O nome das coisas (fora do tema)

Surgiu recentemente na Internet uma explicação etimológica para o substantivo «larápio» (que, como os adeptos de futebol sabem, por serem quem mais o usa, é o mesmo que «ladrão», «gatuno» ou mesmo «chouriço»). Descobriu-se que existiu na Roma antiga um pretor particularmente corrupto de nome Lucius Antonius Rufus Appius (alguns puristas do latim quererão usar a grafia «Lvcivs Antonivs Rvfvs Appivs» ou, melhor ainda, «LVCIVS ANTONIVS RVFVS APPIVS», já que a grafia do latim não conhecia minúsculas), cujo nome surgia abreviado como «L. A. R. Appius» (ou L. A. R. APPIVS»). Eis como surgiu «larápio».

Eu já desconfiava. Apesar de inexistir qualquer menção histórica a este pretor, a teoria é plausível. Como eu nutro um interesse particular pela etimologia de palavras invulgares (os leitores com memória elefantina lembrar-se-ão que «pechisbeque» tem origem no nome do falsário francês Pierre-Xavier Beck, que assinava «P. X. Beck»), as minhas investigações levaram-me a descobrir um facto perturbador relacionado com o substantivo «furgoneta» (que é, como sabem, um veículo ligeiro de mercadorias). Eis como me surgiu a curiosidade por este étimo:

Quando eu era moço, namorei uma rapariga de um bairro popular que tinha uma pronúncia e um vocabulário típicos do Porto (embora a sua família fosse originária da Covilhã, ou, como ela dizia, da «Cubelhá»). Um dia, apresentei-a ao meu círculo de amigos. Um deles perguntou-lhe, a dada altura da conversa, o que o pai dela fazia; a rapariga respondeu que trabalhava nas entregas da cooperativa e era ele quem conduzia a fragonéte. Evidentemente, os meus amigos disfarçaram a custo as gargalhadas, por não me quererem ofender com o riso que os fazia sufocar. Mal eles sabiam, contudo, que a mocinha estava bem mais perto da raiz etimológica da palavra do que os aculturados do francês que usam o substantivo «furgoneta».

Com efeito, no início do Século XX havia uma abadia na Pistoia, comunidade da Toscânia, que se tornou famosa pelas suas doçarias e licores. A única entrada rasgada no muro que circundava a abadia era um portão demasiado estreito para a entrada e saída de camiões. O comércio de licores e doces estagnava, e a abadia mal podia pagar as contas da água e da Internet. Um dos frades, Fra Vincenzo Gonetti, trouxe a salvação ao comércio da abadia: lembrou-se de remover os estofos de um automóvel de passageiros e transformou a superfície compreendida entre as costas dos bancos dianteiros e a porta da mala num enorme compartimento de carga. O regozijo entre os irmãos foi grande e o comércio pôde florescer. Foi assim que surgiram os ligeiros de mercadorias, os quais, em homenagem ao frade («fra» em italiano) Gonetti, que os inventou, ficaram conhecidos como «fragonetti».

Curiosamente, essa minha namorada chamava-se Goretti (embora dissesse chamar-se «Goréte»). Quando lhe disse que o seu nome provinha de Santa Maria Goretti (santa italiana que morreu com 11 anos, martirizada por um violador), a rapariga não acreditou em mim. Disse que eu estava «a inventar».

M. V. M.

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Completamente fora do tema

O facto de eu escrever sobre fotografia não significa, de maneira nenhuma, que esta seja a minha única preocupação. Estou atento ao que se passa no mundo e no país e não prescindo de ter uma opinião. Há coisas que se estão a passar em Portugal, nas quais ninguém repara porque a) a sobredosagem de informação – e, sobretudo, a forma como esta é transmitida – leva à náusea e ao desinteresse, o que é uma forma de acomodação e b) porque as pessoas que não se deixam alienar pelo fenómeno referido em a) são intervenientes passivos nesses acontecimentos.

