Agfa Vista 200 (mas antes, um acréscimo ao texto anterior)

No texto sobre a OM-1 omiti uma vantagem em relação à OM-2: a primeira tem um comando que bloqueia o espelho. Isto é útil em exposições longas, quando a mínima vibração – como a provocada pelo impacto do espelho no momento do disparo – pode interferir com a nitidez. Não sei por que razão a OM-2 não tem esta função, mas também devo dizer que, nas exposições longas que fiz com a minha máquina, nunca tive problemas de falta de nitidez causada pelo impacto do espelho. Mirror lock is overrated.

***

Os meus leitores já sabem que voltei a fotografar a cores, depois de mais de três anos em que as minhas únicas fugas ao preto-e-branco se resumiram a algumas experiências com película colorida. Nenhuma destas experiências me deu resultados satisfatórios até ao dia em que resolvi experimentar um rolo que, por causa da matiz vermelha de que me apercebera em muitas das fotografias que consultei na internet, havia decidido nunca usar. Este rolo, como sabem, é o Agfa Vista.

Apesar de a matiz vermelha existir, não é um problema tão grave quanto supus. Mais: de todas as películas coloridas que experimentei, a Agfa é a única com a qual consegui resultados consistentes em condições diferentes de iluminação. As cores são sempre razoavelmente precisas, quer fotografe ao sol ou debaixo da luz ténue das estações subterrâneas do Metro. Nenhum outro rolo – mesmo aqueles cuja qualidade é notoriamente superior à do humilde Agfa Vista – me ofereceu esta consistência: os que resultam bem com luz solar, como o Kodak Portra 160, são um desastre com luz artificial. E os que mantêm a precisão das cores na fotografia nocturna são berrantes e erráticos quando usados ao sol.

As películas 135 de alta sensibilidade como são as ASA 400 – eu sei que isto parece anedótico numa era em que os valores ISO das câmaras digitais se escrevem com sete algarismos – têm, como não é novidade, um grão muito pronunciado. O Agfa Vista não é, evidentemente, excepção. E as digitalizações não fazem absolutamente nada para disfarçar o aspecto pouco límpido que o grão dá às fotografias.

Isto lembrou-me que, de facto, não sou um homem de altas sensibilidades: estão a ler um blogue que, na sua incarnação anterior, se chamava «ISO 100». (Querem melhor prova?) Até agora apenas havia experimentado a versão ASA 400 do Agfa Vista. Recentemente, porém, tive a oportunidade de usar a versão ASA 200. Como seria porventura de prever, o grão é menos abundante, mas nem por isso deixa de estar presente e também não é lá muito límpido. Em comparação com a versão mais sensível, o Vista 200 é praticamente idêntico na apresentação das cores, pelo que não vale a pena acrescentar muito ao que já escrevi sobre o assunto. Contudo, parece-me – ainda estou para confirmá-lo com histogramas – que, além da matiz vermelha característica do Vista 400, há também uma abundância relativa de cianos.

Nada disto, porém, é suficiente para me afastar dos Agfa Vista. Esta continua a ser a película a cores mais homogénea e consistente que conheço, com o bónus de ser barata. Pormenor interessante: um dos reparos que li na internet é que, por causa dos vermelhos, a Agfa Vista é uma película inadequada para retratos, já que falseia a cor da pele. Curiosamente, não notei nada disto. Pelo contrário, os tons de pele parecem-me bastante verosímeis.

Acima de tudo, as Agfa Vista são as únicas películas que me dão o tipo de saturação das cores que quero: nem demasiado vívidas, nem particularmente desmaiadas (como agora parece ser moda na internet). Esta combinação de consistência e agradabilidade faz com que, a despeito das suas falhas, estas Agfa Vista sejam as películas que mais se adequam ao que quero fazer da minha fotografia. E agora tenho uma alternativa quando me apetecer usar aberturas maiores. Nada mau.

