Protecção de dados (onde se fala de cookies e de um regulamento europeu com 173 considerandos)

Hoje, por via de algumas solicitações no sentido de esclarecer dúvidas a esse propósito, estive a estudar legislação europeia, mais concretamente o Regulamento (UE) 2016/679 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 27 de Abril. A legislação europeia é sempre importante, porque no caso dos regulamentos é directamente aplicável no território de cada Estado-membro, mas este regulamento em particular é especialmente importante: estabelece o regime da protecção de dados pessoais.

Eu não sei se a generalidade das pessoas tem noção da importância, magnitude e complexidade da tarefa legislativa que a União Europeia empreendeu. Este regulamento tornou-se necessário para legislar acerca do tratamento de dados pessoais, atenta a facilidade com que estes dados podem ser colhidos e utilizados com os meios disponíveis na Internet. Estamos diante de fenómenos como o profiling – a definição de perfis que faz com que recebamos publicidade de acordo com os nossos gostos e preferências –, os cookies (que estão, obviamente, relacionados com a questão anterior), mas também os dados de saúde e aqueles dos quais constam informações que podem colidir com direitos fundamentais das pessoas.

Em grande parte, este regulamento – que entra em vigor em todos os Estados-membros no dia 25 de Maio – constitui uma Magna Charta para os consumidores de produtos e serviços da Internet. Estabelece-se um princípio geral de consentimento informado quanto ao tratamento dos dados, definem-se os direitos do titular dos dados e os deveres dos responsáveis pelo tratamento dos dados e, sobretudo, consagra-se o direito ao esquecimento: os dados pessoais não podem, salvo consentimento do titular, ser tratados depois de terem cumprido a sua função útil. Se eu fizer uma compra na Amazon, os dados devem ser apagados quando deixem de ser necessários. Inverte-se a prática anterior, pela qual o titular tinha de solicitar a eliminação dos dados pessoais.

A organização e manutenção dos dados é de tal maneira complexa que exige a designação de um responsável por cada entidade que proceda ao tratamento de dados, e a regulamentação é tão complexa que me deixou a pensar que um complexo burocrático desta dimensão não pode ser aplicável na generalidade dos casos em que há lugar ao tratamento de dados pessoais, mas o âmbito de aplicação do regulamento estende-se a toda e qualquer base de dados pessoais, com ressalva das estritamente particulares (como as listas de endereços de e-mail que cada um de nós tem nas suas contas de correio electrónico).

Curiosamente, o estudo que fiz levou-me a fazer uma experiência para testar a política de cookies de um determinado website norte-americano. Estão lá todas as exigências de informação e transparência previstas no regulamento, porque este último vincula o tratamento de dados feito por entidades exteriores à União Europeia que operem no seu espaço económico, como é (evidentemente) o caso dos websites. Mais interessante foi ter descoberto uma forma efectiva de evitar a remessa de publicidade comportamental – aquela que invade as páginas que visitamos e cujo conteúdo é determinado de acordo com as nossas preferências, as quais são estabelecidas com base nas informações recolhidas por via de cookies e de dados pessoais fornecidos. O website a que me refiro, apesar da ironia de também utilizar cookies, poderá ser considerado útil pelo caro leitor, já que através dele é possível bloquear «fornecedores que trabalham com operadores de websites para recolher e utilizar informações para fornecer publicidade comportamental online». O site é o http://www.youronlinechoices.com/.

Não, não me agradeçam: eu depois envio-vos a conta.

M. V. M.

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FFS!

Deixam-me escrever de novo sobre nostalgia musical, se eu prometer um texto sobre fotografia logo a seguir? Sim? Então aqui vai: inicialmente não vai parecer que estou a escrever sobre o passado, mas acompanhem-me durante mais algum tempo e verão como chego lá.

