Mais sobre edição de imagem

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Não há volta a dar-lhe: qualquer fotografia, tal como a câmara a captou, é insuficiente. Seja gravada num negativo – ou diapositivo – ou num sensor, nenhuma imagem está em condições de ser mostrada sem antes passar por uma fase de manipulação; quando nos referimos à fotografia analógica, esta fase desdobra-se na revelação e na ampliação (ou, em complemento ou alternativa a esta última, na digitalização); no campo da fotografia digital, esta manipulação denomina-se edição de imagem.

Logo por aqui se vê que, afinal de contas, não existe uma diferença tão acentuada entre os dois domínios. E as diferenças esbatem-se ainda mais quando se fotografa em Raw ou em negativo digital (DNG). Neste caso a edição de imagem no computador é uma verdadeira revelação digital. A manipulação – uso esta palavra sem o menor intuito pejorativo – da fotografia analógica consiste, numa primeira fase, na revelação. Logo aqui se pode alterar características como a tonalidade e o contraste, sendo as fotografias gravadas em rolo de película, contudo, menos manipuláveis neste estádio do que as chapas. É nestas que se pode aplicar todo o legado de Ansel Adams: só havendo uma imagem, é possível aplicar-lhe máscaras e outras ferramentas, o que é impossível com os rolos, que são revelados em bloco. As fotografias gravadas em rolos de película podem, contudo, ser manipuladas na ampliação: nesta etapa pode ajustar-se a geometria e usar-se inúmeros meios de fazer variar a tonalidade e o contraste.

A fotografia digital tornou tudo isto mais fácil: era possível manipular fotografias analógicas, mas agora pode-se aplicar todas as ferramentas usadas na revelação e na ampliação de uma forma simples e eficiente. A edição de imagem tem um alcance e importância tal que atinge o paradoxo de contribuir para a subsistência da fotografia analógica, já que é possível processar digitalmente as digitalizações das películas. Pode facilmente adicionar-se elementos ao enquadramento, o que na fotografia analógica implicava duplas exposições ou sobreposições de negativos (o que era uma arte, mas consumia tempo e recursos), pode distorcer-se a perspectiva ad absurdum e operações como manipular o tom e o contraste tornaram-se básicas. A edição de imagem levou os limites da manipulação das fotografias tão longe que o último limite é as opções estéticas – ou mesmo éticas – do fotógrafo.

Por tudo isto, é importante não ter preconceitos quando o assunto em discussão é a edição de imagem. Ela não é mais do que aquilo que se fazia nos tanques de revelação e no ampliador, mas transferido para um computador. Contudo, sempre direi que a fronteira é exactamente esta: tudo o que exceda este uso da edição de imagem torna a fotografia numa falsidade.

As opções e variáveis são tantas que nem sei por onde começar. Também aqui é importante deixar as preferências de lado: não faz sentido pintarmo-nos com as cores de guerra de um determinado programa de edição de imagem e irmos para a internet atacar quem usa programas de outras marcas. O que deve ser feito é experimentar todos os programas – penso que não há nenhum, entre os pagos, que não ofereça a possibilidade de experimentar gratuitamente por um mês – e determinar qual aquele que produz os melhores resultados com menos trabalho. No meu caso, o DxO foi escolhido depois de o comparar longamente com o Lightroom (e tendo por referência o Olympus Viewer 2, gratuito para quem tem câmaras Olympus), mas outras pessoas poderão preferir outros programas.

Depois há que ver se não haverá um programa que corresponda a necessidades específicas: por exemplo, eu tenho por seguro que a melhor maneira de converter um ficheiro Raw para preto-e-branco é usar o Photoshop e escolher a opção Image → Mode → Grayscale (foi um gráfico experiente quem me deu este conselho, que sigo mais ou menos religiosamente), mas há quem não prescinda de filtrar os laranjas no Lightroom. Tudo bem. São metodologias que, no fundo, servem o mesmo objectivo.

