Por que não há críticos de fotografia?

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/06/d2/ba/06d2ba1958c54577ec510e9248cf93e7.jpg
Fotografia por Oscar Marzaroli

Quando abrimos um bom jornal ou portal de notícias, encontramos uma secção de «cultura»; esta inclui, muito frequentemente, crítica de arte. O teatro, o cinema e o ballet – não necessariamente por esta ordem – têm críticos que, se hoje não são tão influentes como já foram, continuam a ser importantes na formulação da decisão, pelo público, de assistir ou não a um espectáculo.

O mesmo pode ser dito da crítica de música. Mesmo se hoje já não existe nenhum Eduard Hanslick capaz de promover um compositor e adiar ou estorvar o reconhecimento devido a outro, a crítica de música continua a existir e a ser lida pelos mais interessados.

É porventura na literatura que a crítica permanece mais activa, no sentido em que obras literárias são analisadas sob uma perspectiva subjectiva, de formulação de juízos de valor acerca das obras analisadas. Mas, com tanta produção literária – a literatura é hoje uma indústria e o livro é um bem de consumo altamente massificado –, torna-se difícil ao crítico aperceber-se do aparecimento de verdadeiros valores. Estes emergem frequentemente pela acção de lobbies de distintas naturezas, como o dos editores e os políticos e sociais, que promovem determinados escritores por serem vendáveis ou por outras motivações.

Nas artes visuais as coisas são ligeiramente diferentes. A pintura, aparentemente, só cai debaixo do olhar dos críticos quando há exposições – e mesmo assim estas têm de assumir uma dimensão de evento nacional para suscitar recensões. Depois há um decréscimo de interesse crítico à medida que se avança pela lista das artes visuais: a escultura só recebe atenção se houver uma exposição e se esta for inaugurada por um Primeiro-Ministro ou Presidente da República; o desenho é uma forma de arte visual praticamente extinta (infelizmente), só merecendo atenção quando se trata de desenhos de pintores, arquitectos ou personalidades proeminentes; e, depois, há o caso da fotografia, que veremos mais adiante.

Apesar de tudo, as coisas não mudaram muito. A crítica continua a existir; o que não se pode, por ser humanamente impossível, é pedir aos críticos que acompanhem toda a produção artística. A arte merecedora de elogio crítico continua a existir; o que está é soterrada sob uma massa descomunal de produções medíocres, o que torna difícil aferir o seu verdadeiro valor. Esta proliferação significa, além da obnubilação da qualidade, que existe uma miríade de criações que, de tão pobres, não merecem qualquer juízo crítico. Tudo o que se pode fazer quanto a esta torrente de criações pseudoartísticas é invectivá-la no seu conjunto.

Quanto à fotografia, a questão pode ser posta em termos muito simples: não existem críticos de fotografia. Existe, decerto, muita gente a opinar sobre fotografia, mas esta não é vista como uma forma de arte pelos críticos tradicionais (o Jonathan Jones não pertence a esta categoria). Por vezes alguns jornais dão conta de exposições de fotografia (desde que as considerem importantes) e até são capazes de publicar um juízo de valor – invariavelmente laudatório – sobre as obras expostas, mas ainda estou para ler uma crítica a uma fotografia de um autor contemporâneo (esperar que essa crítica fosse desfavorável seria, porventura, pedir demasiado).

Evidentemente, essa crítica de uma fotografia contemporânea não vai acontecer. Há muito que os críticos deixaram de catalogar a fotografia entre as artes e, se a massificação da literatura a que aludi acima, com a dificuldade em seleccionar o que é verdadeiramente bom que implica, é verdadeira, na fotografia é-o dez mil vezes mais. Encontrar uma boa fotografia entre os biliões que as pessoas publicam obsessivamente todos os dias é quase impossível.

A ausência de críticos tem um efeito duplo: como não há ninguém que se predisponha a descobrir talentos – quem se dedica a isto são instituições como a Estação Imagem e o Centro Português de Fotografia –, os aplausos vão sempre para os mesmos. Estes mesmos, como as duas ou três pessoas que escrevem sobre fotografia não sabem senão elogiá-los de forma absolutamente acrítica, tornam-se relaxados e inexigentes por saberem, de antemão, que qualquer coisa que façam recebe automaticamente o estatuto de obra-prima. O que significa, por outras palavras, que a fotografia, enquanto forma de expressão artística, está a estagnar.

