Eu, o esquisitinho

Antes que dê a algum leitor vontade de fazer um comentário invectivando-me por mais um texto fora do tema, deixem-me pedir-vos alguma paciência. Este é um texto solipsista que, aparentemente, nada tem que ver com fotografia, mas por favor leiam além das primeiras duas linhas.

O que não tem que ver com fotografia é o seguinte: hoje predispus-me a responder a um estudo de mercado sobre rádio. Eu gosto de rádio. Ou, pelo menos, pensava que gostava. Até hoje. O inquérito tinha, aparentemente, o propósito de descobrir quais as rádios mais populares e qual o tipo de programação que as pessoas preferem. Ou outra coisa qualquer. Seja como for, começaram-me por fazer perguntas um pouco ridículas sobre como graduava, de 1 a 10, as rádios conforme passassem mais música ou tivessem mais conversas divertidas, ou que importância dava a que passasse música dos anos 80, etc.

Depois vieram perguntas sobre as actuais estrelas da rádio. Foi uma desgraça – não conhecia nenhuma! Só os nomes de Nuno Markl, Ricardo Araújo Pereira e Nilton me soaram familiares (confesso que os dois primeiros têm piada, o Nilton perdeu-a há muito tempo). Os meus sentimentos de alienação e estranheza tornaram-se ainda mais evidentes quando o simpático entrevistador (qualifico-o sem uma ponta de sarcasmo) pôs a tocar clips musicais que seriam demonstrativos de estilos de programação existentes ou futuros. Aparentemente, 98% de quem ouve rádio reparte os seus gostos por axé e sertanejo universitário, pelo género de R ‘n’ B chunga que passa no VH1 e na MTV e por hits requentados dos anos 80. Tive, inclusive, o desprazer de ouvir, ainda que por escassos segundos, Rod Stewart e os Dire Straits!

Eu devo ter sido a pessoa menos representativa de todo o estudo. A minha preferência radiofónica vai para a Vodafone FM, com algumas incursões pela Antena 3 (como me roubaram a antena do carro, torna-se impossível sintonizar a Vodafone FM em algumas zonas da cidade, pelo que mudo para esta sucedânea) e pelos noticiários da TSF. A minha preferência pela Vodafone FM não significa que seja um incondicional, porém: esta rádio é feita de uma maneira muito amadora – mas sem o encanto das rádios piratas – e está demasiado presa a interesses comerciais, como se nota sempre que nos aproximamos da época dos festivais de Verão, com a promoção – aliás óbvia – do Vodafone Paredes de Coura. E as playlists são por vezes repetitivas, porque a Vodafone FM as elabora de acordo com os «gosto» e «não gosto» dos ouvintes. Além disto – ou talvez por causa disto, de tudo isto –, a Vodafone FM não me curou as saudades da XFM e da Voxx.

O grande choque que este inquérito me causou deixou-me mais atordoado que o pobre Sébastien Bourdais: os que, como eu, gostam de música alternativa, ou indie, são uma minoria absolutamente irrelevante – pelo menos para quem efectua este género de estudos de mercado. Aparentemente, só existem a RFM, a Renascença, a Comercial e uma Rádio obscura chamada Smooth FM que passa Frank Sinatra e as canções mais estafadas de Nina Simone. Gente como eu deve ser considerada uma inexistência.

Curiosamente – e aqui chego ao tema deste vosso blogue –, na fotografia também sou assim. Sou parte de uma minoria cujos gostos são minoritários e irrelevantes para o público em geral. Os meus gostos nunca vão para o mais popular, para o mais divulgado. Não faço a mínima ideia (nem me interessa) quem são os fotógrafos que fazem aquelas paisagens maravilhosas que costumam ser «partilhadas» por email em forma de Power Point (em slideshows acompanhados por música de flautas de Pã) e conheço Steve McCurry da mesma forma que posso dizer que «conheço» os Dire Straits e o Rod Stewart. Quantos, dentre os leitores do dpreview.com, estão familiarizados com William Albert Allard e Fred Herzog? Alguns, sem dúvida, mas certamente muito poucos.

Tenho pena de ser assim? Não. Uma vez, um sujeito entendeu que eu era um pedante por ter os meus gostos musicais, e tive muito trabalho para convencê-lo que os meus gostos não eram forçados nem ostensivos: foram os gostos que adquiri ao longo de uma aprendizagem muito influenciada pela rádio (eu ainda sinto alguma comoção quando António Sérgio é evocado) e pelo que os meus amigos ouviam. Aos 16 aprendi a dar mais valor ao som cru dos Clash que às sinfonietas do Rick Wakeman. A partir daí tudo mudou.

Na fotografia passa-se o mesmo, com a importante diferença de que os meus gostos ainda não estão tão filtrados. Ainda sinto um certo frisson quando vejo algumas fotografias de índole, digamos, mais popular. Tenho a consciência plena de que Migrant Mother é hoje um lugar comum na fotografia, mas é a Gioconda da fotografia. Nada a fazer. (Reconhecimento universal coincide muitas vezes com popularidade, embora não sejam bem a mesma coisa.) Mas, tal como na música, sinto muito pouca inclinação para o batido e estafado, para o cliché e o popularucho. Os tipos da Marktest passar-se-iam se tivessem de me entrevistar frequentemente.

M. V. M.

Anúncios

1 thought on “Eu, o esquisitinho”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s