Ainda quanto às necessidades, é talvez importante ter em conta que nem todos os programas de gráficos são importantes para quem fotografa. O Photoshop (propriamente dito, o da Adobe) e o Corel Photo-Paint não são estritamente necessários porque são programas vocacionados para artes gráficas. Quem os utiliza exclusivamente para retocar fotografias apenas aproveita 10% – ou menos – das funcionalidades dos programas. O mesmo se diga do clone open source do Photoshop, o Gimp. Estes programas, salvo quando são usados numa cloud (como o Photoshop CC), só servem para ocupar espaço no disco do computador.

Por fim, há que fazer escolhas baseadas no preço. O Lightroom pode ser usado em cloud, poupando espaço no disco, mas esta é uma opção bastante gravosa. Há programas pagos de altíssima qualidade, como o Phase One Capture One e o DxO, e há programas open source, como o Darktable que, ao que dizem, é muito bom. E, evidentemente, há também os que as marcas oferecem com a compra das suas câmaras. Por exemplo, os utilizadores das Fujifilm com sensores X-Trans obterão resultados menos que sofríveis com o Lightroom (o DxO nem se dá ao trabalho…), mas poderão ficar incrivelmente satisfeitos com o MyFinePix Studio.

Como vêem, a edição de imagem é um mundo variado e cheio de escolhas. Não me cabe a mim dizer quais as melhores. Como diria o eterno Morrissey, Why Don’t You Find Out For Yourself?

M. V. M.

Mais sobre correcção da perspectiva

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Continuando com o tema da correcção da perspectiva na edição de imagem, deixei alguns assuntos de fora do texto de ontem. Fi-lo mais ou menos propositadamente, porque o texto de ontem estava já demasiado extenso e eu estabeleci um limiar de legibilidade para estes textos, que é o de ocuparem no máximo uma página e um terço no programa de texto, em caracteres Times New Roman com o tamanho 12. Esse limite já estava excedido, pelo que o texto de hoje é o que transbordou do de ontem.

Há um aspecto muito importante na correcção da geometria a que não me referi ontem: a distorção da lente. Referi-a de passagem quando aludi à distorção anamórfica das lentes grande-angulares, mas há outras distorções bem mais frequentes e tanto ou mais nocivas. As grande-angulares produzem aquilo a que se chama distorção de barril, o que altera substancialmente a geometria da imagem e dificulta a correcção. Felizmente, qualquer bom programa de edição de imagem corrige este tipo de distorção com facilidade. Desde que a lente seja reconhecida, o Adobe Camera Raw e o DxO Optics corrigem-na automaticamente; se as lentes forem manuais, sem comunicação electrónica com a câmara, o DxO faz um trabalho melhor porque a correcção é mais progressiva.

Obter uma geometria perfeita das linhas verticais e horizontais pode ser um pesadelo. Já me aconteceu despender horas da minha vida a tentar obter uma boa geometria e não conseguir – pelo menos sem recorrer a grandes meios. O DxO tem dois comandos muito interessantes: com eles, pode sobrepor-se linhas ao objecto que se quer corrigir; com um, desenha-se um rectângulo e, com o outro, duas linhas paralelas. Et voilà – no primeiro caso ficamos com um quadrilátero perfeito, no segundo com linhas paralelas rigorosas. E tudo isto sem acrescentar camadas que fazem com que o ficheiro tenha mais que o dobro do tamanho depois de corrigido, que é o que acontece a quem usa as ferramentas do Photoshop Creative Suite.

Para quem não estiver interessado em gastar fortunas em programas de edição de imagem, em plug-ins ou na subscrição da cloud da Adobe (que é agora o único meio legal de ter o Photoshop), há sempre o Gimp. É bom que exista software livre (já agora, ficam a saber que os textos do Número f/ são escritos no OpenOffice Writer antes de serem publicados na internet). Eu já tive o Gimp instalado, mas nessa altura este programa não tinha ferramentas de correcção da perspectiva. Ora, diz-nos o nosso leitor A. Tarzan Dumental (tenho a suspeita que este não é o seu nome verdadeiro) que é possível, a quem tiver o Gimp, instalar gratuitamente um plug-in chamado gimplensfun. Nada como experimentar.

