Modernismos

Paul Strand por Martine Franck

Anda aí uma polémica que inclui a Porto Editora, Álvaro de Campos (que ainda não se pronunciou sobre o assunto, e receio que não o fará) e um grupo de falsos indignados – sabem como é, aquelas pessoas que não têm mais nada para fazer senão vociferar acerca de coisas completamente irrelevantes. A polémica tem que ver com a inclusão da maravilhosa Ode Triunfal de Álvaro de Campos num manual para o 12.º Ano publicado pela Porto Editora. Este poema, que é composto de duzentos e quarenta versos, aparece no referido manual mutilado de três deles. Os versos em falta são estes:

Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas/ (…)/E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! — /Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada. (…)

Eu não queria embarcar no fake outrage que é um dos venenos do discurso público corrente, mas esta polémica leva-me a perguntar qual foi o sentido de apresentar aos alunos do 12.º Ano uma obra mutilada. Se era indecorosa, porquê incluí-la? Não faz sentido. E por que entendem aquelas pessoas, que substituíram os versos por tracejados, que os alunos do 12.º Ano necessitam de ser protegidos da linguagem vernacular e da pedofilia? Quanto a mim – e não foi para abordar esta controvérsia que resolvi escrever hoje –, os únicos perigos de apresentar a Ode Triunfal na sua integridade é os alunos não serem capazes de a entender e os professores de a explicar (e este último risco parece-me mais elevado que o primeiro). O resto são tergiversações ridículas.

 Eu confesso que não conhecia a Ode Triunfal. Conheço muitos poemas de Fernando Pessoa e dos heterónimos Alberto Caeiro e Ricardo Reis, mas tenho muito pouca (o mesmo é dizer nenhuma) familiaridade com a poesia de Álvaro de Campos. Resolvi ler o poema depois de ter tido conhecimento da controvérsia. Curiosamente, ao lê-lo, formaram-se na minha mente, como se fossem ilustrações da Ode Triunfal, algumas fotografias de Paul Strand.

O que tem tudo a ver, embora não pareça. Não, Strand não fotografou meninas de oito anos masturbando homens de aspecto decente em vãos de escada, mas era, tal como o heterónimo de Pessoa, um modernista. A sua linguagem é semelhante à de Álvaro de Campos, porque ambos vituperam a era em que viveram, mas souberam extrair dela matéria-prima para criar as suas obras.

A segunda década do século passado foi um prefácio dos tempos actuais. A revolução industrial trouxe consigo o progresso tecnológico, um mundo brilhante, frenético e glorioso (triunfal), mas também fez vítimas: gente vivendo em condições abjectas, consumismo, alienação e um crescente sentido do absurdo da vida andavam de mãos dadas com o progresso industrial e tecnológico. É deste lado negro do mundo pós-revolução industrial que Álvaro de Campos (melhor dizendo: Fernando Pessoa) fala na Ode Triunfal, e é isto que nos é sugerido por algumas fotografias do modernista Paul Strand. (Quem não entender isto não pode compreender arte.)

A fotografia libertou a pintura do real, mas também se soube libertar das significações óbvias e literais. Soube, sobretudo, desligar os objectos que captou da sua função e dar-lhes (às fotografias) um valor estético que não se reconduz à realidade corpórea dos objectos fotografados. É isto que devemos aos modernistas – a Paul Strand, a Man Ray e tantos outros que contribuíram para fazer da fotografia uma arte. Mas alguns souberam ilustrar os dois lados da vida moderna. Strand foi um deles.

M. V. M.

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Sentido (auto) crítico

A única fotografia do meu primeiro ano que resistiu à passagem do tempo

Não, aquele «auto» entre parênteses do título de hoje não significa que vou voltar a escrever sobre automóveis – embora, por estes dias, o assunto me pareça mais interessante do que a fotografia. O assunto de hoje é a avaliação que eu faço das minhas fotografias, mas penso que isto se estende a muita gente, exceptuados a) aqueles que são tão destituídos de sentido crítico que imaginam que tudo o que fazem são obras-primas e b) os que subestimam toda a sua produção.

