A Holanda, uma retratista com um nome impronunciável e eu

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Amanhã há eleições legislativas na Holanda. Existe o sério risco de um partido liderado por um indivíduo de nome Geert Wilders, que alguns consideram ser a versão holandesa de Donald Trump, vencer as eleições.

O que me aborrece, nestes populistas, é a sua completa incoerência ideológica. Aliás, é mais correcto dizer que não têm ideologia: as ideias que anunciam destinam-se simplesmente a ir ao encontro dos anseios de uma população amedrontada que crê facilmente em lugares-comuns que são indicados como uma panaceia – falsa, evidentemente – para todos os seus problemas. É fácil, a um desempregado com a mente amolecida por muitos anos a ver televisão e que passa a vida no facebook acreditar que a razão de estar desempregado é um estrangeiro estar a roubar-lhe o emprego. E, se esse estrangeiro for um ser considerado inferior – por ter pele escura e ser de uma religião diferente, porque muitos entendem serem estes sinais de inferioridade –, mais fácil se torna propagar o discurso do ódio e conquistar votos. Este Geert Wilders é, curiosamente, um indivíduo que assenta o discurso político na expulsão dos emigrantes, mas pinta o cabelo de louro para não se notar demasiado a presença de traços físicos que o assemelham à sua mãe, uma emigrante indonésia. Não sei o que vê nele uma grande parte dos holandeses.

É isto que me repugna nos populistas: eles só acreditam na conquista do poder e fazem e dizem tudo o que for necessário para o obter. Nem que isso implique mentir e cair em contradições que só escapam a mentes embotadas e predispostas a acreditar nas mensagens de ódio que estes protofascistas transmitem. Resta saber o que fazem quando chegam ao poder. Temos o exemplo dos Estados Unidos, mas ainda mais perto está o caso dos municípios conquistados em França pela Frente Nacional, cuja administração se caracterizou sempre pela corrupção, pelo favorecimento pessoal e pela ausência de qualquer tipo de políticas, ou o dos governos de Silvio Berlusconi, que, embora não fosse um nacionalista em sentido estrito, partilhava com eles uma retórica de ilusão das massas para, uma vez chegado ao poder, fazer tudo ao contrário do que anunciara e governar em benefício das suas próprias empresas. É este tipo de gente que governa a Hungria, a Polónia, a Rússia e os Estados Unidos; seguir-se-á a Holanda?

Se Geert Wilders se tornar primeiro-ministro holandês, poderá, na pior das hipóteses, acelerar o processo de desagregação da União Europeia, contribuir para uma crise económica mundial e desencadear uma nova guerra religiosa na Europa; na melhor, a qual se verificará no caso de ter de governar em coligação com partidos moderados, apenas contribuirá para acentuar uma ligeira antipatia que sempre senti por aquele país decadente e desinteressante. Um país, contudo, que não deixa de ter relevância nas artes, e em particular na fotografia. Com efeito, um dos melhores fotógrafos que conheço – na minha lista mais extensa – é holandês e chama-se Ed (Eduard) van der Elsken. Mas também já me referi aqui a Toto Frima, entusiasta das Polaroids. Além destes dois – e decerto de muitos outros –, há uma fotógrafa contemporânea cuja obra me parece merecer a atenção dos leitores do Número f/: é Rineke Dijkstra, uma moça da geração de 1959 que acabou de ganhar um prémio atribuído pela Fundação Hasselblad.

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Que posso eu dizer sobre os retratos de Rineke Dijkstra? Eles são, aparentemente, rígidos; as poses das pessoas são estáticas e formais, mas é perceptível que as pessoas retratadas são tudo menos isso. É como se as fotografias de Rineke Dijkstra (eu gosto de escrever este nome, embora não faça a mais pequena ideia como se pronuncia) fossem uma metáfora dos espartilhos que cingem a vida das pessoas nos nossos dias. Acima de tudo, são retratos de pessoas reais. Esta realidade é, em si mesma, perturbadora: é como se Rineke Dijkstra caricaturasse os retratos estereotípicos para nos dizer que há mais beleza e retratabilidade nas pessoas comuns do que nos modelos fotográficos. Há aqui uma nota de subversão que me parece deliciosa.

