A precisar de férias


Quase um mês sem escrever. Não há justificação. Digo melhor: há várias justificações, as quais vou passar a «elencar» (não é uma das palavras mais odiosas da língua portuguesa?):

– Não me apetece escrever. É isto, é muito simples. Passo mais tempo a ler – deixei-me enamorar completamente pelas obras de Stendhal – do que a fotografar. Estou a participar passivamente numa arte em lugar de estar a criar, mas entre ficar em casa a ler Lucien Leuwen e ir para o meio de um trânsito cada vez mais estupidificado para fotografar em lugares infestados por turistas, tenho tendido a preferir a primeira. Está a tornar-se impossível viver no Porto, o que é profundamente desmotivante para quem fotografa na rua como eu.

– Não há nada sobre o que valha a pena escrever (esta frase estará bem construída?). Vou aos websites de fotografia, e que vejo? Os artigos sobre teasers de uma futura câmara são os que mais interessam à comunidade fotográfica. A futura câmara é uma mirrorless que a Nikon vai lançar, o que significa apenas uma coisa: a Nikon está mal de massas e procura uma nova clientela entre os basbaques que se babam como jecos pavlovianos diante da mera inclusão das palavras «electrónico» e «digital» na descrição de um produto. A câmara, que vai ter um sensor full-frame e vai parecer uma Nikon 1 V2 que abusou de esteróides, nada vai acrescentar ao line-up da Nikon, que já tem a D610, a D750, a D810, a D5 e ainda a Df equipadas com sensores 36×24, mas há gente muito ruidosa que prefere um visor electrónico a um óptico porque entende que este último é rudimentar. E vai, evidentemente, obrigar ao fabrico de novas objectivas, porque esta mirrorless vai ter uma baioneta diferente da FX. Espero que esta não seja uma aventura ruinosa para a Nikon.

– Não estou inspirado. Escrever, mesmo que seja um mero texto num blogue, exige inspiração – e eu, de momento, não a tenho. Também não tenho para fotografar. Na verdade, ando descontente com uma série de coisas na minha vida e isso manifesta-se nesta falta de inspiração. Há duas semanas resolvi retirar um rolo da máquina e expor a película à luz directa. O rolo ainda ia a meio, mas fiquei de tal maneira insatisfeito com as fotografias que tinha feito até então que optei por destruí-las. Se uma fotografia não me diz nada, também não o dirá a quem a vê. Simples. Tinha feito fotografias que eram a repetição de outras e cheguei a falhar enquadramentos grotescamente.

Isto não quer dizer que tenha perdido o interesse pela fotografia, nem que esteja prestes a mudar de hobby. Significa, talvez, que a fotografia ocupa demasiado espaço na minha vida e estou a precisar de férias. Ou talvez isto que está a acontecer tenha a sua razão de ser no facto de me estar a obrigar a fotografar a cores. Começo a recear que sou peixe fora de água quando fotografo a cores.

Isto vai passar. Daqui a algum tempo regresso ao preto-e-branco, às composições simples e aos contrastes ilfordianos. Até lá, resta-me pedir paciência aos leitores que ainda não desistiram de ler estes meus disparates. (Bem hajam!)

M. V. M.

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Um retrato

Pronto, pronto, está bem: eu reconheço que os últimos textos foram um bocado amargos e agressivos. Publicar no instagram não é crime, nem tão-pouco o é usar um smartphone para fotografar. Aborrece-me a completa estupidificação da fotografia que estes meios permitem, mas nem toda a gente tem a pretensão de fazer fotografia criativa. A maneira como o smartphone está a tomar conta da vida das pessoas também me assusta, mas, francamente, é lá com elas. Eu não tenho nada que ver com o rumo que as pessoas dão às suas vidas.

