Viagem ao fundo da noite (2)

Voyage au Bout de la Nuit é uma viagem ao fundo deste interior, uma narração de episódios de uma vida aventurosa durante a qual a personagem Ferdinand Bardamu se depara com a cobardia, a ganância, a crueldade, o cinismo, a mesquinhez, a tibieza, a maledicência que existem em cada uma das demais personagens com quem se cruza – e nele mesmo. É uma obra sobre o sofrimento e a inquietude, e a sua dimensão humana foi uma verdadeira revelação para mim. Eu nunca li um romance que fosse, ao mesmo tempo, tão belo e tão incómodo. É uma obra literária singular: a narração é de uma qualidade literária elevadíssima, mas os diálogos são coloquiais e Céline recorre amiúde ao vernáculo. Fá-lo porque é assim que somos. Porque a  noite, o fundo da noite de Céline, é carregado de imundície e vileza. O único heroísmo possível está em contrariar essa escuridão, mas somos sempre demasiado fracos. Mesmo quando agimos bem, fazêmo-lo sempre por opção, não por ser esse o único caminho.

Há algo que aprecio na literatura francesa: nenhuma personagem é absolutamente boa nem absolutamente má. Somos o fruto das nossas escolhas e do que as circunstâncias ditam. Não há um imperativo moral que nos guie – ou, quando há algo que se lhe assemelhe, tudo é posto em questão. Nós somos assim mesmo: ninguém é absolutamente bom e ninguém é completamente mau. Por vezes a vida leva-nos por caminhos indesejados e agimos contra o acervo de valores de que somos depositários. Este é um corolário do pensamento típico do início do Século XX. (Ao mesmo tempo, em Viena, Musil escrevia: «O que importa não é o erro, mas o que fazemos depois dele».)

Numa palavra, os livros que escolho como os meus melhores falam de pessoas. Das pessoas que somos, daquilo que nos determina a agir, dos nossos erros, das nossas podridões ou da capacidade que temos em resistir. Não existe ninguém perfeitamente virtuoso nem ninguém totalmente pérfido: somos o resultado do confronto das nossas crenças e valores com a vida e esta põe em causa tudo em que acreditamos. Céline fala-nos deste confronto. Uns, por terem o discernimento embotado, resvalam para a vileza; outros, como Bardamu, sabem que esta existe e é frequentemente inevitável, mas não se deixam abater. E, sobretudo, não fazem juízos de valor nem clamam qualquer superioridade – moral ou de qualquer outra natureza. Somos uma enorme comunidade de seres defeituosos e limitados, nada mais. E nem se pode dizer que nos superamos: o mais que fazemos é sobreviver às adversidades.

É por tudo isto que considero Viagem Ao Fim da Noite o melhor livro que li. Até hoje. Amanhã poderei descobrir um melhor. Infelizmente, esse melhor não vai ser o que estou a ler agora, que é O Vermelho e o Negro, de Stendhal. Não que seja mau – pelo contrário, estou a gostar – mas o Céline está mais perto e vai mais fundo. Mas o Stendhal fica para mais tarde. É mais avisado fazer a sua apreciação quando acabar de o ler.

M. V. M.

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Viagem ao fundo da noite (1)

Louis-Ferdinand Céline

Os leitores habituais já sabem como o M. V. M. é errático na escolha dos assuntos que versa no Número f/, por isso perdoar-me-ão decerto mais um texto fora do tema. Eu nunca escreveria textos como este se não estivesse convicto da sua utilidade. Bem vêem, eu escrevo – ou procuro escrever – para pessoas que têm um número variado de interesses além da fotografia. Se estes interesses não existirem, que pobres serão as fotografias.

Fazer uma fotografia – especialmente na acepção abertamente criativa que eu cultivo – nunca pode ser desligado de quem nós somos, do que fazemos, do que são os nossos interesses. Entre estes podem estar (estarão com certeza) as artes – a música, a literatura e certamente muitas outras. Tudo isto se manifesta nas nossas fotografias. Até a personalidade de cada um é revelada nas fotografias que se fazem.

