Eu e o Acordo Ortográfico (antecedido de um prefácio aliviado)

Uf! o povo neerlandês não se deixou enganar. Vou poder continuar a apreciar Toto Frima, Ed van der Elske e Rineke Dijkstra – e também, já agora, Bernard Haitink, Pieter Wiespelwey e Anner Bylsma. Entre muitos outros.

Agora que a parte da política deixou de ser uma preocupação, já posso voltar a torrar o sistema nervoso com uma neura antiga – o Acordo Ortográfico. Isto veio-me à cabeça por ter hoje começado a ler o primeiro livro que comprei escrito – ou, neste caso, traduzido – em português da chamada nova norma. O livro, ainda por cima, tem uma capa e um título que lembram os best sellers cor-de-rosa, embora não o seja: o grafismo da capa é piroso: inclui letras brilhantes em alto-relevo e uma menção aos prémios Pulitzer e Nobel no centro de uma coroa de louros e tudo. Pior ainda é o título da edição portuguesa: Home tornou-se «A Nossa Casa É Onde Está o Coração». Se este livro não tivesse sido escrito pela excelente Toni Morrison, teria vergonha de ser visto com ele na rua, mas o pior deste livro é mesmo ter sido traduzido segundo a nova norma ortográfica.

O mais benéfico que posso dizer sobre isto é que certas palavras parecem ter sido amputadas, e outras mutiladas. «Injeção» até pode ser perdoável, e eu não veria com maus olhos uma revisão da ortografia que eliminasse algumas consoantes mudas, desde que com um mínimo de critério. Hoje não escrevemos «contracto», a despeito de o étimo latino ser contractu: escrevemos «contrato». (Notem que estou apenas a referir exemplos esparsos: apesar de gostar de ler e escrever bem, não sou um filólogo nem um linguista.)

O que é completamente incompreensível é que se mude a ortografia de palavras como perspectiva, porque se o objectivo é unificar a ortografia de todos os países onde se fala o português, convinha que se tivesse tido em mente que, no português do Brasil, o «c» de «perspectiva» não é mudo. O artifício da «dupla grafia» consagrado no Acordo Ortográfico é, em si mesmo, a negação da necessidade da nova norma: se se reconhece a diferença, para quê unificar? E, se se quer unificar, porquê manter duas grafias? Não faz sentido.

Já palavras como «objeto» me parecem mutiladas além de amputadas. E que dizer de palavras como «perentório»? Isto não é português! Ou ainda «ato» no lugar de «acto», «ata» em vez de «acta» (a vontade que dá de fazer trocadilhos parvos!) e outras aberrações. Ainda para mais, como os portugueses não se distinguem pelos seus níveis de literacia elevadíssimos e já escrevem muito mal sob a antiga norma, o Acordo Ortográfico só vai trazer mais confusão: há gente que pensa que «facto» vai passar a escrever-se «fato» (outra fonte inesgotável de trocadilhos estúpidos), o mesmo acontecendo com «contato» e «contacto». Até tivemos um juiz famoso que pensava que «cágado» ia perder o acento e se divertiu com – adivinharam – trocadilhos escatológicos, e uma médica que houve por bom escrever «batéria» em lugar de «bactéria». Depois há aquelas palavras que só podem ser fruto de mentes alteradas, como «espetador» em lugar de «espectador». Não há dúvida: o Acordo Ortográfico foi concebido por alguém que quis pôr o país a fazer trocadilhos de mau gosto.

E há também a questão jurídica. Ao que parece, o Acordo Ortográfico não podia ter entrado em vigor sem que todos os países seus destinatários o ratificassem, algo que até agora apenas quatro países fizeram. Não compreendo qual foi a pressa em adoptar («adotar» também é muito canhestro, diga-se) um acordo tão mal amanhado, que não unifica nada e com o qual nem todos os países de língua portuguesa concordam. Por mim, vou adoptar a nova norma quando esta for eficaz na ordem jurídica nacional. Se me torcerem um braço e me apontarem um revólver à cabeça.

M. V. M.

A Holanda, uma retratista com um nome impronunciável e eu

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Amanhã há eleições legislativas na Holanda. Existe o sério risco de um partido liderado por um indivíduo de nome Geert Wilders, que alguns consideram ser a versão holandesa de Donald Trump, vencer as eleições.