É normal confundirmos o entusiasmo que sentimos por uma fotografia que fizemos com um juízo sobre o seu valor. Garry Winogrand, que deixou um espólio de  doze mil rolos por ampliar – fora as suas fotografias conhecidas e divulgadas –, disse isto: «Photographers mistake the emotion they feel while taking the picture as judgment that the photograph is good». Vemos uma cena que nos agrada, fotografamo-la e ficamos todos contentes com a fotografia fantástica que acabamos de fazer; um mês mais tarde, ao vê-la, percebemos que, afinal, não era nada de especial. Um ano depois sentimo-nos tão embaraçados com a fotografia que só nos apetece pegar-lhe fogo e sentimo-nos ridículos por a termos mostrado a outras pessoas.

Isto é normal. Todos temos de passar por uma evolução. E o gosto, a sensibilidade estética e o sentido crítico são coisas que se educam e que evoluem em concomitância com a nossa maturação. A menos que sejamos demasiado teimosos e embotados para aceitar que tudo é passageiro, hoje não temos os mesmos gostos de há, digamos, cinco anos. Porque entretanto progredimos e evoluímos a todos os níveis. Nós não somos as mesmas pessoas de há cinco anos. Nós não somos as mesmas pessoas de há cinco minutos.

Estes lindos pensamentos vieram-me à mente depois da prometida limpeza do Flickr. Descobri que não me custou nada livrar-me de cerca de novecentas fotografias. Em tempos senti relutância em eliminar fotografias, porque muitas delas assinalavam momentos em que me diverti a fazê-las, mas se é certo que fotografar é divertido, também o é que uma fotografia vazia de qualquer ideia é uma redundância acrescentada ao mundo – de pouco importando quanto nos divertimos ao tirá-la.

Foram poucas as fotografias que ficaram dos meus primeiros três ou quatro anos, o que é bom: mostra que evoluí. O que não quer dizer que não possa, mais tarde, mudar de opinião sobre essas fotografias que ficaram, mas uma coisa é certa: tudo bem espremido, não ficam mais que um punhado de boas fotografias. O resto é lixo. Por muito que alguém fotografe, tudo o que fica é um punhado de fotografias.

Nada disto significa que se deva desistir de fotografar, ou se fotografe com uma parcimónia excessiva. Não é sensato pensar-se que se consegue ser tão selectivo que só se faça fotografias interessantes. Isto é impossível. Fazer fotografias falhadas faz parte da aprendizagem. Precisamos de fazer fotografias falhadas para que as boas se destaquem e para distinguir as boas das más. É como pescar: Às vezes vem uma bota velha, outras um saco de plástico; mas, quando o peixe morde o anzol, a satisfação é intensa. O problema é que as taínhas são mais abundantes que os robalos, mas a vida é assim mesmo. Não há nada a fazer: faremos sempre fotografias falhadas, por mais anos que passem. E as que não são falhadas podem não resistir à passagem dos anos. É um facto com o qual temos de aprender a viver.

M. V. M.

Mais sobre automóveis e fotografia

Apenas uma ou duas curiosidades para terminar o assunto Lancia Delta. Aludi – penso que aludi, não me apetece ir confirmar – ao facto de o Lancia Delta ser um automóvel evoluído para o tempo em que foi lançado. De facto, as suas suspensões são sofisticadas e os equipamentos bastante modernos, mas o componente do meu Delta com a história mais interessante é o motor.