É isto que a ausência de críticos faz: impede o surgimento dos novos e torna os velhos preguiçosos, sem nada de novo para dar. Isto explica muita coisa…

M. V. M

Anúncios

A exposição dos Prémios Estação Imagem (e alguns pensamentos intempestivos sobre prémios e associações de fotógrafos)

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Ontem propus-me uma coisa que não costumo fazer: voltar aos lugares onde tinha estado no dia anterior e fazer fotografias melhores que as que tinha feito na véspera. Não consegui: acabei por fazer fotografias completamente diferentes das do dia anterior. Por esta altura já me devia ter apercebido que as fotografias são irrepetíveis. De volta para o carro, passei pela Cordoaria, agora rebaptizada Largo do Amor de Perdição – a toponímia mais bonita de todos os tempos e de todos os lugares! –, e resolvi entrar no Centro Português de Fotografia: lembrei-me que estavam expostas as fotografias vencedoras dos Prémios Estação Imagem. Ver exposições de fotografias pode parecer uma redundância, já que vemos milhares de fotografias todos os dias e, de resto, eu já conhecia praticamente todas as premiadas. A verdade, porém, é que nada substitui ver fotografias impressas: no ecrã apenas se tem uma pálida noção das suas qualidades.

Exposições como estas costumam ter um efeito péssimo sobre mim, que é o de me pôr a pensar que nunca serei capaz de fazer fotografias como as expostas. A sua qualidade é de tal ordem que a pior das fotografias em exibição supera, de muito longe, o melhor dos meus esforços. É um bocado desmoralizador, por mais que me tente convencer que sou apenas um amador e não me posso comparar a um Rui Gaudêncio ou a um Daniel Rodrigues. Não posso dizer que saio das exposições com vontade de depositar a câmara no caixote do lixo mais próximo, mas também não posso dizer que saio de lá motivado e inspirado. Como dizem os filósofos ingleses da escola de Thomas Hobbes, Oh well…

Quando tive a ocasião de ajudar jovens a constituir uma associação de fins artísticos, como relatei no texto de sexta-feira, pensei que seria bom que houvesse uma associação que se dedicasse a promover a fotografia enquanto forma de expressão artística, usando critérios de qualidade, originalidade e verdade. A exposição do Centro Português de Fotografia quase me deixou a pensar que não é necessário. Afinal, a Estação Imagem (que não é a única entidade idónea neste campo) premeia os melhores entre os melhores e usa critérios de qualidade, originalidade e verdade. Sei que muitas das fotografias submetidas a concurso são desclassificadas por excesso de Photoshop, o que não acontece com muitos prémios. Por seu turno, os prémios têm vindo a brotar como cogumelos: qualquer entidade se arroga a liberdade de premiar fotografias a torto e a direito. Não será melhor deixar as coisas como estão? Afinal de contas, o verdadeiro talento não está ao alcance de qualquer um – mas quem o tem acaba sempre por ser reconhecido. A selecção faz-se de modo espontâneo. Os prémios devem ser um reconhecimento, e não uma forma de promover e divulgar. A proliferação de associações – ou de grupos no Facebook, o que acaba por ir dar ao mesmo – tem o efeito de fomentar a adesão de gente que imagina serem grandes fotógrafos, que vê naqueles meios uma forma de exibir a sua vaidade fotográfica. Não é isto que promove a boa fotografia. O único resultado destes meios de promoção é ficarem enxameados de mediocridade. Oxalá não aconteça o mesmo com a associação que estou a ajudar a constituir.

Qualquer entidade que pretenda prestar um bom serviço à fotografia deve ser exigente e rigorosa. Deve fomentar a criatividade artística e premiar a originalidade. No geral, as pessoas, quando se associam, tendem a pensar mais em que a associação lhes pode ser útil do que na corporação em si mesma, pelo que seria importante que todas as associações de fotógrafos, quer estes sejam amadores ou profissionais, sigam critérios exigentes. Para indulgências, cumplicidades e favorecimentos, já basta o que se passa actualmente. A mediocridade não precisa de ser mais promovida porque já está instalada e estendeu as suas metastases.

