Os meus filmes

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Título enganoso – não vou falar aqui de cinema, embora já o tenha feito (há poucos blogues de fotografia onde os leitores possam educar o seu gosto cinematográfico através do conhecimento de cineastas como Luchino Visconti, Richard Linklater e Michael Haneke). O título pretende ser uma sátira às pessoas que gostam de traduzir tudo directamente do inglês e entendem que film pode ser traduzido para filme, mas esta última é uma palavra inventada, porque film tem uma tradução em português, que é  «película». (Film não se refere especificamente à película fotográfica ou cinematográfica: também designa, por exemplo, o papel celofane ou os plásticos usados para envolver alimentos.)

Também não vou escrever sobre os meus filmes – se eu vos contasse como correu o meu último julgamento, pensariam que tinha aderido à equipa de guionistas de uma série humorística qualquer –, mas sim sobre as minhas películas. Desde que comprei a OM já experimentei vinte películas diferentes (todas de negativos): da Kodak, usei rolos de Tri-X, Portra 160, Ektar 100, Gold 200 e T-Max 100 e 400; experimentei Ilford FP4, HP5, Pan F e Delta 100 e 400 (além de um rolo Pan 400 que já atingira a idade núbil, mas cujos resultados pareceram agradar a muitos visitantes do meu Flickr); usei também Fuji (Superia 200), Fomapan 200, Ferrania Solaris, Kentmere 400, Agfa APX 100 (também usei 400, mas os resultados foram inconclusivos) e agora outro rolo Agfa, este a cores, que é o Vista 400. Além da ovelha negra chamada Lomography Earl Grey, que foi a pior que experimentei. Foram muitos rolos. Apesar de ainda me faltar experimentar outros tantos – vários da Fuji, todos da Rollei e da Adox e algumas variedades das marcas que mencionei anteriormente –, penso que já posso elaborar algumas conclusões.

A primeira é que o preto-e-branco é a minha linguagem. Já escrevi aqui, ainda há bem pouco tempo, que fotografar a cores é difícil pelas exigências de harmonia da cor. Devo acrescentar outra dificuldade: a de encontrar motivos em que a cor, mais que as formas, seja o elemento gráfico preponderante. Convenhamos que o Porto é uma cidade um bocado granítica e monocromática (e eu não tenho particular gosto em fotografar graffiti). O preto-e-branco favorece as formas e as linhas, pelo que se adequa melhor às minhas opções estéticas. Daí que tenha adquirido muitos mais rolos de preto-e-branco que de cores. Por regra, demoro muito mais a expor rolos a cores, o que é revelador quanto às dificuldades com que me deparo. Isto não quer dizer que tenha desistido da cor, mas seguramente significa que estabeleci uma preferência.

E, já que me refiro a preferências, quais são os rolos que mais me satisfazem? Para o preto-e-branco, a resposta é mais ou menos óbvia: o FP4 é aquele ao qual volto sempre. Já expus trinta e seis rolos desta película. Gosto do seu contraste e da nitidez incrível, mas exige algumas precauções, como expor sistematicamente para as altas luzes de maneira a evitar a sobreexposição.

O que me leva a outra conclusão: eu gosto de películas lentas. Comigo a fotografia em lugares pouco iluminados é uma excepção, não a regra. Além de não apreciar aberturas demasiado estreitas: não sou um tarado do bokeh (eu gostava de cremar in vivo a criatura que se lembrou de importar esta palavra para o Ocidente), mas um bocadinho de desfoque de vez em quando não faz mal nenhum. As películas de alta velocidade (ou sensibilidade, se preferirem) obrigam-me a fotografar com f/11 sempre que aparece um raio de sol. Contudo, nas diversas ocasiões em que um rolo ISO 400 é útil, demorei a decidir qual preferia: o Tri-X? O HP5? Sob reserva de fazer mais algumas experiências, penso ter encontrado uma película que poderia usar sempre que quiser fotografar em estações do metro: a Kentmere 400. Contudo, devo também dizer que foi agradável experimentar películas ASA 200. Usei duas: Fomapan 200 e Kodak Gold 200. É uma sensibilidade muito versátil e agradável de usar. Não compreendo por que razão a Ilford não fabrica películas ISO 200.

Quanto à cor, remeto para o texto em que me refiro às dificuldades suplementares que as películas implicam. Apesar de a minha preferência não ir para a fotografia a cores, não posso negar que me diverti com os rolos Ferrania e que fiquei surpreendido com o desempenho do Kodak Gold 200. Os outros são demasiado dependentes das condições de luz. Curiosamente, a película que estou correntemente a usar é a primeira de alta velocidade que uso. (Depois digo-vos das minhas impressões.)