O meu Lancia Delta é um mero 1.3 LX, mas o seu motor é, em si mesmo, uma parte importante da história automóvel. Quem o concebeu foi o engenheiro italiano Aurelio Lampredi, que nos anos 40 e 50 do século passado trabalhou na Ferrari, para a qual concebeu os motores V12 dos modelos de Fórmula 1 com que Alberto Ascari foi campeão em 1952 e 1953. Entretanto a Ferrari adquiriu a estrutura desportiva da Lancia e com ela os serviços do mitológico Vittorio Jano, que substituiu Lampredi; este último mudou para a Fiat, onde, além do sucesso obtido nos ralis com os Fiat Abarth 124 Spyder e 131, concebeu os três motores mais importantes da Fiat entre os anos 70 e 90: os motores SOHC (de Single OverHead Camshaft) 903 cm3, 1118 cm3e 1301 cm3.

Destes motores, o primeiro equipou o Fiat 127 e os outros dois foram usados em diversos modelos da Fiat (e. g. os Uno 55S e 70SX) e da Lancia. Apesar de terem sido concebidos nos finais dos anos 60, eram motores com válvulas no topo dos cilindros, árvore de cames à cabeça, comandada por correia de borracha, e cabeça de alumínio. O tipo de motor que viria a ser copiado por praticamente todos os demais fabricantes.

O meu Lancia tem um motor Lampredi, mais concretamente o 1301 cm3. Conduzo, pois, um pedaço glorioso de história do automóvel. O próprio design é histórico, pois o Delta foi desenhado pela Ital Design de Giorgetto Giugiaro, antigo chefe do design da Bertone e reconhecido como designer automóvel do século em 1999. Com tudo isto, mais o sucesso nos ralis, como podia o Lancia Delta deixar de ser um automóvel de prestígio?

Prestigioso ou não, o meu Delta serviu para me deslocar na primeira sessão fotográfica séria. Foi no Domingo. Descobri, chocado, que fiz doze fotografias entre o dia em que fiquei sem carro (29 de Setembro) e esse Domingo. Doze fotografias em dois meses! Se este número não é eloquente para exprimir o desânimo que se abateu sobre mim, não sei que mais dizer… Agora a sério: o lugar onde moro não é exactamente fotogénico. É-o para turistas que gostam de fotografar banalidades como a ponte da Arrábida e os barquinhos da Cantareira, mas não para mim. Já fotografei tudo o que me interessava na minha zona, o que inclui o Museu de Arte Contemporânea (que fica a cerca de um quilómetro de minha casa). A aquisição de um automóvel – tivesse ele sido qual fosse – foi uma libertação. Daí que me tenha permitido aborrecer os leitores com o assunto Delta.

Por outro lado, esta privação serviu para confirmar a inutilidade de fotografar muito, assunto ao qual já me referi (espaldado pelo exemplo de Paulo Nozolino). Não vale a pena fotografar por fotografar, não vale a pena fotografar tudo o que se vê. Por vezes mais vale não fotografar nada, porque fotografar por desfastio ou porque a tanto nos obrigamos nunca dá bons resultados. Para fotografar bem, é necessário sentir uma certa alegria, um determinado estímulo. E isto faltou-me completamente por ter estado privado de meios idóneos de locomoção, o que me faz suspeitar que algumas dessas doze fotografias são inaproveitáveis. Felizmente esse tempo ficou para trás.

M. V. M.

As mudanças no Flickr e eu

Estou no Flickr desde 2011. Desde então, este website de partilha de fotografias cum banco de imagens passou por algumas transformações. Quando comecei, aqueles que optassem por um plano gratuito podiam carregar um número máximo de duzentas fotografias ou vídeos e tinham acesso a estatísticas; como entendi que duzentas fotografias eram poucas, subscrevi a modalidade «Pro» por cerca de €25 anuais, que me permitia carregar um número ilimitado de fotografias.

Mais tarde foi introduzida uma nova modalidade gratuita que admitia o upload de 1 TB de fotografias (embora sem estatísticas). Decidi poupar dinheiro e abandonar a modalidade «Pro». Afinal de contas, as estatísticas não são assim tão importantes: o que pretendo do Flickr é que vejam e apreciem as minhas fotografias. Quantos o fazem não é tão importante, e de resto continuei a saber quantas pessoas viam cada uma das fotografias carregadas. No meu entender, ver gráficos com o número de visitas diárias às minhas páginas do Flickr não justificava o dispêndio (mesmo se €25 por ano está longe de ser redibitório).