Por fim há a questão, digamos, ética de toda esta manipulação da imagem. Devo começar por dizer que considero estas correcções fundamentais em muitas das minhas fotografias – ou pelo menos naquelas em que exijo de mim mesmo uma geometria rigorosa, de pouco importando se são ficheiros Raw ou digitalizações de negativos. Não tenho qualquer problema em corrigir as minhas imagens, se isto torna as fotografias melhores. Corrigir a perspectiva não é, de resto, nada que não pudesse ser feito no ampliador ou na revelação de chapas, pelo que não tenho qualquer puritanismo. Isto não está em contradição com dizer que é preferível optimizar a perspectiva antes de premir o botão do obturador: há casos em que a perspectiva fica incorrecta mesmo depois de se ter tomado todos os cuidados com o alinhamento da lente em relação ao objecto. Quando isto acontece, não vejo por que se deve ter reservas em utilizar as ferramentas de correcção da perspectiva.

M. V. M.

Corrigindo a geometria na edição de imagem

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Por vezes gosto de procurar a geometria absoluta, o que é inacreditavelmente difícil em fotografia. Quando olhamos para um objecto, só vemos as linhas paralelas ou perpendiculares na sua dimensão correcta se estivermos num ponto muito preciso. Imaginemos uma casa: para que as linhas verticais e horizontais fiquem direitas, é necessário que o ponto de vista se situe a meio da fachada – e, mesmo que isto seja possível, existirá sempre a dimensão de profundidade, que faz convergir as linhas para o centro da imagem. Se não fosse assim, nunca teríamos a percepção de tridimensionalidade do objecto numa imagem.

É necessário ter em conta que o nosso cérebro tem o hábito de nos enganar quando vemos certas linhas. Estas podem parecer-nos direitas quando o nosso ponto de vista está ligeiramente acima ou abaixo do meio do objecto e, confiando nesta percepção, fotografamo-las convencidos que as linhas estão realmente direitas. Depois temos uma desilusão enorme quando vemos as fotografias porque, ao contrário do nosso cérebro, a lente não compensa os desvios de perspectiva: se o ponto de vista é baixo, as linhas verticais convergem para o alto; se o ponto de vista estiver à esquerda do centro do objecto, as linhas horizontais vão convergir para a direita.

A perspectiva correcta, com as linhas horizontais e verticais perfeitamente paralelas e perpendiculares, pode ser obtida desde que se tenha bom olho para a geometria, o ponto de vista coincida com o meio do objecto e, preferencialmente, se use um tripé. Contudo, mesmo com todos estes cuidados é difícil obter uma geometria perfeita. Especialmente se usarmos lentes grande-angulares, como é quase obrigatório quando se fotografam interiores. Por vezes, mais vale desistir da pretensão de simetria, como fez Ralph Gibson com a célebre fotografia da mão alcançando a maçaneta de uma porta, na qual jogou deliberadamente com a distorção geométrica da porta. Ou então deixar que as linhas ascendentes contribuam para a sensação de altura. O que também pode ser usado com fins expressivos. O que não gosto, definitivamente, é de linhas convergindo para baixo, que inevitavelmente se produzem quando o ponto de vista é alto.

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Por Ralph Gibson

Pode dar-se, porém, que não renunciemos a essa geometria em que as linhas surgem perfeitamente direitas. Na improbabilidade de usar lentes de controlo de perspectiva (tilt-and-shift), que são absurdamente caras e só se justificam para fins profissionais. E sendo impossível obter uma geometria perfeita por o objecto ser demasiado alto ou ser difícil, por qualquer motivo, encontrar um ponto de vista favorável, só resta usar a edição de imagem.

