«Jornalismo civil»

Está bastante difundida a ideia de um «jornalismo civil», que muitos pretendem legitimar sob o pretexto de que complementa o jornalismo tradicional e traz um acréscimo aos conteúdos informativos. É um «jornalismo» também dito «colaborativo», ou «de rua», o que teoricamente implicaria uma multiplicação das fontes de informação. Evidentemente, isto é uma treta. O «jornalismo civil» é uma ideia que legitima o que se escreve nos blogues e nos espaços de comentários, mas é – repito – uma treta. Alguém dizer-se «jornalista civil» é tão ridículo como o Sr. Relvas fazer-se passar por «Dr.». O jornalista é alguém que faz do jornalismo o seu modo de vida e recebeu formação e treino para fazê-lo. O «jornalista civil» é só alguém que por acaso estava num determinado lugar quando algo aconteceu – se é que estava mesmo – e até pode ser capaz de narrar esse facto, mas não saberá nada do que um bom jornalista faz. Falta-lhe o treino de ir procurar fontes noticiosas, falta-lhe a noção do interesse noticioso, falta-lhe tudo o que faz um bom jornalista.

Além de esta ser uma noção perigosa: o «jornalista civil» é por regra alguém devotado a causas e, deste modo, não pode ser objectivo nem isento. A objectividade e a isenção são (ainda) requisitos essenciais do bom jornalismo. Mas há mais: apesar de todos os disparates que ouvimos e lemos na televisão e nos jornais, os «jornalistas civis» contêm em si o potencial para serem muito piores, porque não frequentaram escolas de jornalismo (e alguns podem nem sequer ter completado o ensino secundário). Eu não sei de onde veio esta ideia ridícula de que qualquer cidadão pode ser «jornalista» (este deve ser o meu texto com mais aspas de sempre!), mas essa noção é errada. Não é qualquer um que faz uma intervenção cirúrgica, um leigo nada de decente fará se ocupar o lugar de um advogado num interrogatório ou numa audiência de julgamento, um sujeito com o 9.º ano fará decerto uma péssima figura se comentar transacções bolsistas. As coisas são mesmo assim: certos trabalhos só podem ser exercidos por profissionais habilitados. O «jornalista civil» está no mesmo plano que os taxistas e os barbeiros: só um ignorante fanático lhes dará crédito.

Mais a propósito: esta ideia de «jornalismo civil» também se refere à imagem. Agora qualquer pateta armado de um smartphone faz uma fotografia e envia-a para os jornais e televisões. Muitas vezes não querem nada em troca, o que é sinal de falta de consciência do valor do trabalho e, sobretudo, de vaidade: quantos não o fazem para depois comentar: «viste a minha foto na SIC Notícias?», sem se aperceberem que o dinheiro de que estão a abrir mão é subtraído a um bom fotojornalista e metido ao bolso pelo administrador do jornal e da televisão? Ou seja, não se apercebem que estão a ser explorados e a prejudicar outrem.

Estas fotografias levantam questões éticas importantes e também dúvidas quanto à qualidade deste «jornalismo», mas pode ser útil. A verdade é que há mais civis do que fotojornalistas e estes nem sempre estão no local quando certos eventos acontecem, mas as coisas descambam por completo quando estes «jornalistas civis» apresentam os seus vídeos. Além de o fazerem tal como descrevi quanto às fotografias, consentindo por vaidade em ser exploradose aprejudicar os repórteres de imagem, a qualidade do que apresentam é deplorável. Eu sei que a qualidade é uma questão insignificante quando se trata de algo com a magnitude de reportagens sobre ataques terroristas, mas aqueles vídeos verticais que passam constantemente nos noticiários são execráveis. Não acrescentam nada à reportagem e são visualmente confusos. São como se estivéssemos a ver as coisas através de um postigo, ou da frincha de uma porta ou janela, mas com uma perspectiva pior. Os vídeos verticais são, a meu ver, a melhor demonstração da ausência de qualidade e de pertinência do «jornalismo civil». Não há nada que possamos perceber melhor através deles, porque são confusos e os objectos surgem minúsculos (as lentes dos telemóveis são grande-angulares) e porque o nosso «repórter de imagem civil» não tem o treino nem a coragem de chegar mais perto.