O que me aborrece, nestes populistas, é a sua completa incoerência ideológica. Aliás, é mais correcto dizer que não têm ideologia: as ideias que anunciam destinam-se simplesmente a ir ao encontro dos anseios de uma população amedrontada que crê facilmente em lugares-comuns que são indicados como uma panaceia – falsa, evidentemente – para todos os seus problemas. É fácil, a um desempregado com a mente amolecida por muitos anos a ver televisão e que passa a vida no facebook acreditar que a razão de estar desempregado é um estrangeiro estar a roubar-lhe o emprego. E, se esse estrangeiro for um ser considerado inferior – por ter pele escura e ser de uma religião diferente, porque muitos entendem serem estes sinais de inferioridade –, mais fácil se torna propagar o discurso do ódio e conquistar votos. Este Geert Wilders é, curiosamente, um indivíduo que assenta o discurso político na expulsão dos emigrantes, mas pinta o cabelo de louro para não se notar demasiado a presença de traços físicos que o assemelham à sua mãe, uma emigrante indonésia. Não sei o que vê nele uma grande parte dos holandeses.

É isto que me repugna nos populistas: eles só acreditam na conquista do poder e fazem e dizem tudo o que for necessário para o obter. Nem que isso implique mentir e cair em contradições que só escapam a mentes embotadas e predispostas a acreditar nas mensagens de ódio que estes protofascistas transmitem. Resta saber o que fazem quando chegam ao poder. Temos o exemplo dos Estados Unidos, mas ainda mais perto está o caso dos municípios conquistados em França pela Frente Nacional, cuja administração se caracterizou sempre pela corrupção, pelo favorecimento pessoal e pela ausência de qualquer tipo de políticas, ou o dos governos de Silvio Berlusconi, que, embora não fosse um nacionalista em sentido estrito, partilhava com eles uma retórica de ilusão das massas para, uma vez chegado ao poder, fazer tudo ao contrário do que anunciara e governar em benefício das suas próprias empresas. É este tipo de gente que governa a Hungria, a Polónia, a Rússia e os Estados Unidos; seguir-se-á a Holanda?

Se Geert Wilders se tornar primeiro-ministro holandês, poderá, na pior das hipóteses, acelerar o processo de desagregação da União Europeia, contribuir para uma crise económica mundial e desencadear uma nova guerra religiosa na Europa; na melhor, a qual se verificará no caso de ter de governar em coligação com partidos moderados, apenas contribuirá para acentuar uma ligeira antipatia que sempre senti por aquele país decadente e desinteressante. Um país, contudo, que não deixa de ter relevância nas artes, e em particular na fotografia. Com efeito, um dos melhores fotógrafos que conheço – na minha lista mais extensa – é holandês e chama-se Ed (Eduard) van der Elsken. Mas também já me referi aqui a Toto Frima, entusiasta das Polaroids. Além destes dois – e decerto de muitos outros –, há uma fotógrafa contemporânea cuja obra me parece merecer a atenção dos leitores do Número f/: é Rineke Dijkstra, uma moça da geração de 1959 que acabou de ganhar um prémio atribuído pela Fundação Hasselblad.

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Que posso eu dizer sobre os retratos de Rineke Dijkstra? Eles são, aparentemente, rígidos; as poses das pessoas são estáticas e formais, mas é perceptível que as pessoas retratadas são tudo menos isso. É como se as fotografias de Rineke Dijkstra (eu gosto de escrever este nome, embora não faça a mais pequena ideia como se pronuncia) fossem uma metáfora dos espartilhos que cingem a vida das pessoas nos nossos dias. Acima de tudo, são retratos de pessoas reais. Esta realidade é, em si mesma, perturbadora: é como se Rineke Dijkstra caricaturasse os retratos estereotípicos para nos dizer que há mais beleza e retratabilidade nas pessoas comuns do que nos modelos fotográficos. Há aqui uma nota de subversão que me parece deliciosa.

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Depois há os retratos temáticos, nos quais se favorece a crueza da realidade, o mostrar as pessoas na sua essência, sem ornamentos, fotografando-as contra fundos banais e quotidianos, como se quisesse dizer que só a pessoa interessa, que a pessoa é um motivo de interesse mesmo quando desligada das suas circunstâncias. Neste aspecto os retratos de Rineke Dijkstra são imensamente conseguidos.