M. V. M.

O meu novo dilema

A imagem com que ilustrei o texto de ontem – a minha fotografia, não a de Fred Herzog – não dá senão uma pálida ideia do que ali referi sobre a nova dimensão que a cor acrescenta às fotografias ditas de rua. Podia ter escolhido outra, que ilustrasse melhor os benefícios da cor, mas não o fiz. Por uma razão: é que aquela ilustração é exemplificativa do tipo de fotografia que teria feito se estivesse a usar o preto-e-branco. Como o texto tentou ser acerca da possibilidade de fazer fotografia dita de rua a cores, a ilustração pareceu-me adequada: quando faço fotografia nas ruas, gosto daquele tipo de cenário todo bem compostinho e cheio de simetrias e geometrias. O facto de esta fotografia ser a cores não retira nada à estética.

Por outro lado, tem-me passado pela cabeça uma ideia que pode ser disparatada, mas não deixa de ter a sua racionalidade. Uma possibilidade que tenho é converter digitalizações de fotogramas a cores para preto-e-branco. Eu sei que alguns podem pensar que é sacrilégio converter fotografias analógicas a cores para preto-e-branco, mas se pensarmos bem o mal de raiz já está feito e não é a conversão: é o que foi feito antes – a digitalização. Ora, se estou diante de uma imagem digital, que me impede de convertê-la para monocromático?

Sinto-me cada vez menos preconceituoso – e, o que é o mesmo, mais aberto – em relação à edição de imagem. Quando o negativo é digitalizado, torna-se numa imagem digital. Assim sendo, por que não havia de tirar partido dos instrumentos que a fotografia digital trouxe? Uma grande parte das fotografias a cores que publico no Flickr teriam muito pior aspecto se eu as mostrasse tal como o scanner as deixou. Especialmente no caso das fotografias feitas com o Fujifilm Superia, que deixa todas as imagens com um tingimento verde que é difícil de suportar. O tingimento vermelho do Agfa Vista é muito mais benéfico, embora também seja capaz de produzir resultados indesejáveis. Seja como for, não vejo qualquer problema em editar imagens a partir de digitalizações de negativos.

Claro que isto levanta uma questão que, por esta altura, o leitor dotado de um mínimo de perspicácia já terá formulado: se é assim, não seria melhor usar uma câmara digital? Esta questão é extremamente pertinente, mas soçobra por duas razões. A primeira é que as imagens a cores feitas com película têm mais latitude que as digitais. É muito simples: com os rolos nunca tenho altas luzes estouradas nem sombras excessivas (a menos que falhe por completo a exposição, o que quase nunca me acontece). A segunda razão, e a mais importante, é que não há nenhuma câmara, nem nenhum programa de processamento de imagem, que seja capaz de simular o efeito de uma fotografia analógica a preto-e-branco. Quando inventarem uma câmara com sensores intermutáveis, sendo um deles o da Leica Monochrom e o outro o da Nikon D5, terão criado a câmara digital perfeita, mas por enquanto esse monstro de Frankenstein não existe.

Sendo assim, será que converter digitalizações a cores para preto-e-branco é boa ideia? Para tentar preservar um mínimo de pureza analógica, usei o célebre comando do Photoshop CS Image → Mode → Grayscale com a fotografia do texto de ontem.

O resultado é decepcionante. Mostra, em primeiro lugar, um facto importante: as fotografias a preto-e-branco precisam de uma nitidez de que o Agfa Vista não é capaz. Mas também se vê que os contrastes não são idênticos àqueles que consigo quando uso películas muito contrastadas, como as Ilford FP4 e Pan F. Meh – até as de alta sensibilidade, como a Tri-X, saem melhor que isto. Esta imagem não é verosímil enquanto fotografia analógica a preto-e-branco: tem a palavra «digital» espalhada em toda a sua superfície.

O que me deixa num dilema: estou a gostar demasiado de explorar a cor, mas não vou, de maneira nenhuma, renegar o preto-e-branco. Tal como não tenho de desaprender a minha língua pátria quando falo ou escrevo em inglês, também não preciso de excluir o preto-e-branco das minhas fotografias. A possibilidade de comprar um segundo corpo OM para fotografar exclusivamente a preto-e-branco começa a ganhar foros de inevitabilidade.

M. V. M.

Cores. Cores. A vida é a cores

Ontem recebi, via Dropbox, as digitalizações de mais um rolo a cores. Desta vez foi um Agfa Vista 400, rolo ao qual perdoo uma ligeira falta de acutância e um tingimento vermelho acentuado por fazer tudo o resto tão bem, por tão pouco dinheiro. Podia ficar mais satisfeito com o 160NS, ou com o 400H, ambos da Fujifilm, mas estes rolos custam os olhos da cara. O seu uso justifica-se num contexto profissional – apesar de ser discutível o uso de película 135 para fins profissionais, evidentemente.