É-me embaraçoso ver imagens verticais em certas notícias da televisão. Estes vídeos amadores (eufemismo interessante) estão a proliferar e a erodir ainda mais a qualidade noticiosa. Eu sei que as estações poupam fortunas ao aceitar esses vídeos de graça, mas onde está a poupança se, depois, fazem reportagens com enviados especiais sobre o estágio de uma equipa de futebol no estrangeiro?

M. V. M.

Literatura

Vladimir Nabokov

Sim, eu sei, é puro sadismo. É como oferecer amendoins salgados e tremoços a quem acabou de atravessar o deserto. Deixo os leitores ávidos de prosa fotográfica e, depois de um texto que interrompeu um longo silêncio – o qual deu, por seu turno, continuidade a uma longa sucessão de silêncios apenas fugazmente interrompidos  –, tenho o descaro de dar aos leitores um texto fora do tema. Como se não fosse suficiente o desplante de apresentar um emaranhado complexo de linhas fora do tema, ainda esfrego sal na ferida: o texto é sobre literatura.

Sim, literatura. Eu tenho a convicção – e mantê-la-ei até ao fim dos meus dias – que as boas fotografias são aquelas que mostram o mundo interior do fotógrafo. Se este tiver riqueza de conhecimentos, tal revelar-se-á nas suas fotografias. Não é por acaso que fotógrafos como Cartier-Bresson, Steichen ou Stieglitz eram também intelectuais de craveira e connoisseurs das artes.

Deste modo, rodear-se de boa literatura só pode fazer bem a quem fotografa. Quanto mais não seja, as suas fotografias mostrarão um mundo interior mais rico, texturado e complexo. Não serve, porém, qualquer literatura: se o fotógrafo ler coisas da Sveva Casata Modignani e outros autores de literatura de cordel, o seu mundo interior não expandirá nem um milímetro: as fotografias inspiradas por tais desperdícios de papel e tinta apenas sairão frívolas e tagarelas.

Depois de ter resistido durante muitos anos – por qualquer motivo, adquiri a convicção de que era um livro aborrecido e pesado –, acabei finalmente por iniciar a leitura de Lolita, de Vladimir Nabokov. Comprei-o numa edição que acompanhou o Público há já alguns anos, mas por essa preconcepção estúpida o livro ficou por ler, abandonado ao pó numa estante. Agora que comecei a lê-lo, gostava que ele tivesse oitocentas páginas em lugar das pouco mais de trezentas da edição que tenho em mãos.

Como sabem, sobretudo depois de terem visto a versão cinematográfica de Stanley Kubrick (um dos filmes em que se pode apreciar a verdadeira grandeza desse génio que se chamava Peter Sellers), Lolita é a narração da atracção de um homem maduro (Humbert Humbert) por uma rapariga de doze anos. À primeira vista, tratar-se-ia de um monstro, um pedófilo execrável, e a leitura dos feitos de um depravado deste calibre poderia repugnar o futuro leitor e afastá-lo deste livro – mas, como me esforçarei por mostrar, tal seria um disparate.

Lolita é narrado na primeira pessoa por Humbert Humbert. A narração é auto-depreciativa – Humbert Humbert sabe que a sua inclinação é doentia e que é um pervertido –, mas o estilo é de tal maneira fluído, o humor tão inteligente e o sarcasmo com que Nabokov revestiu Humbert Humbert tão mordaz que a leitura se torna quase compulsiva. Humbert é um homem cultivado e sofisticado e é também um actor: a sua atracção por ninfetas – o próprio Humbert encarrega-se de fornecer uma definição do que estas sejam – é algo que ele tem de esconder a todo o custo, vivendo uma vida de fingimentos e ardis para ocultar a sua sexualidade, e  Nabokov é particularmente brilhante ao traçar a personalidade de Humbert Humbert, que, como todos os que têm algo a esconder, é tímido e desajeitado nas suas aptidões sociais. Nabokov tem ainda a subtileza de, ao fazer o narrador referir-se a ele mesmo na terceira pessoa – o que sucede amiúde ao longo de Lolita –, sugerir um desdobramento patológico da personalidade, embora o texto não se aventure em excesso pelo campo da psiquiatria (o que decerto roubaria fluidez à narrativa).

