Férias forçadas

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Há pouco mais de dois anos, mais concretamente no dia 11 de Outubro de 2014, escrevi um texto que tive o gosto duvidoso de intitular As velhas e as suas manias (embora depois tivesse o cuidado de esclarecer que a prosa não era sobre psicologia da terceira idade: não que alguém fosse pensar que era, porque nessa altura já todos sabiam que não sou um psicólogo geriátrico). Nesse texto abordei um estranho problema técnico que se estava a passar com a minha Olympus OM-2n: o anel que controla o tempo de exposição prendia, tornando-se ocasionalmente difícil de manusear.

Este problema, que desde então ocorreu amiúde, pareceu manifestar-se com mais intensidade quando fazia frio e a humidade era mais intensa, mas também aconteceu em dias mornos – mas nunca no Verão, nem nos dias quentes da Primavera e do Outono. No Domingo, dia 19, voltou a acontecer. De manhã tudo correu bem, mas durante a tarde o comando emperrou de vez na posição 1/1000. Infelizmente, eu tenho muito pouca sensibilidade para certos mecanismos: embora saiba perfeitamente quando estou a poupar ou a desperdiçar a energia do motor do automóvel, tenha sensibilidade para determinar o momento ideal para mudar de velocidade e domine o ponto de embraiagem na perfeição, há certas coisas que me derrotam por completo. Fechaduras manhosas, por exemplo. E, como agora descobri, comandos do tempo de exposição situados à volta da baioneta. Tal como não consigo rodar uma chave numa fechadura que exija um determinado truque para abrir, também não consegui desbloquear o comando da OM-2.

O Raúl Sá Dantas conseguiu-o. Desbloqueou o comando, mas este último já não controlava nada. O tempo de exposição assinalado nada tinha que ver com o real. As cortinas moviam-se instantaneamente quando o comando estava na posição de 1 segundo, o que não podia ter acontecido e significa que o controlo do obturador ficou bloqueado, provavelmente em 1/1000. Isto quer dizer que a minha Olympus OM-2n está avariada. É oficial. Vai ser entregue, para reparação, a um homem chamado Igor, que não é certamente o assistente do Doutor Frankenstein (embora não seja impossível que a minha máquina venha a receber peças de outra, o que pode ser havido como um pouco shelleyano).

Isto é estranho. Há duas semanas tive oportunidade de manusear uma Olympus OM-1, que era o modelo que Maitani-san concebeu antes de decidir colocar electrónicas inúteis dentro das máquinas. O comando do tempo de exposição da OM-1 roda como uma faca quente sobre manteiga derretida. Há quem especule que isto se deve à ausência de controlos electrónicos no mecanismo do obturador, já que a OM-1 não tem nenhum modo de exposição automático ou semi-automático, mas embora tal explicação não me pareça plausível, não posso sinceramente confirmar ou infirmá-la. O que sei é que o comando do tempo de exposição das OM-1 – ou, pelo menos, do exemplar que tive nas mãos – é de uma suavidade irresistível. O que é quase difícil de acreditar, atendendo a que podemos estar a referir-nos a mecanismos fabricados há trinta anos.

Seja como for, vou ter de fazer uma pausa nas fotografias. Fotografar com a E-P1 já não me dá qualquer prazer e, de resto, não suporto a falta de nitidez daquele sensor. Prefiro esperar pelo conserto da OM a fotografar digital. Eu sei, eu sei: se gosto de fotografia, devia gostar de fotografar com o que quer que fosse que tivesse à minha disposição, mas eu não funciono assim. Afeiçoei-me à fotografia analógica e jurei-lhe fidelidade eterna.

Isto pode ser uma boa oportunidade para reflectir sobre que tipo de fotografia quero realmente fazer. Sinto que preciso de aproveitar melhor a cor e trabalhar com ela para fazer melhores composições, em lugar de fazer transposições do género de fotografias que fazia a preto-e-branco para as cores. Talvez aproveite para andar mais atento e descobrir mais motivos, quem sabe?

Em todo o caso, a pausa não se estende ao Número f/. Os leitores poderão ficar contentes ao saber que o facto de não ir fotografar durante um lapso de tempo que pode ser considerável não se vai repercutir na produção foto-literária do M. V. M. Ou talvez entendam que bem podia aproveitar para fazer umas férias bloguísticas. (Ah! Vou recusar-vos esse prazer!)

