Férias forçadas

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Há pouco mais de dois anos, mais concretamente no dia 11 de Outubro de 2014, escrevi um texto que tive o gosto duvidoso de intitular As velhas e as suas manias (embora depois tivesse o cuidado de esclarecer que a prosa não era sobre psicologia da terceira idade: não que alguém fosse pensar que era, porque nessa altura já todos sabiam que não sou um psicólogo geriátrico). Nesse texto abordei um estranho problema técnico que se estava a passar com a minha Olympus OM-2n: o anel que controla o tempo de exposição prendia, tornando-se ocasionalmente difícil de manusear.

Este problema, que desde então ocorreu amiúde, pareceu manifestar-se com mais intensidade quando fazia frio e a humidade era mais intensa, mas também aconteceu em dias mornos – mas nunca no Verão, nem nos dias quentes da Primavera e do Outono. No Domingo, dia 19, voltou a acontecer. De manhã tudo correu bem, mas durante a tarde o comando emperrou de vez na posição 1/1000. Infelizmente, eu tenho muito pouca sensibilidade para certos mecanismos: embora saiba perfeitamente quando estou a poupar ou a desperdiçar a energia do motor do automóvel, tenha sensibilidade para determinar o momento ideal para mudar de velocidade e domine o ponto de embraiagem na perfeição, há certas coisas que me derrotam por completo. Fechaduras manhosas, por exemplo. E, como agora descobri, comandos do tempo de exposição situados à volta da baioneta. Tal como não consigo rodar uma chave numa fechadura que exija um determinado truque para abrir, também não consegui desbloquear o comando da OM-2.

O Raúl Sá Dantas conseguiu-o. Desbloqueou o comando, mas este último já não controlava nada. O tempo de exposição assinalado nada tinha que ver com o real. As cortinas moviam-se instantaneamente quando o comando estava na posição de 1 segundo, o que não podia ter acontecido e significa que o controlo do obturador ficou bloqueado, provavelmente em 1/1000. Isto quer dizer que a minha Olympus OM-2n está avariada. É oficial. Vai ser entregue, para reparação, a um homem chamado Igor, que não é certamente o assistente do Doutor Frankenstein (embora não seja impossível que a minha máquina venha a receber peças de outra, o que pode ser havido como um pouco shelleyano).

Isto é estranho. Há duas semanas tive oportunidade de manusear uma Olympus OM-1, que era o modelo que Maitani-san concebeu antes de decidir colocar electrónicas inúteis dentro das máquinas. O comando do tempo de exposição da OM-1 roda como uma faca quente sobre manteiga derretida. Há quem especule que isto se deve à ausência de controlos electrónicos no mecanismo do obturador, já que a OM-1 não tem nenhum modo de exposição automático ou semi-automático, mas embora tal explicação não me pareça plausível, não posso sinceramente confirmar ou infirmá-la. O que sei é que o comando do tempo de exposição das OM-1 – ou, pelo menos, do exemplar que tive nas mãos – é de uma suavidade irresistível. O que é quase difícil de acreditar, atendendo a que podemos estar a referir-nos a mecanismos fabricados há trinta anos.

Seja como for, vou ter de fazer uma pausa nas fotografias. Fotografar com a E-P1 já não me dá qualquer prazer e, de resto, não suporto a falta de nitidez daquele sensor. Prefiro esperar pelo conserto da OM a fotografar digital. Eu sei, eu sei: se gosto de fotografia, devia gostar de fotografar com o que quer que fosse que tivesse à minha disposição, mas eu não funciono assim. Afeiçoei-me à fotografia analógica e jurei-lhe fidelidade eterna.

Isto pode ser uma boa oportunidade para reflectir sobre que tipo de fotografia quero realmente fazer. Sinto que preciso de aproveitar melhor a cor e trabalhar com ela para fazer melhores composições, em lugar de fazer transposições do género de fotografias que fazia a preto-e-branco para as cores. Talvez aproveite para andar mais atento e descobrir mais motivos, quem sabe?

