Ripanço, 2

Para ser justo, nem todos os auto-rádios correspondem à descrição que dei no texto anterior. Ainda há alguns modelos de auto-rádios sóbrios. E eu precisava de um deles, porque pôr um JVC ou um Pioneer contemporâneo na consola do Lancia Delta seria simplesmente inconcebível. Seria qualquer coisa como pintar graffiti no David de Michelangelo. A VDO, conhecida pelos seus manómetros e tacógrafos, tem modelos muito sóbrios e elegantes, mas são caros e impossíveis de adquirir em Portugal (se estão a pensar fazer de mim asno, saibam desde já que eu estou perfeitamente ciente da existência da Amazon; simplesmente, a compra de um auto-rádio online é complicada, quanto mais não seja por causa da montagem).

Felizmente, no estabelecimento que visitei havia um auto-rádio discreto ao ponto de mal se dar por ele no meio daquelas aberrações inspiradas na saga Star Wars: era (é) um Blaupunkt. O modelo chama-se «Porto 170», facto que contribuiu moderadamente para inflamar o tripeiro que há em mim. Este auto-rádio não lê CDs (e muito menos cassetes) e é minúsculo: tem cerca de metade da profundidade dos outros auto-rádios. O tamanho diminuto explica-se porque, além do módulo de rádio, o Blaupunkt tem uma entrada USB 2.0. Todos os auto-rádios actuais têm uma entrada USB, mas o Blaupunkt tira proveito de não existir um mecanismo de CD: além de pequeno, é extremamente leve. Ser leve é bom: a ausência de peso diminui o esforço sobre a caixa de montagem e o tablier, o que reduz a possibilidade de surgimento de ruídos parasitas.

O rádio, por ser tão discreto, integra-se muito bem no tablier do Delta. Pelo menos até ser ligado e aparecer a iluminação vermelha das teclas e botões e o display de fundo negro e letras brancas, mas hoje em dia não há praticamente nenhum auto-rádio que tenha uma iluminação verde (a que melhor combinaria com a iluminação do tablier do Lancia Delta) e, de resto, o vermelho e o branco estão presentes no painel de instrumentos, pelo que o resultado estético não é inteiramente mau. O interessante neste rádio é ser simples e prático: a operação é intuitiva, e é fácil de configurar. Mas o melhor é mesmo a entrada USB: graças a ela, posso ripar os meus CDs (e a música que tenho armazenada, que de resto não é muita) para uma pen drive, o que é um benefício enorme: acabaram as cassetes e não tenho de levar CDs para o carro. Claro que há um compromisso: o auto-rádio só lê ficheiros áudio comprimidos (mp3 e WMA), pelo que o som não tem uma transparência espectacular e os agudos são um pouco arranhados – mas é infinitamente melhor do que ouvir uma cassete num auto-rádio Top Son.

O som tem boa claridade, a dinâmica não é nada má e a resolução é francamente boa. As coisas podiam melhorar um pouco se me predispusesse a adquirir altifalantes melhores, mas há uma coisa que aprendi quando era audiófilo: a amplificação é mais importante que as colunas. Se o amplificador for bom, só não reproduzirá o som com qualidade se as colunas forem execráveis. Não é impossível conjugar um amplificador Krell com colunas Monitor Audio de €200 e ter bons resultados, mas pôr um amplificador barato a alimentar colunas de alta qualidade redunda quase sempre num desastre. Felizmente, os altifalantes que o Delta trazia são de qualidade suficiente.

Os benefícios desta entrada USB são tão grandes que me puseram a meditar sobre se sou realmente um retrógrado. Concluo que não sou. Posso conduzir um veículo com carburador, expor película e ouvir LPs, mas não renego o progresso nem tenho relutância em adoptá-lo. Simplesmente, no meu entender há progressos bons e progressos negativos: quando o progresso é conseguido pela mera necessidade de vender mais, com sacrifício da qualidade – como aconteceu quando o CD tomou o lugar do LP –, é absurdo louvar e adoptar irrestritamente o progresso só por se querer acompanhar a novidade. Nem toda a novidade é benéfica, e muito frequentemente os que a adoptam entusiasticamente dão por si olhando para trás para tentar perceber o que ficou a faltar quando trocaram a qualidade pela novidade.