Lolita não é uma obra moralista, mas não deixa de ser ética. Nabokov não faz nada para justificar ou desculpar o comportamento da personagem principal. Pelo contrário, esta apresenta-se com a consciência de que é um tarado e um dissimulado capaz de conjecturas monstruosas, embora as suas grilhetas morais sejam suficientemente sólidas para o tornar incapaz de concretizar as acções que planeia, como o assassínio da mulher e mãe de Dolores Haze («Lolita» é um diminutivo que apenas Humbert Humbert usa). Humbert tem uma atracção sexual disfuncional, mas ao mesmo tempo é um homem que comunga do sentimento comum em relação a esses crimes. É um predador com plena consciência da gravidade e censurabilidade dos seus actos, mas isto apenas serve para tornar a narrativa ainda mais interessante: a complexidade da personagem e a ambivalência que o leitor sente em relação a ela tornam a leitura de Lolita empolgante.

Há mais. Apesar da não-absolvição moral de Humbert Humbert, Nabokov confronta o leitor com o facto perturbador de Dolores, a despeito dos seus doze anos, não ser inexperiente. Além de ser conhecedora do prazer, é ela quem toma a iniciativa no momento em que a relação carnal que a uniu a Humbert Humbert se consuma. Não que Humbert deixe de ser um pervertido, mas Lolita relata-nos uma devassidão insuspeita – não exactamente pela precocidade, mas pela natureza resolutamente vulgar de Dolores e pela sordidez que rodeou a sua iniciação. Dolores está longe de ser a vítima pura e inocente que poderíamos imaginar, mais parecendo que Nabokov quis confrontar a sociedade com o declínio dos costumes que se esconde por baixo da moral sexual vigente. Com Nabokov não existem ideias de pureza e inocência, as quais são construções artificiais com as quais a humanidade tenta em vão ocultar a carnalidade. Não me surpreende que Lolita tivesse sido recebido como uma afronta à moral em certos meios literários.

O que mais me cola às páginas deste romance absolutamente excepcional, porém, é o estilo, que faz da leitura uma verdadeira delícia para a mente. O estilo é erudito, rico e cuidado – pelo menos tanto quanto é dado a perceber pela francamente boa tradução de Fernanda Pinto Rodrigues –, mas, ao mesmo tempo, solto e embebido naquela auto-ironia a que já me referi.

Pensar que em breve vou acabar de ler Lolita angustia-me. Este é um dos livros mais brilhantes, contundentes, perspicazes que já li – e também um dos mais divertidos. É, seguramente, uma das grandes obras da literatura universal. Não pensem que ter visto as adaptações para cinema (além da de Kubrick, há uma recente, com Jeremy Irons, de 1997) vos isenta de ler Lolita.

M. V. M.

Eu e o Acordo Ortográfico (antecedido de um prefácio aliviado)

Uf! o povo neerlandês não se deixou enganar. Vou poder continuar a apreciar Toto Frima, Ed van der Elske e Rineke Dijkstra – e também, já agora, Bernard Haitink, Pieter Wiespelwey e Anner Bylsma. Entre muitos outros.

Agora que a parte da política deixou de ser uma preocupação, já posso voltar a torrar o sistema nervoso com uma neura antiga – o Acordo Ortográfico. Isto veio-me à cabeça por ter hoje começado a ler o primeiro livro que comprei escrito – ou, neste caso, traduzido – em português da chamada nova norma. O livro, ainda por cima, tem uma capa e um título que lembram os best sellers cor-de-rosa, embora não o seja: o grafismo da capa é piroso: inclui letras brilhantes em alto-relevo e uma menção aos prémios Pulitzer e Nobel no centro de uma coroa de louros e tudo. Pior ainda é o título da edição portuguesa: Home tornou-se «A Nossa Casa É Onde Está o Coração». Se este livro não tivesse sido escrito pela excelente Toni Morrison, teria vergonha de ser visto com ele na rua, mas o pior deste livro é mesmo ter sido traduzido segundo a nova norma ortográfica.

