Back in Black (and White)

De volta ao tema deste blogue para dizer, como Arnold Schwarzenegger, I’m back. E, parafraseando os AC/DC, Back in Black – ou melhor, in black and white. Agora que recebi as digitalizações das fotografias que fiz com o Ilford Pan 400, já tenho alguma coisa a dizer.

Antes de me referir às características desta película, porém, algumas considerações sobre este regresso ao preto-e-branco. Voltar às películas pancromáticas depois de um ano a fotografar a cores foi como voltar a casa depois de uma longa estada num país estrangeiro. Um país agradável, mas que não é a terra à qual pertenço. Vejo que a minha estética se adequa muito mais ao preto-e-branco do que à cor. Eu não sou um fotógrafo de renome nem para lá caminho, mas se o fosse seria mais da escola de Ray K. Metzker que da de Harry Gruyaert.

Curiosamente, ao comparar duas fotografias do mesmo local – uma a cores e a outra a preto-e-branco –, senti que, embora a fotografia a preto-e-branco fosse mais coerente (em termos puramente gráficos), lhe faltava qualquer coisa que a fotografia a cores tinha em abundância: a primeira parecia recessa, sem vivacidade, sem snap. Talvez seja apenas uma questão de hábito – mas lá que a fotografia a cores me pareceu mais vívida e vibrante, pareceu.

Felizmente não tenho de fazer opções definitivas. Se me apetecer, o próximo rolo pode ser a cores. A experiência não foi de todo de rejeitar. Se tivesse de fazer uma escolha tão drástica, porém, creio que optaria pelo preto-e-branco. Com ele as linhas e os volumes ganham maior importância e eu preciso desse contexto gráfico.

Dito isto, a película que usei neste meu regresso ao preto-e-branco é um bastardo da Ilford. É uma película que é feita para mercados específicos – está para a Ilford como o C-Elysée para a Citroën –, mas, tal como aqui em Portugal acabamos a comprar carros como este último e o Fiat Tipo, também aqui o Ilford Pan 400 é uma alternativa barata ao luxuriante HP5.

O Pan 400 é, ao que me parece, um Kentmere 400 rebaptizado. Não tenho muita certeza quanto a isto – é lógico, pois a Kentmere e a Ilford pertencem ambas à Harman Technology –, porque o Pan 400 parece-me ter características de resolução que o aproximam seriamente do HP5. Não sei onde a Ilford conseguiu cortar quase 2 euros ao valor do HP5 se assim for, mas o que é certo é que as fotografias que recebi se assemelham em muito às que havia feito anteriormente com o HP5. Há um menor requinte na apresentação: neste particular, o Pan 400 lembra-me mais o Fomapan 200 ou o já referido Kentmere 400, embora com um recorte mais pronunciado dos objectos. (Mas as altas luzes são tipicamente Ilford.) O grão é interessante e expressivo, o que é uma vantagem sobre o HP5, cujo grão faz com que as pessoas pareçam acometidas de varicela.

Mais do que maçar o leitor com elementos técnicos (quanto aos quais, de resto, não tenho habilitações para me pronunciar), importa responder a uma questão importante: é bom negócio poupar cerca de um euro e meio e preterir o HP5 em favor do Pan 400?

A resposta é: sim. Esta película dá uma resolução semelhante e, embora a qualidade de imagem pareça inferior, não se perde realmente muito. A Ilford faz muito bem em oferecer esta película: as suas películas perdiam posição de mercado para rolos como os Fomapan e Agfa APX e o nome Ilford vende mais que o Kentmere. A despeito de já não existir o sufoco económico de há apenas dois anos, gastar um-euro-e-meio para adquirir uma película que é pouco melhor que a sua equivalente mais barata faz pouco sentido.