M. V. M.

Do apego

images

Se não estiver muito enganado, poderei afirmar que a maioria dos leitores foi educada sob a ideia de que o apego a bens materiais é reprovável, ou pelo menos algo frívolo e mesquinho; muitos terão aprendido que o desapego é uma virtude e que os valores espirituais são os únicos dignos de ser cultivados. Embora tudo isto seja uma grande verdade, não é possível escapar ao facto de que sentimos apego por certos bens materiais, que podem ser insignificantes ou de grande dimensão e valor. Nem sempre este apego a bens materiais é negativo, pelo menos quando eles estão imbuídos de um significado especial. Citizen Kane, o filme fabuloso de Orson Welles, contém uma alegoria particularmente poderosa a esta estima, com a evocação, pela personagem Charles Foster Kane, do trenó Rosebud. O trenó é um objecto singelo, comparado com a fortuna do cidadão Kane – mas o seu valor simbólico é de tal ordem que leva o espectador a questionar-se sobre a relatividade da riqueza e a concluir pela prevalência das coisas simples da vida sobre a riqueza e a posse.

Antes que pensem que este é um texto completamente fora do tópico, devo dizer que a ideia de o escrever me surgiu a propósito do recente lançamento da Olympus E-P5. Tecnicamente, esta é uma câmara que deveria despertar em mim o desejo intenso de adquirir um exemplar – e em parte isto é verdade. Com ela, superaria as limitações da minha câmara actual: teria uma gama dinâmica mais ampla – as altas luzes deixariam de ser tão problemáticas –, um sistema de estabilização da imagem muito mais sofisticado, um ecrã melhor, uma ergonomia dos comandos mais intuitiva e eficaz, a possibilidade de montar um visor electrónico, um apoio à focagem manual melhorado e poderia usar aberturas maiores quando fotografo sob luz intensa, graças ao tempo de exposição de 1/8000. Estas duas últimas características seriam muito importantes porque uso abundantemente lentes OM de focagem manual, uma das quais tem uma abertura máxima de f/1.4. Teoricamente, eu deveria, sempre que pego na minha câmara, sentir-me envergonhado por usar uma câmara tão desactualizada que pode ser considerada obsoleta; deveria olhar para ela com desdém e sentir-me desmotivado para fotografar por não ter a E-P5. Ainda por cima, a nova câmara é extremamente bonita, o que deveria fazer aumentar ainda mais a minha ambição de a adquirir, porque gosto de câmaras bonitas. (Não que a E-P1 seja feia…)

Simplesmente, ganhei apego à minha E-P1. É apenas um objecto, eu sei; as câmaras de hoje não são como as da época do filme e tornam-se obsoletas muito rapidamente, não tendo o apelo eterno de uma Leica M3, uma Pentax Spotmatic ou mesmo uma Olympus OM-1. Não devia criar vínculos afectivos com um objecto, especialmente com um que, na essência, é um computador que colhe imagens e as converte em ficheiros – mas criei-os. O mal está feito. Chimg_20111ego ao extremo de, por vezes, não a guardar na mochila Lowepro que alberga o resto do equipamento só para a ter pousada em frente a mim e poder olhar para ela de vez em quando. E, quando fotografo com ela, gosto de senti-la nas minhas mãos; gosto da sua forma pequena mas adequada, dos acabamentos, da solidez, das linhas e, sobretudo, daquele Tchack! ruidoso produzido pelo obturador. Isto tudo é exacerbado quando monto uma das lentes OM, que conferem à câmara um ar sério que desmente a impressão, causada em alguns por ser tão pequena, de ser uma compacta avantajada. A E-P1 é, em definitivo, uma câmara para amadores hedonistas. O simples facto de ver a imagem adquirir nitidez no ecrã quando foco manualmente é uma sensação absolutamente inebriante, muito superior à de ouvir o som agudo e irritante da confirmação da focagem automática.

Algumas câmaras produzem este efeito. Quando, no ano passado, visitei a exposição de fotografias de João Silva no Centro Português de Fotografia, uma instalação era a passagem de um vídeo com uma entrevista ao fotógrafo. Este posava com uma Leica M9 sobre a mesa à qual estava sentado. É provável que, nos seus trabalhos fotojornalísticos, João Silva use uma Canon 1D, ou pelo menos uma 5D; contudo, escolheu a Leica como símbolo da sua profissão. Se tivesse uma DSLR à sua frente, o efeito não seria o mesmo. A Leica era a ilustração da sua paixão pela fotografia; a Canon seria apenas o instrumento de trabalho. Uma rangefinder como a Leica ilustra melhor o conceito de «máquina fotográfica» do que uma DSLR. Há nela um classicismo e uma beleza de formas que lhe conferem mais idoneidade para simbolizar a fotografia que a melhor das DSLR. É fácil ganhar apego a uma câmara como estas.