Mudemos de assunto e de disposição. A fotografia, tal como a pratico, tem uma característica curiosa: pode ser uma porta que se abre para outras pessoas. É verdade. Na Quinta-feira decidi não trabalhar: estamos em vésperas de férias judiciais e o trabalho abranda consideravelmente nesta altura. Peguei na máquina: como tinha vontade de acabar de expor um rolo que tinha na máquina há mais de um mês e esse rolo era a cores, decidi procurar motivos coloridos e fui até à Ribeira. Reincido nas fotografias de saltos, apesar de ser um tema estafado, porque dá-me prazer. Há qualquer coisa, naquela procura do momento ideal, que me faz voltar todos os Verões àquele lugar – apesar dos enxames (manadas?) de turistas.

Estava no cais, por debaixo da Ponte Luiz I, à espera que uns jovens se resolvessem a saltar. Duas miúdas de cerca de 13 anos entretinham-se a fotografar outra, um pouco mais velha. A fotografada envaidecia-se e posava para os telemóveis das amigas; não sei se ciente da sua graciosidade, se macaqueando algum estereótipo de modelo fotográfico que ela tivesse na cabeça. O que sei é que era uma rapariga negra algo rechonchuda, mas com umas feições muito harmoniosas. Sim, era uma adolescente gorduchinha e muito bonita, com uns olhos vivos e expressivos. Para mais, posava à frente de um muro coberto com um graffito interessante.

Não resisti. Tinha de fotografá-la. Havia qualquer coisa de profundamente errado em misturar a rapariga e um graffito, como se a estivesse a inserir num ghetto estereotípico e estigmatizado, mas a estética da rapariga com aquele fundo pareceu-me merecedora de uma fotografia e isso sobrelevou todas as outras considerações.

Claro que procurei obter o consentimento da rapariga. Com muita naturalidade, pedi que me deixasse fotografá-la. A reacção da miúda foi simplesmente deliciosa: sorriu, embaraçada, tapou a cara com uma mão e exclamou: «ai que vergonha!…». Eu insisti. Curiosamente, ela perguntou-me por que queria fotografá-la. «Porque és gira», expliquei (com muita naturalidade, porque percebi facilmente que ela tinha consciência da sua beleza) «e porque gosto deste graffito como fundo». Afastada a intromissão de um ganapo de doze anos que, talvez por pensar que eu era um turista endinheirado, se meteu à frente da objectiva, fotografei a rapariga.

O contacto com a miúda, embora insignificante, foi interessante e enriquecedor: eu não passo muito tempo com adolescentes e por vezes tomo a espontaneidade de muitos deles por atrevimento – e, verdade seja dita, já estou numa idade em que se incorre facilmente em juízos negativos sobre eles; mas os adolescentes são como os adultos: cada um tem a sua personalidade e a sua maneira de ser. A reacção tímida daquela rapariga mostrou-me que havia nela um ser humano que resiste a todos os lugares-comuns que tão frequentemente construímos: a sua linguagem corporal, o riso, o gesto de esconder a cara, tudo isto foi delicioso e enternecedor.

Este foi um pequeno episódio, certamente, e é provável que deixe o leitor indiferente, mas mereceu-me algumas reflexões.

…E o retrato até não ficou muito mau.

M. V. M.

Publicidade enganosa

Tenho as minhas razões para ter deixado correr tanto tempo sem escrever uma linha para o Número f/, mas algumas são de ordem pessoal e, se me permitem, prefiro manter alguma reserva sobre elas. Pelo facto peço as minhas desculpas aos leitores.

Dito isto, esta treta da «fotografia computacional» continua a moer-me o juízo mais do que devia. Há um limite para a ilusão, e esse limite é sistematicamente ultrapassado pelas pessoas que imaginam ter no seu smartphone uma câmara muito capaz. Não têm, evidentemente. As imagens que aquilo produz não resistem a ser mostradas num ecrã maior que o do próprio aparelho. Vê-las no computador é eloquente quanto às limitações da câmara que as tirou, com a imprecisão das cores, a destruição do pormenor (por acção da redução do ruído) e, por vezes, a ausência de nitidez por deficiência da focagem a serem os principais problemas.

