As minhas depressões

Ainda estou sob o efeito de um acontecimento traumático: na Quinta-feira à noite, não sei porquê, deu-me na telha ouvir um dos álbuns de Jazz mais reputados de sempre. Esse álbum é Jazz At Massey Hall, gravação ao vivo de um concerto em Toronto, no ano de 1953, do quinteto formado por Charlie Parker (saxofone alto), Dizzy Gillespie (trompete), Bud Powell (piano), Charles Mingus (contrabaixo) e Max Roach (bateria). A audição começou bem: com Perdido, confirmei tudo o que sabia sobre Parker, Gillespie, Mingus e Max Roach. Todos músicos abençoados pela genialidade. Contudo, foi a primeira vez que ouvi Bud Powell: é visível que a inspiração de Thelonious Monk veio deste pianista – embora Powell seja tecnicamente menos limitado.

Seguiu-se Salt Peanuts. Um refrão foleirito, mas audível – pelo menos até ao momento em que Dizzy Gillespie começa a emitir uns sons absurdos, tentando cantar as palavras «salt peanuts». Faltam-me palavras para descrever o que me passou pela mente ao ouvir aquilo. Imaginem que estão prestes a atingir o clímax e o vosso parceiro ou parceira decide fazer uma imitação do Nicolau Breyner (ou da Ivone Silva): foi essa a sensação que me perpassou. O meu interesse por Jazz At Massey Hall murchou imediatamente e parei de ouvir o álbum. Cada um daqueles músicos foi um génio – mas ainda bem que o concerto de Toronto foi a primeira e única ocasião em que este quinteto se juntou.

Não se aflijam, porque este texto não é completamente fora do tema. Apeteceu-me mencionar isto para justificar o estado de espírito que me assolou e, sobretudo, porque entendo ser dever de cada um preservar a higiene mental do seu semelhante. E esta é a minha contribuição para a saúde pública. Eis-vos avisados: não ouçam Jazz At Massey Hall.

O resultado desta audição – oh, como eu gostava de poder esquecer aquelas palavras cantadas tão idioticamente por John Birks Gillespie! – foi fazer-me entrar em depressão profunda. Passei o dia de ontem deitado, com duas bolas de silicone obstruindo-me os ouvidos e evitando ver fosse o que fosse que me lembrasse Toronto, o ano de 1953, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Charles Mingus ou Max Roach. Comer amendoins salgados estava, evidentemente, fora de qualquer cogitação.

Hoje já não tenho a audição de Salt Peanuts presente na minha memória, mas os efeitos da depressão continuaram a manifestar-se. Andei todo o dia triste e soturno. De tarde, fiz fotografias tristes e soturnas e, quando levei o rolo para revelar e digitalizar, vi caixas de Agfa Vista 200 e 400 à venda na loja. Senti uma comoção profunda e não resisti: de olhos mareados de lágrimas, resolvi fazer um interregno na fotografia pancromática e prestar a minha última homenagem ao defunto Agfa Vista 200. Agora resta-me esperar que a depressão induzida pelo Dizzy Gillespie desvaneça, porque a vida é a cores e a vida não deve ser deprimente.

(Nota: este texto é satírico. É verdade que ouvi Jazz At Massey Hall e que comprei um rolo Agfa Vista, mas estava apenas a brincar quando disse que as palavras «salt peanuts» zurradas por Dizzy Gillespie me fizeram entrar em depressão. Não fizeram: apenas me fizeram deplorar o ridículo e sentir-me embaraçado. O conselho de não ouvirem aquele disparate é sério. Não ouçam. Pode levar-vos a nunca mais respeitar aqueles monstros do Be-bop, ou mesmo a nunca mais ouvir Jazz, o que seria lamentável.)

(P. S.: também nunca tive nenhuma parceira que se pusesse a imitar o Nicolau Breyner em momentos íntimos.)

M. V. M.

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Agfa Vista, R. I. P.

