Um texto sobre Photoshop

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Peço as minhas mais humildes desculpas aos leitores. Passou-se uma semana e o leitor, sequioso de conhecimentos sobre fotografia como um viajante que atravessasse um deserto (com aperitivos salgados como único alimento) chegou ao Número f/ e nada de novo leu. Eu sei, sou um miserável, mas o meu silêncio tem uma razão. Depois digo-vos qual, mas por agora posso deixar-vos um enigma a servir de pista: é um empreendimento (não no sentido empresarial do termo) em que faço a mistura que o senso comum mais desaconselha: negócios e prazer. (Não, não vou abrir uma casa de tias, seus patetas!)

Para vos compensar, sugiro que (quando fizerem uma pausa nos intrincados raciocínios que este meu enigma certamente dará origem) prestem um pouco de atenção ao website de James Fridman, um troll do Photoshop com um sentido de humor particularmente cáustico. Algumas das fotografias tratadas por ele quase me fizeram  sufocar de riso. Gozem bem, porque vale a pena :D

M. V. M.

Efeméride

Verifico com alguma preocupação, ao ler os meus últimos textos, que estes estão embebidos em amargura. São textos azedos e zangados. Chega. Não há razão para sobrecarregar os leitores com as minhas quezílias. Hoje o texto é festivo: assinala um aniversário. Foi no dia 12 de Junho de 2013 que adquiri a minha Olympus OM-2n e, consequentemente, descobri a fotografia analógica. (Quer dizer: já a conhecia, mas não com a intimidade que adquiri desde que comprei a OM.)

Que posso eu dizer acerca desta máquina caprichosa – já foi reparada duas vezes e volta e meia o espelho bloqueia – que me ensinou tudo o que eu precisava de saber sobre fotografia? Assim de repente, posso dizer que a resposta está incluída na pergunta: aprendi com ela tudo o que eu precisava de saber sobre fotografia. As correlações de reciprocidade entre abertura, tempo de exposição e sensibilidade já não têm dificuldades: uso-as instintivamente. Teorizar a exposição, neste momento, seria como se me indagasse sobre os mecanismos físicos do caminhar ou do respirar: são coisas que se fazem, não se pensam.

Talvez por causa da dificuldade em usar técnicas fotográficas especiais, as minhas fotografias tornaram-se mais simples e menos dependentes da técnica. O que é bom – embora, para ser verdadeiro, esta fosse uma tendência que já vinha de antes, pois foi mais ou menos no início de 2012 que decidi que as minhas fotografias precisavam de mais conteúdo e menos técnica. Embora fazer fotografia nocturna e arrastamentos seja um desafio excitante com uma máquina de película, o uso desta última contribuiu para que me dedicasse a fotografias mais singelas e procurasse – e esta é uma demanda que ainda não chegou ao fim e provavelmente nunca chegará – dar-lhes mais sentido, mais significado.

Depois há o lado puramente hedonístico. Parafraseando um amigo meu (não necessariamente a propósito da fotografia analógica), é uma ganza fotografar com uma máquina como a OM-2n. É. Accionar uma máquina como estas é um prazer. É tudo manual – penso que nunca fiz nenhuma fotografia recorrendo ao modo semi-automático de «preferência à abertura» – e cada disparo é uma experiência física: com a OM, o movimento das cortinas e o impacto do espelho sentem-se na ponta dos dedos da mão esquerda (eu sou daqueles que segura a objectiva por baixo, envolvendo-a com os dedos, como ditam os cânones). Ao contrário de outras máquinas, como algumas digitais e as de obturador central, sente-se e percebe-e o que está a acontecer. De certa forma, a máquina acaba por tornar-se numa extensão do corpo, criando-se uma simbiose, mas o gozo de fotografar com uma máquina que usa rolos e não um sensor não acaba aqui: depois de se sentir a vibração do disparo, há que avançar a película. Dito de uma forma simples: fazer uma fotografia sem accionar a patilha de avanço da película não é fotografar: é colher imagens.