Contudo, há quem acredite tolamente que todos os problemas de uma objectiva e um sensor menos que medíocres podem ser ultrapassados pelos algoritmos do processador de imagem e chamam a isso «fotografia computacional»; alguns levam o delírio ao ponto de acreditarem que podem usar o smartphone como se fosse uma câmara convencional e controlar a exposição através de uma app. Esta crença, quando não resulta de uma fé febril nos poderes da electrónica, apenas demonstra ignorância quanto ao funcionamento da câmara de um smartphone.

As apps que prometem uma experiência fotográfica semelhante à de usar uma DSLR – sim, há quem leve a falácia a esse ponto – incluem um controlo da abertura, do tempo de exposição e do ISO. Qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe que isto é impossível. Como as objectivas dos smartphones são de abertura fixa – seria impossível montar um diafragma numa objectiva  tão pequena –, é uma falsidade pensar-se que se pode ter controlo manual sobre a exposição. A abertura (fixa) das objectivas é, no geral, algures entre f/1.8 e f/2.8, o que é compensado por tempos de exposição que podem chegar a 1/33000 – o que é necessário para evitar a sobre-exposição quando se fotografa sob luz solar intensa. Deste modo, o que estas apps fazem é simular «computacionalmente» os efeitos dos parâmetros da exposição seleccionados pelo utilizador. Este último não acciona o diafragma nem o movimento das cortinas do obturador – até porque estas últimas não existem, já que o obturador dos smartphones é electrónico.

De resto, não vejo qual é a utilidade destas apps. Se alguém quer ter controlo manual sobre a exposição, fica mais bem servido com uma câmara na qual accione o diafragma e o obturador. Um smartphone não é nem nunca será um substituto de uma DSLR: tudo o que pode fazer é imitar, de forma mais ou menos grosseira, a qualidade de imagem de uma câmara decente, mas este resultado é obtido à custa de batota, com a manipulação da imagem pelo processador. Serve para selfies e para as fotografias parvas que se publicam no instagram (desde que vistas no ecrã do telemóvel), mas nada mais. Pretender o contrário é puro delírio.

A Apple foi, em tempos, proibida de usar a expressão «qualidade profissional» para definir os atributos da câmara do iPhone, por ser considerada publicidade enganosa, mas parece que os tribunais e as autoridades de defesa do consumidor são mais brandos quando se trata de apps que prometem pro level images.

M. V. M.

Uma efeméride estúpida

No Domingo descobri uma fotografia que, no nosso tempo, pode passar por «histórica». É a primeira fotografia publicada no instagram. Foi carregada pelo principal accionista, um tal Kevin Systrom, há oito anos, mais concretamente no dia 16 de Julho de 2010. Um marco histórico, portanto.

O que me intriga, nesta efeméride, é que tudo é estúpido. É uma fotografia estúpida com um motivo estúpido – um cão e um pé calçado com uma havaiana, por amor de Deus! –, tirada num lugar com um nome estúpido (uma barraca de tacos chamada «Tacos Chilakos»), com um filtro de cor estúpido e num formato quadrado, o que também é estúpido (não pelo formato em si, embora «quadrado» seja frequentemente sinónimo de «estúpido», mas porque todas as fotografias publicadas no Instagram são convertidas para este formato) e carregada para uma «rede social» estúpida.

Portanto, este mês celebram-se oito anos de estupidez. Esta fotografia é a ilustração perfeita do nosso tempo: um cão e um pé calçado com uma chinela havaiana despertam um interesse – ainda hoje há gente a comentar e a votar a fotografia! – que só se compreende se aceitarmos que os padrões de inteligência dos utilizadores do instagram são muito baixos. Esta fotografia é um exemplo do niilismo actual, não apenas porque não representa nada («niilismo» vem do latim nihil, que significa «nada»), mas sobretudo porque as pessoas parecem felizes com este grau zero de interesse, exigência e curiosidade. Os utilizadores de «redes sociais» não se interessam verdadeiramente por nada e não têm opinião sobre nada: limitam-se a seguir o movimento do cardume e a aderir a essa massa sem questionar nada, como os arenques. (Mas uns arenques com cores retro, à custa dos filtros do instagram.)