Antes de entrar no tema de hoje, uma informação inútil – ou, pelo menos, de utilidade limitada: na semana passada saí do facebook. Estava a receber quotidianamente duas ou mais mensagens de email, com remetente identificado como «facebook», convidando-me a ver a publicação de F. que perdi ou a responder à mensagem de S. Depois ia à minha página e via que essas actividades facebookianas eram falsas, pelo que concluí estar a ser objecto de um esquema qualquer, engendrado por alguém que acedeu indevidamente ao meu endereço de email e à minha lista de contactos do facebook (os nomes mencionados nas mensagens de email correspondiam aos de «amigos» reais). Não estou para aturar isto, muito menos depois de me ter saturado da incrível frivolidade que as pessoas demonstram no facebook. Vai-me fazer falta para promover o livro, mas que se dane! Há coisas inaceitáveis – e ter a privacidade dos meus dados violada é, evidentemente, uma delas.

Nada como uma péssima notícia para animar depois de uma má notícia: há um tipo que vive no Japão e se dedica a comprar e vender máquinas fotográficas e narra as suas aventuras e desventuras num website chamado Japan Camera Hunter. Narra-nos o JCH, desta vez, que a película a cores Agfa Vista vai acabar. Que devo pensar disto?

Antes de mais, que fico um pouco triste. O Agfa Vista foi o rolo a cores que mais usei, e com resultados quase sempre satisfatórios. Era barato, mas de qualidade mais que aceitável. Por vezes era frustrante ter de corrigir o excesso de vermelho deste rolo, mas no geral era agradável de usar. Tinha muito grão, mesmo na versão ASA 200, e não tinha uma acutância do outro mundo, mas tinha uma virtude que apreciava: era muito consistente sob diferentes condições de iluminação. E tinha um contraste interessante.

Depois de ter fotografado exclusivamente a cores durante quase um ano, voltar ao preto-e-branco providenciou-me uma sensação semelhante à dos linces ibéricos que, depois do cativeiro, são devolvidos ao seu habitat natural. Isto não significa que não tivesse ficado satisfeito com a experiência; apenas que a cor não é a linguagem em que me exprimo mais fluentemente. Usar os Agfa, contudo, ajudou-me a fazer fotografias mais de acordo com as minhas ideias: não era demasiado garrido nem muito deslavado e podia fotografar à sombra sem que o tingimento azul-ciano que afecta outras emulsões se manifestasse em demasia.

Será que esta morte do Agfa Vista é um prenúncio do fim do revivalismo analógico? Hmmm… não. Convém começar por dizer que as Agfa já não eram produzidas pela Agfa-Gevaert, mas pela Fujifilm, por encomenda de uma empresa alemã denominada Lupus que, aparentemente, adquirira o direito de usar a marca Agfa (embora como «Agfaphoto»). Nós sabemos que a Fujifilm, para recuperar o dinheiro que investe nas suas frívolas mirrorless, tem vindo regularmente a suprimir a produção de películas, pelo que não é surpresa nenhuma que as Agfa acabem. Mas isto não quer dizer que a fotografia analógica vá finalmente descansar em paz no céu das tecnologias ultrapassadas: ainda há muitas películas por onde escolher – especialmente no domínio do preto-e-branco.

Vou ter saudades dos Agfa Vista.

Certo é que agora, quando quiser voltar a fotografar a cores, vou sentir-me órfão.As escolhas vão ficar bastante reduzidas. As películas equivalentes da Fujifilm (Fujicolor C200, Superia 200 e Superia X-Tra 400) são subjectivamente piores que as Agfa; a Kodak Gold é demasiado garrida, as Portra e Ektar são proibitivas (um dia vou escrever sobre a especulação que se faz agora com o preço do material analógico) e, a menos que a Ferrania apareça rapidamente com qualquer coisa, corro o risco de perder o gosto da fotografia a cores. O que não é fatal, porque o preto-e-branco é aquilo de que gosto. Mas no Verão sabe tão bem fotografar a cores…

M. V. M.

Fujicolor C200

Eu sou, provavelmente, daquelas pessoas que pensam demais. Estou constantemente a questionar tudo o que faço e esta coisa da fotografia, evidentemente, não é excepção.

