As minhas compras de fim-de-semana

Stendhal

Prometo que amanhã escrevo sobre fotografia – mais concretamente sobre uma objectiva que reduz ao ridículo os argumentos que se costumavam esgrimir a favor dos sistemas mirrorless –, mas por hoje quero voltar a um entretém que tenho cultivado ultimamente de forma bastante intensiva: a leitura.

Apanhei-me de novo no fim de um livro e, como já li todos os que tenho em casa que me interessam, chegou a hora de ir às compras. Talvez por não querer alimentar o duopólio Bertrand-Fnac, alguma coisa me impeliu a ir a um alfarrabista e fui à Praça Guilherme Gomes Fernandes, aqui no Porto, porque é lá que está a Modo de Ler, livraria onde já tinha comprado dois livrinhos bem catitas de Émile Zola (Naná) e Thomas Hardy (Judas, o Obscuro).

Antes, porém, deixem-me mencionar o tal último livro, cujo fim de leitura determinou a secura de novas edições chez M. V. M. Foi O Vermelho e o Negro, de Stendhal. Eu devia ter vergonha de confessar que só descobri esta obra aos 54 anos, mas as coisas são assim mesmo e, de resto, seria muito pior se tivesse deixado que este livro espantoso me escapasse. Sim, porque O Vermelho e o Negro é um dos grandes romances de todos os tempos. Não quero estragar a leitura daqueles que eventualmente se interessem por este romance, mas Stendhal alia uma mundividência de lucidez inesperada a uma construção perfeita do perfil psicológico das personagens. E tudo com uma clareza que torna a leitura alarmantemente simples – utilizo este advérbio porque a leitura é tão límpida e fluída que pode parecer superficial, mas é tudo menos isso. Stendhal é penetrante, como todos os grandes autores franceses que lhe sucederam. Há uma riquíssima e acutilante exploração da mente humana, especialmente do amor; e, mesmo se as personagens femininas exprimem sentimentos que hoje podem parecer desusados, Stendhal é justamente considerado um dos grandes romancistas do amor. Quem ainda não leu esta obra maravilhosa só faz um favor a si mesmo se a ler agora. Não cometam o mesmo erro que eu: não comprem a edição da Relógio D’Água, cuja tradução é sofrível; vão a um alfarrabista e procurem uma tradução de Branquinho da Fonseca.

Já que falo de alfarrabistas, eis-nos de volta à Praça Guilherme Gomes Fernandes e à Modo de Ler. A quantidade de títulos e a variedade de temas é quase esmagadora. Desde aqueles livros técnicos que já não interessam a ninguém a originais de Luiz Pacheco editados pela sua Contraponto, há muito pouco que não possa ser encontrado na Modo de Ler. E, se tiverem um pouco de sorte, podem ter o privilégio de conversar com José da Cruz Santos, cuja amabilidade só é superada pela sua erudição literária.

Saí da Modo de Ler com mais um Stendhal – não foi A Cartuxa de Parma (lá chegarei), mas Lucien Leuwen – e uma pequena monografia de Stefan Zweig, escritor austríaco que conheço desde que um professor que estimei muito me recomendou José Fouché e é autor de Carta de Uma Desconhecida, o mais belo conto de amor que a humanidade produziu. Como não estava satisfeito, de tarde comprei Almas Mortas, de Nikolai Gógol. E reparei que há mais um volume dos contos de Tchékov à venda, mas já tinha ultrapassado o orçamento. De qualquer maneira, já tenho uma provisão substancial de alimento para o espírito.

M. V. M.

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Leituras e outras coisas

1. As minhas leituras são caóticas. Não tenho o menor indício de organização e de sistematização: compro os livros que me apetece ler ou me despertam a curiosidade, sem qualquer preocupação sistemática.

O visitante do Número f/ que acabou de ler o parágrafo anterior poderá ficar com a impressão de que o M. V. M. é um hedonista e que ler por mero prazer é a forma ideal de o fazer – e, em grande parte, essa impressão está correcta; mas a verdade é que gostava de ter sido um pouco mais sistemático. Gostava de ter começado a ler de forma compartimentada – por exemplo, começar com a literatura anterior ao renascimento, depois partir para o período clássico, a seguir o romântico e assim sucessivamente até chegar aos contemporâneos, mas esta pretensão esbarra num obstáculo intransponível: o tempo. Não tenho tempo – nunca o teria, mesmo que tivesse começado muito novo – para conhecer toda a literatura, ou pelo menos uma parte substancial dela, por isso preocupo-me em conhecer as obras essenciais (o conceito de essencialidade é discutível, bem sei) e em ancorar bem os meus conhecimentos. Eu preciso de conhecer os fundamentos da literatura para compreendê-la, pelo que me obriguei a ler a Odisseia e a Ilíada (e hei-de chegar aos romanos) antes de conhecer os modernos e os contemporâneos.

