«Jornalismo civil»

Está bastante difundida a ideia de um «jornalismo civil», que muitos pretendem legitimar sob o pretexto de que complementa o jornalismo tradicional e traz um acréscimo aos conteúdos informativos. É um «jornalismo» também dito «colaborativo», ou «de rua», o que teoricamente implicaria uma multiplicação das fontes de informação. Evidentemente, isto é uma treta. O «jornalismo civil» é uma ideia que legitima o que se escreve nos blogues e nos espaços de comentários, mas é – repito – uma treta. Alguém dizer-se «jornalista civil» é tão ridículo como o Sr. Relvas fazer-se passar por «Dr.». O jornalista é alguém que faz do jornalismo o seu modo de vida e recebeu formação e treino para fazê-lo. O «jornalista civil» é só alguém que por acaso estava num determinado lugar quando algo aconteceu – se é que estava mesmo – e até pode ser capaz de narrar esse facto, mas não saberá nada do que um bom jornalista faz. Falta-lhe o treino de ir procurar fontes noticiosas, falta-lhe a noção do interesse noticioso, falta-lhe tudo o que faz um bom jornalista.

Além de esta ser uma noção perigosa: o «jornalista civil» é por regra alguém devotado a causas e, deste modo, não pode ser objectivo nem isento. A objectividade e a isenção são (ainda) requisitos essenciais do bom jornalismo. Mas há mais: apesar de todos os disparates que ouvimos e lemos na televisão e nos jornais, os «jornalistas civis» contêm em si o potencial para serem muito piores, porque não frequentaram escolas de jornalismo (e alguns podem nem sequer ter completado o ensino secundário). Eu não sei de onde veio esta ideia ridícula de que qualquer cidadão pode ser «jornalista» (este deve ser o meu texto com mais aspas de sempre!), mas essa noção é errada. Não é qualquer um que faz uma intervenção cirúrgica, um leigo nada de decente fará se ocupar o lugar de um advogado num interrogatório ou numa audiência de julgamento, um sujeito com o 9.º ano fará decerto uma péssima figura se comentar transacções bolsistas. As coisas são mesmo assim: certos trabalhos só podem ser exercidos por profissionais habilitados. O «jornalista civil» está no mesmo plano que os taxistas e os barbeiros: só um ignorante fanático lhes dará crédito.

Mais a propósito: esta ideia de «jornalismo civil» também se refere à imagem. Agora qualquer pateta armado de um smartphone faz uma fotografia e envia-a para os jornais e televisões. Muitas vezes não querem nada em troca, o que é sinal de falta de consciência do valor do trabalho e, sobretudo, de vaidade: quantos não o fazem para depois comentar: «viste a minha foto na SIC Notícias?», sem se aperceberem que o dinheiro de que estão a abrir mão é subtraído a um bom fotojornalista e metido ao bolso pelo administrador do jornal e da televisão? Ou seja, não se apercebem que estão a ser explorados e a prejudicar outrem.

Estas fotografias levantam questões éticas importantes e também dúvidas quanto à qualidade deste «jornalismo», mas pode ser útil. A verdade é que há mais civis do que fotojornalistas e estes nem sempre estão no local quando certos eventos acontecem, mas as coisas descambam por completo quando estes «jornalistas civis» apresentam os seus vídeos. Além de o fazerem tal como descrevi quanto às fotografias, consentindo por vaidade em ser exploradose aprejudicar os repórteres de imagem, a qualidade do que apresentam é deplorável. Eu sei que a qualidade é uma questão insignificante quando se trata de algo com a magnitude de reportagens sobre ataques terroristas, mas aqueles vídeos verticais que passam constantemente nos noticiários são execráveis. Não acrescentam nada à reportagem e são visualmente confusos. São como se estivéssemos a ver as coisas através de um postigo, ou da frincha de uma porta ou janela, mas com uma perspectiva pior. Os vídeos verticais são, a meu ver, a melhor demonstração da ausência de qualidade e de pertinência do «jornalismo civil». Não há nada que possamos perceber melhor através deles, porque são confusos e os objectos surgem minúsculos (as lentes dos telemóveis são grande-angulares) e porque o nosso «repórter de imagem civil» não tem o treino nem a coragem de chegar mais perto.

É-me embaraçoso ver imagens verticais em certas notícias da televisão. Estes vídeos amadores (eufemismo interessante) estão a proliferar e a erodir ainda mais a qualidade noticiosa. Eu sei que as estações poupam fortunas ao aceitar esses vídeos de graça, mas onde está a poupança se, depois, fazem reportagens com enviados especiais sobre o estágio de uma equipa de futebol no estrangeiro?

M. V. M.

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