M. V. M.

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Um pouco de desporto

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Eu sei que não devia. Os textos do Número f/ andam escassos, e ainda por cima desperdiço largura de banda com prosa que nada tem que ver com fotografia, mas vou fazê-lo porque sim. Porque me apetece escrever sobre o que se vai seguir. É bom ser o dono do blogue e não ter de cumprir ordens.

O texto de hoje é sobre desporto. Não, não é sobre futebol, apesar de esta palavra ser sinónima de «desporto» na língua portuguesa. A minha relação com o futebol é muito simples: quando eu era criança, o meu pai tentou fomentar o meu gosto pelo jogo da bola e levou-me por diversas vezes ao estádio em dia de jogos. A atenção que procurava dedicar ao jogo, para tentar entender a lógica do futebol, era desviada para as bancadas, onde adeptos completamente embriagados insultavam e comprometiam a boa reputação do árbitro. Nunca vi qual o apelo de um desporto cujo principal interesse era injuriar o árbitro, pelo que a minha paixão pela rapaqueca morreu antes de ter nascido. Acordou morta, por assim dizer.

Claro que, como sempre gostei de automóveis, nutro um interesse considerável pela Fórmula 1 e pelos ralis, mas infelizmente os adeptos da Fórmula 1 são agora, graças à popularidade de pilotos tão objeccionáveis como Ayrton Senna e Fernando Alonso, de um nível quase tão rasteiro como o dos bêbados que insultam o árbitro nos estádios, o que diminuiu substancialmente a minha vontade de atrasar o almoço de Domingo para ver um grande prémio. (Quanto aos ralis, não vejo nada de interessante em provas nas quais correm carrinhos utilitários como o Ford Fiesta e o Hyundai i20.)

Quando finalmente me resolvi a subscrever um serviço de TV por cabo, as minhas sessões de zapping levaram-me muitas vezes aos torneios de bilhar Snooker que o Eurosport transmite. Há cerca de vinte anos, um amigo um pouco mais velho do que eu inculcou-me o gosto pelo bilhar, mas o bilhar que jogávamos era o mais comum, a que erroneamente chamamos «snooker» mas é, na verdade, o 8-Ball. O Snooker propriamente dito joga-se numa mesa gigantesca, com quinze bolas vermelhas, seis de outras cores – amarela, castanha, verde, azul, rosa e preta – e uma branca. As regras podem ser consultadas aqui.

Só o xadrez é mais cerebral que o Snooker. Além da perícia no controlo da bola branca que lhe é exigida, o jogador tem de definir mentalmente todas as jogadas e antecipar-se às do adversário, tal como o faria num jogo de xadrez. Eu nunca seria um bom jogador de Snooker, porque é um jogo que, quando carece de ser defensivo – e é-o muito frequentemente –, exige enorme paciência, calma e cabeça fria. Além destes requisitos, as regras do Snooker impõem fair play e gentlemanship. Claro que há problemas: o Snooker tornou-se num espectáculo global que envolve muito dinheiro e já houve jogadores suspensos por jogarem deliberadamente para favorecer esquemas de apostas fraudulentas, e houve mesmo um jogador, um dos melhores de sempre, que esteve suspenso só por ter tomado conhecimento de um esquema de fraude e não o ter denunciado, mas nada disto impede que o Snooker seja um desporto espectacular. Evidentemente, a «espectacularidade» depende da predisposição do espectador para ver jogadas demoradas que, por vezes, se resumem a encostar a bola branca numa outra, causando dificuldades ao adversário, mas «snooker» é o nome de uma jogada pela qual o jogador deixa a bola que vai ser jogada pelo adversário fora do alcance da branca «escondendo» esta última.

De que gosto no Snooker? Este jogo é inteligência em acção. Os jogadores desenvolvem rapidez de raciocínio e conhecimentos intuitivos de física e matemática: eles têm de calcular ângulos, forças, velocidades, trajectórias. E têm de ser matreiros, porque o Snooker não é só ensacar bolas: é também fazer snookers – esconder a bola branca de maneira a dificultar as jogadas do adversário. (Curiosamente, o Snooker parece ser um desporto que não requer grande preparação física: alguns jogadores estão para além do limiar da obesidade.)