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Depois há os retratos temáticos, nos quais se favorece a crueza da realidade, o mostrar as pessoas na sua essência, sem ornamentos, fotografando-as contra fundos banais e quotidianos, como se quisesse dizer que só a pessoa interessa, que a pessoa é um motivo de interesse mesmo quando desligada das suas circunstâncias. Neste aspecto os retratos de Rineke Dijkstra são imensamente conseguidos.

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Os holandeses estão prestes a seguir o exemplo de outros povos que preferem ser governados por escroques que usam as frustrações dos votantes para fazer passar a sua mensagem e se alcandorar ao poder. A inteligência sai sempre derrotada deste confronto. Quem não se lembra de que Mario Vargas Llosa, um gigante da literatura mundial, perdeu as eleições presidenciais no Peru para um vigarista corrupto chamado Alberto Fujimori? Se os holandeses fossem inteligentes, punham a Rineke Dijkstra à frente de um partido e faziam-na Primeira-Ministra. Talvez nessa altura eu deixasse de encontrar razão nas invectivas do Padre António Vieira.

M. V. M.

Ren Hang (1987-2017)

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Acontece-me com a fotografia o mesmo que com a literatura: sinto uma necessidade tão grande de estruturar os meus conhecimentos que não quero conhecer os contemporâneos sem antes me familiarizar com os clássicos. O que existe agora é o culminar do que se fez antes; há uma evolução, decerto caracterizada por rupturas e ciclos, mas não deixa de ser importante – pelo menos para mim – compreender até que ponto a evolução da arte determinou a produção actual.

O problema de pensar assim é que o passado é tão vasto que exige uma vida inteira para ser conhecido – e mesmo esta dedicação não chega senão para conhecer uma parte do que foi feito. Resta-me, pois, orientar-me segundo algumas referências para tentar compreender a arte, sempre com a consciência de que o meu conhecimento será sempre necessariamente superficial, incompleto e inconsistente. O que é uma pena, evidentemente, mas a vida que escolhi não é a do estudioso das artes.

Mesmo na fotografia, que é uma arte muito recente, pouco sei sobre os clássicos. Não por estes remontarem a um passado remoto e indocumentado, mas pela profusão que a fotografia possibilitou. Nunca conhecerei todas as fotografias de Alvin Langdon Coburn e de W. Eugene Smith. Contudo, sinto que, enquanto este conhecimento dos mestres do passado não estiver completo, não poderei compreender o presente. O que, evidentemente, obsta a que conheça bem os contemporâneos. Já li a Ilíada e a Odisseia, mas não conheço nada de Paul Auster; vi inúmeras fotografias de Henri Cartier-Bresson (mesmo em exposição), mas não consigo lembrar-me de uma só de Wolfgang Tillmans. Triste, não é?

Não surpreende, atento o facto de o tempo que dedico aos históricos não chegar para os contemporâneos, que a obra de Ren Hang me tivesse passado de todo despercebida até ler notícias sobre a sua morte, no dia 26 de Fevereiro, com apenas 29 anos. O que foi uma injustiça.

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As fotografias de Ren Hang não são grande coisa para uma comunidade obcecada pela técnica que exige sensores de médio formato nas suas compactas e se deixa maravilhar por artifícios técnicos superficiais: por exemplo, as fotografias nocturnas sofrem de excesso de iluminação do flash. Contudo, nada disto é importante. O que conta, nas fotografias de Ren Hang, é a enorme sensação de liberdade e beleza que delas exala. E é também a transgressão, claro. Os nus de Ren são integrais, impúdicos – mas são, sobretudo, naturais. Pelo menos quando se é jovem, porque os modelos são jovens, de corpos firmes e plenos de vida. Pela concepção de Ren, a nudez é comum a todas as pessoas. Qual o problema de mostrá-la, se é assim? Infelizmente, nem todos pensam tão saudavelmente e Ren Hang foi proscrito e censurado pelas autoridades chinesas (o que talvez lhes devamos agradecer, porque assim aumentaram a notoriedade do fotógrafo).