A maior surpresa da minha experiência com películas, porém, é a resolução do pormenor que algumas possibilitam. Claro que as lentes Olympus OM, em particular a grande-angular, contribuem para esta resolução, mas as películas desempenham um papel importante. Descobrir isto foi uma surpresa, mas há uma explicação: a fotografia no formato 135 precisa de toda a resolução de que for capaz para que não se perca demasiada nitidez nas ampliações. As minhas fotografias são, com a excepção daquelas em que falhei a focagem, inacreditavelmente nítidas. Esta, como referi, foi uma grande surpresa. Só comparável ao prazer que se extrai de fotografar com uma máquina analógica, mas estas são contas de outro rosário.

M. V. M.

Ranking actualizado

Raparigas manifestando a sua felicidade por serem fotografadas com um Ilford HP5
Raparigas manifestando a sua felicidade por serem fotografadas com um Ilford HP5

Não me apetece experimentar mais rolos. Apenas quero usar mais um rolo que ainda não experimentei, que é o Fujifilm 400H (ou o 160NS, caso alguma vez consiga encontrá-lo). É um rolo extremamente caro, mas se me der as cores dos rolos de slide da Fujifilm, pode valer a pena.

Quanto aos preto-e-branco, a minha preferência continua idêntica. O FP4 é a película a que regresso sempre. Para sensibilidades altas a confusão é ainda substancial: o Tri-X é um belíssimo rolo, tal como o Delta 400, mas tenho vindo, depois de uma má impressão inicial, a apreciar cada vez mais o HP5. Tem muito grão, mas este dá textura e expressão às fotografias. Não é ideal para retratos, mas as suas características de contraste levam a que o considere o melhor rolo ASA 400.

Os mais atentos vão reparar, ao ler o meu ranking actualizado, que os Ilford ocupam seis dos sete primeiros lugares, incluindo os dois primeiros. Pois é – nada a fazer. São os melhores. Pelo menos para as minhas fotografias. Podem começar a chamar-me «Mr. Ilford». Ou Señor Ilford. Monsieur Ilford. Herr Ilford. Ilford-san. A minha fidelidade aos Ilford só é superada por aquela que os cães dedicam aos seus donos.

Penso, deste modo, que posso viver muito feliz apenas usando dois rolos para preto-e-branco: o FP4 por defeito e o HP5 quando me apetecer fotografar com pouca luz. Vai ser assim porque não suporto ter de fotografar com aberturas f/11 e f/16 sempre que o sol brilha um pouco mais, o que me impede em absoluto de usar rolos de velocidade alta com regularidade. E o FP4, embora não me dê o contraste do Pan F, é mais versátil: fotografa-se bem com ele de noite, o que é importante para mim, e tem um f/stop a mais em relação ao Pan F, o que faz diferença quando a luz começa a escassear.

Quanto à cor, vou esperar que a Ferrania não tenha usado o crowdfunding para ficar com o dinheiro dos aderentes (é um esquema cada vez mais comum na internet) e retome mesmo a produção do Solaris 100. Se tal não acontecer – e eu espero que aconteça, porque o Solaris é extremamente divertido –, terei de usar o Kodak Portra 160 para fotografar debaixo de luz solar e o Ektar 100 quando quiser fotografar com luz escassa. Com a reserva de poder vir a usar os Fuji se obtiver bons resultados. Apesar de a minha apreciação do Ektar 100 ter sido menos que favorável, fi-la com base em fotografias feitas sob luz do dia; em zonas de sombra e debaixo de luz escassa, porém, o Ektar 100 mantém admiravelmente o equilíbrio das cores, pelo que essa apreciação foi um pouco injusta.

De todos os rolos para preto-e-branco disponíveis, apenas não usei os Rollei e o Fuji Neopan. Os primeiros são, tanto quanto sei, idênticos ao Agfa APX; o Neopan, esse, é demasiado caro; não me parece que valha a pena experimentá-lo quando os Ilford – e também o Tri-X – dão tão bons resultados.