Por seu turno, ter uma quantidade inimaginável de música armazenada num dispositivo minúsculo e poder reproduzi-la com qualidade aceitável é, indubitavelmente, um benefício. Não, o Blaupunkt Porto nunca reproduzirá música como o meu Rega Planar 3 – nem tem essa pretensão –, mas a qualidade é mais que suficiente para ouvir música satisfatoriamente enquanto conduzo. Este é um progresso que não hesito em abraçar, porque não é conseguido à custa da qualidade nem do prazer.

Curiosamente, ripar álbuns devolveu-me o prazer que tinha há algumas décadas, quando gravava cassetes. Havia, entre mim e alguns amigos, uma espécie de rivalidade para saber quem gravava a melhor música e fazia as melhores sequências de canções (e instrumentais). O problema é que, entre o trabalho, o Lancia Delta, a família e o ripanço (sosseguem: eu sei bem que «ripanço» não se refere exactamente ao acto de ripar música), me fica menos tempo para fotografar – mas isto é assunto para mais tarde.

M. V. M.

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Ripanço, 1

Pois é: mais um texto sem relação com a fotografia. O tempo passa sem novos escritos e, quando estes aparecem, nada têm que ver com o tema do blogue. «Talvez – pensarão certamente alguns leitores – o M. V. M. devesse mudar o título do blogue». Nesse caso, poderia chamar-lhe La Macchina, ou Il Mondo Delta. É que o Lancia Delta é a explicação principal da minha ausência de actividade fotográfica. Não a única, mas a mais importante.

O tempo e a atenção que preciso de dedicar ao raio do automóvel estão a tornar-se excessivos. Eu sabia que ia ser assim: apesar de nunca ter tido um automóvel que me durasse vinte e sete anos, sei que todos os veículos precisam de manutenção. Mas este meu Lancia sofre de outro mal: os donos anteriores, com excepção do que me precedeu imediatamente, não eram gente que desse a um veículo destes o respeito – não, esta palavra não é excessiva – que ele merece. Quando o comprei, descobri diversos absurdos: um cesto de plástico (semelhante aos utilizados no transporte de pescado) ocupando um quarto do volume da mala, com uma data de inutilidades como luvas e outras tralhas incompreensíveis; uns tapetes de borracha que ou eram demasiado crescidos para o automóvel ou este era demasiado pequeno para eles; o reservatório do líquido de limpeza dos vidros estava selado com… uma rolha de cortiça!, e o rádio era um Top Son de gaveta com leitor de cassetes.

O Lancia Delta pode ser entendido como o zénite do meu anacronismo, mas este é mais aparente que real: só vai até ao ponto em que a sensatez prevalece sobre todas as outras considerações. Fotografar com uma máquina de película é sensato porque obriga a fotografar com ponderação e parcimónia; ter um Lancia Delta é sensato porque, além de ser um futuro clássico, conduzi-lo é um prazer indescritível; ouvir LPs de vinil é sensato porque é um som superior ao do CD e esmagadoramente melhor que o dos ficheiros comprimidos; usar cassetes, por seu turno, não tem nada de sensato. As cassetes não são práticas, não têm qualidade de som e estão sujeitas a avarias (quem nunca teve de soltar a fita que se enrolou no cabresto do leitor que levante o dedo). Ainda por cima, o Top Son, além de feio, tinha um son absolutamente bottom. Mudar de rádio tornou-se uma prioridade.