Entretanto a Yahoo vendeu o Flickr ao grupo Oath. Agora as coisas são um bocado diferentes: a capacidade de carregamento da modalidade gratuita deixou de ser 1TB e é limitada a mil (1000) fotografias, continua a não haver estatísticas e quem visitar a página fica sujeito a ver publicidade; na modalidade «Pro», o carregamento é ilimitado, tem-se direito a ver a evolução diária do número de visitantes com a ajuda de gráficos e não há publicidade, mas a anuidade aumentou para USD $50 (cerca de €44 à cotação de hoje).

Mil fotografias pode parecer pouco, mas não é. É até cinco vezes mais fotografias do que as que podia carregar quando me inscrevi no Flickr. Nós conhecemos dez ou vinte fotografias dos melhores fotógrafos do mundo; podemos suspeitar, com razão, que, por cada grande fotografia de um determinado autor, haverá umas dez menos conseguidas, mas de enorme valor. O que dará umas quatrocentas fotografias. E nós, que não passamos de amadores com a patética ilusão de que fazemos alguma coisa de interesse, pensamos que precisamos de espaço ilimitado.

Vamos ser francos: apenas uma milionésima parte das fotografias que se publicam no Flickr têm alguma originalidade. E estou a ser condescendente. O resto não passa de poluição cibernética. Não estou a ser pretensioso, porque me incluo nesta estimativa. Tenho cerca de 1700 fotografias no Flickr, mas sei que se fizesse uma selecção muito crítica, apenas uma mão-cheia escapava. E não sei se aquelas que sobrevivessem à minha análise crítica resistiriam a um julgamento futuro, porque o tempo é um mestre que nos ensina o que tem valor e o que não tem.

Quando tiver mais tempo livre vou fazer uma limpeza no meu Flickr. Não vou subscrever a modalidade «Pro». É bem possível que tenha de me conter para não apagar praticamente todas as fotografias, como já me apeteceu fazer em limpezas anteriores. Há muitas fotografias que não têm originalidade nem valor estético, mas evocam momentos interessantes das minhas caçadas fotográficas; é possível que deixe quatrocentas ou quinhentas fotografias. (Eu terei de fazer esta selecção, pois se não o fizer o Flickr fá-la-á por mim e será certamente menos criterioso.) E mesmo assim já serão muitas: se o leitor conhece vinte fotografias de HC-B, para que quererá conhecer quatrocentas do M. V. M.?

M. V. M.

Smartphones e coletes retro-reflectores

No último texto escrevi isto: «preciso de sentir que estou a divertir-me quando fotografo, o que não acontece quando o faço com aparelhos digitais». Tinha em mente, como quem leu o texto pode ter deduzido, fotografar com o telemóvel.

O acidente que referi no texto de ontem teve lugar durante um Sábado: depois de fazer fotografias em número suficiente para acabar de expor um rolo, passei pela Câmaras & Cia. para entregar o dito e conversar um pouco. (O R. S. D. e a Leonor são excelentes anfitriões e os Sábados de tarde são muito propícios ao convívio.) Foi quando ia para casa, num cruzamento a trezentos metros do local onde moro, que tive o acidente. Uma das primeiras precauções que tomei foi a de tirar fotografias do local e dos automóveis, mas pareceu-me pouco prático usar a OM-2n para este fim, pelo que lancei mão do telemóvel.

