Da inutilidade dos balanços

O ano de 2017 está a chegar ao fim e nesta altura há quem goste de fazer «balanços». Eu costumava fazê-los até me aperceber que o tempo é um contínuo e as contagens que estabelecemos de pouco importam (a não ser, evidentemente, se temos de cumprir prazos). Mesmo se me apetecesse fazer um balanço deste ano, não teria muita coisa para inscrever nele. Em termos de fotografia, foi um ano em que nada de especial aconteceu. Continuei a desinteressar-me pelo equipamento e a concentrar-me na vertente criativa da fotografia, porque a criatividade é a única coisa que distingue uma boa fotografia da náusea das selfies e das fotografias sem propósito que as pessoas tiram a cada minuto porque sim.

Curiosamente, é muito possível que a minha melhor fotografia do ano tenha sido feita hoje mesmo: estava na Rua de Santa Catarina, apinhada de turistas cretinos e de consumistas carrancudos, quando encontrei uma ilha de sanidade. Perto do Via Catarina, dois rapazes – um de cerca de 18 ou 20 anos, outro de 12 – faziam acrobacias. O rapazinho era – é: suponho que não terá falecido entretanto – de uma elasticidade prodigiosa. É incrível como o corpo humano é flexível quando não permitimos que as rotinas e os vícios o rigidifiquem. Esperei – um dia hei-de escrever sobre o imperativo fotográfico de cultivar a virtude da paciência – esperei, dizia, por um bom momento, o qual apareceu na forma de um número em que o mais pequeno se colocou de pé apoiado na cabeça do mais velho. Espero ter acertado com a exposição, que era especialmente difícil, mas creio que tenho ali uma fotografia interessante. (Eu tenho um interesse especial por questões de flexibilidade porque dediquei muito tempo da minha vida à educação do meu sobrinho A., que foi um ginasta espantoso na sua infância. Treinou com o Manuel Campos e com o Filipe Bezugo – para quem não saiba, estes foram os únicos ginastas portugueses que se qualificaram para os jogos olímpicos – e batia-os em alguns aparelhos, mas um handicap insuperável no cavalo com arções impedia-o de se classificar à frente deles. Mais tarde, uma hérnia discal acabou com as suas possibilidades de competir ao nível que vinha demonstrando. E tive, por inúmeras ocasiões, o prazer de dar aconselhamento ao Acro Clube da Maia. Por estas razões, não admira que a minha atenção se voltasse para aquele pequeno ginasta. De qualquer forma, observá-lo e fazer aquela fotografia foi bem mais agradável do que caminhar em ziguezague para evitar os turistas apatetados e os consumistas trombudos.)

Sem querer entrar em gabarolices ou em inconfidências, posso também dizer que o trabalho de pesquisa a que me dediquei este ano, ao qual aludi em alguns textos, deu frutos. Melhor: vai dar. Alguns dos que me são mais chegados já sabem em que consistem estes frutos, mas não posso, de momento, alongar-me muito sobre o assunto. Fica para mais tarde. Na altura saberão.

E o ano não vai acabar sem que passemos pela sevícia do Natal. Esta é a época mais inautêntica do ano, uma altura em que temos de fingir que somos imensamente generosos e felizes e amigos da humanidade, e em que gastamos todo o nosso dinheiro insensatamente em nome do que não passa de uma festa que nada tem que ver com a sua origem. Que tem o Pai Natal, figura inventada pelos publicitários da Coca-Cola, que ver com Jesus Cristo? A que propósito vem o pinheiro de Natal quando o abeto nem sequer é uma árvore que se dá em território português? Se não fossem as crianças, o Natal seria a época mais deprimente do ano.

Apesar de tudo isto, há sempre motivos para sorrir e ser feliz. Nem que seja por ver pequenos acrobatas. Ou por saber que o estudo e o trabalho de pesquisa não são em vão. Ou por fotografias que correm bem. Por tudo isto – e por tudo o mais que é importante na vida –, vale a pena desejar boas festas a todos. Mesmo aos que dão tanto valor ao Natal como eu.

M. V. M.

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