Se eu fosse um académico das letras, decerto faria sentido uma abordagem metódica, mas não sou. Leio por prazer. Ou melhor: leio por sentir que a leitura é uma necessidade. Não consigo conceber uma vida sem livros e passar um mês sem ler um livro faz-me sentir estúpido. Leio muito por via da minha profissão, mas esta é uma leitura utilitária e funcional. Ler ficção não é útil – o que me providencia um escape saboroso das leituras técnicas –, mas não deixa de acrescer aos meus conhecimentos e enriquece-me por essa via. Contudo, não deixo de sentir alguma pena por ler tão ao acaso, tão desorganizadamente. Sinto que uma abordagem mais metódica me faria progredir melhor na compreensão e conhecimento da literatura, mas – repito – não sou um académico da literatura. Posso dar-me ao luxo e ao prazer de ler o que quero e de rejeitar um livro por não me cativar – como aconteceu com o D. Quixote e com a vasta maioria das obras de autores britânicos e americanos, que detesto pela sua superficialidade e por, numa palavra, por nada dizerem sobre a vida. Há excepções, como Thomas Hardy ou Gore Vidal (o de Juliano, não o de Washington D. C.), entre outros, mas não há um escavar da mente humana como em Céline, Mann ou Malraux.

2. O facto de ter eleito Viagem ao Fim da Noite como a minha obra literária favorita pode eventualmente expor-me a críticas, já que Céline se tornou num proscrito pelo seu anti-semitismo. Eu não sou anti-semita, como não sou anti-muçulmano ou anti-seja-o-que-for. Sou contra o fanatismo e, como tal, sou extremamente crítico de Israel e, em particular, do poder que está lá instalado. Bibi Netanyahu é um palhaço, mas um palhaço perigoso. Não lhe desejo mal, porque o ódio não faz parte da minha maneira de ser, mas gostava que fosse destituído pela força do voto. Mas o discurso do medo e do ódio soterrou as boas intenções – ou a aparência delas – dos trabalhistas e de todos os israelitas que acreditam na paz e na convivência entre os povos de Israel e da Palestina. Não vejo qualquer esperança para o povo palestiniano num futuro próximo.

Ler Céline não faz de mim um anti-semita, mas também não faz de mim um apaniguado do politicamente correcto que se abstém de dizer o que pensa com medo de ofender seja quem for. Tudo o que me interessa é o valor literário de Viagem ao Fim da Noite. Não distingo os autores que leio pelo seu credo ou etnia nem, sinceramente, me interessa o que pensam e fazem fora da sua carreira literária. Não me preocupa se o autor F… é do meu clã ou ora no mesmo templo que eu.

3. É cada vez mais perversa a influência norte-americana. Nós, os portugueses, somos uns parolos ofuscados pelo poderio da potência dominante. Temos na Europa a melhor literatura, a melhor música, o melhor cinema – sim, porque quantidade raramente é sinónimo de qualidade – e, contudo, continuamos a idolatrar e a deixar-nos influenciar por tudo o que é americano. Isto vai desde os gostos que cultivamos até aos vícios de linguagem. Agora as pessoas usam expressões directamente importadas e traduzidas à letra como «sair do armário», «janela de oportunidades» e outros disparates, e hoje vou referir mais um, porque toca em algo de que sempre gostei – a banda desenhada. Nós temos a Bélgica no coração da Europa e é de lá que saiu e continua a sair a melhor banda desenhada do mundo, mas por qualquer razão que me escapa preferimos a BD americana. E – o que é enervante – importámos acefalamente a denominação que os americanos dão aos álbuns de banda desenhada: agora chamamos-lhes «novelas gráficas». Com o devido perdão à Peixinho de Prata, que usa frequentemente esta expressão, isto é simplesmente asinino. Graphic novel está errado; novel não pode ser traduzido literalmente para «novela». Novel corresponde ao género a que na Europa chamamos «romance». E, embora o desenho seja uma arte gráfica, porquê excluir o desenho para salientar o elemento «gráfico»? Qual é o mal de dizer «banda desenhada»? Mais: a banda desenhada não tem nem pode ter pretensões literárias, mesmo se conta uma história; então porquê incluí-la no género literário novel? Não faz sentido. Ou melhor: faz tanto sentido como a «zona de conforto» e o «pensar fora da caixa». Deixem as americanices para os americanos e usem o que temos!