Importa dizer que o nível, a perspectiva horizontal e a vertical são interdependentes: uma fotografia desnivelada nunca poderá ser ajustada na vertical e na horizontal. Por mais trabalho que se tenha, nunca vai ficar bem. O mesmo se uma das outras perspectivas estiver incorrecta. Todas têm de ser corrigidas para obter uma geometria absoluta. Daí que seja mais fácil acertar com a perspectiva antes de carregar no botão do obturador: a correcção na edição de imagem pode ser extremamente fastidiosa. Contudo, como existe a ilusão a que aludi acima, com o cérebro a assumir como paralelas ou perpendiculares linhas que não o são, muitas vezes o recurso à edição para corrigir a perspectiva é inevitável.

As ferramentas de correcção da perspectiva são razoavelmente eficazes, quando não excelentes. O Lightroom e o Photoshop CS corrigem o nível, a perspectiva horizontal e a vertical e fazem um trabalho aceitável. O DxO Optics, porém, leva as coisas um pouco mais longe e, além destas correcções da perspectiva, corrige as próprias distorções típicas da lente, como a distorção anamórfica das grande-angulares.

Há um preço a pagar por estas correcções, uma vez que a imagem vai ficar mais pequena. E, se não tivermos cuidado, o trabalho de correcção da perspectiva vai notar-se nas margens. O Lightroom tem a característica irritante de apresentar as imagens cortadas de maneira a notar-se que foram corrigidas, com triângulos brancos a ladear a imagem, tendo de ser o utilizador a fazer o corte da imagem. Além disto, ambos os programas da Adobe esticam as imagens, não fazendo um verdadeiro controlo das dimensões. Neste aspecto não existe nada que se compare às ferramentas de correcção da perspectiva da DxO (é uma pena que este programa, por qualquer motivo que desconheço por completo, não reconheça imagens digitalizadas a preto-e-branco): além de, tal como o Photoshop CS, fazer o corte automaticamente, o DxO corrige as dimensões. As imagens não ficam comprimidas nem esticadas.

Isto pode parecer publicidade descarada, mas não é. Estas são as conclusões que retirei do uso de cada um dos programas. Apesar de o Lightroom e o CS apresentarem resultados decentes, o utilizador destes programas pode instalar, como plug-in, o DxO Viewpoint. Ou, em alternativa, o PT Lens, que é um plug-in barato que faz o seu trabalho com bastante competência, embora não seja tão completo.

M. V. M.

Nas nuvens

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As manhãs de chuva são um tédio. Especialmente as de Domingo, quando não há nada que nos obrigue a sair de casa. Tentei sair para fotografar, mas a chuva não me deixou, pelo que voltei atrás e sentei ao computador.

Como o tédio costuma inspirar ideias parvas, resolvi ver se o DxO Optics já se tinha decidido a abrir os ficheiros TIFF em escala de cinzas em que as digitalizações converteram as minhas fotografias. Népias. Nem sequer as reconhece – quanto mais abri-las. Isto é uma pena, porque os ajustes do DxO são particularmente eficazes – desde que não se confie na compensação da exposição «inteligente», que deixa sistematicamente as imagens subexpostas – e a redução do ruído é a menos destrutiva de todos os programas que experimentei. Os leitores mais veteranos poderão (ou não) lembrar-se que escolhi o DxO Pro 7 em detrimento do Lightroom 4 depois de ter testado ambos em 2012, mas hoje, em face desta limitação do DxO, resolvi tentar de novo o Lightroom. Podia ser que este último condescendesse em abrir e editar os ficheiros TIFF monocromáticos.