Há um certo consenso em que o melhor jogador de sempre é Ronnie O’Sullivan, mas há muitas outras predilecções à escolha, dependendo dos gostos de cada um. Se o leitor gosta de um jogador exuberante, nunca poderá apreciar outro que não seja Ronnie «The Rocket» O’Sullivan. Os mais cerebrais apreciarão John Higgins e Mark Selby, e há ainda outros jogadores que, por diferentes razões, encontrarão o seu lugar no coraçãozinho dos adeptos e adeptas: Judd Trump, Mark Williams, Neil Robertson, Luca Brecel, Jack Lisowski e uma hoste de excelentes jogadores chineses de nomes impossíveis de memorizar (lembrei-me de um: Yan Bingtao!), mas o verdadeiro apreciador de bilhar Snooker nunca esquecerá a lenda chamada Stephen Hendry: ver o jovem Hendry jogar era – ele deixou a modalidade em 2012 – de fazer cair o queixo. Que espectáculo extraordinário é, ainda hoje – há inúmeros vídeos no Youtube –, ver o olhar carregado de pura inteligência de Stephen Hendry, e ver aquela velocidade de raciocínio e perfeição na execução. Decerto, a sua juventude e elegância contribuíram em muito para a construção da lenda, mas não tenho dúvidas que Hendry foi o melhor e mais completo de sempre, a despeito da enormíssima qualidade de Ronnie O’Sullivan. Tenho pena que o meu interesse pelo Snooker só tenha nascido numa altura em que Hendry já se reformara.

M. V. M.

Quando é que uma fotografia é uma fotografia?

Um texto publicado recentemente no The Online Photographer levantava uma questão extremamente interessante: as fotografias existem antes de serem impressas, ampliadas, digitalizadas ou publicadas? O artigo referia-se a um debate estafado, que é o de saber se uma imagem pode ser considerada uma «fotografia» quando apenas existe enquanto ficheiro de imagem; apesar de o aspecto jurídico não ter sido aquele que o autor teve em mente, não deixa de ser interessante mencioná-lo – especialmente se compararmos as respostas dos sistemas do direito de autor e do copyright.

Na Europa continental não é necessário que uma obra seja fixada para que seja protegida pelo direito de autor. Tudo o que é preciso é que a obra seja exteriorizada – que seja discernível por qualquer forma. Portanto, o momento em que a fotografia é criada – aquele que determina a protecção legal – é quando o fotógrafo pressiona o botão do obturador. É este o momento em que a fotografia deixa de ser uma ideia na mente do fotógrafo e se exterioriza. Por esta razão, a fotografia existe mesmo sob a forma de ficheiro digital (o mesmo quanto ao negativo).

Esta não é uma questão ociosa. Pode ser necessário provar a originalidade de uma fotografia, caso em que os metadados podem ser usados ​​como prova. O mesmo quanto à prova da autoria da obra fotográfica, que pode ser feita com recurso ao ficheiro digital ou ao negativo.

Não é assim que as coisas se passam nos sistemas que adoptam o copyright. Nestes é a cópia que é protegida pelo direito de autor. A fotografia não é protegida se não for reproduzida por meio da sua fixação, seja em papel ou em qualquer outro meio que a traga para o mundo dos objectos. De acordo com o US Copyright Act, a obra é criada quando é fixada numa cópia pela primeira vez. Claro que, como os Estados Unidos assinaram a Convenção de Berna, os seus tribunais podem decidir que o momento da criação é aquele em que é pressionado o botão do obturador. Não sei se já existe alguma jurisprudência a este respeito. Sei que o US Copyright Office, que é o organismo com competência para o registo de obras protegidas, aceita o registo de ficheiros digitais, mas não sei se o faz enquanto obra protegida ou a que outro título (mas vou informar-me!).

