State of the Nation

Começa a tornar-se penoso escrever acerca de fotografia. Que há a dizer sobre este tema? Seguramente, nada de muito interessante. Não posso dizer que a fotografia morreu, porque toda a evidência demonstra o contrário: há cada vez mais fotografias e gente a fotografar.

Por vezes, quando ando nas ruas da minha cidade, sou acometido de uma singular sensação de enfado: caminho com a minha máquina na mão e cruzo-me com multidões que estão a fotografar: mulheres de meia idade com o tronco inclinado para trás e sorriso aparvalhado, apontando o telemóvel ou o tablet (aos quais nunca falta a capinha cor-de-rosa) a coisas que toda a gente já viu e fotografou; jovens com ar de quem não tem nada na cabeça – a não ser um narcisismo as mais das vezes injustificado – a tirar selfies com sorrisos idiotas nos lábios; turistas armados de telemóveis e câmaras bridge a fotografar até à náusea tudo o que vêem à sua frente, como se tivessem obrigação de documentar cada segundo da sua estada no seu destino turístico. E eu, quando me cruzo com todos eles, apercebo-me que estou a fazer exactamente o mesmo, i. e. a fotografar. A questão que instintivamente coloco a mim mesmo nestas ocasiões – que posso eu fazer de diferente? – é de resposta cada vez mais difícil.

E a «fotografia artística»? Infelizmente, a fotografia digital teve um efeito Planeta Agostini: como as câmaras digitais são acessíveis e toda a gente tem uma, o que se ser conjuga com a profusão de websites que dão conselhos gratuitos aos «iniciados», há uma multidão incomensurável de novos Cartier-Bressons (ou pelo menos é assim que eles se imaginam). Tiram uma fotografia a um transeunte, aplicam Nik Silver Efex – sim, porque qualquer fotografia adquire automaticamente estatuto de obra artística se for em preto-e-branco –, publicam-na no facebook, et voilà: agora só falta que o Koudelka lhes telefone a convidá-los para a Magnum. Claro que há sempre o Alec Soth e mais um punhado, mas a única apreciação que recebem destas massas de artistas putativos é as tentativas de imitação. Porque, convenhamos, o que os amadores fazem é copiar os bons fotógrafos e imitarem-se uns aos outros. Ninguém leva a fotografia tão a sério que se imponha a si mesmo padrões de originalidade, pelo que vêem uma determinada fotografia feita num local, acham «giro» e no mesmo dia estão nesse local a fazer fotografias iguais às que acabaram de ver. Porque sim, porque «são só fotografias». Isto é idiótico, mas acontece mesmo com amadores de grande reputação.

E que é feito daquelas fotografias que se fazem como os anúncios da Kodak preceituavam nos anos 70? Estas fotografias não são para mais tarde recordar. Pelo contrário, são ainda mais efémeras que os momentos bons da vida que pretendem ilustrar. As fotografias servem para mostrar no facebook como a nossa vida é gloriosa e alegre (mesmo que estivéssemos a morrer de tédio quando as tiramos). Depois esquecem-se. A única memória na qual perduram é a memória do cartão, mas só enquanto este tem espaço. Depois, quando a memória fica cheia, são apagadas. O conceito de «imprimir» fotografias é hoje universalmente visto como um absurdo. Acabaram os álbuns e as gavetas cheias de fotografias em que mergulhávamos, absortos, a lembrar o passado. Não sei se isto corresponde a uma consciência da falta de valor e irrelevância das fotografias ou a uma alienação delirante que leva a crer que o papel é coisa do passado, mas é seguramente uma delas.

Depois há os tarados do equipamento. Gente que exige que os fabricantes lhes vendam câmaras capazes de valores ISO com sete algarismos e de cem fotogramas por segundo, para fotografarem os seus gatos e os tijolos da parede. Este grupo apenas devia merecer desprezo ou irrisão, mas os fabricantes de equipamentos dão-lhes ouvidos. Adiante, que não vale a pena perder tempo com eles.

Acresce que a imagem está a substituir a expressão oral e escrita. Hoje vê-se grupos de pessoas que estão fisicamente juntas, mas não se falam: tudo o que fazem é mostrar umas às outras as imagens que guardam nos telemóveis. (Isto tem, evidentemente, repercussões na qualidade da expressão oral e escrita que ainda resta, porque muita gente parece estar a desaprender a fala e a escrita, com um vocabulário cada vez mais estreito e cada vez mais erros ortográficos, gramaticais e de sintaxe.) Dez segundos no facebook é quanto basta para perceber a extensão da substituição da realidade por imagens.

Com tudo isto, fotografa-se como se o mundo fosse acabar hoje mesmo. Fotografa-se tudo, a propósito e a despropósito, porque quem o faz convenceu-se que os outros estão profundamente interessados no que estão a ilustrar com essas fotografias. É difícil não sentir saturação pela fotografia: se não suportamos um chato a tagarelar, por que havemos de considerar interessantes as imagens tagareladas que se publicam nas «redes sociais»?

Por tudo isto, espero que compreendam a cada vez mais draconiana escassez de textos no Número f/. Ao contrário dos turistas, dos artistas do facebook e das mulheres patetas que fotografam com tablets, eu entendo que mais vale estar calado se não tenho nada a dizer. Ou a fotografar. Ou a dizer sobre fotografia.

M. V. M.

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