Refiro-me, antes de mais, a um movimento que visa lançar o opróbrio sobre o chamado sector social. Se os leitores portugueses estiveram atentos, terão reparado que o escândalo da associação Raríssimas e o pseudo-escândalo da entrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa no capital da Caixa Económica Montepio Geral têm em comum o facto de incidirem sobre este sector. Isto não acontece por acaso: ao sector privado – aquele que tão bem gere a PT, os Correios e os serviços públicos administrados por parcerias público-privadas! – conviria que todos os cuidados de saúde fossem prestados por clínicas e hospitais privados. Retirar as instituições particulares de solidariedade social das áreas da assistência é, pois, um imperativo: elas ocupam um espaço cobiçado pelos grupos económicos com interesses na saúde e prestação de cuidados. Pelo meio dá-se um efeito político, que é o de atacar um ministro fragilizado por ter assumido um cargo nos órgãos da Raríssimas. (Para quem desconhece o funcionamento dos órgãos das associações, devo esclarecer que a mesa da assembleia geral, órgão que Vieira da Silva integrou antes de integrar este Governo, não tem quaisquer poderes de fiscalização, e que o secretário deste órgão nada mais faz que não seja compor a mesa que dirige os trabalhos da assembleia geral, a qual reúne duas vezes por ano: ou seja, o Dr. Vieira da Silva não fazia rigorosamente nada na Raríssimas, a não ser dar o nome.)

O mesmo pode ser dito quanto ao Montepio. O Montepio Geral não é um banco em sentido estrito: é a caixa económica de uma associação de socorros mútuos, a Associação Mutualista Montepio. Esta caixa dedica-se à actividade bancária, mas está voltada para os associados, os quais gozam de benefícios em relação aos clientes comuns, e para o financiamento de entidades do sector social. Até há bem pouco, o Montepio (a caixa, ou o banco, se preferirem) não tinha estrutura de sociedade anónima, a qual foi imposta por pressão sobre o Banco de Portugal de maneira a que fosse possível a entrada de privados no capital que até então estava inteiramente em poder da Associação Mutualista Montepio. Está bom de ver que o interesse aqui é o de alguém se apoderar da carteira de clientes, dos activos e dos bens do Montepio. Note-se, aliás, que a própria associação já foi objecto do mesmo tipo de campanha que agora atingiu a Raríssimas, com a divulgação de suspeitas sobre a gerência da direcção do Montepio que, aliás, levaram o Banco de Portugal a impor a adopção da forma de sociedade anónima pela Caixa Económica. Tal como na Raríssimas, houve nesta questão da aquisição do capital social do Montepio uma tentativa de destruição política do ministro Vieira da Silva, fazendo dele a brecha na muralha do Governo – e, reflexamente, atingindo o antigo provedor da Santa Casa, Pedro Santana Lopes. Fazem-no por o primeiro ter sugerido a entrada da Santa Casa no capital do Montepio, solução que teria, quando menos, o mérito de o Montepio não ser engolido pelo Santander (ou outro banco privado qualquer).

Depois há a agitação que se procura criar à volta das alterações à lei do financiamento dos partidos políticos, que é bastante mais perigosa porque traz no ventre o germe do populismo. Todos os partidos, à excepção do PP, aprovaram uma alteração à referida lei – note-se que esta é uma matéria da competência exclusiva da Assembleia da República – que expurgou as inconstitucionalidades patentes na versão da lei ainda em vigor e introduziu um regime de devolução do IVA referente às despesas eleitorais, além de eliminar o limite de €600.000,00 dos donativos em dinheiro. Esta medida, além de ter a enorme vantagem de os partidos não necessitarem de recorrer a verbas do Estado para pagar as suas despesas, contribui para a transparência. No passado, houve um partido que recorreu a subterfúgios ilícitos para tentar ocultar o facto de ter recebido donativos acima do limite. Esse partido é o PP, e ficou tristemente conhecido o esquema do fictício «Jacinto Leite Capelo Rego» (este nome, se for dito com pronúncia do Brasil, é uma obscenidade pueril, mas o que não falta no PP é puerilidade). Curiosamente, foi o único partido que votou contra as alterações da lei.

O que me assusta, para além da questão das eventuais dúvidas quanto à constitucionalidade das alterações legais, é a corrente de ódio contra os partidos que este caso está a gerar. Sejamos claros: os partidos, independentemente de quem os encabeça, são o fundamento da democracia participativa e, em última instância, da liberdade. Atacá-los é atacar a democracia. Eu desconfio dos populismos, das candidaturas independentes e dos partidos sem ideologia: são meros instrumentos de ascensão ao poder. E ainda mais desconfio de partidos que atacam o sistema partidário. Os partidos podem ter vícios, mas se os têm é porque os militantes consentem. Tal como em tudo o que implique votações, o destino dos partidos está nas mãos dos militantes. Se estes se alheam, estão a permitir que os oportunistas tomem conta deles. (O mesmo se diga dos sindicatos, das associações de toda a espécie e, evidentemente, do país.)