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Os holandeses estão prestes a seguir o exemplo de outros povos que preferem ser governados por escroques que usam as frustrações dos votantes para fazer passar a sua mensagem e se alcandorar ao poder. A inteligência sai sempre derrotada deste confronto. Quem não se lembra de que Mario Vargas Llosa, um gigante da literatura mundial, perdeu as eleições presidenciais no Peru para um vigarista corrupto chamado Alberto Fujimori? Se os holandeses fossem inteligentes, punham a Rineke Dijkstra à frente de um partido e faziam-na Primeira-Ministra. Talvez nessa altura eu deixasse de encontrar razão nas invectivas do Padre António Vieira.

M. V. M.

Mais leituras (ou como a literatura pode mudar a maneira como fotografamos)

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Stefan Zweig

Alguns leitores poderão, porventura, interrogar-se por que surgem tão frequentemente, aqui no Número f/, textos que nada têm que ver com fotografia. Já escrevi aqui sobre música, literatura, política e mesmo alta fidelidade e automóveis, temas que não estão nem remotamente ligados à fotografia.

A razão é muito simples: este não é um blogue de fotografia como os outros. É o meu blogue e eu tenho outros interesses para além da fotografia. Contudo, este não é, em sentido estrito, um blogue pessoal; se fosse, ter-lhe-ia dado um nome que não estivesse tão intimamente relacionado com a técnica fotográfica. A minha opção por escrever e publicar textos fora do âmbito da fotografia é deliberada. Cada fotografia que o leitor faz – ou eu mesmo, evidentemente – carrega consigo muito do que o seu autor é. Cada fotografia incorpora o acervo de conhecimentos e experiências de vida do seu autor, mesmo que este fotografe casualmente e procure ser objectivo e textual. Mesmo quando imita, o fotógrafo está a mostrar algo de si, nem que seja que é uma pessoa limitada, sem imaginação e que gosta de seguir caminhos já trilhados e bem batidos.

Penso que é muito importante compreender o que acabei de expor. Se virmos bem a obra dos fotógrafos verdadeiramente bons, não temos como negar a influência da sua experiência de vida, das suas concepções sobre o mundo e da sua erudição. Numa palavra, a fotografia revela muito de cada um. Por vezes mais do que o desejado pelo autor.

Porque tenho esta concepção de que a fotografia contém em si tudo o que o seu autor é, parece-me muito natural que um blogue como este não se circunscreva à sua temática. Com efeito, quanto mais variado for o mundo do fotógrafo, maiores serão as possibilidades de a sua fotografia ser rica em significados.

Vamos, então, sem mais delongas, ao assunto que motivou esta longa tergiversação. Contei aos leitores que estive num outlet do livro, onde aproveitei para comprar algumas obras que me mereceram interesse. Uma delas foi Amok, do austríaco Stefan Zweig. Este autor ganhou uma reputação imerecida de ser um escritor de banalidades cujos livros, repletos de lugares-comuns, dificilmente merecem ser havidos como literatura. Com efeito, Zweig era imensamente popular no seu tempo, mas seria injusto pensar nele como o Nicholas Sparks do início do Século XX. Pelo menos na minha opinião, que é pouco fundada. Com efeito, apenas li três obras de Zweig – e uma delas é uma biografia –, o que não me autoriza a discorrer sobre ele.

Contudo, hoje aconteceu-me algo de singular que me atiçou a curiosidade por um autor que escreveu livros como Confusão de Sentimentos ou Segredo Ardente. Estava a ler Amok e notei que, apesar de o livro ainda não ir a meio, a narrativa aproximava-se rapidamente do seu desfecho. À medida que me aproximava do que se tornava óbvio que seria o final do conto, pensava como poderia Stefan Zweig ter prolongado o texto por todas aquelas páginas que faltavam. Percebi um pouco depois, quando atingi o fim de Amok (que, diga-se, é excelente), que, apesar de não haver qualquer menção disso na capa, o volume continha outra novela, esta intitulada Carta de Uma Desconhecida. Conhecendo a reputação de Stefan Zweig, imaginei que seria algo de xaroposo, mas predispus-me a ler sem preconceito.