Deste modo, o meu ranking pessoal actualizado de películas do formato 135 é como se segue:

1.º: Ilford FP4 Plus 125
2.º: Ilford Delta 400
3.º: Kodak Tri-X 400
4.º: Ilford Delta 400
5.º: Ilford Delta 100
6.º: Ilford Pan F Plus 50
7.º: Ilford HP5 Plus 400
8.º: Kodak Portra 160
9.º: Ferrania Solaris 100
10.º: Fomapan 200
11.º: Agfa APX 100
12.º: Kodak Ektar 100
13.º: Kodak T-Max 400
14.º: Kodak T-Max 100
15.º: Fujifilm Superia 200
16.º: Lomography Earl Grey

M. V. M.

O Fomapan 200

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Como avisei os leitores, aqui está a minha análise inteiramente subjectiva do rolo preferido dos estudantes de fotografia, o černobílý negativní film Fomapan 200. Comprei este rolo sem grandes ilusões: sabia que não iria, de maneira nenhuma, desviar-me da minha preferência pelos Ilford. Contudo, procurei fotografar como se estivesse a usar um rolo caríssimo (ao invés de fazer experiências sem sentido, só para avaliar o desempenho da película) e analisar os resultados da maneira mais isenta possível, sem deixar que as minhas preferências determinassem juízos prévios acerca das qualidades do Fomapan 200. O meu propósito não é o de induzir os leitores a comprar ou deixar de comprar este ou aquele rolo, mas o de fornecer-lhes as minhas impressões sobre ele.

As minhas sensações iniciais ao apreciar as fotografias feitas com o Fomapan 200 foram favoráveis. É necessário dizer que tive um cuidado especial para não estourar as altas luzes, medindo a exposição onde queria reter o pormenor em lugar de expor sistemática e dogmaticamente para as sombras. Deste modo, foram raras as fotografias que ficaram sobreexpostas, conseguindo também evitar a subexposição. O Fomapan 200, quando exposto deste modo, é uma película que faz praticamente tudo bem. Tanto é assim que, na verdade, não há muito a dizer sobre ela: é uma película extremamente competente que, pelo preço que custa, constitui uma excelente alternativa para o aficionado da fotografia analógica que não esteja disposto a gastar muito dinheiro em rolos.

Na lista das vantagens do Fomapan está, em primeiro lugar, o contraste: é muito bom. Melhor que o do Agfa APX 100 e infinitamente superior ao do Kodak T-Max 100 e todos os rolos de velocidades altas que experimentei – com a excepção dos Ilford HP5 e Delta 400. O Fomapan tem uma característica que me agrada: é perfeito para chiaroscuri. O grão é muito discreto e tem uma apresentação agradável à vista, superando o Agfa APX 100 a despeito de este ter uma velocidade inferior em 1 EV (mas perdendo um pouco para o T-Max 100, que é uma película de grão tabular). As altas luzes raramente estouram, sendo muito correctas quando se usam cuidados com a exposição. Tudo isto contribui para produzir imagens em que tudo parece impecavelmente bem ponderado, com os tons inconfundíveis do preto-e-branco genuíno (i. e. não-digital).

Comparar o Fomapan 200 aos Ilford, que são a minha referência em termos de qualidade absoluta, é porventura excessivo. Estes últimos são os melhores rolos que se fabricam à superfície da Terra e todas as outras marcas ficam a perder na comparação. Simplesmente, se avaliarmos as películas com base na ratio entre preço e qualidade – os Ilford são caros –, a diferença fica substancialmente reduzida e o Fomapan 200 aproxima-se perigosamente do FP4. Quando comparados em termos absolutos, o Fomapan tem duas desvantagens: a resolução e a descrição das sombras, que podem ter uma aparência um pouco pesada em certas fotografias. Note-se, contudo, que a resolução (ou, mais propriamente, a acutância) dos Ilford está num patamar altíssimo e que a descrição das sombras depende grandemente das opções tomadas pelo fotógrafo na exposição, e que o Fomapan parece menos propenso a estourar as altas luzes do que os Ilford.

O Fomapan 200 é tão bom que não me surpreende a sua popularidade entre os estudantes de fotografia. Eu, se tivesse de limitar o meu orçamento para película e fosse forçado a escolher entre o Fomapan e o Agfa APX 100, que é o mais próximo em função do preço, não hesitaria: este último tem uma descrição dos pormenores melhor, mas não tem o contraste do Fomapan. Não ficaria triste se tivesse de usar o Fomapan até ao fim dos meus dias, mesmo se de vez em quando sentisse saudades da resolução superior dos Ilford. Repito, porém, que esta é uma comparação injusta. A resolução do Fomapan não é má – está muito acima do desastre chamado Lomography Earl Grey, que é mais caro –, traduzindo-se num ligeiro suavizar dos contornos que é bastante benigno. (O Lomography faz com que todas as imagens pareçam ligeiramente desfocadas.)