Desta vez foi o uso de uma daquelas películas «económicas» – da estirpe que era adquirida para as fotos de família, suficientemente versáteis para fotografar na praia ou dentro de casa – que me motivou algumas reflexões. Mas não daquelas que levam a conclusões cínicas e destrutivas. Pelo contrário.

Esta película a que me refiro é a Fujicolor C200, que pode ser adquirida por €3,00 individualmente ou por €5,00 num pacote de dois rolos. As reflexões que me suscitaram foi sobre o que quero para as minhas fotografias. No geral, o uso de película fez-me perceber que a qualidade da imagem não é – não pode ser – o principal objectivo da fotografia. Esta tem de ter, antes de mais, um conteúdo, nem que seja meramente estético. Digamos que, na hierarquia das minhas escolhas, a qualidade da imagem não vem em primeiro lugar.

Mas este Fujicolor fez-me ver outra coisa: eu não estou disposto a sacrificar por completo a qualidade da imagem. Por «qualidade da imagem» refiro-me a aspectos como a nitidez, o contraste e, com pertinência para o que tenho vindo a fazer desde Novembro do ano passado, a precisão das cores. E é exactamente esta a razão por que hesitei tanto tempo e fiz tantas experiências com películas diferentes: nenhuma me deu o que procurava. Umas eram demasiado garridas, outras só se comportavam bem debaixo de condições de luz muito específicas. Encontrei um bom equilíbrio nas Agfa Vista, mas não são de modo nenhum perfeitas: a nitidez deixa muito a desejar e os vermelhos e cianos tendem a deteriorar a apresentação das cores.

Dito isto, e sabendo que as películas da Agfaphoto são feitas pela Fujifilm, resolvi experimentar um rolo de Fujicolor C200. Talvez fosse esta a película que a Fujifilm produz para ser vendida sob a marca Agfa, o que me faria poupar algum dinheiro.

De certo modo, não me enganei. Há muitos aspectos em que a C200 e a Vista se equivalem. Simplesmente, e a despeito de ambas partilharem os mesmos defeitos, é como se tudo o que a Agfa Vista faz mal, a C200 fizesse pior: o grão é pior, tal como o contraste e a nitidez. O contraste, em particular, é quase inexistente na C200. E, evidentemente, há o equilíbrio das cores: o Vista 200 tinge as imagens de vermelho e de ciano, o que por vezes torna a correcção num pesadelo, mas a C200, talvez para fazer jus aos verdes que fizeram a reputação das películas Fujifilm, acrescenta os verdes a esta exacerbação das matizes. O que tem resultados simplesmente destrutivos: os vermelhos surgem indevidamente carregados, mais parecendo castanhos, o que é impossível de corrigir sem perder saturação nos azuis e nos próprios verdes. (E lá se vão os lendários verdes da Fuji pelo cano abaixo.)

É difícil apontar o dedo à diferença entre as fotografias feitas com os Vista 200 e este C200, mas as primeiras são claramente mais agradáveis de se ver. Tecnicamente, as semelhanças entre as qualidades e os defeitos é insuficiente para favorecer uma em relação à outra, mas não há dúvidas que a estética e as cores das fotografias em que usei a Agfa são melhores. Isto é daquelas coisas que não têm uma explicação racional, mas acontecem. A película da Agfa, além de ser mais consistente sob diferentes condições de luz, é mais vibrante e produz cores mais precisas. A diferença entre ambas não é abismal – pelo contrário: quando a C200 funciona bem bem, os resultados são idênticos –, mas é suficiente para justificar a diferença de preço.

Esta experiência teve, pelo menos, o mérito de tornar mais perceptível o patamar de qualidade do qual não estou disposto a descer. A Agfa Vista não é perfeita, mas a C200 é muito insatisfatória.