Por Bruce Gilden

Isto quanto ao aspecto legal da questão e quanto às fotografias que ainda não abandonaram o conforto placentário do cartão de memória, mas a questão de saber quando uma fotografia é uma fotografia não se esgota nisto. Uma vez que tenho 54 anos e uma gaveta enorme cheia de recordações sob a forma de fotografias impressas, resisti durante muito tempo à ideia de que um ficheiro digital de imagem é uma fotografia real, mas acabei por me conformar com a noção de que aquilo que vemos no ecrã do computador é uma fotografia. O que vemos no ecrã é mesmo uma fotografia. Eu já desisti de imprimir ou ampliar as minhas fotografias, mesmo as que eu considero mais conseguidas. Não sou um fotógrafo famoso e provavelmente as minhas fotografias nunca serão expostas: por que havia de me dar a essa maçada (e despesa)?

Não tenho nenhum problema com as fotografias virtuais. Claro que é sempre mais interessante ver os retratos de Bruce Gilden numa exposição, devidamente impressos em papel de qualidade, do que vê-los no computador (e muito menos num smartphone). A experiência de ver aqueles rostos numa exposição, em formatos grandes, é simplesmente inimitável. Mas – e se alguém nunca tiver a oportunidade de ver esses retratos numa exposição? É bem melhor vê-los num computador do que nunca vê-los. Estes são os tempos em que vivemos; muita coisa pode ter ficado perdida, mas seria estúpido não aproveitar as comodidades e o acesso à informação que o computador põe ao nosso alcance.

M. V. M.

Uma questão de verticalidade

Não sei se o leitor já se apercebeu, mas a maneira como as pessoas vêem fotografias está a mudar. A fotografia móvel, além de transformar o que já era banal numa orgia nauseabunda de excesso e sobredosagem, está a ameaçar mudar a percepção comum quanto à orientação da fotografia. Tal como está a acontecer com o vídeo, em que se aceita a orientação vertical como uma espécie de maneira alternativa de gravar e ver vídeos (enquanto não se torna no novo padrão), as fotografias tendem a ser todas na vertical.

Eu não tenho nada contra a orientação vertical das fotografias. Tenho contra os vídeos verticais, sobretudo por estes tornarem a percepção da dinâmica da imagem demasiado confusa. É como se estivéssemos a ver a acção através de uma frincha estreita: não nos apercebemos facilmente do que se está realmente a passar (e a perspectiva de grande-angular dos telemóveis também não ajuda em nada). Nós não vemos na vertical, a menos que usemos antolhos: a nossa visão é horizontal e panorâmica, o que faz com que estes vídeos sejam extremamente desconfortáveis de ver. Pelo menos para mim.

Quanto à fotografia, porém, eu usei sempre a orientação vertical – embora menos frequentemente que a horizontal. Não contem comigo para rotular a orientação vertical como «retrato» e a horizontal como «paisagem»: eu uso a orientação que me parece adequada em função da composição e do enquadramento. Não há regras. Se quero descrever um motivo em altura (como na fotografia que ilustra o texto, na qual figura um rapaz que media seguramente mais de 2 metros e 10), ou se as linhas da composição resultam melhor se usar a orientação vertical, eu uso-a. Simplesmente, as pessoas que fotografam com os seus smartphones não usam a orientação vertical com estas intenções: usam-na porque sim, porque é assim que toda a gente faz e porque o telemóvel se usa na vertical. Podíamos pensar que era pelo conforto de segurar o telemóvel só com uma mão, o que tornaria este vício perdoável, mas não – estas pessoas seguram o telemóvel na vertical com as duas mãos quando fotografam.