Em todo o caso, a pausa não se estende ao Número f/. Os leitores poderão ficar contentes ao saber que o facto de não ir fotografar durante um lapso de tempo que pode ser considerável não se vai repercutir na produção foto-literária do M. V. M. Ou talvez entendam que bem podia aproveitar para fazer umas férias bloguísticas. (Ah! Vou recusar-vos esse prazer!)

M. V. M.

Eu e o Acordo Ortográfico (antecedido de um prefácio aliviado)

Uf! o povo neerlandês não se deixou enganar. Vou poder continuar a apreciar Toto Frima, Ed van der Elske e Rineke Dijkstra – e também, já agora, Bernard Haitink, Pieter Wiespelwey e Anner Bylsma. Entre muitos outros.

Agora que a parte da política deixou de ser uma preocupação, já posso voltar a torrar o sistema nervoso com uma neura antiga – o Acordo Ortográfico. Isto veio-me à cabeça por ter hoje começado a ler o primeiro livro que comprei escrito – ou, neste caso, traduzido – em português da chamada nova norma. O livro, ainda por cima, tem uma capa e um título que lembram os best sellers cor-de-rosa, embora não o seja: o grafismo da capa é piroso: inclui letras brilhantes em alto-relevo e uma menção aos prémios Pulitzer e Nobel no centro de uma coroa de louros e tudo. Pior ainda é o título da edição portuguesa: Home tornou-se «A Nossa Casa É Onde Está o Coração». Se este livro não tivesse sido escrito pela excelente Toni Morrison, teria vergonha de ser visto com ele na rua, mas o pior deste livro é mesmo ter sido traduzido segundo a nova norma ortográfica.

O mais benéfico que posso dizer sobre isto é que certas palavras parecem ter sido amputadas, e outras mutiladas. «Injeção» até pode ser perdoável, e eu não veria com maus olhos uma revisão da ortografia que eliminasse algumas consoantes mudas, desde que com um mínimo de critério. Hoje não escrevemos «contracto», a despeito de o étimo latino ser contractu: escrevemos «contrato». (Notem que estou apenas a referir exemplos esparsos: apesar de gostar de ler e escrever bem, não sou um filólogo nem um linguista.)

O que é completamente incompreensível é que se mude a ortografia de palavras como perspectiva, porque se o objectivo é unificar a ortografia de todos os países onde se fala o português, convinha que se tivesse tido em mente que, no português do Brasil, o «c» de «perspectiva» não é mudo. O artifício da «dupla grafia» consagrado no Acordo Ortográfico é, em si mesmo, a negação da necessidade da nova norma: se se reconhece a diferença, para quê unificar? E, se se quer unificar, porquê manter duas grafias? Não faz sentido.

Já palavras como «objeto» me parecem mutiladas além de amputadas. E que dizer de palavras como «perentório»? Isto não é português! Ou ainda «ato» no lugar de «acto», «ata» em vez de «acta» (a vontade que dá de fazer trocadilhos parvos!) e outras aberrações. Ainda para mais, como os portugueses não se distinguem pelos seus níveis de literacia elevadíssimos e já escrevem muito mal sob a antiga norma, o Acordo Ortográfico só vai trazer mais confusão: há gente que pensa que «facto» vai passar a escrever-se «fato» (outra fonte inesgotável de trocadilhos estúpidos), o mesmo acontecendo com «contato» e «contacto». Até tivemos um juiz famoso que pensava que «cágado» ia perder o acento e se divertiu com – adivinharam – trocadilhos escatológicos, e uma médica que houve por bom escrever «batéria» em lugar de «bactéria». Depois há aquelas palavras que só podem ser fruto de mentes alteradas, como «espetador» em lugar de «espectador». Não há dúvida: o Acordo Ortográfico foi concebido por alguém que quis pôr o país a fazer trocadilhos de mau gosto.