M. V. M.

Viagem ao fundo da noite (2)

Voyage au Bout de la Nuit é uma viagem ao fundo deste interior, uma narração de episódios de uma vida aventurosa durante a qual a personagem Ferdinand Bardamu se depara com a cobardia, a ganância, a crueldade, o cinismo, a mesquinhez, a tibieza, a maledicência que existem em cada uma das demais personagens com quem se cruza – e nele mesmo. É uma obra sobre o sofrimento e a inquietude, e a sua dimensão humana foi uma verdadeira revelação para mim. Eu nunca li um romance que fosse, ao mesmo tempo, tão belo e tão incómodo. É uma obra literária singular: a narração é de uma qualidade literária elevadíssima, mas os diálogos são coloquiais e Céline recorre amiúde ao vernáculo. Fá-lo porque é assim que somos. Porque a  noite, o fundo da noite de Céline, é carregado de imundície e vileza. O único heroísmo possível está em contrariar essa escuridão, mas somos sempre demasiado fracos. Mesmo quando agimos bem, fazêmo-lo sempre por opção, não por ser esse o único caminho.

Há algo que aprecio na literatura francesa: nenhuma personagem é absolutamente boa nem absolutamente má. Somos o fruto das nossas escolhas e do que as circunstâncias ditam. Não há um imperativo moral que nos guie – ou, quando há algo que se lhe assemelhe, tudo é posto em questão. Nós somos assim mesmo: ninguém é absolutamente bom e ninguém é completamente mau. Por vezes a vida leva-nos por caminhos indesejados e agimos contra o acervo de valores de que somos depositários. Este é um corolário do pensamento típico do início do Século XX. (Ao mesmo tempo, em Viena, Musil escrevia: «O que importa não é o erro, mas o que fazemos depois dele».)

Numa palavra, os livros que escolho como os meus melhores falam de pessoas. Das pessoas que somos, daquilo que nos determina a agir, dos nossos erros, das nossas podridões ou da capacidade que temos em resistir. Não existe ninguém perfeitamente virtuoso nem ninguém totalmente pérfido: somos o resultado do confronto das nossas crenças e valores com a vida e esta põe em causa tudo em que acreditamos. Céline fala-nos deste confronto. Uns, por terem o discernimento embotado, resvalam para a vileza; outros, como Bardamu, sabem que esta existe e é frequentemente inevitável, mas não se deixam abater. E, sobretudo, não fazem juízos de valor nem clamam qualquer superioridade – moral ou de qualquer outra natureza. Somos uma enorme comunidade de seres defeituosos e limitados, nada mais. E nem se pode dizer que nos superamos: o mais que fazemos é sobreviver às adversidades.

É por tudo isto que considero Viagem Ao Fim da Noite o melhor livro que li. Até hoje. Amanhã poderei descobrir um melhor. Infelizmente, esse melhor não vai ser o que estou a ler agora, que é O Vermelho e o Negro, de Stendhal. Não que seja mau – pelo contrário, estou a gostar – mas o Céline está mais perto e vai mais fundo. Mas o Stendhal fica para mais tarde. É mais avisado fazer a sua apreciação quando acabar de o ler.

M. V. M.

Viagem ao fundo da noite (1)

Louis-Ferdinand Céline

Os leitores habituais já sabem como o M. V. M. é errático na escolha dos assuntos que versa no Número f/, por isso perdoar-me-ão decerto mais um texto fora do tema. Eu nunca escreveria textos como este se não estivesse convicto da sua utilidade. Bem vêem, eu escrevo – ou procuro escrever – para pessoas que têm um número variado de interesses além da fotografia. Se estes interesses não existirem, que pobres serão as fotografias.

Fazer uma fotografia – especialmente na acepção abertamente criativa que eu cultivo – nunca pode ser desligado de quem nós somos, do que fazemos, do que são os nossos interesses. Entre estes podem estar (estarão com certeza) as artes – a música, a literatura e certamente muitas outras. Tudo isto se manifesta nas nossas fotografias. Até a personalidade de cada um é revelada nas fotografias que se fazem.