Adiante, que não é sobre rolos que quero escrever. Eu não tinha grandes expectativas quanto às exposições deste último rolo. Fiz fotografias naquele estilo a que se pode chamar «de rua», dentro do que costumava fazer quando usava os meus Ilford FP4, e, como imaginava que tais fotografias não iam resultar muito bem a cores, calculei que teria sido um desperdício de tempo e dinheiro.

Estava enganado. As fotografias que fiz são inteiramente válidas – pelo menos segundo os meus próprios critérios, e a despeito de poder considerá-las péssimas daqui a uma semana –, mesmo sendo a cores. Vou mais longe: a cor atribui-lhes uma dimensão suplementar, um interesse extra em relação a imagens semelhantes a preto-e-branco.

Isto faz-me pensar se não terei perdido demasiado tempo ao fotografar quase exclusivamente a preto-e-branco durante mais de três anos. Vendo bem, foi tudo uma questão de moda: habituei-me a ver fotografias a preto-e-branco e limitei-me a aderir à moda. Foi um erro: em lugar de procurar exprimir-me pelos meus próprios meios, preferi o conforto de seguir o que os outros faziam.

Foi um disparate, embora justificado pela verdura e ignorância. Como só conhecia fotografia de rua a preto-e-branco, não imaginava que fosse possível fazê-la de outra maneira. O que mudou tudo, fazendo-me fotografar a cores? Dois factores, por ordem crescente de importância. O primeiro foi ter encontrado uma película capaz de resultados consistentes sob todas as condições de luz. Isto foi essencial – tanto que agora me parece que não fotografava tanto a cores por as películas que experimentei não me terem deixado satisfeito. O segundo foi ter-me familiarizado com um triunvirato de fotógrafos de rua que utilizaram a cor de maneira excepcional: Fred Herzog, Saul Leitner e Joel Meyerowitz.

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Fred Herzog, “Main Barber”

O que eu gosto, nas fotografias de Herzog, Leiter e Meyerowitz, é elas provarem que a fotografia de rua não tem necessariamente de ser a preto-e-branco. Olho para aquelas fotografias, e está lá tudo o que define a fotografia de rua: as pequenas histórias do quotidiano, os sinais da vida urbana, a estética, a composição – e, evidentemente, as cores. E são fotografias que funcionam.

A fotografia de rua tornou-se muito cliché. Tem apenas que ver com a estética, composta de contrastes exagerados e do omnipresente preto-e-branco, e acontece, invariavelmente, em cenários nos quais a presença de uma pessoa é um mero pretexto para a aposição do rótulo de «fotografia de rua». Sim, ainda há fotografias de rua em preto-e-branco maravilhosas, mas a vida é a cores. Foi William Albert Allard quem disse “Eu vejo a cores”. Tenho razões para crer que não estava apenas a declarar que não era daltónico.

Fred Herzog, Saul Leiter e Joel Meyerowitz mostraram-me que é possível uma abordagem diferente para a fotografia de rua. Foi uma verdadeira revelação. Antes, já me tinha deixado fascinar pelo uso que Harry Gruyaert e William Albert Allard fazem da cor, mas estes dois não são fotógrafos de rua – mesmo que, ocasionalmente, tenham feito fotografias que caem dentro dessa definição. Foram Herzog, Leiter e Meyerowitz quem levou a cor para a fotografia de rua. Ainda bem que eles – ou a sua obra, já que Saul Leiter morreu em 2016 – existem: libertaram-me de um espartilho.

No Sábado perguntaram-me quando ia voltar ao preto-e-branco. Isto que estou a fazer não é um mero flirt com as cores, como fiz quando experimentei os Kodak Ektar e Gold e o Ferrania Solaris. Vou certamente voltar a usar rolos de preto-e-branco, mas não com a quase exclusividade com que o fiz até há pouco. Não quero estar limitado a um estilo ou a uma estética.