Muito desta minha apreciação do Fomapan é condicionado pelo género de fotografias que fiz com ele: em lugar de fazer experiências absurdas, decidi usá-lo em condições normais e, embalado pelas fotografias de Lisboa, expu-lo quase por inteiro com cenas de rua. Algumas destas fotografias deixaram-me bastante entusiasmado, não pela qualidade do meio usado, mas pela sua qualidade intrínseca. Digamos que me saíram bem. Quando as vejo, fico com a dúvida se ficariam melhores se tivesse usado um Ilford. Provavelmente não: o Fomapan evita os contrastes excessivos dos Ilford, ainda que o faça à custa das sombras carregadas, que foram a característica que mais depressa notei nas fotografias feitas com o Fomapan que vi antes de experimentá-lo.

Em resumo: o Fomapan é muito bom. Se tivesse de classificá-lo de 0 a 20, em termos absolutos valeria um 13. Talvez um 14, se estivesse complacente. Em termos relativos, atendendo ao preço e à qualidade, levaria um 17. Este é um rolo que mesmo o entusiasta mais exigente pode usar, com a confiança de que nada vai correr mal.

M. V. M.

Uma moda estúpida

É isto que acontece quando se usam rolos expirados: se ampliarem a imagem, repararão numas bolinhas subtis que surgem no plano de fundo. Há quem goste...
É isto que acontece quando se usam rolos expirados: se ampliarem a imagem, repararão numas bolinhas subtis que surgem no plano de fundo, no céu. Há quem goste…

Eu não gosto de patetices em fotografia. Detesto ver gente a entregar-se a coisas completamente estúpidas como desafios de fotografias, fotografar com phablets, fazer selfies, abusar do HDR e outros disparates. Talvez esta minha aversão se deva ao respeito que sinto dever conservar pela fotografia – ou se calhar talvez seja por levá-la demasiado a sério (e possivelmente a levar-me a mim mesmo demasiado a sério). Seja como for, sou avesso a brincadeiras com fotografias.

Estes disparates não afectam apenas os utilizadores de equipamento digital. Tenho acompanhado, na medida do possível, as tendências de quem usa película e apercebo-me de uma que reputo de completamente estúpida: o uso de filmes expirados.

Como a película é feita com matéria orgânica – o acetato que serve de base é obtido a partir de algodão –, ela deteriora-se com a passagem do tempo. Os elementos químicos tornam-se instáveis e isto tem por efeito que os resultados da revelação sejam imprevisíveis e incontroláveis. O grão acentua-se drasticamente, perde-se nitidez e as cores tornam-se imprecisas. Em alguns rolos, em particular nos de cor, podem surgir artefactos absolutamente indesejáveis. Por este motivo, os fabricantes estabelecem datas de validade a partir das quais não podem assegurar a sua qualidade. Quem usa películas expiradas fá-lo por sua conta e risco. De resto, é bem possível que a película perca as suas propriedades mesmo antes de expirado o prazo de validade: para que os elementos químicos que a compõem se mantenham estáveis, são necessários alguns cuidados na utilização e armazenamento. Por exemplo, os rolos não devem ser sujeitos a temperaturas superiores a cerca de 21º C. É por este motivo que muitas pessoas conservam os seus rolos no frigorífico – o que, atenta a natureza perecível dos componentes da película, é uma boa prática.

A decomposição dos elementos químicos da película repercute-se na diminuição da velocidade (sensibilidade), de modo que um rolo ISO 400 vai comportar-se, na prática, como se a sua sensibilidade fosse ISO 200 ou mesmo 100, no caso de ter decorrido um lapso de tempo muito longo entre a data de validade e a sua utilização. Isto produz, como é previsível, fotografias sobreexpostas e uma acentuação do contraste, mas também, uma vez que o rolo vai normalmente ser revelado de acordo com a sua velocidade nominal, uma exacerbação do grão.

Diria, deste modo, que o uso de rolos expirados é um perfeito disparate, mas existe uma tendência quase patológica para que o número de pessoas que os usa seja, aparentemente, cada vez mais extenso. Isto é perfeito para os lojistas que querem à força toda escoar o stock de filme velho, mas muita gente gosta dos efeitos da película expirada. As imagens a preto-e-branco são falhas de nitidez, têm em regra um contraste excessivo, são demasiado granulosas e, por vezes, surgem aberrações tão desconcertantes como o aparecimento de algarismos (no caso dos rolos 120) e de círculos em tons contrastantes, como resultado da decomposição das gelatinas. As fotografias a cores, por seu turno, têm, além dos problemas referidos para o preto-e-branco, uma descrição das cores irreal – por regra estas surgem demasiado saturadas – e desvios muito sérios nas matizes.