Por tudo isto, não me parece nada despropositado escrever – como hoje vou fazer – sobre literatura. Ler enriquece-nos e expande as nossas mentes; mas ler obras como as que vou referir leva-nos para domínios do conhecimento tão extraordinários que nos fazem sentir gratos (seja ao que for: a uma divindade, ao destino, aos pais, não interessa o quê) por termos acesso a elas.

Até há cerca de um mês, eu hesitava sobre qual o melhor livro que tinha lido. Seria A Montanha Mágica, de Thomas Mann, ou A Condição Humana, de André Malraux? Eu não gosto de estabelecer hierarquias, mas por alguma razão gosto de poder dizer que o livro … é a melhor obra literária que já li. (Reparem no «já», que deixa tudo em aberto.) As obras que referi são decerto extraordinárias: ambas, no fundo, falam do sentido da vida, ou do sentido que damos à vida. Hans Castorp e os guerrilheiros revolucionários chineses são impelidos por aquilo que acreditam, pelos valores por que sentem que vale a pena lutar. São ambas genialmente penetrantes e de uma qualidade literária que não merece discussão. A tentativa de assassínio com que A Condição Humana inicia («o matar era nada; o tocar é que era impossível» é a melhor frase literária que li até hoje) é dos melhores momentos da literatura universal, mas A Montanha Mágica é tão rico, tão caleidoscópico que me deixa ambivalente quanto a qual é melhor – ou, dito mais propriamente, qual entendo ser melhor, porque quem sou eu para formular juízos absolutos.

Até que o desempate aconteceu, quase por acaso. Não foi um pender para uma ou outra daquelas obras, mas a descoberta, por mera curiosidade de uma outra obra que passou a gozar do estatuto de O Melhor Livro Que O M. V. M. Já Leu. Esse livro é Viagem ao Fim da Noite, de Céline (pseudónimo literário de Louis-Fernand Destouches). Logo uma obra com um título que me enerva, a mim que tenho uma obsessão quase neurótica com as traduções dos títulos: neste caso, a tradução não é tão grosseiramente errada como L’Étranger por «O Estrangeiro», mas priva-nos de um título que ilustra bem melhor o tema da obra do que a tradução escolhida.

O que é mais importante do que parece: o título original é Voyage au Bout de la Nuit. «Viagem ao Fundo da Noite». A noite a que Céline se refere e que serve de tema a esta obra não é a escuridão que se segue ao dia: é a que temos bem fundo dentro de nós, as profundezas que não ousamos confessar. E esta é uma noite que não tem fim, mas tem um fundo. (Continua)

Mais sobre protecção de dados (2)

O consentimento que o titular dos dados deve prestar não se presume, nem pode ser meramente tácito ou implícito, como sucedia com aquelas mensagens em que os administradores de um website advertiam que o visitante, ao prosseguir, estava implicitamente a concordar com a política de cookies e com os termos e condições estabelecidos (e geralmente de difíceis localização e leitura): o consentimento tem de ser afirmado num acto positivo – uma declaração verbal ou escrita, ou mesmo o preenchimento de uma quadrícula ou um click – e deve ser prestado quanto a um tratamento de dados claramente identificado: o responsável pelo tratamento tem a obrigação de identificar, de forma inequívoca, os fins para os quais os dados pessoais vão ser utilizados. Foi por esta razão que, num texto anterior, usei a expressão «consentimento esclarecido».

Uma dúvida que me foi colocada foi se este regime é aplicável, por exemplo, às facturas, já que os comerciantes recolhem dados pessoais, mas esta questão não se coloca quanto à emissão desses documentos: o cliente, ao fornecer o nome e número de identificação fiscal, está evidentemente a consentir na utilização dos dados para esse fim. Contudo, não está a consentir no seu tratamento posterior. Se o comerciante organizar uma base de dados electrónica com esses dados e quiser tratá-los – por exemplo para remeter newsletters –, tem de obter o consentimento de cada pessoa singular. Não pode usar esses dados que recolheu para fins fiscais para quaisquer fins de outra natureza sem antes informar o titular dos dados, porque o regulamento estabelece um princípio de transparência que obriga a que o titular, quando chamado a prestar o consentimento, seja informado quanto aos fins para os quais os seus dados pessoais vão ser tratados.