A E-P1 está para mim como a Leica M9 para João Silva e, possivelmente, como o Rosebud para Charles Foster Kane. Vejo-a como muito mais do que uma câmara: ela é a corporificação do meu prazer de fotografar. É um símbolo. Claro que o importante não é a câmara em si, mas o que ela faz – mas, mesmo tendo isto em mente, a verdade é que as minhas fotografias são feitas com a E-P1. Esta câmara ganhou valor simbólico e ganhou o meu apego. Não consigo sequer pensar em desfazer-me dela, por tudo o que ela representa. Foi a câmara com que sonhei acordado durante meses. Se, neste momento, adquirisse a E-P5 e desse a minha E-P1 de retoma, poderia fazer fotografias tecnicamente um pouco melhores – mas sentiria sempre uma sensação de perda. Afinal, foi com ela que aprendi a fotografar. E isto torna-a ainda mais importante e faz com que lhe atribua um valor estimativo verdadeiramente incomensurável. O melhor é conservá-la enquanto dura; quando avariar, pensarei na E-P5.

Eu tenho uma característica que me distingue de muitas outras pessoas: não sou nada dado ao coleccionismo. Considero absurdo que se coleccionem selos, moedas ou caixas e carteiras de fósforos. Contudo, no caso da fotografia, compreendo quem colecciona câmaras e lentes. Compreendo este apego e compreendo o que as câmaras e lentes significam para o coleccionador. Há, neste material fotográfico, a incorporação de tudo o que a fotografia representa para os seus donos. Uma câmara nunca é apenas uma câmara: é também os milhares de fotografias feitas com ela, o prazer da busca de bons motivos e a satisfação de, com ela, se terem feito fotografias recompensadoras. Este valor estimativo que as câmaras incorporam torna-as inestimáveis aos olhos dos seus donos. Por que havia de ser diferente comigo?

A E-P5 pode esperar.

M. V. M.

10 coisas que adoro e 10 coisas que detesto em fotografia (1)

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Adoro:

  1. Fotografar. Evidentemente. Adoro encontrar um motivo interessante e procurar o melhor ângulo para o fotografar. Adoro andar à volta do motivo e descobrir-lhe potencial fotográfico, e exercitar a mente para o fotografar da maneira mais original possível. Não me importo de me pôr em posições estranhas para fotografar: quando encontro algo que merece ser fotografado, abstraio-me de tudo o resto, incluindo os juízos que os transeuntes possam fazer; o que conta é o prazer de fotografar.
  2. HDRI. Ao contrário de muitos, não incluo o HDRI entre as técnicas manipulativas. As fotografias com recurso a esta técnica (pelo menos quando é bem empregue) parecem-me fascinantes. Só não gosto quando se suprimem as sombras por completo, o que torna a fotografia irreal, mas a maneira como os pormenores escondidos sob as altas luzes e as sombras surgem na imagem é qualquer coisa de mágico.
  3. Preto-e-branco. Tive desde sempre uma predilecção pela fotografia monocromática. Ela revela as formas, volumes e texturas de uma maneira que está completamente fora do alcance da fotografia a cores. Isto não significa que não gosto de fotografia a cores; significa, outrossim, que o preto-e-branco é muito mais expressivo.
  4. Usar o DxO Optics Pro. Este é o melhor programa de edição de imagem do mundo. Com ele, as fotografias alcançam um nível de qualidade que nenhum outro programa consegue imitar. E agora, com os comandos de tonalidade selectiva, introduzidos com a versão 8, ainda ficou melhor. Ao contrário do Lightroom, resiste ao teste da impressão.
  5. O Centro Português de Fotografia e o Instituto Português de Fotografia. O primeiro, pelo simples facto de estar instalado na minha cidade. Mas também pelas exposições, evidentemente. O segundo por ter aprendido lá e por ser uma escola potenciadora de excelência. É pena que os cursos sejam tão caros, mas se formam fotógrafos como o Daniel Rodrigues…
  6. Câmaras com estilo. O meu interesse por fotografia e por equipamento nasceu nos anos 70, a idade de ouro das SLR e das rangefinders. Naquele tempo ainda não havia a obsessão com a ergonomia que descambou nas actuais DSLR. As câmaras, no geral, eram bonitas. Gosto que alguns fabricantes, como a Olympus e a Fujifilm, se inspirem no estilo daquela época, e que a Leica lhe tenha dado continuidade com as suas M.
  7. Boas lentes. Fotografar é bom, mas quando se usam lentes de qualidade ainda é melhor. Com elas, as nossas fotografias ficam mais próximas daquilo que idealizáramos antes de premir o botão do obturador.
  8. Focar manualmente. Este modo de focar ensina-me a fotografar. Se não tivesse tido a inspiração de comprar as lentes OM, ainda hoje noções como a profundidade de campo seriam difíceis de entender. Focar manualmente, por outro lado, é uma experiência que torna o acto de fotografar mais físico e que obriga a pensar mais antes de fotografar. Não há nada como usar lentes de focagem manual para aprender a fotografar.
  9. Descobrir a obra de bons fotógrafos. É uma das coisas mais compensadoras que conheço. Gosto de saber da existência de determinado fotógrafo e mergulhar na sua obra. Não me importa se é um nome grande ou outro menos conhecido, como Peter Turnley ou o nosso António Pedrosa, sobre quem escrevi ontem: o que me importa é a qualidade das fotografias e entendê-las no contexto de uma obra.