O meu telemóvel não é daqueles que têm uma quantidade enorme de objectivas e é anterior à invenção, pelos patetas da dpreview.com, da expressão «fotografia computacional»: é um Asus Zenfone 2, um smartphone barato movido pelo exasperante sistema operativo Android. Raramente o uso para fotografar: não que seja mau de todo – com boa luz é capaz de resultados interessantes –, mas os leitores já me conhecem: eu não fotografo por compulsão, nem para mostrar qualquer coisa que acabei de ver. O telemóvel é algo que uso para telefonar, enviar mensagens e aceder à Internet ocasionalmente, quando estou longe do computador (e tenho wi-fi). Como não faço selfies nem uso as redes sociais, o telemóvel não tem muito interesse como câmara fotográfica.

Mas nesse dia nefando foi útil. O acidente ocorreu ao entardecer, o que dificultou a vida ao pobre do smartphone, mas consegui tirar fotografias que se mostraram úteis. Contudo, a experiência foi incrivelmente penosa: antes de mais, um telemóvel é um pesadelo ergonómico para fotografar: ou se usa sempre na vertical, como muita gente faz, ou se segura na ponta dos dedos para fotografar na horizontal, o que obriga a contorções para carregar no comando do obturador. Acresce que no meu caso, como o ecrã do meu Asus é demasiado sensível ao toque, tirei múltiplas fotografias do mesmo enquadramento. Ainda quanto ao ecrã, este tem o problema típico de os objectos se tornarem invisíveis quando a luz incide directamente sobre ele.

A câmara demora uma eternidade a focar, e como o telemóvel, aparentemente, força o disparo quando o sistema de detecção de contraste não actua, as fotografias desfocadas são mais que muitas. Depois há os inconvenientes de um sensor minúsculo: as altas luzes estouram com facilidade, não há pormenor nas sombras e os níveis de ruído são assustadores. Este último é mascarado por um modo «baixa luminosidade», que induz o disparo do flash e acciona a redução do ruído, mas os resultados ainda são piores: a imagem fica empastelada e os contornos dos objectos perdem a nitidez. Resulta quando se vê a fotografia no próprio ecrã do smartphone, mas não resiste a uma ampliação da imagem – mesmo que para tamanhos apenas ligeiramente superiores.

Outro problema é o equilíbrio (automático, evidentemente) dos brancos: os vermelhos são afectados pelo excesso de matiz magenta, os azuis pela matiz ciano, e os rostos de pessoas saem de tal maneira pálidos que fazem pensar que os respectivos donos nunca foram a uma praia nas suas vidas. De resto, a objectiva – cuja utilidade é limitada pela distância focal única de grande-angular – presta-se a aberrações cromáticas e, por fim, o formato panorâmico imposto pela forma do ecrã do telemóvel é francamente desagradável.

Fotografar com o telemóvel é tão frustrante que não consigo compreender como alguém o usa com esse fim. É útil para fotografias de documentos ou de eventos como este meu acidente, mas para tudo o resto é inútil. Mais incrível, contudo, do que ser utilizado pelas multidões para fotografar, é haver quem faça gala de os usar só pelo armanço de mostrar que é tão genial que até com aqueles aparelhos é capaz de obras-primas. Por mim, dispenso-o: usá-lo foi tão agradável como andar com o colete retro-reflector enquanto o acidente não se resolveu.

M. V. M.

Dommage (onde se misturam automóveis, acidentes de viação e películas a preto-e-branco)

Bonk!

Seria muito bem feito se já não tivesse leitores. Mais de um mês sem escrever nada para o Número f/ é um recorde, mas é, sobretudo, uma falta de respeito por quem segue o blogue. Pelo facto peço as minhas mais humildes desculpas.

O meu jejum bloguístico teve uma causa muito concreta: tive um acidente de viação no dia 29 de Setembro e, desde então, reduzido à condição de simples peão, tenho fotografado muito pouco. O que levou a um desinteresse muito blasé pelas coisas da fotografia – e este desinteresse, por seu turno, implicou uma diminuição da vontade de escrever para o Número f/.

