Freak Show

A fotógrafa Naomi Harris propôs-se fazer uma viagem de cem dias pelos Estados Unidos da América, o que coincidiu mais ou menos com os cem dias da presidência de Donald Trump. O resultado, que pode ser analisado mais em pormenor no website da Vice, é muito semelhante – embora menos extremo – ao que Diane Arbus fez. Naomi Harris procurou votantes de Donald Trump e confrontou-os com a sua opção. Nada disto é representativo – as fotografias resultam numa caricatura de alguns eleitores –, mas mostra uma realidade algo perturbadora: muitos dos que votaram em Trump fizeram-no porque não suportavam a ideia de que Hillary Clinton fosse eleita.

Espero que esta escolha do que consideraram um mal menor não tenha sido determinada por razões sexistas, mas tenho a certeza de que muitos dos que fizeram essa opção estão arrependidos de sequer terem acordado no dia 8 de Novembro de 2016. Pelo menos Hillary Clinton saberia o que estaria a fazer, se tivesse sido eleita. Donald Trump é um caso de amadorismo, falta de preparação e de sobreavaliação das suas próprias capacidades, o que se nota na governação errática e francamente disparatada da administração Trump. (O que é pior é existirem dúvidas fundadas acerca da saúde mental de Donald J. Trump: muitos atribuem as suas decisões a perturbações do foro psíquico, o que bem pode ser verdade – especialmente depois do caso «covfefe».)

Eu não sou de fazer pré-juízos sobre outros países. Da última vez que o fiz, sai-me tudo ao contrário. Esperava que Bruxelas fosse uma cidade fria, de gente antipática, e saiu-me uma versão maior e mais civilizada de Lisboa. Não meço os norte-americanos pelos trolls que inundam os espaços de comentários (todos os espaços de comentários, desde websites de fotografia até aos puramente políticos) nem pelas pessoas ilustradas nesta road trip de Naomi Harris. Os Estados Unidos terão os seus cromos, como todos os outros países, mas não são (espero) um gigantesco freak show. Contudo, é exactamente esta a ideia com que fica quem vir esta colecção de fotografias.

Uma coisa, porém, é certa: as pessoas que Naomi Harris fotografou só podiam ter votado em Donald Trump. Neste aspecto são muito emblemáticas. E as fotografias são feitas com um enorme sentido de mordacidade: não há qualquer tentativa para compreender ou desculpar a escolha que estas pessoas fizeram: gente ridícula vota em candidatos ridículos, gente tacanha vota em candidatos tacanhos, gente obtusa vota em candidatos obtusos.

Ver estas fotografias produz em mim o efeito de reflectir acerca da decadência, não dos Estados Unidos, mas de toda a civilização ocidental. O grotesco ostentado orgulhosamente por certas pessoas faz-me pensar se não estará definitivamente perdida a noção de decoro. Como «decoro» não é o termo mais apropriado para definir Donald Trump, as coisas acabam por ganhar uma certa coerência lógica…

M. V. M.

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