  10. Livros sobre fotografia. Gosto. Não apenas de os ler, mas sobretudo de os reler. Há sempre qualquer coisa mais a aprender em cada nova leitura. E há um em particular que me ajudou a progredir: O Olhar do Fotógrafo, de Michael Freeman (Ed. Dinalivro). Devia ser de leitura obrigatória no 2.º Ciclo.

M. V. M.

Macrocefalia

Fernando Rosas, ou «a revolução a partir do meu sofá»

Informa-nos o bloguista Carlos Romão que, quando se estava a discutir a transferência para o Porto do Centro Português de Fotografia, o historiador e tête pensante do Bloco de Esquerda Fernando Rosas se opôs, argumentando com a maçada de ter de se deslocar ao Porto sempre que quisesse consultar o Arquivo Fotográfico Nacional.

Francamente, não me surpreende esta atitude de um dos representantes da esquerda-caviar nacional. Pessoas como esta olham primeiro para os seus interesses, depois arrogam-se a legitimidade de falar em nome de um povo cuja realidade desconhecem e o qual, de resto, desprezam profundamente. Decerto que é difícil a Fernando Rosas levantar a sua imensa massa corporal e trazê-la para a província, pelo que seria muito melhor que tudo o que é instituto público ficasse em Lisboa, de preferência bem perto de sua casa. Porque o Professor Fernando Rosas é uma pessoa muito importante, tudo deve ser feito à sua medida (tal como as roupas que usa). O facto de todo o resto do país ter de se deslocar a Lisboa sempre que necessita de usar serviços públicos desta natureza não constitui dificuldade nenhuma, nem choca a consciência lutadora e revolucionária do Professor Fernando Rosas.

Pormenor da Antiga Cadeia da Relação, sede do Centro Português de Fotografia

Eu não sou, nunca fui e nunca serei bairrista. Recuso assumir qualquer papel na guerra de paróquias entre o Norte e o Sul, entre Porto e Lisboa. Vivi cinco anos da minha vida em Coimbra, onde conheci e me tornei amigo de pessoas de todo o país; aprendi a respeitá-las por aquilo que são, e não pelo lugar onde nasceram. O que não me impede de amar a minha cidade e me revoltar contra o centralismo macrocéfalo de Lisboa. Evidentemente, esta cidade é a capital do meu país, e eu não ponho a minha condição de portuense à frente da de cidadão nacional. É para mim pacífico que o poder deve estar instalado na capital, mas os gestos de descentralização merecem o meu aplauso – quanto mais não seja pelo seu simbolismo no combate à desigualdade chocante entre Lisboa e o resto do país. Aprovo por princípio esta descentralização, quer ela beneficie o Porto, Vila Real, Castelo Branco, Portalegre ou outra cidade qualquer. Sinto orgulho por o Centro Português de Fotografia estar instalado na minha cidade, para mais num local tão extraordinário como a Antiga Cadeia da Relação. (A propósito, a praça onde fica o Centro Português de Fotografia deixou recentemente de se chamar «Campo dos Mártires da Pátria» para se denominar «Praça do Amor de Perdição», em homenagem ao romance de Camilo Castelo Branco, o mais célebre dos reclusos da Cadeia da Relação; não é um nome belíssimo para uma praça?)