Vamos por partes: o acidente foi ridículo. Foi um toque insignificante num cruzamento, embora com consequências nefastas para o meu peugeotzinho, que foi para a perda total. O ridículo do acidente esteve no facto de o outro interveniente ser francês e não perceber uma palavra de português, o que me obrigou a ter uma discussão de trânsito em francês. Evidentemente, foi uma première. Ainda por cima, apesar de o homenzinho me ter dado cabo da vida e ter insistido que eu era o culpado porque vinha muito depressa (não é o que dizem todos?), não consegui antipatizar com ele e as ocupantes do outro automóvel: no fim já conversávamos cordialmente e até gabaram o meu Francês. Ou seja: um francês veio a Portugal com o único propósito de destruir o meu automóvel – por ironia, também francês – e eu acabo na cavaqueira com ele! C’est farouche.

Agora tenho a exorbitância de dois mil e quinhentos euros, a pagar pela seguradora a título de indemnização – o meu Peugeot 206 já tinha uma idade considerável, pelo que aquele valor não foi tão baixo ou injusto como pode parecer – para adquirir um automóvel. Posso juntar mais algum, mas estou confinado a adquirir um veículo em segunda mão. Estou mais indeciso do que o tolo de Teixeira de Pascoaes no meio da ponte de S. Gonçalo (para quem não sabe, a imagem do tolo no meio da ponte provém de uma criação de Teixeira de Pascoaes e apareceu na obra de 1923 O Pobre Tolo) quanto ao automóvel a adquirir: nas minhas visitas ao autouncle.pt, apareceu-me um veículo que desperta o amante da competição que existe em mim e se recusa a envelhecer: um Lancia Delta 1.3 LX. Seria certamente divertido de conduzir e tem uma estética maravilhosa, mas é um automóvel de concepção antiga – o motor é alimentado por carburador! – e é, objectivamente, pior que o Peugeot, mesmo se tem o potencial de se tornar num clássico.

Depois há em mim um amante do conforto, e eu deixo-me tentar pelo Citroën Xantia. O Xantia é o último dos verdadeiros Citroën: se não posso ter um DS21, igual ao da personagem Patrick Jane de O Mentalista, o Xantia é um descendente orgulhoso do boca-de-sapo e um bom sucedâneo. O problema do Xantia é ser um carro para homens idosos. Não é banal – é um dos automóveis mais elegantes e distintos do seu tempo e do seu segmento, só superado pelo Alfa Romeo 156 –, mas não é um veículo para retirar prazer da condução. A suspensão hidropneumática e as suas poltronas, porém, são tentadoras: o Xantia é um automóvel para gozar o conforto, o que, bem vistas as coisas, é uma forma sublimada de prazer.

Com o Delta ou o Xantia (ou outro: por exemplo, ainda não desisti do Alfa Romeo 147, um carrinho doentiamente chique), espero voltar a encontrar lugares onde fotografar. Perto de casa já está tudo visto, e nem sempre é prático fazer grandes caminhadas com a máquina fotográfica, pelo que o automóvel é, no meu entender, um bem essencial. Quando voltar a fotografar regularmente – e aqui volto ao tema deste blogue – já tenho uma nova película favorita: a Kentmere 100. Tem muito grão, mas o contraste está ao nível da Ilford FP4 (o que não é coisa pouca) e o grão confere-lhe carácter. E tem um preço muito razoável. Apesar de tudo, ainda não desisti de fotografar com película: a fotografia digital pode ser prática, mas não dá o mesmo prazer. Eu não preciso de mega-resolução, mas preciso de sentir que estou a divertir-me quando fotografo, o que não acontece quando o faço com aparelhos digitais.

Já que menciono a diversão: a fotografia do topo foi feita com o telemóvel. Foi uma das poucas em que a focagem não falhou rotundamente. Fotografar com um telemóvel está nos antípodas de divertido: não compreendo por que razão tanta gente o usa para fotografar.