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Mas a transgressão das fotografias de Ren não é tão superficial que se circunscreva à nudez dos modelos: há também o facto de os modelos serem fotografados em cenários improváveis e serem frequentemente acompanhados de animais, sendo que, nas fotografias em que estes últimos figuram, Ren se empresta a jogos de sobreposições que nem sempre são bem sucedidos (na minha opinião, que é apenas a minha opinião). O resultado é que a obra de Ren Hang é uma das mais originais com que me deparei. E fez-me pena que ele tivesse morrido tão novo, com apenas 29 anos. Algumas das suas fotografias – aquelas em que os corpos moldam formas esculturais – fazem-me lembrar, com simpatia, uma das minhas fotografias favoritas de sempre, que tanto me fez reflectir sobre a arte contemporânea, a nudez e a beleza: refiro-me a Dois Nus Vistos de Trás, do mestre japonês Kishin Shinoyama.

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Apesar da vibração de vida, da pujança, da beleza e do sentido de humor estampados nas fotografias de Ren Hang, ele sofria crises de depressão que o levaram ao suicídio. Isto deixa-me a pensar: a depressão é um traço comum em muitas das mentes mais brilhantes e criativas. Não sei se será provocada pela incompreensão, pela dificuldade que alguém sensível tem em integrar-se num mundo frio e duro ou por outra razão qualquer – mas, seja o que for, é suficientemente forte para que se perca a força motriz que nos faz levantar de manhã com a coragem – e o prazer – de viver mais um dia. Como se, de repente, tudo tivesse perdido valor e deixado de valer a pena. Ou talvez seja por a sensibilidade fazer intuir com mais profundeza o absurdo da vida e a falsidade do mundo. Quem sabe?

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O que sei é que o mundo perdeu um grande fotógrafo. Felizmente, dele ficará a sua obra.

M. V. M.

Mais leituras (ou como a literatura pode mudar a maneira como fotografamos)

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Stefan Zweig

Alguns leitores poderão, porventura, interrogar-se por que surgem tão frequentemente, aqui no Número f/, textos que nada têm que ver com fotografia. Já escrevi aqui sobre música, literatura, política e mesmo alta fidelidade e automóveis, temas que não estão nem remotamente ligados à fotografia.

A razão é muito simples: este não é um blogue de fotografia como os outros. É o meu blogue e eu tenho outros interesses para além da fotografia. Contudo, este não é, em sentido estrito, um blogue pessoal; se fosse, ter-lhe-ia dado um nome que não estivesse tão intimamente relacionado com a técnica fotográfica. A minha opção por escrever e publicar textos fora do âmbito da fotografia é deliberada. Cada fotografia que o leitor faz – ou eu mesmo, evidentemente – carrega consigo muito do que o seu autor é. Cada fotografia incorpora o acervo de conhecimentos e experiências de vida do seu autor, mesmo que este fotografe casualmente e procure ser objectivo e textual. Mesmo quando imita, o fotógrafo está a mostrar algo de si, nem que seja que é uma pessoa limitada, sem imaginação e que gosta de seguir caminhos já trilhados e bem batidos.

Penso que é muito importante compreender o que acabei de expor. Se virmos bem a obra dos fotógrafos verdadeiramente bons, não temos como negar a influência da sua experiência de vida, das suas concepções sobre o mundo e da sua erudição. Numa palavra, a fotografia revela muito de cada um. Por vezes mais do que o desejado pelo autor.

Porque tenho esta concepção de que a fotografia contém em si tudo o que o seu autor é, parece-me muito natural que um blogue como este não se circunscreva à sua temática. Com efeito, quanto mais variado for o mundo do fotógrafo, maiores serão as possibilidades de a sua fotografia ser rica em significados.