Há outros factores. Não posso dizer que o facto de ter um número reduzido de exposições ao meu dispor me ensinou muito, porque já me havia dado conta da necessidade de fotografar menos e melhor (ou da inutilidade de tirar milhares de fotografias, o que vai dar ao mesmo) antes de comprar a OM. Diria que esta necessidade de pensar melhor antes de fotografar – de julgar o valor fotográfico de cada cena e seleccionar só as que valem a pena – foi uma causa, e não uma consequência, da compra da OM. E houve outros benefícios, como descobrir as diferenças entre películas. Fotografar com película é como namorar: temos de conhecer todas as que pudermos antes de escolher aquela a quem queremos dedicar-nos. (Eu sei que isto é piegas, mas eu avisei que chegava de amargura!) Já que estamos no campo das relações interpessoais, a fotografia analógica permitiu-me conhecer gente interessante. Também conheci gente interessante quando fotografava com a E-P1, mas com os analoguistas aprende-se mais.

Eu sei que a fotografia analógica não é perfeita. O rolo 135 é muito limitado e exige as melhores objectivas existentes para que não mostre as suas deficiências em demasia. (Talvez assim percebam por que tanta gente sonha acordada com as Leica M.) Contudo, o prazer de fotografar com uma máquina analógica é tão grande que não me imagino a voltar ao digital. Só no caso extremamente improvável de me tornar profissional, ou qualquer coisa semelhante, é que sentiria desejo de voltar a fotografar digital.

M. V. M.

O Presidente, o retrato, o artista de pechisbeque e o fotógrafo lorpa: reprise

Ainda com respeito ao texto de ontem sobre o «retrato oficial» do Presidente da República: decidi intitular esse texto, o qual foi motivado pela minha repulsa em relação à indiferença de todos diante do óbvio grotesco deste episódio, com um título longo e pouco original, no sentido em que lembra o de um filme de Peter Greenaway: chamei-lhe «O Presidente, o retrato, o artista de pechisbeque e o fotógrafo lorpa». Permitam-me decompor analiticamente este título, não sem antes repudiar de novo o silenciozinho canalha e o conformismo que caracterizam a atitude geral dos portugueses diante de acontecimentos dos quais este é apenas um exemplo (e nem sequer dos mais graves).

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, está a fazer campanha para o segundo mandato desde o dia em que tomou posse. Tudo o que ele diz ou faz está orientado para esse objectivo, apesar de não se ver quem poderá rivalizar com ele em 2021. Ele partiu para as eleições de 2016 com uma popularidade ímpar que lhe adveio de dez anos de exposição pública como comentador televisivo, mas eu devo-lhe um pouco mais de respeito do que aquele que a aparente genialidade dos seus comentários me mereceria. O Professor Marcelo Rebelo de Sousa é um intelectual de enorme craveira: ele doutorou-se em Direito Constitucional pela Universidade de Lisboa com a classificação de 19 valores. Diz-se que a sua tese foi tão brilhante que o único reparo que mereceu do júri foi formulado por José Joaquim Gomes Canotilho, que lhe apontou a escassez de referências bibliográficas. Diante disto, não pode ser invocado que ele desconheça o regime do direito de autor, embora este pertença ao ramo do direito civil e não ao direito público, como o direito constitucional e o administrativo. O que se pode argumentar é que ele não sabia da fotografia que o pintor de pechisbeque plagiou, mas isto é duvidoso. O que Marcelo Rebelo de Sousa quis foi mostrar comunhão com o gosto popular, arrancar exclamações de admiração ao vulgo com o seu gesto apenas aparentemente espontâneo de passar por uma rua, ver um quadro com o seu retrato e conferir-lhe estatuto de oficialidade. É evidente que tudo isto foi uma encenação, mas o que é a política senão a arte da encenação?

Quanto ao retrato, não me é possível atribuir-lhe qualquer mérito. Ainda que não fosse a imitação de uma fotografia, seria sempre uma pintura banal, uma espécie de desenvolvimento – nada original, diga-se – do estilo de Henrique Medina. Muito medíocre. Se juntarmos a isto o facto de ser uma imitação descarada, temos que este quadro não é mais que uma cópia a óleo (ou acrílico, ou seja o que for: não é importante) da fotografia de Orlando Almeida. As cópias, independentemente do meio pelo qual são obtidas, não têm qualquer tipo de valor: estão feridas pela falta de originalidade e de esforço criativo, o que lhes proíbe o estatuto de arte.