O álbum mais interessante que saiu nos últimos quatro ou cinco anos foi um LP com o título FFS. Este acrónimo, como os que andam mais tempo na Internet sabem, refere-se a uma expressão corrente, usada quando alguém se exaspera perante algo muito obtuso ou disparatado. É equivalente à nossa «por amor de Deus», mas «For God’s Sake», ou «for Christ’s sake», foram substituídas, na gíria popular, por «for f*ck’s sake». Assim, «FFS» é a abreviatura de for f*ck’s sake. Certo?

Não. Errado. No contexto que nos interessa, «FFS» é a abreviatura de Franz Ferdinand and Sparks, que é, em simultâneo, nome da banda que originou da reunião de dois grupos e do álbum que este novo colectivo engendrou em 2015. Os Franz Ferdinand são uma banda escocesa que apareceu em 2004, e os Sparks são um duo composto pelos irmãos americanos Ron e Russell Mael, cujas actividades musicais remontam aos finais dos anos 60 do século passado (embora editando como Sparks desde 1972).

Vamos abreviar um pouco as coisas. O melhor álbum dos Sparks é Kimono My House, de 1974. O estilo deste álbum oscila entre o glam rock e o vaudeville. (A voz de contralto de Russell Mael é adequada a líricas sarcásticas.) Deste álbum, a canção mais notória – o que não significa, necessariamente, que seja a melhor – é This Town Ain’t Big Enough For Both of Us. Depois os Sparks dedicaram-se a outros estilos, do disco à new wave, e ainda estão activos, apesar de serem dois velhinhos de 73 (Ron) e 69 anos (Russell). Uma coisa é certa: apesar de relativamente desconhecidos – o que é, evidentemente, uma pena –, os Sparks são uma das bandas mais importantes de sempre. A influência que exerceram estende-se até aos New Order e, sem eles, os Associates nunca teriam existido (a voz de Billy Mackenzie era a de Russell Mael levada a extremos caricaturais). Nem, provavelmente, os Franz Ferdinand.

Não sei como aconteceu o encontro entre os Sparks e os Franz Ferdinand. O que sei é que os irmãos Mael influenciaram a música dos Franz Ferdinand – há nestes o mesmo tom sarcástico –, mas FFS não é uma homenagem dos Franz Ferdinand aos Sparks. É um supergrupo, mas ao contrário daquelas azeitadas dos anos 80, como Queen com David Bowie, é um super-supergrupo. No sentido em que a sua música é simplesmente portentosa.

Não foi por acaso que citei Kimono My House. Muitas das canções de FFS seguem o estilo deste álbum. Police Encounters, por exemplo, é algo que os Sparks poderiam ter incluído neste álbum se em 1974 tivessem os meios de produção e execução actuais, mas a contribuição dos Franz Ferdinand acrescenta outra camada de riqueza às composições. E não – não se trata de uma esmola, de um convite patético à participação discreta dos irmãos Mael numa ou outra faixa: FFS é um álbum de perfeita sinergia entre os Franz Ferdinand e os Sparks. Os Mael são tão participativos como os membros dos Franz Ferdinand. A voz de Russell Mael continua excelente e mordaz, Ron Mael não esqueceu como se toca piano e se programa um sintetizador.

FFS é puro génio. É o álbum mais brilhante, divertido e excitante que foi lançado na última meia dúzia de anos. O meu único lamento é tê-lo descoberto quase três anos depois de ter sido lançado. É uma marca que fica na música desta década.

E dizem eles que as colaborações não funcionam. FFS!

M. V. M.

Nostalgia

mainRobertaFlack
Roberta Flack

Por vezes sou acometido de acessos de nostalgia, o que me pode deixar imerso em estados de espírito que são, ao mesmo tempo, doces e dolorosos. Doces pelo prazer que evoco, dolorosos por esse prazer ter passado e nunca mais se repetir.