Por tudo isto, não me parece nada despropositado escrever – como hoje vou fazer – sobre literatura. Ler enriquece-nos e expande as nossas mentes; mas ler obras como as que vou referir leva-nos para domínios do conhecimento tão extraordinários que nos fazem sentir gratos (seja ao que for: a uma divindade, ao destino, aos pais, não interessa o quê) por termos acesso a elas.

Até há cerca de um mês, eu hesitava sobre qual o melhor livro que tinha lido. Seria A Montanha Mágica, de Thomas Mann, ou A Condição Humana, de André Malraux? Eu não gosto de estabelecer hierarquias, mas por alguma razão gosto de poder dizer que o livro … é a melhor obra literária que já li. (Reparem no «já», que deixa tudo em aberto.) As obras que referi são decerto extraordinárias: ambas, no fundo, falam do sentido da vida, ou do sentido que damos à vida. Hans Castorp e os guerrilheiros revolucionários chineses são impelidos por aquilo que acreditam, pelos valores por que sentem que vale a pena lutar. São ambas genialmente penetrantes e de uma qualidade literária que não merece discussão. A tentativa de assassínio com que A Condição Humana inicia («o matar era nada; o tocar é que era impossível» é a melhor frase literária que li até hoje) é dos melhores momentos da literatura universal, mas A Montanha Mágica é tão rico, tão caleidoscópico que me deixa ambivalente quanto a qual é melhor – ou, dito mais propriamente, qual entendo ser melhor, porque quem sou eu para formular juízos absolutos.

Até que o desempate aconteceu, quase por acaso. Não foi um pender para uma ou outra daquelas obras, mas a descoberta, por mera curiosidade de uma outra obra que passou a gozar do estatuto de O Melhor Livro Que O M. V. M. Já Leu. Esse livro é Viagem ao Fim da Noite, de Céline (pseudónimo literário de Louis-Fernand Destouches). Logo uma obra com um título que me enerva, a mim que tenho uma obsessão quase neurótica com as traduções dos títulos: neste caso, a tradução não é tão grosseiramente errada como L’Étranger por «O Estrangeiro», mas priva-nos de um título que ilustra bem melhor o tema da obra do que a tradução escolhida.

O que é mais importante do que parece: o título original é Voyage au Bout de la Nuit. «Viagem ao Fundo da Noite». A noite a que Céline se refere e que serve de tema a esta obra não é a escuridão que se segue ao dia: é a que temos bem fundo dentro de nós, as profundezas que não ousamos confessar. E esta é uma noite que não tem fim, mas tem um fundo. (Continua)

Joel Meyerowitz, meu irmão

Por Joel Meyerowitz.

Há algumas semanas deu-me a preguiça e tudo o que publiquei no Número f/ foi uma ligação para uma entrevista com Joel Meyerowitz, fotógrafo de rua e pioneiro da cor (ou melhor: pioneiro da fotografia de rua a cores, título que partilha com Fred Herzog e Saul Leiter). Nessa entrevista, Joel Meyerowitz desabafa: «Nobody’s looking at each other. Everybody’s glued to their phones». Apesar de não me poder comparar com um Meyerowitz, não posso deixar de compreender a sua frustração.