O que nos leva ao artista de pechisbeque. Para ele, não há nada de mal em usar obras de outros autores imitando-as descaradamente. É o meio mais fácil de fazer as coisas: não precisa de pensar, de criar, de ter uma ideia, de desenvolver um conceito: basta-lhe olhar para as obras que outros fizeram e copiá-las. É mesquinho e medíocre e, sobretudo, não merece a publicidade que obteve, mas o estilo do pintor de pechisbeque agrada a um povo que não tem educação visual suficiente para ir além das referências do real, o que foi aproveitado por Marcelo Rebelo de Sousa para lançar o seu beau geste. Mas é um estilo que, por se basear em imitações e ser inteiramente destituído de valor artístico e criativo, rivaliza com as «obras» dos pintores de rua que expõem e vendem os seus quadros de traços pueris na Rua de Santa Catarina. A única diferença é que o nosso artista de pechisbeque tem um atelier na Rua do Almada e agora, graças ao Presidente e ao seu gesto magnânimo, ascendeu a uma fama completamente imerecida. Perdoem-me se não comungo da admiração popular por ele, mas os imitadores e os medíocres não me merecem muito respeito.

Por fim, o fotógrafo lorpa. Vim a descobrir que, à semelhança do artista de pechisbeque, também ele é… bom, digamos antes que não é grande espingarda. É, quando muito, um amador razoável. Como muitos amadores, incorre na ilusão tola de querer popularidade, daí que não se tenha importado de ver a sua obra usurpada e até tenha gostado, porque interpreta esta promoção do retrato de pechisbeque à oficialidade como algo que também o beneficia. Hélas, o público não está preparado para conferir reconhecimento à obra imitada. Neste caso, ninguém quer saber da fotografia que o artista de pechisbeque usurpou, por isso dificilmente o fotógrafo beneficiará de algum reconhecimento além dos comentários elogiosos dos seus amigos do facebook.

Como disse, este é um pecado muito frequente entre os amadores: para eles, o que fazem são só fotografias e ficam felizes da vida se tiverem os seus warholianos quinze minutos de fama. O facto de estarem a permitir que o mau gosto e a imitação prevaleçam e que alguém ganhe dinheiro, prestígio e popularidade à sua custa é uma metáfora perfeita da descaracterização da fotografia enquanto criação intelectual do autor: hoje as fotografias são de todos e qualquer um pode apropriar-se delas e fazer delas o que quiser, mesmo que vá ganhar fortunas à custa daquilo que é o trabalho dos outros. Os esquerdelhos têm uma palavra para isto: é «exploração». Mas pronto, se este fotógrafo é adulto e não só consente como gosta de ser explorado, o problema não é meu. Aliás, nem sei por que estou preocupado com tudo isto. O importante é que o Presidente da República é tão próximo do povo que escolheu uma pintura de um artista popular para seu retrato oficial. O facto de o Presidente da República pertencer a uma das castas políticas mais antigas de Portugal e de a sua popularidade ser estudada e artificial não deve interferir nesta imagem idílica da promoção da arte do povo – tal como o retrato ser uma farsa grotesca não deve impedir-nos de conferir-lhe grandeza.

M. V. M.

O Presidente, o retrato, o artista de pechisbeque e o fotógrafo lorpa

Imagem: Alexandra Madeira – Antena 1

Aviso desde já: o que vão ler de seguida vai parecer excessivo a muitos e ser interpretado como uma tergiversação de uma mente amarga sobre algo que não tem importância nenhuma, mas vou escrevê-lo na mesma.