M. V. M.

A importância de ser Ernst

Por Ernst Haas

Agora que os efeitos da depressão em que induzi os leitores do último texto já dissiparam, vou voltar à técnica. Tenho para mim que a técnica só é importante se ajudar a conferir expressão à fotografia. Neste aspecto há um fotógrafo que considero absolutamente exemplar na conjugação entre técnica e expressão: este fotógrafo foi o austríaco Ernst Haas. Ficaram-me na memória fotografias feitas por este fotógrafo (que nos deixou demasiado cedo) durante corridas de touros, nas quais Haas usou o arrastamento. O efeito atingido tem um cunho artístico indesmentível e torna a fotografia extremamente expressiva. Haas nunca teve receio de experimentar técnicas – nem teve problemas em converter-se à fotografia a cores –, mas as técnicas que usou nunca foram mais que meras auxiliares da expressão. Hoje o que mais se vê é fotografias em que a técnica é utilizada como um fim em si, sendo o motivo secundário e a mensagem inexistente: a única coisa que o fotógrafo diz, com estas fotografias frívolas, é qualquer coisa como «olha que bem que eu domino a técnica». Não me parece suficiente para apreciar uma fotografia.

Mas hoje não queria escrever sobre os tipos de técnica implícitos na fase experimental de Ernst Haas: era uma questão técnica diferente e mais simples. Como sabem, tenho passado os meus últimos meses a fotografar com película 135 a cores, o que é quase anátema na comunidade analógica. Descobri, como também já narrei, uma película que, embora não me satisfaça inteiramente, atinge um bom equilíbrio nas áreas mais importantes. Esta película é a Agfa Vista. Tem muito grão e privilegia os vermelhos e magentas, mas estes são problemas fáceis de corrigir. Quando são verdadeiros problemas, porque por vezes descubro que as fotografias fazem mais sentido na versão não corrigida.

Ora, é possível que alguns ainda se lembrem de eu ter afirmado aqui que é muito difícil fotografar a cores. Especialmente com película. Descobri que tudo se torna mais difícil com o Agfa Vista, o qual, quando não é correctamente exposto, produz cores deslavadas e francamente feias. Aprendi com isto duas coisas: uma é o que os pioneiros da fotografia a cores como William Eggleston sabiam desde o início: fotografar com película a cores implica expor para as altas luzes. A outra, que está relacionada com a primeira, é que, mesmo apontando para as altas luzes, não se deve confiar na indicação do fotómetro. Deve subexpor-se. E não timidamente: por vezes deve tirar-se -1 EV ao que o ponteiro indica ser a exposição ideal.

Com isto, o Agfa Vista parece que ganhou outra vida. Os azuis, que são o ponto forte desta película, tornam-se ainda melhores; as outras cores tornam-se mais ricas, sem serem berrantes. Faz perguntar por que há tanta gente a gastar fortunas com rolos como o Portra e com diapositivos.

E o melhor de tudo é que esta maneira de fotografar não tem nenhum inconveniente. A película a cores tem uma gama de exposição tão boa que as sombras não ficam bloqueadas se se subexpuser como eu preconizo. É evidente que, se se exagerar na subexposição, as fotografias ficam simplesmente escuras e pesadas, mas eu estou a referir-me a -1 EV, o que equivale a fotografar com f/11 em vez de f/8, ou com 1/1000 em vez de 1/500. Não é muito, nem mesmo se levarmos em conta que já estamos a expor para as altas luzes.

O meu conselho é este: experimentem subexpor ligeiramente, mesmo se estiverem a usar uma câmara digital. O contraste e a saturação vão beneficiar. Provavelmente vão ter sombras bloqueadas, mas a informação está toda na imagem e é facílimo levantar as sombras na edição de imagem. Experimentem. Afinal de contas, se experimentar resultou com Ernst Haas, por que não havia de resultar convosco?