Outro aspecto importante que o RGPD introduziu é o chamado direito ao esquecimento: antes do dia 25 de Maio de 2018, era prática comum de empresas como a Amazon e eBay manter e utilizar dados pessoais do cliente, mesmo que este fosse meramente ocasional, para fins publicitários. Esses dados são depois tratados por empresas externas que têm por objecto o tratamento de dados para fins publicitários. Antes do RGPD, os dados eram mantidos indefinidamente; agora os dados pessoais devem ser eliminados das bases de dados uma vez esgotados os fins a que o seu fornecimento se destinou. A isto chamam «direito ao esquecimento».

Penso que não é demais sublinhar que este regulamento é um esforço meritório de protecção dos cidadãos da União Europeia. O tratamento de dados – que não se cinge, de maneira nenhuma, aos fins aqui exemplificados – era objecto de práticas abusivas, como a aquisição de bases de dados com fins ilícitos. Penso que ainda temos na memória o facto recentemente revelado de o facebook ter cedido perfis de utilizadores a empresas de tratamento de dados com o objectivo de manipular eleitores – e este é apenas um numa multiplicidade de casos de uso abusivo de dados pessoais. Estas práticas continham em si o potencial de se tornarem formas sinistras de devassa e exposição da vida privada de cada um, o que era simplesmente imoral.

Andou muito bem a União Europeia ao fazer entrar em vigor este regulamento. Numa altura em que é lugar-comum culpar a União Europeia de todos os males com propósitos populistas e demagógicos, esta medida mostra como é fundamental que a Europa esteja unida. Quando menos, terá sempre esse mérito. Evidentemente, haverá formas mais ou menos astutas de tornear as proibições estabelecidas pelo RGPD – mas antes uma protecção insuficiente que nenhuma.

M. V. M.

Mais sobre protecção de dados (1)

Antes de mais, um pedido de desculpas aos leitores. Num texto anterior pretendi usar um argumento ad absurdum em que o golfista Severiano «Seve» Ballesteros usava um guarda-chuva em lugar de um taco de golfe. Severiano Ballesteros morreu em 2012, de uma morte particularmente cruel (cancro cerebral), após um longo período de doença e sofrimento. Não era minha intenção, de forma nenhuma, usar qualquer desprimor ou vilipendiar a sua memória. Longe disso. O seu nome ocorreu-me como podia ter ocorrido o de outro qualquer grande golfista, de Tiger Woods a Jack Nicklaus (eu não sou muito versado em golfe). Seja como for, incorri, ainda que involuntariamente, no mau gosto de utilizar uma pessoa falecida para fazer uma graçola. Não foi intencional.

Entrando agora na matéria que quero versar hoje, o último texto parece ter deixado algumas dúvidas. O seu tema tem muito pouco que ver com fotografia, mas é um que, pela sua importância, não deve ser sujeito a incertezas nem interpretações erróneas. Refiro-me, obviamente, ao Regulamento Geral de Protecção de Dados, que produz efeitos desde o dia 25 de Maio de 2018, após dois anos e quase um mês de vacatio legis. (Na legislação europeia distingue-se entre entrada em vigor e produção de efeitos, que podem não coincidir temporalmente.)

Há, em primeiro lugar, que definir o campo de aplicação do RGPD: este aplica-se a dados pessoais de pessoas singulares. Os dados de pessoas colectivas não são protegidos pelo regulamento. Quanto ao que se entende por «dados pessoais», estes são, segundo o regulamento, a «informação relativa a uma pessoa singular identificada ou identificável (…); é considerada identificável uma pessoa singular que possa ser identificada (…) por referência a (…) um nome, um número de identificação, dados de localização, identificadores por via electrónica ou a um ou mais elementos específicos da identidade física, fisiológica, genética, mental, económica, cultural ou social dessa pessoa singular.» Estes são apenas exemplos de identificadores, mas como se pode ver, os dados pessoais vão muito além do mero nome, morada, profissão e estado civil. O endereço IP, por exemplo, é um dado pessoal para os efeitos do RGPD.

Deve esclarecer-se que a protecção conferida pelo regulamento se aplica ao tratamento de dados pessoais por meios automatizados, bem como ao tratamento manual, se os dados pessoais estiverem contidos ou se forem destinados a um sistema de ficheiros; os ficheiros, ou os conjuntos de ficheiros que não estejam estruturados de acordo com critérios específicos, não são abrangidos pelo regulamento. Incluem-se aqui listagens simples, como por exemplo as listas de endereços de email que mantemos nas nossas contas de correio electrónico.