O que escrevi quanto ao vídeo aplica-se à fotografia, embora com excepções. Como vemos na horizontal, a orientação vertical é desaconselhada, a menos que algo a justifique. Pode ser por se querer favorecer a dimensão da altura ou por outra razão qualquer, mas fotografar sistematicamente (ou exclusivamente) na vertical é um disparate, especialmente se a razão para fazê-lo é o facto de o telemóvel ser segurado e visualizado na orientação vertical. Isto é tão estúpido como tirar fotografias exclusivamente na horizontal por as câmaras fotográficas clássicas serem concebidas para fotografar mais frequentemente no plano horizontal.

Alguns poderão criticar-me por estar a postular um dogma fotográfico, mas não é nada disso que estou a fazer. Já disse que uso frequentemente a orientação vertical nas minhas fotografias e que não há regras; o que me preocupa é que a fotografia – e também o vídeo – esteja a assumir a orientação vertical como o novo padrão, especialmente pelo motivo frívolo da influência do telemóvel. Dantes ainda se via pessoas a segurar o telemóvel na horizontal para fotografar, mas agora não: toda a gente fotografa na vertical. Se o fizessem por razões compreensíveis, que remédio teria eu a não ser resignar-me, mas não: as pessoas fotografam assim porque sim, porque é assim que se segura num telemóvel. Não consigo conceber nada mais dogmático do que isto. Nem mais acéfalo.

M. V. M.

Fora do tema: uma notícia triste

Hoje recebi uma notícia triste via email. O Conselho Regional do Porto da Ordem dos Advogados comunicou o falecimento do Dr. Alberto Luís, advogado da cidade do Porto.

É possível que alguns não estranhem este nome, já que o Dr. Alberto Luís era o marido de uma figura notória do Porto: a escritora Agustina Bessa-Luís. (Curiosamente, conheceram-se através de um anúncio de jornal.) Mas não foi este status marital agora interrompido que me entristeceu: eu tive oportunidade de conhecer pessoalmente o Dr. Alberto Luís. E, apesar das circunstâncias – às quais passarei de seguida –, foi uma experiência extremamente enriquecedora e agradável.

Em 1989 eu tinha acabado de me licenciar e inscrevi-me na Ordem dos Advogados como advogado estagiário. Nesta condição, tive de frequentar aulas providas pelo centro de estágio do então denominado Conselho Distrital do Porto da Ordem. Tanto quanto me lembro, tive aulas de Processo Civil (uma duplicação inútil e soporífica da cadeira da faculdade), Direito Comercial, Processo Penal e Deontologia Profissional, que era a única matéria com um pouco de pertinência para advogados estagiários. Ora, estas aulas de Deontologia eram ministradas pelo Dr. Alberto Luís.

As aulas foram extremamente enriquecedoras. Não necessariamente pelas matérias ministradas, mas sobretudo pelo brilho que o Dr. Alberto Luís lhes trazia. Os relatos da sua experiência pessoal eram de uma riqueza e interesse tal que me levaram a apreciar muito mais este aspecto do que os ensinamentos sobre deontologia: na verdade, bastava-me ler as normas do Estatuto da Ordem dos Advogados para conhecer esta matéria, pelo que aquilo que aproveitava dessas aulas era a narração dos episódios da vida profissional – especialmente por serem contados por um homem ilustrado e um orador brilhante.

Não que essas aulas agradassem a todos, note-se bem: surpreendi a alguns colegas comentários corrosivos acerca da pretensa senilidade do Dr. Alberto Luís. O que me deixou confuso, porquanto não apenas escutava com todo o interesse o que ele dizia, como me apercebia que os episódios e pequenas histórias narrados não eram tergiversações: tinham sempre cabimento e integravam-se num discurso lógico, estruturado e coerente. Nem todos têm paciência para este estilo docente: alguns prefeririam algo mais objectivo e directo – mas que melhor do que a experiência profissional de um advogado que era a encarnação dos valores deontológicos para aprender a ética da profissão?