Vamos, então, sem mais delongas, ao assunto que motivou esta longa tergiversação. Contei aos leitores que estive num outlet do livro, onde aproveitei para comprar algumas obras que me mereceram interesse. Uma delas foi Amok, do austríaco Stefan Zweig. Este autor ganhou uma reputação imerecida de ser um escritor de banalidades cujos livros, repletos de lugares-comuns, dificilmente merecem ser havidos como literatura. Com efeito, Zweig era imensamente popular no seu tempo, mas seria injusto pensar nele como o Nicholas Sparks do início do Século XX. Pelo menos na minha opinião, que é pouco fundada. Com efeito, apenas li três obras de Zweig – e uma delas é uma biografia –, o que não me autoriza a discorrer sobre ele.

Contudo, hoje aconteceu-me algo de singular que me atiçou a curiosidade por um autor que escreveu livros como Confusão de Sentimentos ou Segredo Ardente. Estava a ler Amok e notei que, apesar de o livro ainda não ir a meio, a narrativa aproximava-se rapidamente do seu desfecho. À medida que me aproximava do que se tornava óbvio que seria o final do conto, pensava como poderia Stefan Zweig ter prolongado o texto por todas aquelas páginas que faltavam. Percebi um pouco depois, quando atingi o fim de Amok (que, diga-se, é excelente), que, apesar de não haver qualquer menção disso na capa, o volume continha outra novela, esta intitulada Carta de Uma Desconhecida. Conhecendo a reputação de Stefan Zweig, imaginei que seria algo de xaroposo, mas predispus-me a ler sem preconceito.

Ainda bem que o fiz. Diante dos meus olhos, nestas páginas anacronicamente tipografadas – o meu exemplar de Amok é um fac-símile da 3.ª edição da Livraria Civilização, a qual foi lançada em 1942 – desenrolou-se, para minha enorme surpresa e incontida estupefacção, o mais belo conto de amor que alguma vez li. É um conto epistolar que narra a paixão de uma jovem mulher por um vizinho que teve na adolescência, um romancista abastado mas ainda jovem. A intensidade da paixão da jovem é contada de uma maneira tão bela e arrebatadora, tão plena de força e de sensibilidade, que me fez perceber de imediato que estava a ler uma obra de génio, escrita por alguém de intuição penetrante e sensibilidade romântica (romantismo, no sentido da corrente artística que caracterizou o Século XIX, é o predomínio da sensibilidade sobre a razão).

Será esta, porventura, uma leitura fácil, acessível a uma massa que se estende muito além do círculo restrito da intelectualidade; mas – e depois? Acaso não se passa o mesmo com o nosso Camilo e o Amor de Perdição? O amor e o romantismo são uma parte importante da vida. E, acreditem ou não, a sua presença nas nossas vidas vai ficar embebida nas nossas fotografias. Leiam Carta de Uma Desconhecida e deixem-se comover e arrebatar, mesmo que a sua leitura se venha a tornar no vosso pecadillo inconfessável. Vai ser bom para a vossa fotografia. Bem melhor do que saber as equações da equivalência será de certeza.

M. V. M.

Das regras

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retrato de Piet Mondrian por Arnold Newman

Eu não quero – não posso – envolver-me em debates com os leitores. Estes já fazem um grande favor em ler o que eu escrevo e merecem por isto a minha estima, mas há casos em que sinto necessidade de intervir. Como, por exemplo, quando nos comentários surge algo que pode ser mal interpretado, ou que não me parece suficientemente bem expressado.

Foi o que aconteceu quando li um comentário onde se dizia que «a regra da arte é não haver regras». Esta frase tem uma sonoridade muito ribombante, quase wildiana (no sentido em que poderia ter provindo da pena de Oscar Wilde, cujo gosto por hipérboles é por demais conhecido). Contudo, como todas as frases sonantes, incorre nos pecados da superficialidade e da ligeireza, não logrando ser inteiramente verdadeira.

