Obituário

As máquinas fotográficas mais bonitas do mundo actualmente em produção são as Leica M. Penso que este juízo de valor não merece discussão. As únicas excepções foram a M5 e as digitais M8 e M9. A primeira era uma Leica com os lados quadrados fabricada no Canadá – embora a sua qualidade não seja contestada –, ao passo que as digitais M8 e M9 eram gordas: demasiado profundas, nada tinham de esbelto; e eram desconfortáveis de segurar.

Esta semana soube-se que uma das M vai deixar de ser fabricada: a M7, de película, que fora lançada no comércio em 2002. Por que será que ninguém está inconsolavelmente triste? Porque esta é uma máquina carregada de electrónicas. Funciona manualmente ou no modo de prioridade à abertura e requer uma bateria. Tem um botão para ligar e desligar, necessário para accionar o fotómetro e o comando electrónico do obturador, o qual funciona quando o modo de prioridade à abertura é seleccionado. O obturador pode funcionar em modo manual ou electrónico, mas no modo electrónico pode ser usado com os tempos de exposição de 1/60 e 1/125 se a bateria falhar. Outra característica desta Leica M7 é a de fixar a exposição automaticamente (função AE-L) pressionando o botão do obturador até metade do curso.

Curiosamente, foi esta sofisticação que tornou a M7 numa pária entre as Leica M. Há gente para quem as Leica são tão melhores quanto menos progressos tecnológicos incorporarem, pelo que a MP – cuja única sofisticação é ter um fotómetro – e, ainda melhor, a M-A, que nem sequer tem um fotómetro incorporado, são as M de película reputadas como Leica puras. Aparentemente a Leica pensa o mesmo, pelo que a M-A e a MP não acompanharão a pobre M7 na caminhada ao longo do corredor da morte.

Há muito de legítimo nesta desconsideração pelas electrónicas. Eu, apesar de apenas poder recorrer à minha humilde OM-2n para aludir a esta matéria, confesso que nunca me passou pela cabeça usar o modo de exposição automático a que a Olympus chamava «preferência à abertura». Podia fazê-lo – tudo com que teria de me preocupar seria a escolha da abertura –, mas prefiro ter o controlo total da exposição, ainda que com o auxílio do fotómetro. Deste modo, se eu pudesse comportar o custo de uma Leica (e gostasse de visores de telémetro), a M7 não seria para mim. E não sou certamente o único a pensar assim.

Depois há uma máquina de película que já morreu há algum tempo, mas ninguém a avisou: é a Canon EOS-1V (o «V» é o número 5 em numeração romana). O quê? não sabiam que a Canon ainda vendia máquinas de película? Eu também não. Pensava que, entre os big boys, só a Nikon oferecia máquinas destas. A produção, como referi, já terminou (diz-se que em 2010, mas há informações contraditórias), mas os modelos em stock continuaram a ser vendidos. E agora esgotaram, pelo que as vendas chegaram obviamente ao fim.

Segundo li no The Online Photographer, os fabricantes de material fotográfico costumam, no caso de produtos historicamente relevantes, fazer um último ciclo de produção em larga quantidade para vender o stock como NOS (New Old Stock), controlando as existências através de aumentos estratégicos do preço. Aparentemente, foi isto que a Canon fez com a EOS-1V depois de ter cessado a produção.

Ao contrário da Leica M7, a Canon – que foi lançada em 2000 – tinha as linhas feias das DSLR actuais. Tinha também a reputação de ser uma máquina indestrutível e foi mantida no mercado, ao que se diz, para satisfazer as necessidades dos profissionais que se mantiveram fiéis à película.

Que significa isto para a fotografia analógica? Muito pouco. Não há significado nenhum quanto ao futuro próximo das películas. Não é mais um prego no caixão, não é o anjo da morte fazendo-se anunciar, nem é um abutre voando em círculos sobre a carcaça analógica. A Canon não tem vocação para produtos de nicho como as máquinas analógicas e, de resto, o fim da oferta da EOS-1V já estava previsto há muito. Quanto à M7, os adquirentes de Leicas analógicas não precisam dela: são pessoas que desdenham as electrónicas e querem ter controlo total do processo fotográfico. A fotografia analógica não vai morrer por perder estas máquinas.

M. V. M.

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Um pensamento sobre “Obituário

  1. Bom dia!

    A Canon 1V continua à venda? Hum… Esperei durante muitos (mesmo muitos) meses para comprar uma usada que atingisse os valores a que me tinha proposto comprar e nunca vi novas no mercado à venda.

    Obviamente não me sinto nada ofendido pelas suas considerações, mas note que as canon EOS analógicas vêm ocupar um espaço essencial para quem “nasceu” no digital e quer fazer a transição para a película.

    De facto a beleza estética não foi o que me moveu para a compra da mesma. Mas ao recorrer ao modelo analógico mais evoluído da Canon que foi usado por muitos profissionais (não por acaso) beneficio de diversas vantagens:
    – posso dirigir a atenção para a aprendizagem do comportamento da película face à exposição (uma vez que em tudo o resto é muito parecida com as digitais, acrescentando-lhe ainda o modo DEP);
    – uso as minhas lentes EF;
    – a durabilidade;
    – waterproof;
    – etc.

    Cumprimentos
    Guilherme Noronha

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