Há canções que me vêm à memória espontaneamente, vindas do fundo da minha infância. Pensava que, pela evolução dos meus gostos, estas canções tinham ficado para trás, irremediavelmente soterradas na poeira dos anos, mas sobreviveram. Com todos os seus defeitos e virtudes, elas voltam ciclicamente para me lembrar que tive um passado e que deixaram uma marca indelével ao passar por esses tempos da minha meninice. Estão gravadas em mim como protestos de amor nos troncos das árvores do parque. Claro que há muitas canções desse tempo que gostaria de nunca ter ouvido – como, por exemplo, todas as do falecido Demis Roussos -, mas outras vão permanecer na memória até ao fim dos meus dias.

Uma dessas canções é Une Belle Histoire, de Michel Fugain. Apesar de existirem inúmeras canções interessantes no estilo a que se convencionou chamar chanson française, nunca consegui sentir uma verdadeira empatia por Leo Ferré, Gilbert Bécaud ou Georges Brassens (entre outros). Deste período de ouro da chanson apenas retenho Je T’Aime (Moi Non Plus), de Serge Gainsbourg – em 1993, Barry Adamson lançou uma interpretação excelente no seu EP The Negro Inside Me, a qual recomendo vivamente – e Une Belle Histoire. As canções francesas desta era são irremediavelmente datadas, com exageros interpretativos e um excesso de ornamentação orquestral que me distrai e me faz repudiá-las. Os poemas, à custa de quererem parecer inteligentes, são intragáveis, e as vozes e instrumentações dão às canções um ambiente de festival da canção que simplesmente não me interessa.

Mas Une Belle Histoire tem uma melodia irresistível, que me persegue e assombra as minhas recordações. Se, ao menos, houvesse hoje uma versão menos festivaleira – imaginem o que seria se os Air fizessem uma versão! -, esta canção sairia do poço das memórias e ganharia uma nova vida.

Foi exactamente isto que aconteceu com outra canção que me vem periodicamente assombrar. Em 1996, os detestáveis Fugees roubaram ao esquecimento uma canção de 1973 (tinha o M. V. M. 9 anos de idade) intitulada Killing Me Softly With His Song, cantada originalmente por Roberta Flack. Com uma diferença importante em relação à hipotética e inexistente versão contemporânea de Une Belle Histoire: apesar da excelente voz de Lauryn Hill, a versão de Roberta Flack (uma cantora descoberta pelo fabuloso Les McCann) é infinitamente melhor que a versão dos Fugees. Aliás, o que estes fizeram não foi mais que mutilar Killing Me Softly With His Song.

Hoje dei por mim a escutar a versão de Roberta Flack no YouTube. Dizer que me soube bem não chega para exprimir o que senti. Para minha surpresa, foi a muito custo que evitei chorar como uma Maria Madalena. Tal o poder desta canção. Seria bom ouvi-la com arranjos mais actuais, mas está muito bem como está. Pelo menos não está muito datada. Roberta Flack é uma grande voz da Soul americana. Não vou dizer que é injustamente ignorada, porque ela mesmo se encarregou de destruir a sua reputação nos anos 80, ao cantar duetos foleiros com um tal Peabo Bryson, mas merece ser lembrada por esta canção excepcional – mesmo que Killing Me Softly With His Song tenha sido um mega-êxito no seu tempo.

Chega de confissões embaraçosas. Amanhã vou escrever sobre fotografia outra vez. Se não estiver demasiado deprimido por causa de alguma canção de 1973, claro.

M. V. M.

Fora do tema: onde o autor, ateu confesso, fala de música antiga e de experiências espirituais

Josquin des Prez

Hoje era para escrever qualquer coisa sobre os desenvolvimentos que o caso da selfie do macaco Naruto conheceu esta semana – o título era para ser A macacada não tem fim –, mas a vontade passou-me. Fica para outro dia, se me apetecer voltar ao assunto. A razão por que a vontade de escrever sobre o processo PETA vs. Slater se evaporou é muito simples: quando ia a escrever, comecei a ouvir uma composição musical que fez com que tudo o resto me parecesse mesquinho e insignificante.