Ainda bem que o fiz. Diante dos meus olhos, nestas páginas anacronicamente tipografadas – o meu exemplar de Amok é um fac-símile da 3.ª edição da Livraria Civilização, a qual foi lançada em 1942 – desenrolou-se, para minha enorme surpresa e incontida estupefacção, o mais belo conto de amor que alguma vez li. É um conto epistolar que narra a paixão de uma jovem mulher por um vizinho que teve na adolescência, um romancista abastado mas ainda jovem. A intensidade da paixão da jovem é contada de uma maneira tão bela e arrebatadora, tão plena de força e de sensibilidade, que me fez perceber de imediato que estava a ler uma obra de génio, escrita por alguém de intuição penetrante e sensibilidade romântica (romantismo, no sentido da corrente artística que caracterizou o Século XIX, é o predomínio da sensibilidade sobre a razão).

Será esta, porventura, uma leitura fácil, acessível a uma massa que se estende muito além do círculo restrito da intelectualidade; mas – e depois? Acaso não se passa o mesmo com o nosso Camilo e o Amor de Perdição? O amor e o romantismo são uma parte importante da vida. E, acreditem ou não, a sua presença nas nossas vidas vai ficar embebida nas nossas fotografias. Leiam Carta de Uma Desconhecida e deixem-se comover e arrebatar, mesmo que a sua leitura se venha a tornar no vosso pecadillo inconfessável. Vai ser bom para a vossa fotografia. Bem melhor do que saber as equações da equivalência será de certeza.

M. V. M.

Ler

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A minha transição de 2016 para 2017 foi acompanhada por dois livros, ambos de Marguerite Yourcenar: A Obra ao Negro e Memorias de Adriano. Foram dois livros belíssimos que reli, depois de tê-los lido há cerca de vinte anos.

Na verdade, porém, foi como se os tivesse lido pela primeira vez: não retive nada das primeiras leituras. Não percebi que por detrás das narrativas históricas estava uma análise profunda dos dias que se viviam à data em que as obras foram escritas, como se Marguerite Yourcenar tivesse querido dizer que existe um devir eterno – ou melhor: uma continuidade que eternamente se renova. Nem me apercebi, nas primeiras leituras, da luta entre as forças da razão e do obscurantismo que se manifestavam ainda – e são agora ainda mais actuais – quando A Obra ao Negro foi escrita, do carácter profético de Memórias de Adriano quando se conta a repressão dos judeus pelo império romano, ou da apologia do amor livre com que Yourcenar se antecipou em três décadas aos movimentos que despontaram no anos 60 do século passado. Não sei com que estado de espírito terei lido aqueles livros, mas fi-lo desatentamente. Ou talvez as reflexões que a leitura me mereceu então não tivessem perdurado na minha memória.

Ler um romance nunca é, para mim, seguir uma narrativa: é sempre um teste à minha atenção. Um autor nunca se limita a escrever uma história: está permanentemente a deixar em escrito a sua visão da vida e do mundo. O que me seduz, na leitura, é descobrir essa visão. As minhas leituras tendem a ser pessimistas, pois os meus autores predilectos vertem pessimismo nas suas obras. Nelas se descrevem os vícios e os defeitos que são naturais ao homem. Nem podia ser de outra maneira: se as pessoas fossem perfeitas, que haveria para contar?

Este pessimismo a que aludo não é, porém, o mesmo que negativismo: a única obra cínica e completamente descrente do homem e das suas virtudes que li foi Nana, de Émile Zola, que era decerto um homem amargo e descrente na humanidade. Os revolucionários chineses de A Condição Humana (André Malraux) são capazes de matar, fraquejam e são assaltados por dúvidas, mas existe neles uma fraternidade uma pureza de ideais que enobrece a espécie humana; o capitão Ahab de Moby Dick tudo sacrifica na sua loucura de capturar o mastodonte branco, mas que seria do homem sem o sonho e a ambição?

Não é nenhum sentido oculto que procuro nos livros que leio: é uma mensagem. Porque o único sentido oculto das coisas/É elas não terem sentido oculto nenhum. O que procuro é o que o autor incorpora das suas ideias nos seus contos e romances; é o que ele quer que percebamos, sem contudo o deixar explícito. Cada autor confia na inteligência dos seus leitores para descobrir que ideias subjazem à construção das suas personagens e ao destino que lhes dá.