Foi assim que dei por mim num estabelecimento do Porto, disposto a gastar algum dinheiro num auto-rádio. Os auto-rádios são uma espécie ameaçada: hoje em dia só os automóveis com nível básico de equipamento, como veículos de mercadorias e de frota, não têm equipamentos de som (melhor ainda, equipamentos multimédia) de qualidade mais que aceitável incorporados na consola, o que torna o auto-rádio dispensável. O auto-rádio é assim um produto marginal, pelo que a oferta é relativamente escassa.

Mas eu precisava de um auto-rádio. O Top Son era risível. Ter um auto-rádio com aquele nome é, por si só, motivo de chacota, mas a estética grotesca e o som lamentável faziam com que merecesse levar um tiro. Contudo, uma montra de auto-rádios contemporâneos é o equivalente de uma loja dos horrores ou de um freak show. Mesmo os fabricantes que, nos tempos áureos do auto-rádio, faziam modelos relativamente sóbrios e atraentes, como a Alpine e a Kenwood, parecem exclusivamente voltados para o mercado, pelos vistos importantíssimo, do xuning [1]. Estéticas agressivas e de mau gosto, displays berrantes, potências mirabolantes (um engodo altamente enganador) e uma panóplia de funcionalidades inúteis: são estas as características de todos os auto-rádios actuais. (Continua)

[1] Xuning: neologismo composto por Xunga + Tuning

Macchina, seconda puntata

 

Dizia, no último texto, que me dividi entre o Citroën Xantia – um automóvel grande, confortável e razoavelmente esbelto, mas um tanto anódino e com uma tendência irreversível para desvalorizar – e o Lancia Delta, que, apesar de mais antigo, é um automóvel de culto e, por essa mesma razão, não vai desvalorizar – ou, na pior das hipóteses, não desvalorizará muito. A escolha do segundo foi muito mais racional do que pode parecer à primeira vista: dentro de três anos será um clássico, estatuto que o Xantia dificilmente alcançará.

O meu Lancia Delta põe-me um sorriso de orelha a orelha: é como se tivesse concretizado uma ambição da juventude que o tempo fez esquecer. É certo que hoje qualquer utilitário oferece um nível superior de equipamento, e duvido que recebesse muitas estrelas nos testes EuroNCAP; além disto, o facto de o motor ser alimentado por carburador remete-o para a categoria dos anacronismos, mas ainda há bons motivos para ter um Lancia Delta para além do seu valor como automóvel coleccionável. É um carro distinto, com presença, cuja estética deixa quase todos os automóveis contemporâneos a chorar baba e ranho; é muito bem construído, a despeito do preconceito que persiste quanto aos automóveis italianos; é confortável – a suspensão dura é compensada por uns estofos fantasticamente cómodos –, e é, sobretudo, um automóvel divertido de conduzir. Apesar de ter sido apresentado em 1979, o Delta tem suspensões independentes com eixo multilink nas rodas traseiras e McPherson com barra estabilizadora no eixo dianteiro, pelo que o comportamento em estrada é simplesmente excelente. É daqueles carros com os quais se pode acelerar em curva com confiança, sem grande inclinação da carroçaria e com uma precisão surpreendente. As acelerações são adequadas para um motor que tem apenas 79 CV, mas esta cavalaria só tem de puxar 900 quilos e a caixa de velocidades bem escalonada confere vivacidade ao andamento. O meu Lancia Delta, mesmo se o não é nenhum Integrale (nem um HF Turbo, nem sequer um GT i. e.), nunca poderá ser apodado de pastelão.

E o meu exemplar está muito bem conservado. Apenas tem problemas menores, como a grelha furada e alguns tecidos interiores desbotados, que são todavia fáceis de resolver. O Lancia Delta tem uma excelente chapa e resiste muito bem à corrosão – a colaboração com a SAAB no seu desenvolvimento não deve ser alheia a esta longevidade – e, mecanicamente, está muito bom. Com pneus novos, direcção alinhada e rodas calibradas, quase se podia dizer que esteve numa cápsula do tempo. Reparos? Como todos os automóveis com carburador, o motor não funciona correctamente enquanto não atingir uma certa temperatura; a direcção, que não é assistida, é pesada em manobras – mas não em andamento –, além de ser pouco directa, mas comunica muito bem o que se está a passar. O pior é a travagem: não que o Delta trave mal, mas o curso do pedal é longo e transmite uma sensação esponjosa que não é muito tranquilizadora. Nada que discos e calços novos não resolvam.

