Eu, a Fórmula 1 e Richard Kelley

Os leitores mais atentos sabem que o M. V. M. nutriu um interesse intenso pelas coisas do desporto automóvel, cujo pináculo é a modalidade denominada Fórmula 1. Este é um interesse inexplicável, porque o meu lado racional é em tudo avesso – ou devia ser – ao automóvel. Se formos a pensar bem, vivemos em cidades que foram concebidas (ou adaptadas) em função do automóvel, e se pensarmos mesmo a fundo, teremos de concluir que o automóvel é causa concorrente dos grandes conflitos dos nossos dias, os quais originam da luta pela posse daquilo que move os automóveis – o petróleo. Além de fomentar a cobiça e a vaidade, entre muitos outros problemas. O automóvel participa, deste modo, no absurdo da existência contemporânea. E a sua contribuição não é despicienda.

E, contudo, não consigo desviar os olhos quando vejo um Alfa Romeo 4C e ouço o som rouco do seu motor. Este gosto por automóveis – que, ao que se diz, é uma característica dos portuenses – levou-me, evidentemente, a ver grandes prémios de Fórmula 1. Este interesse está a esmorecer: este desporto, que era para pessoas conhecedoras que apreciavam a tecnologia e a técnica da condução, tornou-se num espectáculo de massas em tudo igual ao futebol. Não tenho paciência para a forma repugnante como a comunicação social tenta construir e destruir a reputação de pilotos, equipas e mesmo de dirigentes desportivos. Nos websites, os espaços de comentários tornaram-se lugares irrespiráveis onde ninguém no seu perfeito juízo quer permanecer.

Apesar de tudo, trinta e sete anos de atenção não se apagam facilmente. Tal como não desaparece a recordação dos tempos em que tudo era mais romântico – ou, pelo menos, mais romanceado. («Romântico», para quem não sabe, é aquilo em que a sensibilidade prevalece sobre a razão.) Estas evocações do passado vieram assombrar-me quando descobri o website de Richard Kelley, um fotojornalista cuja carreira se estendeu por quarenta e cinco anos. Descobri Kelley e as suas fotografias através de um artigo no The Online Photographer cujo assunto é o piloto François Cevert, que morreu nos treinos para o Grande Prémio dos Estados Unidos de 1973, na pista de Watkins Glen. A fotografia que ilustra o texto é espantosa: Uma característica de Cevert era os seus olhos incrivelmente expressivos, um olhar azul intenso que chegava a perturbar. Esta intensidade está presente na fotografia de Kelley, que a executou no dia em que Cevert morreu.

A curiosidade levou-me a visitar o website. Eu conhecia fotografias de Rainer Schlegelmilch, Bernard Cahier e Mark Sutton – e mesmo as de Martin Parr a que aludi neste texto do Número f/ – mas as de Richard Kelley estão noutro escalão. Fazem todas as outras parecer banais. Não são fotografias dos automóveis em acção na pista, mas de pilotos, engenheiros, chefes de equipa, mecânicos – numa palavra: fotografias de gente. São fotografias perfeitas, quer no conteúdo, quer na forma: vê-se a personalidade dos pilotos e o ambiente do paddock, mas vê-se sobretudo a marca pessoal do fotógrafo. Estas não são fotografias com propósito meramente ilustrativo: são obras originais, são arte. E a execução é brilhante, sublinhada pela atmosfera que só o grão das boas películas confere às fotografias.

O meu conselho: mesmo que não gostem de Fórmula 1, não deixem de visitar o website de Richard Kelley. As fotografias ali publicadas valem por si, não pelo que ilustram.

M. V. M.

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