Claro que, tal como na fotografia, na literatura há a artística e a de pechisbeque. Não sei dizer quando a literatura se tornou num negócio (se não o foi sempre), mas o surgimento de uma indústria literária – há autores que apenas dão o nome aos seus best sellers, que são escritos por equipas de escritores assalariados – foi algo de muito mau. Abastardou a literatura. Eu nunca conseguirei abrir, ou sequer tocar, um livro de Dan Brown, Nicholas Sparks ou de Sveva Casata Modignani (entre muitos outros). Livros como os destes autores seguem fórmulas para agradar a públicos amplos, mas que dizem eles sobre a vida? Nada. Tudo o que pudermos aprender com eles se situa num nível que nunca ultrapassa a frivolidade e o comezinho. São livros cientificamente estudados para vender aos milhões, mas, depois de lidos, nada resta, nada perdura.

Felizmente, livros como estes são facilmente esquecidos. Hoje leio obras que foram escritas há um ou dois séculos; quem se lembrará de O Código da Vinci dentro de cinquenta anos? E as imitações de José Rodrigues dos Santos, sobreviverão elas ao seu autor?

Esta efemeridade do pechisbeque literário tem uma manifestação corpórea nos milhares de livros que ficam por vender. Não há nada mais deprimente do que ver livros de Ken Follett numa banca de uma feira do livro, num escaparate da M Books ou num alfarrabista pouco criterioso. São objectos inúteis, sem valor, que ninguém quer porque nada têm de genuíno a dizer. Leram-se uma vez e cumpriram a sua função epidérmica de entreter, como um filme medíocre de Hollywood.

Isto veio a propósito da minha visita de hoje ao «outlet do livro» que está instalado no Pavilhão Rosa Mota. É deprimente ver aqueles livros: são guias da sexualidade (porque há quem precise de aprendê-la em livros…), obras com títulos ridículos que ninguém no seu juízo quer ler – e muito menos comprar –, livros datados de episódios históricos irrelevantes, e, evidentemente, muitos best sellers de literatura barata. De todos os livros que ali havia, só alguns me mereceram atenção. Já lera alguns deles e outros não me interessavam, pelo que saí de lá com apenas quatro livros: um pequeno conto de Thomas Hardy (porque a leitura do seu Judas, o Obscuro, foi um momento memorável das minhas leituras) intitulado O Pregador Atormentado, Amok, de Stefan Zweig, uma colectânea de contos de Henry James (autor do qual nada conheço) e um ensaio de Mario Vargas Llosa sobre o conflito israelo-palestiniano (porque me interessa conhecer a opinião de uma mente brilhante sobre este tema, ainda que não me identifique com as ideologias que ele propugna). E foi tudo. O resto era bafiento e tão útil como cadáveres depois de autopsiados.

M. V. M.

How do I look?

indice

Nunca me sinto inteiramente satisfeito com os «temas» do WordPress. Alguns são interessantes no geral, mas têm sempre qualquer coisa que estraga tudo: seja um cabeçalho demasiado pesado, cores que desfeiam o conjunto ou uma variedade limitada de tipos de letra. Seja o que for, ainda estou para experimentar uma apresentação que me deixe inteiramente satisfeito, pelo que mudo muito frequentemente a apresentação do Número f/.

A última apresentação que usei era relativamente sóbria e bastante legível, mas muito rígida; o cabeçalho pesado e a cor das hiperligações e dos widgets (as inscrições na coluna lateral) fizeram com que me cansasse dela rapidamente e sentisse necessidade de mudar. A nova apresentação é quase espartana – os widgets estão ausentes da página principal e só aparecem se se abrir um texto numa nova página -, mas parece-me legível e elegante. O que será que os leitores pensam?

M. V. M.

Os malefícios do tabaco

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Hoje completei um ano sem fumar. Foi a tentativa mais longa das três que ensaiei – uma em 1994, que durou apenas três meses, outra em 2003, que se prolongou por oito meses, e finalmente esta, iniciada no dia 31 de Janeiro de 2016. Apesar de ter passado um ano sem fumar, ainda não me considero um não fumador – qualidade que só ostento quando me cravam cigarros.

A verdade é que, em espírito, ainda sou um fumador. Ainda sinto vontade de fumar e, apesar de um ano ser um período de tempo considerável, tenho a sensação estranha de que esta abstinência é transitória e vai terminar um dia. Não é que o queira: a minha mente é que ainda não concebe uma vida sem tabaco. Ou então é algum truque que inconscientemente desenvolvi para suportar a privação, não sei. (Eu desisti há muito de tentar compreender como a minha mente funciona.)