O princípio geral, nesta matéria, é o da necessidade do consentimento do titular dos dados para o seu tratamento. O leitor, tal como qualquer pessoa que alguma vez tenha subscrito uma newsletter ou se tenha inscrito num fórum, tem decerto recebido vários emails em que se refere uma actualização dos termos de utilização e da política de cookies de determinados websites nos últimos dias; pois bem, isto tem que ver com uma mudança de orientação – ou, se preferirmos, a uma regulamentação do que dantes era livre: antes do dia 25 de Maio de 2018, não era necessário que os operadores da Internet obtivessem o consentimento do utilizador para enviar cookies, remeter correio electrónico e muitos outros fins, como usar dados pessoais com vista a traçar perfis de consumidores para exibição de anúncios adequados às preferências dos utilizadores da Internet; agora esse consentimento é obrigatório. É esta a razão por que recebe estas mensagens, bem como avisos em certos websites: querem o seu consentimento para poder continuar a tratar os seus dados pessoais. (Continua)

M. V. M.

Protecção de dados (onde se fala de cookies e de um regulamento europeu com 173 considerandos)

Hoje, por via de algumas solicitações no sentido de esclarecer dúvidas a esse propósito, estive a estudar legislação europeia, mais concretamente o Regulamento (UE) 2016/679 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 27 de Abril. A legislação europeia é sempre importante, porque no caso dos regulamentos é directamente aplicável no território de cada Estado-membro, mas este regulamento em particular é especialmente importante: estabelece o regime da protecção de dados pessoais.

Eu não sei se a generalidade das pessoas tem noção da importância, magnitude e complexidade da tarefa legislativa que a União Europeia empreendeu. Este regulamento tornou-se necessário para legislar acerca do tratamento de dados pessoais, atenta a facilidade com que estes dados podem ser colhidos e utilizados com os meios disponíveis na Internet. Estamos diante de fenómenos como o profiling – a definição de perfis que faz com que recebamos publicidade de acordo com os nossos gostos e preferências –, os cookies (que estão, obviamente, relacionados com a questão anterior), mas também os dados de saúde e aqueles dos quais constam informações que podem colidir com direitos fundamentais das pessoas.

Em grande parte, este regulamento – que entra em vigor em todos os Estados-membros no dia 25 de Maio – constitui uma Magna Charta para os consumidores de produtos e serviços da Internet. Estabelece-se um princípio geral de consentimento informado quanto ao tratamento dos dados, definem-se os direitos do titular dos dados e os deveres dos responsáveis pelo tratamento dos dados e, sobretudo, consagra-se o direito ao esquecimento: os dados pessoais não podem, salvo consentimento do titular, ser tratados depois de terem cumprido a sua função útil. Se eu fizer uma compra na Amazon, os dados devem ser apagados quando deixem de ser necessários. Inverte-se a prática anterior, pela qual o titular tinha de solicitar a eliminação dos dados pessoais.

A organização e manutenção dos dados é de tal maneira complexa que exige a designação de um responsável por cada entidade que proceda ao tratamento de dados, e a regulamentação é tão complexa que me deixou a pensar que um complexo burocrático desta dimensão não pode ser aplicável na generalidade dos casos em que há lugar ao tratamento de dados pessoais, mas o âmbito de aplicação do regulamento estende-se a toda e qualquer base de dados pessoais, com ressalva das estritamente particulares (como as listas de endereços de e-mail que cada um de nós tem nas suas contas de correio electrónico).

Curiosamente, o estudo que fiz levou-me a fazer uma experiência para testar a política de cookies de um determinado website norte-americano. Estão lá todas as exigências de informação e transparência previstas no regulamento, porque este último vincula o tratamento de dados feito por entidades exteriores à União Europeia que operem no seu espaço económico, como é (evidentemente) o caso dos websites. Mais interessante foi ter descoberto uma forma efectiva de evitar a remessa de publicidade comportamental – aquela que invade as páginas que visitamos e cujo conteúdo é determinado de acordo com as nossas preferências, as quais são estabelecidas com base nas informações recolhidas por via de cookies e de dados pessoais fornecidos. O website a que me refiro, apesar da ironia de também utilizar cookies, poderá ser considerado útil pelo caro leitor, já que através dele é possível bloquear «fornecedores que trabalham com operadores de websites para recolher e utilizar informações para fornecer publicidade comportamental online». O site é o http://www.youronlinechoices.com/.

Não, não me agradeçam: eu depois envio-vos a conta.

M. V. M.