Não deixa de ser útil anotar que tudo isto tem o efeito de desacreditar publicamente a política e a classe política. Com efeito, quanto mais enfraquecido e corroído estiver o poder político, mais fácil será sobrepor os interesses particulares ao interesse comum. Tudo isto, que é de resto ampliado e expandido pelas «redes sociais» (o melhor meio de espalhar a mentira e a ignorância, convenhamos), contribui para aproximar Portugal dos países onde o populismo grassa. Eu detestava que os portugueses se tornassem como os húngaros, os austríacos e os britânicos.

Nada do que acabei de escrever tem que ver com fotografia, eu sei. Mas é daquelas coisas que sinto ter de dizer, sob o risco de explodir se não o fizer. Seja como for, espero que tenham um bom 2018.

M. V. M.

Um pouco de desporto

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Eu sei que não devia. Os textos do Número f/ andam escassos, e ainda por cima desperdiço largura de banda com prosa que nada tem que ver com fotografia, mas vou fazê-lo porque sim. Porque me apetece escrever sobre o que se vai seguir. É bom ser o dono do blogue e não ter de cumprir ordens.

O texto de hoje é sobre desporto. Não, não é sobre futebol, apesar de esta palavra ser sinónima de «desporto» na língua portuguesa. A minha relação com o futebol é muito simples: quando eu era criança, o meu pai tentou fomentar o meu gosto pelo jogo da bola e levou-me por diversas vezes ao estádio em dia de jogos. A atenção que procurava dedicar ao jogo, para tentar entender a lógica do futebol, era desviada para as bancadas, onde adeptos completamente embriagados insultavam e comprometiam a boa reputação do árbitro. Nunca vi qual o apelo de um desporto cujo principal interesse era injuriar o árbitro, pelo que a minha paixão pela rapaqueca morreu antes de ter nascido. Acordou morta, por assim dizer.

Claro que, como sempre gostei de automóveis, nutro um interesse considerável pela Fórmula 1 e pelos ralis, mas infelizmente os adeptos da Fórmula 1 são agora, graças à popularidade de pilotos tão objeccionáveis como Ayrton Senna e Fernando Alonso, de um nível quase tão rasteiro como o dos bêbados que insultam o árbitro nos estádios, o que diminuiu substancialmente a minha vontade de atrasar o almoço de Domingo para ver um grande prémio. (Quanto aos ralis, não vejo nada de interessante em provas nas quais correm carrinhos utilitários como o Ford Fiesta e o Hyundai i20.)

Quando finalmente me resolvi a subscrever um serviço de TV por cabo, as minhas sessões de zapping levaram-me muitas vezes aos torneios de bilhar Snooker que o Eurosport transmite. Há cerca de vinte anos, um amigo um pouco mais velho do que eu inculcou-me o gosto pelo bilhar, mas o bilhar que jogávamos era o mais comum, a que erroneamente chamamos «snooker» mas é, na verdade, o 8-Ball. O Snooker propriamente dito joga-se numa mesa gigantesca, com quinze bolas vermelhas, seis de outras cores – amarela, castanha, verde, azul, rosa e preta – e uma branca. As regras podem ser consultadas aqui.

Só o xadrez é mais cerebral que o Snooker. Além da perícia no controlo da bola branca que lhe é exigida, o jogador tem de definir mentalmente todas as jogadas e antecipar-se às do adversário, tal como o faria num jogo de xadrez. Eu nunca seria um bom jogador de Snooker, porque é um jogo que, quando carece de ser defensivo – e é-o muito frequentemente –, exige enorme paciência, calma e cabeça fria. Além destes requisitos, as regras do Snooker impõem fair play e gentlemanship. Claro que há problemas: o Snooker tornou-se num espectáculo global que envolve muito dinheiro e já houve jogadores suspensos por jogarem deliberadamente para favorecer esquemas de apostas fraudulentas, e houve mesmo um jogador, um dos melhores de sempre, que esteve suspenso só por ter tomado conhecimento de um esquema de fraude e não o ter denunciado, mas nada disto impede que o Snooker seja um desporto espectacular. Evidentemente, a «espectacularidade» depende da predisposição do espectador para ver jogadas demoradas que, por vezes, se resumem a encostar a bola branca numa outra, causando dificuldades ao adversário, mas «snooker» é o nome de uma jogada pela qual o jogador deixa a bola que vai ser jogada pelo adversário fora do alcance da branca «escondendo» esta última.