Agora já posso procurar lugares para fotografar sem dar cabo das solas e sem ter de depender de autocarros e dos seus motoristas alarves. E faço-o, convenhamos, com algum estilo. Pensei que o Delta, por ser antigo, ia ser motivo de alguma irrisão, mas até agora só recebi elogios e congratulações. E ajudas importantes, quer na aquisição, quer na manutenção. E vou precisar de mais ajudas, porque encontrar peças para um Lancia Delta não é nada fácil.

Mas isto é um blogue sobre fotografia. As imagens que acompanham este texto e o de ontem são péssimas, não são? Pois são. A explicação é simples: foram tiradas com um telemóvel. Mesmo se o local não ajudou em nada, a sua qualidade é inaceitável – por mais que nos tentem convencer que é este o futuro da fotografia. Um dia destes, quando o tempo permitir, apresento fotografias dignas do Delta, mas por agora fica mais uma resmunguice contra os telemóveis. Bem apropriada, creio eu.

M. V. M.

Macchina, prima puntata

O Número f/ esteve outra vez silenciado, embora não por tanto tempo quanto o do último interregno. Tive uma boa razão para não escrever: como fiquei privado da mobilidade de que necessito para fotografar, a minha actividade fotográfica foi tão drasticamente reduzida que fiz dezoito fotografias em dois meses. O que teve por consequência um desinteresse muito blasé pelas coisas da fotografia.

Sem automóvel – ou outro meio de locomoção motorizado próprio – é muito difícil fotografar. O autocarro, infelizmente, não é opção: as tarifas são caras, os horários são incertos e as viagens francamente desagradáveis. Nas paragens, onde se espera por tempo indefinido, não há filas: as pessoas amontoam-se e entram nos autocarros desordenadamente; há motoristas que, pela sua grosseria na condução e no trato com os passageiros e utentes da via pública, mereciam ser espancados; de resto, apesar da existência de corredores reservados a transportes públicos de passageiros, os autocarros têm constantemente de parar por causa de veículos estacionados nesses mesmos corredores. Andar de autocarro no Porto é um suplício.

Como sabem, em Setembro tive um acidente de viação do qual resultou a perda total do meu automóvel; fui indemnizado, mas o montante da indemnização não me permitiu comprar um veículo novo. Porque não queria recorrer ao crédito para comprar um veículo, voltei-me para o mercado de usados. Depois de horas infindáveis despendidas no autouncle.pt, deparei-me com um dilema que me dilacerou durante algumas semanas: a minha escolha estava mais ou menos fixada no Citroën Xantia, um automóvel de qualidade mas não especialmente excitante, mas quando procurei anúncios referentes ao Lancia conhecido em Itália por Nuova Delta, produzido entre 1993 e 1999, deparei com um Delta 1.3 LX de 1991 cujo total de quilómetros era cerca de metade da quilometragem do meu Peugeot: 61 000. E por um preço bastante atraente para um veículo que, em Itália, é vendido por valores entre €2400 e €3000.

Um pouco de história, antes de explicar o meu dilema: o Lancia Delta – daqui em diante, a referência ao Lancia Delta exclui o Nuova Delta e o modelo Delta produzido entre 2006 e 2014 – é um dos automóveis mais importantes da história da indústria automóvel italiana. É um familiar compacto de 3,90 metros de comprimento com acabamentos e equipamentos premium em relação aos modelos da Fiat com os quais compartilha uma parte substancial da mecânica. (Como decerto sabem, a Lancia pertencia à Fiat e agora integra o grupo FCA, que engloba as marcas Fiat, Chrysler, Dodge, Ram, Maserati, Alfa Romeo e Lancia.) É também um dos modelos mais apreciados pelos amantes dos desportos motorizados, pelo seu sucesso nos ralis. Aliás, este é um dos poucos casos em que o êxito na competição conferiu notoriedade e sucesso a uma gama de automóveis – não apenas aos homologados para competição, mas a todas as variantes do modelo, desde o mais básico até ao topo de gama. «Lancia Delta» é quase sinónimo de «desporto automóvel».