O curso de advogado estagiário obrigava à prestação de uma prova escrita – neste caso uma dissertação escrita sobre um tema à escolha (eu escrevi um texto mediocríssimo sobre a prisão preventiva) – e provas orais: curiosamente, apenas me lembro de duas destas últimas: a de Processo Penal – um conjunto de perguntas aleatórias sobre assuntos aleatórios formuladas pelo Dr. Gil Moreira dos Santos (penso que não fiz grande figura) – e a de Deontologia, na qual me defrontei (por assim dizer) com o Dr. Alberto Luís. Houve uma certa titubeação nas minhas respostas: a doença que havia de vitimar o meu pai um ano mais tarde roubara-me concentração e tempo, pelo que não consegui preparar-me convenientemente. Simplesmente, eu posso permitir-me a imodéstia de dizer que sou um bom conversador. Isto possibilitou-me suprir as minhas deficiências no conhecimento da matéria, mas era visível que estava a ser esquivo. Quando o Dr. Alberto Luís insistiu que eu respondesse a uma pergunta concreta sobre a deontologia profissional, respondi qualquer coisa como que nenhuma regra deontológica era mais importante que a minha consciência.

Não sei se o Dr. Alberto Luís apreciou a minha resposta ou se apenas confirmou a sua convicção de que eu estava particularmente mal preparado (o que era pouco importante, porque a prova não era eliminatória), mas sorriu à minha resposta e, logo depois, olhou para um papel que tinha à sua frente e disse-me que eu tinha um argumento muito forte a meu favor: era licenciado por Coimbra. Pois era (sou). Nós, os alumni conimbricensii, conhecemo-nos uns aos outros. Sobretudo, sabemos que Coimbra nos forja de uma maneira muito especial.

Tive o prazer e a honra de conhecer um dos homens mais notáveis da cidade do Porto. Aquilo não foi uma prova oral: foi uma conversa. Uma das mais interessantes e memoráveis da minha vida. Tanto que me lembro bem dela, mesmo que tenham passado vinte e oito anos. Algumas pessoas deixam marcas destas nas outras. Penso que é a isto que chamam eternidade.

M. V. M.

A novidade da semana

Ainda não sei muito bem o que pensar da grande notícia fotográfica da semana. Esta minha hesitação deixou-me paralisado, sem conseguir mover um músculo, com a mente bloqueada – o que explica a ausência de textos no Número f/ – e sem reacção a estímulos externos.

E que notícia foi esta que me conseguiu deixar em estado catatónico? Uma empresa – acho que é a isto que se chama startup – lançou uma campanha de angariação de fundos na Internet (um kickstarter, isto eu sei de certeza) para produzir nem mais nem menos que uma máquina fotográfica analógica. Uma SLR, com visor óptico e pentaprisma e tudo. Se tiverem sucesso – eu desconfio sempre um bocado destas campanhas –, será o primeiro lançamento de uma máquina SLR de formato 135 em vinte e cinco anos. Pelo menos é o que dizem, porque tenho a impressão que houve lançamentos de máquinas SLR deste formato depois de 1992. Seja como for, é sempre de ficar atento a uma notícia destas. Não é todos os dias que são anunciadas máquinas analógicas.

Uma característica irritante desta máquina anunciada é o nome: chama-se Reflex. Assim mesmo, tal como está gravado na parte frontal do alojamento do pentaprisma: REFLEX. Ninguém pode acusar os mentores deste projecto de terem uma imaginação delirante – pelo menos para nomes, porque no que toca à câmara propriamente dita a história é bem diferente. Bem vêem, esta câmara torna real o sonho de muitos amantes de objectivas «analógicas», que é o de usar objectivas de sistemas diferentes num só corpo: em lugar de recorrer a adaptadores, que podem deteriorar as propriedades ópticas das objectivas, a Reflex permite a montagem de diversas baionetas. Há um painel amovível chamado I-Plate – mais uma demonstração de falta de imaginação para nomes – que é montado no corpo da máquina e tem embutida uma de diversas baionetas – M42, Nikon F, Olympus OM, Canon FD e Pentax PK. Uma solução engenhosa que toda a gente já imaginara mas nunca ninguém se atreveu a fazer. Só por isto as pessoas por detrás do projecto Reflex já merecem algum crédito.