Considero a macrocefalia e a centralização fenómenos abomináveis. São sinais de mentalidades estreitas, de subdesenvolvimento e de desprezo das elites pelo resto do país. Que um cérebro da esquerda-caviar o defenda, em contradição completa com o comportamento oficial do partido que integra, apenas demonstra a hipocrisia das ideologias e a dimensão limitada de certas pessoas. A despeito do seu discurso político, o Professor Fernando Rosas está a borrifar-se para as pessoas e para o país; a sua comodidade é tudo o que importa. O resto é paisagem.

M. V. M.

Dúvidas

Estou cansado de fotografar e de escrever sobre fotografia. É um estado de espírito que não se funda em nenhum acontecimento em especial, mas tem a sua causa numa saturação que me leva a pensar se não terei ido longe demais na minha entrega à fotografia. Na verdade, desde Abril deste ano apenas fiz uma fotografia que me satisfez inteiramente. Dou por mim a sair para fotografar, não por ter uma ideia ou um objectivo em mente, mas por não ter nada melhor para fazer. O que é o antónimo do prazer de fotografar; é fotografar por desfastio, e nada de bom pode sair daqui.
Estou também cansado de escrever: preferia ter mais gente a ver as minhas fotografias do que a ler os meus textos, mas é o oposto que acontece. (O que provavelmente significa que escrevo melhor do que fotografo.) Os textos mais lidos deste blogue são aqueles que menos têm que ver com a criação fotográfica, como os que escrevi sobre o direito aplicável à fotografia. Fico muito satisfeito por saber que as pessoas que lêem este blogue encontram alguma utilidade nos seus textos, mas isto não me satisfaz: ninguém percebe (percepciona) este blogue como um espaço aberto, e são muito poucos os que participam com comentários – o que é o oposto daquilo que pretendia quando comecei o ISO 100: um blogue que servisse para trocar ideias e que ajudasse os leitores – e a mim mesmo – a evoluir enquanto fotógrafos amadores. Em lugar disto, incorro frequentemente no risco de ser confundido com alguém que escreve sem saber muito bem o que está a dizer – apesar de sempre ter tentado evitar que isto acontecesse, porque tenho uma consciência demasiado aguda das minhas limitações.
Quanto às minhas fotografias, tenho notado, nas últimas semanas, que tenho feito muito pouca coisa que valha a pena, apesar de fotografar cada vez mais. Estou mesmo um pouco cansado de fotografar, e cada vez mais insatisfeito com os resultados que obtenho.
Tudo isto leva-me a pensar se vale a pena persistir. Leva-me a perguntar-me se as minhas fotografias têm algum valor artístico, ou meramente estético, que as distinga dos milhares de milhões de fotografias que todos os dias são feitas por fotógrafos amadores. E, quando comparo o que faço com fotografias de Enric Vives-Rubio, Paulo Alegria, António Pedrosa e tantos outros fotógrafos, vejo que as minhas fotografias são desprovidas de substância, sem uma mensagem que diga algo a quem as vê. Algumas serão, quando muito, agradáveis, mas isto não me basta.
Talvez tenha apontado para algo demasiado alto, algo que me é inatingível. É bem possível que, no meio de tanta técnica e preocupação com o equipamento e como usá-lo, tenha deixado para trás o que me levou a fotografar – querer traduzir em imagens a maneira como vejo o que me rodeia. Talvez seja esta maneira como olho para as coisas que não é suficientemente interessante, ou talvez o meu olhar não esteja suficientemente treinado.
Foto de António Pedrosa, da série Iraquianos, vencedora do Prémio Estação Imagem|Mora 2012
Ou talvez não queira tornar-me num fotógrafo. Ontem – sábado, 16 de Junho – fui assistir à inauguração da exposição das fotografias premiadas pela Estação Imagem no Centro Português de Fotografia. Senti-me completamente deslocado, sem nada que me identificasse com as pessoas que ali estavam. Notei que os fotógrafos que estavam presentes eram pessoas mais interessadas em exibir o seu equipamento do que em apreciar as fotografias expostas. E eu não quero ser assim, nem quero olhar com sobranceria quem tem equipamento inferior ao meu ou ostentar uma condição de grande fotógrafo que não é a minha. As pessoas que estavam verdadeiramente interessadas na exposição não levavam câmaras – ou, quando muito, usavam os seus telemóveis para fotografar. Em contrapartida, o vencedor do prémio, António Pedrosa, irradiava simpatia, genuinamente contente por mais este reconhecimento público. E não levou o seu equipamento. À semelhança do que noto noutros profissionais que conheço, António Pedrosa não sentia qualquer necessidade de ostentar a sua condição de fotojornalista. Para estes fotógrafos, os corpos e as objectivas têm a mera condição de utensílios de trabalho.
As fotografias expostas são, como seria de esperar, excelentes. Eu gosto de ver fotografias de bons fotógrafos, embora o resultado seja, invariavelmente, o de reforçar as minhas dúvidas sobre se alguma vez serei capaz de fazer uma fotografia que seja com aquele nível de qualidade. Talvez não. Mas talvez seja insensato ter como ambição fazer fotografias comparáveis às de profissionais que têm oportunidade de ver pessoas e lugares tão diversos e variados – o que me é inacessível – e que têm uma formação que eu não tenho.
Back to basics – eis uma divisa que não me canso de repetir, mas não consigo pôr em prática. Jurei que ia voltar a fotografar em JPEG e com retoques mínimos das fotografias, e acabei fotografando RAW e a comprar um programa de edição de imagem ainda mais manipulativo que o Lightroom. E, quando tento fazer fotografias com alma, o que me sai é demasiado rebuscado e acaba por não atingir o objectivo. Já não consigo fotografar espontaneamente, e por vezes dou por mim a tentar fotografar como outros o fizeram, em lugar de ser eu mesmo e de transmitir as impressões que eu senti quando vi determinada cena. O que é, convenhamos, um absurdo.
Talvez deva fazer um intervalo – passar algumas semanas sem fotografar e reformular completamente a maneira como faço fotografias. O que se estende aos textos que escrevo aqui. Isto não significa que tenha desistido de procurar melhorar a minha fotografia: até aqui, entendi que essa melhoria consistia no aprofundamento dos conhecimentos técnicos, mas estava errado. A melhoria que devo procurar é na temática, no conteúdo e na mensagem. Talvez esta pausa sirva para responder às minhas dúvidas.

