«Fotografia computacional»

Penso que não há necessidade de dizer muito quanto à qualidade das fotografias que se tiram com telemóveis. Apesar dos esforços de alguns, que nos tentam à força toda convencer do contrário, o que vemos quando nos mostram fotografias tiradas com um telemóvel é invariavelmente medíocre e não resiste a uma visualização em tamanhos superiores ao do ecrã do aparelho. Em tamanhos pequenos, as fotografias até podem parecer boas – se tiverem sido tiradas sob boas condições de luz e a pessoa que a tirou tiver mãos firmes –, mas os artifícios são fáceis de detectar: a redução do ruído esbate os pormenores, as cores são em regra imprecisas e a gama dinâmica é invariavelmente limitada: as altas luzes estouram facilmente e as sombras bloqueiam o pormenor.

E não esqueçamos a ergonomia: a maioria das pessoas já desistiu de fotografar na orientação horizontal, porque é uma perda de tempo segurar o telemóvel nessa posição. E depois há as limitações inevitáveis de uma objectiva de plástico com abertura fixa e distância focal de grande-angular, o que prejudica a perspectiva e a profundidade de campo – e, evidentemente, o sensor minúsculo não ajuda nada.

Claro que os fabricantes sabem tudo isto. Até agora, a qualidade de imagem dos telemóveis mais evoluídos era suficiente para convencer o grande público, que não necessita de grande qualidade para as suas selfies – a prova deste sucesso é o desaparecimento das câmaras compactas de baixo custo –, mas há sempre quem queira mais. Sobretudo entre os amadores de fotografia que adoram gadgets e não perdoam a falta de bokeh e os problemas de perspectiva resultantes do ângulo de visão das objectivas. E que fazem os fabricantes? Tentam resolver as limitações através do software. Criam bokeh artificial, usam algoritmos agressivos de supressão do ruído, nitidez e equilíbrio dos brancos e produzem um efeito parecido com o HDR. Alguns telemóveis usam duas objectivas, uma com distância focal de grande-angular e outra standard. E já se fala num telemóvel com três câmaras, o que, pela forma como foi anunciado, me lembra um célebre sketch do Monty Python’s Flying Circus.

Claro que as fotografias continuam a ter uma qualidade deplorável, mas vistas em tamanhos pequenos até passam por ser espectaculares – para quem gosta do estilo, evidentemente. E, uma vez que nada disto implica uma melhoria da qualidade de imagem – a qual é impossível, atenta a inevitabilidade das limitações impostas pelas dimensões dos aparelhos – os fabricantes mudaram de estratégia: o que estes aparelhinhos produzem são fotografias, mas fotografias que pertencem a uma categoria nova e cheia de promessas: a fotografia computacional.

Ou seja, as fotografias continuam a ser uma bosta, mas agora são uma bosta sofisticada e cheia de conteúdo tecnológico. Uma bosta computacional. Pode ser que as pessoas esqueçam o cheiro, de tão ofuscadas pelas tecnologias avançadíssimas. Quanto a mim, esta coisa da fotografia computacional é um truque de marketing destinado a iludir todos aqueles que se deixam levar pelo último grito da tecnologia. Este é o lado brave new world da questão. Depois há a realidade triste: esta treta da fotografia computacional não é mais que a admissão de que os telemóveis nunca tirarão fotografias com a qualidade de uma DSLR e que tudo a que podem aspirar é a uma percepção de qualidade inteiramente falsa e artificial, porque induzida através de algoritmos. Claro que a Apple, a Huawei e a Google esperam que todos nós fiquemos rendidos a esta nova vaga da fotografia, a esta visão do futuro em que o computador se substitui à pessoa em tudo (qualquer dia usamos uma app para fazer bebés) e faz fotografias melhor do que nós somos capazes com as tecnologias obsoletas e as câmaras monstruosas actualmente existentes. A fotografia computacional está no mesmo patamar de desenvolvimento que a inteligência artificial e a realidade virtual: é o futuro inevitável que está ao virar da esquina.

Francamente, nada disto é necessário. Quem fotografa com telemóveis não precisa de uma enorme qualidade de imagem e sabe que esta só se obtém com uma câmara a sério. Não necessitam de bokeh e HDR e essas tretas todas para nada. Este conceito de fotografia computacional só serve para agradar aos pobres neuróticos que vão para os fóruns do Digital Photography Review queixar-se do tamanho das DSLR e da rusticidade dos visores ópticos. São apenas um punhado, mas um punhado ruidoso e, pelos vistos, influente.

M. V. M.

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