De que gosto no Snooker? Este jogo é inteligência em acção. Os jogadores desenvolvem rapidez de raciocínio e conhecimentos intuitivos de física e matemática: eles têm de calcular ângulos, forças, velocidades, trajectórias. E têm de ser matreiros, porque o Snooker não é só ensacar bolas: é também fazer snookers – esconder a bola branca de maneira a dificultar as jogadas do adversário. (Curiosamente, o Snooker parece ser um desporto que não requer grande preparação física: alguns jogadores estão para além do limiar da obesidade.)

Há um certo consenso em que o melhor jogador de sempre é Ronnie O’Sullivan, mas há muitas outras predilecções à escolha, dependendo dos gostos de cada um. Se o leitor gosta de um jogador exuberante, nunca poderá apreciar outro que não seja Ronnie «The Rocket» O’Sullivan. Os mais cerebrais apreciarão John Higgins e Mark Selby, e há ainda outros jogadores que, por diferentes razões, encontrarão o seu lugar no coraçãozinho dos adeptos e adeptas: Judd Trump, Mark Williams, Neil Robertson, Luca Brecel, Jack Lisowski e uma hoste de excelentes jogadores chineses de nomes impossíveis de memorizar (lembrei-me de um: Yan Bingtao!), mas o verdadeiro apreciador de bilhar Snooker nunca esquecerá a lenda chamada Stephen Hendry: ver o jovem Hendry jogar era – ele deixou a modalidade em 2012 – de fazer cair o queixo. Que espectáculo extraordinário é, ainda hoje – há inúmeros vídeos no Youtube –, ver o olhar carregado de pura inteligência de Stephen Hendry, e ver aquela velocidade de raciocínio e perfeição na execução. Decerto, a sua juventude e elegância contribuíram em muito para a construção da lenda, mas não tenho dúvidas que Hendry foi o melhor e mais completo de sempre, a despeito da enormíssima qualidade de Ronnie O’Sullivan. Tenho pena que o meu interesse pelo Snooker só tenha nascido numa altura em que Hendry já se reformara.

M. V. M.

Fora do tema: uma notícia triste

Hoje recebi uma notícia triste via email. O Conselho Regional do Porto da Ordem dos Advogados comunicou o falecimento do Dr. Alberto Luís, advogado da cidade do Porto.

É possível que alguns não estranhem este nome, já que o Dr. Alberto Luís era o marido de uma figura notória do Porto: a escritora Agustina Bessa-Luís. (Curiosamente, conheceram-se através de um anúncio de jornal.) Mas não foi este status marital agora interrompido que me entristeceu: eu tive oportunidade de conhecer pessoalmente o Dr. Alberto Luís. E, apesar das circunstâncias – às quais passarei de seguida –, foi uma experiência extremamente enriquecedora e agradável.

Em 1989 eu tinha acabado de me licenciar e inscrevi-me na Ordem dos Advogados como advogado estagiário. Nesta condição, tive de frequentar aulas providas pelo centro de estágio do então denominado Conselho Distrital do Porto da Ordem. Tanto quanto me lembro, tive aulas de Processo Civil (uma duplicação inútil e soporífica da cadeira da faculdade), Direito Comercial, Processo Penal e Deontologia Profissional, que era a única matéria com um pouco de pertinência para advogados estagiários. Ora, estas aulas de Deontologia eram ministradas pelo Dr. Alberto Luís.

As aulas foram extremamente enriquecedoras. Não necessariamente pelas matérias ministradas, mas sobretudo pelo brilho que o Dr. Alberto Luís lhes trazia. Os relatos da sua experiência pessoal eram de uma riqueza e interesse tal que me levaram a apreciar muito mais este aspecto do que os ensinamentos sobre deontologia: na verdade, bastava-me ler as normas do Estatuto da Ordem dos Advogados para conhecer esta matéria, pelo que aquilo que aproveitava dessas aulas era a narração dos episódios da vida profissional – especialmente por serem contados por um homem ilustrado e um orador brilhante.