Antes de prosseguir, algumas palavras sobre a edição de imagem dos ficheiros digitalizados realizados a partir dos meus negativos: eu não sou um purista que entende que as imagens devem ser mostradas tal como saíram da câmara (ou do scanner); se puder recuperar uma imagem, tendo os meios para o fazer, seria tolo se me mantivesse arreigado a princípios obtusos. Mas também não sou dos que trabalham as imagens no computador até as tornarem noutra coisa completamente diferente daquilo que vi quando decidi premir o botão do obturador: as minhas necessidades quanto às fotografias analógicas convertidas resumem-se a alguns ajustamentos – em especial a redução das altas luzes, porque estas podem sempre sair um pouco exageradas quando se expõe para as sombras –, à remoção de manchas e ao recorte e rectificação do nível. Por vezes preciso de ir mais longe para recuperar uma ou outra fotografia subexposta ou sobreexposta, mas uso a edição com muita parcimónia. Tenho usado o Windows Live Photo Gallery para estes ajustamentos da exposição, mas este programa converte os ficheiros de escala de cinzas a 16% em RGB ao adicionar-lhes uma transparência. Para lhes devolver a natureza de imagens monocromáticas, uso o Photoshop CS e transformo-os em escalas de cinzas, mas o CS não serve apenas para isto: as suas ferramentas de correcção da perspectiva (que podem ser encontradas em Filter → Lens Correction → Custom) são bastante eficazes – embora não tanto como as do DxO. Isto é tão complicado que, se pudesse usar apenas um programa, seria uma enorme poupança de tempo e trabalho.

Pois bem: retomando o tema deste texto, resolvi experimentar o Lightroom. Tal como vaticinara há já algum tempo, quando a Adobe decidiu agrupar as suas ferramentas de manipulação de imagem na Creative Cloud, o Lightroom também já só está disponível nesta última. A CC não o incluía quando foi lançada, pelo que o Lr podia ser adquirido e instalado no computador sem estar ligado a um servidor mundial, mas agora só se acede a ele subscrevendo a Creative Cloud. Mesmo assim resolvi experimentar o Lightroom, que vai agora na versão 5.7; descarreguei-o – o que é uma operação fastidiosa e demorada – e não tardei a experimentá-lo.

Vieram-me de imediato à mente os motivos por que, quando fotografava exclusivamente digital, rejeitei o Lr em benefício do DxO. Este programa, apesar de ter uns filtros muito fancy, faz exactamente o mesmo que qualquer outro (Windows Live Photo Gallery incluído) no que toca à exposição. Permite, é certo, um ajuste muito preciso dos tons nas fotografias a preto-e-branco, mas no essencial não faz mais nem melhor que outros programas. Pelo contrário, a redução do ruído e o unsharp mask não são nada subtis e estragam mais do que consertam. Além disto, converte as imagens em RGB, pelo que nunca poderia dispensar o Photoshop CS se quisesse revertê-las para escalas de cinzas. Pior do que as insuficiências da aplicação (sim, porque, com a migração para a cloud, o Lr deixou de ser um programa para se tornar numa app) é o preço: o Lr pode ser subscrito pela quantia de €12,29 mensais, o que perfaz a quantia anual de €147,48. Contudo, é importante referir que a Adobe tem um preço especial se o «usuário» fizer uma subscrição anual: €146,71. O que quer dizer que a subscrição deste último plano significa uma poupança considerável: setenta e sete cêntimos! Ao menos têm sentido de humor…

Eu já estava à espera disto quando a Adobe engendrou a Creative Cloud. O Lr podia ser adquirido por menos do que esta anualidade e, mesmo que o seu utilizador actualizasse o programa todos os anos, nunca ficaria tão caro como estas subscrições. Agora quem tem o Lightroom (ou qualquer outro programa) só tem duas opções: ou mantém um programa desactualizado ou adere à Cloud. Que espertos que eles são: mesmo que alguém saque o Lightroom à borla, não vai poder senão usar uma versão desactualizada; pouco importa, aos responsáveis da Adobe, se alguém sacar o Lightroom. (O que até não será má ideia porque, tanto quanto me lembro, o Lightroom 4 era mais simples e claro do que este 5.7 e fazia o mesmo.)