M. V. M.

Como ver fotografias

Hoje passei um Domingo horrível. Uma boa parte do dia foi passada a esperar. Não quero pormenorizar, mas estive largas horas sem fazer nada, apenas esperando. Há maneira melhor de passar um Domingo? Só se for num hipermercado, ou na fila para as caixas de uma grande superfície comercial em dia de preços sem IVA.

Onde eu estava havia Wi-Fi gratuita e disponível ao público. Como tinha o meu smartphone comigo, decidi usá-lo para aquela que é a sua vocação (além de fazer e receber chamadas e de enviar e receber mensagens, claro): acedi à internet através dele.

O meu smartphone tem um ecrã com uma resolução razoável. Não é nenhum iPhone, mas é bastante legível. Quando abri as páginas do Flickr, porém, fiquei alarmado: as fotografias surgiam muito escuras. E não era um problema com as minhas fotografias: as de outros utilizadores, bem como as fotografias publicadas noutros sites – o que incluía fotografias de fotógrafos profissionais –, tinham o mesmo problema: um excesso de contraste e de sombras.

Evidentemente que me lembrei de alterar o brilho do ecrã. Foi a primeira coisa que me veio à mente. O smartphone ainda tinha a pré-definição, que ficava a cerca de 75% da luminosidade possível. Aumentar o brilho não resolveu quase nada: as fotografias continuavam demasiado escuras.

Curiosamente, esta característica é boa para ver fotografias tiradas com outros smartphones, ajudando a disfarçar o péssimo desempenho nas altas luzes e a falta de contraste que são males crónicos dos sensores e lentes minúsculos dos smartphones. Vistas em tamanhos pequenos, estas fotografias parecem todas excelentes, cheias de contraste, com boa resolução, sem ruído e com cores saturadas (o meu smartphone é como os monitores HP: privilegia a matiz vermelha). Contudo, com fotografias correctamente expostas, a visualização torna-se num pesadelo.

As pessoas que vêem fotografias através de smartphones podem fazer uma ideia completamente errada acerca delas. Embora a tendência seja para que todas as fotografias pareçam fabulosamente boas quando vistas em tamanhos tão pequenos como os do ecrã de um smartphone, algumas fotografias, mesmo quando correctamente expostas, parecem demasiado escuras, ocultando muito do pormenor nelas presente.

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Josef Koudelka. Isto não é para se ver com um smartphone.

E este não é o único problema. Ver fotografias num ecrã tão pequeno é limitador e frustrante. Claro que serve na perfeição para ver a fotografia do pimpolho e do gato no facebook, mas as fotografias mais sérias ficam muito prejudicadas. Aconteceu-me ver alguns clássicos de Koudelka no website da Magnum, e não gostei nada do que vi: a resolução era claramente insuficiente e o contraste, bem como os negros, eram simplesmente excessivos. As fotografias que vivem do pormenor e de subtilezas saem claramente prejudicadas, porque o objectivo de visualizar fotografias num smartphone é o de compreender o seu conteúdo em três segundos.

Nada disto significa que vá começar a fazer fotografias sobreexpostas para agradar a quem as vê em «dispositivos móveis». Concluí que as minhas fotografias são para ser vistas em monitores convencionais, com ecrãs de média e grande dimensão. Mas as minhas fotografias de pouco importam; o que é certo, o que sei por ter aprendido com os meus olhos, é que ver fotografias num computador, mesmo que muito bom, será sempre um triste sucedâneo da experiência de vê-las em papel. Mesmo assim, é muito melhor ver fotografias num computador convencional do que num smartphone, por melhor que seja o seu ecrã (e eu já vi fotografias em smartphones com ecrãs melhores que o meu). A evolução tem-se caracterizado por uma redução na qualidade em favor da abundância e do baixo custo, mas há limites a partir dos quais esta redução se torna inaceitável. Vejam lá os pimpolhos e os gatos dos vossos amigos nos telemóveis, mas usem os vossos monitores para ver fotografias um pouco mais intencionais.