A arte não é o vazio ou a inexistência de regras. Eu já escrevi no Número f/ sobre isto; disse, na altura, que «[nenhuma] arte é tão livre que dispense algumas regras. A música nunca se libertará das escalas e dos tons e a literatura nunca dispensará a gramática. Isto acontece porque a arte precisa de ser inteligível; precisa de se exprimir fora da mente do artista se este quiser que as suas obras sejam compreendidas por alguém para além dele mesmo. As regras servem esta inteligibilidade. Não podemos usar palavras desconexas para escrever um livro nem prescindir desse primo direito da matemática que é o solfejo para compor uma peça musical.»

Muitas pessoas poderiam ser levadas a interpretar a frase que o leitor Nuno Oliveira citou no sentido de as regras serem dispensáveis. O perigo de se pensar assim é que consigo imaginar uma multidão de gente a conjecturar que pode fazer o que muito bem entender por levar essa frase às últimas consequências: se a arte é a inexistência de regras, estas não são necessárias, pelo que estou dispensado sequer de conhecê-las. Nada podia ser mais vicioso que pensar assim. Voltando ao que escrevi, «é preciso entender as regras antes de se partir para uma linguagem que permita prescindir delas. Criar e inovar não é ignorar as regras: é contorná-las, desafiá-las e pô-las em questão a cada momento. Ora, isto implica conhecer e compreender as regras».

Decerto, fotografar (ou escrever, ou pintar ou compor) seguindo estritamente as regras pode produzir resultados extremamente medíocres – e, em geral, é precisamente isto que acontece –, mas é necessário entender que as regras não precedem a criação: as regras são uma síntese dos princípios que orientam a produção artística de uma determinada época. À semelhança, aliás, das normas jurídicas: estas são a consagração (o sancionamento) dos valores e princípios vigentes num determinado conjunto de circunstâncias históricas e sociais.

Com efeito, as regras existem por uma razão, e essa razão é a inteligibilidade. Tomemos o exemplo da regra dos terços: ela foi estabelecida em função da maneira como vemos as fotografias (e também com vista a conferir alguma dinâmica à imagem, acrescentando agradabilidade à inteligibilidade). Simplesmente, tal não quer dizer que só as fotografias em que o motivo figura num dos pontos em que as linhas que dividem o enquadramento se cruzam funcionem visualmente. É sempre possível fazer as coisas de outra maneira que não seja a prescrita pelas regras; a isto chama-se transgressão. De novo citando-me a mim mesmo (o que é um paroxismo de vaidade mas poupa-me tempo):

«Nenhuma regra está acima desta transgressão criadora. Todas elas podem ser subvertidas. Tomemos um exemplo: a linha do horizonte. Esta, segundo a tradição, deve situar-se a 1/3 ou 2/3 do enquadramento e deve estar direita. Contudo, tem mesmo de ser assim? E se me apetecer fazer um horizonte a meio, ou no fundo do enquadramento? E se eu quiser que surja descaído? (…)

Outro risco é o de esta frase («a regra da arte é não haver regras») ser usada para justificar o desconhecimento e as limitações de alguém. Imagino ser muito fácil a alguém, ao ver-se criticado por fazer uma fotografia desfocada ou mal enquadrada (por não saber fazer melhor), usar esta frase para se justificar. Como a ignorância anda muitas vezes de mãos dadas com a sobranceria, o uso desta citação como desculpa parece-me perfeitamente natural.

Se alguém não pretende fazer arte quando fotografa, escreve ou pinta, é avisado que conheça e use as regras. Caso não o faça, limitar-se-á a ser, não medíocre, mas mau. Só quando dominar a arte e as suas regras terá o direito de ultrapassar o patamar que essas regras têm por referência.

«Estas transgressões são válidas se obedecerem a duas condições. A primeira é a que se tenha consciência de que se está a transgredir. Desconhecer a regra implica que se desconheça também a transgressão; é, deste modo, fruto da ignorância. A outra condição é que sirva um propósito expressivo. Caso contrário não passará de uma fotografia mal executada e será vista por todos como tal.»