M. V. M.

Certezas e dúvidas

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Há um ano, por esta altura, tinha duas certezas e uma incerteza. Estava convicto de que a minha linguagem fotográfica era o preto-e-branco e de que a única película que valia a pena usar era a Ilford FP4. A minha dúvida era qual película havia de usar quando quisesse fotografar a cores, nas raríssimas ocasiões em que tal me apetecesse.

Hoje as certezas estão um pouco mitigadas. Tenho retirado tanta satisfação das fotografias mais recentes, todas elas a cores, que a certeza de que a minha linguagem é o preto-e-branco está agora severamente abalada. Não é que tenha deixado de apreciar o preto-e-branco; é mais por, como o nosso ex-Presidente Jorge Sampaio podia ter dito, haver vida para além do preto-e-branco. O preto-e-branco não se tornou subitamente detestável, nem a cor uma musa inspiradora; o que se deu em mim foi apenas a descoberta de que é possível fotografar com películas a cores com resultados muito satisfatórios – o que ainda não havia aprendido por ter usado películas que não convinham a todas as condições de iluminação com que normalmente fotografo.

Antes de me referir ao que me levou a redescobrir a satisfação das cores, uma palavra quanto à película a preto-e-branco que considerei – e provavelmente ainda considero – a melhor que existe à superfície da terra: sim, os Ilford FP4 são os melhores rolos 135 que existem. Em termos estritamente subjectivos, porém, dei comigo a extrair grande prazer do Kentmere 400. Embora ainda me falte experimentar o Kentmere 100, que é aquele com o qual as comparações relativamente ao FP4 são válidas, os Kentmere podem muito bem ser o negócio do século para quem expõe película a preto-e-branco.

As minhas experiências com cores foram, até aos últimos meses do ano passado, deveras frustrantes: dos rolos que havia experimentado até então, uns eram deliberadamente maus, outros só resultavam bem debaixo de certas condições de luz e outros ainda eram de tal maneira garridos ou granulosos (ou ambos) que não me serviam. Esta insatisfação com as películas a cores contribuiu decisivamente para me levar a centrar a minha fotografia no preto-e-branco (embora o grosso das fotografias que fiz antes de ter a OM-2 fosse já monocromática). Isto durou até ao dia em que resolvi deixar de lado algumas preconcepções e experimentei uma película que sempre me havia parecido medíocre: a Agfa Vista.

Devo dizer que não foi só a película que me determinou a fotografar de novo a cores: foi também, e sobretudo, o conhecimento da obra de fotógrafos como William Albert Allard, Harry Gruyaert, Joel Meyerowitz, Saul Leiter e Fred Herzog. Com os três últimos, descobri que se pode fazer fotografia de rua a cores – e, com isto, livrei-me de uma maneira de fotografar que se está a tornar estafada.

Houve, portanto, uma inversão nas minhas certezas e dúvidas. Agora tenho dúvidas quanto à minha forma de expressão preferida e à película predilecta para a obter, mas ganhei, em contrapartida, uma certeza: os rolos que quero usar, quando fotografo a cores, são os Agfa Vista. A minha breve experiência com o Fujifilm X-Tra 400 apenas serviu para confirmar esta minha preferência. Não, a Agfa não é a película perfeita, mas tem inúmeras virtudes: a descrição das cores, a despeito da intromissão de algumas matizes espúrias, é muito natural; e tem consideravelmente menos grão que o Fujifilm. É uma película que se comporta bem em praticamente todas as condições de iluminação, dando bons resultados nas sombras.

E é barato. O único rolo que me deu melhores resultados foi o muito caro Kodak Portra 160, e mesmo assim este último não é muito bom para fotografar com luz escassa. O humilde Agfa Vista é mais versátil. Apesar de a matiz magenta que afecta algumas fotografias me ir obrigar a recorrer à edição de imagem com mais frequência do que seria desejável, penso que esta é uma contrapartida modesta para o enorme benefício que é poder fotografar em qualquer lugar, independentemente de a luz ser artificial ou natural, de fazer sol ou estar à sombra.

M. V. M.

Fuji Superia X-Tra 400

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Nem de propósito: eu a publicar um texto altamente sarcástico sobre a Fujifilm e as digitalizações do rolo Fujifilm Superia X-Tra 400 a chegar via Dropbox, pela mão do inestimável Raúl Sá Dantas. Como já devem ter percebido pela comparação entre as duas circunstâncias, não tenho muito de bom a dizer da película que expus. Também não tenho nada de terrivelmente mau a relatar, na verdade, mas as minhas objecções são suficientes para rejeitar o X-Tra 400.