M. V. M.

Mais um dilema

Estou outra vez num dilema. Não estou inteiramente satisfeito com os resultados que tenho vindo a obter com o Agfa Vista 200. A versão 400 deu-me fotografias satisfatoriamente consistentes, posto que com um grão bastante grosseiro. O grão do Vista 200 é mais benéfico e, francamente, prefiro fotografar com ASA 200, mas o que eu não esperava era que o 200 fosse tão inconsistente.

É surpreendente, mas com o Vista 200 sou capaz de, fotografando com as mesmas condições de luz e essencialmente o mesmo motivo, obter resultados muito díspares. Uma imagem pode ficar excelente, com cores maravilhosas – os azuis do Agfa vista 200 são de chorar por mais –, e a outra um desastre, com desvios que nem com a função HSL do programa de edição de imagem podem ser corrigidos. Além disto, ao contrário do Vista 400 cuja matiz predominante e invasiva é o vermelho, o 200 exacerba à vez, e dependendo das condições de luz, o vermelho, o verde e, sobretudo, o ciano.

Claro que não esperava tanta diferença em relação à película mais rápida. Com o Agfa Vista 400 era-me fácil perdoar a relativa falta de acutância porque faz tudo o resto muito bem para o preço que custa. O Vista 200 é muito menos consistente e homogéneo – embora também tenha um bom desempenho quando se trata de preservar a veracidade das cores sob luz escassa –, o que faz com que seja difícil estabelecer uma preferência por esta película cuja virtude primordial é ser barata.

O que me leva a interrogar-me se realmente quero passar o resto da minha vida a fotografar com esta película. Considerar alternativas deixa-me assustado: os Kodak estão cada vez mais caros e não são nada homogéneos. Ou melhor: não têm a versatilidade que procuro. O Ektar 100 e o Gold 200 só são verdadeiramente bons com luz escassa e exposições longas, porque sob luz solar são berrantes; o Portra é ao contrário: muito bom com luz intensa, mas as cores são antiquadas e desagradáveis quando se fotografa à noite (é o verdadeiro rei dos cianos!).

Os únicos rolos a cores que me parecem suficientemente bons são os Fujifilm 160NS e 400H. Infelizmente, custam os olhos da cara. O 400H custa para cima de 10 euros. E são difíceis de encontrar. (O 160 NS, pelos vistos, é impossível de encontrar em rolos 135.)

O meu dilema é este: será que vale a pena fazer muitas fotografias e ficar descontente com elas? Não será melhor fazer menos fotografias com um suporte que me assegure melhores resultados? As respostas podem parecer óbvias, mas não são. Porque nem sempre sou um bom julgador do interesse fotográfico de uma cena e das fotografias que faço. Muitas vezes acontece-me parecer ter feito uma fotografia particularmente satisfatória e, ao ver a digitalização, descobrir que estava completamente errado. (Também acontece o contrário, mas muito raramente.) Isto significa que ainda desperdiço muitas fotografias, o que pode ser catastrófico se usar um rolo muito caro.

Vou reflectir acerca disto e, possivelmente – se conseguir encontrar rolos 135 do Fuji 160 NS –, fazer uma experiência. Pode acontecer ficar de tal maneira satisfeito que valha a pena ser mais selectivo e fotografar menos, mas melhor. Depois eu narro-vos a experiência.

M. V. M.

Cromos, postais e portfolios

Nos últimos três ou quatro fins-de-semana, o bom tempo que esteve levou-me à praia. Não para apanhar sol ou tomar banho – ainda é cedo para isso –, mas para fotografar. Encontrei um verdadeiro filão numa praia não muito longe de onde moro. Aos fins-de-semana, aquele areal e o passeio que o orla enchem-se de cromos, o que me tem possibilitado fazer fotografias com um tom razoavelmente sarcástico: ver um homem maduro e gordo deitado no muro que delimita a praia, de tronco nu e com as calças do fato de treino arregaçadas, é para mim uma cena irresistível. Tal como ver um sujeito de setenta anos vestido com fato a tocar harmónica e castanholas e a dançar.