O mais benéfico que posso dizer sobre isto é que certas palavras parecem ter sido amputadas, e outras mutiladas. «Injeção» até pode ser perdoável, e eu não veria com maus olhos uma revisão da ortografia que eliminasse algumas consoantes mudas, desde que com um mínimo de critério. Hoje não escrevemos «contracto», a despeito de o étimo latino ser contractu: escrevemos «contrato». (Notem que estou apenas a referir exemplos esparsos: apesar de gostar de ler e escrever bem, não sou um filólogo nem um linguista.)

O que é completamente incompreensível é que se mude a ortografia de palavras como perspectiva, porque se o objectivo é unificar a ortografia de todos os países onde se fala o português, convinha que se tivesse tido em mente que, no português do Brasil, o «c» de «perspectiva» não é mudo. O artifício da «dupla grafia» consagrado no Acordo Ortográfico é, em si mesmo, a negação da necessidade da nova norma: se se reconhece a diferença, para quê unificar? E, se se quer unificar, porquê manter duas grafias? Não faz sentido.

Já palavras como «objeto» me parecem mutiladas além de amputadas. E que dizer de palavras como «perentório»? Isto não é português! Ou ainda «ato» no lugar de «acto», «ata» em vez de «acta» (a vontade que dá de fazer trocadilhos parvos!) e outras aberrações. Ainda para mais, como os portugueses não se distinguem pelos seus níveis de literacia elevadíssimos e já escrevem muito mal sob a antiga norma, o Acordo Ortográfico só vai trazer mais confusão: há gente que pensa que «facto» vai passar a escrever-se «fato» (outra fonte inesgotável de trocadilhos estúpidos), o mesmo acontecendo com «contato» e «contacto». Até tivemos um juiz famoso que pensava que «cágado» ia perder o acento e se divertiu com – adivinharam – trocadilhos escatológicos, e uma médica que houve por bom escrever «batéria» em lugar de «bactéria». Depois há aquelas palavras que só podem ser fruto de mentes alteradas, como «espetador» em lugar de «espectador». Não há dúvida: o Acordo Ortográfico foi concebido por alguém que quis pôr o país a fazer trocadilhos de mau gosto.

E há também a questão jurídica. Ao que parece, o Acordo Ortográfico não podia ter entrado em vigor sem que todos os países seus destinatários o ratificassem, algo que até agora apenas quatro países fizeram. Não compreendo qual foi a pressa em adoptar («adotar» também é muito canhestro, diga-se) um acordo tão mal amanhado, que não unifica nada e com o qual nem todos os países de língua portuguesa concordam. Por mim, vou adoptar a nova norma quando esta for eficaz na ordem jurídica nacional. Se me torcerem um braço e me apontarem um revólver à cabeça.

M. V. M.

A Holanda, uma retratista com um nome impronunciável e eu

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Amanhã há eleições legislativas na Holanda. Existe o sério risco de um partido liderado por um indivíduo de nome Geert Wilders, que alguns consideram ser a versão holandesa de Donald Trump, vencer as eleições.