Claro que um cardume de arenques não pode aperceber-se da chegada dos predadores. No mesmo dia em que descobri esta efeméride, fiquei a saber que o facebook, que é proprietário do instagram, registou a patente de uma tecnologia que permite que um anúncio transmitido num computador seja acompanhado por um som inaudível para o ser humano, mas que activa um gravador nos telemóveis que estiverem no local, de maneira a perceber como as pessoas reagem à publicidade. Isto vai muito para além das mais negras lucubrações de Aldous Huxley e George Orwell, mas as pessoas não querem saber de nada disto. Estão demasiado ocupadas a ver fotografias de cães e pés com havaianas para sequer se aperceberem dos perigos implícitos das «redes sociais».

O leitor pensará, porventura, que estou a exagerar. Quanto ao som que acompanha os anúncios, talvez – porque Mark Zuckerberg afirma que o facebook patenteou a tecnologia para que ninguém mais se aproprie dela e nunca venha a ser utilizada. Vamos dar de barato que ele está a ser sincero, porque o dia em que deixarmos de acreditar na bondade íntima das pessoas será o dia em que nos tornaremos psicóticos irremissíveis; mas, quanto à estupidez do instagram, só vos lembro do @cheekyexploits, que já vos narrei aqui. Conseguem imaginar maior estupidez do que ir a sítios belíssimos para mostrar o rabo? Eu não.

M. V. M.

Moby Dick

Os sistemas mirrorless foram a melhor coisa que aconteceu aos nerds que, por grande azar nosso, se dedicam a tirar fotografias. Vejam só: tudo naquelas câmaras é electrónico. Não há lugar para coisas rudimentares e obsoletas como espelhos e pentaprismas (curiosamente, o facto de as objectivas serem feitas com vidro parece não perturbar tanto os nerds como a existência de um espelho e de um pentaprisma do mesmo material) e qualquer dia as câmaras mirrorless prescindem completamente das cortinas do obturador. Ainda por cima, são câmaras que atingem números de fotogramas por segundo incríveis, o que é importante quando se quer fotografar o gato que nunca sabe quando deve ficar quieto a fazer pose.

Quando estes sistemas estavam ainda numa fase de descolagem, era frequente esgrimir o argumento do tamanho: de facto, uma câmara mirrorless é mais pequena por não precisar do volume que o espelho exige nas SLR; e, como a distância entre a lente posterior da objectiva e o sensor é menor, as objectivas podem também ser mais pequenas. Isto originou uma vaga de fundo: de repente, descobriu-se que as DSLR e as suas objectivas para o formato full-frame eram monstruosas e, foi-se a ver, causaram uma epidemia de cifoses, lordoses e escolioses ao longo dos anos. Os pobres fotógrafos, derreados pelo peso das suas 11-22 e 70-200 e dos corpos DSLR monstruosos, saudaram efusivamente a chegada ao mercado de câmaras e objectivas leves e compactas. Finalmente iam poder entregar-se nas mãos de fisioterapeutas e corrigir as corcundas infligidas pelos paquidermes da Canon e Nikon durante tantos anos. Pelo menos era isto que se podia depreender dos websites de fotografia e respectivas caixas de comentários.

Agora a Sony veio mostrar que, afinal, não há nenhuma vantagem de tamanho. Lançou uma objectiva 400mm-f/2.8 que é mais leve 900 g que as rivais Canon e Nikon (o que é irrelevante, porque objectivas como estas são usadas com tripés ou monopés), mas em contrapartida é exactamente do mesmo tamanho e, ainda por cima, é mais cara.

