foram inestimáveis. Foi a única coisa em que acertei…

M. V. M.