O que me aborrece, nestes populistas, é a sua completa incoerência ideológica. Aliás, é mais correcto dizer que não têm ideologia: as ideias que anunciam destinam-se simplesmente a ir ao encontro dos anseios de uma população amedrontada que crê facilmente em lugares-comuns que são indicados como uma panaceia – falsa, evidentemente – para todos os seus problemas. É fácil, a um desempregado com a mente amolecida por muitos anos a ver televisão e que passa a vida no facebook acreditar que a razão de estar desempregado é um estrangeiro estar a roubar-lhe o emprego. E, se esse estrangeiro for um ser considerado inferior – por ter pele escura e ser de uma religião diferente, porque muitos entendem serem estes sinais de inferioridade –, mais fácil se torna propagar o discurso do ódio e conquistar votos. Este Geert Wilders é, curiosamente, um indivíduo que assenta o discurso político na expulsão dos emigrantes, mas pinta o cabelo de louro para não se notar demasiado a presença de traços físicos que o assemelham à sua mãe, uma emigrante indonésia. Não sei o que vê nele uma grande parte dos holandeses.

É isto que me repugna nos populistas: eles só acreditam na conquista do poder e fazem e dizem tudo o que for necessário para o obter. Nem que isso implique mentir e cair em contradições que só escapam a mentes embotadas e predispostas a acreditar nas mensagens de ódio que estes protofascistas transmitem. Resta saber o que fazem quando chegam ao poder. Temos o exemplo dos Estados Unidos, mas ainda mais perto está o caso dos municípios conquistados em França pela Frente Nacional, cuja administração se caracterizou sempre pela corrupção, pelo favorecimento pessoal e pela ausência de qualquer tipo de políticas, ou o dos governos de Silvio Berlusconi, que, embora não fosse um nacionalista em sentido estrito, partilhava com eles uma retórica de ilusão das massas para, uma vez chegado ao poder, fazer tudo ao contrário do que anunciara e governar em benefício das suas próprias empresas. É este tipo de gente que governa a Hungria, a Polónia, a Rússia e os Estados Unidos; seguir-se-á a Holanda?

Se Geert Wilders se tornar primeiro-ministro holandês, poderá, na pior das hipóteses, acelerar o processo de desagregação da União Europeia, contribuir para uma crise económica mundial e desencadear uma nova guerra religiosa na Europa; na melhor, a qual se verificará no caso de ter de governar em coligação com partidos moderados, apenas contribuirá para acentuar uma ligeira antipatia que sempre senti por aquele país decadente e desinteressante. Um país, contudo, que não deixa de ter relevância nas artes, e em particular na fotografia. Com efeito, um dos melhores fotógrafos que conheço – na minha lista mais extensa – é holandês e chama-se Ed (Eduard) van der Elsken. Mas também já me referi aqui a Toto Frima, entusiasta das Polaroids. Além destes dois – e decerto de muitos outros –, há uma fotógrafa contemporânea cuja obra me parece merecer a atenção dos leitores do Número f/: é Rineke Dijkstra, uma moça da geração de 1959 que acabou de ganhar um prémio atribuído pela Fundação Hasselblad.

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Que posso eu dizer sobre os retratos de Rineke Dijkstra? Eles são, aparentemente, rígidos; as poses das pessoas são estáticas e formais, mas é perceptível que as pessoas retratadas são tudo menos isso. É como se as fotografias de Rineke Dijkstra (eu gosto de escrever este nome, embora não faça a mais pequena ideia como se pronuncia) fossem uma metáfora dos espartilhos que cingem a vida das pessoas nos nossos dias. Acima de tudo, são retratos de pessoas reais. Esta realidade é, em si mesma, perturbadora: é como se Rineke Dijkstra caricaturasse os retratos estereotípicos para nos dizer que há mais beleza e retratabilidade nas pessoas comuns do que nos modelos fotográficos. Há aqui uma nota de subversão que me parece deliciosa.

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Depois há os retratos temáticos, nos quais se favorece a crueza da realidade, o mostrar as pessoas na sua essência, sem ornamentos, fotografando-as contra fundos banais e quotidianos, como se quisesse dizer que só a pessoa interessa, que a pessoa é um motivo de interesse mesmo quando desligada das suas circunstâncias. Neste aspecto os retratos de Rineke Dijkstra são imensamente conseguidos.