Há coisas que me ultrapassam. Por vezes vejo mentiras, injustiças e deturpações de factos que deveriam merecer reprovação universal passando, não simplesmente despercebidas, mas aplaudidas e aclamadas. Ou, quando menos, debaixo da indiferença cúmplice de quem se apercebe ou devia aperceber delas. Isto acontece ou aconteceu em inúmeras ocasiões, desde as «provas» de que o Iraque de Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça, «provas» essas que eram gritantemente forjadas mas ninguém se importou (ou melhor: vejam como os idiotas americanos ainda hoje tratam os franceses por Chirac se ter oposto à invasão) até ao abalroamento graças ao qual Nosso Senhor Ayrton Senna se sagrou campeão do mundo de Fórmula 1 em 1990. Podia dar muitos mais exemplos: um deles seria a descida do défice do Estado à custa do aumento da dívida pública e o facto de ninguém estar preocupado por esta última ultrapassar em mais do dobro o limite de 60% do produto interno bruto previsto no pacto de estabilidade e crescimento no qual se alicerça o Euro, tudo se passando como se a única ofensa fosse o limite do défice. (Tenho para mim que a insolvência técnica de um país é mais grave que o desequilíbrio marginal do deve-haver público, mas se a Comissão Europeia não é do mesmo entendimento e não instituiu um procedimento por dívida pública excessiva [como acontece em relação ao défice], quem sou eu para contrariá-los?). Ou a situação na Síria, com o uso de mentiras em tudo semelhantes às que legitimaram a invasão do Iraque em 2003.

Não estamos aqui a discutir aquelas faltas na grande área que toda a gente viu menos o árbitro, nem teorias da conspiração. Em qualquer dos casos que mencionei, toda a gente viu o que se estava (ou está) a passar, toda a gente sabia que estava (está) diante de um ludíbrio, mas ninguém se importou (ou importa). Devo dizer que tenho a maior dificuldade em compreender os mecanismos que levam a esta aceitação de falsidades e deturpações como se fossem verdades ou, pelo menos, como se fossem indiferentes e irrelevantes. Seja como for, as mentiras, injustiças, ilegalidades e as distorções de factos passam impunes sem que ninguém se importe. Se alguém manifesta discordância ou repúdio, corre o risco de ser tratado como se fosse um imbecil.

Isto tudo – acreditem ou não – vem a propósito de fotografia, pelo que não está em causa a pertinência temática destas palavras furibundas no Número f/. O que me deixou tão passado foi um episódio aparentemente insignificante, mas que ilustra bem este deixar passar, esta lassidão ética e moral com respeito a coisas que deviam merecer repúdio: o nosso Presidente da República veio ao Porto comemorar o Dia de Portugal. Tendo passado pela Rua do Almada, deparou com o atelier de um artista de pechisbeque chamado António Bessa, em cuja montra estava exposta uma pintura em que figurava o próprio Professor Marcelo Rebelo de Sousa. Numa das suas ternurentas manifestações de popularuchidade, o Presidente da República, com espontaneidade previamente organizada pela sua Casa Civil, quis conhecer o pintor de pechisbeque, o qual, evidentemente, ficou tão feliz com o interesse do Professor Rebelo de Sousa na sua obra que se ofereceu para levá-la pessoalmente a Lisboa. O Presidente protestou a sua intenção de fazer daquela pintura o seu retrato oficial.

Fotografia de M. R. S. por Orlando Almeida

Até aqui tudo bem. Simplesmente, a obra do artista é uma imitação. Um plágio. Uma usurpação. Foi pintada a partir de uma fotografia pré-existente (acima) de um fotógrafo chamado Orlando Almeida. A pintura não é, como se lê em algumas publicações, «inspirada» na fotografia: é uma imitação grosseira e descarada. A diferença, além dos traços mais abstractos, está no plano de fundo, porque a figura de Marcelo Rebelo de Sousa é idêntica na imitação e na fotografia imitada.

Este António Bessa, que não passa de um pintor medíocre que teve um golpe de sorte equivalente a ganhar o Euromilhões, devia ser objecto de desdém pela sua completa ausência, quer de criatividade, quer de escrúpulos: não hesita em plagiar obras de outrem e impingi-las como se fossem suas criações. Qualquer pessoa que conheça o significado da palavra «originalidade» e a preze olhará os quadros deste pintor de pechisbeque com escárnio, mas o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, que é Doutor em Direito, veio sancionar esta imitação grotesca prometendo-lhe a oficialidade do «retrato». Já não bastava a humilhação de termos tido um primeiro-ministro e um ministro com habilitações académicas falsas, agora vamos ter um retrato imitado na parede do Palácio de Belém. Mas pronto, não sejamos pedantes: é um Presidente popular a promover a arte popular.