Todavia, há quem pense que isto tudo é imensamente divertido e se entretenha a comprar e expor películas expiradas. Esta é uma tendência que parece não parar de se disseminar, como uma verdadeira coqueluche. Eu não acho piada nenhuma a esta moda: é como se, de repente, toda a gente desatasse a vestir roupas encontradas nos caixotes do lixo e a consumir alimentos fora do prazo. Ainda por cima, as pessoas que usam películas expiradas gabam-se de que as suas fotografias são imensamente expressivas e têm muito carácter! Não é nada disso: aquelas fotografias são simplesmente fotografias defeituosas. Não fazem nada de edificante pela arte fotográfica. Podem agradar a lomógrafos e outras criaturas esgrouviadas, mas são simplesmente desagradáveis.

É possível que muita gente use rolos expirados por serem mais baratos e se enganem a si mesmos quando clamam essas tretas da expressividade e do carácter. A esses posso deixar um conselho: fariam bem melhor em adquirir rolos novos mais baratos – o Fomapan e o Agfa APX 100 são excelentes e não custam os olhos da cara – e fotografar menos, o que lhes traria a vantagem adicional de se tornarem mais selectivos e, por essa via, fotografarem melhor. Se o problema não é o custo, não existe desculpa para usar rolos expirados. Há certamente rolos novos que, pelas suas características, ajudam o fotógrafo a encontrar a sua forma de expressão: o Ilford HP5 e o Delta 400 têm um grão cheio de carácter e um contraste de chorar por mais, enquanto o Ferrania Solaris dá as cores saturadas que muitos procuram nos rolos expirados. Há sempre um rolo feito à medida dos gostos de cada um; é tudo uma questão de procurar e experimentar. Isto é mil vezes preferível a apresentar fotografias de m**** só porque é moda expor rolos expirados.

M. V. M.

O estado dos meus conhecimentos

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Até agora experimentei os seguintes rolos: Agfa APX 100 e APX 400; Ferrania Solaris; Fuji Superia 200; Ilford Delta 100, Delta 400, FP4, HP5 e Pan F; Kodak Ektar 100, Portra 160, T-Max 100, T-Max 400 e Tri-X; Lomography Earl Grey. Há algumas conclusões a extrair das minhas experiências com rolos de diferentes tipos e sensibilidades.

A primeira é a minha preferência por rolos de grão cúbico. (Os não iniciados já estarão completamente perdidos depois de lerem esta afirmação, mas eu ofereci uma explicação mais ou menos simples num texto do Número f/: podem lê-la aqui.) Não vou dizer que estes são melhores que os de grão tabular, porque isto de dizer o que é melhor é sempre um juízo pessoal. O que é melhor para mim não o é necessariamente para os outros. Simplesmente, a película de grão cúbico ajuda-me a obter a expressão que quero; é mais compatível, se quisermos, com a minha linguagem fotográfica. Eu não ando à procura da maior qualidade de imagem possível: a minha demanda é pelos rolos que melhor me ajudem a conseguir o aspecto que pretendo para as minhas fotografias. Já encontrei um vencedor para as velocidades ASA reduzidas, que é o Ilford FP4. Quando afirmo que este é o melhor rolo que a humanidade jamais produziu, esta expressão não é um exagero nem uma hipérbole porque transmite aquela que é a minha opinião. O FP4 é o melhor rolo para os meus propósitos. Outros preferirão o Tri-X ou o Fuji Neopan Acros, sobre o qual não me posso pronunciar por (ainda) o não ter experimentado; eu prefiro o FP4. É um rolo versátil, de uma qualidade acima da média e com um contraste e uma nitidez que são de chorar por mais. Contudo, se estivesse empenhado em obter a melhor qualidade possível, a minha preferência iria para os rolos de grão tabular. O mais provável, já que estes rolos precisam de contraste, seria optar pelo Ilford Delta 100. Em termos de qualidade, medida pela precisão na descrição das altas luzes, médios tons e sombras, bem como pela nitidez e pelo contraste, penso que é difícil encontrar melhor. Há o Neopan Acros da Fuji, que muitos juram ser o melhor, mas é um rolo excessivamente caro. Referi o Delta 100 e não o 400, apesar de ter ficado muito satisfeito com os resultados deste último, porque a comparação entre ambos fez-me chegar a outra conclusão: eu só gosto de fotografar com velocidades – ou sensibilidades, se preferirem – baixas.