Quando ando na rua à procura de fotografias, acontece-me muito frequentemente encontrar pessoas interessantes e não as fotografiar. Ou encontrar um bom cenário, esperar que alguém passe e desistir dessa fotografia. Porquê? Porque as pessoas que passam estão, normalmente, coladas ao telemóvel. Fotografar uma pessoa a falar ao telemóvel, ou a folheá-lo com o dedo ou a enviar mensagens, é horrível: além de retirar o encanto à fotografia, coloca-lhe uma data. É verdade: as fotografias feitas na rua com pessoas a falar ao telemóvel (ou a fotografar com ele, ou ainda a escrever mensagens ou a navegar na internet) tornam-se irremediavelmente datadas. Não é «datadas» como uma fotografia de um sujeito com cabeleira Afro, colarinhos à aviador e calças boca-de-sino dos anos 70: esta hipotética fotografia tem, no mínimo, a virtude de documentar uma era. A fotografia da pessoa a usar o telemóvel é datada porque perdeu o interesse na fracção de segundo que se sucedeu ao accionamento do obturador (se alguma vez o teve). Uma fotografia de alguém a usar o smartphone não é sexy, não é interessante, não diz nada sobre a vida, não tem sentido nenhum: é uma fotografia de alguém a fazer algo que se tornou tão banal que deixou de ter qualquer importância para a fotografia: nada lhe acrescenta, nada traz de novo.

Mais vale não fazer fotografias de pessoas com telemóveis. Fazê-lo é também subscrever um modo de vida completamente estúpido em que se chega a trocar as relações interpessoais por uma representação virtual dessas relações: as pessoas não comunicam entre si, de tão obcecadas com o aparelhinho que trazem nas mãos. Não se olham, não interagem a não ser com quem estiver do outro lado da linha, ou online nessa parvoíce das «redes sociais». E, quando se telefonam, não é por terem algo a dizer que, de tão importante, não pode esperar: já me aconteceu – e este é um exemplo entre muitos – surpreender uma conversa que consistia em instruções sobre como fazer uma sopa e onde estavam os respectivos ingredientes!

Esta é uma questão sociológica que excede largamente o âmbito da fotografia; no que nos concerne, há outra consideração importante: o telemóvel é inestético. Ou melhor: o aparelho em si pode ser agradável à vista, mas a morfologia que as pessoas assumem quando o usam é simplesmente anti-fotográfica. O braço angulado para elevar o aparelho à altura do ouvido, o tronco curvado, a cabeça tombada – nada disto favorece a figura humana.

O essencial, contudo, é que as pessoas que andam na rua com os seus smartphones não criam histórias. Limitam-se a enfiar o nariz no ecrã do telemóvel como se não existisse vida para lá do aparelho. E isto está a matar a «fotografia de rua»: que histórias há para contar quando as pessoas estão completamente alienadas e só têm olhos para o ecrã do smartphone?

Mesmo assim, nada disto é tão mau como a praga dos turistas – excepto, evidentemente, se estes estiverem a usar o telemóvel…

M. V. M.

Liberdade

Por Raymond Depardon

Por favor não me interpretem mal. Eu não tenho qualquer relação com a Magnum, nem sou, a fortiori, pago para publicitar o que quer que eles vendam online, mas a última proposta de venda de impressões em formato quadrado não deixou de me espantar.

Não que ainda encontre muito lugar para o espanto quando vejo obras de fotógrafos como David Alan Harvey, Bruno Barbey, Harry Gruyaert, Susan Meiselas e veteranos como Robert Capa e René Burri: todos os leitores do Número f/ sabem o que penso sobre a Magnum – e, se não sabem, ficam agora a saber que a minha identificação com o ethos e a obra dos fotógrafos da Magnum é praticamente irrestrita. Poucas são as fotografias e os fotógrafos da Magnum que me mereçam qualquer tipo de reserva.

Esta colecção que a Magnum anuncia, porém, contém fotografias que são especialmente brilhantes. O tema é a liberdade – esta edição vem a propósito do cinquentenário do ano de 1968, durante o qual aconteceram eventos de especial importância para a conquista da liberdade – e desde logo se torna notória a diversidade dos símbolos adoptados por cada fotógrafo e as suas diferentes interpretações da liberdade – mas todas as fotografias são excelentes. É como se esta colecção fosse um portfolio que a Magnum tivesse de apresentar para mostrar o melhor de que os seus cooperadores são capazes. Não que a Magnum necessite, mas se precisasse de se apresentar, estou certo que muitos compreenderiam a razão da minha predilecção pela Magnum e pelos seus fotógrafos.