Se o autor da fotografia conferenciasse com um advogado que tivesse um modicum de conhecimento do direito autoral, este último saberia que conselhos havia de lhe dar, mas é exactamente aqui que a história se torna dramaticamente burlesca: o fotógrafo não se importou nada com a usurpação da fotografia. Pelo contrário, até ficou feliz por ter oportunidade de apanhar algumas migalhas do bolo de glória que o pintor de pechisbeque tragou. Perante isto, por que devia eu aborrecer-me?

M. V. M.

Freak Show

A fotógrafa Naomi Harris propôs-se fazer uma viagem de cem dias pelos Estados Unidos da América, o que coincidiu mais ou menos com os cem dias da presidência de Donald Trump. O resultado, que pode ser analisado mais em pormenor no website da Vice, é muito semelhante – embora menos extremo – ao que Diane Arbus fez. Naomi Harris procurou votantes de Donald Trump e confrontou-os com a sua opção. Nada disto é representativo – as fotografias resultam numa caricatura de alguns eleitores –, mas mostra uma realidade algo perturbadora: muitos dos que votaram em Trump fizeram-no porque não suportavam a ideia de que Hillary Clinton fosse eleita.

Espero que esta escolha do que consideraram um mal menor não tenha sido determinada por razões sexistas, mas tenho a certeza de que muitos dos que fizeram essa opção estão arrependidos de sequer terem acordado no dia 8 de Novembro de 2016. Pelo menos Hillary Clinton saberia o que estaria a fazer, se tivesse sido eleita. Donald Trump é um caso de amadorismo, falta de preparação e de sobreavaliação das suas próprias capacidades, o que se nota na governação errática e francamente disparatada da administração Trump. (O que é pior é existirem dúvidas fundadas acerca da saúde mental de Donald J. Trump: muitos atribuem as suas decisões a perturbações do foro psíquico, o que bem pode ser verdade – especialmente depois do caso «covfefe».)

Eu não sou de fazer pré-juízos sobre outros países. Da última vez que o fiz, sai-me tudo ao contrário. Esperava que Bruxelas fosse uma cidade fria, de gente antipática, e saiu-me uma versão maior e mais civilizada de Lisboa. Não meço os norte-americanos pelos trolls que inundam os espaços de comentários (todos os espaços de comentários, desde websites de fotografia até aos puramente políticos) nem pelas pessoas ilustradas nesta road trip de Naomi Harris. Os Estados Unidos terão os seus cromos, como todos os outros países, mas não são (espero) um gigantesco freak show. Contudo, é exactamente esta a ideia com que fica quem vir esta colecção de fotografias.

Uma coisa, porém, é certa: as pessoas que Naomi Harris fotografou só podiam ter votado em Donald Trump. Neste aspecto são muito emblemáticas. E as fotografias são feitas com um enorme sentido de mordacidade: não há qualquer tentativa para compreender ou desculpar a escolha que estas pessoas fizeram: gente ridícula vota em candidatos ridículos, gente tacanha vota em candidatos tacanhos, gente obtusa vota em candidatos obtusos.

Ver estas fotografias produz em mim o efeito de reflectir acerca da decadência, não dos Estados Unidos, mas de toda a civilização ocidental. O grotesco ostentado orgulhosamente por certas pessoas faz-me pensar se não estará definitivamente perdida a noção de decoro. Como «decoro» não é o termo mais apropriado para definir Donald Trump, as coisas acabam por ganhar uma certa coerência lógica…

M. V. M.

Le Grand Prix du Monaco

Os leitores muito atentos do Número f/ sabem que o seu autor, o M. V. M., tem uma fraqueza: gosta de automóveis e de desporto automóvel. Não ao ponto de andar com cachecóis e bonés da sua equipa ou piloto favoritos, mas um gosto que o leva, por exemplo, a manter-se a par dos campeonatos das fórmulas secundárias – aquelas por que cada piloto passa antes de chegar ao topo, que é como quem diz a Fórmula 1. Por exemplo, faço parte de um círculo muito restrito de pessoas que não ficaram nada surpreendidas por o finlandês Valtteri Bottas ter vencido este ano o seu primeiro grande prémio: acompanho a carreira dele desde 2009 (chamem-me o que quiserem depois desta revelação) e sei que é um campeão do mundo em potência.