E há também a questão jurídica. Ao que parece, o Acordo Ortográfico não podia ter entrado em vigor sem que todos os países seus destinatários o ratificassem, algo que até agora apenas quatro países fizeram. Não compreendo qual foi a pressa em adoptar («adotar» também é muito canhestro, diga-se) um acordo tão mal amanhado, que não unifica nada e com o qual nem todos os países de língua portuguesa concordam. Por mim, vou adoptar a nova norma quando esta for eficaz na ordem jurídica nacional. Se me torcerem um braço e me apontarem um revólver à cabeça.

M. V. M.

A Holanda, uma retratista com um nome impronunciável e eu

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Amanhã há eleições legislativas na Holanda. Existe o sério risco de um partido liderado por um indivíduo de nome Geert Wilders, que alguns consideram ser a versão holandesa de Donald Trump, vencer as eleições.

O que me aborrece, nestes populistas, é a sua completa incoerência ideológica. Aliás, é mais correcto dizer que não têm ideologia: as ideias que anunciam destinam-se simplesmente a ir ao encontro dos anseios de uma população amedrontada que crê facilmente em lugares-comuns que são indicados como uma panaceia – falsa, evidentemente – para todos os seus problemas. É fácil, a um desempregado com a mente amolecida por muitos anos a ver televisão e que passa a vida no facebook acreditar que a razão de estar desempregado é um estrangeiro estar a roubar-lhe o emprego. E, se esse estrangeiro for um ser considerado inferior – por ter pele escura e ser de uma religião diferente, porque muitos entendem serem estes sinais de inferioridade –, mais fácil se torna propagar o discurso do ódio e conquistar votos. Este Geert Wilders é, curiosamente, um indivíduo que assenta o discurso político na expulsão dos emigrantes, mas pinta o cabelo de louro para não se notar demasiado a presença de traços físicos que o assemelham à sua mãe, uma emigrante indonésia. Não sei o que vê nele uma grande parte dos holandeses.

É isto que me repugna nos populistas: eles só acreditam na conquista do poder e fazem e dizem tudo o que for necessário para o obter. Nem que isso implique mentir e cair em contradições que só escapam a mentes embotadas e predispostas a acreditar nas mensagens de ódio que estes protofascistas transmitem. Resta saber o que fazem quando chegam ao poder. Temos o exemplo dos Estados Unidos, mas ainda mais perto está o caso dos municípios conquistados em França pela Frente Nacional, cuja administração se caracterizou sempre pela corrupção, pelo favorecimento pessoal e pela ausência de qualquer tipo de políticas, ou o dos governos de Silvio Berlusconi, que, embora não fosse um nacionalista em sentido estrito, partilhava com eles uma retórica de ilusão das massas para, uma vez chegado ao poder, fazer tudo ao contrário do que anunciara e governar em benefício das suas próprias empresas. É este tipo de gente que governa a Hungria, a Polónia, a Rússia e os Estados Unidos; seguir-se-á a Holanda?

Se Geert Wilders se tornar primeiro-ministro holandês, poderá, na pior das hipóteses, acelerar o processo de desagregação da União Europeia, contribuir para uma crise económica mundial e desencadear uma nova guerra religiosa na Europa; na melhor, a qual se verificará no caso de ter de governar em coligação com partidos moderados, apenas contribuirá para acentuar uma ligeira antipatia que sempre senti por aquele país decadente e desinteressante. Um país, contudo, que não deixa de ter relevância nas artes, e em particular na fotografia. Com efeito, um dos melhores fotógrafos que conheço – na minha lista mais extensa – é holandês e chama-se Ed (Eduard) van der Elsken. Mas também já me referi aqui a Toto Frima, entusiasta das Polaroids. Além destes dois – e decerto de muitos outros –, há uma fotógrafa contemporânea cuja obra me parece merecer a atenção dos leitores do Número f/: é Rineke Dijkstra, uma moça da geração de 1959 que acabou de ganhar um prémio atribuído pela Fundação Hasselblad.