Há cerca de dois meses, a minha curiosidade levou-me a interessar-me por um compositor que viveu nos Séculos XV e XVI, um francês conhecido por Josquin des Prez, embora na realidade se chamasse Joseph van de Velde. Eu não sou um enorme apreciador de música antiga: o mais remoto entre os meus compositores preferidos era, até hoje, Johann Sebastian Bach (1685-1750), e os meus gostos estão maioritariamente no período romântico. Simplesmente, quando tínhamos uma boa rádio – a XFM –, habituei-me a ouvir um programa de música antiga que passava aos sábados, ao início da tarde. Familiarizei-me com Monteverdi e Palestrina e, embora não possa, de forma alguma, dizer que a música dessa época determinou o meu gosto, não deixei de notar a enorme beleza e espiritualidade de muitas das missas, motetos e madrigais que ouvia naquela estação de vida tão curta.

Depois – penso que através da Antena 2 – entrou-me na mente este nome Josquin des Prez (também há quem escreva «Josquin Desprez»). Falavam deste compositor com tal reverência que me fizeram adquirir a noção de que des Prez foi um dos compositores mais importantes da sua época, ou talvez o mais importante. Mesmo nessa altura, porém, não lhe dei o valor devido: todas as composições vocais dessa época me pareciam, não direi idênticas, mas como se viessem todas do mesmo compositor. Por ignorância, não lhes distinguia um estilo, uma marca pessoal. Só mais tarde – já este ano – me resolvi a ouvir Josquin des Prez com atenção.

O resultado das minhas audições não podia ter-me surpreendido mais. A despeito de tudo o que disse acerca da música antiga – o que permanece verdadeiro, malgré tout –, ouvir o moteto Miserere Mei Deus elevou-me aos céus. Mesmo se não sou religioso, ouvir Josquin des Prez foi (é) uma experiência espiritual sem paralelo. Para evocar sensações idênticas, apenas consigo mencionar o Kyrie Eleison do Requiem de Mozart ou o clímax do Adagio da 9.ª de Bruckner. O que sinto, depois de ouvir estas criações supremas que me devolvem o orgulho de pertencer à espécie humana, é uma enorme e perturbadora – no sentido em que me faz despontar uma espiritualidade que ainda estranho – paz interior; uma sensação de serenidade, de calma, de conciliação comigo e com o mundo (por vezes, como todos os perfeccionistas, recrimino-me por ser apenas humano!).

A música de des Prez é exclusivamente vocal, o que desde logo tem uma vantagem enorme em relação à música instrumental da época: o basso continuo, que não aprecio nem um bocadinho, torna-se tolerável por ser executado pela voz, e não por um instrumento medieval de som obsoleto e desagradável. E é uma música que se baseia fortemente no cânone e no contraponto. Mais no cânone: esta forma de sobrepor frases musicais tem uma beleza que não se pode explicar: só ouvindo. Claro que, para ouvir Josquin des Prez, temos de despir muitos preconceitos musicais – alguém como eu poderia facilmente considerar a música de des Prez aborrecida – e predispor-nos a ouvir estas obras tais como elas são: devotadas a Deus – a um Deus em que não acredito – e compostas para criar sensações de elevação espiritual, de recato, de meditação e encontro com o espírito. São composições que, na sua maioria, se inspiram em Salmos e outros escritos sagrados, e eu tive de me imergir em tudo isto para apreciar devidamente Josquin des Prez e encontrar um espaço muito especial para a sua música – mas valeu a pena.

Se cada época é marcada por um compositor, des Prez é o mais importante do seu tempo. Mais, no meu entender, que Palestrina: des Prez é simplesmente mais profundo, mais preocupado com o conteúdo que com a forma. Mas ouvir des Prez é, sobretudo, o que já referi: uma experiência espiritual única.