M. V. M.

O meu novo dilema

A imagem com que ilustrei o texto de ontem – a minha fotografia, não a de Fred Herzog – não dá senão uma pálida ideia do que ali referi sobre a nova dimensão que a cor acrescenta às fotografias ditas de rua. Podia ter escolhido outra, que ilustrasse melhor os benefícios da cor, mas não o fiz. Por uma razão: é que aquela ilustração é exemplificativa do tipo de fotografia que teria feito se estivesse a usar o preto-e-branco. Como o texto tentou ser acerca da possibilidade de fazer fotografia dita de rua a cores, a ilustração pareceu-me adequada: quando faço fotografia nas ruas, gosto daquele tipo de cenário todo bem compostinho e cheio de simetrias e geometrias. O facto de esta fotografia ser a cores não retira nada à estética.

Por outro lado, tem-me passado pela cabeça uma ideia que pode ser disparatada, mas não deixa de ter a sua racionalidade. Uma possibilidade que tenho é converter digitalizações de fotogramas a cores para preto-e-branco. Eu sei que alguns podem pensar que é sacrilégio converter fotografias analógicas a cores para preto-e-branco, mas se pensarmos bem o mal de raiz já está feito e não é a conversão: é o que foi feito antes – a digitalização. Ora, se estou diante de uma imagem digital, que me impede de convertê-la para monocromático?

Sinto-me cada vez menos preconceituoso – e, o que é o mesmo, mais aberto – em relação à edição de imagem. Quando o negativo é digitalizado, torna-se numa imagem digital. Assim sendo, por que não havia de tirar partido dos instrumentos que a fotografia digital trouxe? Uma grande parte das fotografias a cores que publico no Flickr teriam muito pior aspecto se eu as mostrasse tal como o scanner as deixou. Especialmente no caso das fotografias feitas com o Fujifilm Superia, que deixa todas as imagens com um tingimento verde que é difícil de suportar. O tingimento vermelho do Agfa Vista é muito mais benéfico, embora também seja capaz de produzir resultados indesejáveis. Seja como for, não vejo qualquer problema em editar imagens a partir de digitalizações de negativos.

Claro que isto levanta uma questão que, por esta altura, o leitor dotado de um mínimo de perspicácia já terá formulado: se é assim, não seria melhor usar uma câmara digital? Esta questão é extremamente pertinente, mas soçobra por duas razões. A primeira é que as imagens a cores feitas com película têm mais latitude que as digitais. É muito simples: com os rolos nunca tenho altas luzes estouradas nem sombras excessivas (a menos que falhe por completo a exposição, o que quase nunca me acontece). A segunda razão, e a mais importante, é que não há nenhuma câmara, nem nenhum programa de processamento de imagem, que seja capaz de simular o efeito de uma fotografia analógica a preto-e-branco. Quando inventarem uma câmara com sensores intermutáveis, sendo um deles o da Leica Monochrom e o outro o da Nikon D5, terão criado a câmara digital perfeita, mas por enquanto esse monstro de Frankenstein não existe.

Sendo assim, será que converter digitalizações a cores para preto-e-branco é boa ideia? Para tentar preservar um mínimo de pureza analógica, usei o célebre comando do Photoshop CS Image → Mode → Grayscale com a fotografia do texto de ontem.

O resultado é decepcionante. Mostra, em primeiro lugar, um facto importante: as fotografias a preto-e-branco precisam de uma nitidez de que o Agfa Vista não é capaz. Mas também se vê que os contrastes não são idênticos àqueles que consigo quando uso películas muito contrastadas, como as Ilford FP4 e Pan F. Meh – até as de alta sensibilidade, como a Tri-X, saem melhor que isto. Esta imagem não é verosímil enquanto fotografia analógica a preto-e-branco: tem a palavra «digital» espalhada em toda a sua superfície.

O que me deixa num dilema: estou a gostar demasiado de explorar a cor, mas não vou, de maneira nenhuma, renegar o preto-e-branco. Tal como não tenho de desaprender a minha língua pátria quando falo ou escrevo em inglês, também não preciso de excluir o preto-e-branco das minhas fotografias. A possibilidade de comprar um segundo corpo OM para fotografar exclusivamente a preto-e-branco começa a ganhar foros de inevitabilidade.