O Lancia Delta tem uma estética que não pode ser dita «intemporal», porque é típica da transição da década de 70 para a de 80 do século passado; mas é uma estética imortal. Não é um design actual, mas a pureza e harmonia das linhas fazem com que o Lancia Delta seja, ainda hoje, um automóvel admirável. Além da estética, é um automóvel robusto, bem construído, confortável e com um temperamento desportivo. No seu conjunto – e no segmento de mercado que integrava –, é o automóvel ideal. Pelo menos para a minha geração, que vibrou com as vitórias de Juha Kankkunen, Markku Alen e Massimo Biasion no mundial de ralis com os Delta HF 4WD e Integrale. Não existe nenhum outro pequeno familiar de cinco portas que concilie luxo e desportividade como o Lancia Delta. É um automóvel único. (Continua)

M. V. M.

Dommage (onde se misturam automóveis, acidentes de viação e películas a preto-e-branco)

Bonk!

Seria muito bem feito se já não tivesse leitores. Mais de um mês sem escrever nada para o Número f/ é um recorde, mas é, sobretudo, uma falta de respeito por quem segue o blogue. Pelo facto peço as minhas mais humildes desculpas.

O meu jejum bloguístico teve uma causa muito concreta: tive um acidente de viação no dia 29 de Setembro e, desde então, reduzido à condição de simples peão, tenho fotografado muito pouco. O que levou a um desinteresse muito blasé pelas coisas da fotografia – e este desinteresse, por seu turno, implicou uma diminuição da vontade de escrever para o Número f/.

Vamos por partes: o acidente foi ridículo. Foi um toque insignificante num cruzamento, embora com consequências nefastas para o meu peugeotzinho, que foi para a perda total. O ridículo do acidente esteve no facto de o outro interveniente ser francês e não perceber uma palavra de português, o que me obrigou a ter uma discussão de trânsito em francês. Evidentemente, foi uma première. Ainda por cima, apesar de o homenzinho me ter dado cabo da vida e ter insistido que eu era o culpado porque vinha muito depressa (não é o que dizem todos?), não consegui antipatizar com ele e as ocupantes do outro automóvel: no fim já conversávamos cordialmente e até gabaram o meu Francês. Ou seja: um francês veio a Portugal com o único propósito de destruir o meu automóvel – por ironia, também francês – e eu acabo na cavaqueira com ele! C’est farouche.

Agora tenho a exorbitância de dois mil e quinhentos euros, a pagar pela seguradora a título de indemnização – o meu Peugeot 206 já tinha uma idade considerável, pelo que aquele valor não foi tão baixo ou injusto como pode parecer – para adquirir um automóvel. Posso juntar mais algum, mas estou confinado a adquirir um veículo em segunda mão. Estou mais indeciso do que o tolo de Teixeira de Pascoaes no meio da ponte de S. Gonçalo (para quem não sabe, a imagem do tolo no meio da ponte provém de uma criação de Teixeira de Pascoaes e apareceu na obra de 1923 O Pobre Tolo) quanto ao automóvel a adquirir: nas minhas visitas ao autouncle.pt, apareceu-me um veículo que desperta o amante da competição que existe em mim e se recusa a envelhecer: um Lancia Delta 1.3 LX. Seria certamente divertido de conduzir e tem uma estética maravilhosa, mas é um automóvel de concepção antiga – o motor é alimentado por carburador! – e é, objectivamente, pior que o Peugeot, mesmo se tem o potencial de se tornar num clássico.