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Os holandeses estão prestes a seguir o exemplo de outros povos que preferem ser governados por escroques que usam as frustrações dos votantes para fazer passar a sua mensagem e se alcandorar ao poder. A inteligência sai sempre derrotada deste confronto. Quem não se lembra de que Mario Vargas Llosa, um gigante da literatura mundial, perdeu as eleições presidenciais no Peru para um vigarista corrupto chamado Alberto Fujimori? Se os holandeses fossem inteligentes, punham a Rineke Dijkstra à frente de um partido e faziam-na Primeira-Ministra. Talvez nessa altura eu deixasse de encontrar razão nas invectivas do Padre António Vieira.

M. V. M.

Mais leituras (ou como a literatura pode mudar a maneira como fotografamos)

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Stefan Zweig

Alguns leitores poderão, porventura, interrogar-se por que surgem tão frequentemente, aqui no Número f/, textos que nada têm que ver com fotografia. Já escrevi aqui sobre música, literatura, política e mesmo alta fidelidade e automóveis, temas que não estão nem remotamente ligados à fotografia.

A razão é muito simples: este não é um blogue de fotografia como os outros. É o meu blogue e eu tenho outros interesses para além da fotografia. Contudo, este não é, em sentido estrito, um blogue pessoal; se fosse, ter-lhe-ia dado um nome que não estivesse tão intimamente relacionado com a técnica fotográfica. A minha opção por escrever e publicar textos fora do âmbito da fotografia é deliberada. Cada fotografia que o leitor faz – ou eu mesmo, evidentemente – carrega consigo muito do que o seu autor é. Cada fotografia incorpora o acervo de conhecimentos e experiências de vida do seu autor, mesmo que este fotografe casualmente e procure ser objectivo e textual. Mesmo quando imita, o fotógrafo está a mostrar algo de si, nem que seja que é uma pessoa limitada, sem imaginação e que gosta de seguir caminhos já trilhados e bem batidos.

Penso que é muito importante compreender o que acabei de expor. Se virmos bem a obra dos fotógrafos verdadeiramente bons, não temos como negar a influência da sua experiência de vida, das suas concepções sobre o mundo e da sua erudição. Numa palavra, a fotografia revela muito de cada um. Por vezes mais do que o desejado pelo autor.

Porque tenho esta concepção de que a fotografia contém em si tudo o que o seu autor é, parece-me muito natural que um blogue como este não se circunscreva à sua temática. Com efeito, quanto mais variado for o mundo do fotógrafo, maiores serão as possibilidades de a sua fotografia ser rica em significados.

Vamos, então, sem mais delongas, ao assunto que motivou esta longa tergiversação. Contei aos leitores que estive num outlet do livro, onde aproveitei para comprar algumas obras que me mereceram interesse. Uma delas foi Amok, do austríaco Stefan Zweig. Este autor ganhou uma reputação imerecida de ser um escritor de banalidades cujos livros, repletos de lugares-comuns, dificilmente merecem ser havidos como literatura. Com efeito, Zweig era imensamente popular no seu tempo, mas seria injusto pensar nele como o Nicholas Sparks do início do Século XX. Pelo menos na minha opinião, que é pouco fundada. Com efeito, apenas li três obras de Zweig – e uma delas é uma biografia –, o que não me autoriza a discorrer sobre ele.

Contudo, hoje aconteceu-me algo de singular que me atiçou a curiosidade por um autor que escreveu livros como Confusão de Sentimentos ou Segredo Ardente. Estava a ler Amok e notei que, apesar de o livro ainda não ir a meio, a narrativa aproximava-se rapidamente do seu desfecho. À medida que me aproximava do que se tornava óbvio que seria o final do conto, pensava como poderia Stefan Zweig ter prolongado o texto por todas aquelas páginas que faltavam. Percebi um pouco depois, quando atingi o fim de Amok (que, diga-se, é excelente), que, apesar de não haver qualquer menção disso na capa, o volume continha outra novela, esta intitulada Carta de Uma Desconhecida. Conhecendo a reputação de Stefan Zweig, imaginei que seria algo de xaroposo, mas predispus-me a ler sem preconceito.