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Que posso eu dizer sobre os retratos de Rineke Dijkstra? Eles são, aparentemente, rígidos; as poses das pessoas são estáticas e formais, mas é perceptível que as pessoas retratadas são tudo menos isso. É como se as fotografias de Rineke Dijkstra (eu gosto de escrever este nome, embora não faça a mais pequena ideia como se pronuncia) fossem uma metáfora dos espartilhos que cingem a vida das pessoas nos nossos dias. Acima de tudo, são retratos de pessoas reais. Esta realidade é, em si mesma, perturbadora: é como se Rineke Dijkstra caricaturasse os retratos estereotípicos para nos dizer que há mais beleza e retratabilidade nas pessoas comuns do que nos modelos fotográficos. Há aqui uma nota de subversão que me parece deliciosa.

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Depois há os retratos temáticos, nos quais se favorece a crueza da realidade, o mostrar as pessoas na sua essência, sem ornamentos, fotografando-as contra fundos banais e quotidianos, como se quisesse dizer que só a pessoa interessa, que a pessoa é um motivo de interesse mesmo quando desligada das suas circunstâncias. Neste aspecto os retratos de Rineke Dijkstra são imensamente conseguidos.

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Os holandeses estão prestes a seguir o exemplo de outros povos que preferem ser governados por escroques que usam as frustrações dos votantes para fazer passar a sua mensagem e se alcandorar ao poder. A inteligência sai sempre derrotada deste confronto. Quem não se lembra de que Mario Vargas Llosa, um gigante da literatura mundial, perdeu as eleições presidenciais no Peru para um vigarista corrupto chamado Alberto Fujimori? Se os holandeses fossem inteligentes, punham a Rineke Dijkstra à frente de um partido e faziam-na Primeira-Ministra. Talvez nessa altura eu deixasse de encontrar razão nas invectivas do Padre António Vieira.

M. V. M.

Como ver fotografias

Hoje passei um Domingo horrível. Uma boa parte do dia foi passada a esperar. Não quero pormenorizar, mas estive largas horas sem fazer nada, apenas esperando. Há maneira melhor de passar um Domingo? Só se for num hipermercado, ou na fila para as caixas de uma grande superfície comercial em dia de preços sem IVA.

Onde eu estava havia Wi-Fi gratuita e disponível ao público. Como tinha o meu smartphone comigo, decidi usá-lo para aquela que é a sua vocação (além de fazer e receber chamadas e de enviar e receber mensagens, claro): acedi à internet através dele.

O meu smartphone tem um ecrã com uma resolução razoável. Não é nenhum iPhone, mas é bastante legível. Quando abri as páginas do Flickr, porém, fiquei alarmado: as fotografias surgiam muito escuras. E não era um problema com as minhas fotografias: as de outros utilizadores, bem como as fotografias publicadas noutros sites – o que incluía fotografias de fotógrafos profissionais –, tinham o mesmo problema: um excesso de contraste e de sombras.

Evidentemente que me lembrei de alterar o brilho do ecrã. Foi a primeira coisa que me veio à mente. O smartphone ainda tinha a pré-definição, que ficava a cerca de 75% da luminosidade possível. Aumentar o brilho não resolveu quase nada: as fotografias continuavam demasiado escuras.

Curiosamente, esta característica é boa para ver fotografias tiradas com outros smartphones, ajudando a disfarçar o péssimo desempenho nas altas luzes e a falta de contraste que são males crónicos dos sensores e lentes minúsculos dos smartphones. Vistas em tamanhos pequenos, estas fotografias parecem todas excelentes, cheias de contraste, com boa resolução, sem ruído e com cores saturadas (o meu smartphone é como os monitores HP: privilegia a matiz vermelha). Contudo, com fotografias correctamente expostas, a visualização torna-se num pesadelo.