Depois há em mim um amante do conforto, e eu deixo-me tentar pelo Citroën Xantia. O Xantia é o último dos verdadeiros Citroën: se não posso ter um DS21, igual ao da personagem Patrick Jane de O Mentalista, o Xantia é um descendente orgulhoso do boca-de-sapo e um bom sucedâneo. O problema do Xantia é ser um carro para homens idosos. Não é banal – é um dos automóveis mais elegantes e distintos do seu tempo e do seu segmento, só superado pelo Alfa Romeo 156 –, mas não é um veículo para retirar prazer da condução. A suspensão hidropneumática e as suas poltronas, porém, são tentadoras: o Xantia é um automóvel para gozar o conforto, o que, bem vistas as coisas, é uma forma sublimada de prazer.

Com o Delta ou o Xantia (ou outro: por exemplo, ainda não desisti do Alfa Romeo 147, um carrinho doentiamente chique), espero voltar a encontrar lugares onde fotografar. Perto de casa já está tudo visto, e nem sempre é prático fazer grandes caminhadas com a máquina fotográfica, pelo que o automóvel é, no meu entender, um bem essencial. Quando voltar a fotografar regularmente – e aqui volto ao tema deste blogue – já tenho uma nova película favorita: a Kentmere 100. Tem muito grão, mas o contraste está ao nível da Ilford FP4 (o que não é coisa pouca) e o grão confere-lhe carácter. E tem um preço muito razoável. Apesar de tudo, ainda não desisti de fotografar com película: a fotografia digital pode ser prática, mas não dá o mesmo prazer. Eu não preciso de mega-resolução, mas preciso de sentir que estou a divertir-me quando fotografo, o que não acontece quando o faço com aparelhos digitais.

Já que menciono a diversão: a fotografia do topo foi feita com o telemóvel. Foi uma das poucas em que a focagem não falhou rotundamente. Fotografar com um telemóvel está nos antípodas de divertido: não compreendo por que razão tanta gente o usa para fotografar.

M. V. M.

As dificuldades de estabelecer classificações

Apesar de ler regularmente desde a minha adolescência – se descontar as bandas desenhadas da infância –, a minha aprendizagem da literatura está, posso dizê-lo, no seu início. Há aqui uma analogia curiosa com a fotografia: acabar de ler um bom livro provoca-me a mesma sensação que ter visto uma grande fotografia, e ambas as experiências me levam, pela minha escassez de conhecimentos em ambos os domínios, a extrair conclusões precipitadas. Explicando melhor: tenho tendência a dar um valor excessivo aos livros – e às fotografias – que me agradam. De uma fotografia, digo: «é uma das melhores de sempre» – só para, ao fim de algum tempo, me embaraçar por ter feito esse julgamento. No caso das fotografias, porém, nunca me atrevi a dizer que a fotografia F… é a melhor de todos os tempos. Da última vez que procurei seleccionar as que considero serem as melhores fotografias de sempre, alarguei o número a quinze – e hoje parece-me que cometi um ou dois erros de apreciação.

Com os livros que leio acontece sensivelmente o mesmo, mas com o disparate acrescido de me ter dado à pretensão de proclamar que um determinado livro era o melhor de sempre. Li A Condição Humana, de André Malraux, e acreditei que era a melhor obra literária de todos os tempos; mais tarde li A Montanha Mágica, de Thomas Mann, e formulei o mesmo juízo, o que implicou derrubar a obra do ex-ministro da cultura da República Francesa do Olimpo literário que inventei. O reinado de A Montanha Mágica, por seu turno, durou apenas até ter lido Céline, mais precisamente Viagem ao Fim da Noite. Foi por esta altura que me apercebi do absurdo que é tentar eleger o melhor livro sem ter concluído a tarefa impossível de ler todos os livros do mundo. Mesmo que me cinja aos livros da grande literatura universal (entendendo-se como tal aquela onde não entram o José Rodrigues dos Santos nem a Margarida Rebelo Pinto, nem o Nicholas Sparks e essas coisas), vou morrer sem ter lido sequer a décima parte dos bons livros escritos ao longo da história. As minhas habilitações para eleger a melhor obra literária de sempre são, deste modo, muito escassas.