Câmaras, câmaras e mais câmaras

Sendo a minha paixão pela fotografia muito recente, não tive tempo para construir um capital de nostalgia por câmaras do passado. E é provável que nunca a venha a conhecer, nestes tempos em que uma câmara se torna intoleravelmente obsoleta ao fim de dois anos ou menos. Apesar de já não ser jovem, não consigo olhar para a montra da Photomaton com saudade, porque nunca tive nenhuma das câmaras que por lá aparecem; nem tenho interesse em voltar a tempos que nunca vivi, comprando uma câmara analógica, porque o digital praticamente só tem vantagens. O mais retro que sou capaz é quando uso as lentes de focagem manual, mas confesso que só as tenho porque foi a maneira que encontrei de ter lentes de muito alta qualidade por pouco dinheiro. A OM 28mm/f3.5 custou-me €110, a OM 50mm/f1.4 €100, e o monstro, a Vivitar 75-300, custou outros €100. Mesmo com o adaptador MF-2, que me custou a insignificância de €190,00, o dinheiro que gastei com estas lentes não chegaria para adquirir a Panasonic-Leica 25mm/f1.4, ou a Olympus 9-18mm. Ter um corpo analógico, porém, significaria despesa com rolos e revelações, caminho que não quero prosseguir – apesar de haver qualquer coisa na fotografia analógica que é antagónica da frieza asséptica da fotografia digital e que, por vezes, me faz sentir saudades de tempos que não vivi (mas vi).
Deste modo, quando visito o núcleo museológico do Centro Português de Fotografia e vejo aquelas vitrinas cheias de equipamento fotográfico do passado, olho as câmaras expostas com o ar levemente blasé de quem vê peças de arqueologia. Nem sequer consigo pensar que aqueles objectos inertes já fizeram fotografias fantásticas nas mãos de fotógrafos experimentados: são coisas mortas. Poucas são as que me despertam verdadeiro interesse, e mesmo estas apenas me convencem pela estética. (Apesar desta minha falta de raízes fotográficas, fui exposto a equipamento desde muito novo, por via de um tio que trabalhava na Hitzemann & Cia., Lda., importadora da Minolta e da Fujifilm. O meu sentido estético, no que concerne às câmaras, foi formado com as rangefinders da Minolta, e as únicas SLR para que consigo olhar são as da Pentax, Canon e Olympus dos anos 70. A febre ergonómica que transformou as câmaras SLR em miasmas anamórficos destruiu por completo a beleza das cãmaras, as compactas não podem ser levadas a sério e os telemóveis servem para fazer chamadas e SMS, não para fotografar.)
Das câmaras expostas no CPF, dizia, poucas são as que me atraem a atenção. Considero muito mais excitante entrar numa loja de artigos novos do que num museu (ou, neste caso, núcleo museológico). Aliás, nem sequer consigo perceber porque só expõem câmaras: seria muito interessante ver algumas lentes, como na vitrina do Instituto Português de Fotografia (foto ao lado). Afinal, uma câmara não é apenas o corpo – mas existe esta tendência para fingir que o é, e que a objectiva não é mais do que um mero acessório (o que é uma completa falsidade). As câmaras-espia, as miniaturas e outras curiosidades nada me dizem. Não compreendo por que havia um espião de usar uma câmara disfarçada de lata de Coca-Cola; no momento em que ele levasse a lata ao olho para ver através do visor, as pessoas haviam de achar aquele comportamento bizarro: «Olha, aquele maluquinho está a tirar fotografias com uma lata de Coca-Cola!» Convenhamos que seria muito pouco discreto.
De todas as câmaras expostas, só duas ou três me impressionaram: uma SLR da Canon, por ter montada uma lente 50mm/f0,95, a Olympus O-Product – mais por curiosidade do que pela funcionalidade – e uma das primeiras Leicas, da era pré-Hermés e pré-Walter de’Silva. Esta sim, é uma daquelas câmaras que apetece comprar nem que seja só pelo prazer de a ter – mesmo que não se façam fotografias com ela. Uma câmara com um visor óptico externo belíssimo, e com uma linha que, excepto pelo tamanho dos comandos no painel superior, pode ser considerada intemporal. Se hoje fizessem uma câmara inspirada nesta, visor externo e tudo, seria um êxito!
E eu compraria uma câmara destas, na hipótese fortuita de me sair o Euromilhões? Não. Só se fosse para fotografar com ela, o que implicaria que estivesse em muito bom estado e fosse capaz de uma qualidade de imagem sublime. Porque só isso verdadeiramente conta. Não excluo que venha a fazer fotografia analógica – mal supere o meu receio de não conseguir obter exposições correctas -, mas esta não é uma prioridade.
Não vivo, deste modo, preso ao passado, nem consigo sentir nostalgia por peças de museu. O que não significa que o passado da fotografia não me mereça respeito, ou que seja um tarado da tecnologia, um escravo das modas que se ilude com as promessas de um futuro tecnologicamente perfeito no qual não há lugar para coisas do passado como a focagem manual. Vivo no presente; esta é a minha era. Não vivo para sonhar com um futuro ilusório nem para sonhar com um passado a que não pertenci. Olhar para aquele material fotográfico, porém, não deixa de me fazer pensar que foi feito com um espírito que hoje se perdeu por completo. Tenho a certeza que, em 2060, não haverá uma Nikon D800E ou uma Olympus E-P1 em exposição em nenhuma parte do mundo, porque todas terão sido recicladas ou destruídas pelos seus donos depois de as terem trocado pelo modelo que saiu dois anos depois (ou menos) de as terem adquirido. Definitivamente, perdeu-se aquele espírito pioneiro de fazer evoluir as coisas para obter a melhor qualidade possível. Agora fazem-se câmaras para serem vendidas.