É necessário conhecer as regras antes de transgredir. Antes de mais, porque só assim sabemos que estamos a transgredir. Só assim a transgressão é intencional e pode fazer evoluir a arte. Desconhecer as regras não implica transgressão nenhuma: só ignorância. Daí que advogue algum cuidado com o uso de máximas, aforismos e hipérboles como esta.

M. V. M.

O meu bloco de notas

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Por Fred Herzog (obrigado, Nuno Oliveira!)

Ainda não disse tudo o que tinha a dizer acerca da exposição Eyes Wide Open. Como sabem, ontem fui à galeria da Biblioteca Almeida Garrett munido de um bloco de notas. Apesar de já conhecer alguns dos autores das fotografias expostas – de Otto Steinert a Robert Lebeck, de Cartier-Bresson a Paulo Nozolino, passando por Burri, Capa, Bischof, Salomon, Gilden, Sieff e muitos outros -, saí destas duas visitas com os meus conhecimentos substancialmente alargados.

Além dos mencionados, há aqueles fotógrafos que me eram mais ou menos desconhecidos e que já mencionei antes: Meyerowitz, Eggleston, Leiter, Inge Morath. Mas, para além de todos estes (e esquecendo aqueles que não me causaram uma impressão duradoura), houve outros, novos para mim, em cujas fotografias me detive demoradamente. São vinte e um nomes que ocupam duas páginas e meia do meu bloco de notas. São eles, pela ordem estabelecida por quem montou a exposição, Mehemed Fehmy Agha, Heinrich Heidersberger, Ilse Bing, Walter Vogel, Ulrich Mack, Lothar Rübelt, Ricard Terré, Sabine Weiss, Ramón Masats, Ara Güler, Fred Herzog, Saul Leiter, Paolo Roversi, Claude Dityvon, Rudi Meisel, Viktor Kolár e Bruce Davidson.

Depois há os portugueses, embora alguns possam ter reparado que já mencionei o Paulo Nozolino. Além de um senhor engravatado que escreveu uma carta a Ernst Leitz (em francês!) da qual uma cópia está exposta num dos mostruários, cujo nome me esqueci deliberadamente de anotar, e do grande Gérard Castello Lopes, anotei Carlos Calvet, Carlos Afonso Dias, Victor Palla e Jorge Guerra.

Não nos esqueçamos que esta lista foi elaborada a partir de uma exposição cujo denominador comum é o uso de material Leica. Porque há muitos outros que não usaram Leicas e nem por isso deixaram de ser grandes fotógrafos.

Esta foi uma exposição deveras interessante. Contudo, há uma exposição, porventura hipotética, cuja visita seria o corolário da minha vida de amador das coisas fotográficas: uma exposição da Magnum.  Seria como ver Nápoles: depois, poderia morrer. (Será que alguém da Magnum está a ler isto?)

M. V. M.

Lazy Sunday Afternoon

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1. Ontem, quando deixei aqui as minhas opiniões acerca do Agfa Vista, escrevi que a minha apreciação tinha de ser lida cum grano salis. Pois bem: hoje passei uma parte substancial da manhã a editar as digitalizações no computador, usando o DxO Optics 9. Já vamos às fotografias, mas para já devo acrescentar aqui que aproveitei o facto de a DxO ter estado a oferecer a versão 9 do programa de edição de imagem (que já vai na versão 11) para fazer um ligeiro upgrade, já que tinha a versão 8. As diferenças entre ambas as versões não são muitas – ao contrário do que notei quando evoluí da versão 7 para a 8 – e, sobretudo, este software continua a não reconhecer as digitalizações de negativos a preto-e-branco em formato TIFF. Não sei se a oferta ainda é válida, mas se for vale a pena descarregá-la e experimentar.