As pessoas que vêem fotografias através de smartphones podem fazer uma ideia completamente errada acerca delas. Embora a tendência seja para que todas as fotografias pareçam fabulosamente boas quando vistas em tamanhos tão pequenos como os do ecrã de um smartphone, algumas fotografias, mesmo quando correctamente expostas, parecem demasiado escuras, ocultando muito do pormenor nelas presente.

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Josef Koudelka. Isto não é para se ver com um smartphone.

E este não é o único problema. Ver fotografias num ecrã tão pequeno é limitador e frustrante. Claro que serve na perfeição para ver a fotografia do pimpolho e do gato no facebook, mas as fotografias mais sérias ficam muito prejudicadas. Aconteceu-me ver alguns clássicos de Koudelka no website da Magnum, e não gostei nada do que vi: a resolução era claramente insuficiente e o contraste, bem como os negros, eram simplesmente excessivos. As fotografias que vivem do pormenor e de subtilezas saem claramente prejudicadas, porque o objectivo de visualizar fotografias num smartphone é o de compreender o seu conteúdo em três segundos.

Nada disto significa que vá começar a fazer fotografias sobreexpostas para agradar a quem as vê em «dispositivos móveis». Concluí que as minhas fotografias são para ser vistas em monitores convencionais, com ecrãs de média e grande dimensão. Mas as minhas fotografias de pouco importam; o que é certo, o que sei por ter aprendido com os meus olhos, é que ver fotografias num computador, mesmo que muito bom, será sempre um triste sucedâneo da experiência de vê-las em papel. Mesmo assim, é muito melhor ver fotografias num computador convencional do que num smartphone, por melhor que seja o seu ecrã (e eu já vi fotografias em smartphones com ecrãs melhores que o meu). A evolução tem-se caracterizado por uma redução na qualidade em favor da abundância e do baixo custo, mas há limites a partir dos quais esta redução se torna inaceitável. Vejam lá os pimpolhos e os gatos dos vossos amigos nos telemóveis, mas usem os vossos monitores para ver fotografias um pouco mais intencionais.

M. V. M.

O meu novo dilema

A imagem com que ilustrei o texto de ontem – a minha fotografia, não a de Fred Herzog – não dá senão uma pálida ideia do que ali referi sobre a nova dimensão que a cor acrescenta às fotografias ditas de rua. Podia ter escolhido outra, que ilustrasse melhor os benefícios da cor, mas não o fiz. Por uma razão: é que aquela ilustração é exemplificativa do tipo de fotografia que teria feito se estivesse a usar o preto-e-branco. Como o texto tentou ser acerca da possibilidade de fazer fotografia dita de rua a cores, a ilustração pareceu-me adequada: quando faço fotografia nas ruas, gosto daquele tipo de cenário todo bem compostinho e cheio de simetrias e geometrias. O facto de esta fotografia ser a cores não retira nada à estética.

Por outro lado, tem-me passado pela cabeça uma ideia que pode ser disparatada, mas não deixa de ter a sua racionalidade. Uma possibilidade que tenho é converter digitalizações de fotogramas a cores para preto-e-branco. Eu sei que alguns podem pensar que é sacrilégio converter fotografias analógicas a cores para preto-e-branco, mas se pensarmos bem o mal de raiz já está feito e não é a conversão: é o que foi feito antes – a digitalização. Ora, se estou diante de uma imagem digital, que me impede de convertê-la para monocromático?