Ainda bem que o fiz. Diante dos meus olhos, nestas páginas anacronicamente tipografadas – o meu exemplar de Amok é um fac-símile da 3.ª edição da Livraria Civilização, a qual foi lançada em 1942 – desenrolou-se, para minha enorme surpresa e incontida estupefacção, o mais belo conto de amor que alguma vez li. É um conto epistolar que narra a paixão de uma jovem mulher por um vizinho que teve na adolescência, um romancista abastado mas ainda jovem. A intensidade da paixão da jovem é contada de uma maneira tão bela e arrebatadora, tão plena de força e de sensibilidade, que me fez perceber de imediato que estava a ler uma obra de génio, escrita por alguém de intuição penetrante e sensibilidade romântica (romantismo, no sentido da corrente artística que caracterizou o Século XIX, é o predomínio da sensibilidade sobre a razão).

Será esta, porventura, uma leitura fácil, acessível a uma massa que se estende muito além do círculo restrito da intelectualidade; mas – e depois? Acaso não se passa o mesmo com o nosso Camilo e o Amor de Perdição? O amor e o romantismo são uma parte importante da vida. E, acreditem ou não, a sua presença nas nossas vidas vai ficar embebida nas nossas fotografias. Leiam Carta de Uma Desconhecida e deixem-se comover e arrebatar, mesmo que a sua leitura se venha a tornar no vosso pecadillo inconfessável. Vai ser bom para a vossa fotografia. Bem melhor do que saber as equações da equivalência será de certeza.

M. V. M.

Ler

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A minha transição de 2016 para 2017 foi acompanhada por dois livros, ambos de Marguerite Yourcenar: A Obra ao Negro e Memorias de Adriano. Foram dois livros belíssimos que reli, depois de tê-los lido há cerca de vinte anos.

Na verdade, porém, foi como se os tivesse lido pela primeira vez: não retive nada das primeiras leituras. Não percebi que por detrás das narrativas históricas estava uma análise profunda dos dias que se viviam à data em que as obras foram escritas, como se Marguerite Yourcenar tivesse querido dizer que existe um devir eterno – ou melhor: uma continuidade que eternamente se renova. Nem me apercebi, nas primeiras leituras, da luta entre as forças da razão e do obscurantismo que se manifestavam ainda – e são agora ainda mais actuais – quando A Obra ao Negro foi escrita, do carácter profético de Memórias de Adriano quando se conta a repressão dos judeus pelo império romano, ou da apologia do amor livre com que Yourcenar se antecipou em três décadas aos movimentos que despontaram no anos 60 do século passado. Não sei com que estado de espírito terei lido aqueles livros, mas fi-lo desatentamente. Ou talvez as reflexões que a leitura me mereceu então não tivessem perdurado na minha memória.

Ler um romance nunca é, para mim, seguir uma narrativa: é sempre um teste à minha atenção. Um autor nunca se limita a escrever uma história: está permanentemente a deixar em escrito a sua visão da vida e do mundo. O que me seduz, na leitura, é descobrir essa visão. As minhas leituras tendem a ser pessimistas, pois os meus autores predilectos vertem pessimismo nas suas obras. Nelas se descrevem os vícios e os defeitos que são naturais ao homem. Nem podia ser de outra maneira: se as pessoas fossem perfeitas, que haveria para contar?

Este pessimismo a que aludo não é, porém, o mesmo que negativismo: a única obra cínica e completamente descrente do homem e das suas virtudes que li foi Nana, de Émile Zola, que era decerto um homem amargo e descrente na humanidade. Os revolucionários chineses de A Condição Humana (André Malraux) são capazes de matar, fraquejam e são assaltados por dúvidas, mas existe neles uma fraternidade uma pureza de ideais que enobrece a espécie humana; o capitão Ahab de Moby Dick tudo sacrifica na sua loucura de capturar o mastodonte branco, mas que seria do homem sem o sonho e a ambição?