Da esquerda para a direita: Canon, Nikon e Sony

Eu não sei o que pretende a Sony com esta objectiva: será afirmar-se como fabricante de objectivas? Será mostrar que pode rivalizar com a Canon e a Nikon e oferecer produtos de qualidade profissional numa categoria de equipamento que se tem destacado pela frivolidade e por só ter adeptos entre amadores obcecados por números e tecnologia? Quanto a mim, esta objectiva é um statement. A Sony quer mostrar que os seus sistemas mirrorless são tão bons como os sistemas DSLR da Canon e da Nikon, mas o seu objectivo não é convencer os profissionais: estes construíram os seus sistemas à volta das objectivas e não estão dispostos a gastar fortunas construindo novos sistemas de raiz para ter uma qualidade que, na melhor das hipóteses, é comparável ao que já têm. Ao invés, o potencial cliente da Sony compra uma α9 pelas suas especificações e sofisticação tecnológica. As objectivas vêm depois, tal como a qualidade da imagem. É este o tipo de consumidor que a Sony quer convencer com o seu Moby Dick.

Fica assim desfeita a última falácia dos propugnantes das mirrorless. A opção por sensores full-frame e de médio formato destrói a pretensa vantagem do peso e do tamanho, com os inconvenientes de um sistema de focagem automática que ainda carece de aperfeiçoamento, de obrigar ao uso de um visor electrónico, de uma ergonomia insuficiente e de um potencial sobreaquecimento (as Sony α7 são reputadas por aquecerem em demasia quando filmam vídeo). Assim de repente, e a despeito dos websites e seus comentaristas, não estou a ver os fotojornalistas a fugir em debandada da Canon e da Nikon e a aderir maciçamente à Sony. Seria necessário que a Sony oferecesse uma vantagem substancial em qualidade da imagem, funcionalidades e ergonomia, o que está muito longe de acontecer. Nenhum fotojornalista vai mudar de sistema para ter um visor electrónico.

M. V. M.

Slides

Por William Eggleston

Por vezes deixo-me intrigar e ponho-me a especular sobre uma questão: devo ou não fazer uma experiência com um rolo de slides?

Os slides, ou positivos (ou ainda transparências) são películas nas quais a imagem não surge com os tons invertidos, como nos negativos. A sua função primordial é ser projectados por via de um aparelho próprio (projector de slides), mas esta não é nem nunca foi a única razão para usar película de slide. Estas películas são procuradas, sobretudo, pela sua qualidade superior. Pelo menos é isto que leio e ouço mais frequentemente. E também pelas cores: Kodachrome, Provia, Astia e Velvia são designações que costumam ser usadas como sinónimos de cores saturadas e vibrantes, mas também há o Ektachrome para equilibrar as coisas (e há pelo menos duas películas de slide a preto-e-branco, uma da Foma e outra da Agfaphoto, mas são proibitivas).

Aprendi, com a minha mente inquisitiva, que a qualidade da película de slide tem contrapartidas. Uma é o preço: é impossível adquirir um rolo por menos de €10. A outra é a gama de exposição. Diz quem sabe infinitamente mais que eu que, para fotografar com película de slide, é necessário acertar com a exposição como quem acerta no bull’s eye ao lançar dardos. Os negativos a cores perdoam muito mais: só há sobreexposição ou subexposição se a diferença entre a exposição ideal e a seleccionada exceder cerca de 4EV. Quando se fotografa com slides, o mais natural é que as altas luzes estourem e as sombras bloqueiem facilmente. E, ao contrário de algumas películas negativas, o pormenor perdido é irrecuperável.

Também sei que, para evitar esta estreiteza na exposição, era costume fotografar com o céu ligeiramente encoberto e expor para as altas luzes, o que saturava as cores e conferia contraste às imagens sem bloquear as sombras em demasia. (Fotografar com céu limpo implicava perder o pormenor por acção do bloqueio das sombras quando se expunha para as altas luzes, o que era considerado um compromisso aceitável.) Ora, isto é severamente limitativo. Eu ando – até agora! – à procura de uma película colorida que me dê versatilidade. É possível que a tenha encontrado na Kodak Ultramax, mesmo se a sua sensibilidade de 400 ISO a torna difícil de usar no Verão. Usar película de slide implicaria só fotografar em condições muito favoráveis, o que seria uma maçada.