Sinto-me cada vez menos preconceituoso – e, o que é o mesmo, mais aberto – em relação à edição de imagem. Quando o negativo é digitalizado, torna-se numa imagem digital. Assim sendo, por que não havia de tirar partido dos instrumentos que a fotografia digital trouxe? Uma grande parte das fotografias a cores que publico no Flickr teriam muito pior aspecto se eu as mostrasse tal como o scanner as deixou. Especialmente no caso das fotografias feitas com o Fujifilm Superia, que deixa todas as imagens com um tingimento verde que é difícil de suportar. O tingimento vermelho do Agfa Vista é muito mais benéfico, embora também seja capaz de produzir resultados indesejáveis. Seja como for, não vejo qualquer problema em editar imagens a partir de digitalizações de negativos.

Claro que isto levanta uma questão que, por esta altura, o leitor dotado de um mínimo de perspicácia já terá formulado: se é assim, não seria melhor usar uma câmara digital? Esta questão é extremamente pertinente, mas soçobra por duas razões. A primeira é que as imagens a cores feitas com película têm mais latitude que as digitais. É muito simples: com os rolos nunca tenho altas luzes estouradas nem sombras excessivas (a menos que falhe por completo a exposição, o que quase nunca me acontece). A segunda razão, e a mais importante, é que não há nenhuma câmara, nem nenhum programa de processamento de imagem, que seja capaz de simular o efeito de uma fotografia analógica a preto-e-branco. Quando inventarem uma câmara com sensores intermutáveis, sendo um deles o da Leica Monochrom e o outro o da Nikon D5, terão criado a câmara digital perfeita, mas por enquanto esse monstro de Frankenstein não existe.

Sendo assim, será que converter digitalizações a cores para preto-e-branco é boa ideia? Para tentar preservar um mínimo de pureza analógica, usei o célebre comando do Photoshop CS Image → Mode → Grayscale com a fotografia do texto de ontem.

O resultado é decepcionante. Mostra, em primeiro lugar, um facto importante: as fotografias a preto-e-branco precisam de uma nitidez de que o Agfa Vista não é capaz. Mas também se vê que os contrastes não são idênticos àqueles que consigo quando uso películas muito contrastadas, como as Ilford FP4 e Pan F. Meh – até as de alta sensibilidade, como a Tri-X, saem melhor que isto. Esta imagem não é verosímil enquanto fotografia analógica a preto-e-branco: tem a palavra «digital» espalhada em toda a sua superfície.

O que me deixa num dilema: estou a gostar demasiado de explorar a cor, mas não vou, de maneira nenhuma, renegar o preto-e-branco. Tal como não tenho de desaprender a minha língua pátria quando falo ou escrevo em inglês, também não preciso de excluir o preto-e-branco das minhas fotografias. A possibilidade de comprar um segundo corpo OM para fotografar exclusivamente a preto-e-branco começa a ganhar foros de inevitabilidade.

M. V. M.

Cores. Cores. A vida é a cores

Ontem recebi, via Dropbox, as digitalizações de mais um rolo a cores. Desta vez foi um Agfa Vista 400, rolo ao qual perdoo uma ligeira falta de acutância e um tingimento vermelho acentuado por fazer tudo o resto tão bem, por tão pouco dinheiro. Podia ficar mais satisfeito com o 160NS, ou com o 400H, ambos da Fujifilm, mas estes rolos custam os olhos da cara. O seu uso justifica-se num contexto profissional – apesar de ser discutível o uso de película 135 para fins profissionais, evidentemente.

Adiante, que não é sobre rolos que quero escrever. Eu não tinha grandes expectativas quanto às exposições deste último rolo. Fiz fotografias naquele estilo a que se pode chamar «de rua», dentro do que costumava fazer quando usava os meus Ilford FP4, e, como imaginava que tais fotografias não iam resultar muito bem a cores, calculei que teria sido um desperdício de tempo e dinheiro.

Estava enganado. As fotografias que fiz são inteiramente válidas – pelo menos segundo os meus próprios critérios, e a despeito de poder considerá-las péssimas daqui a uma semana –, mesmo sendo a cores. Vou mais longe: a cor atribui-lhes uma dimensão suplementar, um interesse extra em relação a imagens semelhantes a preto-e-branco.