M. V. M.

Alternativas (fora do tema)

O meu computador portátil é, pelos padrões actuais, uma sucata. Demora uma eternidade a arrancar e tudo o que se relacione com gráficos e envolva aplicações como o Java e o Adobe Reader é altamente problemático. Comprei o portátil em 2012, ano em que o computador anterior avariou sem possibilidade de reparação. O portátil actual funcionou muito bem até há cerca de dois anos, mas agora não adianta quantas limpezas e desfragmentações faça: está lento. Tenho a impressão que há alguns vírus a atrasar o seu funcionamento, mas se há, devem ser invisíveis aos anti-vírus: sempre que corro estes últimos, eles concluem, invariavelmente, pela inexistência de vírus.

Navegar na Internet era, até ontem (mais tarde explicarei a razão desta data), um pesadelo. As páginas demoravam uma eternidade a abrir, como se tivesse uma ligação dial-up dos anos 90. Abrir o correio electrónico levava-me ao desespero e induzia-me vontade de atirar o bendito do computador pela varanda abaixo.

Outro problema que tinha era com a utilização do Word. Como os leitores sabem, uma parte não despicienda das minhas actividades consiste na prática de actos típicos da advocacia, e esta implica a utilização do Citius (que, finalmente, abrange também os processos criminais). Ora, para enviar os meus requerimentos, petições e defesas para os tribunais, eu necessito de convertê-los para o formato .pdf. Por qualquer motivo, a versão do Word que utilizo não inclui um conversor para este formato, o que me obrigou a usar conversores externos durante algum tempo (o melhor deles parece ser o Nitro), mas os conversores gratuitos funcionam via cloud e são limitados – há um que apenas permite a conversão de uma página de um documento – e, quanto aos demais, são onerosos e apenas permitem a descarga gratuita de versões de avaliação que expiram ao fim de algum tempo. Isto é um problema sério para mim.

Voltando à questão do navegador, eu tenho vindo a usar o Mozilla Firefox. Quando o instalei, e até há alguns meses, era leve, rápido e funcional. Comparado com ele, o Internet Explorer tinha a velocidade de uma tartaruga afectada por artrite reumatóide tentando subir um penedo a pique. Contudo, ultimamente o Firefox tornou-se lento. Pensei que era por utilizar o AdBlock, mas não: depois de o desinstalar, tornou-se ainda mais lento. O Firefox está mais lento que o Internet Explorer, o que é uma verdadeira proeza!

Aliando isto à lentidão do próprio computador, decidi que era melhor procurar um browser mais leve e rápido. Encontrei o Opera e estou a usá-lo desde ontem. Não é impossível que os cookies e demais tralha que se recolhe quando se navega na Internet venham a torná-lo lento, mas para já estou satisfeito: o Opera devolveu-me a rapidez do Firefox dos primeiros tempos e tem o bónus de ser simples e funcional.

O Opera não é open source, mas é gratuito para os utilizadores do Windows. A minha verdadeira aventura com o open source veio com o uso do Open Office Writer da Apache. Já o havia experimentado há cerca de dez anos, mas nessa altura era de tal maneira rudimentar que não valia a pena abandonar o Word da Microsoft. Ora, num momento raro de pensamento lateral, percebi que, em lugar de usar um conversor para .pdf, mais me valia averiguar a existência de um programa de texto com conversor .pdf incluído. Bingo! O Open Office Writer deixa-me converter os textos para .pdf. Gratuitamente, sem complicações, não implicando nada mais que clicar um botão na barra de tarefas. Apesar de o Writer não ter muitas das funcionalidades do Microsoft Word, é um programa de texto gratuito que funciona correctamente e faz o essencial muito bem (com o bónus de ter uma função muito prática de escrita inteligente, como os smartphones).

Como vêem, há vida para além da Microsoft e da Apple. Ainda não me sinto pronto para dar o salto definitivo que tornaria o meu computador muito mais rápido, a despeito da sua idade – esse salto consistiria na adopção do sistema operativo Linux –, mas já sei que, no dia em que mudar de computador, não terei de me preocupar com o facto de o Microsoft Office não estar incluído e ser agora um serviço apenas acessível na cloud mediante pagamento de uma anuidade.