Lembram-se do que escrevi acerca do Agfa Vista 400? Pois bem: todas as características deste último estão presentes no Fujifilm. Os desvios das matizes são praticamente os mesmos e a aparência da imagem é, no geral, muito idêntica. Isto não é surpresa nenhuma, porque sabemos que a película Agfa é feita pela Fujifilm, mas existe uma diferença – há mais, mas são subtis – que me intriga: o grão. As fotografias que fiz com os Agfa são muito granulosas, como provavelmente seria de esperar de uma película ASA 400, mas o grão deste Fujifilm é horrível. A imagem ganha um aspecto grosseiro, sem sofisticação de qualquer espécie (não que o Agfa Vista seja muito límpido e sofisticado, mas fica a ganhar na comparação). Péssimo.

O Agfa e o Fuji partilham o tingimento vermelho que resulta muito bem com objectos nos quais essa cor é bastante viva, mas interfere com outras matizes (especialmente com os amarelos) de uma maneira que nem sempre é positiva. Por exemplo, a areia fica parecida com terra. Depois há os famosos verdes da Fujifilm. É simples – os verdes do Superia X-Tra são excelentes. Hélas, são, juntamente com os vermelhos, os únicos tons em que esta película pode ser considerada precisa. O problema é que o entusiasmo da Fujifilm pelos verdes faz com que estes tons invadam motivos iluminados artificialmente. O que resulta muito bem em alguns ambientes, mas não em todos, Naqueles em que resulta bem, contudo, resulta mesmo muito bem, dando à imagem uma atmosfera muito cool.

Simplesmente, a Fujifilm Superia X-Tra 400 não tem nada que a destaque da Agfa Vista. Pelo contrário, adiciona-lhe um tingimento verde espúrio e um grão insuportável. Os rolos Fujifilm são mais caros que os Agfa – embora não muito –, mas não fazem melhor. A escolha entre os dois é muito óbvia: entre dois rolos de qualidade praticamente igual, mas em que um deles é marginalmente pior e mais caro, não vejo onde está a dificuldade na escolha.

Contudo, importa dizer que o Superia X-Tra é muito melhor que o Superia normal, que foi o primeiro rolo a cores que experimentei. O Superia 200 transformava os vermelhos em magentas e alguns azuis em cianos (o que fazia com que o mar parecesse uma piscina gigantesca). Neste particular, se o amador da fotografia estiver irremediavelmente amarrado à Fujifilm e não estiver disposto a pagar o preço do 160 NS e do Pro 400 H, nem quiser reduzir os seus padrões de qualidade usando o Superia standard, o X-Tra é o melhor rolo existente no mercado. A questão é que há escolhas fora do Planeta Fujifilm, e uma delas é tão boa ou melhor e mais barata (refiro-me, evidentemente, ao Agfa Vista).

Penso que esta experiência me ajudou a assentar numa película a cores. Apesar de gostar de experiências, não passo sem ter um ponto de referência, como o marujo que passa a vida a viajar mas tem sempre um porto de abrigo para onde gosta de voltar. (Eu sei que esta metáfora é pirosa, mas são 23h38 e eu tive um longo dia.) No preto-e-branco, esse porto de abrigo ao qual retorno sempre é o Ilford FP4; na cor, será provavelmente o Agfa Vista. Não, não é perfeito – mas é versátil: as cores são razoavelmente correctas de dia e aguentam-se muito bem à noite (ao contrário do Kodak Portra, que custa quase o dobro do preço). Os meus próximos rolos a cores vão ser os Agfa (mas vou ficar dia e noite a matutar como o fabricante de uma película produz artigos de mais qualidade para os outros do que para si mesmo).