Eu explico. Fotografar com rolos ASA (ou ISO) 400 obriga-me a usar tempos de exposição muito curtos e aberturas estreitas. Eu não gosto de fotografar com f/11, muito menos com f/16. Não sou daquelas pessoas que nutrem uma obsessão patológica pelo bokeh e passam o tempo a sonhar acordados com lentes f/0.9 – eu tenho muitas dúvidas se a abertura influi assim tanto no desfoque –, mas gosto de fotografar com aberturas amplas. As melhores experiências que tive quanto ao uso de aberturas largas foram quando usei os Ilford Pan F, com a sua velocidade ASA 50. Ora, é difícil usar aberturas largas quando está sol e tenho um rolo ASA 400 instalado na máquina. Estas circunstâncias obrigam-me frequentemente a recorrer às aberturas mais estreitas, o que não é ideal quando se quer jogar com a profundidade de campo. Quando a luz é intensa, o resultado de usar rolos 400 é uma perda substancial de contraste e abundância de grão, o qual nem sempre contribui para a expressividade da imagem.

Outra conclusão que retiro das minhas experiências com uma máquina fotográfica que grava as imagens em película é que sou um verdadeiro iconoclasta. Por que digo isto? Há, na comunidade fotográfica, uma verdadeira veneração por um rolo cujo uso, talvez por influência dos grandes fotógrafos do Século XX, adquiriu um estatuto de dogma. Este rolo é o Kodak Tri-X 400. Apesar de já ter usado cinco destes rolos, nunca fiquei convencido. Eu espero não ser assassinado por algum fundamentalista do Tri-X por esta blasfémia, mas não sou apreciador. Ou melhor: é muito bom, mas não dá às minhas fotografias o aspecto que pretendo delas. (De resto, seria uma pena ser assassinado agora: ainda quero fotografar os sargaceiros da Apúlia e cenas da faina piscatória mais expressivas do que as que captei até agora; o meu eventual assassínio poderia colidir com estes planos.) O Tri-X é considerado o rolo obrigatório para a fotografia de rua, mas a distância focal de 35mm também o é e eu detesto-a e prefiro usar uma lente de 50mm. Não, eu não acompanho a reverência que todos devotam ao Tri-X – embora não possa negar que é excelente. Talvez pensasse de maneira diferente se tivesse uma Leica, como aqueles nomes venerandos que construíram a reputação do Tri-X, mas, sendo as coisas o que são, é esta a minha conclusão.

A minha aprendizagem da fotografia nunca estará completa. É possível que tenha escrito anteriormente muita coisa que está em contradição com o que estão a ler, mas a aprendizagem é assim mesmo: substituem-se as noções erradas por outras certas e abrem-se novas frentes de conhecimento. Eu não sabia nada sobre rolos até Junho de 2013, altura em que comprei a OM-2; esta coisa das películas era completamente nova para mim e só agora pude chegar a estas conclusões – que podem não ser definitivas. Não se surpreendam se daqui a um ano estiver a escrever coisas que contradizem este texto.

M. V. M.

O Lomography Earl Grey (adenda)

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A minha apreciação do rolo Lomography Earl Grey não tem nada que ver com preconceitos nem com a eventual falta de pedigree em comparação com outros rolos. Quanto aos primeiros, é relativamente fácil, a um certo número de amantes da fotografia, desdenhar a lomografia. Já disse muitas vezes que não me incluo nesse grupo e que sinto bastante simpatia pelo movimento lomográfico: estão entre os mais criativos dentre os que praticam a fotografia. Também não é por usar rolos prestigiosos como os Ilford e o Tri-X que me deixo influenciar: afinal de contas, apaixonei-me por um rolo de uma marca que hoje é (mas nem sempre o foi) relativamente obscura e é o rolo mais barato que alguma vez comprei: é, como alguns já terão percebido, o Ferrania Solaris. Este é, de resto, o mais próximo que chego do estilo da lomografia, usando cores saturadas e alegres – mas (isto é crucial) precisas.