Há mais: com a subscrição da Cloud, o utente assina um termo que permite à Adobe o acesso e recolha de informações sobre as suas fotografias. Eu acredito que a equipa do Photoshop use este acesso para melhorar o programa e traçar perfis dos utilizadores, das câmaras e das lentes, mas o potencial desta recolha para violação da propriedade intelectual é tão grande que mais vale que o consumidor consciente se mantenha afastado da Cloud. Não digo que a própria Adobe vá roubar as fotografias dos seus clientes, mas não é impossível que algum hacker pirateie a Cloud e se aproprie delas. O que pode ser um caso sério.

M. V. M.

Um pequeno conselho

O M. V. M. em acção, apanhado por Vítor Borges na Praia Internacional
O M. V. M. em acção, apanhado por Vítor Borges na Praia Internacional

Tenho reparado que, apesar da vaga imparável da fotografia convencional, algumas pessoas resistem e continuam a fotografar digital. São uma minoria cada vez mais escassa, mas ainda significativa. O conselho que hoje vou dar é para este grupo de excêntricos que ainda não se converteu às virtudes de usar o Ilford FP4 ou o portentoso Kodak Tri-X.

Pois bem: algumas destas pessoas que insistem em transformar o que vêem em pixéis gostam de fazer fotografias a preto-e-branco. Contudo, quando seleccionam essa opção nos seus pequenos computadores com lentes, perdem o benefício – um dos poucos de fotografar digital – de fazer ficheiros raw. Com efeito, as opções de tonalidade das câmaras digitais só são aplicadas nos ficheiros JPEG; os raw não as utilizam. Com o raw, todas as imagens são a cores (excepto, evidentemente, se o prezado leitor for um milionário que tiver adquirido uma Leica M Monochrom, sendo que, neste caso, terá um ficheiro DNG).

Ora, como referi, o raw é um benefício. É um pobre e triste sucedâneo digital do laboratório, mas pelo menos tem o mérito de ser infinitamente mais versátil que o formato JPEG quando se edita a imagem. Perante isto, como deve o resistente digitalista que aprecia fotografias a preto-e-branco proceder?

É muito simples: fotografa em raw e depois converte a imagem para preto-e-branco. Mas atenção, porque nem todos os programas convertem os ficheiros em preto-e-branco puro. O DxO, que de resto continuo a considerar o melhor programa de edição de imagem, não o faz. O Olympus Viewer e o Windows Live Photo Gallery também não. O que estes programas fazem é retirar a saturação dos canais RGB, mantendo informação de cor. O que nem sempre é satisfatório.

A única forma de converter um ficheiro raw num bom preto-e-branco é convertê-lo numa escala de cinzas. Só assim se pode excluir a informação de cor e obter um preto-e-branco puro. Isto pode ser feito no Photoshop CS usando as opções imagemodegrayscale da barra de tarefas. No Adobe Lightroom, a conversão faz-se seleccionando basictreatmentblack and white. Isto, em princípio, poderá bastar, mas pode também ser necessário modificar a exposição e o contraste para dar um pouco de verosimilhança à imagem. Um conselho óbvio será usar o Nik Silver Efex ou o DxO Film Pack, que podem ser instalados como plug-ins no Photoshop e fazem um bom trabalho, mas também será possível, com um pouco de sorte, usar os comandos normais dos programas. É evidente que nunca vão ficar com imagens como as que teriam com uma máquina fotográfica a sério e rolos como os Ilford FP4 e o Kodak Tri-X; não terão a acutância do primeiro nem a verosimilhança das texturas do segundo, mas o resultado pode ser um arremedo interessante.

M. V. M.

O logro dos puristas

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Ficheiro JPEG tal como saiu da câmara: pouco contraste, altas luzes estouradas, aberrações cromáticas insuportáveis

Eu fui um purista. Deixem-me começar por esta confissão. Houve uma altura da minha vida em que acreditei que uma câmara digital devia produzir boas fotografias tal como elas são descarregadas para o computador. Foi por este motivo que quis comprar uma câmara evoluída.