M. V. M.

As minhas depressões

Ainda estou sob o efeito de um acontecimento traumático: na Quinta-feira à noite, não sei porquê, deu-me na telha ouvir um dos álbuns de Jazz mais reputados de sempre. Esse álbum é Jazz At Massey Hall, gravação ao vivo de um concerto em Toronto, no ano de 1953, do quinteto formado por Charlie Parker (saxofone alto), Dizzy Gillespie (trompete), Bud Powell (piano), Charles Mingus (contrabaixo) e Max Roach (bateria). A audição começou bem: com Perdido, confirmei tudo o que sabia sobre Parker, Gillespie, Mingus e Max Roach. Todos músicos abençoados pela genialidade. Contudo, foi a primeira vez que ouvi Bud Powell: é visível que a inspiração de Thelonious Monk veio deste pianista – embora Powell seja tecnicamente menos limitado.

Seguiu-se Salt Peanuts. Um refrão foleirito, mas audível – pelo menos até ao momento em que Dizzy Gillespie começa a emitir uns sons absurdos, tentando cantar as palavras «salt peanuts». Faltam-me palavras para descrever o que me passou pela mente ao ouvir aquilo. Imaginem que estão prestes a atingir o clímax e o vosso parceiro ou parceira decide fazer uma imitação do Nicolau Breyner (ou da Ivone Silva): foi essa a sensação que me perpassou. O meu interesse por Jazz At Massey Hall murchou imediatamente e parei de ouvir o álbum. Cada um daqueles músicos foi um génio – mas ainda bem que o concerto de Toronto foi a primeira e única ocasião em que este quinteto se juntou.

Não se aflijam, porque este texto não é completamente fora do tema. Apeteceu-me mencionar isto para justificar o estado de espírito que me assolou e, sobretudo, porque entendo ser dever de cada um preservar a higiene mental do seu semelhante. E esta é a minha contribuição para a saúde pública. Eis-vos avisados: não ouçam Jazz At Massey Hall.

O resultado desta audição – oh, como eu gostava de poder esquecer aquelas palavras cantadas tão idioticamente por John Birks Gillespie! – foi fazer-me entrar em depressão profunda. Passei o dia de ontem deitado, com duas bolas de silicone obstruindo-me os ouvidos e evitando ver fosse o que fosse que me lembrasse Toronto, o ano de 1953, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Charles Mingus ou Max Roach. Comer amendoins salgados estava, evidentemente, fora de qualquer cogitação.

Hoje já não tenho a audição de Salt Peanuts presente na minha memória, mas os efeitos da depressão continuaram a manifestar-se. Andei todo o dia triste e soturno. De tarde, fiz fotografias tristes e soturnas e, quando levei o rolo para revelar e digitalizar, vi caixas de Agfa Vista 200 e 400 à venda na loja. Senti uma comoção profunda e não resisti: de olhos mareados de lágrimas, resolvi fazer um interregno na fotografia pancromática e prestar a minha última homenagem ao defunto Agfa Vista 200. Agora resta-me esperar que a depressão induzida pelo Dizzy Gillespie desvaneça, porque a vida é a cores e a vida não deve ser deprimente.

(Nota: este texto é satírico. É verdade que ouvi Jazz At Massey Hall e que comprei um rolo Agfa Vista, mas estava apenas a brincar quando disse que as palavras «salt peanuts» zurradas por Dizzy Gillespie me fizeram entrar em depressão. Não fizeram: apenas me fizeram deplorar o ridículo e sentir-me embaraçado. O conselho de não ouvirem aquele disparate é sério. Não ouçam. Pode levar-vos a nunca mais respeitar aqueles monstros do Be-bop, ou mesmo a nunca mais ouvir Jazz, o que seria lamentável.)

(P. S.: também nunca tive nenhuma parceira que se pusesse a imitar o Nicolau Breyner em momentos íntimos.)