As novidades não ficam pelas baionetas intermutáveis. O painel traseiro (criativamente chamado I-Back) é também modular. Em lugar de uma tampa amovível que se abre para instalar o rolo, como em todas as outras máquinas de película, toda a parte traseira da máquina é desmontável. O rolo não é montado no corpo, mas num módulo que encaixa na parte traseira da câmara. O que tem a vantagem de se poder mudar de rolo à luz do dia, desde que este esteja previamente instalado num módulo adicional. É verdade que a Ricoh GXR é ainda mais prática, porque o mesmo módulo aloja a baioneta e um sensor, mas a Ricoh GXR é uma câmara digital (e, por sinal, bastante feia e muito limitada: não tem visor de qualquer espécie).

A Reflex é uma câmara interessante. Não se pode dizer que é bonita como uma Nikon FM3A ou uma Olympus OM-1: as suas linhas invocam as Praktica e as Kiev dos anos 60 do século passado. Mas é uma máquina com toques agradáveis, como uma saliência discreta no painel frontal para tornar o manuseamento mais cómodo e seguro e o botão do obturador instalado no painel frontal. Há também um pormenor que é supérfluo para a maioria dos entusiastas da fotografia analógica, mas não deixa de ser curioso: esta máquina tem incorporados um flash e um dispositivo de iluminação por LED. Provavelmente, atento o seu tamanho, são demasiado fracos para iluminar objectos a mais de meio metro de distância, mas há-de haver quem lhes encontre alguma utilidade. Mais importante, porém, é que os tempos de exposição vão até 1/4000 com um obturador de cortinas de comando electrónico que possibilita o uso da máquina no modo de prioridade à abertura.

O objectivo – a esta hora já ultrapassado – é angariar £100,000, mas se o financiamento atingir £150,000, poderá ser lançada uma app que fará com que a máquina comunique (via Bluetooth) com outros dispositivos e grave no smartphone os metadados da fotografia. Aqui está uma app que me poderia fazer usar o telemóvel durante as minhas sessões fotográficas.

Este é um projecto cheio de boas ideias. A baioneta modular é para muitos um sonho tornado realidade – ou será, se o projecto tiver viabilidade. Muitos coleccionadores de objectivas poderão fazer as suas sessões fotográficas com objectivas de baionetas diferentes recorrendo a um só corpo. E as coisas nem sequer sairão muito caras: o kit completo custará £600, o que é muito menos que uma câmara digital full frame. Apesar da minha desconfiança em relação a estes kickstarters, este tem, no mínimo, o mérito de basear-se numa ideia brilhante.

M. V. M.

O pior fotógrafo do mundo

A Mariana é a mais recente adição ao número de entusiastas que se congregam à volta do R. S. D., o paladino da fotografia analógica. Uma rapariga tão alta que um meia-dose como eu (1,70m faz de mim um baixote nos dias que correm) fica com vertigens só de olhar para ela, e com um entusiasmo encorajador pela fotografia analógica de médio formato.

Ontem, quando fui buscar mais uns negativos, a Mariana mostrou a todos, triunfantemente, o resultado de uma demorada pesquisa que empreendera na Internet. O objectivo? Encontrar um determinado fotógrafo que lhe havia sido mencionado. E encontrou: é um tipo de Tomar chamado Bizarro – um apelido muito adequado, diga-se –, cujas fotografias são demasiado más até para se tornar num Ed Wood da fotografia. Os modelos que usa, em particular, podiam fazer pensar que este Bizarro tenta mostrar o lado grotesco, o grande freak show da humanidade, como Diane Arbus, mas não é nada disso: ele está convencido que faz fotografias muito sensuais e artísticas e parece ter um fetiche por pessoas feias. Três raparigas em trajes diminutivos, todas elas com corpos e faces errados, segurando um jornal regional no qual se lê, na primeira página, um título sobre a morte de um idoso é (penso eu) tudo menos sexy. A fotografia de uma rapariga em lingerie montada no alto de um escadote de alumínio manchado de tinta podia ser interpretada como uma alusão sarcástica aos piropos dos trolhas e uma denúncia do assédio sexual, mas tenho razões para acreditar que não era bem isto que estava na mente do fotógrafo.