Isto faz-me pensar se não terei perdido demasiado tempo ao fotografar quase exclusivamente a preto-e-branco durante mais de três anos. Vendo bem, foi tudo uma questão de moda: habituei-me a ver fotografias a preto-e-branco e limitei-me a aderir à moda. Foi um erro: em lugar de procurar exprimir-me pelos meus próprios meios, preferi o conforto de seguir o que os outros faziam.

Foi um disparate, embora justificado pela verdura e ignorância. Como só conhecia fotografia de rua a preto-e-branco, não imaginava que fosse possível fazê-la de outra maneira. O que mudou tudo, fazendo-me fotografar a cores? Dois factores, por ordem crescente de importância. O primeiro foi ter encontrado uma película capaz de resultados consistentes sob todas as condições de luz. Isto foi essencial – tanto que agora me parece que não fotografava tanto a cores por as películas que experimentei não me terem deixado satisfeito. O segundo foi ter-me familiarizado com um triunvirato de fotógrafos de rua que utilizaram a cor de maneira excepcional: Fred Herzog, Saul Leitner e Joel Meyerowitz.

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Fred Herzog, “Main Barber”

O que eu gosto, nas fotografias de Herzog, Leiter e Meyerowitz, é elas provarem que a fotografia de rua não tem necessariamente de ser a preto-e-branco. Olho para aquelas fotografias, e está lá tudo o que define a fotografia de rua: as pequenas histórias do quotidiano, os sinais da vida urbana, a estética, a composição – e, evidentemente, as cores. E são fotografias que funcionam.

A fotografia de rua tornou-se muito cliché. Tem apenas que ver com a estética, composta de contrastes exagerados e do omnipresente preto-e-branco, e acontece, invariavelmente, em cenários nos quais a presença de uma pessoa é um mero pretexto para a aposição do rótulo de «fotografia de rua». Sim, ainda há fotografias de rua em preto-e-branco maravilhosas, mas a vida é a cores. Foi William Albert Allard quem disse “Eu vejo a cores”. Tenho razões para crer que não estava apenas a declarar que não era daltónico.

Fred Herzog, Saul Leiter e Joel Meyerowitz mostraram-me que é possível uma abordagem diferente para a fotografia de rua. Foi uma verdadeira revelação. Antes, já me tinha deixado fascinar pelo uso que Harry Gruyaert e William Albert Allard fazem da cor, mas estes dois não são fotógrafos de rua – mesmo que, ocasionalmente, tenham feito fotografias que caem dentro dessa definição. Foram Herzog, Leiter e Meyerowitz quem levou a cor para a fotografia de rua. Ainda bem que eles – ou a sua obra, já que Saul Leiter morreu em 2016 – existem: libertaram-me de um espartilho.

No Sábado perguntaram-me quando ia voltar ao preto-e-branco. Isto que estou a fazer não é um mero flirt com as cores, como fiz quando experimentei os Kodak Ektar e Gold e o Ferrania Solaris. Vou certamente voltar a usar rolos de preto-e-branco, mas não com a quase exclusividade com que o fiz até há pouco. Não quero estar limitado a um estilo ou a uma estética.

M. V. M.

Ah, os estereótipos! Onde estaríamos nós sem eles?

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Foto: Youg Hipster/Shutterstock

Os poucos que leram o texto do último Sábado sobre o aniversário da Câmaras & Companhia terão reparado que não fiz uma única alusão à solidez do crescimento da fotografia analógica, do qual a loja e laboratório do Raúl e da Leonor é uma verdadeira metáfora. Dispensei-me de referi-lo porque não gosto de ser repetitivo: já aludi ao assunto por várias vezes. O crescimento da fotografia analógica é um facto insofismável.