M. V. M.

Cores. Cores. A vida é a cores

Ontem recebi, via Dropbox, as digitalizações de mais um rolo a cores. Desta vez foi um Agfa Vista 400, rolo ao qual perdoo uma ligeira falta de acutância e um tingimento vermelho acentuado por fazer tudo o resto tão bem, por tão pouco dinheiro. Podia ficar mais satisfeito com o 160NS, ou com o 400H, ambos da Fujifilm, mas estes rolos custam os olhos da cara. O seu uso justifica-se num contexto profissional – apesar de ser discutível o uso de película 135 para fins profissionais, evidentemente.

Adiante, que não é sobre rolos que quero escrever. Eu não tinha grandes expectativas quanto às exposições deste último rolo. Fiz fotografias naquele estilo a que se pode chamar «de rua», dentro do que costumava fazer quando usava os meus Ilford FP4, e, como imaginava que tais fotografias não iam resultar muito bem a cores, calculei que teria sido um desperdício de tempo e dinheiro.

Estava enganado. As fotografias que fiz são inteiramente válidas – pelo menos segundo os meus próprios critérios, e a despeito de poder considerá-las péssimas daqui a uma semana –, mesmo sendo a cores. Vou mais longe: a cor atribui-lhes uma dimensão suplementar, um interesse extra em relação a imagens semelhantes a preto-e-branco.

Isto faz-me pensar se não terei perdido demasiado tempo ao fotografar quase exclusivamente a preto-e-branco durante mais de três anos. Vendo bem, foi tudo uma questão de moda: habituei-me a ver fotografias a preto-e-branco e limitei-me a aderir à moda. Foi um erro: em lugar de procurar exprimir-me pelos meus próprios meios, preferi o conforto de seguir o que os outros faziam.

Foi um disparate, embora justificado pela verdura e ignorância. Como só conhecia fotografia de rua a preto-e-branco, não imaginava que fosse possível fazê-la de outra maneira. O que mudou tudo, fazendo-me fotografar a cores? Dois factores, por ordem crescente de importância. O primeiro foi ter encontrado uma película capaz de resultados consistentes sob todas as condições de luz. Isto foi essencial – tanto que agora me parece que não fotografava tanto a cores por as películas que experimentei não me terem deixado satisfeito. O segundo foi ter-me familiarizado com um triunvirato de fotógrafos de rua que utilizaram a cor de maneira excepcional: Fred Herzog, Saul Leitner e Joel Meyerowitz.

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Fred Herzog, “Main Barber”

O que eu gosto, nas fotografias de Herzog, Leiter e Meyerowitz, é elas provarem que a fotografia de rua não tem necessariamente de ser a preto-e-branco. Olho para aquelas fotografias, e está lá tudo o que define a fotografia de rua: as pequenas histórias do quotidiano, os sinais da vida urbana, a estética, a composição – e, evidentemente, as cores. E são fotografias que funcionam.

A fotografia de rua tornou-se muito cliché. Tem apenas que ver com a estética, composta de contrastes exagerados e do omnipresente preto-e-branco, e acontece, invariavelmente, em cenários nos quais a presença de uma pessoa é um mero pretexto para a aposição do rótulo de «fotografia de rua». Sim, ainda há fotografias de rua em preto-e-branco maravilhosas, mas a vida é a cores. Foi William Albert Allard quem disse “Eu vejo a cores”. Tenho razões para crer que não estava apenas a declarar que não era daltónico.

Fred Herzog, Saul Leiter e Joel Meyerowitz mostraram-me que é possível uma abordagem diferente para a fotografia de rua. Foi uma verdadeira revelação. Antes, já me tinha deixado fascinar pelo uso que Harry Gruyaert e William Albert Allard fazem da cor, mas estes dois não são fotógrafos de rua – mesmo que, ocasionalmente, tenham feito fotografias que caem dentro dessa definição. Foram Herzog, Leiter e Meyerowitz quem levou a cor para a fotografia de rua. Ainda bem que eles – ou a sua obra, já que Saul Leiter morreu em 2016 – existem: libertaram-me de um espartilho.