E agora estou a ler uma obra – vou sensivelmente a meio, leio-a devagar porque sei que me vai ficar um vazio triste quando chegar à última linha – cuja leitura me está a dar mais recompensas que todas as que referi: estou, seguramente, a ler uma das criações mais geniais do espírito humano. Se ainda incorresse no ridículo de pretender estabelecer qual o melhor livro de sempre, estaria de novo diante de uma perplexidade e teria novamente de depor uma obra do seu trono e sentar lá uma outra, mas agora não me atrevo a fazer juízos desta natureza. Ainda me falta ler muitas obras para afirmar que o livro x é o melhor de sempre e, de resto, que autoridade teria eu para fazer juízos tão temerários?

Seja como for, a obra que estou a ler é A Cartuxa de Parma, de Stendhal. Não quero fazer uma apreciação antes de concluir a leitura, mas é um romance empolgante, divertido, sagaz, profundo, perspicaz, irónico, sarcástico, cáustico, mas nunca cínico ou amargo – tudo num estilo fluído em que o autor busca deliberadamente a proximidade do leitor. Nunca me vou recriminar suficientemente por ter ignorado Stendhal durante todos estes anos.

A Cartuxa de Parma é tão bom que me fez passar pela mente uma ideia um tanto disparatada – ou pelo menos algo estranha: se eu pudesse viajar no tempo (ou se tivesse vivido na sua época), gostava de conhecer Monsieur Henri Beyle pessoalmente. Stendhal deve ter sido um dos espíritos mais finos e brilhantes de todos os tempos, mas a sua escrita revela uma personalidade invulgar: viveu num período de convulsões políticas e sociais sem par na história mundial, escrevia para evitar o aborrecimento e tinha o hábito curioso de ler o Código Civil francês de 1804 (o famoso Código Napoleónico) por a sua redacção ser um modelo de clareza. E, de facto, a linguagem de Stendhal é clara, directa e sem uma ponta de pretensão. Stendhal foi, sem dúvida, uma personalidade peculiar e interessante. Ainda por cima adorava Itália, onde de resto viveu uma parte significativa da sua vida. (A Itália é adorável, mesmo se os italianos têm mau gosto e falta de senso comum para eleger partidos políticos.)

O meu único reparo a A Cartuxa de Parma refere-se, não à obra, mas à edição da Editorial Inova que estou a ler: é o péssimo trabalho de revisão e composição. A tradução, de Adolfo Casais Monteiro, é excelente, mas as gralhas são inúmeras e imperdoáveis. E o livro, que comprei num alfarrabista, é composto com o tipo de letra Arial. É profundamente desagradável ler um romance composto neste tipo de letra. É como se estivesse a ler um manual de instruções de um electrodoméstico com 458 páginas – ou seria, se a leitura não fosse apaixonante e absorvente ao ponto de fazer esquecer estas considerações, que, sendo de pequena monta, interferem no prazer de ler.

Se ainda não o fizeram, leiam A Cartuxa de Parma. Vão ficar seriamente enriquecidos se o fizerem. Depois não me agradeçam o conselho: façam antes como eu – fustiguem-se por terem deixado que uma obra como esta vos tivesse passado ao lado durante tanto tempo.

M. V. M.

Sim, mas que tem isto a ver com o Dia Mundial da Fotografia?