M. V. M.

A morte saiu à rua num dia assim

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Mário Soares pelo grande Alfredo Cunha

Este texto também é sobre fotografia, mas primeiro o mais importante. Ontem morreu Mário Soares. Como já foi dito tudo sobre ele, apenas escrevo que ele foi o pai da nossa democracia. Soares tornou-se numa espécie de figura paterna de quase todos os portugueses, com excepção de alguns ressentidos que, por a sua mente não conseguir abarcar o mundo e a realidade destes dias, vivem presos a um passado distante do qual nem sequer se recordam com precisão. Eu sou um dos que via em Soares uma figura paterna: foi o pai da democracia, da liberdade e da integração na Europa. Mário Soares era um colosso, um gigante da intelectualidade, com as suas três licenciaturas (em Filosofia, História e Direito) – e um dos últimos estadistas portugueses. Quando Adriano Moreira e Freitas do Amaral nos deixarem, não restará senão uma chusma de medíocres cujo nome a história bem cedo apagará.

Hoje de manhã soube da morte de Guilherme Pinto, antigo presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, que tive oportunidade de conhecer in persona. Literalmente, com palavrões e conversas informais e tudo. Era, mais que um político, um ser humano. O seu último gesto público deu-nos a medida da sua dignidade e grandeza: renunciou ao cargo de presidente da câmara uma semana antes de morrer.

E, ao almoço, chegou-me a notícia da morte do Professor Daniel Serrão. Apesar de não concordar com as posições que o seu catolicismo arreigado lhe determinou, e que defendeu estrenuamente enquanto presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, devo reconhecer a maneira serena como sempre participou nas discussões públicas.

O Professor Daniel Serrão morreu em consequência de complicações com origem num traumatismo craniano sofrido num atropelamento. Foi atropelado em 2014, numa passadeira, na rua onde morava. Não consigo conceber maior ignomínia, entre os condutores, do que atropelar um peão numa passadeira. É o epítome da ausência de civismo e da alarvidade do condutor português. E levou à morte um homem da grandeza do Professor Daniel Serrão. Revoltante.

Uma vez conheci o seu neto Filipe. Foi um episódio insignificante – ele tinha cerca de onze anos –, mas, no final de uma conversa breve, disse-me algo que, por me ter tocado tão fundo, me levou a responder-lhe com estas palavras: «Tu és um rapaz com cabeça e, sobretudo, com bons princípios. Continua assim». De facto, o mundo precisa de pessoas como ele. E como o avô, que terá tido uma quota-parte substancial na formação de um ser humano genuinamente bom.

Agora já posso votar a minha atenção para coisas insignificantes. Ontem entretive-me a processar as digitalizações do segundo rolo Agfa Vista que expus. Usei o DxO Optics 9, graças a um upgrade gratuito que a DxO resolveu oferecer. A versão 9 tem um algoritmo de redução do ruído muito sofisticado, mostrando, numa pequena janela, a ampliação a 100% de uma porção da imagem.

Ver esse pedacinho da fotografia ampliado confrontou-me de novo com a realidade de que o formato 135 não tem um nível de qualidade suficiente. Se, a esta falta natural de definição (à qual nem as lentes Zuiko podem acudir), somarmos o grão de uma película 400 ASA, temos por resultado uma qualidade equiparável a uma câmara digital com sensor pequeno.

Talvez seja o Agfa Vista que é muito fraquinho – ou melhor: a culpa é da Fujifilm, que fabrica esta película – e outros rolos tenham melhor qualidade, mas não gostei nada do que vi. Contudo, como nada é inteiramente mau – ou, pelo menos, tão mau que não haja algo que se aproveite –, descobri o seguinte: os tons de pele que o Agfa Vista descreve são simplesmente perfeitos. Qualquer alteração no HSL, por ínfima que seja, destrói de imediato o equilíbrio que faz deste rolo uma opção excelente para retratos. Desde que se acerte com a iluminação e a exposição, o Agfa Vista é capaz de uma veracidade na descrição dos tons de pele que envergonha o Kodak Portra 160.

O que me aproximou um pouco mais de me decidir por esta película como a minha favorita para fotografar a cores. Apesar de ainda precisar de ver o que o Fuji Superia X-Tra consegue fazer, o Agfa tem um equilíbrio entre defeitos e virtudes, e entre preço e qualidade geral, que o torna numa boa opção. Claro que não é uma película de slides, ou de médio formato – mas a qualidade de imagem não pode ser o único critério. De que me serve uma fotografia isenta de grão e com contornos imensamente bem definidos, se a pele de uma pessoa surgir azulada?