O que é interessante é que esta colecção atravessa a história da Magnum. Estão representados dois dos seus fundadores – Robert Capa e David Seymour – e muitos dos actuais cooperadores, entre os quais Alec Soth e a referida Susan Meiselas. Pelo meio estão fotógrafos com a importância de Raymond Depardon, Olivia Arthur, Eve Arnold e Abbas.

Se eu comprava alguma destas fotografias? Sim, sete delas: as de Harry Gruyaert, Bruno Barbey, Eve Arnold, David Alan Harvey, Raymond Depardon, Elliot Erwitt e Diana Markosian – mesmo correndo o risco de deixar de fora muitas fotografias excelentes. Claro que, depois de as adquirir, candidatar-me-ia ao rendimento social de inserção – ou a uma estadia prolongada no hospital Magalhães Lemos. É que estas são impressões que não excedem 14cm no lado mais longo e custam USD $100 cada uma. Ouch! Mesmo se muitas delas são assinadas, mais vale contentar-me em vê-las no monitor.

Se a fábula da raposa e das uvas ocorreu à vossa mente ao ler o parágrafo anterior, pode não ser por acaso.

M. V. M.

FFS!

Deixam-me escrever de novo sobre nostalgia musical, se eu prometer um texto sobre fotografia logo a seguir? Sim? Então aqui vai: inicialmente não vai parecer que estou a escrever sobre o passado, mas acompanhem-me durante mais algum tempo e verão como chego lá.

O álbum mais interessante que saiu nos últimos quatro ou cinco anos foi um LP com o título FFS. Este acrónimo, como os que andam mais tempo na Internet sabem, refere-se a uma expressão corrente, usada quando alguém se exaspera perante algo muito obtuso ou disparatado. É equivalente à nossa «por amor de Deus», mas «For God’s Sake», ou «for Christ’s sake», foram substituídas, na gíria popular, por «for f*ck’s sake». Assim, «FFS» é a abreviatura de for f*ck’s sake. Certo?

Não. Errado. No contexto que nos interessa, «FFS» é a abreviatura de Franz Ferdinand and Sparks, que é, em simultâneo, nome da banda que originou da reunião de dois grupos e do álbum que este novo colectivo engendrou em 2015. Os Franz Ferdinand são uma banda escocesa que apareceu em 2004, e os Sparks são um duo composto pelos irmãos americanos Ron e Russell Mael, cujas actividades musicais remontam aos finais dos anos 60 do século passado (embora editando como Sparks desde 1972).

Vamos abreviar um pouco as coisas. O melhor álbum dos Sparks é Kimono My House, de 1974. O estilo deste álbum oscila entre o glam rock e o vaudeville. (A voz de contralto de Russell Mael é adequada a líricas sarcásticas.) Deste álbum, a canção mais notória – o que não significa, necessariamente, que seja a melhor – é This Town Ain’t Big Enough For Both of Us. Depois os Sparks dedicaram-se a outros estilos, do disco à new wave, e ainda estão activos, apesar de serem dois velhinhos de 73 (Ron) e 69 anos (Russell). Uma coisa é certa: apesar de relativamente desconhecidos – o que é, evidentemente, uma pena –, os Sparks são uma das bandas mais importantes de sempre. A influência que exerceram estende-se até aos New Order e, sem eles, os Associates nunca teriam existido (a voz de Billy Mackenzie era a de Russell Mael levada a extremos caricaturais). Nem, provavelmente, os Franz Ferdinand.

Não sei como aconteceu o encontro entre os Sparks e os Franz Ferdinand. O que sei é que os irmãos Mael influenciaram a música dos Franz Ferdinand – há nestes o mesmo tom sarcástico –, mas FFS não é uma homenagem dos Franz Ferdinand aos Sparks. É um supergrupo, mas ao contrário daquelas azeitadas dos anos 80, como Queen com David Bowie, é um super-supergrupo. No sentido em que a sua música é simplesmente portentosa.