Não é nenhum sentido oculto que procuro nos livros que leio: é uma mensagem. Porque o único sentido oculto das coisas/É elas não terem sentido oculto nenhum. O que procuro é o que o autor incorpora das suas ideias nos seus contos e romances; é o que ele quer que percebamos, sem contudo o deixar explícito. Cada autor confia na inteligência dos seus leitores para descobrir que ideias subjazem à construção das suas personagens e ao destino que lhes dá.

Claro que, tal como na fotografia, na literatura há a artística e a de pechisbeque. Não sei dizer quando a literatura se tornou num negócio (se não o foi sempre), mas o surgimento de uma indústria literária – há autores que apenas dão o nome aos seus best sellers, que são escritos por equipas de escritores assalariados – foi algo de muito mau. Abastardou a literatura. Eu nunca conseguirei abrir, ou sequer tocar, um livro de Dan Brown, Nicholas Sparks ou de Sveva Casata Modignani (entre muitos outros). Livros como os destes autores seguem fórmulas para agradar a públicos amplos, mas que dizem eles sobre a vida? Nada. Tudo o que pudermos aprender com eles se situa num nível que nunca ultrapassa a frivolidade e o comezinho. São livros cientificamente estudados para vender aos milhões, mas, depois de lidos, nada resta, nada perdura.

Felizmente, livros como estes são facilmente esquecidos. Hoje leio obras que foram escritas há um ou dois séculos; quem se lembrará de O Código da Vinci dentro de cinquenta anos? E as imitações de José Rodrigues dos Santos, sobreviverão elas ao seu autor?

Esta efemeridade do pechisbeque literário tem uma manifestação corpórea nos milhares de livros que ficam por vender. Não há nada mais deprimente do que ver livros de Ken Follett numa banca de uma feira do livro, num escaparate da M Books ou num alfarrabista pouco criterioso. São objectos inúteis, sem valor, que ninguém quer porque nada têm de genuíno a dizer. Leram-se uma vez e cumpriram a sua função epidérmica de entreter, como um filme medíocre de Hollywood.

Isto veio a propósito da minha visita de hoje ao «outlet do livro» que está instalado no Pavilhão Rosa Mota. É deprimente ver aqueles livros: são guias da sexualidade (porque há quem precise de aprendê-la em livros…), obras com títulos ridículos que ninguém no seu juízo quer ler – e muito menos comprar –, livros datados de episódios históricos irrelevantes, e, evidentemente, muitos best sellers de literatura barata. De todos os livros que ali havia, só alguns me mereceram atenção. Já lera alguns deles e outros não me interessavam, pelo que saí de lá com apenas quatro livros: um pequeno conto de Thomas Hardy (porque a leitura do seu Judas, o Obscuro, foi um momento memorável das minhas leituras) intitulado O Pregador Atormentado, Amok, de Stefan Zweig, uma colectânea de contos de Henry James (autor do qual nada conheço) e um ensaio de Mario Vargas Llosa sobre o conflito israelo-palestiniano (porque me interessa conhecer a opinião de uma mente brilhante sobre este tema, ainda que não me identifique com as ideologias que ele propugna). E foi tudo. O resto era bafiento e tão útil como cadáveres depois de autopsiados.

M. V. M.

How do I look?

indice

Nunca me sinto inteiramente satisfeito com os «temas» do WordPress. Alguns são interessantes no geral, mas têm sempre qualquer coisa que estraga tudo: seja um cabeçalho demasiado pesado, cores que desfeiam o conjunto ou uma variedade limitada de tipos de letra. Seja o que for, ainda estou para experimentar uma apresentação que me deixe inteiramente satisfeito, pelo que mudo muito frequentemente a apresentação do Número f/.

A última apresentação que usei era relativamente sóbria e bastante legível, mas muito rígida; o cabeçalho pesado e a cor das hiperligações e dos widgets (as inscrições na coluna lateral) fizeram com que me cansasse dela rapidamente e sentisse necessidade de mudar. A nova apresentação é quase espartana – os widgets estão ausentes da página principal e só aparecem se se abrir um texto numa nova página -, mas parece-me legível e elegante. O que será que os leitores pensam?

M. V. M.