No Sábado perguntaram-me quando ia voltar ao preto-e-branco. Isto que estou a fazer não é um mero flirt com as cores, como fiz quando experimentei os Kodak Ektar e Gold e o Ferrania Solaris. Vou certamente voltar a usar rolos de preto-e-branco, mas não com a quase exclusividade com que o fiz até há pouco. Não quero estar limitado a um estilo ou a uma estética.

M. V. M.

Ah, os estereótipos! Onde estaríamos nós sem eles?

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Foto: Youg Hipster/Shutterstock

Os poucos que leram o texto do último Sábado sobre o aniversário da Câmaras & Companhia terão reparado que não fiz uma única alusão à solidez do crescimento da fotografia analógica, do qual a loja e laboratório do Raúl e da Leonor é uma verdadeira metáfora. Dispensei-me de referi-lo porque não gosto de ser repetitivo: já aludi ao assunto por várias vezes. O crescimento da fotografia analógica é um facto insofismável.

Contudo, muitos vêem a revivescência da fotografia analógica como um fenómeno tipicamente urbano, circunscrito a uma determinada subcultura e a um estilo de vida que, na verdade, é mais imaginado que real. Para estas pessoas, a fotografia analógica é um culto desenvolvido por aqueles a quem se convencionou chamar hipsters: sujeitos de barba e óculos, geralmente estudantes universitários com rendimento disponível, que gostam de roupas justas e vivem um estilo de vida alternativo, frequentando bares obscuros e ouvindo Yeah Yeah Yeahs (ou qualquer coisa muito mais underground). Simplesmente, se estas pessoas existem, não dou por provado que sejam elas quem fotografa com película. Pelo menos não é isso que vejo quando ando nas ruas – e acreditem que eu ando muito atento, como é obrigação de quem fotografa nas ruas (o que não é necessariamente o mesmo que fazer fotografia de rua).

De resto, quem atribui esta vitalidade da fotografia analógica aos hipsters não sabe do que fala. Em primeiro lugar – o que é um hipster? O que o caracteriza? É as calcinhas justas e as barbas? Também há habitantes de bairros sociais que vestem e se enfeitam da mesma maneira. São hipsters? Ou será o estilo de vida que os define? Quando ando por zonas frequentadas por gente que se assemelha a este estereótipo dos hipsters, o que mais vejo é iPhones; não se vê muitas máquinas fotográficas por ali, sejam elas analógicas ou digitais.

Mas também há os que pensam que a fotografia analógica é movida pela nostalgia, sendo praticada por gente que se recusa a largar os velhos hábitos e a acompanhar o progresso. Possivelmente, quando lhes falam de fotografia com película, imaginarão velhos corcundas, gotosos e atacados pelo Parkinson carregando máquinas 4×5 de madeira cobertas de teias de aranha.

Este último estereótipo ainda está mais afastado da verdade que o dos hipsters. Eu conheço uma boa parte da comunidade da fotografia analógica do Porto e não vejo ninguém que corresponda a este lugar-comum. As pessoas mais velhas que se dedicam à fotografia analógica são sensivelmente da minha idade; se eu podia ser considerado velho no Século XII, no tempo em que vivo sou alguém que ainda pode esperar viver umas boas três décadas. (E também não sou nenhum hipster, apesar de ter alguns pares de calças justas.) O que move essas pessoas como eu é o entusiasmo, característica que não é muito fácil de encontrar em gerontes (embora seja louvável de se ver quando acontece, como é o caso do meu mentor Fernando Aroso).

Reduzir tudo a estereótipos é estúpido. É abdicar de observar e raciocinar para aderir preguiçosamente ao que se ouve dizer. No caso da fotografia, os estereótipos que mencionei são de tal maneira asininos que chegam a assemelhar-se a caricaturas. Quem cultiva estes estereótipos faria muito melhor se experimentasse abrir os olhos e pensar pela sua cabeça. Se o fizesse, veria que não são os velhos nostálgicos que constituem a força motriz da fotografia analógica actual e que são muito raros os que, entre a multidão de jovens que usa máquinas de película, correspondem ao estereótipo do hipster.