Isto não quer dizer que tenha desistido de experimentar. Apesar de não ser muito aventureiro, gosto de desafios. Acertar com a exposição num rolo de slides seria algo que me tentaria, mas seria uma experiência cara: os rolos são caros e a revelação também.

Fazer a experiência, por outro lado, poderá servir apenas para confirmar o que sei de antemão. Seria como pontapear um paralelepípedo para saber se é duro. Não tem interesse, porque tenho um conhecimento apriorístico razoavelmente preciso. Mas, se a reputação de películas como as Fujifilm for merecida, os resultados podem ser deslumbrantes. Nunca saberei ao certo o que esperar se não fizer a experiência. Penso que é a isto que chamam «dilema».

M. V. M.

Leica Zagato

Não se está a passar nada de muito interessante no Planeta Fotografia. O que é natural, porque, convenhamos, já está tudo inventado. Quando é assim, tudo se resume a evoluções de pormenor – mais megapixéis, mais fotogramas por segundo, mais sensibilidade ISO, mas, no essencial, nada de novo.

Na semana passada as únicas novidades vieram da Leica. Uma compacta com sensor de 1 polegada, que não é mais que uma Panasonic com o famoso ponto vermelho a adicionar umas centenas de euros ao preço, e uma M10 redesenhada por nem mais nem menos que o Atelier Zagato.

Isto interessa-me. Para quem eventualmente não souber, o Atelier Zagato é uma das mais famosas casas italianas de design automóvel. Não tem a notoriedade de uma Pininfarina ou Bertone, mas alguns dos seus designs são simplesmente incríveis. Desde o maravilhoso Aston Martin DB4 (foto em baixo) ao Maserati Mostro, passando pelo excêntrico Alfa Romeo SZ dos anos 90, os modelos Zagato são extremos, provocadores, exuberantes e, sobretudo, belos. A Zagato é uma casa que, por desenhar veículos de séries limitadas, sem os constrangimentos da grande produção, pode ousar. A Bertone e a Pininfarina – especialmente a primeira – não sobreviveram à ousadia dos seus designs, mas a Zagato, aparentemente, continua a porfiar.

E agora a Leica entendeu que seria boa ideia encomendar uma série especial da sua M digital, a M10, ao atelier Zagato. O resultado foi decepcionante, pelo menos para mim que conheço razoavelmente bem a história do design automóvel da Zagato. Não há aqui um mínimo de ousadia. Talvez seja difícil redesenhar uma Leica M – até por esta ser uma câmara extremamente bonita –, mas não há a originalidade, a criação e o atrevimento de um Aston Martin Virage Shooting Brake. É apenas um redesign do topo da câmara, com uma pequena bossa no lugar onde a mão direita agarra a câmara, e nada mais. É usado alumínio em vez de latão, mas isto pouco acrescenta à estética. Pelo contrário, até a deteriora: em lugar do couro, o corpo é revestido de alumínio canelado. O único sinal de distinção é, aliás, de gosto questionável: o interior do para-sol da objectiva 35mm-f/1.4 é ornado com a inscrição «ZAGATO». Este nome surge dez vezes à volta da circunferência interior do para-sol. Ao menos não é em fundo vermelho, como nos binóculos que Zagato desenhou para a mesma Leica.

O nome Zagato contribui para acrescentar cerca de seis mil euros ao conjunto constituído pelo corpo M10 e pela objectiva 35mm-f/1.4. Decididamente, um mau negócio – especialmente se atendermos a que a M10 não precisa de retoques de designers externos à Leica para ser uma câmara bonita.

A quem se destina esta câmara? Não sei. Provavelmente a gente que nunca dará o devido valor à tradição Leica e a comprará apenas por armanço – ou, o que é pior, para especular e revendê-la por um preço ainda mais alto no eBay daqui a alguns anos. A Leica, com estas séries especiais, não faz mais que legitimar as invectivas dos que gostam de descarregar o seu ressentimento contra «os ricos» na Internet. Sic transit gloria mundi.

M. V. M.