M. V. M.

Factor X

Resultado de imagem para fujifilm superia x-tra 400Como sabemos, a Fujifilm tem uma obsessão pela letra “X”. A despeito de esta antepenúltima letra do alfabeto poder ser usada como incógnita – e o mundo empresarial não costuma gostar do desconhecido –, a Fuji usa-a prolificamente. Ele é a Fuji X-100, X-Pro, X-T, X-A, X-E… e todas, excepto a X-100, com a baioneta – adivinharam! – “X”. Até na nova câmara de médio formato conseguiram meter um “X”, chamando-lhe GFX. E, como seria mais ou menos previsível, a tecnologia do sensor que é a menina dos olhos da Fuji chama-se X-Trans.

Por alguma razão, a letra “X” é usada frequentemente como sinal de desenvolvimento e sofisticação tecnológicos. Talvez por causa do acrónimo XPTO, tão abundantemente utilizado nos filmes de animação, que designa «experimental». Ou por outra razão qualquer. Até nos automóveis é assim: a Citroën teve uma fase em que todos os seus modelos tinham um “X” (AX, BX, CX, XM, ZX, Xantia). E não esqueçamos o Castrol GTX.

Esta predilecção da Fuji pela letas “X” é conhecida da maioria dos leitores. O que muitos poderão não saber é que esta mania já vem dos tempos da película, uma vez que a Fuji fabricava (e ainda fabrica, como veremos daqui a pouco) películas denominadas X-Tra. Aparentemente, o X-Tra (nada que ver com o árbitro de futebol português Carlos X-Tra) denomina uma quarta camada de cor, sensível à tonalidade ciano, mas a própria Fuji não fornece muita informação acerca desta tecnologia.

Tudo isto só para dizer que começo o ano de 2017 experimentando uma nova película, que é, como os leitores mais perspicazes já terão certamente adivinhado, da Fujifilm. Não é um dos caríssimos 160NS ou 400H, nem os slides Velvia ou Provia, mas também não é o péssimo Superia 200, que experimentei uma vez e não gostei: converte os vermelhos em magentas. O rolo em questão é o Fujifilm Superia X-Tra 400. Decidi experimentá-lo porque não posso dizer que tenha ficado inteiramente satisfeito com o Agfa Vista, pelo que a minha demanda pela película a cores ideal ainda não acabou.

O que eu procuro, numa película a cores, é provavelmente uma utopia: quero que mantenha a acuidade dos tons debaixo de circunstâncias de iluminação difíceis, sem comprometer o equilíbrio das cores sob luz do dia; e quero cores que, não sendo mortiças, sejam discretas, não incorrendo em exageros de saturação. Sejam quais forem as condições de luz. O Kodak Portra 160 foi o que melhores resultados me deu com luz natural, mas nas exposições longas as cores tornam-se antiquadas e desagradáveis. O Kodak Ektar 100 é exactamente o oposto. Rolos como o Kodak Gold 200 e o Ferrania Solaris divertiram-me, mas não é aquelas cores garridas o que eu quero verdadeiramente.

O Agfa Vista, apesar do seu grão excessivo e de não ser muito preciso na descrição dos verdes e dos vermelhos, é o rolo que até hoje se aproximou mais do equilíbrio que pretendo; mas, se é verdade que resulta bem no geral, e que algumas das fotografias que fiz com ele ficaram surpreendentemente boas, as suas limitações são evidentes. Daí que não tenha dado a minha procura por concluída. Contudo, se este Fuji X-Tra não me der resultados melhores, o Agfa poderá tornar-se no meu rolo a cores de eleição. É certo que as cores precisarão de uns retoques no programa de edição de imagem, o que de certa maneira desafia o que se pretende de uma película, mas terá de servir.

Não espero muitas diferenças na qualidade geral entre o X-Tra e o Agfa, uma vez que é a Fujifilm que fabrica este último; mas penso poder esperar uma apresentação das cores melhor. Afinal, uma das cores em que o Agfa falha – o verde – é aquela que se considera ser o ponto forte da Fujifilm. Até o Superia 200, que é de resto muito fraquinho, mostra uns verdes excelentes. Mas por enquanto, o desempenho do Fuji Superia X-Tra é uma incógnita (see what I did here?).

M. V. M.