Seja como for, o meu método para deixar de fumar foi 100% natural e gratuito: não implicou consultas médicas, nem medicamentos ou sucedâneos do tabaco. Eu conheço um sujeito que decidiu enveredar pelos cigarros electrónicos e usava argumentos imensamente lógicos para justificar a inalação de nicotina – aparentemente, recusava-se a ver o paradoxo de estar a ingerir a substância mais nociva e viciante do tabaco sob outra forma –, com o resultado, provavelmente bastante previsível, de ter trocado aquela espécie de narguilé miniaturizado por cigarros a sério ao fim de poucos meses. O meu método foi muito simples: não fumei. Foi tudo quanto precisei. Deixei de comprar cigarros e, consequentemente, de fumá-los. Nada de Nicorettes ou de consultas de desabituação. A minha permanência sem fumar durante um ano foi, exclusivamente, um triunfo da vontade. Foi duro? Sim. Houve momentos em que me apeteceu desistir? Sim. (Ainda há.) Fumei uma só passa que fosse durante este período de um ano? Não.

E, contudo, ainda penso que fumar é uma coisa com imensa classe e que transmite um prazer incomensurável. Muitas vezes é mais fácil pensar no que o tabaco tem de bom – se é que tem alguma coisa – do que nos seus malefícios. Chego ao extremo de romancear o acto de fumar: com efeito, já não me lembra a violentação dos brônquios que o primeiro cigarro do dia produzia: só consigo pensar em como era bom fumar aquele cigarro, especialmente depois de um bom café. Também não me lembra do cheiro do tabaco nas roupas e nos dedos, das paredes amareladas, do cheiro repugnante dos cinzeiros, dos dentes e pontas dos dedos amarelados nem do dispêndio obsceno de dinheiro: só me lembro do cafezinho e do cigarro que se lhe seguia e cuja falta me deixou um curioso sentimento de solidão, desamparo e tristeza nos primeiros tempos.

Benefícios? No Verão, resolvi dar umas corridas. Eu não sei correr – magoo sempre os gémeos –, mas numa dessas corridas resolvi subir uma rua particularmente íngreme. Tinha a certeza de que ia fraquejar, porque era essa a reacção que esperava do meu organismo tal como o conhecia depois de mais de trinta anos como fumador; contudo, não só completei a subida como senti que podia aumentar o ritmo e, uma vez chegado ao cimo, não demorei a recuperar a respiração. Porém, não dou valor a isto, nem aos dentes mais claros, à ausência de odores ou ao dinheiro que se esvai muito mais lentamente. Tudo o que sinto é saudades dos cigarros – e uma preocupação crescente com o aumento de peso, mesmo se este se resumiu a dois insignificantes quilos.

Esta é a força do vício: a despeito de toda a evidência, continuo a só pensar no que o acto de fumar tinha de bom: os momentos de convívio, o preenchimento de tempos vazios, o sabor que o cigarro adquiria em certos momentos. Seja como for, consegui resistir durante um ano. Nada me diz que não conseguirei atravessar outro ano e mais outro, nem vejo por que razão não o faria. A força que me tem mantido afastado dos cigarros é suficientemente poderosa para que eu encare o regresso à condição de fumador como uma impossibilidade. Basta que me lembre daquele médico que me atendeu nas urgências do Hospital de Santo António no dia 23 de Janeiro de 2016 e da maneira como ele me perguntou, depois de ver o Raio-X dos meus pulmões: «quando é que vai deixar de fumar?» Dei-me a mim mesmo uma semana para me preparar e, no dia 31, iniciei a minha tentativa. Não há retorno possível quando se é posto diante de uma premência como a que me foi tão subtilmente evidenciada.

M. V. M.

Fora do tema: o Brexit, a pós-verdade e o estado da União

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Theresa May, a. k. a. The Cow

É difícil manter a lucidez nos dias que correm. Há uma verdadeira avalancha de desinformação e são constantes as notícias falsas que todos os dias são postas a circular. Este fenómeno é de tal ordem que já lhe deram um nome: pós-verdade. Nada é verdadeiro ou falso, tudo é relativo.

Isto tem um efeito que é procurado e desejado por sejam quem forem os ideólogos nacionalistas, em especial os que conduziram a campanha de Donald Trump. Num dia afirma-se que Hillary Clinton é uma criminosa, no outro que foi uma grande adversária que se respeita. E não há nenhuma contradição nisto.

