Um pouco de desporto

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Eu sei que não devia. Os textos do Número f/ andam escassos, e ainda por cima desperdiço largura de banda com prosa que nada tem que ver com fotografia, mas vou fazê-lo porque sim. Porque me apetece escrever sobre o que se vai seguir. É bom ser o dono do blogue e não ter de cumprir ordens.

O texto de hoje é sobre desporto. Não, não é sobre futebol, apesar de esta palavra ser sinónima de «desporto» na língua portuguesa. A minha relação com o futebol é muito simples: quando eu era criança, o meu pai tentou fomentar o meu gosto pelo jogo da bola e levou-me por diversas vezes ao estádio em dia de jogos. A atenção que procurava dedicar ao jogo, para tentar entender a lógica do futebol, era desviada para as bancadas, onde adeptos completamente embriagados insultavam e comprometiam a boa reputação do árbitro. Nunca vi qual o apelo de um desporto cujo principal interesse era injuriar o árbitro, pelo que a minha paixão pela rapaqueca morreu antes de ter nascido. Acordou morta, por assim dizer.

Claro que, como sempre gostei de automóveis, nutro um interesse considerável pela Fórmula 1 e pelos ralis, mas infelizmente os adeptos da Fórmula 1 são agora, graças à popularidade de pilotos tão objeccionáveis como Ayrton Senna e Fernando Alonso, de um nível quase tão rasteiro como o dos bêbados que insultam o árbitro nos estádios, o que diminuiu substancialmente a minha vontade de atrasar o almoço de Domingo para ver um grande prémio. (Quanto aos ralis, não vejo nada de interessante em provas nas quais correm carrinhos utilitários como o Ford Fiesta e o Hyundai i20.)

Quando finalmente me resolvi a subscrever um serviço de TV por cabo, as minhas sessões de zapping levaram-me muitas vezes aos torneios de bilhar Snooker que o Eurosport transmite. Há cerca de vinte anos, um amigo um pouco mais velho do que eu inculcou-me o gosto pelo bilhar, mas o bilhar que jogávamos era o mais comum, a que erroneamente chamamos «snooker» mas é, na verdade, o 8-Ball. O Snooker propriamente dito joga-se numa mesa gigantesca, com quinze bolas vermelhas, seis de outras cores – amarela, castanha, verde, azul, rosa e preta – e uma branca. As regras podem ser consultadas aqui.

Só o xadrez é mais cerebral que o Snooker. Além da perícia no controlo da bola branca que lhe é exigida, o jogador tem de definir mentalmente todas as jogadas e antecipar-se às do adversário, tal como o faria num jogo de xadrez. Eu nunca seria um bom jogador de Snooker, porque é um jogo que, quando carece de ser defensivo – e é-o muito frequentemente –, exige enorme paciência, calma e cabeça fria. Além destes requisitos, as regras do Snooker impõem fair play e gentlemanship. Claro que há problemas: o Snooker tornou-se num espectáculo global que envolve muito dinheiro e já houve jogadores suspensos por jogarem deliberadamente para favorecer esquemas de apostas fraudulentas, e houve mesmo um jogador, um dos melhores de sempre, que esteve suspenso só por ter tomado conhecimento de um esquema de fraude e não o ter denunciado, mas nada disto impede que o Snooker seja um desporto espectacular. Evidentemente, a «espectacularidade» depende da predisposição do espectador para ver jogadas demoradas que, por vezes, se resumem a encostar a bola branca numa outra, causando dificuldades ao adversário, mas «snooker» é o nome de uma jogada pela qual o jogador deixa a bola que vai ser jogada pelo adversário fora do alcance da branca «escondendo» esta última.

De que gosto no Snooker? Este jogo é inteligência em acção. Os jogadores desenvolvem rapidez de raciocínio e conhecimentos intuitivos de física e matemática: eles têm de calcular ângulos, forças, velocidades, trajectórias. E têm de ser matreiros, porque o Snooker não é só ensacar bolas: é também fazer snookers – esconder a bola branca de maneira a dificultar as jogadas do adversário. (Curiosamente, o Snooker parece ser um desporto que não requer grande preparação física: alguns jogadores estão para além do limiar da obesidade.)

Há um certo consenso em que o melhor jogador de sempre é Ronnie O’Sullivan, mas há muitas outras predilecções à escolha, dependendo dos gostos de cada um. Se o leitor gosta de um jogador exuberante, nunca poderá apreciar outro que não seja Ronnie «The Rocket» O’Sullivan. Os mais cerebrais apreciarão John Higgins e Mark Selby, e há ainda outros jogadores que, por diferentes razões, encontrarão o seu lugar no coraçãozinho dos adeptos e adeptas: Judd Trump, Mark Williams, Neil Robertson, Luca Brecel, Jack Lisowski e uma hoste de excelentes jogadores chineses de nomes impossíveis de memorizar (lembrei-me de um: Yan Bingtao!), mas o verdadeiro apreciador de bilhar Snooker nunca esquecerá a lenda chamada Stephen Hendry: ver o jovem Hendry jogar era – ele deixou a modalidade em 2012 – de fazer cair o queixo. Que espectáculo extraordinário é, ainda hoje – há inúmeros vídeos no Youtube –, ver o olhar carregado de pura inteligência de Stephen Hendry, e ver aquela velocidade de raciocínio e perfeição na execução. Decerto, a sua juventude e elegância contribuíram em muito para a construção da lenda, mas não tenho dúvidas que Hendry foi o melhor e mais completo de sempre, a despeito da enormíssima qualidade de Ronnie O’Sullivan. Tenho pena que o meu interesse pelo Snooker só tenha nascido numa altura em que Hendry já se reformara.

M. V. M.

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