E não é a nostalgia que move os entusiastas. Como podem os jovens sentir nostalgia de tempos que nunca viveram? E que nostalgia existe entre os que nunca abandonaram a fotografia analógica? Esta ideia da nostalgia pressupõe que a fotografia analógica entrou em desuso, como as grafonolas e os coches, o que nada tem de acertado. A fotografia analógica nunca deixou de existir; apenas perdeu terreno para a digital. Claro que nunca vai ter a expressão da fotografia digital, até porque entretanto esta última, graças aos smartphones, conquistou novas clientelas da ordem dos milhões – muitos milhões – de pessoas, tornando-se assim inalcançável, mas é inegável que a revivescência da fotografia analógica existe, está a crescer e não dá sinais de ir abrandar tão cedo. Não pode ser tudo à conta dos hipsters e de velhinhos corcundas!

M. V. M.

Ren Hang (1987-2017)

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Acontece-me com a fotografia o mesmo que com a literatura: sinto uma necessidade tão grande de estruturar os meus conhecimentos que não quero conhecer os contemporâneos sem antes me familiarizar com os clássicos. O que existe agora é o culminar do que se fez antes; há uma evolução, decerto caracterizada por rupturas e ciclos, mas não deixa de ser importante – pelo menos para mim – compreender até que ponto a evolução da arte determinou a produção actual.

O problema de pensar assim é que o passado é tão vasto que exige uma vida inteira para ser conhecido – e mesmo esta dedicação não chega senão para conhecer uma parte do que foi feito. Resta-me, pois, orientar-me segundo algumas referências para tentar compreender a arte, sempre com a consciência de que o meu conhecimento será sempre necessariamente superficial, incompleto e inconsistente. O que é uma pena, evidentemente, mas a vida que escolhi não é a do estudioso das artes.

Mesmo na fotografia, que é uma arte muito recente, pouco sei sobre os clássicos. Não por estes remontarem a um passado remoto e indocumentado, mas pela profusão que a fotografia possibilitou. Nunca conhecerei todas as fotografias de Alvin Langdon Coburn e de W. Eugene Smith. Contudo, sinto que, enquanto este conhecimento dos mestres do passado não estiver completo, não poderei compreender o presente. O que, evidentemente, obsta a que conheça bem os contemporâneos. Já li a Ilíada e a Odisseia, mas não conheço nada de Paul Auster; vi inúmeras fotografias de Henri Cartier-Bresson (mesmo em exposição), mas não consigo lembrar-me de uma só de Wolfgang Tillmans. Triste, não é?

Não surpreende, atento o facto de o tempo que dedico aos históricos não chegar para os contemporâneos, que a obra de Ren Hang me tivesse passado de todo despercebida até ler notícias sobre a sua morte, no dia 26 de Fevereiro, com apenas 29 anos. O que foi uma injustiça.

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As fotografias de Ren Hang não são grande coisa para uma comunidade obcecada pela técnica que exige sensores de médio formato nas suas compactas e se deixa maravilhar por artifícios técnicos superficiais: por exemplo, as fotografias nocturnas sofrem de excesso de iluminação do flash. Contudo, nada disto é importante. O que conta, nas fotografias de Ren Hang, é a enorme sensação de liberdade e beleza que delas exala. E é também a transgressão, claro. Os nus de Ren são integrais, impúdicos – mas são, sobretudo, naturais. Pelo menos quando se é jovem, porque os modelos são jovens, de corpos firmes e plenos de vida. Pela concepção de Ren, a nudez é comum a todas as pessoas. Qual o problema de mostrá-la, se é assim? Infelizmente, nem todos pensam tão saudavelmente e Ren Hang foi proscrito e censurado pelas autoridades chinesas (o que talvez lhes devamos agradecer, porque assim aumentaram a notoriedade do fotógrafo).

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Mas a transgressão das fotografias de Ren não é tão superficial que se circunscreva à nudez dos modelos: há também o facto de os modelos serem fotografados em cenários improváveis e serem frequentemente acompanhados de animais, sendo que, nas fotografias em que estes últimos figuram, Ren se empresta a jogos de sobreposições que nem sempre são bem sucedidos (na minha opinião, que é apenas a minha opinião). O resultado é que a obra de Ren Hang é uma das mais originais com que me deparei. E fez-me pena que ele tivesse morrido tão novo, com apenas 29 anos. Algumas das suas fotografias – aquelas em que os corpos moldam formas esculturais – fazem-me lembrar, com simpatia, uma das minhas fotografias favoritas de sempre, que tanto me fez reflectir sobre a arte contemporânea, a nudez e a beleza: refiro-me a Dois Nus Vistos de Trás, do mestre japonês Kishin Shinoyama.