Contudo, muitos vêem a revivescência da fotografia analógica como um fenómeno tipicamente urbano, circunscrito a uma determinada subcultura e a um estilo de vida que, na verdade, é mais imaginado que real. Para estas pessoas, a fotografia analógica é um culto desenvolvido por aqueles a quem se convencionou chamar hipsters: sujeitos de barba e óculos, geralmente estudantes universitários com rendimento disponível, que gostam de roupas justas e vivem um estilo de vida alternativo, frequentando bares obscuros e ouvindo Yeah Yeah Yeahs (ou qualquer coisa muito mais underground). Simplesmente, se estas pessoas existem, não dou por provado que sejam elas quem fotografa com película. Pelo menos não é isso que vejo quando ando nas ruas – e acreditem que eu ando muito atento, como é obrigação de quem fotografa nas ruas (o que não é necessariamente o mesmo que fazer fotografia de rua).

De resto, quem atribui esta vitalidade da fotografia analógica aos hipsters não sabe do que fala. Em primeiro lugar – o que é um hipster? O que o caracteriza? É as calcinhas justas e as barbas? Também há habitantes de bairros sociais que vestem e se enfeitam da mesma maneira. São hipsters? Ou será o estilo de vida que os define? Quando ando por zonas frequentadas por gente que se assemelha a este estereótipo dos hipsters, o que mais vejo é iPhones; não se vê muitas máquinas fotográficas por ali, sejam elas analógicas ou digitais.

Mas também há os que pensam que a fotografia analógica é movida pela nostalgia, sendo praticada por gente que se recusa a largar os velhos hábitos e a acompanhar o progresso. Possivelmente, quando lhes falam de fotografia com película, imaginarão velhos corcundas, gotosos e atacados pelo Parkinson carregando máquinas 4×5 de madeira cobertas de teias de aranha.

Este último estereótipo ainda está mais afastado da verdade que o dos hipsters. Eu conheço uma boa parte da comunidade da fotografia analógica do Porto e não vejo ninguém que corresponda a este lugar-comum. As pessoas mais velhas que se dedicam à fotografia analógica são sensivelmente da minha idade; se eu podia ser considerado velho no Século XII, no tempo em que vivo sou alguém que ainda pode esperar viver umas boas três décadas. (E também não sou nenhum hipster, apesar de ter alguns pares de calças justas.) O que move essas pessoas como eu é o entusiasmo, característica que não é muito fácil de encontrar em gerontes (embora seja louvável de se ver quando acontece, como é o caso do meu mentor Fernando Aroso).

Reduzir tudo a estereótipos é estúpido. É abdicar de observar e raciocinar para aderir preguiçosamente ao que se ouve dizer. No caso da fotografia, os estereótipos que mencionei são de tal maneira asininos que chegam a assemelhar-se a caricaturas. Quem cultiva estes estereótipos faria muito melhor se experimentasse abrir os olhos e pensar pela sua cabeça. Se o fizesse, veria que não são os velhos nostálgicos que constituem a força motriz da fotografia analógica actual e que são muito raros os que, entre a multidão de jovens que usa máquinas de película, correspondem ao estereótipo do hipster.

E não é a nostalgia que move os entusiastas. Como podem os jovens sentir nostalgia de tempos que nunca viveram? E que nostalgia existe entre os que nunca abandonaram a fotografia analógica? Esta ideia da nostalgia pressupõe que a fotografia analógica entrou em desuso, como as grafonolas e os coches, o que nada tem de acertado. A fotografia analógica nunca deixou de existir; apenas perdeu terreno para a digital. Claro que nunca vai ter a expressão da fotografia digital, até porque entretanto esta última, graças aos smartphones, conquistou novas clientelas da ordem dos milhões – muitos milhões – de pessoas, tornando-se assim inalcançável, mas é inegável que a revivescência da fotografia analógica existe, está a crescer e não dá sinais de ir abrandar tão cedo. Não pode ser tudo à conta dos hipsters e de velhinhos corcundas!

M. V. M.