Cromos, postais e portfolios

Nos últimos três ou quatro fins-de-semana, o bom tempo que esteve levou-me à praia. Não para apanhar sol ou tomar banho – ainda é cedo para isso –, mas para fotografar. Encontrei um verdadeiro filão numa praia não muito longe de onde moro. Aos fins-de-semana, aquele areal e o passeio que o orla enchem-se de cromos, o que me tem possibilitado fazer fotografias com um tom razoavelmente sarcástico: ver um homem maduro e gordo deitado no muro que delimita a praia, de tronco nu e com as calças do fato de treino arregaçadas, é para mim uma cena irresistível. Tal como ver um sujeito de setenta anos vestido com fato a tocar harmónica e castanholas e a dançar.

Este cenário agrada-me de tal maneira que dou por mim a consultar o website do Instituto Português do Mar e da Atmosfera para saber, com antecedência, se vai estar sol no próximo fim-de-semana. A sério. Isto é, evidentemente, o resultado de estar a fotografar a cores e de ter adquirido familiaridade com os fotógrafos da cor (aos quais devo juntar, além dos habituais sobre quem estou sempre a escrever, os nomes de Martin Parr e Alex Webb). Fotografar a cor deixa-me com um estado de espírito mais leve, menos sério, desobrigado de fazer fotografias brilhantes, ou rigorosas, ou cheias de significado. (Não deixa de ser irónico estar a escrever estas coisas um dia depois de ter recomendado o visionamento do documentário que Wim Wenders fez sobre Sebastião Salgado, cujas fotografias são do mais sério que se pode imaginar.)

Por outro lado, estou a fazer estas fotografias com uma película que, sob sol intenso, dá às fotografias um aspecto resolutamente antiquado, o que não é mau mas por vezes não resulta muito bem, obrigando-me a recorrer à edição mais do que gostaria. Este ar antiquado levou-me a pensar que seria uma boa ideia dar a estas fotografias um título comum, que podia ser «Postais da Praia» ou, melhor ainda, Postcards From the Seaside. Ou qualquer outra coisa, desde que associe as fotografias às cores dos bilhetes postais dos anos 60 e 70. O Agfa Vista 200 dá cores assim.

E, depois de tudo fotografado, ponho-me a pensar se vale realmente a pena fazer uma abordagem metódica a um determinado tema quando se é um mero amador. Um profissional, ou um amador ambicioso, pode e deve organizar portfolios que sejam consistentes, mas quando se trata de amadores como eu, sinto sempre uma sensação dolorosa de inutilidade quando me demoro a explorar um determinado tema, à qual se junta uma ponta de pretensão que pode ser considerada patética. Se não sou um profissional, por que devo agir como se o fosse? É estar a despender energias sem resultados.

Não me parece que os amadores desinteressados se devam deixar influenciar pelos profissionais e pelo que estes fazem. Quanto mais não seja por se poder estar a pisar a linha ténue da imitação ao fazê-lo, mas sobretudo porque é inútil. Ninguém quer saber do portfolio deste amador desinteressado. O facto de se publicar séries de fotografias no facebook ou no Flickr não vai chamar a atenção de nenhum guru da fotografia que vá apadrinhar o nosso trabalho e levar-nos pela mão ao caminho da fama. Pensar que isso pode acontecer é um disparate.

A questão que o amador deve colocar é, antes de mais, o que quer da sua fotografia. Quer tornar-se num profissional, ter fama e ser reconhecido? Tudo bem, mas primeiro tem de fazer uma pergunta a si mesmo, à qual deve responder com a maior honestidade e sinceridade possível, esquecendo as opiniões sempre favoráveis dos que lhe são chegados e os likes nas redes sociais. Essa pergunta é – serei suficientemente bom? Esta qualidade é algo que se adquire com muito trabalho. Não basta ter um «olhar» (expressão nauseabunda que me causa vómitos) e muito menos importa o equipamento e a técnica.

Organizar portfolios é bom, mas só se a resposta àquela pergunta for positiva e se quiser mostrá-los a quem conta. Aliás, é assim que a Magnum recruta os seus cooperadores. Fora este caminho para a profissionalização, é bem melhor e mais divertido ter uma abordagem descontraída da fotografia, capturando momentos sem grandes considerações de consistência e coerência. Convém nunca esquecer que, para um amador, a fotografia é um divertimento e é também uma terapia, ou um escape. Não devemos sobrecarregá-la com preocupações escusadas, nem transformá-la no que Lloyd Cole genialmente chamou um carnaval de seriedade.

M. V. M.

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