Não foi por acaso que citei Kimono My House. Muitas das canções de FFS seguem o estilo deste álbum. Police Encounters, por exemplo, é algo que os Sparks poderiam ter incluído neste álbum se em 1974 tivessem os meios de produção e execução actuais, mas a contribuição dos Franz Ferdinand acrescenta outra camada de riqueza às composições. E não – não se trata de uma esmola, de um convite patético à participação discreta dos irmãos Mael numa ou outra faixa: FFS é um álbum de perfeita sinergia entre os Franz Ferdinand e os Sparks. Os Mael são tão participativos como os membros dos Franz Ferdinand. A voz de Russell Mael continua excelente e mordaz, Ron Mael não esqueceu como se toca piano e se programa um sintetizador.

FFS é puro génio. É o álbum mais brilhante, divertido e excitante que foi lançado na última meia dúzia de anos. O meu único lamento é tê-lo descoberto quase três anos depois de ter sido lançado. É uma marca que fica na música desta década.

E dizem eles que as colaborações não funcionam. FFS!

M. V. M.

Nostalgia

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Roberta Flack

Por vezes sou acometido de acessos de nostalgia, o que me pode deixar imerso em estados de espírito que são, ao mesmo tempo, doces e dolorosos. Doces pelo prazer que evoco, dolorosos por esse prazer ter passado e nunca mais se repetir.

Há canções que me vêm à memória espontaneamente, vindas do fundo da minha infância. Pensava que, pela evolução dos meus gostos, estas canções tinham ficado para trás, irremediavelmente soterradas na poeira dos anos, mas sobreviveram. Com todos os seus defeitos e virtudes, elas voltam ciclicamente para me lembrar que tive um passado e que deixaram uma marca indelével ao passar por esses tempos da minha meninice. Estão gravadas em mim como protestos de amor nos troncos das árvores do parque. Claro que há muitas canções desse tempo que gostaria de nunca ter ouvido – como, por exemplo, todas as do falecido Demis Roussos -, mas outras vão permanecer na memória até ao fim dos meus dias.

Uma dessas canções é Une Belle Histoire, de Michel Fugain. Apesar de existirem inúmeras canções interessantes no estilo a que se convencionou chamar chanson française, nunca consegui sentir uma verdadeira empatia por Leo Ferré, Gilbert Bécaud ou Georges Brassens (entre outros). Deste período de ouro da chanson apenas retenho Je T’Aime (Moi Non Plus), de Serge Gainsbourg – em 1993, Barry Adamson lançou uma interpretação excelente no seu EP The Negro Inside Me, a qual recomendo vivamente – e Une Belle Histoire. As canções francesas desta era são irremediavelmente datadas, com exageros interpretativos e um excesso de ornamentação orquestral que me distrai e me faz repudiá-las. Os poemas, à custa de quererem parecer inteligentes, são intragáveis, e as vozes e instrumentações dão às canções um ambiente de festival da canção que simplesmente não me interessa.

Mas Une Belle Histoire tem uma melodia irresistível, que me persegue e assombra as minhas recordações. Se, ao menos, houvesse hoje uma versão menos festivaleira – imaginem o que seria se os Air fizessem uma versão! -, esta canção sairia do poço das memórias e ganharia uma nova vida.

Foi exactamente isto que aconteceu com outra canção que me vem periodicamente assombrar. Em 1996, os detestáveis Fugees roubaram ao esquecimento uma canção de 1973 (tinha o M. V. M. 9 anos de idade) intitulada Killing Me Softly With His Song, cantada originalmente por Roberta Flack. Com uma diferença importante em relação à hipotética e inexistente versão contemporânea de Une Belle Histoire: apesar da excelente voz de Lauryn Hill, a versão de Roberta Flack (uma cantora descoberta pelo fabuloso Les McCann) é infinitamente melhor que a versão dos Fugees. Aliás, o que estes fizeram não foi mais que mutilar Killing Me Softly With His Song.