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Apesar da vibração de vida, da pujança, da beleza e do sentido de humor estampados nas fotografias de Ren Hang, ele sofria crises de depressão que o levaram ao suicídio. Isto deixa-me a pensar: a depressão é um traço comum em muitas das mentes mais brilhantes e criativas. Não sei se será provocada pela incompreensão, pela dificuldade que alguém sensível tem em integrar-se num mundo frio e duro ou por outra razão qualquer – mas, seja o que for, é suficientemente forte para que se perca a força motriz que nos faz levantar de manhã com a coragem – e o prazer – de viver mais um dia. Como se, de repente, tudo tivesse perdido valor e deixado de valer a pena. Ou talvez seja por a sensibilidade fazer intuir com mais profundeza o absurdo da vida e a falsidade do mundo. Quem sabe?

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O que sei é que o mundo perdeu um grande fotógrafo. Felizmente, dele ficará a sua obra.

M. V. M.

Um aniversário peculiar

Hoje fui a uma festa de aniversário. Aliás, não foi exactamente uma festa: não havia música ruidosa nem gente a dançar freneticamente. Foi um porto de honra e não comemorava o aniversário de ninguém – ou melhor, de nenhuma pessoa em especial. O porto de honra celebrava o quinto aniversário da Câmaras & Companhia.

O que vão ler a partir daqui é publicidade descarada. Não há, no Porto, escassez de lojas que vendam material fotográfico analógico. A AFF e a Colorfoto vendem rolos, químicos e papel. Até a Fnac vende rolos. E também não é a única loja (e laboratório) exclusivamente dedicada à fotografia convencional. Há, pelo menos, mais duas. Contudo, a Câmaras & Companhia tem qualquer coisa especial: à sua frente está alguém que pôs todo o seu profissionalismo e saber ao dispor dos entusiastas da película. Neste caso é um casal, porque o Raúl Sá Dantas e a Leonor tornaram-se indissociáveis.

É quase inimaginável o que eu aprendi graças a eles. Mesmo se não levo o entusiasmo por equipamento tão longe como o frequentador típico da Câmaras & Companhia, o acervo de conhecimentos que acumulei é assinalável. Se hoje tiro partido da película e da minha OM-2n, devo-o em grande parte ao Raúl e à Leonor.

Eu não vou fingir que sou cliente desde a primeira hora, porque não sou. A Câmaras & Companhia comemorou agora cinco anos e eu só fotografo com película há três anos e nove meses (mais dia menos dia). A primeira vez que entrei na Câmaras & Companhia, em Junho ou Julho de 2012, nem sequer foi para comprar material fotográfico: foi por me ter sentido fascinado – um fascínio à primeira vista – pela antepassada da Olympus E-P1 que usava então. Quis fotografá-la: era a Pen F, que estava sobre um dos expositores da loja. Nessa altura ainda estava longe de imaginar que me iria tornar num cliente assíduo.

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Também não foi a minha primeira escolha. Só cheguei à Câmaras & Companhia em Julho ou Agosto de 2013, numa altura em que já tinha a OM, depois de dois fracassos clamorosos com as revelações e digitalizações de dois T-Max (cujos autores, por decoro, permanecerão inominados). O que posso dizer é que, desde que conheci a qualidade das revelações e digitalizações do R. S. D., não tive mais necessidade de procurar outras lojas e laboratórios. Para quê? Mais ninguém oferece, além da qualidade, o saber e a simpatia que encontro na Câmaras & Companhia. Esta loja não é só uma loja (e um laboratório): é também um lugar de tertúlia e de conhecimento. Além de, evidentemente, ser um regalo para os olhos, com aquela cornucópia de câmaras e lentes clássicas.

Depois de ter entregado ao Raúl o primeiro rolo que confiei à Câmaras & Companhia, após uma longa e frutuosa conversa, despedi-me dele com uma frase muito cliché: citei Humphrey Bogart em Casablanca. Cliché ou não, foi verdade: aquele foi mesmo o início de uma bela amizade.

M. V. M.