Mas tenho uma equipa da minha preferência desde 1981. Essa equipa é a Ferrari e passei a simpatizar com ela por causa de um Grande Prémio em especial: o Grande Prémio do Mónaco de 1981. Nessa altura os Ferrari estavam equipados com motores turbocomprimidos cuja resposta era lenta e brusca, o que os tornava inadequados para pistas sinuosas – mas, apesar deste handicap, Gilles Villeneuve venceu no Mónaco com um Ferrari.

Ora, é precisamente do GP do Mónaco que vou escrever de seguida. E, no caso de pensarem que este era mais um dos meus impertinentes textos fora do tema, vou surpreender-vos: é mesmo sobre fotografia. Simplesmente, o GP do Mónaco é um evento de tal maneira único que merece alguma atenção – mesmo (e esta é outra surpresa) de fotógrafos que nada têm que ver com desporto automóvel.

Mas antes um pouco de contexto: o ambiente do Grande Prémio do Mónaco é completamente decadente. Quem já tiver ido a Montecarlo sabe como é frequente cruzarmo-nos com Rolls-Royces e automóveis similares. Quando fecham as ruas do principado para armar a tenda desse circo que é a F1, ao kitsch local junta-se o jet-set de todo o mundo: rappers, actores, criadores de moda, vedetas de outros desportos – you name it. Tudo com uma animação cheia de champanhe e caviar, com grandes festas e passagens de modelos. Repito-o: um acontecimento social completamente decadente. Contudo, para muitos, assistir ao GP do Mónaco é o sonho de uma vida: é viver a ilusão de, por um dia, ter feito parte desse mundo glitzy.

Por tudo isto, foi interessante verificar que Martin Parr, fotógrafo da Magnum a quem ainda há bem pouco me referi, andou a fotografar os bastidores do GP do Mónaco de 2017 (que, curiosamente, foi ganho por um Ferrari). Como era de esperar de Martin Parr, fotógrafo com uma visão finamente sarcástica do mundo, as fotografias que a Magnum mostrou no seu website (por uma questão de direitos autorais não as publico com o texto, mas podem vê-las aqui), as fotografias nada têm que ver com os automóveis, nem com as celebridades ou os modelos das passerelles. Aliás, só figuram nelas um piloto, mas é de uma das fórmulas secundárias que correm no Mónaco nos dias em que dura o GP, e um ex-piloto. O resto é o lado meramente humano e patético que só alguém desapaixonado, mas extremamente perspicaz, é capaz de ver num lugar e num acontecimento como aquele.

O que tem que se lhe diga. Os bons fotógrafos fazem isto: em lugar de se concentrarem naquilo que toda a gente sabe que é o que se está a passar, preferem observar o invulgar, o que se passa paralelamente, fora (neste caso) da pista. Mostram o lado que se vê quando descemos os olhos do glam das festas e da pista. Para fotografar o ambiente e as celebridades, há os fotógrafos contratados para produzir esses resultados; para fotografar a pista existem profissionais imensamente competentes como Mark Sutton e Rainer Schlegelmilch. Mas quem nos mostraria o resto, o lado comezinho e humano, senão um fotógrafo da Magnum?

M. V. M.

Fiat lux

Conforme prometido – eu sou uma pessoa razoavelmente leal e constante que raramente deixa de cumprir o que promete (ao que ajuda não fazer promessas impossíveis) –, conforme prometera, dizia, vou hoje partilhar com os leitores as minhas ideias acerca de iluminação. Refiro-me à iluminação dos motivos das fotografias, e não exactamente às fontes de luz como o flash ou a panóplia de iluminação de estúdio, que inclui luzes LED e reflectores com forma de guarda-chuvas.

