Literatura

Vladimir Nabokov

Sim, eu sei, é puro sadismo. É como oferecer amendoins salgados e tremoços a quem acabou de atravessar o deserto. Deixo os leitores ávidos de prosa fotográfica e, depois de um texto que interrompeu um longo silêncio – o qual deu, por seu turno, continuidade a uma longa sucessão de silêncios apenas fugazmente interrompidos  –, tenho o descaro de dar aos leitores um texto fora do tema. Como se não fosse suficiente o desplante de apresentar um emaranhado complexo de linhas fora do tema, ainda esfrego sal na ferida: o texto é sobre literatura.

Sim, literatura. Eu tenho a convicção – e mantê-la-ei até ao fim dos meus dias – que as boas fotografias são aquelas que mostram o mundo interior do fotógrafo. Se este tiver riqueza de conhecimentos, tal revelar-se-á nas suas fotografias. Não é por acaso que fotógrafos como Cartier-Bresson, Steichen ou Stieglitz eram também intelectuais de craveira e connoisseurs das artes.

Deste modo, rodear-se de boa literatura só pode fazer bem a quem fotografa. Quanto mais não seja, as suas fotografias mostrarão um mundo interior mais rico, texturado e complexo. Não serve, porém, qualquer literatura: se o fotógrafo ler coisas da Sveva Casata Modignani e outros autores de literatura de cordel, o seu mundo interior não expandirá nem um milímetro: as fotografias inspiradas por tais desperdícios de papel e tinta apenas sairão frívolas e tagarelas.

Depois de ter resistido durante muitos anos – por qualquer motivo, adquiri a convicção de que era um livro aborrecido e pesado –, acabei finalmente por iniciar a leitura de Lolita, de Vladimir Nabokov. Comprei-o numa edição que acompanhou o Público há já alguns anos, mas por essa preconcepção estúpida o livro ficou por ler, abandonado ao pó numa estante. Agora que comecei a lê-lo, gostava que ele tivesse oitocentas páginas em lugar das pouco mais de trezentas da edição que tenho em mãos.

Como sabem, sobretudo depois de terem visto a versão cinematográfica de Stanley Kubrick (um dos filmes em que se pode apreciar a verdadeira grandeza desse génio que se chamava Peter Sellers), Lolita é a narração da atracção de um homem maduro (Humbert Humbert) por uma rapariga de doze anos. À primeira vista, tratar-se-ia de um monstro, um pedófilo execrável, e a leitura dos feitos de um depravado deste calibre poderia repugnar o futuro leitor e afastá-lo deste livro – mas, como me esforçarei por mostrar, tal seria um disparate.

Lolita é narrado na primeira pessoa por Humbert Humbert. A narração é auto-depreciativa – Humbert Humbert sabe que a sua inclinação é doentia e que é um pervertido –, mas o estilo é de tal maneira fluído, o humor tão inteligente e o sarcasmo com que Nabokov revestiu Humbert Humbert tão mordaz que a leitura se torna quase compulsiva. Humbert é um homem cultivado e sofisticado e é também um actor: a sua atracção por ninfetas – o próprio Humbert encarrega-se de fornecer uma definição do que estas sejam – é algo que ele tem de esconder a todo o custo, vivendo uma vida de fingimentos e ardis para ocultar a sua sexualidade, e  Nabokov é particularmente brilhante ao traçar a personalidade de Humbert Humbert, que, como todos os que têm algo a esconder, é tímido e desajeitado nas suas aptidões sociais. Nabokov tem ainda a subtileza de, ao fazer o narrador referir-se a ele mesmo na terceira pessoa – o que sucede amiúde ao longo de Lolita –, sugerir um desdobramento patológico da personalidade, embora o texto não se aventure em excesso pelo campo da psiquiatria (o que decerto roubaria fluidez à narrativa).

Lolita não é uma obra moralista, mas não deixa de ser ética. Nabokov não faz nada para justificar ou desculpar o comportamento da personagem principal. Pelo contrário, esta apresenta-se com a consciência de que é um tarado e um dissimulado capaz de conjecturas monstruosas, embora as suas grilhetas morais sejam suficientemente sólidas para o tornar incapaz de concretizar as acções que planeia, como o assassínio da mulher e mãe de Dolores Haze («Lolita» é um diminutivo que apenas Humbert Humbert usa). Humbert tem uma atracção sexual disfuncional, mas ao mesmo tempo é um homem que comunga do sentimento comum em relação a esses crimes. É um predador com plena consciência da gravidade e censurabilidade dos seus actos, mas isto apenas serve para tornar a narrativa ainda mais interessante: a complexidade da personagem e a ambivalência que o leitor sente em relação a ela tornam a leitura de Lolita empolgante.

Há mais. Apesar da não-absolvição moral de Humbert Humbert, Nabokov confronta o leitor com o facto perturbador de Dolores, a despeito dos seus doze anos, não ser inexperiente. Além de ser conhecedora do prazer, é ela quem toma a iniciativa no momento em que a relação carnal que a uniu a Humbert Humbert se consuma. Não que Humbert deixe de ser um pervertido, mas Lolita relata-nos uma devassidão insuspeita – não exactamente pela precocidade, mas pela natureza resolutamente vulgar de Dolores e pela sordidez que rodeou a sua iniciação. Dolores está longe de ser a vítima pura e inocente que poderíamos imaginar, mais parecendo que Nabokov quis confrontar a sociedade com o declínio dos costumes que se esconde por baixo da moral sexual vigente. Com Nabokov não existem ideias de pureza e inocência, as quais são construções artificiais com as quais a humanidade tenta em vão ocultar a carnalidade. Não me surpreende que Lolita tivesse sido recebido como uma afronta à moral em certos meios literários.

O que mais me cola às páginas deste romance absolutamente excepcional, porém, é o estilo, que faz da leitura uma verdadeira delícia para a mente. O estilo é erudito, rico e cuidado – pelo menos tanto quanto é dado a perceber pela francamente boa tradução de Fernanda Pinto Rodrigues –, mas, ao mesmo tempo, solto e embebido naquela auto-ironia a que já me referi.

Pensar que em breve vou acabar de ler Lolita angustia-me. Este é um dos livros mais brilhantes, contundentes, perspicazes que já li – e também um dos mais divertidos. É, seguramente, uma das grandes obras da literatura universal. Não pensem que ter visto as adaptações para cinema (além da de Kubrick, há uma recente, com Jeremy Irons, de 1997) vos isenta de ler Lolita.

M. V. M.

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