As fotografias deste indivíduo podem ser risíveis numa primeira apreciação, mas quando se pensa um pouco as coisas assumem uma dimensão algo deprimente. O sujeito farta-se de ser ridicularizado na Internet – o Google mostra uma página referente a ele em primeiro lugar quando se pesquisa «o pior fotógrafo do mundo» –, mas parece extremamente orgulhoso deste status adquirido. Talvez haja quem se honre de ser fotografado pelo pior fotógrafo do mundo – o que implica ser fotografado em cenários grotescos, com uma iluminação péssima, em poses ridículas e com expressões faciais absurdas –, e o homem tenha procura por ser tão mau; ou talvez ele pense que ser o pior fotógrafo do mundo é uma distinção, não sei. O que eu sei é que ele não tem o menor pudor em ostentar este atributo; pelo contrário, parece empenhado em fotografar cada vez pior. As suas fotografias atingem um zénite de ridículo e mau gosto a cada nova publicação no facebook, mas o homem tem o requinte de descaro de publicar photobooks.

Ver estas fotografias teve um efeito péssimo sobre mim. Apesar de me ter rido das fotografias que a Mariana mostrou, mais tarde dei por mim a pensar em assuntos como a percepção pública da pessoa que faz as fotografias. Tive sempre por verdadeiro que as fotografias reflectem a personalidade de quem as executa e, no caso deste Bizarro, não sei o que é mais relevante: será o patético (em sentido verdadeiro, o que provoca um pathos) que estas fotografias mostram, ou a boçalidade de quem sabe ser mau e não faz nada para se corrigir? Saber-se que se é mau e não querer melhorar, estar numa actividade e sentir orgulho em ser o pior, é triste – ou ridículo. Não consigo decidir. Em todo o caso, é sempre lamentável ver pessoas com uma falta tão notória de percepção de si mesmas. (Não quero sequer pensar que o homem faz questão de ser um boçal e se orgulha disso.)

Eu tenho uma característica que nunca soube interpretar muito bem: quando todos escarnecem do maluquinho, do bêbado e do boçal que frequentam o café lá da rua (uma rua qualquer: não me refiro a pessoas ou lugares em concreto), eu entristeço-me e compadeço-me deles. Nunca consigo deixar de pensar como se sentirão estas pessoas que se expõem – consciente ou inconscientemente – à irrisão pública e ponho-me a imaginar que demónios habitam aquelas mentes. Provavelmente são pessoas tão falhas de auto-avaliação que não se apercebem da figura que fazem, mas despertam-me compaixão à mesma. O caso deste Bizarro tem um relevo especial porque está na órbita da fotografia. E eu, antes (ou depois) de me rir, não consigo deixar de pensar como será que as pessoas vêem as minhas fotografias. Apesar de ter consciência de que não são tão más que provoquem escárnio universal – pelo menos tenho conhecimento das minhas limitações e a sensatez de não me aventurar por áreas que não domino –, vem-me à mente o aforismo popular quem tem telhados de vidro não atira pedras ao do vizinho.

Talvez eu não seja tão mau como o pior, mas ver estas fotografias e a reacção que provocam é uma chamada de atenção: é um aviso de que tenho de melhorar constantemente. E que não tenho o direito de ser soberbo e olhar para as fotografias dos outros de forma escarninha, mesmo que esses outros sejam os piores fotógrafos do mundo.

M. V. M.