É evidente que esta teoria da pós-verdade é uma espécie de legitimação ideológica da mentira. Mentir é útil e rende votos, mas há que dizer algo para que o discurso não se afigure contraditório quando as mentiras são desmentidas. Neste caso diz-se que não eram mentiras porque os conceitos de verdade e mentira não existem. Com isto pode dizer-se tudo e o seu oposto sem que haja contradição. Conveniente, não é?

Eu sei que os leitores com juízo pensam o mesmo que eu: que isto é ignóbil e que nos conduz ao niilismo ético e moral. O que é certo é que ajuda a conquistar votos – e, o que ainda é pior, a legitimar políticas.

Na semana passada, Theresa May, a primeira-Ministra britânica (é melhor dizer inglesa, como propugna Miguel Esteves Cardoso, pois é improvável que os britânicos do Ulster e da Escócia concordem com ela), disse finalmente quais eram os seus verdadeiros propósitos: negociar os termos da saída do Reino Unido (Brexit) da União Europeia rapidamente e controlar a chegada de imigrantes vindos dos Estados-Membros.

A despeito de os conservadores terem feito campanha pela permanência, isto nada tem de ilógico ou incoerente porque se baseia na verdade em que os apoiantes do Brexit acreditam. Como sabemos, há no Reino Unido, em especial na Inglaterra (mas fora de Londres, que ainda é uma cidade bastante liberal e acolhedora), um sentimento xenófobo muito acentuado quanto a alguns cidadãos de Estados-membros, em especial os polacos. Porque um punhado de polacos bebe, tem problemas de higiene e assiduidade ao trabalho e ainda assim recebe subvenções do Estado, conclui-se que todos os cidadãos oriundos dos Estados-membros da UE são bêbados, porcos e preguiçosos que vivem à custa dos nacionais. Lança-se esta atoarda e toda a gente (ou quase) acredita porque sim, porque leram na internet e por isso é verdade.

Agora vem esta Theresa May tomar medidas concordantes com a propaganda, não do seu Partido Conservador, mas do UKIP do execrável Nigel Farage. O que só prova que os Tories não passam de um partido sem ideias, sem rumo e sem outro objectivo que não seja ficar no poder. E agora, com Donald Trump, sentem-se apoiados na sua rejeição da União Europeia: os Estados Unidos apoiá-los-ão se forem bons agentes da desagregação da Europa (a Trump convém uma Europa fraca e desmembrada). Há trinta anos, gostava de uma canção de Matt Johnson (The The) chamada Heartland, que tinha um verso onde se cantava: This is the 51th state of the USA. Agora ainda é mais verdade do que em 1986…

Eu, apesar de viajar pouco, não consigo conceber nada melhor do que viajar para outros países e não necessitar de cambiar dinheiro nem de carimbar o passaporte. Vejo nisto um benefício inestimável: todos pertencemos a um todo, mantendo contudo as nossas identidades nacionais. E podemos circular, residir e trabalhar livremente em qualquer Estado-membro sem que este perca a sua identidade e soberania e sem perdermos nós a nossa individualidade. Isto é fantástico; é um dos sonhos de Schuman e Monnet que felizmente se tornou realidade. Com o Brexit, com Donald Trump e com o crescimento dos nacionalismos, este edifício está prestes a desmoronar-se. Em parte por culpa dele mesmo – há razões para que chamem «Berlaymonster» ao Edifício Berlaymont, sede da União Europeia (que, já agora, posso dizer-vos que não tem a imponência que parece ter quando visto na TV!) –, já que o funcionamento da UE se tornou num pesadelo desde que foi abolida a regra da unanimidade para as deliberações do Conselho Europeu e a Europa é, na prática, governada por cegos como Jeroen Dijsselbloem, mas não é abandonando-a que isto se melhora.

Tudo isto por causa de propaganda mentirosa. No Reino Unido, o Brexit só venceu porque fizeram passar as ideias de que a União Europeia impunha imigrantes (o que é uma falsidade gritante, mas muitos acreditaram) e de que os cidadãos de outros Estados-membros que vivem lá (ao abrigo do princípio da livre circulação de pessoas, lembrem-se) estão a roubar os nacionais, privando-os de empregos e subvenções do Estado. E a Theresa May alinha com estas mentiras, porque agora o Reino Unido pode sentar-se ao colo dos Estados Unidos e pode dizer farewell à Europa. Good riddance to them, digo eu. Só tenho medo de que haja novas cisões na União.

M. V. M.