Não que essas aulas agradassem a todos, note-se bem: surpreendi a alguns colegas comentários corrosivos acerca da pretensa senilidade do Dr. Alberto Luís. O que me deixou confuso, porquanto não apenas escutava com todo o interesse o que ele dizia, como me apercebia que os episódios e pequenas histórias narrados não eram tergiversações: tinham sempre cabimento e integravam-se num discurso lógico, estruturado e coerente. Nem todos têm paciência para este estilo docente: alguns prefeririam algo mais objectivo e directo – mas que melhor do que a experiência profissional de um advogado que era a encarnação dos valores deontológicos para aprender a ética da profissão?

O curso de advogado estagiário obrigava à prestação de uma prova escrita – neste caso uma dissertação escrita sobre um tema à escolha (eu escrevi um texto mediocríssimo sobre a prisão preventiva) – e provas orais: curiosamente, apenas me lembro de duas destas últimas: a de Processo Penal – um conjunto de perguntas aleatórias sobre assuntos aleatórios formuladas pelo Dr. Gil Moreira dos Santos (penso que não fiz grande figura) – e a de Deontologia, na qual me defrontei (por assim dizer) com o Dr. Alberto Luís. Houve uma certa titubeação nas minhas respostas: a doença que havia de vitimar o meu pai um ano mais tarde roubara-me concentração e tempo, pelo que não consegui preparar-me convenientemente. Simplesmente, eu posso permitir-me a imodéstia de dizer que sou um bom conversador. Isto possibilitou-me suprir as minhas deficiências no conhecimento da matéria, mas era visível que estava a ser esquivo. Quando o Dr. Alberto Luís insistiu que eu respondesse a uma pergunta concreta sobre a deontologia profissional, respondi qualquer coisa como que nenhuma regra deontológica era mais importante que a minha consciência.

Não sei se o Dr. Alberto Luís apreciou a minha resposta ou se apenas confirmou a sua convicção de que eu estava particularmente mal preparado (o que era pouco importante, porque a prova não era eliminatória), mas sorriu à minha resposta e, logo depois, olhou para um papel que tinha à sua frente e disse-me que eu tinha um argumento muito forte a meu favor: era licenciado por Coimbra. Pois era (sou). Nós, os alumni conimbricensii, conhecemo-nos uns aos outros. Sobretudo, sabemos que Coimbra nos forja de uma maneira muito especial.

Tive o prazer e a honra de conhecer um dos homens mais notáveis da cidade do Porto. Aquilo não foi uma prova oral: foi uma conversa. Uma das mais interessantes e memoráveis da minha vida. Tanto que me lembro bem dela, mesmo que tenham passado vinte e oito anos. Algumas pessoas deixam marcas destas nas outras. Penso que é a isto que chamam eternidade.

M. V. M.

«Jornalismo civil»

Está bastante difundida a ideia de um «jornalismo civil», que muitos pretendem legitimar sob o pretexto de que complementa o jornalismo tradicional e traz um acréscimo aos conteúdos informativos. É um «jornalismo» também dito «colaborativo», ou «de rua», o que teoricamente implicaria uma multiplicação das fontes de informação. Evidentemente, isto é uma treta. O «jornalismo civil» é uma ideia que legitima o que se escreve nos blogues e nos espaços de comentários, mas é – repito – uma treta. Alguém dizer-se «jornalista civil» é tão ridículo como o Sr. Relvas fazer-se passar por «Dr.». O jornalista é alguém que faz do jornalismo o seu modo de vida e recebeu formação e treino para fazê-lo. O «jornalista civil» é só alguém que por acaso estava num determinado lugar quando algo aconteceu – se é que estava mesmo – e até pode ser capaz de narrar esse facto, mas não saberá nada do que um bom jornalista faz. Falta-lhe o treino de ir procurar fontes noticiosas, falta-lhe a noção do interesse noticioso, falta-lhe tudo o que faz um bom jornalista.

Além de esta ser uma noção perigosa: o «jornalista civil» é por regra alguém devotado a causas e, deste modo, não pode ser objectivo nem isento. A objectividade e a isenção são (ainda) requisitos essenciais do bom jornalismo. Mas há mais: apesar de todos os disparates que ouvimos e lemos na televisão e nos jornais, os «jornalistas civis» contêm em si o potencial para serem muito piores, porque não frequentaram escolas de jornalismo (e alguns podem nem sequer ter completado o ensino secundário). Eu não sei de onde veio esta ideia ridícula de que qualquer cidadão pode ser «jornalista» (este deve ser o meu texto com mais aspas de sempre!), mas essa noção é errada. Não é qualquer um que faz uma intervenção cirúrgica, um leigo nada de decente fará se ocupar o lugar de um advogado num interrogatório ou numa audiência de julgamento, um sujeito com o 9.º ano fará decerto uma péssima figura se comentar transacções bolsistas. As coisas são mesmo assim: certos trabalhos só podem ser exercidos por profissionais habilitados. O «jornalista civil» está no mesmo plano que os taxistas e os barbeiros: só um ignorante fanático lhes dará crédito.