Hoje dei por mim a escutar a versão de Roberta Flack no YouTube. Dizer que me soube bem não chega para exprimir o que senti. Para minha surpresa, foi a muito custo que evitei chorar como uma Maria Madalena. Tal o poder desta canção. Seria bom ouvi-la com arranjos mais actuais, mas está muito bem como está. Pelo menos não está muito datada. Roberta Flack é uma grande voz da Soul americana. Não vou dizer que é injustamente ignorada, porque ela mesmo se encarregou de destruir a sua reputação nos anos 80, ao cantar duetos foleiros com um tal Peabo Bryson, mas merece ser lembrada por esta canção excepcional – mesmo que Killing Me Softly With His Song tenha sido um mega-êxito no seu tempo.

Chega de confissões embaraçosas. Amanhã vou escrever sobre fotografia outra vez. Se não estiver demasiado deprimido por causa de alguma canção de 1973, claro.

M. V. M.

O prémio

Edgar Martins. O nome deste utilizador de máquinas de grande formato deve dizer algo aos leitores do Número f/, porque já me referi aqui a ele. Não pelos melhores motivos, decerto, mas há algo que não pode ser contestado: Edgar Martins é um dos melhores fotógrafos portugueses de sempre e pertence à clique dos grandes fotógrafos mundiais.

E agora recebeu – foi o primeiro português a fazê-lo – um dos prémios Sony World Photography. E bem merece, este fotógrafo que dá nomes intrincados e algo pretensiosos aos seus portfolios. Edgar Martins venceu a categoria de natureza morta, embora as suas fotografias tenham mais de «morta» do que de «natureza».

Eu explico: Edgar Martins passou alguns meses a fotografar cartas de suicídio e outros documentos forenses nos Institutos de Medicina Legal de Lisboa e Coimbra. (Agora o que existe não são institutos de medicina legal: são delegações do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses). Mas não foi para fazer fotografias documentais que Edgar Martins se dedicou a este estranho e mórbido trabalho: as fotografias que ele fez e ganharam o prémio SWP são de uma beleza como nunca teria esperado, mesmo se algumas das fotografias de Edgar Martins são extraordinárias pela sua estética.

Estas fotografias da colecção Siloquies And Soliloquies On Death, Life And Other Interludes têm de ser vistas levando em conta o seu contexto para serem compreendidas; se o fizermos, tudo adquire sentido: estas são fotografias pungentes que sugerem mais do que mostram; apelam, este modo, à sensibilidade. E ficam connosco, (per)seguem-nos para onde quer que vamos. Uma destas fotografias – a que ilustra, mesmo sem autorização do autor, este texto – é uma das melhores fotografias que já vi. Verdadeiramente portentosa na sua beleza, mas sobretudo no seu significado. É bela, comovedora, e poderosa ao mesmo tempo. É ambígua e subtil – fala uma linguagem que requer esforço intelectual e, sobretudo, sensibilidade. A mesma sensibilidade de que Edgar Martins lançou mão para fazer esta fotografia simplesmente extraordinária. É frágil e delicada, um mero fio, uma linha fina, tal como imagino que seja a mente de quem escreveu as cartas (das quais não vemos ou lemos uma única linha, mas cujo conteúdo deciframos através desta fotografia). Nela pode ver-se também um respeito profundo e compreensão, uma circunspecção e sobriedade diante desse fenómeno que nos perturba e no qual desejamos não pensar.

Sinto orgulho em conhecer a obra de Edgar Martins e ser seu compatriota. Se um dia fizer uma fotografia que valha a décima parte de uma destas, terei atingido o meu apogeu e voado a alturas que não me atrevo a imaginar.

M. V. M.