O choque com a realidade produziu-se muito cedo. Talvez por pensar que os JPEG que ia vendo na Internet eram tal como saídos da câmara, cedo fiquei desiludido com a qualidade das fotografias que obtinha. Algumas saíam bem, mas eram uma minoria: a câmara tem uma excelente descrição das cores, mas as lentes não ajudam muito a conseguir bons contrastes – para além, evidentemente, dos problemas de excesso das altas luzes que desde sempre se manifestaram. Bem cedo percebi que tinha de haver um mínimo de retoques para que a imagem ficasse como a idealizei. Eu retocava as imagens quando tinha a compacta, mas foi precisamente para me livrar dessa necessidade que comprei uma câmara decente. Este raciocínio mostra como estava enganado.

Nenhuma câmara é perfeita

Tinha acabado, sem o perceber, de cair na maior esparrela da fotografia digital: a de pensar que era com uma câmara melhor que ia fazer fotografias com maior qualidade. Agora que tinha a melhor câmara que podia ter, nada me ia impedir de fazer fotografias iguais àquelas imagens maravilhosas que via na Internet. Pensava eu.

Demorei algum tempo a perceber que aquelas imagens eram intensamente trabalhadas. Custou-me a aprender que resultados daqueles eram fruto da adição de camadas no Photoshop – quando eram JPEGs, claro. Porque depois há o Raw, que me suscitou alguma relutância por não compreender bem que isso dos JPEGs não era nada do que parecia.

Olhando um JPEG acabado de sair da câmara, sem edição, as conclusões são invariavelmente as mesmas, quer a máquina seja uma Olympus E-P1, uma Nikon D7000 ou uma Canon 5D: os resultados do processamento pela câmara são demasiado evidentes para passarem despercebidos. Há sempre – sempre! – uma textura granulosa nas porções mais homogéneas da imagem (como o céu), que é o que acontece quando se deixa a redução do ruído do processador da câmara fazer os seus estragos; as altas luzes são sempre proeminentes e as sombras ocultam muito pormenor; as cores não são nada naturais, surgindo sempre com uma saturação estudada para agradar ao cliente incauto. A imagem, quando comparada com um Raw bem trabalhado no Lightroom ou no DxO Optics, fica sempre a perder. Os ficheiros JPEG têm uma qualidade que é meramente aparente e não resiste a uma boa observação.

O que se pode concluir da análise de um JPEG saído da câmara é que não há câmaras perfeitas. Nenhum construtor se arroga que um dos seus produtos é capaz de fotografias perfeitas tal como são descarregadas para o computador. Todas as Leica – o que inclui as M e as médio formato da série S – incluem uma cópia do Adobe Lightroom. Isto podia ser interpretado como uma confissão de derrota, de incapacidade de fazer uma câmara digital perfeita, mas não é: é o próprio digital que é imperfeito. Tal como as fotografias da era convencional, cuja qualidade dependia da destreza na revelação e no ampliador. Se é verdade que não há câmaras perfeitas, isto também é verdade em relação às fotografias em geral. A perfeição não existe. Mesmo as fotografias feitas nos grandes estúdios, com câmaras de médio formato, são feitas em Raw e trabalhadas exaustivamente.

Por outro lado, é estúpido ser purista quando o processador da câmara faz tanto trabalho de edição. A questão, em relação à escolha entre Raw e JPEG, é sabermos se queremos ter controlo sobre o processo fotográfico ou se preferimos deixar que o critério de quem programou a câmara se sobreponha ao nosso gosto. Eu cá prefiro a primeira opção. Assim faço fotografias que ficam muito mais conformes à minha ideia original.

M. V. M.

Limites (a propósito do Photoshop CS e da edição de imagem)

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Ao contrário do que eu pensava, o Photoshop CS6 é excelente a corrigir distorções geométricas (as quais parecem ter-se tornado a minha bête noire, especialmente depois de descobrir, com choque e horror, que a OM 28mm-f/3.5 tem níveis assustadores de distorção de barril). Custou-me a localizar as ferramentas de correcção da distorção, mas acabei por encontrá-las – embora tenha necessitado de ajuda, devido à minha inexperiência com este programa.