Este cenário agrada-me de tal maneira que dou por mim a consultar o website do Instituto Português do Mar e da Atmosfera para saber, com antecedência, se vai estar sol no próximo fim-de-semana. A sério. Isto é, evidentemente, o resultado de estar a fotografar a cores e de ter adquirido familiaridade com os fotógrafos da cor (aos quais devo juntar, além dos habituais sobre quem estou sempre a escrever, os nomes de Martin Parr e Alex Webb). Fotografar a cor deixa-me com um estado de espírito mais leve, menos sério, desobrigado de fazer fotografias brilhantes, ou rigorosas, ou cheias de significado. (Não deixa de ser irónico estar a escrever estas coisas um dia depois de ter recomendado o visionamento do documentário que Wim Wenders fez sobre Sebastião Salgado, cujas fotografias são do mais sério que se pode imaginar.)

Por outro lado, estou a fazer estas fotografias com uma película que, sob sol intenso, dá às fotografias um aspecto resolutamente antiquado, o que não é mau mas por vezes não resulta muito bem, obrigando-me a recorrer à edição mais do que gostaria. Este ar antiquado levou-me a pensar que seria uma boa ideia dar a estas fotografias um título comum, que podia ser «Postais da Praia» ou, melhor ainda, Postcards From the Seaside. Ou qualquer outra coisa, desde que associe as fotografias às cores dos bilhetes postais dos anos 60 e 70. O Agfa Vista 200 dá cores assim.

E, depois de tudo fotografado, ponho-me a pensar se vale realmente a pena fazer uma abordagem metódica a um determinado tema quando se é um mero amador. Um profissional, ou um amador ambicioso, pode e deve organizar portfolios que sejam consistentes, mas quando se trata de amadores como eu, sinto sempre uma sensação dolorosa de inutilidade quando me demoro a explorar um determinado tema, à qual se junta uma ponta de pretensão que pode ser considerada patética. Se não sou um profissional, por que devo agir como se o fosse? É estar a despender energias sem resultados.

Não me parece que os amadores desinteressados se devam deixar influenciar pelos profissionais e pelo que estes fazem. Quanto mais não seja por se poder estar a pisar a linha ténue da imitação ao fazê-lo, mas sobretudo porque é inútil. Ninguém quer saber do portfolio deste amador desinteressado. O facto de se publicar séries de fotografias no facebook ou no Flickr não vai chamar a atenção de nenhum guru da fotografia que vá apadrinhar o nosso trabalho e levar-nos pela mão ao caminho da fama. Pensar que isso pode acontecer é um disparate.

A questão que o amador deve colocar é, antes de mais, o que quer da sua fotografia. Quer tornar-se num profissional, ter fama e ser reconhecido? Tudo bem, mas primeiro tem de fazer uma pergunta a si mesmo, à qual deve responder com a maior honestidade e sinceridade possível, esquecendo as opiniões sempre favoráveis dos que lhe são chegados e os likes nas redes sociais. Essa pergunta é – serei suficientemente bom? Esta qualidade é algo que se adquire com muito trabalho. Não basta ter um «olhar» (expressão nauseabunda que me causa vómitos) e muito menos importa o equipamento e a técnica.

Organizar portfolios é bom, mas só se a resposta àquela pergunta for positiva e se quiser mostrá-los a quem conta. Aliás, é assim que a Magnum recruta os seus cooperadores. Fora este caminho para a profissionalização, é bem melhor e mais divertido ter uma abordagem descontraída da fotografia, capturando momentos sem grandes considerações de consistência e coerência. Convém nunca esquecer que, para um amador, a fotografia é um divertimento e é também uma terapia, ou um escape. Não devemos sobrecarregá-la com preocupações escusadas, nem transformá-la no que Lloyd Cole genialmente chamou um carnaval de seriedade.