Mais a propósito: esta ideia de «jornalismo civil» também se refere à imagem. Agora qualquer pateta armado de um smartphone faz uma fotografia e envia-a para os jornais e televisões. Muitas vezes não querem nada em troca, o que é sinal de falta de consciência do valor do trabalho e, sobretudo, de vaidade: quantos não o fazem para depois comentar: «viste a minha foto na SIC Notícias?», sem se aperceberem que o dinheiro de que estão a abrir mão é subtraído a um bom fotojornalista e metido ao bolso pelo administrador do jornal e da televisão? Ou seja, não se apercebem que estão a ser explorados e a prejudicar outrem.

Estas fotografias levantam questões éticas importantes e também dúvidas quanto à qualidade deste «jornalismo», mas pode ser útil. A verdade é que há mais civis do que fotojornalistas e estes nem sempre estão no local quando certos eventos acontecem, mas as coisas descambam por completo quando estes «jornalistas civis» apresentam os seus vídeos. Além de o fazerem tal como descrevi quanto às fotografias, consentindo por vaidade em ser exploradose aprejudicar os repórteres de imagem, a qualidade do que apresentam é deplorável. Eu sei que a qualidade é uma questão insignificante quando se trata de algo com a magnitude de reportagens sobre ataques terroristas, mas aqueles vídeos verticais que passam constantemente nos noticiários são execráveis. Não acrescentam nada à reportagem e são visualmente confusos. São como se estivéssemos a ver as coisas através de um postigo, ou da frincha de uma porta ou janela, mas com uma perspectiva pior. Os vídeos verticais são, a meu ver, a melhor demonstração da ausência de qualidade e de pertinência do «jornalismo civil». Não há nada que possamos perceber melhor através deles, porque são confusos e os objectos surgem minúsculos (as lentes dos telemóveis são grande-angulares) e porque o nosso «repórter de imagem civil» não tem o treino nem a coragem de chegar mais perto.

É-me embaraçoso ver imagens verticais em certas notícias da televisão. Estes vídeos amadores (eufemismo interessante) estão a proliferar e a erodir ainda mais a qualidade noticiosa. Eu sei que as estações poupam fortunas ao aceitar esses vídeos de graça, mas onde está a poupança se, depois, fazem reportagens com enviados especiais sobre o estágio de uma equipa de futebol no estrangeiro?

M. V. M.

Literatura

Vladimir Nabokov

Sim, eu sei, é puro sadismo. É como oferecer amendoins salgados e tremoços a quem acabou de atravessar o deserto. Deixo os leitores ávidos de prosa fotográfica e, depois de um texto que interrompeu um longo silêncio – o qual deu, por seu turno, continuidade a uma longa sucessão de silêncios apenas fugazmente interrompidos  –, tenho o descaro de dar aos leitores um texto fora do tema. Como se não fosse suficiente o desplante de apresentar um emaranhado complexo de linhas fora do tema, ainda esfrego sal na ferida: o texto é sobre literatura.

Sim, literatura. Eu tenho a convicção – e mantê-la-ei até ao fim dos meus dias – que as boas fotografias são aquelas que mostram o mundo interior do fotógrafo. Se este tiver riqueza de conhecimentos, tal revelar-se-á nas suas fotografias. Não é por acaso que fotógrafos como Cartier-Bresson, Steichen ou Stieglitz eram também intelectuais de craveira e connoisseurs das artes.

Deste modo, rodear-se de boa literatura só pode fazer bem a quem fotografa. Quanto mais não seja, as suas fotografias mostrarão um mundo interior mais rico, texturado e complexo. Não serve, porém, qualquer literatura: se o fotógrafo ler coisas da Sveva Casata Modignani e outros autores de literatura de cordel, o seu mundo interior não expandirá nem um milímetro: as fotografias inspiradas por tais desperdícios de papel e tinta apenas sairão frívolas e tagarelas.