Eu sinto necessidade de que os rolos tenham certas características para que correspondam às minhas ideias fotográficas: cingindo-me ao preto-e-branco, um rolo precisa de ter uma boa acutância, um bom contraste, pouco grão e alguma latitude na exposição, de maneira a não estourar facilmente nem carregar demasiado as sombras. Preciso da acutância porque gosto de fazer fotografias ricas em texturas e pormenores; o contraste é um elemento estético que não dispenso; o grão é tolerável se for discreto e contribuir para a imagem e a latitude é importante porque nem sempre é possível obter uma exposição equilibrada. Todos os rolos que experimentei até hoje me dão estas características: o Kodak Tri-X dá-me uma latitude estupenda, um contraste decente, uma acutância razoável e um grão cheio de carácter; o modesto Agfa APX 100 não é muito bom em latitude, mas tem uma acutância fenomenal, bom contraste e um grão que, embora mais abundante do que devia, também adiciona à estética; o Ilford Delta 100 tem tudo menos latitude, aspecto em que podia ser melhor, mas é, de todos os que usei, o que tem melhor grão. Depois há o FP4, que é excelente em tudo. Todos estes rolos cooperam com as minhas fotografias e ajudam-nas a adquirir a estética que pretendo.

O Lomography é, de todos os rolos para preto-e-branco que usei, o único que não tem nenhuma característica que eu possa aproveitar na minha maneira de fotografar. A acutância é medíocre, o contraste inexistente, a latitude estreita e o grão é grosseiro e feio. Mais: este grão contribui para destruir a nitidez da imagem da mesma maneira que o ruído corrompe uma fotografia digital. Será interessante para pessoas que seguem aquela corrente de pensamento pela qual a fotografia com película a preto-e-branco deve ser pouco definida e ter muito grão – o que é uma opção estética tão idónea como outra qualquer –, mas eu não vou nessa corrente.

O que me deixou mais frustrado, nesta experiência falhada com o Lomography Earl Grey, não foi a falta de qualidade em si: foi o facto de ter estragado as minhas fotografias. Algumas das fotografias que fiz usando este rolo podiam estar entre as minhas preferidas, mas sinto um certo embaraço em mostrá-las: fotografias sem definição a ponto de parecerem mal focadas, altas luzes completamente estouradas mesmo em fotografias nocturnas, um contraste deplorável e um grão horrível. Este rolo fez-me pensar que tinha subitamente desaprendido tudo o que sabia.

Apesar de ser o rolo para preto-e-branco mais barato que comprei até hoje, o Lomography Earl Grey é caro. O Agfa APX 100 custa apenas mais €0,50, mas é, ao contrário do Lomography, um rolo extremamente capaz que merece ser nomeado entre os melhores rolos existentes. O Earl Grey é caro mesmo para uso lomográfico: não faz sentido nenhum usar um rolo que custa €4,00 em máquinas que custam €60. Não sei muito bem a quem se destina este rolo. É um rolo decididamente ordinário que não serve nenhum objectivo fotográfico. Se os lomógrafos querem fotografar com máquinas baratas, é um contrasenso usar um rolo que custa quatro euros. Para os outros amantes da fotografia existem os Fomapan, que custam o mesmo que o Earl Grey, e o Agfa. Ambos garantem resultados altamente satisfatórios, sendo o Fomapan o preferido entre os estudantes de fotografia.

O Lomography não faz parte do universo dos rolos para entusiastas sérios e profissionais da fotografia. É um rolo que contém em si a ambiguidade de ser um desperdício de dinheiro para os lomógrafos e demasiado reles para ser usado com propósitos artísticos. Que mais se pode dizer de um rolo com o potencial de destruir fotografias pela sua falta completa de qualidade? Se eu fosse de dar classificações, fossem elas de zero a vinte ou de zero a cinco, dar-lhe-ia zero. Este é o pior rolo que já usei. Só o Ektar 100 se lhe compara em mediocridade, mas este último acaba por ser melhor pela sua aptidão para longas exposições. Este rolo fez-me sentir que gastei dinheiro estupidamente e – o que é bem pior – fez-me sentir que desperdicei o tempo que passei a fotografar com ele. Gastei-o fazendo fotografias que ficaram imprestáveis e nunca o vou recuperar, nem a ele nem às oportunidades que este rolo me fez esbanjar. Não comprem o Lomography Earl Grey nem que a Embaixada Lomográfica seja a única loja aberta. É preferível não fotografar a fotografar com este rolo.

M. V. M.

O Lomography Earl Grey

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Vou tentar ser o mais amável que puder. Eu simpatizo com a Lomography, com a Embaixada Lomográfica no Porto e com a lomografia em geral – apesar de não querer ser um seguidor. O que aquelas pessoas fazem é extrair prazer do acto de fotografar, tal como eu – com a diferença de eu não usar câmaras de plástico e poder, por vezes, parecer que me levo demasiado a sério. A mim e às minhas fotografias. Apesar desta diferença, a lomografia merece toda a minha estima.