M. V. M.

Fulo da vida

Na madrugada do dia em que escrevo aconteceu a entrega dos Óscares. Esta atribuição de prémios tem a peculiaridade de nada nos dizer sobre a qualidade dos filmes premiados (eu sinto vontade de empalar com um ferro em brasa as pessoas que usam a expressão «oscarizados»), embora possam existir coincidências. Os Óscares tornaram-se-me completamente irrelevantes em 2015, ano em que Boyhood, apesar das várias nomeações, apenas ganhou um Óscar sem importância – o de melhor actriz secundária (embora a Patricia Arquette o tivesse merecido).

Eu gosto de cinema. É o primo rico da fotografia. Não gosto ao ponto de fazer directas na noite dos Óscares, mas fui um habitué do Fantasporto desde o primeiro ano. Contudo, este ano os Óscares conquistaram a minha curiosidade pela mais invulgar das razões: uma das nomeações, a de melhor canção, foi para uma canção que integra a banda sonora de Chama-me Pelo Teu Nome: a canção é Mystery Of Love, do grande Sufjan Stevens.

Eu não ouvia uma canção como esta desde que comprei, há muitas luas, Out Of Season, álbum maravilhoso de Beth Gibbons e Rustin Man. Mysteries e Show estão entre as melhores e mais belas canções que conheço. Entre 2005 (ano em que comprei Out Of Season) e o mês passado, nenhuma canção me impressionou como Mystery Of Love, de Sufjan Stevens. É bela, envolvente – é daquelas canções em que nos deixamos imergir completamente e nos faz abandonar as resistências e ceder à emoção –, mas, apesar destas qualidades, conserva a sua rebeldia indie nas quatro notas instrumentais que se seguem ao refrão. Refiro estas notas porque, do meu ponto de vista, é nelas que reside a originalidade da canção. Sem elas, seria bonita – mas são elas que induzem os arrepios na espinha, ao mesmo tempo que ancoram a canção firmemente no mundo do bom rock alternativo, entendendo-se como tal tudo o que poderia ser passado na rádio por John Peel e António Sérgio.

Sufjan Stevens é um artífice de grandes canções. Tudo começou com o absolutamente brilhante Chicago (2005), mas Mystery Of Love é uma epifania de beleza e perfeição. Vê-la nomeada para o Óscar ajudou-me a esquecer a indiferença cínica que nutro pela Academia e pelos Óscares. Não fiz directa, mas hoje a primeira coisa que fiz foi saber quem foram os vencedores.

Fiquei doente, fulo da vida, furibundo, piurso: Mystery Of Love não ganhou o Óscar. Este ano o júri da Academia decidiu tomar uma posição política e, além de atribuir o Óscar mais importante a um filme de um realizador mexicano (o filme é A Forma da Água e o realizador Guillermo del Toro), premiou com o Óscar para a melhor canção uma cançoneta de um filme de animação sobre um rapazinho mexicano, cantada em inglês e castelhano. Uma cançoneta medíocre e vulgar, mas serviu para mais uma pequena e inócua provocação ao presidente e ao seu muro.

As atitudes políticas da Academia cheiram-me sempre a hipocrisia. É como se estivessem a cavalgar a onda de impopularidade que afecta o grotesco Donald Trump para tentar limpar a imagem da Academia e de Hollywood. Não era necessário: eu não acredito que Sufjan Stevens seja um apoiante de Donald Trump. (Hoje em dia, depois de tudo o que aconteceu entretanto, só alguém completamente doente da cabeça o é.) Não premiaram a melhor canção, mas aquela que faz a Academia parecer mais simpática aos olhos do público mundial. Como se todos fôssemos ingénuos e desconhecêssemos a contribuição – nada inocente – da indústria cinematográfica para a hegemonia americana e para o estado actual do mundo (não me apetece desenvolver este assunto).

Pensando bem, não tenho razões para estar zangado com a Academia e os Óscares. Teria sido muito pior se Sufjan Stevens tivesse sido premiado. Se tivesse sido assim, a sua integridade artística teria ficado beliscada.

M. V. M.