Depois de ter resistido durante muitos anos – por qualquer motivo, adquiri a convicção de que era um livro aborrecido e pesado –, acabei finalmente por iniciar a leitura de Lolita, de Vladimir Nabokov. Comprei-o numa edição que acompanhou o Público há já alguns anos, mas por essa preconcepção estúpida o livro ficou por ler, abandonado ao pó numa estante. Agora que comecei a lê-lo, gostava que ele tivesse oitocentas páginas em lugar das pouco mais de trezentas da edição que tenho em mãos.

Como sabem, sobretudo depois de terem visto a versão cinematográfica de Stanley Kubrick (um dos filmes em que se pode apreciar a verdadeira grandeza desse génio que se chamava Peter Sellers), Lolita é a narração da atracção de um homem maduro (Humbert Humbert) por uma rapariga de doze anos. À primeira vista, tratar-se-ia de um monstro, um pedófilo execrável, e a leitura dos feitos de um depravado deste calibre poderia repugnar o futuro leitor e afastá-lo deste livro – mas, como me esforçarei por mostrar, tal seria um disparate.

Lolita é narrado na primeira pessoa por Humbert Humbert. A narração é auto-depreciativa – Humbert Humbert sabe que a sua inclinação é doentia e que é um pervertido –, mas o estilo é de tal maneira fluído, o humor tão inteligente e o sarcasmo com que Nabokov revestiu Humbert Humbert tão mordaz que a leitura se torna quase compulsiva. Humbert é um homem cultivado e sofisticado e é também um actor: a sua atracção por ninfetas – o próprio Humbert encarrega-se de fornecer uma definição do que estas sejam – é algo que ele tem de esconder a todo o custo, vivendo uma vida de fingimentos e ardis para ocultar a sua sexualidade, e  Nabokov é particularmente brilhante ao traçar a personalidade de Humbert Humbert, que, como todos os que têm algo a esconder, é tímido e desajeitado nas suas aptidões sociais. Nabokov tem ainda a subtileza de, ao fazer o narrador referir-se a ele mesmo na terceira pessoa – o que sucede amiúde ao longo de Lolita –, sugerir um desdobramento patológico da personalidade, embora o texto não se aventure em excesso pelo campo da psiquiatria (o que decerto roubaria fluidez à narrativa).

Lolita não é uma obra moralista, mas não deixa de ser ética. Nabokov não faz nada para justificar ou desculpar o comportamento da personagem principal. Pelo contrário, esta apresenta-se com a consciência de que é um tarado e um dissimulado capaz de conjecturas monstruosas, embora as suas grilhetas morais sejam suficientemente sólidas para o tornar incapaz de concretizar as acções que planeia, como o assassínio da mulher e mãe de Dolores Haze («Lolita» é um diminutivo que apenas Humbert Humbert usa). Humbert tem uma atracção sexual disfuncional, mas ao mesmo tempo é um homem que comunga do sentimento comum em relação a esses crimes. É um predador com plena consciência da gravidade e censurabilidade dos seus actos, mas isto apenas serve para tornar a narrativa ainda mais interessante: a complexidade da personagem e a ambivalência que o leitor sente em relação a ela tornam a leitura de Lolita empolgante.

Há mais. Apesar da não-absolvição moral de Humbert Humbert, Nabokov confronta o leitor com o facto perturbador de Dolores, a despeito dos seus doze anos, não ser inexperiente. Além de ser conhecedora do prazer, é ela quem toma a iniciativa no momento em que a relação carnal que a uniu a Humbert Humbert se consuma. Não que Humbert deixe de ser um pervertido, mas Lolita relata-nos uma devassidão insuspeita – não exactamente pela precocidade, mas pela natureza resolutamente vulgar de Dolores e pela sordidez que rodeou a sua iniciação. Dolores está longe de ser a vítima pura e inocente que poderíamos imaginar, mais parecendo que Nabokov quis confrontar a sociedade com o declínio dos costumes que se esconde por baixo da moral sexual vigente. Com Nabokov não existem ideias de pureza e inocência, as quais são construções artificiais com as quais a humanidade tenta em vão ocultar a carnalidade. Não me surpreende que Lolita tivesse sido recebido como uma afronta à moral em certos meios literários.

O que mais me cola às páginas deste romance absolutamente excepcional, porém, é o estilo, que faz da leitura uma verdadeira delícia para a mente. O estilo é erudito, rico e cuidado – pelo menos tanto quanto é dado a perceber pela francamente boa tradução de Fernanda Pinto Rodrigues –, mas, ao mesmo tempo, solto e embebido naquela auto-ironia a que já me referi.

