Reflexões sobre uma fotografia

Fotografia por Andrea de Franciscis

O meu último texto, sobre as fotografias de Andrea de Franciscis que descobri no Sábado enquanto navegava ociosamente pela internet, suscitou uma reacção que, se não posso de todo considerar inesperada, me parece merecedora de alguma reflexão.

Nesse texto, estabeleci ligações para dois websites que mostravam duas facetas – que não são diferentes, mas complementares – da fotografia de Andrea de Franciscis: uma era para o artigo da Narratively onde foram publicadas as fotografias de menores viciados, a outra para o website do centro nacional de fotografia italiano, que mostra várias fotografias a cores da Índia de tons vibrantes que nos vem imediatamente à memória quando o tema é o país de Nehru e Gandhi.

Porque digo que estas são facetas complementares? Porque ambas são realidades que convivem uma com a outra. Uma delas não pode ser ignorada porque a outra existe. O facto de haver uma Índia esplendorosa não oblitera a miséria social, nem se pode olhar apenas a esta última ignorando a primeira. Contudo, é isto mesmo que a maioria faz: uns preferem ver a vida apenas pelo seu lado brilhante e outros, os cínicos, atêm-se ao lado sombrio da vida.

Pois bem: ao consultar as estatísticas do Número f/, verifiquei que a ligação para a página do Centro Italiano de Fotografia foi aberta mais vezes do que aquela que estabeleci para o artigo da Narratively. A diferença foi de 4 para 1. Devo, deste modo, presumir que os optimistas ultrapassam os pessimistas numa proporção de quatro quintos?

Há um elemento que impede esta análise simplística: quem procura fotografias na internet fá-lo essencialmente para obter prazer visual. O que, por si só, nada tem de mal, mas a fotografia – a boa fotografia, a que eu gosto de divulgar e apreciar aqui no Número f/ – não pode ser só visual. Decerto que há fotografias incómodas: qualquer uma de James Nachtwey, as que W. Eugene Smith fez em Minamata, a de Nick Ut, dos meninos vietnamitas fugindo do napalm, e a do monge imolando-se pelo fogo, de Malcolm Browne, são fotografias que perturbam. Será, contudo, perdoável que as pessoas ignorem por completo estas fotografias – ou o que elas significam – para se contentarem com fotografias belas e alegres, mas frívolas e, em última instância, vazias de sentido?

Eu compreendo se me disserem que, para ver as misérias do mundo, basta ligar a TV num canal noticioso, mas não se exclamarem que não podem fazer nada para mudar as coisas. Devemos fingir que a vida só tem um lado belo e feliz? Tal seria, não apenas frívolo, mas uma omissão criminosa: seria como se fechássemos os olhos e, com isto, nos tornássemos cúmplices.

Reparem um pouco na fotografia que mostrei ontem. Se aqueles meninos, em lugar de estarem a trocar líquido corrector para inalar e de vestirem andrajos, estivessem a jogar futebol ou a fazer qualquer coisa lúdica, seria uma fotografia lindíssima e os miúdos seriam giríssimos e mais não sei quê (é por causa deste tipo de apreciação que Steve McCurry é tão popular). Mas são pequenos marginais, pequenos drogados; desviamos os olhos daquelas caras sujas e tão precocemente viciosas, voltando-os para os saris coloridos e as pétalas esvoaçantes. Ah!, já estamos fartos de ver imagens de miséria, dirão uns. Oh!, se o fotógrafo está tão preocupado, por que não lhes dá comida e abrigo?, perguntarão os que gostam de fazer dos outros parvos.

É triste que seja assim. O que é irónico é que as fotografias que Andrea de Franciscis fez dos pequenos viciados são belíssimas. O sentido de composição é excelente, a iluminação (natural) bem pensada – um dia vou escrever sobre os disparates que as pessoas fazem por negligenciar a iluminação – e são fotografias patéticas – não no sentido que habitualmente se dá a este adjectivo, mas no de criarem uma relação emocional de piedade para com as personagens, de criarem um pathos (quem tem conhecimentos mínimos de literatura sabe a que me refiro).

Se me perguntarem para qual de entre os dois tipos de fotografias me inclino, é para este – mas os saris e as pétalas também fazem parte da vida. O que não podem é ser um trompe l’oeil para disfarçar a realidade.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s