De volta ao Agfa Vista 400, dei por mim a fazer retoques mínimos, que incidiram sobretudo nas matizes vermelha, amarela, magenta e ciano que afectavam algumas fotografias. Curiosamente, em muitas preferi a apresentação anterior às correcções e regressei às versões originais. O Vista não é, afinal, assim tão mau. É pena o grão, mas as falhas que podem ser apontadas são perdoáveis se atendermos ao preço que custa cada rolo.

2. Voltei à exposição da Leica e, como prometido, levei um bloco de notas. Quis apontar nomes de fotógrafos que me interessaram e que ainda não conhecia. Não posso dizer que tive momentos de transcendência quando pesquisei a maioria desses nomes, mas alguns desses fotógrafos têm obra muito interessante. Dos vinte e um nomes que anotei, interessaram-me sobretudo os de Ricard Terré, Ramón Masats, Ara Güler, Paolo Roversi e Bruce Davidson. E, sobretudo, o de um fotógrafo que nos deixou neste ano de todas as mortes: Saul Leiter.

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Por Saul Leiter

Saul Leiter, como Joel Meyerowitz, foi um fotógrafo de rua que usou a cor. Isto interessou-me: como escrevi na semana passada, agora parece haver uma regra não escrita que obriga a fotografar na rua a preto-e-branco, mas o que é certo é que a vida é a cores. Tem-se abusado do preto-e-branco – e contra mim falo, porque tenho uma preferência pelo preto-e-branco e fotografar a cores é como falar uma língua estrangeira que não domino – ao ponto de se chegar ao extremo de a fotografia monocromática se tornar cliché. E nem é preciso ir aos grupos do facebook para perceber como este uso abusivo do preto-e-branco está a esvaziá-lo de interesse. Corremos o risco de um dia rejeitarmos fotografias de rua a preto-e-branco por nos parecerem banais.

Uma coisa é certa: a fotografia de rua ficou indelevelmente associada ao preto-e-branco. Deste modo, o emprego da cor na fotografia de rua tornou-se num desvio à norma, num acto de verdadeira subversão. E os mais subversivos dos fotógrafos são estes dois: Saul Leiter e Joel Meyerowitz. Eles aliam a narrativa dos pequenos episódios quotidianos ao elemento cor, que se torna proeminente na composição e domina visualmente a imagem. As cores de Leiter são fortes e saturadas, as de Meyerowitz mais subtis, mas há em ambos uma vontade de apreender a vida no que ela tem de vibrante e intenso, sem contudo abdicar da estética e do estilo.

3. Aposto que nem Leiter nem Meyerowitz ganharam daqueles prémios que premeiam fotografias vazias que vivem exclusivamente da técnica. Como o Travel Photographer Of The Year, por exemplo. Este ano o nosso Joel Santos ganhou vários prémios, com as fotografias fastidiosamente editadas e normalmente vácuas e frívolas que caracterizam o seu estilo, mas houve uma que posso considerar brilhante, que é esta:

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Curiosamente, foi feita com um drone. Deveria abominá-la só por isso, ou por não apreciar o seu autor? Com certeza que não. Esta fotografia é extremamente interessante e o seu autor está de parabéns.

4. Já que me refiro a um português, pesquisem este nome: Victor Palla. Foi sobretudo um designer gráfico, mas também um fotógrafo de excepção. Um dos poucos portugueses expostos na Eyes Wide Open.

M. V. M.

Temporalidade

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Há uma questão, na criação artística (não exclusiva da fotografia), a que ainda não me referi, mas a leitura de uma passagem de Os Moedeiros Falsos, de André Gide, impeliu-me a fazê-lo agora: tem que ver com a temporalidade das obras.

O trecho de Gide, na tradução de Isabel St. Aubyn, é o seguinte:

«O que mais depressa parecerá velho é o que inicialmente mais moderno se apresentar. (…) Pouco lhe importa o futuro. É à geração actual que se dirige (o que é preferível, sem dúvida, a dirigir-se à de ontem) – mas como só se dirige a essa, o que escreve corre o risco de perecer com ela.»