Para analisarmos o fenómeno lomografia sem incorrer em injustiça ou sobranceria, temos de pôr de lado todas as concepções fotográficas a que estamos habituados. A lomografia não tem propósitos de criar obras-primas, as questões da técnica e do equipamento não são importantes, os lomógrafos não fotografam para ser reconhecidos, as regras da fotografia que conhecemos não se aplicam. É com olhos despidos de preconceito que devemos ver a lomografia. Vista assim é extremamente apelativa, embora se tenha tornado um fenómeno um pouco lifestyle demais para o meu gosto.

A Lomography não tem nada de pretensiosa, apesar de ter estado na vanguarda da defesa da fotografia convencional quando o digital tentou tomar a fotografia de assalto. Enquanto todas as marcas se voltavam para os computadores pequenos em que as câmaras se transformaram, a Lomography manteve vivos os formatos 135 e 120. Há muito mérito nisto. É até possível que, sem a Lomography, a fotografia convencional estivesse hoje extinta.

Dito isto, o material da Lomography não tem qualidade. Isto aplica-se às máquinas, mas também, como descobri ontem, aos rolos. Como sabem, experimentei um rolo Lomography Earl Grey, mais por a Embaixada Lomográfica ser a única loja de fotografia honesta aberta a um Domingo do que pela curiosidade em experimentá-lo; contudo, essa curiosidade veio mais tarde, já com aquele rolo na máquina. Foi com alguma expectativa que esperei pelas digitalizações deste rolo: afinal, foi o rolo para preto-e-branco mais barato que já comprei. Se fizesse um bom serviço, poderia ser uma escolha muito interessante.

O mínimo que posso dizer é que fiquei desiludido. Quando escrevi sobre o Kodak Ektar 100, usei uma expressão vernacular para o definir. Não vou fazer o mesmo aqui porque prometi, no início do texto, que ia tentar ser simpático, pela consideração que o movimento lomográfico me merece. Eu não diria que este é o pior rolo que já experimentei – quanto mais não fosse por causa do Ektar 100 –, mas posso dizer que o Lomography Earl Grey não se compara com o Ilford FP4, que não ficou nada ameaçado no seu 1.º Lugar do Ranking M. V. M. de Películas. Também não é melhor que os Kodak Tri-X e T-Max. É pior que os outros Ilford que usei. E é pior que o Agfa APX 100. Como, com esta enumeração, esgotei a minha lista de rolos para preto-e-branco, só resta concluir que o Lomography Earl Grey é o pior que já usei.

Ao contrário do Agfa APX 100 – que, por ser o segundo rolo mais barato que comprei até hoje, é o que melhor se presta a uma comparação –, o Lomography Earl Grey é falho em contraste e em acutância. O mesmo que dizer que as imagens que produz são planas e muito pouco nítidas. O APX 100 tem um defeito, que é uma abundância inexplicável de grão para um rolo de uma velocidade tão baixa, mas o Earl Grey parece um rolo ASA 400 exposto com a máquina regulada para 100, de tão abundante e grosseiro que o seu grão é. A sua semelhança com os rolos ASA 400 é reforçada pelo facto de todas as fotografias que fiz com este rolo terem ficado sobreexpostas, com altas luzes violentamente estouradas, mesmo quando regulei a exposição para que o ponteiro do fotómetro ficasse a meio da escala. Isto é inexplicável. Nunca me aconteceu com nenhum outro rolo. Obrigou-me a usar a edição de imagem muito para além do que considero ser o meu limite – e mesmo assim ficaram os problemas irresolúveis da falta de nitidez e do excesso de grão.

Vou voltar a ser simpático e especular que este é um rolo perfeito para as imagens lo-fi de que alguns lomógrafos gostam: é o rolo ideal para as Holga e as Lomo e para o tipo de qualidade de imagem que caracteriza a lomografia. Simplesmente, a apresentação deste Lomography Earl Grey não é para mim. Eu fui demasiado mimado pelo melhor rolo para preto-e-branco que existe à superfície da terra, o Ilford FP4 Plus 125. É o rolo que, uma vez compreendido, me dá exactamente o que quero da fotografia a preto-e-branco: contraste, acutância, limpidez (mas não tanta que desvirtue o preto-e-branco pela ausência total de grão) e latitude na exposição. O Lomography parece ter sido concebido para ser o antónimo destas qualidades. Se tivesse uma La Sardina ou uma Fisheye 2, porém, talvez este fosse o meu rolo de eleição.

M. V. M.