As ferramentas de correcção da perspectiva estão no menu Filter da barra superior (presumo que exista uma versão portuguesa do CS6 em que o menu recebe o nome de Filtro) e acede-se a elas no submenu Lens correction. Foi isto que me induziu em erro, por ter pensado, ao descobrir este menu, que esta era uma ferramenta na qual se seleccionavam os perfis de lentes concebidas para o digital, mas no submenu Lens correction existe um separador chamado Custom. É aqui que aparecem as ferramentas de que  necessitam os que, como eu, usam lentes pré-históricas. Aqui faz-se tudo manualmente: podem corrigir-se as distorções da lente, as aberrações cromáticas, a vinhetagem, a perspectiva – nos planos horizontal e vertical –, o ângulo e a escala. Falta algo que o DxO Optics tem, que é a corecção da distorção anamórfica típica das grandes-angulares, mas isto serve-me de pouco porque o DxO recusa-se a abrir as digitalizações.

Estas ferramentas do Photoshop são extremamente eficazes, fazendo o seu trabalho de correcção sem adicionar novas distorções. Alguém poderá perguntar-se se usar ferramentas como estas não é corromper a pureza da fotografia convencional; a minha resposta é que não. Numa troca de impressões com R. S. D. na Câmaras & Companhia, aprendi que estas correcções podem ser feitas durante a ampliação, quer fazendo variar o ângulo da cabeça do ampliador, quer inclinando o plano onde se prende o papel fotográfico. R. S. D. tem uma filosofia com a qual concordo por inteiro: o seu limite, na edição de imagem, é aquilo que se pode fazer no ampliador. Quando se amplia um negativo, é possível alterar o brilho e o contraste, bem como corrigir a perspectiva. Não tenho razões para me recusar a fazer no domínio digital o que se pode fazer na revelação e na ampliação.

Na verdade, a minha maneira de pensar sobre as questões da edição de imagem mudou muito ao longo dos últimos três anos. Quando penso na maneira como me recusei a usar a edição de imagem nos primeiros tempos, sinto-me envergonhado por ter mantido pontos de vista tão pouco razoáveis. Até porque sempre usei um módico de edição, quer acentuando contrastes, quer recortando a imagem. Ora, ao fazer isto, estava a editar a imagem. O pecado estava cometido. De resto, onde está a pureza da imagem tal qual ela saiu da câmara – isto no caso da fotografia digital – se o processador da câmara introduz tantos parâmetros que, comparado com o ficheiro Raw, o JPEG saído da câmara mais parece ser outra fotografia do mesmo motivo?

Mesmo nos negativos digitalizados me parece legítimo recorrer à edição de imagem. Esta permite, tal como descobri quando comecei a usar o Lightroom 4 e o DxO Optics Pro 7, restituir o grau de controlo sobre a imagem de que necessita quem fotografa. Permite, por outras palavras, tornar a imagem naquilo que foi idealizado antes de premir o botão do disparo. Isto é uma dádiva para quem fotografa com intenções sérias. Decerto que o Photoshop levanta questões éticas, mas as suas fronteiras estão muito mais longe do que pensava há apenas alguns anos. Se um programa me faculta tornar a imagem naquilo que eu pretendia e não pude atingir por limitações do equipamento utilizado, por que não tornar a imagem em algo que corresponda à minha intenção fotográfica?

Há, contudo, um limite. O utilizador do Photoshop que vá longe demais, tornando a imagem em algo muito diferente daquilo que a lente viu, não pode pretender que o produto final é a realidade que a câmara captou. Neste caso estará a mentir. A fotografia é uma arte visual na qual é legítimo usar todo o tipo de ferramentas; o que não se pode é pretender que uma fotografia completamente manipulada é uma descrição da realidade que a lente viu. Quem o fizer está a transformar uma ilusão – toda a fotografia é uma ilusão – numa mentira. E eu sempre fui ensinado que mentir é muito feio.

M. V. M.