M. V. M.

Técnica e telemóveis

As pessoas que conhecem as minhas fotografias sabem que elas não têm um conteúdo técnico assinalável. Pelo contrário, são raras aquelas em que recorro às técnicas fotográficas. Não por falta de confiança – o que seria perfeitamente legítimo quando se usa uma máquina fotográfica de película, na qual obviamente é impossível confirmar imediatamente os resultados –, nem por desconhecê-las, mas porque o tipo de fotografia que me interessa não requer o uso de técnicas especiais.

O que não significa que despreze as técnicas fotográficas. Pelo contrário: se eu tivesse uma palavra a dizer quanto aos curricula de um curso de fotografia, as aulas incluiriam, entre outras, o disparo do flash à segunda cortina, o arrastamento, o panning e até o zoom burst. Uma fotografia que viva só da técnica é uma fotografia vazia, uma demonstração fútil de conhecimento da técnica, mas – já o disse várias vezes – a técnica pode ser um poderoso auxiliar da expressão.

Este curso de fotografia para cuja elaboração eu seria chamado (o que seria tão certo de acontecer como eu ganhar o Prémio Nobel da literatura à custa dos textos do Número f/) seria só para alunos que tivessem câmaras a sério. Podiam ser DSLR, mirrorless ou compactas avançadas, mas teriam de ter controlos manuais da exposição e do flash, porque só com esses comandos é possível criar efeitos visuais através das técnicas fotográficas. O que quer dizer que, se dependesse de mim, nenhum curso de fotografia aceitaria smartphones.

Os smartphones não têm controlos de exposição. Existem apps que reproduzem os efeitos da exposição, mas são os algoritmos do processador, e não o utilizador, que criam esses efeitos. A única criatividade que existe nestas apps está em quem as programou. O que as apps fazem, por outras palavras, é simular os comandos de uma câmara: se pensarem bem, as objectivas dos telemóveis têm uma abertura fixa, o que implica, evidentemente, que não pode haver qualquer tipo de controlo sobre a abertura. Estamos aqui claramente no reino da fantasia, porque, se o utilizador não pode regular a abertura, não controla a exposição. Nem a abertura, o que vimos ser impossível, nem  o tempo de exposição, nem o ISO. Se eu quiser dar à fotografia um efeito criativo como o panning ou o arrastamento de objectos em movimento, preciso de dominar as técnicas: preciso de saber quais são as repercussões da abertura e do tempo de exposição na imagem e conhecer a lei da reciprocidade. Ora, com um telemóvel nada disto faz sentido: como não tenho qualquer controlo sobre o tempo de exposição, não posso fazer um panning nem dar um efeito de arrastamento.

Claro que o fanático da tecnologia que vier ler este texto vai dizer que eu vivo no passado, que a tecnologia evoluiu e que aquilo que faço com esforço está ao alcance do deslizar de um dedo sobre um slider no ecrã do smartphone. E eu, evidentemente, devo conformar-me com esta era de prodígios tecnológicos em que não é preciso saber fotografia para fotografar. Todavia, tanto quanto é do meu conhecimento não existe nenhuma app que consiga reproduzir técnicas como o arrastamento – o intencional, não o acidental – e o panning. Há algumas que simulam o bokeh, o qual depende sobretudo do uso de distâncias focais que os telemóveis, por limitações físicas óbvias, não podem ter, mas o artifício é tão evidente que não engana ninguém. Um dia as apps vão imitar todos estes efeitos, mas serão sempre isso mesmo: imitações.

Por tudo isto, e correndo o risco de parecer um pedante, digo que só um tolo pode pensar que o seu smartphone faz o mesmo que uma câmara fotográfica. É mentira. Aliás, a «fotografia computacional» é exactamente isto: uma mentira. É uma manipulação da imagem que dispensa o controlo e os conhecimentos do utilizador, pelo que não é exagerado dizer que é um embuste. Querem usar técnicas fotográficas? Aprendam fotografia e aprendam a utilizar uma câmara a sério. O resto é batota.

M. V. M.