No texto anterior recorri a uma figura de estilo (chamemos-lhe assim) para caracterizar a forma como fotografo. Disse que a fotografia não é pesca de arrasto, mas pesca à linha. Tenho a impressão de que engendrei esta imagem por via de um facto que estava na minha mente, embora não estivesse presente quando escrevi. Foi, portanto, um facto inconsciente. A psicologia há-de ter um termo mais certo para isto. É que, na semana passada, depois de uma produtiva manhã que gerou quatro ou cinco fotografias, como é estilo do vosso M. V. M., resolvi entrar numa tenda, instalada no largo do Molhe, onde se vendiam livros. Uma das minhas compras foi O Tio Vânia, de Anton Tchékhov (creio que esta será a primeira peça de teatro que vou ler), mas outra foi Os Pescadores, de Raul Brandão. Eis a explicação da metáfora.

É quase imperdoável que nunca me tenha dado a curiosidade de ler Raul Brandão. Se não fosse pelo estilo, ou pelo conteúdo das suas obras – sobre os quais não me posso pronunciar –, ao menos que fosse pela afinidade do lugar! Vivo a um quilómetro da Cantareira, lugar onde se situa a acção do primeiro texto de Os Pescadores. Houve um tempo em que passava lá todos os dias. E, um pouco mais adiante, no jardim do Passeio Alegre, enfrentando a Avenida D. Carlos I, há um monumento a Raul Brandão, a propósito de Os Pescadores. E, contudo, nunca senti necessidade de conhecer, quer o autor, quer a obra. Espero que não exista um inferno literário onde as almas ignaras e iletradas arderão eternamente – porque, se houver, é esse o meu destino quando me finar.

Ainda na frente literária, cada vez me interesso mais por Stendhal. Lucien Leuwen, a sua obra incompleta, é, em certos aspectos, ainda mais interessante que O Vermelho e o Negro. O tema subjacente a Lucien Leuwen é o antagonismo entre a nobreza decadente e a burguesia em ascensão, mas há muito mais: além da paixão entre Lucien e a Senhora de Chasteller, que influencia decisivamente o comportamento do primeiro, há – e nisto se assemelha a O Vermelho e o Negro – a perda da inocência e pureza de um jovem ambicioso que procura singrar em meios onde a intriga e a perfídia são predominantes. E há também a procura do sentido da vida que move Lucien, um jovem algo pusilânime que procura mostrar ao pai, figura que o influencia e determina, que tem um valor que vai além do seu estatuto de jovem filho de um burguês.

O meu fascínio por Lucien Leuwen e O Vermelho e o Negro levou-me a calcorrear a cidade do Porto em busca de um alfarrabista que tivesse aquele que é considerado o melhor romance de Stendhal: A Cartuxa de Parma. Estive perto de desistir, porque estive a um passo de me convencer de que a obra que procurava era apenas produto da minha imaginação. Num alfarrabista, a senhora não conhecia Stendhal, mas tal omissão no seu interesse literário tornou-se desculpável, já que consegui incutir-lhe alguma curiosidade pelo autor (se não consegui, a senhora fingiu muito bem); noutro, o proprietário não só não fazia a menor ideia de quem era Stendhal, e do que era A Cartuxa de Parma, como me perguntou, com uma expressão de completa estupidez estampada na cara: «O que é isso? Um livro antigo?» Respondi-lhe perguntando o que estava ele a fazer numa loja de livros. Não me pareceu que valesse a pena desperdiçar mais palavras.

Felizmente este foi um caso isolado entre os alfarrabistas que visitei. Seguiram-se outros, sempre sem sucesso (mas com conhecimento do autor e da obra, o que me tranquilizou quanto à elucubração formulada anteriormente de que A Cartuxa de Parma era uma alucinação minha e não existia no mundo real). Quase por acaso, encontrei um alfarrabista que tinha A Cartuxa de Parma, numa edição traduzida por Adolfo Casais Monteiro. O dito alfarrabista tem o estranho nome de «Varadero» e fica na Rua da Boavista, defronte à antiga entrada do Grande Colégio Universal. É, possivelmente, o maior alfarrabista da cidade – pelo menos em área e em quantidade de obras. Os alfarrabistas não são só lugares onde encontrar velharias literárias: são também lojas onde se podem adquirir obras cujas edições esgotaram.

M. V. M.