Tenho para mim que não existe nada pior que fotografias feitas à sombra. Por vezes, quando ando na rua, deparo com cenas que podiam dar uma fotografia interessante e não as fotografo porque aquilo que quero fotografar não está suficientemente iluminado, diluindo-se na sombra do plano de fundo. Tem de haver sempre algo que destaque o motivo: se este estiver bem iluminado, o facto de existirem sombras no resto da imagem não é um problema: pelo contrário, até ajuda aquele a tornar-se mais explícito.

É isto que acontece quando se fotografa à sombra.

Contudo, há muita gente que fotografa à sombra. Isto não beneficia a imagem: fá-la perder contraste e pode torná-la indistinguível e pesada. Em casos como este, e à falta de um flash (o qual ajuda, mas só se forem usados tempos de exposição inferiores a 1/125 e se a distância em relação ao motivo não for muito grande), mais vale não fotografar. Para quê disparar, se se sabe de antemão que a fotografia vai ser um fracasso?

O segredo para obter uma boa iluminação não é segredo nenhum: é fotografar com boa luz. Como referi, podem obter-se resultados interessantes se só o motivo estiver iluminado e o plano de fundo for sombras, mas o oposto nunca é verdadeiro. Um exemplo clássico é o daqueles fotógrafos que gostam muito de fazer retratos com a pessoa retratada à frente de uma janela, mas o resultado é sempre mau: se se expuser para as altas luzes, a cara do retratado surge como uma silhueta, sendo impossível distinguir as feições; e, se se expuser para as sombras, não apenas a luz da janela vai ficar completamente estourada como o rosto vai continuar mal iluminado.

Já que aludo aos retratos, há uma regra muito simples: NUNCA (desculpem gritar) se fazem retratos contra a luz. O rosto tem, imperativamente, de ser iluminado directamente. E, já que o assunto é luz directa versus luz indirecta (ou a favor versus contra a luz), fica aqui outra recomendação: fotografar contra a luz, provendo o efeito de silhuetas, pode ser espectacular, mas só quando se fotografa a preto-e-branco. A fotografia a cores requer sempre luz directa. O contraste e as silhuetas que resultam espectacularmente bem na fotografia a preto-e-branco são impossíveis de reproduzir na fotografia a cores. O que acontece, quando se fotografa a cores contra a luz, é apenas fotografias mal iluminadas, falhas de contraste e com desvios consideráveis nas cores. Só em casos muito especiais – como se quisermos fazer desaparecer qualquer textura do motivo, apresentando-o como uma silhueta completamente negra, é que as fotografias a cores contra a luz ficam bem, mas estes são casos mais ou menos excepcionais.

Sim, é verdade que fotografar constantemente a favor da luz pode resultar em fotografias muito lugar-comum, mas é tarefa de quem fotografa fazer reverter esta aparente desvantagem a favor da fotografia, o que acontece se procurar motivos cujo interesse permaneça intacto apesar da banalidade da iluminação.

Há mais: a fotografia a cores – de novo ao contrário do preto-e-branco – dá-se muito mal com a luz cáustica. A luz do sol de um entardecer de Março pode ser aproveitada, mas só se se fotografar a favor dela – e mesmo assim com muitas precauções. Fotografar contra a luz quando esta é muito crua e intensa é desperdiçar uma fotografia.

Por fim, um conselho para quem, como eu, usa película: tudo o que escrevi acima se aplica e a parte de fotografar a favor da luz é especialmente verdadeira, mas, além deste cuidado, há que ter outro – a escolha da película. Algumas, como a Kodak Portra 160, estão equilibradas para dar os melhores resultados debaixo de luz natural ou de iluminação de estúdio. Estas películas costumam ser um desastre quando se fotografa à noite ou com muito pouca luz (mesmo que se use o tripé). A selecção da película é essencial, sendo raras as capazes de resultados homogéneos ao sol e à sombra.

M. V. M.