M. V. M.

Agfa Vista 200 (mas antes, um acréscimo ao texto anterior)

No texto sobre a OM-1 omiti uma vantagem em relação à OM-2: a primeira tem um comando que bloqueia o espelho. Isto é útil em exposições longas, quando a mínima vibração – como a provocada pelo impacto do espelho no momento do disparo – pode interferir com a nitidez. Não sei por que razão a OM-2 não tem esta função, mas também devo dizer que, nas exposições longas que fiz com a minha máquina, nunca tive problemas de falta de nitidez causada pelo impacto do espelho. Mirror lock is overrated.

***

Os meus leitores já sabem que voltei a fotografar a cores, depois de mais de três anos em que as minhas únicas fugas ao preto-e-branco se resumiram a algumas experiências com película colorida. Nenhuma destas experiências me deu resultados satisfatórios até ao dia em que resolvi experimentar um rolo que, por causa da matiz vermelha de que me apercebera em muitas das fotografias que consultei na internet, havia decidido nunca usar. Este rolo, como sabem, é o Agfa Vista.

Apesar de a matiz vermelha existir, não é um problema tão grave quanto supus. Mais: de todas as películas coloridas que experimentei, a Agfa é a única com a qual consegui resultados consistentes em condições diferentes de iluminação. As cores são sempre razoavelmente precisas, quer fotografe ao sol ou debaixo da luz ténue das estações subterrâneas do Metro. Nenhum outro rolo – mesmo aqueles cuja qualidade é notoriamente superior à do humilde Agfa Vista – me ofereceu esta consistência: os que resultam bem com luz solar, como o Kodak Portra 160, são um desastre com luz artificial. E os que mantêm a precisão das cores na fotografia nocturna são berrantes e erráticos quando usados ao sol.

As películas 135 de alta sensibilidade como são as ASA 400 – eu sei que isto parece anedótico numa era em que os valores ISO das câmaras digitais se escrevem com sete algarismos – têm, como não é novidade, um grão muito pronunciado. O Agfa Vista não é, evidentemente, excepção. E as digitalizações não fazem absolutamente nada para disfarçar o aspecto pouco límpido que o grão dá às fotografias.

Isto lembrou-me que, de facto, não sou um homem de altas sensibilidades: estão a ler um blogue que, na sua incarnação anterior, se chamava «ISO 100». (Querem melhor prova?) Até agora apenas havia experimentado a versão ASA 400 do Agfa Vista. Recentemente, porém, tive a oportunidade de usar a versão ASA 200. Como seria porventura de prever, o grão é menos abundante, mas nem por isso deixa de estar presente e também não é lá muito límpido. Em comparação com a versão mais sensível, o Vista 200 é praticamente idêntico na apresentação das cores, pelo que não vale a pena acrescentar muito ao que já escrevi sobre o assunto. Contudo, parece-me – ainda estou para confirmá-lo com histogramas – que, além da matiz vermelha característica do Vista 400, há também uma abundância relativa de cianos.

Nada disto, porém, é suficiente para me afastar dos Agfa Vista. Esta continua a ser a película a cores mais homogénea e consistente que conheço, com o bónus de ser barata. Pormenor interessante: um dos reparos que li na internet é que, por causa dos vermelhos, a Agfa Vista é uma película inadequada para retratos, já que falseia a cor da pele. Curiosamente, não notei nada disto. Pelo contrário, os tons de pele parecem-me bastante verosímeis.

Acima de tudo, as Agfa Vista são as únicas películas que me dão o tipo de saturação das cores que quero: nem demasiado vívidas, nem particularmente desmaiadas (como agora parece ser moda na internet). Esta combinação de consistência e agradabilidade faz com que, a despeito das suas falhas, estas Agfa Vista sejam as películas que mais se adequam ao que quero fazer da minha fotografia. E agora tenho uma alternativa quando me apetecer usar aberturas maiores. Nada mau.

M. V. M.