Penso que isto é tanto mais verdade quanto mais acelerado é o progresso. Escrever – ou fotografar – o presente pode ajudar a documentar a época actual, mas terá sempre o inconveniente de parecer irremediavelmente datado no futuro. Evidentemente, se estamos a escrever um artigo sobre um acontecimento presente, ou a fotografá-lo, o artigo e a fotografia serão documentos que, dependendo da importância do assunto, poderão acrescer ao acervo da história; mas o que acontece com obras cujo propósito não seja descrever o presente?

Basta, para termos uma ideia desta transitoriedade, ler obras de ficção como, por exemplo, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Embora, no essencial, a mensagem seja actual, a prognose que Huxley fez das tecnologias do futuro é hoje risível: este é um bom exemplo de a ficção ser ultrapassada pela realidade. Mais flagrante ainda é a profusão de filmes que têm por tema a internet, as redes sociais e outros assuntos com uma vertente tecnológica acentuada: estas «obras» estão condenadas ao ridículo. Dentro de trinta anos será embaraçoso vê-las, de tão datadas.

A arte existe porque a essência do ser humano é intemporal. As emoções humanas são hoje as mesmas que no tempo de William Shakespeare. O que muda é as circunstâncias. A arte consiste em tratar esta essência humana de uma forma que ninguém experimentara antes. O resto não é importante: centrar demasiada atenção no que é efémero tem, invariavelmente, o resultado de as obras produzidas se tornarem datadas ao fim de pouco tempo.

Penso, deste modo, que a arte deve aspirar à intemporalidade. Deve, para isto, ser despida de todas as distracções e centrar-se no que verdadeiramente importa, no que nunca muda. O amor pode ser escrito de milhares de maneiras, porque nunca mudará. A poesia é o melhor exemplo disto mesmo: uma cantiga de amor do Século XV versa as mesmas emoções que os poetas de hoje tentam transmitir. É daqui que advém a sua intemporalidade.

Senhora, partem tam tristes
Meus olhos por vós, meu bem,
Que nunca tam tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

Estes versos, descontada a anacronia do grafismo de algumas palavras, podiam ter sido escritos hoje, mas foram escritos por João Roiz de Castelo-Branco no Século XV. Estes versos nunca morrerão, nunca passarão de moda, nunca serão esquecidos: são intemporais porque tratam um tema intemporal. O mesmo na música: parece-me não carecer de qualquer discussão que os nossos tetranetos – se forem educados para tanto – continuarão a ouvir Beethoven e Bruckner, mas serão poupados a saber quem foram os Dire Straits.

Tudo isto se aplica à fotografia. Mesmo num domínio altamente estratificado como a fotografia de autor, há fotografias que surgem hoje irremediavelmente datadas. Servirão, quando muito, de testemunho histórico. Isto acontece porque os respectivos fotógrafos, ao lugar de se preocuparem com o essencial, se ocupam com o que é secundário, com o acessório. A fotografia artística não tem nada que se preocupar com relatar o presente: essa é tarefa dos fotojornalistas (aos quais, porém, não fica nada mal usar intenções criativas).  Mesmo se, por ter invariavelmente por referência objectos reais, a fotografia usa motivos actuais, ela nunca perderá actualidade se o seu autor souber exprimir algo que seja intemporal.

Isto veio a propósito de André Gide, mas é uma questão que me tinha surgido em Julho, quando tive por bem fazer fotografias de jogadores de Pokémon Go (espero que ainda haja alguém que se lembre do que isto foi). Um pensamento que me ocorreu – a mim, que não me rotulo de artista – foi este: que valor terão estas fotografias daqui a dois anos? Já posso dar a resposta: nenhum. Estas são fotografias que serão miseravelmente esquecidas: o seu interesse morreu em concomitância com o jogo mais parvo de todos os tempos. (E quem se quer lembrar do jogo mais parvo de todos os tempos?)

M. V. M.