Pensar que em breve vou acabar de ler Lolita angustia-me. Este é um dos livros mais brilhantes, contundentes, perspicazes que já li – e também um dos mais divertidos. É, seguramente, uma das grandes obras da literatura universal. Não pensem que ter visto as adaptações para cinema (além da de Kubrick, há uma recente, com Jeremy Irons, de 1997) vos isenta de ler Lolita.

M. V. M.

Eu e o Acordo Ortográfico (antecedido de um prefácio aliviado)

Uf! o povo neerlandês não se deixou enganar. Vou poder continuar a apreciar Toto Frima, Ed van der Elske e Rineke Dijkstra – e também, já agora, Bernard Haitink, Pieter Wiespelwey e Anner Bylsma. Entre muitos outros.

Agora que a parte da política deixou de ser uma preocupação, já posso voltar a torrar o sistema nervoso com uma neura antiga – o Acordo Ortográfico. Isto veio-me à cabeça por ter hoje começado a ler o primeiro livro que comprei escrito – ou, neste caso, traduzido – em português da chamada nova norma. O livro, ainda por cima, tem uma capa e um título que lembram os best sellers cor-de-rosa, embora não o seja: o grafismo da capa é piroso: inclui letras brilhantes em alto-relevo e uma menção aos prémios Pulitzer e Nobel no centro de uma coroa de louros e tudo. Pior ainda é o título da edição portuguesa: Home tornou-se «A Nossa Casa É Onde Está o Coração». Se este livro não tivesse sido escrito pela excelente Toni Morrison, teria vergonha de ser visto com ele na rua, mas o pior deste livro é mesmo ter sido traduzido segundo a nova norma ortográfica.

O mais benéfico que posso dizer sobre isto é que certas palavras parecem ter sido amputadas, e outras mutiladas. «Injeção» até pode ser perdoável, e eu não veria com maus olhos uma revisão da ortografia que eliminasse algumas consoantes mudas, desde que com um mínimo de critério. Hoje não escrevemos «contracto», a despeito de o étimo latino ser contractu: escrevemos «contrato». (Notem que estou apenas a referir exemplos esparsos: apesar de gostar de ler e escrever bem, não sou um filólogo nem um linguista.)

O que é completamente incompreensível é que se mude a ortografia de palavras como perspectiva, porque se o objectivo é unificar a ortografia de todos os países onde se fala o português, convinha que se tivesse tido em mente que, no português do Brasil, o «c» de «perspectiva» não é mudo. O artifício da «dupla grafia» consagrado no Acordo Ortográfico é, em si mesmo, a negação da necessidade da nova norma: se se reconhece a diferença, para quê unificar? E, se se quer unificar, porquê manter duas grafias? Não faz sentido.

Já palavras como «objeto» me parecem mutiladas além de amputadas. E que dizer de palavras como «perentório»? Isto não é português! Ou ainda «ato» no lugar de «acto», «ata» em vez de «acta» (a vontade que dá de fazer trocadilhos parvos!) e outras aberrações. Ainda para mais, como os portugueses não se distinguem pelos seus níveis de literacia elevadíssimos e já escrevem muito mal sob a antiga norma, o Acordo Ortográfico só vai trazer mais confusão: há gente que pensa que «facto» vai passar a escrever-se «fato» (outra fonte inesgotável de trocadilhos estúpidos), o mesmo acontecendo com «contato» e «contacto». Até tivemos um juiz famoso que pensava que «cágado» ia perder o acento e se divertiu com – adivinharam – trocadilhos escatológicos, e uma médica que houve por bom escrever «batéria» em lugar de «bactéria». Depois há aquelas palavras que só podem ser fruto de mentes alteradas, como «espetador» em lugar de «espectador». Não há dúvida: o Acordo Ortográfico foi concebido por alguém que quis pôr o país a fazer trocadilhos de mau gosto.

E há também a questão jurídica. Ao que parece, o Acordo Ortográfico não podia ter entrado em vigor sem que todos os países seus destinatários o ratificassem, algo que até agora apenas quatro países fizeram. Não compreendo qual foi a pressa em adoptar («adotar» também é muito canhestro, diga-se) um acordo tão mal amanhado, que não unifica nada e com o qual nem todos os países de língua portuguesa concordam. Por mim, vou adoptar a nova norma quando esta for eficaz na ordem jurídica nacional. Se me torcerem um braço e me apontarem um revólver à cabeça.

M. V. M.